Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 18 de agosto de 2023

A DIFÍCIL CONVIVÊNCIA HUMANA (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

A DIFÍCIL CONVIVÊNCIA HUMANA

Violante Pimentel

Nascida em 5 de maio de 1917, em uma família pobre da cidade de Rio Claro (SP) Dalva de Oliveira era filha de um carpinteiro mulato chamado Mário de Paula Oliveira, conhecido como Mário Carioca, e da portuguesa Alice do Espírito Santo Oliveira.

Em 1935, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, em busca de uma vida melhor. Passou a frequentar o Cine Pátria, onde conheceu seu grande amor Herivelto Martins e passou a cantar em dueto com ele. Iniciaram um namoro e, um ano depois, alugaram uma casa e foram morar juntos. Dalva era solteira e Herivelto Martins ainda estava casado no civil com outra mulher. A união dos dois só se consolidou oficialmente em 1937, quando saiu o desquite dele. Eles se casaram somente no civil, pois ainda não havia divórcio no Brasil. O casamento foi comemorado em um ritual de Umbanda, na praia, já que esta era a religião de Herivelto, embora Dalva fosse católica.

A união gerou dois filhos: Os cantores Peri Oliveira Martins, o Pery Ribeiro, e Ubiratan Oliveira Martins. Em 1947, as constantes brigas, traições e crises violentas de ciúme e humilhações por parte de Herivelto, fizeram com que o casamento fosse por água abaixo.

Muito ciumento, injúrias e difamações contra Dalva, foram publicadas por Herivelto, no “Diário da Noite.”

Por ser cantora, sempre era discriminada e apontada como dona de uma moral duvidosa. Estes escândalos forjados fizeram com que ela perdesse a guarda dos filhos, maldade postulada por Herivelto Martins. O Conselho Tutelar determinou que as crianças fossem internadas em uma instituição, sob a alegação de que a mãe não tinha condições morais de conviver com os filhos. Isso fez com que ela entrasse em desespero e depressão, aumentando as brigas entre o casal. Os meninos só poderiam visitar os pais nos finais de semana e datas festivas, e só poderiam sair do Internato, definitivamente, com dezoito anos. Dalva lutou muito pela guarda dos filhos, mas não conseguiu e sofreu bastante com isso.

Em 1949, o casal oficializou a separação, se desquitando, já que ainda não havia divórcio no Brasil.

Depois da separação oficial do casal e o fim da primeira formação do Trio de Ouro, Herivelto e Dalva iniciaram uma discussão, inclusive através das composições que gravavam, fato muito explorado pelos jornais e revistas da época. Depois de uma pequena turnê na Venezuela, Herivelto saiu de casa, e tirou de Dalva a guarda dos filhos, e os mandou para um internato. Passou a publicar em todos os jornais que Dalva era prostituta e que promovia orgias dentro de casa, o que resultou nas mencionadas agressões mútuas através de músicas que iam sendo gravadas.

Em 1946, Herivelto passou a namorar a aeromoça Lurdes Nura Torelly, uma mulher desquitada, que tinha um filho do primeiro casamento. Ela vinha de uma família rica, sendo prima do conhecido comediante de alcunha Barão de Itararé. Em 1952, o casal passou a viver junto, tendo oficializado a união em 1978. Herivelto e Lurdes geraram três filhos: Fernando José (já falecido), Yaçanã Martins e Herivelto Filho, além dele criar o filho de Lurdes como seu. O casamento durou 38 anos, até a morte de Lurdes, em 1990.

Em 1950, Dalva de Oliveira retomou a carreira solo, lançando os sambas Tudo acabado (J. Piedade / Osvaldo Martins) e Olhos verdes (Vicente Paiva), e o samba-canção Ave Maria (Vicente Paiva / Jaime Redondo), sendo os dois últimos, grandes sucessos da cantora.

Em 1952, depois de se consagrar mais uma vez na música mundial e ter sido eleita “Rainha do Rádio” de 1951, Dalva de Oliveira resolveu excursionar pela Argentina, para conhecer o país e cantar em Buenos Aires. Nessa ocasião, conheceu Tito Climent, que se tornou primeiro seu amigo, depois seu empresário e mais tarde, seu segundo marido. Então, Dalva se mudou para Buenos Aires, indo morar na casa de Tito, antes da união oficial. Dalva não queria mais ter filhos por conta de sua carreira, que tomava muito seu tempo, mas sempre quis ter uma menina. Por isto, adotou uma criança em um orfanato de Buenos Aires, a quem batizou de Dalva Lúcia Oliveira Climent. Dalva e Tito, após dois anos morando juntos, casaram-se oficialmente em um cartório na Argentina, e viveram juntos por alguns anos. No começo, a união era muito feliz, e criavam a filha com muito amor.

Depois de mais de quatro anos de casamento, o casal passou a viver brigando, também por conta da carreira de Dalva, que vivia viajando, e de seus filhos, a quem constantemente ela visitava no Brasil. Isso desagradava o marido, que queria que ela esquecesse sua carreira e seu passado no Brasil, e vivesse exclusivamente para ele e a filha, mas ela não acatou essa imposição.

Dalva era uma mulher simples e querida por todos. Fazia amizade com facilidade, e o marido não gostava dessa popularidade. Por ele, ela seria mais chique e requintada, sempre em cima dos saltos. Essa grande diferença de temperamentos, resultou em brigas e humilhações dele para ela, e o amor que os unia se diluiu no tempo e no espaço. O casal se separou e Dalva voltou para o Rio de Janeiro com a filha. Meses depois, Tito entrou na justiça, pedindo a guarda da menina, e ela voltou com a filha para Buenos Aires, onde entrou com um processo contra o marido. Para acompanhar o processo até o fim, Dalva de Oliveira deixou sua carreira no Brasil e passou a morar com a filha em Buenos Aires, até a decretação da sentença do Juiz.

Dalva e Tito passaram a brigar muito pela guarda da criança, com brigas verbais e mútuas acusações, mas Tito acabou usando as mesmas provas que Herivelto utilizou: As notícias mentirosas em jornais a respeito da moral duvidosa da cantora. Muito triste e infeliz, Dalva, perdeu a guarda de sua filha e voltou sozinha para o Brasil.

Ela retomou sua carreira, fazendo mais sucesso do que nunca. Em 1963, já há alguns anos separada, a separação oficial finalmente foi deferida pelo juiz, já que casamento entre estrangeiros, na época, demorava muito a ser transformado em divórcio.

Dalva de Oliveira voltou a Buenos Aires para assinar os papéis e se divorciou de Tito, voltando logo em seguida para o Brasil. Seus pequenos momentos de felicidade ocorriam quando seus três filhos a visitavam nas férias escolares de Janeiro. Iam visitar a mãe no Rio de Janeiro, e passavam um mês com Dalva, em sua mansão. A cantora cancelava todos os shows do mês para ficar com eles. Seu desejo era poder viver com os três, sempre juntos, um sonho que não pôde realizar. Os anos se passaram. Dalva vivia sozinha em sua mansão, e já havia se acostumado com a solidão.

Para compensar a tristeza, passou a ter relacionamentos sem compromisso, e namoros rápidos, sem pretensão de casar novamente. Também não tinha tempo de dedicar-se a um relacionamento, pois viajava o mundo em turnês musicais. Estava concentrada em sua carreira e fazendo mais sucesso ainda, quando, sem estar à procura, ela conheceu Manuel Nuno Carpinteiro, um homem vinte anos mais jovem, por quem se apaixonou perdidamente, e com quem redescobriu o amor. Com poucos meses de namoro, ele foi morar na sua casa. Com alguns anos juntos, se casaram oficialmente. Este foi o seu terceiro e último marido. Ao assumir o namoro, foi alvo de muitos preconceitos, mas preferiu fazer o que seu coração pedia.

Em 19 de agosto de 1965, Dalva e Manuel, na época ainda namorados, sofreram um grave acidente de carro. Ele dirigia o veículo embriagado, e acredita-se que haviam discutido por causa de ciúme. Manuel perdeu o controle, atropelando e matando quatro pessoas. Dalva ficou em coma durante alguns dias, teve afundamento no maxilar esquerdo, bacia fraturada e ficou com uma marca na bochecha que, apesar de vários procedimentos cirúrgicos, não foi possível a recuperação total. Ao saber que Dalva estava bem e fora de perigo, Manuel assumiu a culpa pelo acidente, pois na verdade era ele que estava dirigindo. Dalva se desesperou ao saber que haviam morrido quatro pessoas, e que ela teria que pagar as indenizações aos familiares das vítimas. Isso contribuiu para o seu prejuízo patrimonial.

Dalva de Oliveira morreu em 30 de agosto de 1972, na casa de saúde Arnaldo de Morais em Copacabana, na presença de seus filhos, Pery Ribeiro, Bily e Gigi, vítima de uma hemorragia interna, causada por um câncer de esôfago. Seu corpo está enterrado no Cemitério Jardim da Saudade, na Cidade do Rio de Janeiro.

 

Herivelto Martins & Pery Ribeiro – Ave Maria no Morro

 

 

Que Será – Dalva de oliveira

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 11 de agosto de 2023

BOI DE PIRANHA (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

BOI DE PIRANHA

Violante Pimentel

O império dos cornos é o paraíso dos homens ricos, poderosos e “fuderosos” (com a devida vênia). Quanto mais dinheiro eles tem, mais se interessam por mulheres burras, mas belas, cujos filhos “são políticos ou tarados” (viva Juca Chaves!).

Insinuantes e de beleza chocante, mesmo à base de silicone, botox, ou bisturi, a beleza marmórea das mulheres “plastificadas”, para certos homens, compensa o custo-benefício.

O avanço da cirurgia plástica faz da estética do corpo um milagre. É uma pena que, para melhorar a beleza da alma e do caráter, não exista plástica, cadeia ou escola rígida que dê jeito. Ladrão nasce, cresce e morre sendo ladrão.

O mau-caratismo é uma doença crônica, que se manifesta logo cedo. Não tem cura. E fascina aqueles que recebem as migalhas do poder.

Há aqueles que metem a mão na massa, se locupletam com o dinheiro público e se dão bem. Outros não tem a mesma sorte. Passam a vida bajulando os peixões, e, como sardinhas, pagam o pato, na hora “h”, por tudo de mal feito que os grandes praticam. Só recebem as migalhas e a fama de maus.

Os mais fracos são usados como “boi de piranha”, nas roubalheiras e falcatruas praticadas pelos poderosos.

Ver as sardinhas pagarem o pato pela desonestidade dos tubarões, é revoltante. São atos criminosos, que adoecem as pessoas providas de sentimento humano.

Pois bem. Completando a salada, juntei “alhos com bugalhos”, só pra contrariar os que se consideram “certinhos”.

Somente os iguais aceitam a maldade que está sendo praticada nas imorais CPIs, mostradas na mídia.

Enquanto os grandes se banqueteiam com lagosta e caviar, regados a vinhos caríssimos, gargalhando, como se estivessem assistindo ao desenrolar da comédia humana, os peixes miúdos são humilhados, tendo a saúde e a família abaladas

Os “Andersons” da vida representam o boi de piranha da expressão popular brasileira. Os inocentes pagam pelos pecadores, que assistem de camarote à comédia humana.

“Boi de piranha” é uma expressão popular brasileira, usada para se referir a um indivíduo que é escolhido para levar a culpa pelo erro de um grupo todo, envolvido em tramoia. É usada quando alguém leva sozinho a culpa de um infortúnio.”

Alguém é sempre o “boi de piranha”, quando há uma situação de conflito no alto escalão da política do nosso País.

Segundo o professor Ari Riboldi, “o boi de piranha é aquele que se submete ou é submetido a um sacrifício, para livrar outra pessoa de uma dificuldade ou da culpa”.

No seu livro O Bode Expiatório, o professor conta que a expressão surgiu da antiga necessidade de atravessar o gado em rio com piranhas. O boiadeiro deveria escolher um animal velho ou mais fraco, feri-lo e colocá-lo na água em local acima ou abaixo do ponto de travessia. O sangue atraía as piranhas, que, rapidamente, devoravam o boi que sangrava.

Enquanto as piranhas devoravam o boi escolhido, os demais passavam pelo rio e seguiam a caminhada sem dificuldade e com êxito total.

É o que o Brasil está assistindo agora, estarrecido, na desastrosa CPI, que a mídia tem mostrado. Uma vergonhosa desumanidade.

Os corifeus do mal estão provocando choques anafiláticos no organismo social do nosso país.

Falta ao sistema político atual a moral social, que norteava os antigos governantes como Getúlio Dorneles Vargas e Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil de 1951 a 1956, e responsável pela construção da nova capital, Brasília – DF.

O boi de piranha sempre existiu, inclusive na política brasileira.

Caixinha, Obrigado – Juca Chaves – Gravação de 1960

 

 

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 05 de agosto de 2023

OS CORVOS (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

OS CORVOS

Violante Pimentel

Ave da família dos corvídeos, o corvo é caracterizado pela sua plumagem preta e é encontrado em quase todos os continentes. Popularmente, o corvo é interpretado como o sinal místico de mau presságio, do agouro e do azar.

No entanto, também pode simbolizar algumas características positivas, como a sabedoria, a astúcia e a fertilidade, na literatura e demais artes, principalmente como tema central de histórias fantásticas e de terror.

 

 

O escritor estadunidense Edgar Allan Poe se imortalizou através do poema se sua autoria, O Corvo, (The Raven, no original em inglês), e se popularizou como um dos autores mais icônicos do romantismo sombrio.

Os corvos tem as seguintes peculiaridades, que os tornam animais misteriosos e macabros:

São necrófagos (comem cadáveres); imitam o tom de voz de alguns animais incluindo os humanos; são predominantemente pretos, a cor atribuída tradicionalmente às trevas e ao que é obscuro e maligno.

Apesar da conotação negativa atribuída ao corvo na maioria das culturas ocidentais, diversas mitologias antigas tinham esta ave como um símbolo de proteção, regeneração e de mensageiro de boas energias.

Devido ao seu tamanho, sociabilidade e suas habilidades defensivas, o corvo comum tem poucos predadores naturais. Predadores de seus ovos incluem corujas, martas e outros corvos.

Pois bem.- Contam os alfarrábios milenares, através de uma fábula, que, em uma determinada época, os homens, cansados das agruras da guerra e dos horrores da caserna, resolveram fazer um pacto de paz.

Não haveria mais guerras, e eles passariam a viver o reino da paz, com a política da boa vizinhança. Haveria controle sobre as ambições humanas, e todos seriam felizes.

A ideia mereceu os mais fortes aplausos do Olimpo e de todos os lugares.

Mas, como tudo na vida tem um “mas”, surgiu um protesto violento, e uma dissidência inesperada, naquela frente única de civismo e humanidade.

Os responsáveis pelo protesto eram os corvos, que ficaram indignados, ao saberem desse absurdo pacto de paz entre os humanos.

Houve inúmeros discursos de protesto, pois os corvos eram excelentes parlamentares. Fizeram narrativas, sustentando que o sentimento da guerra era inato ao homem, e que

ninguém mais do que eles, os corvos, entendiam desse assunto. Somente eles conheciam a delícia da guerra, coisa que fazia parte da natureza humana.

Gritavam indignados, que a paz levaria o homem à ociosidade, mãe de todos os vícios.

Diziam os corvos em seus discursos acirrados, que as vicissitudes das guerras fazem o homem forte, corajoso, apto para o trabalho e para a luta. Sem as guerras, o homem não poderia defender a Pátria ultrajada, nem poderia vingar a honra nacional conspurcada pelos inimigos. Deixaria de existir o mais belo sentimento do homem: o Amor à Pátria.

Esses eram os argumentos dos corvos, para defender as guerras.

E as narrativas dos corvos venceram. As guerras continuaram campeando.

O patriotismo dos corvos, entretanto, estava intrinsecamente ligado ao estômago. Quanto mais guerras, mais compensações eles teriam. Com as guerras, a cadeia alimentar dos corvos estaria garantida.

Os corvos fizeram a defesa das guerras, não por sentimento de patriotismo, mas por amor ao estômago, se é que corvo tem estômago.

Para os corvos, o tempo da guerra é o tempo das vacas gordas: é quando eles tem muito com que encher o papo.

Os cadáveres dos soldados insepultos oferecem aos corvos ricos banquetes.

Nos dias atuais, não falta quem, como os corvos, aferre-se com unhas e dentes, na defesa de uma ideia, falando em nome do patriotismo, da civilização e do civismo, quando,

na realidade, as causas que movem esse ardor quixotesco são interesses secundários: a maldita fome do “ouro” e a insaciável ambição das riquezas, que leva, muitas vezes o ser humano a cometer crimes.

Estamos vivendo a era dos corvos, e do seu verdadeiro “patriotismo”.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 28 de julho de 2023

AMOR MATERNO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

AMOR MATERNO

Violante Pimentel

Soneto do tempo do Ronca, encontrei “Amor Materno”, da autoria do poeta pernambucano Cyridião Durval (03.03.1860 – 17.10.1895), num caderno de poesias, escrito com a letra da minha saudosa mãe.

Com certeza, esse soneto, anos depois, deve ter servido de inspiração ao compositor e cantor Antônio Vicente Filipe Celestino (Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1894 – São Paulo, 23 de agosto de 1968 ), ao compor a canção “Coração Materno”.

AMOR MATERNO (Cyridião Durval – 03/Mar/1860 – 17/Out/1895)

Isaura, a mais cruel de todas as perdidas,
Entre os braços de Fausto, o mísero rapaz,
Disse um dia a sorrir: — “quem ama tudo faz,
Exijo deste amor as provas decididas.”

Pede tudo, mulher, se queres destruídas
As dúvidas que tens: ordena e então verás
Se tenho amor ou não; de tudo sou capaz,
Por ti arrancarei milhões, milhões de vidas!…

E a Dalila, soltando estridula risada,
Disse a Fausto: — “pois bem, se tu não temes nada,
Quero de tua mãe tragar o coração.

E o louco o foi buscar… De volta, no caminho
Tropeçou e caiu… disseram-lhe baixinho:
“Magoaste-te, meu filho?… Aceita o perdão.”

Cyridião Durval nasceu no dia 3 de março de 1860 em Tatuamanha, então distrito de Porto de Pedras, Alagoas. Filho de Rogério José de Santana e Teotônia Durval de Santana, teve os seguintes irmãos: Hermillo Durval, Manoel Durval, Fernandina Durval e Maria Durval Moreira, esposa de Manoel Moreira e Silva. Sua avó materna era Maria do Carmo Durval.

Foi na bela e aprazível Tatuamunha que aprendeu as primeiras letras com a ajuda de um professor público. Percebendo que o filho tinha gosto pelo estudo, seus pais o internaram em Recife, no Colégio Santo Amaro.

Depois foi transferido para o Ginásio Provincial, onde terminou o curso de humanidades em 1881 e diplomou-se em Direito pela Faculdade de Recife em 1885. Teve como colegas Martins Júnior, Clóvis Bevilacqua, Arthur Orlando, Porto Carneiro, Phaelante da Camara e outros.

Cyridião Durval faleceu no dia 17 de agosto de 1895, com apenas 35 anos de idade.

Por sua vez, Antônio Vicente Filipe Celestino, conhecido como Vicente Celestino (Rio de janeiro, 12 de setembro de 1894 – São Paulo 23 de agosto de 1968) foi um famoso compositor e cantor brasileiro, filho de imigrantes italianos, autor de inúmeras canções, entre as quais, “Coração Materno”, que, segundo ele, baseava-se numa lenda que teria mais de cinco séculos.

O tema do soneto “Amor Materno” (Cyridião Durval) e da canção Coração Materno (Vicente Celestino) é o mesmo. Ambos falam de um nefasto matricídio.

A gravação original de “Coração Materno” ocorreu na gravadora Victor, em 18 de março de 1937. Segundo os estudiosos do assunto, essa música, na época em que foi lançada, fez um sucesso estrondoso no rádio brasileiro.

Em 1951, Vicente Celestino e sua esposa Gilda Abreu lançaram o filme “Coração Materno”, estrelado por eles mesmos, e baseado na famosa música. O sucesso do filme foi bem menor do que o da canção.

Os antigos circos que percorriam o interior nordestino, com espetáculo de palco e picadeiro, cuja 2ª parte era uma encenação de uma peça de teatro, levavam a plateia às lágrimas, ao encenar a peça “Coração Materno”.

A música “Coração Materno”, de Vicente Celestino, sempre foi respeitada, até que surgiu no Brasil, o movimento musical Tropicália, comandado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros, que destruíram e ridicularizaram composições antigas de respeitáveis compositores, tentando reinventar a música brasileira.

Era a época da Tropicália, movimento de protesto, deflagrado pelos artistas da MPB, contra a situação política do País.

As músicas de protesto e o deboche imperavam entre os compositores de vanguarda. Revolta, censura, prisão, perseguição aos artistas de esquerda, tudo concorria para que os compositores e cantores revoltados com a censura se opusessem a tudo que prezasse pela ordem e costumes.

O cantor e compositor Caetano Veloso, na época com 26 anos, vindo do interior da Bahia, gravou “Coração Materno”, de Vicente Celestino”, num deboche gritante, segunda música do disco coletivo-manifesto Tropicália ou Panis et circencis, que pode ser visto como sua primeira grande performance vocal. Apesar de compor canções inteligentes e ter uma voz agradável, o artista, com sua veia irônica e visivelmente debochada, simulou uma homenagem ao respeitável cantor e compositor Vicente Celestino, que se sentiu humilhado ao assistir ao ensaio geral do show da Tropicália, onde se encenava uma cena bíblica com Gilberto Gil representando Jesus Cristo e a multiplicação dos pães feita com bananas.

Caetano Veloso gravou “Coração Materno”, em tom satírico, com barulho exagerado de baterias, guitarras e distorções, inserindo essa canção no álbum manifesto do movimento Tropicália. E prepararam um espetáculo tropicalista, dirigido por José Celso Martinez Correa, com vistas a se tornar um programa de TV.

Convidado pelos tropicalistas, para participar do show, Vicente Celestino foi antes assistir ao ensaio geral e ficou indignado: “Um Cristo negro eu ainda admito, mas bananas no lugar dos pães já é um desrespeito”. O Cristo era Gilberto Gil.

Contrariado, Vicente Celestino voltou ao seu hotel em São Paulo e neste mesmo dia, coincidência ou não, faleceu, de um ataque cardíaco.

Caetano afirma em suas memórias ter ouvido a canção na infância e gostado muito, no que conheceu e sofreu o “patrulhamento do gosto”.

Questionado sobre a origem de sua inspiração, em sua biografia, O hóspede das tempestades, Vicente Celestino afirmou ter escrito a letra a partir de uma lenda medieval. Mas as palavras, os detalhes, a narrativa e os estados latentes, no entanto, são seus e não uma mera adaptação.

Resgatada pelos tropicalistas, a canção adquiriu força potencial e anárquica, e, literalmente, matou o autor.

O desrespeito a Vicente Celestino foi gritante. Mesmo um ouvinte que houvesse adquirido o álbum em 1968, ocasião do seu lançamento, vendo no encarte a previsão de uma versão de “Coração Materno”, mesmo conhecendo os tropicalistas, não esperava o exagerado barulho com baterias e guitarras, e distorções absolutas de melodia, num verdadeiro achincalhamento, ultrapassando o limite da paciência de um ouvinte tradicional.

Mas, Caetano explicou a sua versão de “Coração Materno” como sendo totalmente tropicalista. A execução da canção, ele considerou tecnicamente impecável. “A contravenção do arranjo de cordas mencionada se deve a sutis humores esquizofrênicos que atravessam a orquestração e que na original inexistem – pelo caráter adulatório, típico dos arranjos comerciais, adotado por esta.”

De acordo com a crítica, o canto de Vicente Celestino é másculo, heroico, voz de tenor, arrebatado em expressividade, mostrando o sotaque rústico do europeu abrasileirado. Já o canto de Caetano é, sobretudo, andrógino, macio e pausado. Traz a dicção que conhecemos como urbana ou “correta”, pronunciando as palavras com lentidão, exatidão e contenção.

A pseudo-apropriação tropicalista destruiu a música de Vicente Celestino e feriu sua autoestima.

Vicente Celestino, em fato bruto e sintomático, falece em agosto de 1968, aos 74 anos, no exato dia em que faria uma apresentação com os tropicalistas.

 

 

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 21 de julho de 2023

CUSTO-BENEFÍCIO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLNISTA DO ALMANAQUE RAIMUDO FLORIANO)

 

Violante Pimentel

Zé de Rosa não era de reclamar. Era muito econômico e vivia dentro das “quatro linhas” do dinheiro do seu salário de ferroviário. Família grande, com esposa e cinco filhos, aguardava com ansiedade o décimo terceiro.

 

 

 

Quando saía o pagamento, esse dinheiro já tinha destino certo. Junto com a esposa Elza, os dois compravam calçados novos, para eles e os filhos, e cortes de tecidos para que ela, que era costureira, confeccionasse as roupas que eles vestiriam nas festas de natal e final de ano.

Do dinheiro do décimo-terceiro, não sobrava um “tostão”. Além de calçados e tecidos, Zé ainda gastava com presentinhos de Natal, que costumava dar a alguns familiares.

Não tinha para onde correr. Terminava o final de ano “liso, leso e louco”.

Fazia tudo para não dever a banco. Conseguia esse propósito, com muito sacrifício, até o final de novembro.

Quando entrava dezembro, tudo se desmantelava novamente, por causa das “despesas natalinas”, que desequilibravam suas poucas finanças.

Zé de Rosa era mais um pobre brasileiro “da Silva”, assalariado, que via tocha todo final de ano. Só entrava o ano novo devendo muito. Já estava ficando careca e não conseguia se aprumar.

A luta contra o consumismo, o delírio provocado pelas propagandas da televisão, e a tentação do pagamento em “parcelinhas”, oferecidas pelo cartão de crédito, que se arrastaria durante todos os meses do ano seguinte, levavam Zé de Rosa a um dilema: “Dever ou não dever.” E a roda-viva, de compras de final de ano, levava Zé de Rosa à depressão.

Mal entrava o novo ano, vinham as obrigações com IPTU, matrícula dos filhos em colégios, e material escolar.

Desesperado, no ano que passou, resolveu fazer uma lista de compras prioritárias, para as crianças pobres da sua própria casa: seus filhos.

Se continuasse dando “festas” à família toda, como costumava fazer, mesmo tendo recebido o décimo- terceiro, seria obrigado a contrair dívidas para pagar em parcelinhas.

Resolveu encarar a esposa e abrir o jogo. Teriam de conter os gastos. Afinal, eles tinham cinco filhos para sustentar. Aliás, esta cena acontecia todos os anos, religiosamente.

Ao entrar o novo ano, Zé de Rosa sempre “caía na real”. Observava que o custo-benefício dessas festas de final de ano não compensava. Materialmente, só tinha prejuízo. Como ele aniversariava uma semana depois do Natal, nessa noite, todos se justificavam, dizendo que só lhe dariam a lembrança de Natal no seu aniversário.

Lógico que o mais importante não era a troca de presentes e sim o calor humano, que toma conta das pessoas na mágica Noite de Natal. Mas ele não podia mais “abarcar o mundo com as mãos”. A situação financeira dele estava “russa”. E, mais uma vez, entregou os pontos.

Como sempre acontecia, tentou convencer a família de todos passarem as festas de fim de ano numa praia. E os costumeiros presentes passariam a ser distribuídos somente nos respectivos aniversários.

A ideia não foi aceita. Todos protestaram, indignados, e terminou havendo a reunião do Natal em sua casa, do mesmo jeito. E a harmonia da família reunida, como sempre acontecia, compensou qualquer preocupação com parcelinhas.

Daí, vale a pena rememorar o antigo ditado:

“Mais vale um gosto, do que cem mil réis.”


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 14 de julho de 2023

TEMPOS MODERNOS (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMNDO FLORIANO)

 

TEMPOS MODERNOS

Violante Pimentel

Jesus e a mulher adúltera

 

Os tempos mudaram e a modernidade impera em todos os segmentos da sociedade: Político, religioso, social e familiar.

Mudaram, a começar pela liberdade que hoje a mulher desfruta, de poder estudar, votar, trabalhar e ser gente, sem ser mais qualificada profissionalmente como “do lar” ou “de prendas domésticas.” Essa qualificação significava que a mulher era a “administradora” da casa e da família, uma subalterna, que dependia do marido ou do pai, para comer, vestir e, finalmente, para viver. Não tocava no dinheiro deles.

Em Nova-Cruz (RN), pequena cidade do interior nordestino, onde nasci e me criei, estudei no Colégio Nossa Senhora do Carmo, da ordem Franciscana, onde se fazia uma oração antes de começarem as aulas, e se rezava o terço, diariamente, no mês de maio. O Colégio também ensinava civilidade, e o Hino Nacional era cantado todas as sextas- feiras, por freiras e alunos, havendo o hasteamento da Bandeira.

O colégio exigia farda completa e limpa, e sapato colegial preto, com meias brancas.

Só oferecia até o Curso Ginasial. Quem quisesse continuar os estudos teria que estudar na capital, o que nem todas as famílias podiam, financeiramente, oferecer aos filhos.

A mulher, nos tempos modernos, também é eleitora e pode participar do processo eleitoral como candidata, chegando até aos mais altos escalões do serviço público. Ela já chegou à presidência da República e aos ministérios, sem se privar de ser companheira do homem nem da convivência com os filhos, e sem abrir mão do sublime direito de ser mãe.

Hoje, a mulher estuda, se forma, trabalha no serviço público ou privado, faz mestrado e doutorado e outros cursos, dentro ou fora do País, se assim quiser e puder.

A mulher pode estar hoje onde ela bem quiser e fizer por merecer.

Casa e se separa se quiser, sem ser hostilizada ou discriminada, como décadas atrás acontecia. Se bem que o respeito entre o casal é condição “sine qua non”, para que as uniões sejam preservadas.

Desde o tempo de Cristo, a mulher sempre foi uma sofredora.

Ainda bem que a figura bíblica da adúltera não existe mais. Não é mais condenada à morte, em caso de adultério, por apedrejamento, como nos primórdios.

E foi o próprio Cristo que absolveu a mulher adúltera. Essa figura, bíblica ou profana, hoje não existe mais. Quem for justo, que atire a primeira pedra em quem pecou.

Recordando o sofrimento da mulher em épocas remotas.

* * *

(João, VIII, 112)

“Numa tarde, regressava Jesus do monte das Oliveiras, quando, em meio do caminho, com o sol a esconder-se, ao longe, no leito de fogo das montanhas, foi rodeado por um pequeno grupo de fariseus, que traziam de rastros, pálida e desgrenhada, uma pobre mulher que se debatia entre eles. Supondo confundir o rabino com a sua consulta inesperada, um escriba, de nome Baraquias, adiantou-se dois passos, e pediu, com fingida humildade:

– Mestre, esta mulher foi surpreendida a trair o esposo, a quem jurara fidelidade. A lei de Moisés determina que ela seja apedrejada, e morta pela multidão. Que devemos fazer?

Jesus, que lhe ouvira o coração antes de lhe escutar a palavra, baixou-se na areia da estrada, e pôs-se, com o dedo, a escrever.

– Mestre – tornou o fariseu, – esta mulher foi apanhada em flagrante, traindo o seu esposo. Devemos matá-la à pedrada, como estabelece a lei de Moisés?

Jesus, em silêncio, continuava a escrever sobre a areia, quando, de repente, erguendo-se, respondeu:

– Só o justo pode punir o pecador. Aquele, pois, que, dentre vós, nunca pecou, atire a primeira pedra!

A estas palavras, Baraquias desapareceu, e, com ele, um a um, aqueles que o acompanhavam, ficando no caminho, apenas Jesus e a pecadora.

Agradecida e assustada, ia a mísera mulher atirar-se de joelhos para beijar as sandálias do Mestre, quando o Rabino a deteve pelos braços, dizendo-lhe, severo:

– Nada me deves, mulher. Em verdade te digo, que as leis de meu Pai são mais implacáveis do que as leis de Moisés. Poupei-te a vida porque a própria morte não puniria a tua falta!

E, repelindo-a com a mão, suavemente:

– Anda; vai! A vergonha do teu crime, na tua velhice, será, na terra, o teu castigo.

E, baixando os olhos, continuou, sozinho, a caminho de Jerusalém.”

* * *

Pois bem. Nos dias de hoje, assistimos na mídia, a tentativa diária da destruição física e moral de homens e mulheres, praticada por vermes humanos que destilam ódio no coração, e cujo passado nebuloso esconde tenebrosos pecados morais e políticos que já cometeram, sem que tenham ainda acertado contas, definitivamente, com a justiça. Esses vermes querem ser mais rei do que a majestade, como diz o ditado popular.

Themis, a divindade grega por meio da qual a justiça é definida, no sentido moral, como o sentimento da verdade, da equidade e da humanidade colocado acima das paixões humanas, esta mulher de olhos vendados e com uma balança na mão, nos tempos modernos enxerga o que bem quer, e usa dois pesos, duas medidas. Sente-se mais importante do que o próprio Jesus Cristo.

Lamentavelmente, nos tempos modernos, o sentido da venda nos olhos de Themis e da balança que ela traz em uma das mãos foi desrespeitado.

“Dois pesos e duas medidas” é uma expressão popular, de origem bíblica, utilizada para indicar um ato injusto e desonesto, algo feito de forma parcial.

Está relacionada com situações iguais, mas tratadas de formas completamente diferentes, e seguindo critérios também diferentes, à mercê da vontade das pessoas que as executam.

No entanto, a expressão oficial é “dois pesos e duas medidas”, registrada inicialmente na bíblia sagrada, no livro de Deuteronômio (25:13-16), que deu origem ao uso da expressão:

“Não carregueis convosco dois pesos, um pesado e o outro leve, nem tenhais à mão duas medidas, uma longa e uma curta. Usai apenas um peso, um peso honesto e franco, e uma medida, uma medida honesta e franca, para que vivais longamente na terra que Deus vosso Senhor vos deu. Pesos desonestos e medidas desonestas são uma abominação para Deus vosso Senhor. (Bíblia, Deuteronômio 25:13-16)

Esta expressão é uma referência ao antigo sistema de medidas e pesagens, quando ainda não existia um método definitivo que padronizasse os pesos. Assim, cada pesagem e medida era feita de forma desigual, instituindo um roubo generalizado.”

Claro que, no âmbito jurídico, o ditado “dois pesos e duas medidas” não deveria ser aplicado.

Teoricamente, todos os cidadãos devem ser tratados da mesma forma perante a justiça.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho quinta, 13 de julho de 2023

A ANCESTRALIDADE (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

A ANCESTRALIDADE

Violante Pimentel

Os conceitos de ancestralidade e ancestrais indicam uma conexão geral com pessoas ou coisas do passado.

Num conceito genético, porém, eles têm um significado mais específico. Nossos ancestrais são as pessoas das quais descendemos biologicamente.

Tenho uma irmã, que, psicologicamente, é bem diferente de mim. Para ela, pesquisar o passado é delírio, coisa de gente doida, pois não adianta cultuar quem já morreu, se a morte é o fim de tudo. Quanto mais distante o passado, mais ela faz tudo para esquecer. Não quer saber de velharia, como móveis antigos e fotos emolduradas, postas nas paredes.

Bate de frente comigo, quando vem ao meu apartamento, pois uma das paredes da minha sala é repleta de fotos emolduradas, de entes queridos que já partiram e que eu faço questão de cultuar.

Sou, exatamente, o oposto dela. Vivo olhando o mundo pelo retrovisor do tempo. Adoro fotografias, principalmente as antigas, de meus familiares queridos, que não se encontram mais neste plano, e vivo pesquisando o passado.

Mas, reconheço que cada pessoa pensa de um jeito, mesmo tendo o mesmo sangue.

Mal me lembro do meu avô paterno, Manoel Ursulino Bezerra, pois ele se encantou quando eu era muito criança. Éramos vizinhos dele, minha avó Júlia e tios. Mas tive a graça de conhecer e conviver com meu avô materno, Professor Celestino Pimentel.

Desde criança, fui fã do meu avô Celestino Pimentel. Convivi com ele na minha juventude, da mesma forma que conviveram meus irmãos, um por um. Fomos hóspedes dele, da minha segunda avó materna e minha tia Carmen, quando viemos cursar o segundo grau em Natal, já que em Nova-Cruz só havia até o Curso Ginasial. Vim cursar a Escola Normal, para ser professora. Mas a roda-viva mudou o curso dos meus sonhos, pois terminei o curso pedagógico, me casei e deixei o magistério pra lá. Terminei cursando Direito, e dei outro rumo à minha vida, sentindo-me realizada.

Meu avô Celestino tinha o porte de um lorde inglês. Era alto, corado, forte, elegante, bonito e culto; muito sério, impunha respeito e simpatia.

Parecia o personagem de “O Professor Alsaciano”, poema de autoria do poeta português Acácio Antunes (1853 – 1927).

Pesquisando a ancestralidade do meu avô materno, Professor Celestino Pimentel, encontrei no Livro das Velhas Figuras, de Luís da Câmara Cascudo, volume II, Edição do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – 1976, a história do avô do Professor Celestino Pimentel, que também se chamava Celestino, e que aqui transcrevo, para o meu deleite e o de quem se interessar por História.

* * *

“O VELHO ARSÊNIO

O Coronel Celestino Pimentel, do exército português, tinha seu solar na Vila Nova de Portimão, castro velho com pedra d’armas ilustre, onde surge, lendário e fulvo, um leão na chapa do escudo.

O coronel casou em família de França. Dois filhos nasceram, alegrando a beleza da Quinta dos Três Bicos, casa solarenga dos Pimenteis, ramo fidalgo que se fixara no Algarves.

Começa a idade dos estudos. Bernardo Celestino, o primogênito, seguiu para a Universidade de Coimbra, onde se bacharelou em Direito. O segundo, Sizenando Celestino, repetindo a viagem fraterna, voltou engenheiro.

 

O Coronel Celestino Pimentel vê, jubiloso, o início da carreira dos filhos. Mandou o primeiro para a administração e o outro para o Exército, fiel à trilha paterna. E morreu tranquilo, confiante no destino dos filhos. A viúva, grávida, deu à luz, em 16 de abri de 1830, a um póstumo. Chamou-se Arsênio Celestino Pimentel. (Este viria a ser o pai do Professor Celestino Pimentel, nascido em 21.6.1884 e falecido em 11 de dezembro de 1967, em Natal).

No tempo justo enviaram Arsênio para Coimbra. Havia de ser médico.

Essa era a época convulsa na terra de Portugal. É a fase de bronze que imobiliza figuras hirtas e grandes de patriotas e soldados valentes. Costa Cabral domina, desmarcado, imponente, desdenhoso, abrindo caminho entre as montanhas de ódio, insensível ao medo, a covardia, sem recuar, sem ceder. Dona Maria II, a Rainha que nascera no Brasil, irmã de D. Pedro II, debate-se entre vinte partidos antagônicos, frementes, intolerantes. Contra Costa Cabral o povo eleva ondas imensas de cóleras. Uma após outra, as guerrilhas estalam, enfrentadas pelo ministro imperioso e duro.

Dona Maria teme. Despede Costa Cabral. Chama o Duque de Palmela, dúctil, hábil, maneiroso, polido, senhorial. Chama Mousinho de Albuquerque, o legislador do Duque de Bragança, que fora Rei de duas pátrias e doador de duas coroas. O Duque da Terceira é nomeado lugar-tenente do Norte. Explode o golpe- de- Estado de 6 de outubro de 1846.

Outro Duque, o de Saldanha, soldado grande e valoroso, neto do Marquês de Pombal, guerreiro que perdia no Parlamento e que ganhava nos campos de batalha, é o senhor da situação.

A cidade do Porto reage. Cria a Junta de Governo que o conde das Antas preside e onde os Passos (José e Manuel) mandam. Sá da Bandeira aderiu à revolução. A junta tem tanta popularidade quanto é infeliz. O Barão de Casal derrota Sá da Bandeira. Saldanha espatifa as hostes do Conde do Bonfim.

Mas para que haja a paz é preciso força moral que não existe no país. Intervém as potências. O General Concha traz a Espanha no seu Exército. Uma esquadra inglesa imobiliza a esquadrilha que a Junta possuía, literária e romanticamente.

Mas inda se luta. Vinhaes acaba com a resistência do Visconde Sá da Bandeira, batendo-o no alto do viso.

No meio desses combates, escaramuças, guerrilhas, encontros, ataques e saques, soa a voz aguda das mulheres, dos homens do campo, dos estudantes que fugiam de Coimbra e vinham na turba doida e brava, cantando a “Maria da Fonte”. (A instigadora dos motins iniciais terá sido uma mulher do povo chamada Maria, natural da freguesia de Fonte Arcada, ou Fontarcada, que por isso ficaria conhecida pela alcunha de Maria da Fonte. Como a fase inicial do movimento insurreccional teve uma forte componente feminina, acabou por ser esse o nome dado à revolta).

Os Passos, José Estevão, os liberais do Porto são da Maria da Fonte. Ela é um auxílio. Populariza a revolução. Espalha os nomes. Divulga o ideal. A convenção de Gramido, a 10 de junho de 1847, assegura uma tranquilidade momentânea.

Arsênio Celestino Pimentel, abandonando expositores e cadáveres, mestres e tricanas, fados e guitarras, metera-se na revolta. Andava no meio, arrastando um espadagão comprido, com duas pistolas na cinta de seda vermelha e um lume de cigarro saloio no canto da boca juvenil. Tinha dezessete anos. Batera-se em todos os encontros. Uma bala partira-lhe a mandíbula. Golpes fundos de sabre rendava-lhe o pescoço e o tórax. Continuava afoito, alegre, irrequieto, dançador do chegadinho e vai-de roda, mestre do varapau, guerreiro sem soldo, pronto para bater-se e a morrer.

Os irmãos, entretanto, vencem, sobem. Bernardo é Governador dos Açores. Sizenando é oficial do Corpo de Engenheiros. Ambos são estudiosos, sisudos, impassíveis, na tradição clássica dos algarvinos aristocráticos.

Em 1849, Costa Cabral volta ao poder. A Rainha fá-lo marquês de Tomar. Uma política de reação, de economia feroz, de energia trepidante se inicia. Tomar repete o nosso Feijó, o ataque uniforme às hidras incontáveis. O fogo das insurreições crepita novamente.

E Arsênio desaparece da Universidade, segura as pistolas, afia o sabre, retomando seu canto na mata sem nome e esquecimento. Tomar reage. Expulsa, exila, despede, demite, prende.

Arsênio foge. Vem até os Açores. Recusa assinar o pedido de indulto a Rainha, como o irmão lhe pedia. Não pisará areia de Portugal, enquanto reinar Da. Maria II. Decide-se pelo Brasil. Pernambuco.

Arsênio é alto, forte, ágil, bonito. Toca piano, entende de medicina, entende de tudo. Ensina, clinica, negocia. Tem nome, devotos, relações.

Os Antunes de Oliveira, fixados no vale do Ceará-mirim, rogam sua presença no Rio Grande do Norte. Arsênio cede. Em 1873, está em Natal, para sempre.

Por aqui viveu com vária fortuna. O tempo pintou de branco sua barba. Era salineiro, pequeno proprietário, dava remédios. Ainda vivem ex-alunas de piano. Administrou a “Colônia Sinimbu”. Defendeu-se tão cabalmente, quando acusado, que o austero Visconde de Sinimbu enviou-lhe uma carta de felicitações.

Casou. Os filhos vieram. Antônia Perpétua, esposa de José Cândido Céa, da Marinha Mercante, CELESTINO, professor e várias vezes diretor do Atheneu Norte-Rio-Grandense, Arsênio, que viajou para o Norte, não dando notícias, e Maria Rosa, casada com Luiz Damasceno Bezerra.

Toda a cidade o conheceu e respeitou. Era o Velho Arsênio.

A 17 de agosto de 1916, na fazenda “Mororó”, Lajes (RN), faleceu Arsênio Celestino Pimentel, o guerrilheiro da “Maria da Fonte”, o acadêmico de Coimbra, fidalgo da Quinta dos Bicos, no reino dos Algarves.

(09.04.1942)”

(Texto copiado da obra “O Livro das Velhas Figuras”, de Luís da Câmara Cascudo, volume II, páginas 161, 162 e 163 – Edição do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – 1976)

Em memória do meu avô materno, Professor Celestino Pimentel, filho do Velho Arsênio, transcrevo o poema O Professor Alsaciano, do poeta português Acácio Antunes (1853 – 1927).

Literatura‎ – ‎Obras de Acácio Antunes (1853-1927)‎ > ‎

O Estudante Alsaciano

Antigamente, a escola era risonha e franca.
Do velho professor as cãs, a barba branca,
Infundiam respeito, impunham simpatia,
Modelando as feições do velho, que sorria
E era como criança em meio das crianças.
Como ao pombal correndo em bando as pombas mansas,
Corriam para a escola; e nem sequer assomo
De aversão ou desgosto, ao ir para ali como
Quem vai para uma festa. Ao começar o estudo,
Eles, sem um pesar, abandonavam tudo,
E submissos, joviais, nos bancos em fileiras,
Iam todos sentar-se em frente das carteiras,
Atenta, gravemente — uns pequeninos sábios.
Uma frase a animar aquele bando imbele,
Ia ensinando a este, ia emendando aquele,
De manso, com carinho e paternal amor.

Por fim, tudo mudou. Agora o professor,
Um grave pedagogo, é austero e conciso;
Nunca os lábios lhe abriu a sombra d’um sorriso
E aos pequenos mudou em calabouço a escola
Pobres aves, sem dó metidas na gaiola!
Lá dentro, hoje, o francês é língua morta e muda:
Unicamente o alemão ali se fala e estuda,
São alemães o mestre, os livros e a lição;
A Alsácia é alemã; o povo é alemão.
Como na própria pátria é triste ser proscrito!
Frequentava também a escola um rapazito
De severo perfil, enérgico, expressivo,
Pálido, magro, o olhar inteligente e vivo

— Mas de íntima tristeza, aquele olhar velado
Modesto no trajar, de luto carregado…

— Pela pátria talvez! — Doze anos só teria.
O mestre, d’uma vez, chamou-o á geografia:

— “Diz-me cá, rapaz… Que é isso? estás de luto?
Quem te morreu?”

— “Meu pai, no último reduto,
Em defesa da pátria!”

— “Ah! sim, bem sei, adiante…
Tu tens assim um ar de ser bom estudante.
Quais são as principais nações da Europa? Vá!”

— “As principais nações são… a França…”

— “Hein? que é lá?…
Com que então, a primeira a França! Bom começo!

De todas as nações, pateta, que eu conheço,
Aquela que mais vale, a que domina o mundo,
Nas grandes concepções e no saber profundo,
Em riqueza e esplendor, nas letras e nas artes,
Que leva o seu domínio ás mais remotas partes,
A mais nobre na paz, a mais forte na guerra,
D’onde irradia a ciência a iluminar a terra,
A maior, a mais bela, a que das mais desdenha,
Fica-o sabendo tu, rapaz, é a Alemanha!”

Ele sorriu com ar desprezador e altivo,
A cabeça agitou n’um gesto negativo,
E tornou com voz firme:

— “A França é a primeira!”
O mestre, furioso, ergue-se da cadeira,
Bate o pé, e uma praga enérgica lhe escapa.

— “Sabes onde está a França? Aponta-ma no mapa!”
O aluno ergue-se então, os olhos fulgurantes,
O rosto afogueado; e enquanto os estudantes
Olham cheios de assombro aquele destemido,
Ante o mestre, nervoso, audaz e comovido,
Tímido feito herói, pigmeu tornado atleta,
Desaperta, febril, a sua blusa preta,
E batendo no peito, impávida, a criança
Exclama:

— “É aqui dentro! aqui é que está a França!”

Autor: Acácio Antunes (1853-1927)
Editado por: nicoladavid


Violante Pimentel - Cenas do Caminho quarta, 12 de julho de 2023

A VELOCIDADE DO TEMPO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

A VELOCIDADE DO TEMPO

Violante Pimentel

Quando se vê, a vida já passou. Ninguém segura o tempo, nem por decreto.

O dia, que tem 24 horas, na nossa adolescência demorava muito a passar, até que chegasse a noite, para os divertimentos, flertes e namoros.

Não se espera mais que a noite chegue, para se namorar. O tempo para o namoro é qualquer um. Qualquer hora é hora. Desapareceu o romantismo, e vale tudo. A poesia e os sonhos desapareceram da vida das pessoas, e o tempo passa muito rápido..

A era cibernética não deixa ninguém raciocinar. As máquinas raciocinam por você. Já lhe entregam o prato feito. Resultado: Você se sente inútil, e os valores da alma, cada vez mais são esquecidos. O homem é inimigo do próprio homem.

O tempo não espera por ninguém. Não há tempo mais para nada. Da meia idade para a frente, quase sempre, os planos não se completam.

As perdas de entes queridos levam um pedaço de nós. Sem querer, morremos um pouco, a cada dia. E as perdas são para sempre. Ninguém, nem nada, substitui ninguém.

As metas que pensávamos cumprir, hoje não tem mais sentido.

Hoje, o dia já amanhece tarde. As 24 horas do dia, hoje, são um pingo d’água no oceano, comparando-se com a velocidade do tempo, e, consequentemente, com a rapidez com que a vida passa. E vemos que o tempo não nos dá tempo, para que realizemos todos os nossos planos.

O tempo não espera por ninguém. Não há tempo mais para nada. Da meia idade para a frente, então, muitos planos não se completam. É triste dizer isso, mas é a mais pura verdade.

A perda de entes queridos levam um pedaço de nós. Sem querer, morremos um pouco, a cada dia. E as perdas são para sempre. Nada nem ninguém substitui ninguém.

As metas que pensávamos cumprir, de repente, não tem mais sentido. É preciso ser forte, para que o homem não sucumba ao desânimo.

Hoje, os jovens não precisam mais esperar que a noite chegue, para conversar com os namorados (as). Não existe mais o lirismo da noite de núpcias. A juventude de hoje é livre para amar, sem amarras, nem policiamento dos pais. Qualquer dia é dia, qualquer hora é hora para se ser feliz.

O romantismo está desaparecendo a cada dia. Vale tudo. O tempo para o namoro é qualquer um.

A poesia e o romance desapareceram da vida das pessoas. O lirismo está diminuindo cada vez mais.

Sinto saudade do tempo em que havia troca de cartas de amor e notícias pelo correio. O tempo passava mais lento e os amores pareciam eternos.

Em homenagem ao dia de São Pedro, terceira festa junina, que ontem (29/06) se comemorou, relembro um singelo poema de amor, que não se sabe a autoria:

Ele partiu, ela ficou…
Chorando a sua grande dor…
Cartas desde já foram chegando…
Saudades, juras de amor…
E com que ansiedade, ela esperava o carteiro…
E ele vinha…
E logo davam uma conversazinha

Quantas surpresas o destino traz,
Por este mundo inteiro…

Final: Ela esqueceu-se do rapaz,
E terminou casando com o carteiro

* * *

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho terça, 11 de julho de 2023

SÃO JOÃO COM CHEIRO DE SAUDADE (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMNDO FLORIANO)

 

SÃO JOÃO COM CHEIRO DE SAUDADE

Violante Pimentel

Estes dias de junho me enchem de lembranças felizes, dos tempos idos e vividos. Recordo meu tempo de menina-moça, aguardando, ansiosa, a festa de São João.

A nossa casa era um relicário, onde reinavam a harmonia e os sonhos cheios de esperança.

A véspera de São João era um dia cheio de alegria, e os preparativos para a noite festiva começavam pela manhã. Minha querida mãe, Dona Lia, administrava a cozinha, e o preparo das comidas de milho verde, próprias da época junina.

À tarde, meu pai ornamentava o terraço da nossa casa com bandeirinhas e lanternas coloridas, onde à noitinha se acendiam velas para embelezar a casa.

Minha saudosa mãe, enquanto preparava as iguarias para a “festa de São João”, cantarolava “Mané Fogueteiro” (Composição de João de Barro, o Braguinha, e gravação original de Augusto Calheiros), que conta a história de um fogueteiro que fazia fogos para as festas juninas.

Também aproveitava o dia de São João, para recitar para nós, a poesia matuta, Kremmesse, de Olegário Mariano, que ela adorava.

Sonho sempre em Nova-Cruz, e os meus sonhos tem cheiro de saudade. Desperto emocionada e não consigo evitar que chova nos meus olhos.
Ontem mesmo, sonhei com o antigo São João em Nova-Cruz.

A rua onde nasci e me criei era um verdadeiro corredor de fogueiras acesas, pois todas as casas tinham sua fogueira.

Entretanto, ao lado da nossa casa, destacavam-se as fogueiras de Seu José Henrique e Dona Eugênia, e a de Seu Manoel Silvério e dona Conceição. Eram fogueiras enormes, que queimavam até amanhecer o dia.

Minha mãe preparava a mesa com iguarias deliciosas, típicas dessa época do ano. Não faltavam canjica, pamonha, milho cozido e pé-de-moleque. O maior destaque viria em seguida: O milho assado na fogueira de São João.

Isso encantava minha alma, desde o meu tempo de criança.

No final da tarde, chegava a hora de acender a fogueira.

A notícia de que o fogo havia pegado e a fogueira estava acesa, era sinal de Sorte, recebida com alegria por crianças e adultos.

O cheiro da lenha queimando inundava o ar. A fumaça da fogueira fazia chorar. Mas eram lágrimas misturadas com sorrisos de alegria.

A noite de São João era uma festa! E a alegria era contagiante. Não havia luz elétrica na cidade e, por isso, fogos, foguetes e balões eram permitidos sem restrições.

As lembranças doem dentro de mim. Trago na memória bandeirinhas tremulando, lanternas e fogueiras acesas, e um Céu cheio de estrelas. Todos os corações estavam em festa.

Era o nascimento de São João Batista, primo de Jesus Cristo.

Os fogos, bandeirinhas e lanternas coloridas completavam o cenário da história do nascimento do menino João Batista, quando Santa Isabel, sua mãe, anunciava a boa nova à prima Maria Santíssima.

As fogueiras aqueciam e iluminavam a nossa alma. E o sereno era o bálsamo que caía sobre as famílias que enchiam as calçadas, nessa noite de magia, amor e alegria.

Juntando-se a isso, as adivinhações, “casamentos”, batizados, celebração de parentescos, e juras de amor trocadas em torno das fogueiras, coisas que faziam parte da cultura popular nordestina e crendice popular.

Hoje, ao recordar o antigo São João de Nova-Cruz, meus olhos ficam molhados de saudade.

Saudade de Nova-Cruz, da nossa fortaleza e do nosso porto seguro, Dona Lia e Seu Francisco, ninho de amor, em torno do qual, nós, os cinco filhos, gravitávamos e de onde tivemos os maiores exemplos de vida

Portanto, nestes tempos juninos, a fogueira da saudade queima forte no meu coração, e a imagem da minha saudosa Mãe, Dona Lia, não me sai do pensamento. Ela cultuava a poesia, herança da sua Mãe, poetisa Anna Lima.

E de repente, Nova-Cruz da minha infância ressurge como a fênix da lenda, trazendo consigo imagens distantes, de familiares e amigos que o tempo já levou, mas continuam vivos na minha lembrança e na minha saudade, como é o caso do meu querido irmão Adriano Pimentel Bezerra, que se encantou em 26.10.2022.

Este poema matuto, “Kremmese”, do poeta Olegário Mariano, minha mãe gostava de recitar, na noite de São João. Também gostava de cantar Mané Fogueteiro.

Minha homenagem à Dona Lia, minha inesquecível Mãe!

* * *

POESIA MATUTA – Kremmesse (QUERMESSE) – Olegário Mariano

Foi um dia de kremesse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.

Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.

Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse…
Si eu te beijasse na face…
Tu me dás-se um beijo? – Dou-se.

E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?

Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.

– Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
– Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.

E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra… Dezembro…
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.

Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.

Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse.

Olegário Mariano Carneiro da Cunha (Recife, 24 de março de 1889 — Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1958)

* * *

Augusto Calheiros MANÉ FOGUETEIRO

 

 

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 16 de junho de 2023

AS FESTAS JUNINAS (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

AS FESTAS JUNINAS

Violante Pimentel

As Festas Juninas são consideradas, hoje, os melhores festejos populares do Brasil. Sem luxo nem violência, essas festas agradam a todos e as famílias podem se divertir juntas.

Foram os jesuítas portugueses que trouxeram os festejos juninos, ou joaninos, para o Brasil.

As primeiras referências às festas de São João no Brasil datam de 1603 e foram registradas pelo religioso franciscano brasileiro, frade Vicente do Salvador. A princípio, a festa era só em homenagem a São João. As homenagens a Santo Antônio e São Pedro só começaram posteriormente, mas como também aconteciam em junho passaram a ser chamadas de festas juninas. O curioso é que antes da chegada dos colonizadores, os índios do Brasil realizavam festejos relacionados à agricultura, no mesmo período. Os rituais tinham canto, dança e comida à base de milho e mandioca.

A tradição junina brasileira homenageia, influenciada pela Igreja Católica, os três Santos nascidos em junho: Santo Antônio (13/6), São João (24/6) e São Pedro (29/6). Os festejos começam na véspera de Santo Antônio (12/6), considerado o santo casamenteiro.

Em algumas partes dos Brasil, principalmente no Nordeste, as festas juninas são chamadas, simplesmente, de “festas de “São João”. Campina Grande (PB) e Caruaru PE) disputam o título de “ Melhor São João do Brasil”, durante todo o mês de junho.

Dos salões refinados da França medieval, vieram as danças, principalmente, a “Quadrilha”, dança feita por quatro casais, daí a expressão “ Dançar quadrilha”.
Aqui no Brasil, a quadrilha se transformou em um bailado de casais, caracterizados com vestimenta tipicamente caipira.

Alguns quitutes, consumidos nas festas juninas, são de origem tupi, como : a canjica, o curau, a pamonha, bolo de milho, e outras iguarias, especialmente, o milho verde cozido e também o milho assado, preferencialmente, no calor da fogueira.

As bebidas, por sua vez, tem influência europeia: Quentão e Vinho Quente.

A decoração com bandeirinhas vem de um ritual católico. Era comum nas festas juninas do século XIX que as imagens de Santo Antônio, São João e São Pedro fossem pintadas em grandes bandeiras coloridas. Essas bandeiras eram colocadas em água em um evento conhecido como lavagem dos santos. A ideia era a purificação da água e de quem se banhasse com ela. Com o passar do tempo, as grandes bandeiras – ainda presentes em alguns lugares – deram vez às famosas bandeirinhas, em alusão a esse ritual.

Para os cristãos, a fogueira representa o nascimento de São João Batista. Isso, porque Santa Isabel teria usado o recurso para avisar a Maria que seu filho ia nascer e de que precisava de ajuda no parto. Alguns contam ainda que a fogueira protege a pessoa dos maus espíritos.

Já os balões e fogos de artifício, de origem chinesa, foram colocados nas festas juninas e serviam como uma forma de comunicação. Alguns eram soltos com o objetivo de avisar a parentes e vizinhos da região que a festança estava por começar.

O casamento caipira é uma sátira aos casamentos tradicionais. Santo Antônio ficou conhecido como o santo casamenteiro. Essa fama, segundo alguns religiosos, veio de pedidos feitos por moças ao santo, em busca de noivo e marido. E há várias simpatias, para o Santo Casamenteiro atender ao clamor das donzelas casadoiras.

O mastro com três bandeiras e fitas coloridas representa os santos populares da festa: Santo Antônio, São João e São Pedro. Já a brincadeira do tradicional Pau de Sebo é um mastro untado de sebo (gordura animal) que se presta a uma atividade recreativa, típica das Festas Juninas. A brincadeira consiste em subir num alto mastro de madeira ensebado, com o objetivo de alcançar um prêmio colocado no topo.

No Nordeste, tradicionalmente, as músicas típicas das festas juninas, usadas para animar as danças, são o forró-pé-de-serra, o xote e o baião, tocadas pela sanfona, triângulo e zabumba.

Fora isso, os “arraiais”, fogueiras queimando, e muitos fogos de artifícios alegram as noites de Santo Antônio, São João e São Pedro, caracterizando o maior São João do Brasil, principalmente do Nordeste.

 

 

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 09 de junho de 2023

ÁGUA GELADA (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

ÁGUA GELADA

Violante Pimentel

Nunca gostei de água gelada, por falta de costume. O motivo é simples: Em Nova-Cruz, cidade do interior nordestino, onde nasci e me criei, não havia energia elétrica e, consequentemente, não se tinha geladeira, salvo os ricos fazendeiros, que tinham gerador próprio.

Somente em 1963, chegou a Nova-Cruz a energia de Paulo Afonso. Tempos depois, quem tinha boas condições financeiras, passou a gozar do conforto de ter geladeira e ventilador.

Antes da chegada da energia de Paulo Afonso, os municípios do interior do Rio Grande do Norte eram iluminados por meio de motores elétricos a óleo, que eram ligados às seis da tarde. Às nove horas da noite era dada a primeira “piscada”, um aviso à população de que os candeeiros e as lamparinas deveriam ser acesos.

 

 

 

Mesmo depois da chegada de uma geladeira em nossa casa, me recusei, ainda mocinha, a beber água gelada. Inventava que me dava dor de dente, ou que me irritava a garganta. Mas era a tal coisa: desculpa de amarelo é comer barro. Eu não suportava água gelada mesmo. Continuo, até hoje, preferindo água natural. Foi um costume que eu assimilei desde criança e conservo até hoje.

Meu saudoso irmão Adriano, o primogênito, era muito espirituoso. Depois que serviu ao Exército, foi aprovado em concurso para a Petrobrás e foi nomeado para trabalhar em Ilhéus (BA). Depois foi transferido para Maceió (AL), Aracaju (SE), Joaçaba (SC), e, finalmente para o Rio de Janeiro (RJ), onde, anos depois, se aposentou. Morou em Niterói (RJ), até o fim dos seus dias.

Certa vez, depois que chegou energia elétrica em Nova-Cruz, um conhecido oportunista, que não pagava nem promessa a santo, lhe telefonou pedindo dinheiro emprestado, para comprar uma geladeira. Adriano, recém casado, e ainda mobiliando uma casa para morar, respondeu:

– Rapaz, estou recém-casado e ainda não pude comprar uma geladeira. Por enquanto, continuo bebendo água do filtro. Coloco uma pastilha de hortelã “garoto” na boca e a água fica gelada, que é uma beleza. Faça isso, que você vai gostar! A água desce gelada, gelada.

O cara ficou desapontado, e não insistiu.

Outra vez, um outro conhecido enrolão, dizendo que sua geladeira tinha dado o prego, telefonou para Adriano, em Niterói, pedindo dinheiro emprestado para mandar consertá-la.

Ironicamente, meu irmão deu a mesma resposta:

– Rapaz, a minha geladeira também está quebrada. Resolvi não mandar mais consertar, pelo menos por enquanto. Aqui em casa, estamos bebendo água do filtro, com uma pastilha de hortelã “garoto” na boca. É a água gelada melhor do mundo!!! Experimente!

Ele tinha um humor fino, e quando vinha de férias, com a esposa e filhos para Nova-Cruz, gostava de brincar com Dona Severina, uma empregada antiga da minha avó e perguntava se ela ainda subia no coqueiro para tirar coco, como fazia antigamente.

A mulher respondia:

– Que nada, Adriano. Não tenho disposição mais pra me trepar num coqueiro e tirar coco.

E ele perguntava, achando graça:

– Então, a senhora não trepa mais num coqueiro?

Ela respondia:

– Estou velha e minhas pernas não aguentam mais. Não trepo nem num tamborete, muito menos num coqueiro!!!

Todos prendiam o riso…

Dona Severina gostava de fazer uma fezinha no jogo do bicho, todos os dias. Jogava uns trocadinhos, somente no grupo. Para um bom palpite, ela enchia uma xícara com café, riscava um fósforo, jogava dentro e cobria com o pires. Cinco minutos depois, descobria a xícara e o bicho estava desenhado no café, pelo menos para ela. Vez por outra, ganhava um dinheirinho no bicho e ficava radiante.

Para ajudar no palpite, ela dizia que rezava uma oração forte, que era “tiro e queda.” A oração fazia com que o desenho do bicho dentro do café ficasse nítido de dar gosto.

Na cozinha da casa da minha avó, com os olhos fixos na xícara de café, Dona Severina rezava:

“Meu São Marcelo do couro preto, me mostrai o bicho de hoje, que eu lhe dou o que o senhor quiser de mim, até mesmo o impossível.”

E essa oração era supimpa, para dona Severina ganhar no jogo do bicho.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 02 de junho de 2023

EVOCANDO *GENI E O ZEPELIM* (CRÔNICA MADRE SUPERIORA VIOLANGE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

 

Zepelim é um tipo de dirigível feito com material rígido, criado na Alemanha, que foi muito usado para fins militares e para transporte de passageiros sobre os oceanos, na década de 30.

Quanto à composição “Geni e o Zepelim“, é uma das mais significativas e verdadeiras da MPB. Composta pelo gênio Chico Buarque em 1978, como parte do espetáculo Ópera do Malandro, a música permanece atual e suas críticas continuam válidas.

Na década de 70, o Brasil vivia sob o Regime Militar e ainda estava em vigor o Ato Institucional Número 5, que marcou o auge da censura no país.

Nessa época, Chico Buarque ficou conhecido por enfrentar a repressão e se posicionar abertamente contra a censura em suas composições, ao lado de vários outros artistas.

Esse sentimento se manifestava em canções sobre problemas sociais e opressão, como é o caso de “Geni e o Zepelim” e da peça teatral Ópera do Malandro.

Em “Geni e o Zepelim“, aparece uma característica das composições de Chico Buarque, que é o protagonismo da personagem feminina.

O cantor escreveu muito sobre mulheres em diferentes universos (“Terezinha”, “O meu Amor”) e em “Geni e o Zepelim”, ele traz essa questão de um modo diferente, ao falar sobre o uso do corpo, a objetificação e a condenação pela sociedade.

A letra começa nos apresentando Geni e o primeiro aspecto retratado é sua vida sexual. O corpo dela é entregue a qualquer um, como um objeto, e, na descrição, ela se resume basicamente a isso.

Para a sociedade, Geni era apenas um corpo para ser usado.

Ópera do Malandro deixa claro que Geni era um travesti, cujo nome de batismo era Genivaldo, e que atendia a todo tipo de gente. Fazia sucesso entre homens e mulheres, nas mais diversas situações, desde os presos, os adolescentes do internato, e até “os velhinhos sem saúde e as viúvas sem porvir.”

Ela se submetia a isso tudo, porque era um poço de bondade. Não tinha nenhum tipo de preconceito, e com isso despertava a fúria e o desprezo da cidade.

O refrão da música ressalta a crueldade das pessoas da cidade contra Geni. Ela era completamente desumanizada, e agredida física e psicologicamente, por se entregar a qualquer um.

Essa seria mais uma razão para despertar a fúria contra ela, já que o musical se passa em uma sociedade conservadora da década de 40.

Certo dia, a cidade entrou em pânico, com a chegada do enorme e brilhante Zepelim.

Chegou sobre a cidade, já com os canhões apontados, ou seja, com a clara intenção de atacar.

Ao ver o Zepelim, os habitantes da cidade ficam apavorados, já esperando a destruição.

No entanto, eles são surpreendidos, quando o comandante do dirigível aparece e diz que mudou de ideia.

Ele explica os motivos pelos quais pensou em destruir a cidade e também a razão da desistência.

Olhando do alto, o comandante se encantou por uma mulher, e está disposto a cancelar o ataque, se puder passar a noite com ela.

Para espanto de todos, ele queria uma noite de amor com Geni. Somente ela, por quem a cidade tinha verdadeira ojeriza e desprezo, seria capaz de salvá-la.

Apesar de parecer absurdo à população da cidade, Geni foi a única dama que despertou o fascínio do comandante do Zepelim.

A música enfatiza a relação controversa de poder: logo ela, tão insignificante, conseguiu dominar um homem tão poderoso.

Apesar da cidade inteira dizer em coro, que “Geni dava pra qualquer um”, o povo acaba descobrindo que não era bem assim. Geni também tinha os seus caprichos. “Ao deitar com homem tão nobre, tão cheiroso a brilho e a cobre, preferia amar com os bichos.” O comandante do Zepelim em nada a atraía.

Dentro da Ópera do Malandro, é possível perceber que a música “Geni e o Zepelim” traz outras críticas mais discretas, além da história principal. Essa estrofe é vista como uma aversão ao capitalismo.

A principal mensagem da música começa a ser apontada nessa estrofe, quando a cidade muda seu comportamento perante Geni, por puro interesse.

As figuras do prefeito, do bispo e do banqueiro representam os três pilares da cidade: o poder público, o capital e a igreja, todos rendidos aos pés da mulher que antes odiavam.

E a cidade em peso clama pela ajuda de Geni, a quem agora todos chamam de bendita. Por fim, diante de todas as súplicas, Geni resolveu ceder e abrir mão de sua única objeção.

A composição diz que ela dominou seu asco, e aceitou se submeter àquela situação pelo bem da cidade, mesmo sentindo aversão ao homem com quem teria que se deitar.

“Entregou-se a tal amante, como quem dá-se ao carrasco”, ou seja, deixou que ele usasse seu corpo como bem quis.

Depois de fazer tudo o que queria, o comandante cumpriu sua promessa e foi embora, deixando a cidade intacta, logo ao amanhecer.

Ao ver que tudo aquilo tinha acabado e que estava livre de novo, Geni se sentiu aliviada, e “tentou até sorrir”. Mas, a tranquilidade durou pouquíssimo tempo.

Logo as coisas voltaram a ser como antes, em relação a Geni, que se sacrificou para salvar a cidade..

A cidade em peso, depois de ser salva por ela, voltou a tratá-la com desprezo novamente.

É essa a conclusão da história, que faz com que muitos a entendam como uma crítica à hipocrisia da sociedade.

A Música Popular Brasileira é cheia de composições como essa, com histórias profundas e muito ligadas aos problemas sociais de cada época.

Foram vários os artistas que, como Chico Buarque, contribuíram para o enriquecimento da Música Popular Brasileira.

 

 

Geni e o Zepelim – Chico Buarque

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada

 

Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato

E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir

Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim

A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geleia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: Mudei de ideia!

Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniquidade
Resolvi tudo explodir
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir

Essa dama era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni!

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro

Acontece que a donzela
(E isso era segredo dela)
Também tinha seus caprichos
E ao deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos

Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão

Vai com ele, vai, Geni!
Vai com ele, vai, Geni!
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni!

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco

Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado

Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir

Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 26 de maio de 2023

PALHAÇADA (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

PALHAÇADA

Violante Pimentel

O cantor que marcou a minha adolescência era brasileiro mesmo: Milton Santos de Almeida, conhecido como Miltinho, na época, um dos maiores intérpretes de samba e músicas românticas do Brasil.

Miltinho deu voz, na década de 60, a inúmeros sucessos, como Mulher de Trinta, Palhaçada, Lembranças, Leva Meu Samba, Meu Nome é Ninguém e outros.

 

 

Fui “menino do interior”, onde demorou muito a chegar energia elétrica e água encanada. Confesso que nunca me familiarizei com os cantores internacionais. Nessa época, final dos anos 60, o romantismo e os sonhos explodiam em mim. Mas era no rádio de pilha ou a bateria, que eu ouvia o cancioneiro romântico de que eu tanto gostava.

Certa vez, quando eu era ainda “um brotinho”, num domingo à tarde, fui assistir à apresentação de Miltinho na Rádio Poti, em Natal, no programa de auditório, “Vesperal dos Brotinhos”, comandado pelo radialista Luiz Cordeiro. Fui acompanhada por Salete, a manicure da minha saudosa tia Carmen, em cuja residência eu estava hospedada. Minha tia sabia do meu fanatismo por Miltinho e me fez uma surpresa. Pediu a Salete para ir comigo ao programa da Rádio Poti, para que eu conhecesse Miltinho no palco, “ao vivo e a cores”. Foi um presente que eu nunca esqueci.

A apresentação de Miltinho foi sensacional!!! Saí da Rádio Poti com uma foto dele em tamanho postal. Pra mim, foi a glória! Cheguei em casa, “com a alma lavada e enxaguada” de felicidade.

No meu caderninho de músicas, só dava Miltinho, disparado. Eu sabia quase todas as músicas da discografia dele, de cor. Escutava muito programa de rádio e comprava revistas do rádio, que chegavam às sextas-feiras, às três horas da tarde, no trem que vinha de Recife para Natal, e tinha uma parada em Nova-Cruz. O vendedor já separava as minhas preferidas.

Das músicas de Miltinho, eu tinha as minhas favoritas: Lembranças, Volta, Devaneio, Ri… Eu e o Rio, Poema das Mãos, Poema do Adeus, e tantas outras.

Milton Santos de Almeida, ou Miltinho, (1928-2014), começou sua carreira na década de 40, como ritmista (tocava pandeiro desde os cinco anos de idade). Foi integrante de diversos grupos vocais, como “Anjos do Inferno” (com o qual chegou a viajar aos Estados Unidos, acompanhando Carmen Miranda), “Namorados da Lua”, “Quatro Ases e Um Coringa”, “Milionários do Ritmo” e “Cancioneiros do Luar”.

Na década de 60, Miltinho lançou seu primeiro disco solo, “Um Novo Astro”. Iniciava, assim, uma carreira de enorme sucesso, marcada pela sua bonita voz, afinada e anasalada, afeita aos sambas de teleco-teco e às canções românticas.

Consagrou-se com a música “Mulher de 30”, e com ela ganhou o reconhecimento do público. Recebeu vários prêmios, participou dos principais programas de televisão da época e de um filme estrelado por Mazzaropi.

As melhores lembranças daquela primeira metade dos anos 1960, Miltinho deve ao repertório dos seus discos, e aos compositores como Luiz Antônio, autor, sozinho, de alguns dos seus grandes sucessos. Além de “Mulher de trinta”, ele compôs “Menina moça”, “Ri”, “Poema das mãos” e a favorita do cantor, “Eu e o Rio” (“A melodia mais linda que alguém já fez, uma beleza de letra”, como ele dizia).

No total, gravou mais de cem discos, mas na década de 70, com o declínio do seu gênero musical, saiu de cena nas grandes capitais, concentrando suas apresentações em cidades do interior.

Luiz Antônio pode ter sido o responsável pelas canções que Miltinho, com seu jeito diferente, balançado (ou sacudido, não é, Magnovaldo?), de cantar samba, transformou em hits. Mas ele disputou a voz do amigo com outros grandes nomes da época, como Ataulfo Alves (“Mulata assanhada”), Haroldo Barbosa e Luís Reis (“Palhaçada”, “Só vou de mulher”), Evaldo Gouveia e Jair Amorim (“Serenata da chuva”, “Samba sem pim pom”), Miguel Gustavo (“Samba do crioulo”) e João Roberto Kelly, autor da ferina “Só vou de balanço” (“Nada de twist / de twist e de chá-chá-chá / só vou de balanço / só vou de balanço / Vamos balançar”). Canções bonitas e espirituosas, que embalaram muitos romances e as pistas de dança.

Por coincidência, certa vez, fui visitar uma outra tia, que morava no Rio, e o marido dela, que era auditor fiscal da receita federal, aposentado, disse que no Clube Português, que ficava perto do prédio onde eles moravam, na Tijuca, sempre jogava gamão com um colega de trabalho. Certo dia, ele teria sabido que esse colega “andou gravando umas músicas”. E o nome do colega era Miltinho. E pronto. É impressionante, como há pessoas que são completamente indiferentes à música.

O sambista também animou carnavais com marchinhas como “Nós os carecas”.

No seu aniversário de 70 anos, em 1998, lançou o CD “Miltinho Convida”, com elenco de alguns de seus aprendizes confessos, como João Nogueira, João Bosco, Luiz Melodia, Chico Buarque, entre outros. Chegou a gravar com Dóris Monteiro, Elza Soares, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Ed Motta e outros. Como intérprete, lançou João Nogueira e Luiz Ayrão.

As músicas “Mulata assanhada”, “Palhaçada”, “O conde”, “Laranja madura”, “Volta” e “Menina moça” são outros de seus sucessos, que lhe renderam o apelido de “Rei do Ritmo”.

Palavras de Miltinho:

“A vida, a meu ver, como ritmista, é um ritmo. Você tem ritmo para andar, para pegar ônibus… Se bobear, tropeça e cai”, disse o cantor em entrevista para o documentário “No tempo do Miltinho” (2008), de André Weller.

Assim Miltinho se definia:

“Eu não sou astro de coisa nenhuma. Sou apenas um mero cantor de samba. O que me honra muito”.

Também no cinema, foi vencedor do prêmio de melhor curta brasileiro no festival “É Tudo Verdade”, de 2009.

Elza Soares, uma de suas parceiras, o elogiava:

“A divisão de Miltinho, acho que ele tem ritmo até na ponta da orelha. Para mim, ele é único.”

Miltinho morreu aos 86 anos, em 7 de setembro de 2014, vítima de uma parada cardíaca, no Hospital do Amparo, zona norte do Rio. O cantor deixou um universo de canções, que integra o grande legado do samba no Brasil.

Um dos grandes sucessos de Miltinho, “Palhaçada”, parece ter sido gravado hoje. Trata do famoso golpe contra um bobão apaixonado. O tema nunca foi tão atual.

Ao encerrar a carreira por motivos de saúde (enfisema pulmonar), Miltinho dizia que o sucesso lhe trouxe muitas alegrias, mas só não lhe trouxe dinheiro.

E disse:

– Mas isso não me importa, pois sempre tive meu trabalho no Ministério da Fazenda, pelo qual me aposentei. Aqueles foram discos feitos com cuidado. Hoje em dia é tudo feito para vender.” “Mas não é inveja, não. Eu fiz o meu, deu certo, me sinto honrado por ser um cantor de samba – dizia Miltinho, para quem “o segredo de um bom samba é dissertar sobre um tema que atinja diretamente o coração do povo, o que não é fácil. – Mas o segredo mesmo é ser sambista, o que eu sou com muita honra!”

E que sambista! Miltinho tinha o samba na alma!

“Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão” (Artur da Távola, pseudônimo de Paulo Alberto Moretzsonh Monteiro de Barros).

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 19 de maio de 2023

AS PROPAROXÍTONAS (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

AS PROPAROXÍTONAS

Violante Pimentel

A dupla caipira “Alvarenga e Ranchinho”, formada em 1929 por Murilo Alvarenga, mineiro de Itaúna, e Diésis dos Anjos Gaia, paulista de Jacareí, iniciou sua carreira apresentando-se em circos no interior de São Paulo.

Em 1934, Murilo e Diésis foram contratados pelo maestro Breno Rossi e passaram a se apresentar na Rádio São Paulo.

A carreira da dupla se consolidou, após a mudança para o Rio de Janeiro, onde os dois gravaram o seu primeiro disco, em 1936, e passaram a integrar o grupo de atrações do Cassino da Urca. Foi aí que trabalharam durante dez anos e aprimoraram o talento para a sátira política, uma das suas principais características. Por causa dessas sátiras, participaram de dezenas de campanhas eleitorais e também acabaram presos diversas vezes.

A dupla participou do primeiro filme falado feito em São Paulo, “Fazendo Fita”, (1935), levada por Ariovaldo Pires, o Capitão Furtado. Fizeram participações em mais de 30 filmes.

Em 1949, a dupla “Alvarenga e Ranchinho” lançou a composição “O Drama de Angélica”, na qual, cada verso termina com uma palavra proparoxítona, ou seja, a sílaba tônica cai na antepenúltima sílaba. Essa música foi o seu maior sucesso.

Ao que parece, essa dupla foi a precursora das composições com versos terminados em palavra proparoxítona.

“O Drama de Angélica” nos remete àqueles “causos” que ouvíamos de nossos antepassados, histórias das quais ansiávamos pelo final, mesmo que fosse trágico. Uma verdadeira novela, arrebatadora, com idas e vindas, em uma interpretação perfeita da dupla. Ao final, não há como não sorrir, em face do modo satírico, como é contado “O Drama de Angélica”.

A formação original da dupla se desfez em 1965, quando Diésis a abandonou definitivamente. Sumiços anteriores já haviam ocorrido, quando, então, havia sido substituído por Delamare de Abreu, irmão por parte de mãe de Murilo Alvarenga.

Com o rompimento definitivo, um “terceiro” Ranchinho surgiu, Homero de Souza Campos, conhecido também como Ranchinho da Viola e como “Ranchinho II” (apesar de ter sido o “terceiro”). Homero cantou com Alvarenga de 1965 até o falecimento deste, em 1978.

Pois bem. Em 1971, cerca de vinte anos depois do lançamento de “O Drama de Angélica”, de “Alvarenga e Ranchinho”, foi lançado o LP “CONSTRUÇÃO”, de Chico Buarque de Holanda, com dez músicas belíssimas, onde se destaca “Construção”, que dá nome ao disco, com estrondoso sucesso no cenário da MPB.

Por coincidência, “Construção” de Chico Buarque e “O Drama de Angélica”, da dupla caipira “Alvarenga e Ranchinho”, tem em comum, versos cuja última palavra é proparoxítona. Além disso, “Construção” também retrata um drama do cotidiano, tal qual a música “O Drama de Angélica”, com a diferença de que esta última tem conotação satírica.

Para muitos admiradores, somente Chico Buarque, com a sua inteligência privilegiada, seria capaz de usar essa peculiaridade, numa composição musical.

Indiscutivelmente, Chico Buarque é genial. Mas, em relação às proparoxítonas ao final dos versos, a dupla caipira, “Alvarenga e Ranchinho”, já tinha feito o mesmo, há mais de vinte anos (1949), com a música “O Drama de Angélica”.

A coincidência de versos, finalizando com uma palavra proparoxítona, feitos por compositores de mundos e épocas diferentes, chamou a atenção da crítica.

Na verdade, a genialidade é universal. Não existe regra geral para se nascer gênio, pessoa com grande capacidade mental. Ela pode se manifestar por um intelecto de primeira grandeza, ou um talento criativo fora do comum.

Chico Buarque, intelectual com ótima formação cultural, e a dupla “Alvarenga e Ranchinho”, de origem humilde, que iniciou a carreira artística em circo, tiveram inspirações parecidas, ao escrever um drama, com versos terminados com uma palavra proparoxítona.

Ainda hoje, o LP “CONSTRUÇÃO”, de Chico Buarque, lançado no início de 1971, é considerado um dos grandes discos da história da MPB, com versos alexandrinos (o que contém doze sílabas poéticas) e uma palavra proparoxítona no final de cada verso.

O primeiro poeta brasileiro a usar versos alexandrinos foi Machado de Assis, ainda no período do Romantismo, movimento artístico caracterizado pelo sentimentalismo, subjetivismo e fuga da realidade.

Esse movimento surgiu no século XVIII na Europa, durante a revolução industrial, e logo se espalhou por diversos países, como: França, Alemanha, Inglaterra, Brasil e Portugal. Durou até meados do século XIX, quando surgiu o Realismo.

A coincidência que há nas duas canções, “O Drama de Angélica (1949 – Alvarenga e Ranchinho) e “Construção” (1971 – Chico Buarque) não está relacionada somente à presença de uma palavra proparoxítona no final de cada verso. As duas canções descrevem, respectivamente, um drama do cotidiano.

Chico Buarque descreve, em “Construção”, o dia a dia de um operário da construção civil, com todos os riscos e desencantos, usando versos alexandrinos ( o que contém doze sílabas poéticas) e uma palavra proparoxítona no final de cada verso. No caso, as proparoxítonas funcionam como tijolos em uma construção mágica e trágica, em uma tensão crescente, embalada pelo bonito arranjo do maestro Rogério Duprat (1932 – 2006).

Chico Buarque é um intelectual, com sólida formação cultural. Tornou-se um ícone da Música Popular Brasileira.

Por sua vez, a dupla “Alvarenga e Ranchinho”, de origem humilde, iniciou a carreira artística em circo e tornou-se um ícone da música caipira, hoje chamada “Música Sertaneja”.

Salve a genialidade do Compositor Brasileiro!

 

Drama de Angélica (1949) – Murilo Alvarenga e M.G. Barreto

 

 

Ouve meu cântico
quase sem ritmo
Que a voz de um tísico
magro esquelética
Poesia épica
em forma esdrúxula
Feita sem métrica
com rima rápida

 

Amei Angélica
mulher anêmica
De cores pálidas
e gestos tímidos
Era maligna
e tinha ímpetos
De fazer cócegas
no meu esôfago

Em noite frígida
fomos ao Lírico
Ouvir o músico
pianista célebre
Soprava o zéfiro
ventinho úmido
Então Angélica
ficou asmática

Fomos ao médico
de muita clínica
Com muita prática
e preço módico
Depois do inquérito
descobre o clínico
O mal atávico
mal sifilítico

Mandou-me célere
comprar noz vômica
E ácido cítrico
para o seu fígado
O farmacêutico
mocinho estúpido
Errou na fórmula
fez despropósito

Não tendo escrúpulo
deu-me sem rótulo
Ácido fênico
e ácido prússico
Corri mui lépido
mais de um quilômetro
Num bonde elétrico
de força múltipla

O dia cálido
deixou-me tépido
Achei Angélica
já toda trêmula
A terapêutica
dose alopática
Lhe dei em xícara
de ferro ágate

Tomou num fôlego
triste e bucólica
Esta estrambólica
droga fatídica
Caiu no esôfago
deixou-a lívida
Dando-lhe cólica
e morte trágica

O pai de Angélica
chefe do tráfego
Homem carnívoro
ficou perplexo
Por ser estrábico
usava óculos
Um vidro côncavo
o outro convexo

Morreu Angélica
de um modo lúgubre
Moléstia crônica
levou-a ao túmulo
Foi feita a autópsia
todos os médicos
Foram unânimes
no diagnóstico

Fiz-lhe um sarcófago
assaz artístico
Todo de mármore
da cor do ébano
E sobre o túmulo
uma estatística
Coisa metódica
como Os Lusíadas

E numa lápide
paralelepípedo
Pus esse dístico
terno e simbólico
“Cá jaz Angélica
Moça hiperbólica
Beleza Helênica

Morreu de cólica!”

* * *

Construção, de Chico Buarque

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 06 de maio de 2023

“À NOITE, TODOS OS GATOS SÃO PARDOS” (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

“À NOITE, TODOS OS GATOS SÃO PARDOS”

Violante Pimentel

“À noite todos os gatos são pardos” é uma expressão popular da língua portuguesa, que remete à ideia de que todas as coisas são semelhantes ou iguais no escuro. Interpretando este provérbio a partir de um ponto de vista literal e físico, compreende-se que em ambientes com pouca luminosidade, as coisas são dificilmente distinguíveis ou reconhecíveis pelos seres humanos.

As imperfeições físicas mal aparecem à noite, ao contrário das imperfeições de caráter, que são sempre visíveis através de gestos e atitudes, nas 24 horas do dia.

Antigamente, num passado remoto, quando não havia energia elétrica, o recolhimento das pessoas acontecia ao anoitecer, para evitar a escuridão. Com o êxito, em 21.10.1879, da invenção do norte-americano Thomas Alva Edison (1847–1931), a noite ganhou o brilho do dia, e a vida se tornou mais fácil.

Há pessoas notívagas, que trocam o dia pela noite, como também alguns animais.

A biologia descreve o comportamento observado em alguns animais, que dormem durante o dia e tornam-se ativos durante a noite.

A maioria dos seres vivos, principalmente os idosos, tem na noite, o período de descanso, muitas vezes com profundas alterações no metabolismo, tais como: redução dos batimentos cardíacos, diminuição da temperatura corporal (animais homeotérmicos ou substituição da fotossíntese pela respiração (vegetais superiores).

São denominados notívagos os seres que têm, no período noturno, o de maior atividade, não só no reino animal (morcegos, anfíbios e felinos), como entre os humanos.

 

 

Há pessoas que adoram a noite e se pudessem amanheciam o dia na rua, principalmente os boêmios.

Às vezes, em casas noturnas populares, é comum aparecerem algumas jovens, quase crianças, vendendo botões de rosa a homens, para ofertarem às suas namoradas.

Por mais bonitos que sejam os botões de rosa, simbolizando o amor, a atividade noturna dessas crianças/adolescentes não condiz com a idade que elas tem. `No horário em que deveriam estar dormindo, perambulam pelos bares da noite, vendendo flores, talvez para entregar o dinheiro a algum adulto, familiar ou não, e se expondo aos olhares maliciosos de pedófilos e outros degenerados, que tem em mente lhes fazer o mal.

À primeira vista, esse gesto está ligado à necessidade da sobrevivência. Entretanto, também pode ser uma porta aberta à prostituição infantil.

O que pensar de uma criança que, altas horas da noite, ao invés de estar dormindo, está perambulando pelos bares, implorando aos homens que lhe comprem um botão de rosa para a pessoa amada.

A primeira impressão é de que, ali, está o retrato da fome, da miséria, e da luta pela sobrevivência.

Entretanto, é constrangedor, ver os adultos dançando, comendo, bebendo e se divertindo na noite, enquanto uma criança pede esmola, usando como disfarce a venda de um botão de rosa.

Dificilmente, não se percebe a gravidade dessa atividade mercantil feita por uma criança, em plena noite, quando deveria estar em casa dormindo. Com certeza, algum mau-caráter se esconde por trás disso, e é quem fica com o dinheiro apurado no final da noite. Mas, pode acontecer coisa pior. Pode aparecer alguma proposta tentadora, de programa com cunho sexual, mais vantajosa do que a venda de botões de rosa, altas horas da noite.

Um simples botão de rosa, oferecido na noite por uma criança/adolescente, pode ser uma motivação para um pedófilo.

Mesmo que, com a compra desse botão de rosa se pense estar praticando um gesto de solidariedade, na realidade, quem assim procede, talvez esteja tentando absolver sua própria consciência, por estar, talvez, contribuindo para a prostituição infantil.

Esses contumazes frequentadores de bares, geralmente alcoolizados, se divertem na noite, enquanto a quase criança perambula por ali, tentando vender botões de rosa, ao mesmo tempo em que se expõe à prostituição infantil.

Neste mundo cão em que vivemos, com a prostituição infantil imperando, esse botão de rosa pode representar a moeda de troca, tanto para a prostituição infantil, como para amenizar a consciência dos incautos.

Longe dos olhos protetores da família e perto dos pervertidos olhos do seu algoz, é fácil imaginar quem sairá como vencedor. As esquinas das ruas mostram muito bem o placar desse perverso jogo.

A popular expressão “juntar a fome com a vontade de comer” teria aí um grande exemplo, pouco importando se a “comida” fornecida é indigesta, imoral ou criminosa. Os cidadãos comuns, frequentadores da noite, também tem sua parcela de culpa na prostituição infantil.

Mesmo porque, a expressão “a noite é uma criança” tem como público alvo os adultos, os adúlteros, os boêmios e os amantes da vida.

O que os frequentadores da noite fazem para ajudar a essas crianças/adolescentes é comprar os botões de rosa que as manterão, até, posteriormente, serem colhidas como rosas pelos jardineiros da exploração infantil.

De várias formas, podemos ajudar no combate à prostituição infantil. Há muitas instituições sérias, que trabalham com a inclusão social, e precisam de voluntários.

A omissão da sociedade não fica adormecida somente durante a noite. Durante o dia, ela também cochila, pois nunca se viu alguém denunciar a prostituição infantil, que existe no trabalho doméstico de crianças e adolescentes, que terminam violentadas pelos filhos dos patrões, ávidos por sexo, ou por eles próprios.

São estas omissões, noturnas ou diurnas, que estimulam e fazem aumentar a exploração e a violência contra crianças e adolescentes.

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 28 de abril de 2023

PODEROSOS ENDEMONIADOS (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

PODEROSOS ENDEMONIADOS

Violante Pimentel

“A astúcia dos pobres não é nada, se comparada à picaretagem dos poderosos”.

O poder é o demônio do homem. A sede do poder é mais forte do que a fome e outras necessidades básicas. Pela disputa do poder é que se faz a guerra.

O homem pode ter saúde, alimentação, divertimento, moradia, mas, mesmo assim, o que ele mais deseja na vida é o poder. O demônio do poder está sempre lhe atentando e quer ser satisfeito.

 

 

Lutero disse: “Se nos tiram o corpo e haveres, honra, mulher e filhos, bom proveito lhes faça. – não nos hão de tirar o poder.”

Segundo Nietzsche, o poder tem escalas: o poder do pai, do Estado, do chefe e do subchefe, o poder, enfim, que explica todas as formas do mal que vulgarmente é centralizado no demônio – o demônio do homem, que o leva a comer o fruto da árvore do Bem e do Mal para ser poderoso igual ao Deus que o criou.

É na vida política, que o demônio do poder mais se manifesta. O maior explora o menor, o menor explora o mínimo, e o mínimo busca outro mínimo a explorar.

Até mesmo na vida particular de cada um, o poder é o objetivo final de cada ação, por mais simples que seja. O poder do marido sobre a mulher, do guarda sobre o motorista, do motorista sobre o transeunte e, evidentemente, de um presidente de empresas ou da República sobre seus subordinados e sobre a nação.

O demônio do poder está no embrião de todo o processo político, das alianças e das rupturas. Aparentemente, há limites legais para o exercício do poder, mas, no subsolo das paixões, tudo é permitido, desde que, guardadas as conveniências de ocasião, o demônio que está a rugir em volta sempre faz mais um súdito.

Não se deve chutar cachorro atropelado. É uma maldade. Há um entendido de uma rede de TV, que a toda hora, nos debates políticos, diz ao vivo e a cores, não gostar do ex-presidente da República, e chega a lembrar o holocausto dos nazistas contra os judeus, desejando-lhe uma prisão perpétua ou pena capital. Se o poder estivesse nas mãos desse endemoniado, o ex-Presidente estaria “perdido”.

Mas o feitiço sempre vira contra o feiticeiro. E a lei do retorno faz com que o mal que se deseja a alguém retorne em dose dupla.

Pois bem. Há dois mil anos, o filósofo grego Diógenes saiu de casa, com uma lanterna na mão. Como o sol brilhava naquela manhã, todos perguntavam a ele a razão de levar uma lanterna e por que fazia isso. Diógenes respondia: “Procuro um homem.”

Diz a lenda que não encontrou nenhum homem nas ruas, nem nos lugares públicos. Todos eram incompetentes ou corruptos.

Alguém que já ocupou, honestamente, importantes cargos públicos no passado, hoje não aceitaria mais exercer nenhum cargo, pois a corrupção se alastrou e a contaminação é grande. A ganância e a inveja continuam ocupando os corações dos homens.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 21 de abril de 2023

O PODER DA MÚSICA (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

O PODER DA MÚSICA

Violante Pimentel

“Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.”

“Amor é fogo que arde sem se ver” é um soneto de Luís Vaz de Camões (1524-1580), um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos. O famoso poema foi publicado na segunda edição da obra Rimas, lançada em 1598.

Dona Lia, minha querida mãe, que há 24 anos se encantou (19.04.1999), ficava triste, sem saber por que, quando ouvia a canção napolitana “TORNA A SURRIENTO”. Durante toda a sua vida, minha Mãe se emocionou, ao ouvir essa lindíssima música. Ela dizia que aquela música mexia com o coração dela. Sentia uma mágoa que vinha de dentro, uma saudade que ela não sabia de que, nem por que. Não entendia porque essa música mexia tanto com ela. Aquele sentimento “que não se vê, e dói não sei por que”, como disse Camões. Era uma saudade que ela não identificava.

Certa vez, conversando com sua velha tia Idyla Lima, tocou nesse assunto, e ficou sabendo por ela, o que tinha a ver essa música com a tristeza que ela sentia, sempre que a ouvia, a ponto de vir às lágrimas.

Disse-lhe a tia Idyla, que, poucos dias depois da morte de sua irmã, a poetisa Anna Lima, que morreu de parto em 1918, deixando seis filhos órfãos, inclusive minha mãe com quatro anos, a levou, junto com os irmãos, num domingo à tarde, para distrai-los, a um teatro, onde uma importante orquestra daria um concerto.

Pois bem. Essa orquestra, entre outras músicas, tocou a belíssima música italiana, “TORNA A SURRIENTO”. Esse fato e a beleza da música marcaram tanto a alma da minha mãe, criança de quatro anos, que, até o fim da sua vida, se ouvisse essa música, se emocionava, a ponto de chegar às lágrimas. Antes, chorava sem saber por que. Mas, depois que soube pela tia Idyla, que aquela era a música de grande sucesso na época em que ocorreu a morte de sua mãe, Anna Lima, a emoção passou a ser maior, pois conheceu a história, e isso a marcou.

Torna a Surriento é uma famosa canção napolitana, composta por Ernesto de Curtis e Giambattista de Curtis, em 1902, sendo registrada oficialmente em 1905. Vários intérpretes a gravaram, como Benjamino Gigli, José Carreras, Plácido Domingo, Luciano Pavarotti, Mario Lanza, Robertino Loretti e outros. Serviu de base para várias versões. Na língua inglesa, a mais famosa é Surrender, de Elvis Presley, de 1961.

Pois bem. As tias queriam adotar os órfãos de mãe, mas o viúvo, Celestino Pimentel, não concordou. Poucos meses depois de viúvo, ele contraiu novas núpcias, para sanar o problema dos filhos, muito mais do que por amor à nova esposa.

Lia, que anos depois se casou com Francisco Bezerra, e os dois vieram a ser meus pais e dos meus cinco irmãos, não se lembrava das feições de Anna Lima, nem da convivência com ela. Só a conhecia por retrato, por tê-la perdido em tenra idade. Somente os filhos mais velhos de Anna Lima se lembravam, vagamente, da mãe.

“O amor é a força mais sutil do mundo”. (Gandhi)

E o amor materno é o sentimento mais forte do mundo.

Imagino a aflição da poetisa Anna Lima, minha avó materna, ao sentir que iria morrer e deixar seis crianças órfãs. E o pavor das crianças, ao verem a mãe se encantar para sempre, sem contar nunca mais com o aconchego e o amor dessa mãe extremada, que vivia para os seus “querubins”, como dizia em versos. Eles eram a maior razão da sua vida.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 14 de abril de 2023

“MEXERICOS DA CANDINHA” (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

“MEXERICOS DA CANDINHA”

Violante Pimentel

O modismo esteve sempre presente na nossa vida. Ele existe nos hábitos de alimentação, modelos de roupas e calçados, cortes e cores de cabelos, móveis e automóveis, e até nos remédios. Também existe nas palavras, gírias e costumes.

Assim como os políticos e o dólar, as palavras tem seus altos e baixos. Hoje, podem valer muito , mas, amanhã, podem não valer nada.

A palavra “mexerico”, tão em alta nos anos 60, teve sua baixa e foi substituída por “fofoca”.

“CANDINHA”, como era conhecida a maior mexeriqueira da TV e do rádio brasileiros dos anos 60, reinava absoluta do alto de sua caricatura de óculos gatinho, na “Revista do Rádio“. Não tinha concorrente.

Sua coluna, “MEXERICOS DA CANDINHA”, era tão famosa, que mereceu uma música cantada pelo “Rei”, Roberto Carlos, com o mesmo título.

Hoje em dia, os astros e estrelas do círculo dourado da TV estão pouco se lixando para os inúmeros mexericos semanais, que aparecem nas revistas especializadas, que, de certa forma, os mantém na mídia e até os protegem de qualquer escândalo maior. O troca-troca de maridos e até “maridas” (palavra inventada e que está na moda) não causa espanto a ninguém, na atual sociedade, tamanha a degeneração dos costumes.

As colunas sociais atuais não mais se preocupam se determinada atriz está de caso com seu galã. Assim que os dois aparecem de mãos dadas na noite, as colunas de mexericos de hoje já se encarregam de chamar o mesmo de “maridão”, não importando se aquele homem ou aquela mulher ainda divide a cama com o “ex” ou a “ex”. Tempos modernos…

Candinha era diferente. Quando dizia que “fulana estava ontem jantando com sicrano”, todos os leitores sabiam qual era a comida. E não era exatamente uma “pizza”.

A coluna de mexericos, assim como a crítica diz, é um subproduto da TV. O público gosta de descobrir que, por trás daquela carinha de anjo ou do famoso galã, alguma coisa de podre acontece. É como se, a cada semana, eles puxassem a máscara de alguém e expusessem sua verdadeira face.

E nesse campo, Candinha foi campeã.

Nos dias atuais, “MEXERICOS DA CANDINHA” deveria ser o nome de um programa de debates de uma certa emissora de TV, com seus intoleráveis comentaristas fanáticos, num debate contínuo onde a palavra-chave é o ex-Presidente Jair Messias Bolsonaro, 24 horas por dia. Nesta emissora de TV, cai como uma luva, o título “MEXERICOS DA CANDINHA”. Sistematicamente, o tema dos debates é a vida do ex-Presidente Bolsonaro, numa perseguição gritante e mesquinha.

Ontem à noite, numa das reprises costumeiras de um dos debates, um conhecido jornalista, respondendo a uma pergunta sobre o que havia feito de bom o atual presidente nestes 100 dias de governo, respondeu que este não está fazendo nem fará nada, enquanto não se esquecer do ex-Presidente Jair Messias Bolsonaro, e deixar de, diariamente, atirar pedras contra ele, procurando injuriá-lo, difamá-lo e caluniá-lo, cada vez mais. E que isso só contribui para o crescimento do ex-Presidente, e o arrependimento de quem fez o L.

Enquanto isso, o MST continua invadindo terras produtivas ou improdutivas, a cada dia, como aconteceu recentemente em Pernambuco, sem que o atual presidente tenha feito, até agora, nestes 100 dias de governo, qualquer pronunciamento no sentido de conter a fúria dos invasores.

A referida emissora de TV, a cada dia, atiça e faz crescer cada vez mais a paixão dos bolsonaristas pelo seu ídolo, que, inclusive, foram impedidos pela força policial suprema, de recebê-lo nos braços no saguão do aeroporto de Brasília, na manhã do seu retorno do imprescindível autoexílio. Gente para recebê-lo, não faltou, mas Bolsonaro foi levado a deixar o aeroporto pela saída dos fundos, frustrando a multidão que o aguardava. Isso aumentou ainda mais a revolta do povo..

A mídia petralha fala mal do ex-Presidente Bolsonaro 24 horas por dia. Sobre o atual Presidente, quando muito, destacam a forma irresponsável da sua fala, ao dizer em entrevista, que o Senador Sérgio Moro fez “armação”, ao denunciar que estava, junto com a família, sendo ameaçado de sequestro e possível morte, por um esquema criminoso.

É revoltante um canal de TV se posicionar, ostensivamente, contra um ex-presidente, quando o dever do jornalista é mostrar a verdade dos fatos, sem expor suas preferências políticas nem suas opiniões pessoais e maldosas. Isso não é jornalismo sério! São os “MEXERICOS DA CANDINHA”, dos anos 60, subproduto da televisão, essa “máquina de fazer doidos”, segundo Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto, 1923-1968)

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 07 de abril de 2023

EVOCAÇÃO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

EVOCAÇÃO

Violante Pimentel

 

“Uma esmolinha, pra minha Mãe jejuar no dia d’hoje!”

Era com essas palavras, que as crianças pobres de Nova-Cruz (RN) esmolavam de porta em porta, na Quinta-Feira Santa e Sexta Feira da Paixão.

Ainda hoje, essa frase ecoa nos meus ouvidos, como um apelo desesperado contra a fome.

Na sala da nossa casa, ficavam dois sacos grandes, um com brote, outro com bacalhau. Eram as esmolas que Dona Lia, minha mãe, distribuía aos pedintes nos dias da Semana Santa. Mas o número de pedintes aumentava mesmo era na Quinta-feira Santa e Sexta-Feira da Paixão.

 

 

Nessa época, final da década de 50, e anos 60, bacalhau era produto de baixo custo. Não chegava a Nova-Cruz o bacalhau de 1ª qualidade.

A Semana Santa, principalmente para os católicos, era uma época triste e sombria. O martírio de Nosso Senhor Jesus Cristo era revivido com respeito.

Para começar, não havia aula durante a Semana Santa. Não se ouvia música profana; ninguém chamava “nome feio”, e ninguém brigava. Era um período de reflexão, arrependimento, união e orações.

Na Quarta-Feira de Trevas, que antecede o martírio de Jesus, parecia que o mundo estava de luto, com a perspectiva de que no dia seguinte começaria o seu Calvário. Na Igreja lotada de fiéis, era rezado o “Ofício das Trevas”, no final da tarde,

A crendice popular era tão forte, que grande parte do povo da roça chegava ao ponto de não tomar banho na Quarta-Feira de Trevas, achando que era pecado e temendo ficar entrevado (aleijado). Foi preciso a intervenção de Frei Damião, numa das “Santas Missões” que costumava fazer na cidade, para convencer o povo da roça de que não era pecado tomar banho na Quarta-feira de Trevas. E o Santo Frade Capuchinho sempre terminava seus sermões pela manhã, dizendo:

– Agora, vocês voltem para suas casa, e vão tomar banho!!! Não quero que cheguem aqui na Igreja mais tarde, cheirando mal.!

Na Quinta-Feira Santa, quando se revive a traição de Judas durante a Última Ceia, sentia-se na cidade o clima de tristeza e solidariedade. Revivia-se o começo do martírio de Jesus, que carregou sua Cruz até o Calvário ou Gólgota, colina na qual foi crucificado e que, na época, ficava fora de Jerusalém.

Era comum o furto de galinhas na noite da Sexta-Feira da Paixão, costume oriundo da cultura popular nordestina. O produto do furto garantia o tira-gosto aos cachaceiros de plantão, que bebiam até o amanhecer. Essa “brincadeira” grosseira, detestada pelas donas de casa, quase sempre era praticada por turmas de amigos, que gostavam de farrear.

Para se precaver dessa prática desalmada, à tardinha, as donas de casa mais cuidadosas transferiam as galinhas, do galinheiro para um quarto dentro de casa.

Na Semana Santa, as comadres da minha mãe, que residiam na zona rural, traziam-lhe beijus de goma com coco de presente, feitos em Casa de Farinha. O cheiro e o gosto desses beijus, eu nunca esqueci.

Os católicos não comiam carne durante a Semana Santa. O almoço tinha como “mistura”, bacalhau popular, peixe salgado, ou fritada de sardinha “Coqueiro”. Estou falando de uma época em que o progresso estava muito distante de Nova-Cruz. Não havia energia elétrica e, consequentemente, não havia geladeira.

Na Sexta – Feira da Paixão, Jesus estava morto e a imagem do seu corpo ficava em exposição na Igreja, durante todo o dia. Formava-se uma fila interminável, para que os fiéis o beijassem. Era o chamado dia do “beija”.

Nesse dia triste, eram obrigatórios, de acordo com os preceitos da Igreja Católica, o jejum e a abstinência de carne e bebidas alcoólicas.

As rádios só transmitiam músicas sacras ou clássicas. Não se ouvia o apito do trem, pois ele não trafegava. Não havia entrega de leite dos currais, pois não se tirava leite naquele dia. Não se comercializava nenhuma mercadoria, em respeito ao sofrimento de Jesus Cristo, traído por Judas, e vendido por 30 moedas.

Os clubes sociais, bares ou outros ambientes de entretenimento, também não funcionavam.

A tristeza só desaparecia no Sábado de Aleluia, que revive a expectativa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nesse dia, havia a malhação de Judas, um boneco/homem, de palha ou de pano, em tamanho natural, exposto em praça pública para ser castigado, por ter traído Jesus.

A malhação ou queima de Judas é uma tradição vigente em diversas comunidades católicas e ortodoxas, que foi introduzida na América Latina pelos espanhóis e portugueses.

É também realizada em diversos outros países, sempre da Sexta-Feira da Paixão para o Sábado de Aleluia, à meia noite. Simboliza a morte de Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Jesus.

A liturgia da Páscoa, ou passagem, ocorre da madrugada do Sábado de Aleluia para o Domingo da Ressurreição, a data mais importante do calendário Cristão.

Segundo a Bíblia, Cristo ressuscitou três dias depois de morrer crucificado. Este é o maior motivo e fundamento da Fé Cristã.

Esse é o retrato da Semana Santa da minha infância e juventude, um tempo feliz, quando a vida me sorria e todos estavam vivos.

Olhando pelo retrovisor do tempo, sinto saudade do meu porto seguro, Francisco e Lia, e da família reunida durante a Semana Santa.

Evoco um país de sonhos, trazendo no peito um coração cheio de saudade.

Quero voltar o tempo, mas sei que é impossível. E a saudade faz chover nos meus olhos.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 31 de março de 2023

PENSAMENTO DE POBRE (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

PENSAMENTO DE POBRE

Violante Pimentel

Pessoas como eu, criadas sem luxo, que se acostumaram a não ter contato com coisas supérfluas, não perdem o sono, pensando em diamantes e outras pedras preciosas de altíssimo custo, que jamais tiveram ao seu alcance.

 

 

Os valores variam de pessoa para pessoa. Entretanto, o povo brasileiro se vê, agora, obrigado a prestar atenção aos acontecimentos que a mídia exibe 24 horas por dia, e que enlouquecem os devotos do supérfluo.

Não tenho joias como gênero de primeira necessidade. Nunca senti necessidade de ter uma joia.

Não sinto necessidade de joias, nem nunca pensei em comprá-las, mesmo para pagar em “parcelinhas” de cartões de crédito. Minhas prioridades são outras. Jamais deixaria de comer para luxar.

Esses informantes da mídia não cansam de fazer uma barulheira nos jornais, rádios e TVs sobre as tais joias valiosíssimas, recebidas da Arábia Saudita, legalmente, pelo Presidente Jair Messias Bolsonaro, durante a sua gestão. Esse assunto é a bola da vez.

Com ódio nos olhos e um riso sardônico nos lábios, os comentaristas políticos da mídia babam de inveja, por não estarem no lugar do ex-presidente, para terem recebido essas pedras preciosas. Pelo tempo, já as teriam vendido e estariam usufruindo do dinheiro. Ao contrário, os mimos continuam bem guardados e preservados no acervo presidencial.

Estamos vivendo um verdadeiro Febeapá – “Festival de Besteiras que Assola o País” (1966). Sérgio Porto, o nosso inesquecível Stanislaw Ponte Preta (Rio de Janeiro, 11 de janeiro de 1923 — Rio de Janeiro, 30 de setembro de 1968), faz muita falta. Lá no Céu onde se encontra, deve estar escrevendo muito no Jardim do Éden e se divertindo com os assuntos que dominam a mídia brasileira.

As falências se sucedem e muitas casas comerciais sólidas veem-se ameaçadas com o aumento de tributos. Para que haja um comércio próspero, é necessário que ele exista onde a população também seja próspera e endinheirada.

O comerciante, para ser bem sucedido, precisa ter tino comercial no sangue, coisa que se transfere de pai para filho, com raras exceções. Não é preciso ter frequentado nenhuma academia de comércio, nem curso de Ciências Contábeis, Ciências Econômicas ou Atuariais, para se ter tino comercial. Via-se isso, nas vendas e armazéns do interior, num passado remoto, onde havia comerciantes riquíssimos, mesmo analfabetos. Bastava que tivessem um guarda-livros (contador), honesto, e o comércio prosperava.

Quando é começo de mês, época dos pagamentos salariais, as vendas tem um grande movimento. É a fase em que os consumidores compram mais. No meado do mês, as compras diminuem, e no final do mês, a pindaíba é grande, para os trabalhadores assalariados. Enquanto isso, os políticos e artistas tomam banho com o dinheiro público.

Os impostos e outras tributações fiscais concorrem para a queda dos comerciantes.

Pois bem. Eu jamais deixaria de comer para poder luxar. Não consigo entender como se tem loucura por joias. Nunca me senti atraída por esses faiscantes objetos.

Meus valores são outros. Perguntem-me para que servem a carne, o leite, as verduras, e outros gêneros alimentícios, que estou por dentro. Sobre as joias, o que eu sei é que elas não dão saúde a ninguém. E a morte quando se aproxima, não recebe propina, nem em joias.

Finalmente, não entendo de preço de joias. Nem me interesso por elas. Em compensação, uma coisa eu digo sem pestanejar: O preço da carne está pela hora da morte. E a picanha prometida à mesa do pobre ficou no esquecimento.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 24 de março de 2023

A ALCATEIA (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

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A ALCATEIA

Violante Pimentel

O lobo é um animal carnívoro e grande predador. Vive em bandos, denominados de alcateias.

O operam em grupo, onde cada membro tem um papel específico. Assim, matam presas que não iriam conseguir capturar sozinhos.

Alcateia é o coletivo de lobos. Designa um grupo de lobos, animais selvagens, que vivem, caçam, comem e dormem juntos. É uma estrutura familiar.

 

 

 

O termo é confundido com matilha, coletivo de cachorros.

Muitos pesquisadores já se dedicaram ao estudo das alcateias. Isso, porque a maneira hierárquica que os lobos usam para se organizar é intrigante, principalmente por serem animais selvagens e perigosos. Lembram muito os humanos.

A alcateia pode ser comparada a uma organização política ou familiar.

Como acontece nos núcleos familiares e políticos, na alcateia há o lobo líder, que exerce o domínio sobre os demais.

Na verdade, há o lobo líder e o vice-líder, que assume o lugar do chefe, na sua ausência.

O líder é o lobo mais forte e o mais dominante. Dá assistência a qualquer tipo de problema. Além disso, é ele que sai para a caça e determina quem comerá — depois dele.

A fêmea do líder, por sua vez, lidera as outras fêmeas da alcateia e usa sua sabedoria para garantir o bem-estar de todos.

O vice-líder é submisso, e verdadeiro saco de pancadas do líder, quando alguma coisa não dá certo. É o comando secundário da alcateia.

É comum que o vice-líder, na alcateia, esteja em segundo lugar, nos quesitos força e prestígio. A fêmea do líder é a responsável pelos lobinhos. Exerce o papel de babá, garantindo que todos os lobinhos cresçam saudáveis.

Por último, existem os lobos chaleiras, puxa-sacos ou babões, que não deixam de ser perigosos. São os lobos que não possuem um lugar garantido na alcateia; são mão de obra e andarilhos, meros prestadores de serviço. Por conta da insegurança do posto, esses lobos são tratados como companheiros de 2ª classe. Essa categoria de lobo sempre come por último. São tratados como verdadeiros “bodes expiatórios.” Mesmo assim, em termos, são protegidos pela alcateia.

De longe são reconhecidos os lobos puxa-sacos, pois a submissão é obrigatória na alcateia. Eles são deixados de lado nas brincadeiras e também precisam se encolher, baixar as orelhas, lamber o focinho do líder e, ainda, manter os rabos entre as pernas.

Daí, originou-se a expressão “ficou com o rabo entre as pernas”, que se diz, vulgarmente, quando alguém é maltratado e não reage.

Devemos ter muito cuidado, pois os lobos estão soltos!!! e há lobos vestidos com pele de cordeiro.

Está na Bíblia:

“Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores.” (Mateus 7:15-20).


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 17 de março de 2023

ESPANTANDO OS URUBUS (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

ESPANTANDO OS URUBUS

Violante Pimentel

 

Zezinho pula cedo da cama e, como sempre faz, deixa-a desarrumada. Também não tira o pijama, porque não dorme de pijama; tem a péssima mania de dormir de roupa. Toma um café preto e ralo e sai de casa tremendo de frio. Hoje não calçou o Conga; preferiu o sapato super velho, pois já sabia o que o esperava e aonde teria que ir.

Como companhia, um cajado pequeno, do seu tamanho, um ou dois sacos plásticos de supermercado e um lenço que sua mãe lhe amarra ao pescoço. Em determinado momento, esse lenço vai servir para cobrir seu nariz e sua boca: há gases no lugar onde ele vai, há péssimos cheiros, há micróbios, há bactérias e outros tipos de porcaria. Era o lenço de seu pai, agora é seu, pois virou o homem da casa desde que seu velho saiu para comprar cigarro e nunca mais voltou.

A mãe grita da porta: “Não esquece de cobrir os olhos, também, e não respire a fumaça que sai do chão”.

Depois de andar quase uma hora, Zezinho chega àquele monte enorme, o lixão. Percebe que está atrasado e quase não há onde fuçar.

Mais de cinquenta meninos chegaram antes dele e fuçaram primeiro; já pegaram os melhores restos, os mais frescos, aqueles que ainda serviam para comer. Mesmo assim, Zezinho cobre o rosto com o lenço, mete os pés no monturo e, com o cajado, espanta os urubus. Consegue salvar alguns restos de comida e se apressa em voltar para casa, onde a mãe o aguarda ansiosa.

Não tenho nada contra os urubus. Pelo contrário, gosto muito dos urubus, pelo serviço que eles prestam á humanidade, limpando o solo e a podridão dos animais em decomposição.

“Os urubus, aves becadas por natureza, não tem grandes dotes para canto, mas já decidiram que, mesmo contra a natureza, eles haverão de se tornar grandes cantores.”

Os urubus tem fama de dar azar. Isto é pura superstição. O ditado “um urubu pousou na minha sorte”, ´´e muito antigo, e faz parte da sabedoria popular.

Na minha terra natal, Nova-Cruz (RN), já ouvi gente dizer:

“Estou tão sem sorte, que só falta, agora, um urubu fazer cocô na minha cabeça.”

Se isto acontecer, será moleza demais!!!

Voando sob o céu azul, os urubus apresentam um espetáculo muito bonito: Fazem curvas suaves no espaço. Entretanto, mesmo com curvas suaves no voo, representam um perigo para a aviação. Eles tem sido responsáveis por inúmeros acidentes aéreos, na decolagem e no pouso, momentos críticos dos voos, conforme atestam as estatísticas. Os urubus se aproximam das turbinas dos aviões e são sugados, ou se lançam contra os vidros, como suicidas.

É impossível se cercar o ar ou erguer muralhas no espaço aéreo, pois, afinal, este pertence a todos, inclusive aos urubus.

Existem recursos técnicos, como a fumaça, que diminuiriam o perigo e afastariam os urubus. Mas, eliminá-los completamente é impossível. Outra solução seria deslocar os depósitos de lixo, das proximidades dos aeroportos, o que também é impraticável.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 11 de março de 2023

O MINISTRO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

O MINISTRO

Violante Pimentel

Sully, Maximiliano de Béthune, Barão de Rosny, (1559 – 1641) foi um dos mais ilustres ministros da França, durante o reinado de Henrique IV (1553-1610) .

Era protestante. Seu pai apresentou-o a Henrique de Navarra, que o levou consigo para Paris, onde ele cursou o Colégio de Borgonha. Escapou à matança de São Bartolomeu e prestou o serviço militar no exército do rei de Navarra.

Henrique IV (Pau, 13 de dezembro de 1553 – Paris, 14 de maio de 1610), também conhecido como “o Bom Rei Henrique”, foi o Rei de Navarra como Henrique III de 1572 até sua morte, e também Rei da França a partir de 1589.

Depois que Henrique IV subiu ao trono da França, Sully foi o seu confidente preferido. Nomeado, sucessivamente, Secretário de Estado em 1591, Conselheiro do Conselho das Finanças em 1596, Inspetor-mor em 1597, Superintendente das Finanças e Grão-mestre da Artilharia em 1599.

Foi, sobretudo, pelas suas reformas financeiras, que Sully se tornou célebre. Soube, à força de atividade, ordem e economia, realizar os planos concebidos por Henrique IV. Para remediar a penúria da França e do tesouro real, começou por estabelecer uma contabilidade severa e puniu os concussionários (funcionários que recebiam propina); fiscalizou a repartição da capitação (certo imposto pago por cabeça; o que cabia a cada um pagar); diminuiu as isenções; reduziu os juros da dívida por meio de uma conversão; estabeleceu, numa palavra, um verdadeiro orçamento de 40 milhões; protegeu a Agricultura, reparou as estradas, as pontes, procurou dotar a França com uma rede de canais, mas só pôde levar a efeito o canal de Briare. Restabeleceu as fortificações das Praças fronteiras e deu ao país uma excelente artilharia.

Muito apreciado por Henrique IV, Sully opôs-se, frequentemente, às suas prodigalidades e às das suas amantes.

Impediu que o rei casasse com Gabriella d’Estrées e trabalhou para o seu casamento com Maria de Medici.

Henrique IV soube, todavia, resistir ao seu ministro, criando e desenvolvendo as indústrias de luxo, das quais Sully não era partidário.

Henrique IV da França (III de Navarra) morreu em Paris, França, no dia 14 de maio de 1610, quando partia para uma campanha militar. Foi assassinado por um fanático chamado François Ravaillac.

Após o assassinato do rei, Sully conservou as suas funções, e em 1611 as intrigas da Corte obrigaram-no a demitir-se do cargo de Superintendente das Finanças, e de Governador da Bastilha. Exigiu, então uma soma avultada e uma grande pensão, porque estava longe de ser desinteressado.

O seu ciúme de todos os outros ministros e favoritos era perceptível a olho nu. No entanto, ele foi um excelente homem de negócios, e se opôs às despesas exageradas com as cortes, que foram a perdição de quase todas as monarquias europeias nesses tempos.

Era dotado de capacidade executiva, acima de tudo, com profunda devoção ao seu rei. Havia ganho, implicitamente, a confiança de Henrique IV, e provou ser o assistente mais capaz em dissipar o caos em que as guerras religiosas e civis tinham mergulhado a França.

A Sully, ao lado de Henrique IV, pertence o crédito para a transformação feliz que houve na França, entre 1598 e 1610, pelo qual a agricultura e o comércio foram beneficiados, e a paz externa e a ordem interna foram restabelecidas. Foi um mercantilista prático.

Sully não era popular. Era odiado pela maioria dos católicos romanos, porque era um protestante, e também pela maioria dos protestantes, porque era fiel ao rei, que havia se tornado católico romano. Portanto, por ser um dos favoritos do rei, Sully era odiado por todos e considerado egoísta, obstinado e rude.

Em 1634, foi-lhe dado o bastão de Marechal, por intervenção de Richelieu. Escreveu umas memórias, que foram publicadas com o título de “Sábias e Reais Economias de Estado”.

Sendo Sully ministro da Fazenda durante o reinado de Henrique IV, da França, certo dia este o notou preocupado, e perguntou-lhe a razão.

Senhor – respondeu o ministro Sully: – as necessidades do Estado são urgentes e vamos ser obrigados a criar novos impostos. É isto o que me preocupa.

Oh! Novos impostos!- exclamou o rei, ficando sisudo e perdendo, de repente, todo o ar de sua graça.-Irritado, desabafou:

– Não me fale nisto! Meu povo já está muito sobrecarregado de impostos para que lhe imponhamos outros! Mais impostos, é impossível!!!…

– Senhor – continuou Sully, – acho-me diante de sérios compromissos. As despesas aumentam dia a dia e as rendas diminuem, não dando para cobri-las. Preciso fazer grandes pagamentos e me encontro sem recursos. Já sabeis, Majestade, que aquele que segura o cabo da caçarola é o que em pior situação se acha.

Irritado, o rei perguntou:

– Quem disse isto?

– A sabedoria popular, Majestade. É voz corrente. – Respondeu o ministro.

– Pois está enganado! – contestou o monarca de cara fechada:

 – O que se acha em pior situação é o que está se cozinhando dentro da caçarola e não o que lhe segura o cabo!

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 03 de março de 2023

SÃO AS ÁGUAS DE MARÇO… (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO AMAJNAQUE RAMUNDO FLORIANO)I

 

SÃO AS ÁGUAS DE MARÇO…

Violante Pimentel

À propósito, no dia 22 de março de 1992, a Organização das Nações Unidas – ONU instituiu o Dia Mundial da Água, além de promover a Declaração Universal dos Direitos da Água, através da RES/64/292 de Julho de 2010, garantindo por lei o direito ao ser humano de usufruir de saneamento básico e acesso à água limpa e segura.

O calendário que usamos foi uma evolução do antigo calendário romano, e os nomes dos meses utilizados vieram dos deuses.

O nosso calendário, para contagem do tempo, permanece o mesmo, estabelecido pelo imperador romano Júlio César.

Escrevendo a história dos nomes dos meses do ano, é como se estivéssemos assistindo a um desfile dos meses romanos.

JANEIRO e FEVEREIRO DE 2023 já passaram. Estamos em Março, o terceiro mês, considerado o mês das águas.

MARÇO – Nome originado de Marte, o deus da guerra.

No desfile imaginário dos deuses romanos, Marte (Março) passa num carro puxado por dois cavalos, cujos nomes eram Terror e Fuga.

Para os romanos, Marte era mais do que um guerreiro. Era um deus que podia conseguir tudo pela sua grande força. Pediam-lhe chuva, e a chuva vinha.

Atualmente, março de 2023, continuamos ameaçados por um desfile fictício, onde o deus da guerra, Marte, nos ameaça, puxado por cavalos, que representam o ódio, a vingança e a censura. E a força das águas tem destruído vidas no Sul do País.

Falando nas águas do mês de março, ressaltamos a belíssima canção de Antônio Carlos Jobim, “Águas de Março“, uma verdadeira metáfora da imagem da passagem da vida cotidiana, sem interrupção, e sua inevitável progressão rumo à morte – como as chuvas do fim de março, que marcam o final do verão, no sudeste do Brasil.

A letra aproxima a imagem da “água” a uma promessa de vida, uma renovação.

O tema dessa composição começou a ser trabalhado por Tom Jobim, ao violão, no seu sítio do Poço Fundo, em São José do Vale do Rio Preto, região Serrana do Rio de Janeiro. De acordo com depoimento de Thereza Hermanny, esposa de Tom à época, a inspiração para “Águas de Março” surgiu ao final de um dia cansativo de trabalho de onde surgiram os primeiros versos “é pau, é pedra, é o fim do caminho”. Assim como quem estava cansado mesmo e querendo descansar.”

No ano anterior à composição de “Águas de Março“, Tom Jobim havia sofrido a única grande perseguição política em sua vida. Em um protesto contra a censura que vigorava durante a ditadura militar no Brasil, Tom Jobim e alguns compositores assinaram um manifesto e se retiraram do Festival Internacional da Canção, da Rede Globo. Doze artistas, entre os quais Tom, foram detidos e, durante algumas horas, interrogados. Segundo declarações posteriores de Chico Buarque, Edu Lobo e Ruy Guerra, um diretor da emissora esteve presente e insistiu para que os compositores voltassem atrás e retornassem ao festival. A pressão não funcionou, mas – na opinião de Chico e Ruy – instigou o aparelho repressivo do regime a enquadrá-los na Lei de Segurança Nacional. Depois, Tom foi intimado várias vezes a prestar depoimento, chegou a ter o seu telefone grampeado e as suas cartas, violadas. Segundo Tom, a questão foi resolvida “de uma maneira bastante brasileira”, quando um escrivão de polícia solidário o chamou e disse: “Olhe, o senhor não queira se meter com polícia… Isso aqui não é bom. Negócio de polícia não é bom. Vou bater um negócio aqui para o senhor…” E assim, o escrivão bateu à máquina de escrever uma declaração, que Tom assinaria. “Este papel aqui diz que o senhor não teve intenção”.

Para a revista Playboy, em 1988, Tom contou que, à época da criação de “Águas de Março“, o médico lhe disse que iria morrer de cirrose. E ele escreveu: “É um resto de toco, é um pouco sozinho'”.

Em 1992, para o Jornal do Brasil, ele declarou que escreveu “Águas de Março” em um período em que estava numa grande fossa. Parecia que tudo havia acabado para ele, e que não lhe restava nada a fazer. Por isso, se entregava à bebida.

A letra de “Águas de Março” é estruturada em um único verbo (ser), conjugado na terceira pessoa do singular, no presente do indicativo em, praticamente, todos os versos – exceto no refrão, transformado em plural (“São as Águas de Março …”. Há uma constante alternância entre versos considerados otimistas e pessimistas, além do uso de antítese (“vida”, “sol” / “morte”, “noite”), pleonasmo (“vento ventando”), paronomásia (“ponta” / “ponto” / “conto” / “conta”).

Sua letra tem caráter pouco narrativo e fortemente imagético, constituindo-se como séries descritivas conectadas a um espaço semântico amplo. Muitos elementos, de natureza geral, podem referir-se à cena do sítio: “pau”, “pedra”, “resto de toco”, “peroba-do-campo”, “nó na madeira”, “caingá”, “candeia”, “matita perê”, o que enquadra “Águas de Março” em um repertório de canções ecológicas.

A letra é uma profunda reflexão do sentido da vida.

ÁGUAS DE MARÇO

É o pau, é a pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba no campo, é o nó da madeira
Caingá candeia, é o matita-pereira

É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento vetando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira

É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto um desgosto, é um pouco sozinho

É um estepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É um pingo pingando, é uma conta, é um ponto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manha, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama

É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terça
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

Pau, erda
Im, inho
Esto, oco
Oco, inho
Aco, idro
Ida, ol
Oite, orte
Aço, zol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

 

 

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 25 de fevereiro de 2023

EVOCANDO “O BOBO DA CORTE” (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

EVOCANDO “O BOBO DA CORTE”

Violante Pimentel

“Bobo da Corte” era o nome que se dava ao “funcionário” contratado pelas cortes europeias, na Idade Média, com a finalidade de divertir o rei, a rainha e seu séquito.

Comparado a um palhaço, o bobo, muitas vezes, contrariava a Corte, com brincadeiras abusivas, que apontavam de forma grosseira os defeitos da sociedade.

 

 

Esse “funcionário” era o único que podia fazer críticas irônicas ao rei, sem correr o risco de ser punido. Também participava dos banquetes do reino. Usava uniformes coloridos, espalhafatosos, e chapéus bizarros, com pontas e alguns chocalhos amarrados.

Além de fazer a corte rir com palhaçadas, o “Bobo da Corte” também declamava poesias, tocava algum instrumento, dançava, cantava, fazia mímicas e malabarismos. Era o cerimonialista das festas. Sua característica principal era o exibicionismo e o exagero, tanto nos trajes usados, como nos gestos e palavras.

Esses plebeus, pagos para divertir a nobreza e a realeza, não eram loucos nem tinham deformidades físicas. Também não faziam parte do grupo de corcundas e anões, que muitas cortes adotavam como circo particular.

Para alguns estudiosos, o “Bobo da Corte” era um sabidão, e de bobo só tinha o nome.

Na opinião do grande filósofo do século XVI, Erasmo de Rotterdan, o “Bobo da Corte” tinha, paralelamente, um papel principal, oculto, na Corte: Era ele quem contava ao rei o que ninguém queria que o rei ficasse sabendo. Era o espelho de todo o grotesco dos hábitos da Corte. Era uma espécie de “dedo duro” ou informante, com livre acesso ao rei. Era o fuxiqueiro da Corte.

A figura do Bobo da Corte sempre esteve associada ao divertimento, palhaçadas, e ao prazer que davam ao rei suas piadas e brincadeiras.

Usando-se a caracterização do “Bobo da Corte”, foi criada a décima terceira carta do baralho, o Curinga, a carta que pode alterar o jogo completamente.

Entre as habilidades do “Bobo da Corte”, estava ainda a de imitar ou “arremedar” as atitudes e gestos faciais e corporais das pessoas do reino. Também contava histórias por ele criadas, cheias de disparates e indiretas, incitando a reflexão das pessoas para a incoerência do comportamento dos poderosos.

O gênio do teatro inglês, William Shakespeare (1564-1616), deu destaque à figura dos bobos, dando a eles papeis de grande importância em sua obra. Nas suas peças “Rei Lear” e “A Noite de Reis”, o autor elevou a posição do bobo junto aos poderosos, com interpretações de papeis de grande importância e destaque. O bobo, nessas peças, é o personagem que se sobressai pela esperteza e inteligência. Pode fazer críticas aos próprios reis, com comentários picantes, mas com os quais o público vai às gargalhadas.

No baralho, o Bobo da Corte é representado pelo Curinga, a carta que pode alterar o jogo completamente.

A figura do “Bobo da Corte” existiu até o século XVII.

O vocábulo “bobo” consta no MINIDICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA, de Ruth Rocha, como “Palhaço que divertia os nobres”.

Nos tempos atuais, a expressão “bobo da corte” é usada de forma pejorativa. Caracteriza alguém, sem conteúdo ou sem seriedade, uma figura tola e hilária, que não pode ser levada a sério.

Há vários “Bobos da Corte” na política atual. Verdadeiros palhaços, que fazem do povo brasileiro gato e sapato, e atropelam os preceitos constitucionais.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho segunda, 20 de fevereiro de 2023

FALANDO EM CARNAVAL (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAMUNDO FLORIANO)

 

FALANDO EM CARNAVAL

Violante Pimentel

 

O Carnaval é considerado reminiscência das festas pagãs Greco-romanas, que ocorriam entre dezembro e fevereiro.

No Brasil, o Carnaval chegou com os portugueses, na comemoração do entrudo, que festejava a entrada da primavera e abria as solenidades litúrgicas da Quaresma, período da abstinência de carne – palavra que designa o nome carnaval.

O entrudo era uma festa barulhenta, suja, e por vezes, violenta.

Foi a partir da segunda metade do séc. XIX, que o entrudo passou a conviver com bailes de máscara em teatros e clubes, à moda europeia.

A primeira música carnavalesca composta no Brasil foi “Ô Abre-alas”, composta por Chiquinha Gonzaga em 1899. Sinhô, compositor da época, também é considerado o pioneiro da mistura de classes sociais no carnaval. Primeiro passo, rumo à concepção atual dos desfiles das grandes escolas de samba.

Aos poucos, o carnaval foi se transformando na expressão que mais representa a identidade cultural do brasileiro, reflexo de sua formação, de sua história, de suas venturas e desventuras.

O Carnaval reúne samba, frevo, festa de rua, com muita gente suada, corpos bronzeados, beleza, erotismo, e, acima de tudo, uma explosão de alegria. No carnaval, há uma mistura de classes sociais. Não se sabe, ao certo, se a explosão de alegria do Carnaval representa felicidade ou desespero.

As grandes escolas de samba aproveitam o Carnaval para fazer denúncias sociais e protestar contra a política.

Nos dias de Carnaval, não me canso de evocar Nova-Cruz (RN), minha terra Natal.

Olho pelo retrovisor do tempo e me vejo menina, num clima de alegria, com confete, serpentina e cheiro de lança-perfume, numa época em que ninguém tinha morrido, nem a maldade havia nascido.

Pois bem. Morava em Nova Cruz (RN) um rapaz de nome José Teixeira, filho de uma viúva, pertencente a uma ramificação de tradicional família daquela cidade. Dizem que, desde criança, sempre demonstrou tendência feminina nos gestos, preferindo os brinquedos das meninas e desprezando carrinhos e bolas com que os meninos brincavam. Cresceu assim, e, dessa forma, tornou-se rapaz, passando a se dedicar às prendas domésticas. Revelou-se um verdadeiro artista, aprendendo a bordar, pintar, confeccionar flores e chapéus femininos ornamentados.

Com o passar do tempo, José Teixeira dedicou-se completamente à decoração de ambientes e preparação de festas, difundindo cada vez mais suas habilidades artísticas. Com elas, passou a ganhar dinheiro, ajudando no sustento da mãe, viúva pobre, e suas duas irmãs.

Era religioso, educado, e sabia respeitar as pessoas, sendo por isso também respeitado. Nenhuma festa acontecia na cidade, sem que estivessem presentes a sua arte e o seu bom gosto. O preparo de altares na Matriz da Imaculada Conceição, Padroeira da cidade, os andores para as procissões, festas de casamento, aniversários, enfim, quaisquer acontecimentos festivos contavam com a sua indispensável participação.

Tornou-se o decorador oficial da cidade, nos eventos públicos ou privados, inclusive nas festas religiosas do final do ano, onde havia uma Quermesse para angariar fundos para a Igreja. Eram frequentes os jantares, os saraus, os bailes, as procissões e novenas, como manifestações da realidade artística, religiosa e social da cidade. Em tudo, estava a presença marcante desse filho de Nova-Cruz.

Merece destaque o fato de José Teixeira nunca ter escondido sua tendência feminina, mantendo, entretanto, uma conduta discreta e digna. Vivia para o trabalho, e nunca se meteu em fofocas. Seu excelente círculo de amizade incluía moças, senhoras casadas, senhores e rapazes. Até o Padre da Paróquia de Nova-Cruz lhe fazia elogios publicamente, em agradecimento pelo seu trabalho de embelezador e colaborador das festas e procissões. Nessa época remota, o distúrbio genético apresentado por José Teixeira era raro, e a cidade que o viu nascer o aceitava como era.

Sua presença tornou-se indispensável nas festas de aniversários, casamentos e bailes. Também ocupava lugar de honra na vida familiar da cidade, sendo sempre convidado para almoços e jantares, e ainda para padrinho de crianças. Tornou-se amigo e confidente de todos. A cidade se desenvolveu e passou a ter mais festas, aumentando também o prestígio de José Teixeira. Era um verdadeiro “patrimônio” artístico de Nova-Cruz.

Surgiu o primeiro bloco de carnaval da cidade, tendo José Teixeira como organizador, decorador e figurinista. Esse bloco saía às ruas de Nova-Cruz no tríduo carnavalesco, “assaltando” as residências de pessoas da cidade, onde era recebido com bebidas e salgadinhos, à vontade. As calçadas e ruas transformavam-se em salões de festa e a alegria era imensa.

O nosso Tio Paulo, uma figura inesquecível, era um dos maiores incentivadores do bloco, e o “assalto” à sua casa era indispensável! Irmão do nosso pai, Francisco, as casas eram vizinhas, e o “assalto” era aproveitado por nós, ainda crianças. Dançávamos no meio da rua, jogando confetes e serpentinas, presenteadas por ele, num clima de felicidade sem igual.

Tio Paulo distribuía lança-perfumes para os seus amigos, compradas em Natal, que eram usadas para perfumar o cangote das moças. E o cheiro se espalhava pelo ar. Não havia porre, loló nem brigas. O carnaval era só alegria e higiene mental. O Rei Momo e a Rainha do Carnaval eram eleitos, uma semana antes, por uma comissão apontada por José Teixeira, da qual fazia parte.

José Teixeira confeccionava a alegoria, porta-estandartes e as fantasias para o carnaval. Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas (vem Odalisca do meu harém vem, vem vem… ) e Piratas eram as principais fantasias. A tarde entrava pela noite, com trombones, tamborins e outros instrumentos, executando os mais belos e tradicionais frevos e marchinhas de carnaval. A cidade era calma e o povo todo era conhecido. Não havia o carnaval sensual/sexual de hoje, e os seios e nádegas eram guardados com recato. As marchinha e frevos não tinham maldade. Tinham beleza e poesia.

Podemos dizer que, em Nova-Cruz, foi José Teixeira quem inventou o Carnaval, o bloco, a alegoria e o estandarte, numa época em que a maldade nem pensava em nascer. Assim era José Teixeira. Totalmente feminino, amado, respeitado, e aceito por todos, sem sofrer exclusão pelo seu modo involuntário de ser. Para mim, ele era um Anjo. E Anjo não tem sexo…

Hoje, desapareceram a pureza e o lirismo das músicas de carnaval! Roubaram as fantasias do nosso povo. Os Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas e Piratas se desnudaram. Restaram expostos, em abundância, seios, nádegas e tatuagens. A modernidade nos deixou apenas o direito de nos fantasiarmos de PALHAÇOS!!!Palhaços das nossas ilusões! Decepcionados, abafamos no peito a saudade dos velhos carnavais!

 

Ó, abre alas, que eu quero passar!

 

 

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 13 de janeiro de 2023

FALANDO SÉRIO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAMUNDO FLORIANO)

 

FALANDO SÉRIO

Violante Pimentel

Não é difícil notar um quê de tristeza, no semblante de uma grande parte do povo brasileiro, decepcionado com o desfecho que tomou a cena política do nosso País.

Desde os tempos coloniais, impera no Brasil o hábito da falsa dádiva. A bondade, exercida com o dinheiro público, dá a impressão de que a produção da riqueza não pertence ao povo brasileiro. O poder público é obrigado a fazer o bem à sociedade. O que não pode é distribuir migalhas ao povo, como se estivesse dando esmolas.

A riqueza do País pertence ao povo. Os ladrões de colarinho branco não podem abocanhar o dinheiro público, como ratos famintos abocanham o queijo.

É comum, nas bocas e mãos dos que manipulam as vantagens dos cargos, funções e mandatos, a benevolência cômoda, como meio de promoções pessoais, para que aparentem grandes governantes.

Se hoje precisam ser mais cuidadosos, com as faturas controladas por lei, ainda restam os detritos de uma civilização, nutrida pelo estado, com o uso e abuso de artifícios, que promovem o culto pessoal e transformam o que é dever constitucional em falsa bondade.

Quantas vezes, os homens públicos são benevolentes com o povo, como se estivessem fazendo favor ou dando-lhe esmola! Na realidade, não fazem mais do que sua obrigação. Afinal, na hora solene da investidura ou posse, nos cargos que a sociedade lhes concede por voto ou nomeação, os políticos prestam compromissos legais, prometendo o bem comum ao povo.

Há muito tempo, a aspiração política abandonou o espírito público e foi substituída pela vaidade e ganância. O exercício do mandato, que deveria ser um bem à sociedade, deixou de ser atributo de transparência e equilíbrio, O dever de bem servir ao povo passou a ser meta e não compromisso. É como se o governante não tivesse obrigação nenhuma com o povo, e pudesse usar os cofres públicos ao seu bel prazer, ignorando a obrigatoriedade legal da transparência e usando o poder como um instrumento de culto à personalidade.

A sociedade passou a ter líderes artificialmente nutridos nos seus egos, com faturas para os cofres públicos. A vaidade faz com que os políticos, ditos representantes do povo, projetem a imagem de si mesmos, nas horas mais importantes do sistema político. E tudo diante de uma sociedade que somente agora parece dar os primeiros sinais de uma impaciência, que chega às ruas na forma de desabafos ideológicos ou sinais de revolta.

É difícil calar a boca dos revoltados, vestidos de verde-amarelo. E a crise que queimava em fogo brando, agora ferve.

* * *

Mudando o rumo dessa prosa, e rememorando o recentemente falecido Edson Arantes do Nascimento, hoje chamado “Rei Pelé”, que tantas alegrias proporcionou ao Brasil, segue um fato verídico, ocorrido com ele, no auge de sua brilhante carreira de jogador de Futebol:

“EXPULSO O JUIZ QUE EXPULSOU PELÉ

No jogo entre o Santos F.C. e a seleção Olímpica da Colômbia, realizada em 17.7.68, em Bogotá, que foi repleto de incidentes, o árbitro Guillermo Velasquez expulsou Pelé no primeiro tempo. A torcida colombiana reagiu e exigiu a expulsão do juiz, o que foi feito depois de 15 minutos de interrupção, sendo ele substituído pelo bandeirinha Omar Delgado.

Em seguida, a massa presente ao estádio exigiu a volta de Pelé, medida que foi determinada pelo novo árbitro, ainda no primeiro tempo. Em retribuição, Pelé teve uma atuação de gala e o Santos venceu por 4 X 2..

(Em “FUTEBOL TEM CADA UMA” – Armando M. Graça – Editora GOL- 1968).


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 31 de dezembro de 2022

REMINISCÊNCIAS (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

REMINISCÊNCIAS

Violante Pimentel

 

Há dias em que nos sentimos, como se a nossa alma fosse assaltada, pelos mais puros desejos de viver, e quase todas as lembranças vem à tona. Entretanto, o que passou jamais voltará. Se a vida é como um rio e as águas não voltam, cada dia é um novo dia.

“Rio caminho que anda, que vai resmungando, talvez uma dor…Ai, quanta pedra levaste, quanta pedra deixaste, sem vida e amor……..” – Eu e o Rio – Miltinho (Veja vídeo no final da postagem)

“Aguas passadas não movem moinho”, diz o dito popular. Entretanto, as recordações estão impregnadas, no âmago da nossa alma.

Passam anos e mais anos, e cada vez mais o universo dos nossos amores vai ficando menor. As perdas…Ah, as perdas!!! Como a nossa alma fica empobrecida, cada vez que perdemos um ente querido! À medida que os anos passam, a certeza da finitude da vida tolhe, a cada dia, a nossa alegria de viver e o ambiente feliz em que fomos criados cada vez mais se distancia de nós.

O Novo Ano de 2023 está prestes a raiar, e dele esperamos boas surpresas, mesmo sabendo que as surpresas perniciosas e indesejáveis, que advirão dos maus gestores, no âmbito da política, serão sempre mais fortes. Somente Deus punirá, pra valer, os carrascos da nossa sociedade.

Pesa nas nossas costas o pesado fardo dos asseclas de Nero, que usam a lei para oprimir e humilhar cidadãos de bem. A volúpia do poder, os sacos de dinheiro e uma caneta na mão são capazes de dilacerar a alma humana.

Os homens públicos, nossos algozes, nos tiram a tranquilidade, a paz de espírito e a calma que tanto pedimos a Deus. A força dos maus gestores predomina sobre o bem-estar da Nação.

O amanhã não quer ver ninguém bem. Por isso, o dia é hoje. E que Deus nos proteja da maldade humana ou da desumanidade dos homens, descendentes de Caim.

Evocando Fernando Pessoa.

Aniversário 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
Ai, que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado…
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

Álvaro de Campos, 15-10-1929

Não consigo mais festejar o dia dos meus anos

O ano de 2022 está acabando. Cai a tarde tristonha e serena e caem os sonhos que, durante o ano, acalentamos. 2023 está se aproximando, sobrecarregado de medidas previamente tomadas pelo chamado Governo de Transição, numa exorbitância monetária, antes, nunca vista neste País. Abriram-se as portas de todas as prisões onde se encontravam presos os grandes ladrões.

Enterramos castelos ruídos e os amores sonhados se foram. A saudade pungente maltrata o nosso peito. É hora de perdoar e é hora de pedir perdão. Discurso de ódio deveria dar cadeia.

Violência gera violência. E a vida se acaba mais ligeiro.

Eu me pergunto:

– Ano Novo, que trazes pra mim? Já não posso conter o meu pranto…As lembranças estão no jardim, e a saudade sufoca o meu canto.

Quando a vida sorria pra mim, minha alegria transformou-se em dor, transformando em tristeza uma linda história de amor.

De repente, as lembranças afloram:

É Lia, é Francisco, é a luz! São os dias felizes da minha infância em minha querida Nova-Cruz, quando ninguém tinha morrido. E a saudade faz sangrar meu peito.

A barraca, a Banda de Música, a festa da Padroeira, Nossa Senhora da Conceição…

A cidade toda em festa. O Parque São Luiz, as paqueras, o leilão; alfenim enchendo as cestinhas; a pescaria com suas prendas baratas, que, na minha saudade, ressurgem num lampejo de amor e carinho, como mimos de ouro e prata.

O Parque São Luiz fazia parte da festa de final de Ano em Nova-Cruz. A alegria das crianças e adultos, com a amplificadora do Parque a exibir as mais lindas e dolentes melodias, “de José para Dorinha, com o peito explodindo de amor.“ E soava a voz do amor nos corações.

A alegria da noite de Ano Novo inebriava a todos que se encontravam naquela festa popular, que se realizava na frente da Matriz da Imaculada Conceição.

O Hino Nacional, executado pela Banda de Música da Polícia Militar, anunciava a passagem do Ano, num momento de magia e emoção. Entre abraços, sorrisos e lágrimas, era chegado o Novo Ano, que todos desejavam que trouxesse a Paz sempre sonhada, Saúde e comida para o povo. E todos desejavam:

“FELIZ ANO NOVO!!!”

Era um tempo feliz, em que a maldade nem tinha nascido!!!

Bem diferente dos dias de hoje, em que muita gente se comunica através da secura das redes sociais, sem o abraço caloroso ao vivo e a cores.
Estamos vivendo a era dos robôs, quando a tecnologia superou o homem. E o texto frio da lei superou a carne e o sangue.

Um Feliz 2023 para os queridos Editores do JBF, Luiz Berto e Aline Berto, respectivamente, Papa e Papisa da ICAS (Igreja Católica Sertaneja), como também para os queridos colunistas e leitores do nosso querido Jornal!

Muita Saúde e Paz!

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho segunda, 26 de dezembro de 2022

O PERU DE NATAL (POSTAGEM DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAMUNDO FLORIANO)

 

O PERU DE NATAL

Violante Pimentel

 

 

Querido Editor Raimundo Floriano:

Feliz Dia de Natal!

Segue para você a beleza do poema O PERU DE NATAL, que minha saudosa Mãe, Dona Lia, gostava muito, e ensinou à minha fiha Diana,  ainda pequena, a recitar.

Grande abraço, extensivo à família!

BOAS FESTAS!

 

O PERU DO NATAL

Cornélio Pires

 

No Natal, Sinhá Luzia da Portela
pôs um peru debaixo da bacia,
para comer nas horas de alegria…
Mas em sonho o peru falou com ela…
Sinhá Luzia, não corte minha goela!
Quero lembrar Jesus na estrebaria!
A senhora me mate noutro dia!
Não me ponha no forno ou na panela!
Sinhá Luzia acordou em desaponto,
fez almoço pequeno, tudo pronto…
Só mandioca, chuchu e broa quente.
Quando o patrão pediu peru no prato,
ela disse: Eu morro, mas não mato!
Esse bicho é de Deus, que nem a gente!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 24 de dezembro de 2022

ENTÃO, É NATAL… (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

ENTÃO, É NATAL…

Violante Pmentel

 

Então, mais uma vez, é Natal. O que os homens ditos “poderosos” tem feito pelo bem-estar da humanidade, não se vê.

E o que os homens ditos “poderosos” do nosso País terão a dizer nesta data? Pedirão perdão ao povo pelo dinheiro roubado, e dirão “Feliz Natal”? A demagogia é grande.

As suas mesas estarão repletas de comidas finas e vinhos caríssimos, às custas do dinheiro público. E o pobre ficará somente com o cheiro do peru de Natal e as doações das pessoas de boa vontade.

Assaltaram, ininterruptamente, o erário público, e continuam crucificando Jesus Cristo, a cada dia. A sensação é de que o mundo mudou para pior.

Então, é Natal, para o enfermo, o são, o rico, o pobre ,o branco, o negro, com a pulsação de um só coração.

Infelizmente, a Paz sonhada pela humanidade ainda não chegou. Que seja feliz, quem só pratica o Bem!…

Há dois mil e vinte e dois anos, tarde da noite, guiado pela estrela-guia, um casal chegou a Belém da Judéia. Estavam cansados da viagem, com a mulher gravida montada num jumento, puxado pelo marido. Muito cansada, da viagem, a mulher, prestes a dar à luz, não se sentia bem e precisava descansar. Tentaram fazer pouso numa hospedaria, mas foi em vão. O aspecto de pobreza do casal fez com que o dono lhe negasse hospedagem. Em tom de deboche, lhes indicou uma manjedoura que encontrariam ao longo do caminho, onde eles não precisariam e de dinheiro. O marido, José, acolheu a informação e levou Maria ao lugar indicado. Ali estava o casal mais santo e importante da humanidade.

E foi nessa manjedoura, que nasceu o Menino Jesus! Logo chegaram os três Reis Magos para o adorar, e lhe trouxeram de presente o incenso, o ouro e a mirra.

Abrindo as torrentes do coração. -Tive uma infância e uma adolescência maravilhosas, e todos estavam vivos na noite de Natal. Hoje, na idade madura, ao comprar os presentes de Natal, sinto um aperto no peito, sob a forma de saudade, das pessoas queridas, que já não se encontram entre nós.

A pureza do Natal de antigamente já não existe. Mas, a Esperança de melhores dias permanece dentro de nós.

A chegada do Natal nos inspira os sentimentos de solidariedade, gratidão, amor e fraternidade, e nós temos obrigação de proporcionar alegria às pessoas queridas que nos cercam e com as quais temos a felicidade de conviver.

Elevemos nosso pensamento a Deus e oremos pelos amigos e entes queridos que já se encantaram, deixando em seu lugar uma imensa saudade.

No Natal, se festeja o nascimento do Menino Jesus, o mesmo menino que se fez homem e morreu crucificado, para salvar a humanidade!

A Noite de Natal é sagrada para todos os lares. Noite de encanto e mistério para as crianças, e noite de ternura e carinho para os pais. No silêncio da noite, quando tudo dorme, as crianças sonham com os possíveis presentes que receberão nos seus sapatinhos, postos ao lado de suas camas. Surge a imagem de Papai Noel, mostrando-lhes os mais variados presentes.

Numa manhã do Natal, um menino de oito anos, nascido na pobreza, levantou-se cedinho da cama, para matar a curiosidade e ver se, dessa vez, Papai Noel teria atendido o seu pedido e lhe daria um presente. Encontrou duas grossas moedas de dez tostões. O seu desapontamento foi terrível. Por que razão Papai Noel teria feito isso com ele?

Desde esse dia, o menino teve seu peito invadido pelo veneno da dúvida, e deixou de pedir presente a Papai Noel. Achou que aquilo era obra do seu pai, no intuito de desvanecer a sua fé em tal lenda, e colocando no seu sapatinho o seu repugnante dinheiro. Seu pai teve seu desejo realizado.

Conta uma antiga lenda que, numa véspera de Natal, dois mendigos caminhavam pela escuridão da noite. De repente, tropeçaram num gato abandonado, que miava timidamente, aparentando estar faminto. Sentiram que o gato era tão pobre quanto eles. Os pobres são bons para os pobres e ajudam-se uns aos outros, dividindo entre si o pouco que conseguem para comer.

Os dois mendigos, compadecidos com o estado do gato, levaram-no com eles, e lhe deram para comer um pouco do pão que haviam recebido de esmola. O gato, depois de comer, ficou mais forte e saiu caminhando, miando alto, como se estivesse guiando os dois através das trevas, até uma cabana abandonada. Na cabana, havia dois bancos e uma lareira, visíveis através do clarão da lua. Os dois mendigos sentaram- se em frente à lareira.

De repente, o gato desapareceu. Como por milagre, as duas brasas se acenderam e tornaram-se enormes. A claridade tomou conta da cabana, e os dois sentiram seus corpos aquecidos. Os pobres acreditaram que era o Menino Jesus quem mandara aquelas duas brasas para os aquecer. Adormeceram profundamente. As brasas brilharam até amanhecer o dia.

Os dois mendigos acordaram, como se estivessem despertando de um lindo sonho. Tinham recebido de presente de Natal um verdadeiro tesouro. Mesmo por uma única noite, dormiram sob o teto de uma cabana abandonada, aquecidos por uma misteriosa lareira. Olharam em sua volta e viram o gato dormindo. Pobre igual a eles, o gato lhes retribuiu o pão que lhe deram, levando-os até aquela cabana encantada.

Pelo menos, naquela noite de Natal, eles dormiram sob um teto, abrigados contra o frio e o vento.

Está provado que o grande tesouro dos pobres é a fantasia.

Desejo a todos um Natal cheio de Alegria e Paz, e que o espírito de confraternização permaneça no decorrer de todos os nossos dias!

Que a humanidade consiga viver em PAZ!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 18 de dezembro de 2022

“TU PISAVAS NOS ASTROS, DISTRAÍDA” (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

“TU PISAVAS NOS ASTROS, DISTRAÍDA”

Violante Pimentel

 

 

O milagre brasileiro ainda não chegou. Quem esperava por ele nas eleições/2022, espere sentado, pois em pé, cansa.

O que estamos vendo na cena política atual é um candidato descondenado, eleito e ainda não empossado, tentando passar como um trator por cima do ainda Presidente Jair Messias Bolsonaro, a detonar horrores contra ele, num ódio sanguinário e numa arrogância “antes nunca vistos na historia deste País”. E o pior, açambarcando bilhões em nome do “bolsa família”, como se a pobreza fosse novidade. Os ricos continuam cada vez mais ricos, principalmente os políticos que detém a chave do cofre.

Cada vez mais, a corrupção toma conta da Nação, e o FAÇUELE continua de vento em popa, com os bobões da corte aguentando a arrogância do “trilegal”, gritando na cara dos ministros e dando a última palavra nas mudanças que ousa querer fazer, contra tudo e contra todos.

A situação política atual mais parece um fim de banquete de séculos passados. Cada um sai com os garfos nos bolsos. As mulheres escondem os pratos nas bolsas. Alguém pergunta: – “Onde está meu guarda-chuva?” Outro diz: -“Levaram meu chapéu!” Um sugere ao outro:- “Leva esse peito do peru, disfarçadamente, embaixo da casaca.” Outro ainda diz: – “Vou levar uns doces para os meninos, em casa”. Nesse tempo, o hábito da lagosta, da picanha e do caviar ainda não existia.

Isso, depois de um antigo banquete, daria para engolir. Mas num Congresso, com o dinheiro do povo, jamais!!!

Os asseclas de Nero estão doidos para incendiar a Nação!!!

Lembrei-me de uma música, “Lugar de Cobra é no Chão” (Chico Buarque), que diz:

” A sua risada nervosa contamina o ambiente
Deram asas à cobra e a cobra voou
E continua voando, espalhando seu veneno…”

É a cena atual do nosso País.

Mudando o rumo dessa prosa:

A música é o alimento da alma.

Chão de Estrelas” (1956), de Orestes Barbosa, tem versos cheios de lirismo, que tocam a nossa alma.

“Tu pisavas nos astros distraída…”.

Esses versos, da composição “Chão de Estrelas”, da autoria de Orestes Barbosa, mereceram do poeta Manuel Bandeira, em 1956, esse comentário:

“Grande poeta da canção, esse Orestes! Se se fizesse aqui um concurso, como fizeram na França, para apurar qual o verso mais bonito de nossa língua, talvez eu votasse naquele de Orestes, que diz:

“Tu pisavas nos astros, distraída…”

 

 

CHÃO DE ESTRELAS

Minha vida era um palco iluminado
E eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guisos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações
Meu barracão lá no morro do salgueiro
Tinha um cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje quando do Sol a claridade
Cobre meu barracão sinto
Saudade da mulher pomba-rola que voou
Nossas roupas comuns dependuradas
Nas cordas qual bandeiras agitadas
Pareciam um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional
A porta do barraco era sem trinco
E a Lua furando nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
E tu, tu pisavas nos astros distraída
Sem saber que a ventura dessa vida
É a cabrocha, o luar e o violão

* * *

Orestes Barbosa, compositor, escritor e jornalista, nasceu no Rio de Janeiro/ RJ, em 7/5/1893 e faleceu em 15/8/1966.

Aprendeu a ler, nos jornais e letreiros de bonde, com Clodoaldo Pereira de Moraes, pai de Vinícius de Moraes. Nessa época começou a se interessar por violão e com dez anos já sabia tocar.

Durante a infância, a família viveu em dificuldades financeiras e somente aos doze anos entrou numa escola, o Liceu de Artes e Ofícios, onde aprendeu o ofício de revisor.

Em 1907 o menino, que já fazia alguns versos, conseguiu seu primeiro emprego como revisor no jornal O Século, dirigido por Rui Barbosa.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 11 de dezembro de 2022

PARA AFASTAR A TRISTEZA (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

PARA AFASTAR A TRISTEZA

Violante Pimentel

 

Antes mesmo de ter tomado posse, o que ocorrerá no dia 1 de janeiro de 2023, o presidente eleito já está exercendo o governo provisório, com ânsia de cifrões exorbitantes, e querendo açambarcar o dinheiro público.

“CALE-SE, povo brasileiro!!!” – .”PERDEU, MANÉ!!!NÃO AMOLA!!!” – Dizem os supremos encapados. Enquanto isso, o legítimo presidente ainda é Jair Messias Bolsonaro, que está sendo ignorado pela corja vermelha do governo provisório, quase todos com passagem pela lava-jato.

Os leitores e torcedores, amantes do Futebol, nestes tempos intranquilos em que, no Brasil, se ergue uma “estátua à corrupção”, necessitam de razão para sorrir.

Até o próximo dia 18 de dezembro, quando acontecerá a partida final da Copa do Mundo, o brasileiro verde e amarelo tem Pão e Circo à vontade, para se divertir. Enquanto isso, o País caminha para mergulhar na mais terrível corrupção da História. A “moeda” padrão a ser adotada pelo novo governo já passou a ser “bilhão”.

Neste momento, o Futebol é o melhor remédio para afastar a tristeza do povo verde e amarelo, como pretende a ala do cordão encarnado, do País do carnaval.

O torcedor precisa ter razões para sorrir, nos dias de hoje, mesmo que o nosso País esteja prestes a ser abocanhado por um faminto monstro devorador do dinheiro público, que vimos “emergir da lagoa”, numa descondenação fantástica. Para o monstro devorador, o Céu é o limite da ladroagem.

O Futebol tem o condão da catarse circense, com que os velhos sábios de Roma lambuzavam o pão triste das massas. Não podendo xingar o patrão que o rouba, o operário xinga os juízes das partidas e procura insultá-los, como se fosse o bandeirinha mais próximo, o responsável procurador da prepotência, do arbítrio e dos outros sinais do mundo injusto que o oprime.”

Evocando Milton Pedrosa (1911 – 1996), em “O RISO – NÃO O PRANTO – É LIVRE

Futebol é guerra, é jogo, é arte, é uma graça, mora?

É uma e outra. É uma coisa de cada vez e tudo isso ao mesmo tempo. De onde o suor e o sangue, a alegria e as lágrimas. O choro e o riso.

O craque dribla? – ganha aplausos. O juiz claudica? – Recebe vaias. O dirigente impera indiferente? – Herda o desprezo…o esquecimento.

Mas o futebol é, sobretudo, vida. A emoção do momento inédito, sempre criado e recriado para as imensas plateias. Cada um deles, inesperado. Dramático, curioso, violento, umas vezes. Divertido, alegre, hilariante, muitas outras. Ontem, hoje, amanhã.

Todos os dias, em qualquer parte, a qualquer hora, Nos estádios-monumentos, nos campos de pelada. Onde quer que a bola role, e se desenrole uma partida. Aí estarão, de mãos dadas, lágrimas e risos.

O riso que vem de longe, Que corre através dos tempos, desde as primeiras experiências do homem ante a pelota. Desde que este descobriu o jogo, a guerra, a garra, a arte, a graça, mora. Desde que descobriu o jeito de atuar com a bola nos pés.

Desses momentos, nasceram histórias hilárias, episódios, casos. Nascidos da realidade, nos campos de jogo, na relação bola-homem- e homem-bola-homem.

Seus autores são os craques ou os pernas-de-pau que, de bola nos pés, dançam o mais fascinante balé que as multidões veem e reveem.

E procuram como a um novo pão-nosso de-cada dia.

O leitor – como o torcedor – merece ter do que rir nos dias de hoje.”

Atualmente, a corrupção é vista abraçada aos ministros togados e às velhas raposas socialistas. Para afastar a tristeza, Futebol é o melhor remédio.

O torcedor precisa de razões para sorrir nos dias de hoje, mesmo quando o nosso País esta prestes a ser abocanhado por um faminto monstro devorador do dinheiro público, onde o céu é o limite.

Pelé surgiu para os olhos do mundo na Copa de 1958, disputada na Suécia, quando o Brasil foi Campeão. O que pouca gente sabe é que aquele então adolescente de 17 anos, ficou de fora dos dois primeiros jogos (3X0 na Áustria e 0X0 na Inglaterra).

Na comemoração, surgiu a famosa marchinha “A taça do mundo é nossa, com o brasileiro, não há quem possa”.

Entretanto, das músicas comemorativas da Copa do Mundo, considero a mais bonita e significativa, até hoje, o “Frevo do Bi”. da Copa de 1962- autoria de Silvério Pessoa e gravada por Jackson do Pandeiro.

“Vocês vão ver como é,/ Didi, Garrincha e Pelé/ Dando seu baile de bola…,,,, “

 

 

 

Violante Pimentel - Cenas do Caminho terça, 06 de dezembro de 2022

A VOLÚPIA DO PODER (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

A VOLÚPIA DO PODER

Violante Pimentel

 

A insânia ronda os destinos do Brasil, porque há homens roídos pela ambição do poder, pela sede de mando, acometidos por uma verdadeira vesãnia, querendo arrastar o país a uma guerra civil,

Cada fase da história política do Brasil tem o seu político odiado.

Atualmente, o povo brasileiro enfrenta um político ameaçador, que não perde tempo em ameaçar os cidadãos com medidas restritivas de liberdade, proibindo-os de fazer declarações contrárias às suas, nas redes sociais. Já calou alguns jornalistas e deputados, sob o olhar incrédulo do povo. Deve ter como ídolo, o incendiário Nero, da Roma antiga, ou Filinto Muller, considerado o mais violento militar e político do século passado.

A pressa da diplomação do presidente eleito, antecipada do dia 19 de dezembro de 2022, para o dia 12, deixa no ar uma urgência desesperada, que aumenta a cada dia. “Há algo de podre no reino da Dinamarca”.

A antiga história política do Brasil registra o político Filinto Muller (11.07.1900 – 11.07.1973) como o político mais polêmico que já houve no nosso país. Foi chefe do Conselho Nacional do Trabalho, líder de dois partidos políticos e líder da maioria no Senado, em um governo democrata e de três ditadores.

Aos 72 anos, o Senador Filinto Muller transformou-se no mais respeitado político brasileiro. Percorreu os corredores do Senado, como um sumo sacerdote. Seu gabinete, onde seis funcionários respondiam a mais de seiscentas cartas por mês, era o mais frequentado do Congresso.

Filinto Muller, o todo poderoso do Mato Grosso, foi o responsável pela mais ambiciosa tarefa política desde 1964.

Chegou a revelar um momento de fugaz ceticismo que, num instante, transformou-se na mais definitiva de suas conclusões realistas: “Eu fui muito mais do que queria ser. Pensava em chegar a deputado e fui senador. Queria ser governador do meu estado e fui eleito – não tomei posse em 1934 porque Getúlio pediu que continuasse com ele. Nunca pensei em chegar a presidente do Senado. E muito menos do partido. Mas não tenham ilusões. Os políticos são rapidamente esquecidos. E daqui a alguns anos só se lembrarão de um terrível chefe de polícia do “tempo do Onça”, que também foi um chefe de polícia.” Palavras fatídicas.

Onça foi o apelido dado a um chefe de polícia do início do século passado, conhecido por sua violência. Um dia ele foi visto sentado num dos bancos da praça que hoje chama-se Tiradentes, no Rio. E nunca mais. Desapareceu. Uns dizem que foi morto, outros garantem que entrou para um convento.

Estado Novo, ou Terceira República Brasileira, foi uma ditadura brasileira instaurada por Getúlio Vargas em 10 de novembro de 1937, que vigorou até 29 de outubro de 1945. Foi caracterizado pela centralização do poder, nacionalismo, anticomunismo e por seu autoritarismo.

Em 1945, quando acabou na Europa o “Reich dos Mil Anos”, ruiu também no Brasil o Estado Novo. Começou um período de acerto de contas. O país, que inegavelmente assistira à consolidação do seu poder federal durante a ditadura, se deu conta de quais eram as verdadeiras normas de convivência entre os homens. E cada dia da democracia saboreado significava uma visão mais profunda, da irracionalidade dos atos do regime de exceção.

Enquanto Filinto Muller esteve com o Dr. Getúlio Vargas, foi um poderoso chefe de polícia. E mesmo quando saiu, os três anos que restaram ao Estado Novo, foi sempre um cidadão acima de qualquer suspeita.

O barco afundara, mas sua carga não era tão preciosa quanto parecia. Os melhores figurões já haviam desaparecido. Muitos, dando-se conta da mudança, rasgavam, enraivecidos, a bandeira que eles mesmos haviam bordado e na qual durante tanto tempo se haviam agasalhado.

Durante o Governo Vargas, Filinto Muller destacou-se por sua atuação como chefe da polícia política, e por diversas vezes foi acusado de promover prisões arbitrárias e a tortura de prisioneiros. Pertencia à Aliança Renovadora Nacional (ARENA).

No alto da estante de Filinto Muller, repousava um dos mais sérios libelos que lhe foram dirigidos: “FALTA ALGUÉM EM NUREMBERG”. Falta quem? Filinto Muller, segundo o autor do livro, o jornalista David Nasser (01.01.1917 – 10.12.1980)

O político brasileiro Filinto Muller faleceu em 1973, em um acidente aéreo, em Paris (França). no qual a esposa, Consuelo, e o neto Pedro também foram vítimas.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 27 de novembro de 2022

PODER USURPADO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

PODER USURPADO

Violante Pimentel

 

Escreve ele: “A coruja de Minerva alça seu voo somente com o início do crepúsculo. O papel da filosofia é justamente elucidar o que não é claro ao senso comum, é alertar acerca da vida. O crepúsculo é o linear do dia pra coruja.”

E enquanto terminamos nosso trabalho e nos recolhemos aos nossos lares, a coruja “alça seu voo” a trabalho. É a noite que a fascina, por isso seu nome em latim é “Noctua” – , “ave da noite”. 

 

 

O destaque da coruja não é a beleza, mas a capacidade de ver o que aves diurnas não conseguem ver. Seu pescoço gira 360º, dando-lhe uma visão completa, capacitando-a a ver o todo. É também uma ave de rapina, rápida na escolha, e que por ver a presa e não ser vista, sempre tem sucesso na caça, apanhando os despreparados e desprovidos, que se arriscam na noite escura.

A coruja, o pássaro de Minerva, voa apenas á noite. Mas a funesta coruja da supremacia togada voa diuturnamente. Destila seu veneno e vomita seu ódio sobre a parte decente do País, que clama por justiça, revoltada com as injustiças supremas.

Os dias se passaram e a situação política da Nação permanece a mesma. Os doentes morais continuam se embebedando para afogar os seus infortúnios nos surtos amnésicos do álcool e nas comilanças milionárias em hoteis internacionais, às custas da Nação.

O bobo da corte vermelha se refugiou, com incandescente avidez, no turbilhão embriagante da política, para nesse ignóbil mostruário de compra e venda de intrigas adormecer e esquecer as suas desditas.

O cheleleu substituto continua bajulando-o incessantemente. É um grande e incorrigível ambicioso; uma criatura sem escrúpulo, a quem se aplicam estas banais considerações e melindres, que para o público vulgar são um tema de respeito. A convivência já havida com o bobo da corte fora bastante para que a astuta raposa formasse infalível juízo sobre o seu caráter, recursos, méritos e talentos.

O bobo da corte vermelha está sempre pronto e arrogante, na inflamada fé que lhe assegura o seu permanente sucesso. É tão corajoso e insensível, que não tem vergonha do seu passado nebuloso.

Estamos em pleno governo de transição, constituído de políticos com processos nas costas, alvos de investigações e, com raras exceções, longe dos “fichas limpas”. Todos com passagem pelos tribunais e com ligações com o bandoleirismo rotativo, afoitos e ávidos por manejar o implacável facão da economia.

E o governo de transição já anunciou a que veio. Veio para quebrar, mais uma vez, o País, extrapolando todos os limites do teto fiscal, querendo invadir a propriedade privada, confiscar imóveis e contas bancárias do menor ao maior investidor. A Nação está revoltada, sem aceitar ser imolada no altar de sacrifícios onde o povo brasileiro sempre esteve.

Mas, é evidente que esse proceder do governo, pela dureza flagrante dos atritos, deverá desgastá-lo brevemente. O plano agora é fortalecer o partido e engrandecer-se por meio de uma dupla manobra – avocar a si os descontentes e simultaneamente impor-se com o seu poder.

A situação política do País continua instável, apesar de já haver transcorrido quase um mês das eleições. Até hoje, os resultados duvidosos não tiveram o condão de convencer totalmente o eleitorado. O descrédito na apuração das urnas eletrônicas continua. Como é triste a frase fatídica escorrida da boca de veludo de um ministro togado: “eleição não se conquista; eleição se toma”. E foi o que aconteceu.

Para legitimar a indecente usurpação do poder, desvirtuaram o grande princípio racional da eleição. Metade do poder legislativo é verdadeira e a outra metade é de pura e completa manipulação do governo. E graças à corrupção, devida em grande parte à estupidez do corpo eleitoral, na mais absoluta impunidade e com êxito absoluto, o poder explora, esmaga e domina sempre!

A manutenção do princípio da autoridade é condição essencial na vida do povo, desde que essa autoridade seja legítima. Entretanto, não tem legitimidade a açambarcante usurpação do poder por parte dos togados, num desrespeito gritante à Constituição Federal.

À Suprema Corte, cabe impedir o malfeito, e não se tornar coautora dele. Mas o que vemos são as tendências políticas dos togados, que impõem suas preferências pessoais, ignorando o ordenamento jurídico e muitas vezes investindo sem disfarce contra ele.

Cabe ao juiz interpretar o Direito e, com base nele, decidir as causas que lhe são apresentadas. Não pode, contudo, julgar contra as leis, principalmente contra a Lei Maior.

Quando ministros do STF contrariam a Constituição Federal, suas decisões atentam contra as normas instituídas para assegurar a convivência humana e zelar pelo cumprimento dos fundamentos da República: Soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana e valores sociais do trabalho.

Nesses casos, suas decisões deixam de emanar a luz que deveriam, e passam a emanar a luz que cega e que não tem nada de divino.

Não são decisões que iluminam, mas decisões que já nascem cegas pelo ódio e pela tirania. Ainda que essas decisões devessem trazer a luz, trazem as trevas. São decisões inspiradas em Lúcifer, o rei das trevas. São decisões tiranas que tem o objetivo de humilhar e oprimir os cidadãos de bem.

Os supremos togados não podem correr o risco de ir buscar luz nas chamas mantidas por Lúcifer, porque as consequências danosas atingirão a toda a sociedade e cada um dos indivíduos que a compõem. Pior do que isso: elas se propagarão e contaminarão a vida institucional do País por muito tempo.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 20 de novembro de 2022

ASSECLAS DE NERO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

ASSECLAS DE NERO

Violante Pimentel

 

Entre as maldades do imperador romano NERO, conhecido na História pela sua tirania, está o incêndio de Roma, por ele provocado e ao qual ele teria assistido com indiferença, dedilhando sua lira.

Esse grande incêndio de Roma ocorreu em 18 de julho de 64, e depois de seis dias em chamas, a cidade estava com dois terços reduzidos a escombros.

 

 

Logo se divulgou o boato de que Nero teria mandado atear fogo em Roma, para apreciar o espantoso espetáculo e depois escrever um poema baseado na cruel realidade.

Para afastar de si as suspeitas, Nero tratou de atribuir a culpa aos cristãos. Daí, tiveram início as perseguições aos seguidores do Cristianismo. Homens, mulheres e crianças foram presos e condenados aos piores suplícios.

Sob o governo de Nero, Roma teria conhecido o clímax do desregramento moral e político.

Paulo, discípulo de Jesus, foi decapitado. Pedro teve a morte na Cruz. Muitos cristãos eram atirados às feras, no Circo Máximo, num espetáculo que visava acalmar a revolta do povo.

Após o incêndio, o imperador Nero iniciou, imediatamente, um grande projeto de reconstrução da cidade. Logo confiscou bens para construção de seu palácio, a “Domus Aurea” (Casa Dourada), que ocupava, com seus jardins, extensa área urbana.

O Brasil, atualmente, parece infiltrado de asseclas de Nero.

Como num pesadelo, o povo se vê na iminência de ter de volta um ex-presidente, que, depois de indiciado, julgado e condenado em alguns tribunais, e em pleno cumprimento de pena em um órgão federal, foi beneficiado por uma reviravolta processual, o que resultou em sua “descondenação”, tudo sob medida, o que pareceu, para uma boa parte do povo brasileiro, uma verdadeira “diarreia jurídica”. De repente, o condenado tornou-se “descondenado”. E em seguida, foi considerado apto a concorrer, mais uma vez, à Presidência da República.

Em pleno cumprimento de pena por improbidade administrativa, lavagem de dinheiro e corrupção passiva, o condenado foi libertado em nome de um suposto “erro de comarca”, numa jogada capciosa e maléfica, para que pudesse novamente se candidatar à Presidência da República. O resultado foi uma surpreendente e misteriosa vitória, após eleição com o uso de urnas eletrônicas, que continuam “atravessadas” na garganta de grande parte do eleitorado brasileiro.

Sob a iminência de ver, pela terceira vez, esse fantasma devorador do dinheiro público, assumir a Presidência da República, o povo brasileiro está decepcionado com os togados que compõem a Suprema Corte do nosso País.

A contratação de 283 componentes para integrar o governo de transição, com altos salários, é uma demonstração do que virá pela frente, com esse novo governo. Somente um assecla de Nero, no seu delírio, teria essa coragem, contra tudo e contra todos, de assumir altos compromissos, antes mesmo de tomar posse no cargo de Presidente da República, o que somente ocorrerá em 1 de janeiro de 2023.

A política, no seu significado mais amplo e mais nobre, deveria ser, com efeito, a arte de organizar a vida coletiva e individual. Entretanto, ela não passa da mais despudorada mentira.

Estamos assistindo, antes da hora, ao espetáculo de um “rei” desfrutar das regalias da Nação, num gasto sem freios, com aprovação dos vermes do poder.

Esse grupo domina e escraviza a grande massa da população. São algumas centenas de homens cavalgando bilhões, impiamente. E ainda por cima, eles chamam de ímpios aos que se revoltam contra os gastos desenfreados do dinheiro público.

Eles dispõem de tudo quanto racionalmente forma o grande patrimônio comum. Açambarcam o que seria o seu quinhão e o dos outros. Para eles, o aumento da abundância; para os pequenos, os horrores da miséria.

Não podemos caminhar, melhorar ou progredir, enquanto os nossos homens públicos continuarem se julgando uma casta à parte, bem acima da Nação.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 13 de novembro de 2022

SÓ NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

SÓ NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES

Violante Pimentel 

 

O povo é uma entidade abstrata, em nome da qual muito se fala e pouco se faz. Está sempre na linha de frente dos discursos dos políticos e na retaguarda das benesses prometidas e recebidas.

 

Zaqueu mora numa casinha modesta, na periferia da cidade, um local “onde o vento faz a curva”.

Certo dia, Zaqueu, chegou em casa eufórico e disse para Marina, a esposa, que tinha uma grande surpresa para ela, e pediu que adivinhasse.

A primeira impressão dela foi que eles tinham sido sorteados no “Baú da Felicidade”, mas não era isso; depois, pensou que ele tivesse tido um bom aumento de salário, também não era. Depois de muito suspense, Zaqueu ele revelou a novidade: -Você sabe quem vai chegar, mulher? A Democracia!!!

A mulher ficou deslumbrada:

– Meu Deus. A Democracia vai chegar?!!! É verdade? Será Que você não escutou errado, Zaqueu?

O marido falou sério e a mulher ficou sem saber o que fazer. Andou nervosa de um lado para o outro e disse ao marido que iria tomar um banho e passar um pente no cabelo. Ele lhe pediu que passasse o ferro no paletó antigo que tinha sido do casamento deles, pois queria ver a chegada da Democracia de paletó e gravata, pois o acontecimento que eles iriam assistir era muito importante.

Pediu que ela vestisse o vestido novo das festas de fim de ano, pois não queria que a Democracia a conhecesse vestida com roupas molambentas. Disse que na fábrica onde trabalhava, seu patrão tinha comentado que há muitos anos a Democracia não vinha ao Brasil.

Eufórico, Zaqueu só falava no festão que estava programada para a chegada da Democracia.

Muito contente, mandou que a mulher fizesse um bolo, enfeitasse a casa e telefonasse de um orelhão para a rádio Bujari, estação rodoviária e estação ferroviária, para saber, ao certo, a data e horário da chegada da Democracia. Disse à mulher que enquanto isso, iria até o Bar do Primo, avisar à rapaziada da chegada dessa visitante ilustre, a Democracia.

Os frequentadores do bar estavam jugando Sinuca e Zaqueu gritou: “Olha aí, turma, a grande novidade que eu trago pra vocês: Adivinhem quem vai chegar???

– Waldick Soriano!!!! – disse logo um biriteiro.

– Não. A Democracia!!!. É pouco, ou querem mais? “Dá pra tu, ou fica frouxo?”

A rapaziada arregalou os olhos, todos espantados com a novidade..

Um deles perguntou desconfiado:

– Zaqueu, estás querendo fazer a gente de besta?

– Não! Eu quero que minha alma vá pro inferno, se eu estiver mentindo!

Houve um minuto de silêncio, e um mecânico que lá se encontrava falou:

– Poxa, que legal! Sabe que, na minha vida, eu nunca vi a Democracia? Sou louco para conhecer.

Um bombeiro que lá estava também falou:

– Eu também nunca vi a Democracia. Eu só conheço a burocracia.

O mecânico perguntou:

– Zaqueu você já viu a Democracia alguma vez? Como é ela?

Mentindo, Zaqueu respondeu:

– Eu só vi a Democracia uma vez, mas era muito pequeno. Por isso, não me lembro direito.

Um empregado de uma padaria que estava no bar, quis se mostrar:

– A Democracia é um sarro – eu escuto sempre os homens falando em democracia pra cá, democracia pra lá, mas não sei direito o que é. Afinal das contas, o que é que a gente vai poder fazer quando ela chegar?

Muito falante, Zaqueu respondeu:

– Tudo. A democracia é o governo do povo e para o povo. Com a Democracia, a gente pode fazer tudo, menos xingar o Governo, nem praticar atos proibidos por lei.

Um gaiato perguntou se poderia tirar as calças na rua, xingar o governo, comprar fiado e não pagar, e passar a ser atendido no INPS sem passar horas nas filas, e a resposta foi sempre negativa.

Surgiram, então, os comentários: O bombeiro hidráulico, muito falante, disse e o empregado da padaria endossou: “Essa tal de Democracia não tá com nada.”

Foi aí que um senhor, com cara de professor, interferiu: “Tá sim. Quando a Democracia chegar, vai acabar com a Censura.”

Um dos rapazes que se encontrava no bar, perguntou:

– Quer dizer que não vai mais ter filme impróprio até 18 anos? – Todos riram.

O professor continuou falando:

– A Democracia vai acabar também com o AI-5.

AI-5? O que é isso?- perguntou um curioso. – Nunca ouvi falar nisso. É um remédio pra mulher não engravidar? Diz, Zaqueu, o que é Democracia!

Zaqueu pensou, pensou e foi sincero:

– Agora eu me enrolei todo.

O professor o socorreu:

– Democracia é o regime de governo do povo e para o povo.

A euforia foi grande. Cada um que falasse mais alto:

Oba, Governo do povo? – gritou o bombeiro: Então eu quero ser Ministro.da Fazenda! O mecânico disse que queria ser Ministro da Agricultura; o empregado da padaria disse que queria ser Vice-Presidente do Brasil e um alfaiate disse que queria se o Presidente. E todos vibraram com a novidade: “Chega de trabalhar!!! Eu agora quero é moleza e viajar muito, igual aos políticos!!!”

Todos almejavam ocupar um Ministério. A confusão foi grande. Para restabelecer a ordem, Zaqueu disse que iria ser Ministro da Energia. E usando sua energia, conseguiu que todos se acalmassem da euforia que tinha tomado conta desses homens do povo.

Zaqueu foi até em casa para ouvir da esposa o que ela tinha conseguido saber sobre a data e horário da chegada da Democracia.

Encontrou a mulher sem graça e desarrumada. Perguntou o que tinha havido.

A mulher respondeu que a Democracia iria chegar, mas não passaria por lá, pois a agenda esta muito cheia.

Zaqueu ficou indignado. Então ela não vem visitar o povo? E o povo somos todos nós!!!

A mulher entregou ao marido uma lista com a agenda que a Democracia teria de cumprir quando chegasse:

Às 7h15m estaria em Brasília e teria de cumprir vários compromissos agendados, até às 21 hora. A correria seria grande. Às 22 horas, a Democracia deveria estar no Palácio do Governo, onde se realizaria um festão. Zaqueu então, animou-se para ir conhecer a Democracia, acompanhado da esposa Marina. Mas a mulher o fez desistir, pois só seria permitida a entrada de convidados de “black – tie”. Nessa festa, seria entregue à Democracia, o título de “Regime de Visão, para o Povo e pelo Povo”

Houve um tumulto nas ruas e todos queriam saber se poderiam entrar nessa festa. A resposta dos organizadores foi “Não.”

E quando poderiam apertar a mão da Democracia?. O patrão de Zaqueu respondeu:

– SÓ NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES!!!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 06 de novembro de 2022

AMOR À PÁTRIA (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

AMOR À PÁTRIA

Violante Pimentel

 

Patriotismo é o sentimento de orgulho, amor e devoção à Pátria, aos seus símbolos (bandeira, hino , brasão, riquezas naturais e patrimoniais).

O militar presta serviços à Pátria, e, com o tempo, absorve os hábitos próprios da sua profissão. Acaba se identificando com o quartel, e jamais perderá o jeito de soldado, por mais que o tempo passe.

A influência das armas sobre os militares é tão forte, que eles se reconhecem na rua, mesmo quando vestidos á paisana.

Ao ver, na via pública, um oficial do Exército envergando um jaquetão ou um fraque, a impressão que se tem é de que falta alguma coisa à sua elegância. Por mais correto que ele esteja vestido nas suas roupas apuradas, lembra-nos, sempre, um tigre metido na pele de um urso, ou um leão enfiado, por modéstia, no couro de um elefante. Sentimos a força, a segurança e o respeito que eles impõem, perante a sociedade.

O rigor e o respeito que a farda militar impõe, mostram-se de modo mais acentuado perante os seus subordinados e cidadãos civis.

Absorvido pelo seu mundo de glória, o soldado revela-se em toda a parte e em todas as circunstâncias: no calor das palestras, na energia da vontade, na severidade da vida, na intransigência das atitudes, na disciplina do porte, e, até, ás vezes, no emprego do vocabulário empregado fora do quartel.

Pois bem. O caso do tenente José Porto Brasil é uma comprovação de que o militar guarda dentro do peito, como relíquia, os ensinamentos absorvidos na vida de quartel, A qualquer momento, poderá dar provas dessa verdade.

Militar elegante, bonito, bravo e decidido, o tenente José Porto Brasil utilizava os dias de serenidade da Pátria, passeando pela Avenida principal da capital, quando viu uma tarde, em certa casa de chá, uma bela mulher, que lhe fez acordar tocando alvorada, todos os clarins do coração. Ousado e destemido, pôs-se logo em atividade, para saber quem seria aquela linda criatura, que tanto mexeu com o seu coração. No dia seguinte, já sabia o suficiente para tentar atacar “aquela fortaleza”.

Ficou sabendo do endereço da mulher e se dirigiu até lá. A casa tinha muro alto e portão de ferro, controlado por um porteiro. O tenente viu o portão se abrir e sair um casal, que, segundo o porteiro, eram os donos da casa.

Decepcionado, ao ver que a bela mulher era casada com um homem alto, bonito e elegante, o tenente viu que era impossível atacar a “cobiçada fortaleza”.

No dia seguinte, por curiosidade, dirigiu-se, novamente, à residência da bela mulher, para se convencer de que, realmente, ela era casada com aquele cidadão. Chegou ao palacete, e, nervoso, tocou a sonora campainha. O silêncio era absoluto na casa, e ninguém atendeu. Duas, três, quatro vezes repetiu ele o sinal, mas inutilmente. Quando, desiludido, já batia em retirada, ouviu um chocalhar de corrente no portão. Voltou-se e viu o jardineiro, que abria a grade para dar passagem ao dono da casa, passando, de novo, a corrente no portão.

Atordoado pelo seu pensamento de aventura, e, não menos, pela consciência da sua superioridade de militar, o oficial não teve dúvidas: parou, deu meia volta, e marchou, firme, no rumo do cavalheiro que saíra de casa. Estacaram, pálidos, um diante do outro, dominados pela emoção.

– Que deseja o senhor? – perguntou, com a desconfiança estampada nos olhos, o marido da bela mulher..

Mão no revólver, disfarçando a tempestade que lhe invadia o coração, o tenente respondeu, com voz trêmula::

– A senha!.

E os dois soldados se abraçaram emocionados. Eram velhos amigos, do tempo de quartel, que a vida havia afastado.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 22 de outubro de 2022

O CANDIDATO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)D

O CANDIDATO

Violante Pimentel

 

 

Em Natal (RN), um conhecido candidato a deputado estadual, eleito uma única vez, tentava voltar à Assembleia Legislativa do Estado, candidatando-se pela terceira vez, sem conseguir reeleger-se. Dizem que o lugar é bom e a remuneração é invejável. Por isso, a luta é natural, por uma nova recondução.

 

 

Quando há eleições, é comum os candidatos ocuparem lugar ao redor das mesas apuradoras, interessados nas decisões e contagem dos votos. Tem medo que ocorram as antigas “Brejeiras” ou troca de urnas, do tempo dos coronéis.

A cada resultado, sem perda de tempo, vão logo solicitando certidão dos Boletins de apuração, para se prevenirem do resultado e evitar roubalheira..

Certo dia, repentinamente, um conhecido candidato apareceu no recinto da comissão apuradora e entrou, para verificar como andava o processo de apuração.

O conhecido candidato à reeleição estava eufórico, certo de que desta vez voltaria à Assembleia Legislativa do Estado. Todos os seus correligionários demonstravam interesse em saber como andava a votação na Capital e no interior.

A resposta do hábil político foi de que preferia não antecipar as coisas. Deixaria tudo para o final. Não queria sofrer por antecipação. Ainda acrescentou que, somente com a publicação do resultado no Diário Oficial tomaria conhecimento. do resultado de sua votação.

Os políticos ficam eufóricos durante as apurações. Os ânimos ficam acirrados, e quase sempre acontecem discussões.

Há candidatos que são ruins de urna, mas insistem em se candidatar. São eternos perdedores.

Em Natal, durante a campanha política de 1986, para a renovação do quadro dos chamados representantes do povo, houve um candidato que ficou conhecido pelas frases hilárias, diante dos eleitores, ouvintes do Programa Eleitoral Gratuito de televisão.

Esse candidato a deputado federal teve uma campanha muito movimentada e cheia de lances curiosos.

Ocupando o horário reservado ao seu partido, a sua palavra era no sentido de convencer o eleitor com frases de efeito, como:

“QUEM ENTENDE DE LEIS É “BANCARO?” – É “INDUSTRIARO”? – ELES NÃO “ENTENDE” DE LEIS. QUEM ENTENDE DE LEIS É “ADEVOGADO”. – SE EU FOR ELEITO COM SEU VOTO, EU VOU FAZER “A “LEIS” DA CONSTITUIÇÃO.”

Esse não conseguiu se eleger nunca, Era semianalfabeto e, além disso, tinha um sério problema de dicção, que não teve fonoaudiólogo que desse jeito.

Voltando às antigas eleições, nessa época, havia grande insegurança dos partidos políticos, na hora da apuração de votos, contados manualmente.. Alguns políticos e advogados de renome eram useiros e vezeiros em praticar fraudes eleitorais, conhecidas como “brejeiras”, Compravam votos, ou os trocavam por dentaduras, vestimentas ou outros bens materiais; trocavam e substituíam urnas, com a troca de cédulas de votação já preenchida, e faziam outras falcatruas, para tomar a vitória nas urnas a qualquer preço.

Os “coronéis” alteravam votos e falsificavam títulos de eleitor, para que os eleitores pudessem votar várias vezes, em diversas seções, até mesmo com títulos de pessoas falecidas. Eram os chamados votos de cabresto.

Quando o resultado da apuração das eleições demorava três ou quatro dias para ser concluido, inúmeras fraudes eleitorais eram cometidas no Rio Grande do Norte. Mas o caso mais gritante ocorreu com um candidato a deputado estadual, que, em Natal, aguardou com ansiedade a apuração, e constatou que a urna em que ele depositara seu voto não fora apurada. Simplesmente, a urna sumiu. Em outras palavras, a urna foi roubada.

Desesperado, o candidato Zé de Quina, que era fanho, encheu a cara de cachaça e chorou copiosamente numa mesa de bar, depois da apuração, e sua lamentação causava pena:

– Que meu pai e minha mãe não tenham votado em mim, é uma lástima, mas acredito;

– Que meu sogro e minha sogra não tenham votado em mim…eu acredito; ;

– Que meus irmãos e cunhados não tenham votado em mim…eu acredito.

– Que minha mulher não tenha votado em mim, é duro, mas eu acredito.

– Mas, eu mesmo não ter votado em mim?!!! É demais! É fazer dos outros besta! Isso eu não acredito nunca!. Sistema eleitoral infeliz, esse nosso!!!

Entretanto, o advento das urnas eletrônicas tornou as fraudes eleitorais cada vez mais impraticáveis.

Neste segundo turno das eleições presidenciais, vamos dar nosso voto de confiança ao sistema eleitoral brasileiro!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 16 de outubro de 2022

LADRÃO HOJE, LADRÃO SEMPRE (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

LADRÃO HOJE, LADRÃO SEMPRE

Violante Pimentel

 

Ladrão é o indivíduo que rouba, realiza furtos, pega para si o que não lhe pertence. É aquele que faz negócios na esperteza e na malandragem. É pessoa sem caráter nem escrúpulos.

Deixando de lado os principais crimes praticados por funcionários públicos contra a Administração Pública (corrupção, peculato, concussão e prevaricação), focalizamos aqui, apenas os ladrões de segunda classe, os desvalidos, que às vezes, apodrecem na cadeia, por furtarem uma galinha ou uma lata de leite em pó para alimentar um filho. Esses ladrões não podem pagar advogado e por isso ficam à mercê do órgão de defesa pública (Defensoria), que vive superlotada de processos, sendo impossível atender, em tempo hábil, à alta demanda.

Uns furtam por necessidade, outros por tara ou degeneração.

Furto – Art. 155 do Código Penal – Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa. § 1º – A pena aumentará……………………….- 

Roubo – Art. 157 do Código Penal Brasileiro – Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência:

Pena – reclusão, de quatro a dez anos, e multa.

No Brasil, a modalidade de roubo mais atual é o assalto, principalmente a bancos, feito por associação criminosa ou quadrilha, com no mínimo, três componentes, que se juntam para a prática de crimes contra a paz pública.

Em São Paulo (SP), no ano de 2015, duas agências bancárias ou caixas eletrônicos foram roubados na cidade, por semana.

Atualmente, essa modalidade de crime se alastrou, atingindo o Nordeste, onde, quase diariamente, há assaltos a agências bancárias do interior. Quadrilhas explodem caixas eletrônicos para roubar e aterrorizam as cidades, quase semanalmente.

Ladrão hoje, ladrão sempre. Bandido hoje, bandido sempre.

Não acredito na recuperação de bandidos.

A gravidade da situação econômica ou financeira de um país pode ser aferida pela paralisação das suas indústrias e consequente número de desempregados. E ainda, pela miséria daqueles que trabalham, sem nunca terem cruzado os braços e, nunca terem conseguido sair da pobreza.

Que os desocupados e vagabundos sadios sofram a fome, é explicável. Mas o que está fora de toda justiça humana e divina é que amanheça sem pão, um desventurado chefe de família, que passou a noite inteira a esbaforir-se no exercício de um ofício penoso, sem ter a quem reclamar.

É essa condição que não queremos para o Brasil. É impossível, um homem cumpridor dos seus deveres de cidadão, não sentir um arrepio de horror, ao saber que os ladrões de “primeira classe” estão soltos, e ávidos pela volta ao poder.

Certa noite, conforme noticiaram os jornais no dia seguinte, uma quadrilha assaltou uma agência bancária numa cidade do interior nordestino, levando para isso, toda a ferramenta para um trabalho perfeito e completo. Facilmente, o cofre foi aberto. A decepção foi grande. O cofre estava vazio. Nenhuma cédula. Nenhum níquel.

Queimando as mãos no “maçarico” e esforçando-se para não interromper o sono da vizinhança ou incomodar os vigilantes que cochilavam segurando a arma, esses “abnegados operários anônimos”, sofreram uma grande decepção. Trabalharam à noite, porque não é exigido cartão do banco e é mais difícil serem vistos.

No dia seguinte, repetiram a tentativa de assalto em outra agência bancária, e foi outra decepção. Nada de dinheiro nos caixas, nem nos cofres do banco.

Por toda parte, cofres vazios. Em todos os cofres, o vácuo, o deserto, a solidão. Nem os ladrões de “segunda classe”, indo diretamente aos cofres que supõem repletos de dinheiro, conseguem, com o seu pé-de-cabra e as gazuas complementares, arranjar um pouco, para as suas mais cruciais necessidades.

Alguém talvez diga que os ladrões não retiraram dinheiro das agências bancárias, porque foram lá á noite. E que, certamente, de dia não falta dinheiro nas agências. Os ladrões não ignoram isso. Entretanto, durante o dia, para se conseguir dinheiro, exige-se conta bancária, coisa que eles não tem. Não querem passar vergonha.

À humilhação de uma recusa de um saque bancário durante o dia, por falta de cartão bancário ou de dinheiro, os ladrões preferem o assalto, durante a noite. Mas, a desolação é a mesma, quando encontram os caixas e cofres vazios.

O que deixa o ladrão diminuído na sua dignidade é a presença de testemunhas.

Entre os espartanos, havia campeonatos de furto. Jesus Cristo levou Dimas, “o bom ladrão” de Jerusalém, que tinha levado uma vida de pecados, para o reino dos Céus. Nunca se soube se lá no Céu, Dimas tenha furtado a auréola de algum santo ou tentado matar para comer, o carneiro de São João Batista. O fato é que Dimas só se regenerou na hora da morte.

Conta-se que, certa noite, um homem pobre e resignado com sua pobreza, ao ver que um ladrão estava escalando a janela da sua casa, deixou-o chegar em cima, e disse-lhe calmamente:

– O senhor entrou aqui por engano, com certeza…Eu sou um homem pobre e não tenho nada aqui que o senhor possa levar, muito menos dinheiro. Mas, naquele casarão bonito e pomposo, que daqui se vê, mora um homem riquíssimo, capitalista. Não perca o seu tempo comigo. O senhor não encontrará nada aqui, hora nenhuma, pois eu sou um desvalido! Vá lá e encontre o que aqui você jamais encontrara!

Compadecido do homem pobre, o ladrão de “segunda classe” o deixou em paz e foi assaltar a casa do capitalista por ele indicado.

Um belo exemplo deixou São Francisco de Assis, o símbolo da pobreza:

– Ao ser informado de que os frades do seu Mosteiro haviam se recusado a dar agasalhos a uns ladrões que tremiam de frio, São Francisco correu a procurá-los pela estrada por onde haviam seguido, e fez de cada um deles um soldado da sua Fé, para o santo serviço de Deus. E eles nunca mais roubaram.

Piedade, pois, para os “ladrões de segunda classe”, desprotegidos, entre eles os ladrões de galinhas, que não ocupam birôs, não escondem malas de dinheiro, nem dinheiro na cueca, e não usam colarinhos brancos. Eles diferem de outras categorias de ladrões. Por precaução, só operam nas caladas da noite. Permanecem fora da sociedade e da lei. Muitas vezes, apodrecem nas prisões, por falta de quem os defenda, e por injustiça da própria lei.

Afinal, como dizia Lachaud, célebre criminalista francês (1818 – 1882):

“A LEI É CALMA E NÃO TEM SEQUER OS ARREBATAMENTOS DA GENEROSIDADE”.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 09 de outubro de 2022

NOSSOS BICHOS (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

NOSSOS BICHOS

Violante Pimentel

 

O Brasil é um dos raros paraísos terrestres. Não tem vulcões, que sepultem os homens em lama fervente, nem invernos rigorosos, que congelem as crianças nas ruas.

As nossas “revoluções” são rápidas e os “revolucionários” não guardam rancor. É verdade que, no correr da luta, as torturas se multiplicam e há pessoas que desaparecem do nada e para sempre. Porém, restabelecida a suposta paz, os mortos são esquecidos e os que sobreviverem, anos depois estarão, novamente, agitando a vida pública do País.

O povo se contenta com pão e circo. E o nosso circo é imenso. Entretanto, a coleção de bichos que o nosso circo possui não é a mais rica do mundo. Pelo contrário, fica muito a dever à Arca de Noé. Não temos girafa nem leão. O nosso pavilhão verde-amarelo é rico em florestas e minério. Mas as florestas não possuem sortimento de animais.

Nem todos compreendem o que quer dizer um rapaz magro, escaveirado e maltrapilho, quando diz ter passado a semana inteira a “cercar o cavalo e o touro, ao mesmo tempo, pelos quatro lados”. Também quem é de fora não entende o que significa um caboclo descalço dizer que seria capaz de “matar o bicho com duzentos reis.”

Isso se refere ao jogo do bicho, já incorporado à cultura popular, com seus causos hilários.

Ainda há o caso do “bicho de pé”, causado por um parasita denominado “tunga penetrans”, oriundo do hábito de se andar descalço. E há o caso do rapaz de pés tortos, decorrente da infestação de “bichos de pé”.

O Brasil, portanto, é também a terra do bicho. Tem bicho de toda espécie. Mas os nossos “bichos” são genuinamente brasileiros. Não vieram da África, como os bichos dos grandes circos estrangeiros. As nossas florestas são pobres. Aqui, por muito favor, se conseguirá encontrar onça, jacaré, macaco e tamanduá. Os dois últimos, no momento, são protegidos pelas imunidades parlamentares.

O nosso macaco é de pequeno porte, mas muito hábil. Para trabalhar no trapézio do circo, não há bicho melhor. Pula de galho em galho, com uma facilidade admirável.

Quanto ao tamanduá, é um bicho inteligente e ardiloso. Quando vê o caçador, põe-se de pé, escancara os braços, tal qual político em época.de campanha, e marcha para ele como se fosse o mais leal dos amigos. Assim que o cinge mete-lhe as unhas nas costas, e não abandona o caçador, até que ele morra.

O tamanduá, por excelência, é considerado o animal político da nossa fauna. Seu comportamento traiçoeiro e falso é típico dos políticos profissionais. E ainda há caçadores que confiam nele!…

Nós temos, também, por aqui, um bicho muito agradável. É a Guariba, espécie de macaco “bugio”, lembrada na música Sebastiana, de Jackson do pandeiro.

O macaco Guariba é o orador parlamentar da floresta. Ronca que é uma beleza, mas não diz nada. De longe, amedronta o homem. De perto, faz rir quem o vê, na sua tribuna, trepado num pau.

Com exceção desses bichos citados, não se encontram em nosso País, outros animais interessantes, que enriqueçam a nossa fauna. Saguis, preás, mocós, quatis, cotias e tatus não fazem nada de engraçado e bonito. Trocar um tigre por um cachorro do mato, não interessa a ninguém. Trocar uma foca por uma Ariranha, também não interessa. Muito menos, trocar um hipopótamo por um macaco-prego.

Dizem que tem bom coração, aquele que protege os animais. E os animais, quando bem tratados, criam verdadeira veneração religiosa pelo dono.

Conta-se que um dono de circo internacional percorreu durante vinte anos os continentes, levando com ele dois patos vivos, que recebera de presente para comer. Os patos morreram de velhos. Dotado de bons sentimentos, esse homem terminou morando no Brasil.

A Guariba tem corpo forte e cauda longa. Sua característica mais marcante é o som emitido pelos machos, que pode ser escutado a longas distâncias.

A vocalização destes animais varia, conforme a informação que deseja ser passada. O filhote emite sons curtos e prolongados, enquanto os sons emitidos pelos jovens e fêmeas são entrecortados e graves. Podem indicar que está na hora de andar, alimentar-se, ficar em alerta ou chamar a fêmea para o acasalamento. Os sons emitidos podem se assemelhar a gritos, latidos e rugidos.

Relembrando Jackson do Pandeiro:

Convidei a comadre Sebastiana
Pra dançar e xaxar na Paraíba
Ela veio com uma dança diferente
E pulava que só uma guariba
Ela veio com uma dança diferente
E pulava que só uma guariba
E gritava: A, E, I, O, U, ipsilone”

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 02 de outubro de 2022

AS ELEIÇÕES (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

AS ELEIÇÕES

Violante Pimentel

 

Era dia de Eleição, décadas atrás, entrando pelo século passado (50/60), Nova Cruz estava em festa. Caminhões carregados de eleitores, vindos da zona rural e lugarejos vizinhos chegavam a toda hora. Os candidatos pela UDN e PSD ofereciam mesa farta aos votantes famintos, coisa que sempre ocorria nas eleições. Comidas pesadas como feijoada, buchada de bode, rabada, cozido e sarapatel, à vontade. A fartura era grande e os eleitores comiam até se empanturrar. 

 

 

Antigamente, as cabines de votação eram fechadas.

Pois bem. Nessas referidas eleições, aconteceu um caso constrangedor e ao mesmo tempo hilário.

Um eleitor que votaria pela primeira vez, muito nervoso, ao entrar na cabine de votação foi acometido de uma enorme cólica intestinal, a chamada dor de barriga “de chicote”. Essa que chega traiçoeiramente, e não há reza forte que a faça recuar. Não há santo que a segure, e as tripas fervem e gritam:

“Ó abre alas, que eu quero passar!!!”

O eleitor tinha comido muita buchada de bode e outras comidas pesadas, na mesa farta oferecida pelo seu candidato a Prefeito.

Sem outra solução, acocorou-se perto da cabine de votação, num canto de parede, e não teve tempo de raciocinar. Não houve santo nem arcanjo que ouvisse os seus apelos. De tão nervoso e “apertado” que estava, defecou ali mesmo, sem saber que estava homenageando a todos os corruptos, assaltantes do erário público.

Suando frio e apavorado com o que lhe pudesse acontecer, o eleitor ” debutante” limpou-se com a chapa de votação oficial, que lhe fora entregue pelo mesário, e também com a “cola” que trouxera e todos os “santinhos” que guardava nos bolsos, todos com a cara dos candidatos.

O fato é que o eleitor ultrapassou o tempo de permanência na cabine de votação, o que chamou a atenção dos fiscais.

O mesário bateu à porta da cabine, chamou o nome do eleitor e disse-lhe que o seu tempo de votação havia se esgotado. Depois de alguns segundos, uma voz cansada respondeu: “Tem gente!” E o eleitor não saiu.

A ênfase do mesário aumentou:

– Senhor José Apolinário da Silva, seu tempo de votação terminou!

Transtornado, o eleitor estreante, ao ouvir alguém chamar seu nome, vestiu-se de qualquer jeito, e saiu da cabine como um raio, deixando-a um horror de fezes e mau-cheiro. Sentiu-se como se estivesse saindo do inferno e como se fosse a pessoa mais infeliz do mundo.

Retornou à sua casa na zona rural traumatizado, e a lembrança desse dia fatídico nunca saiu da sua mente. Quando escuta a palavra “eleição”, se benze três vezes e faz figa.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho segunda, 26 de setembro de 2022

BRASIL HERÓI (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

BRASIL HERÓI

Violante Pimentel

 

Esse pagão foi S. Paulo, que, mesmo mergulhado nas trevas, viu a Cristo, e a cegueira o redimiu.

– SAULO! SAULO! Por que me persegues? – gritou-lhe o Senhor.

E Saulo, convertido, foi o mais perfeito soldado de Deus, que, para que o servisse, lhe restituiu os olhos, e lhe deu com eles, o prestígio da fé.

Pois bem. Certa vez, entrando pelo século passado, um jovem soldado cego, acompanhado do seu guia, dirigiu-se ao Quartel General, procurando falar com o Ministro da Guerra. Levava em mãos um ofício da Associação Brasileira de Imprensa.

 

 

Em 1930, quando houve o maior conflito nacionalista brasileiro (A Revolução de 1930), e quando o país, de norte a sul, se erguia bêbado de esperança, para renovar o seu panorama político, o jovem Brasil Herói se unira aos que marchavam, e marchou também, rumo à vitória. Mas não foi feliz.

Às vésperas do triunfo, Brasil Herói perdeu a visão dos dois olhos. Um estrondo, uma nuvem de poeira, e, em seguida, a noite, a escuridão. Tateou em torno de si mesmo, procurando apoio. Mãos amigas o seguraram.

Nunca mais viu o sol, e penetrou na noite escura da sua agonia.

Brasil Herói, o soldado cego que a Associação Brasileira de Imprensa mandou apresentar ao sr. Ministro da Guerra, “não vinha a Damasco para combater os Cristãos, mas para aliar-se a eles, no serviço da nova religião.”

Os que marchavam a seu lado traziam todos, ambição e esperança. O que menos pretendia, pretendia uma porção de liberdade. E todos, ou quase todos, conseguiram o que desejavam. Houve quem se contentasse com um cartório, e houve quem se satisfizesse com um pão. E houve, até, quem se sentisse pago da viagem longa, e dos riscos da expedição militar, amarrando o seu cavalo a uma coluna de pedra no coração da Avenida.

Ao término da infeliz marcha, o agora cego, Brasil Herói, não pediu nada à Revolução. Não cobiçou uma pasta de ministro, não pleiteou coisa nenhuma. Não foi candidato a um lugar de tabelião. Não solicitou promoção no exército. Não desejou para si, um cargo, até então, ocupado por outrem.

Brasil Herói queria, apenas, os seus olhos de volta, isto é, as duas moedas que lhe haviam sido arrebatadas e que lhe davam direito a assistir a todos os espetáculos da vida e do mundo! Seus olhos eram o seu maior tesouro.

Desiludido de reavê-los, o jovem soldado da Revolução de 30 foi bater à porta da Associação Brasileira de Imprensa. Não foi pedir que enxergassem por ele, pois sabia, por dedução, que isso seria impossível. .

Tateando o corrimão da vasta escadaria, que levava ao salão da Associação Brasileira de Imprensa, Brasil Herói foi pedir ao seu presidente, simplesmente, que lhe conseguisse, do sr. Ministro da Guerra, uma cama e um prato, no Asilo dos Inválidos da Pátria, a fim de que pudesse assistir, sem fadiga e sem fome, com o auxílio dos ouvidos, ao desenrolar do espetáculo da Revolução, no qual colaborou obscuramente, trabalhando na preparação dos cenários. Operário na “construção de Babel”, perdeu a vista, quando carregava o seu tijolo. Tem direito, pois, de acordo com a lei que regula os acidentes do trabalho, ao amparo por parte do dono da obra.

Brasil Herói foi atendido no seu pedido desesperado, de ter ao menos, uma cama e um prato no Asilo dos Inválidos da Pátria. Nada, porém, consolaria alguém de ter perdido totalmente a visão, passando a viver nas trevas, sem sol, sem lua e sem estrelas.

Diz a História, que os revolucionários brasileiros tem uma infinidade de defeitos, mas lembram, principalmente, os civis, e particularmente os do Rio Grande do Sul. O que lhes falta, às vezes, em tato político, sobra-lhes em bom coração.

Levam surras tremendas, mas não se vão, mesmo recebendo compressas de vinagre nas equimoses. Abrem-lhes feridas com espada e, ensanguentados, aceitam o bálsamo que as cicatrize.

A capacidade de sofrer, do ser humano, é imensa.

A Brasil Herói, o desventurado cego, a quem a Associação Brasileira de Imprensa estendeu a mão do seu presidente, restou o consolo de uma cama e um prato no Asilo dos Inválidos da Pátria.

Os homens públicos, como se sabe, não tem tempo para reflexões. O ócio e outros sentimentos rudimentares se transformam em ideias e axiomas, e sobrevivem, comprometendo a ordem pública e a fraternidade humana.

E assim caminha a humanidade, sempre sob o império das paixões.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho quarta, 21 de setembro de 2022

SONHO OU PESADELO (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

SONHO OU PESADELO

Violante Pimentel

 

Nunca esqueceu seu estresse de ter que acordar de madrugada, para pegar a barca e ir trabalhar no Rio. Depois de aposentado, passou a sonhar todas as noites, que estava na barca da Cantareira. Eram pesadelos tremendos. Passava a noite dando voltas na cama e fazia de conta que estava passando pela “borboleta.” Dormindo, era tão inquieto na cama e fazia tantas voltas em sonho, que chegava a chutar o que houvesse por perto e a derrubar o ventilador que ficava na sua mesinha de cabeceira.

 

 

Na ausência de Freud, ou de qualquer dos seus seguidores nacionais, Zé da Silva procurou, ele mesmo, decifrar o seu sonho. Vivia lendo notícias horríveis, de violência e crimes de toda espécie.

Lia sempre os noticiários dos jornais e ficou sabendo da greve da Cantareira Fluminense.

Com atraso, leu também a petição de uma mulher, pedindo a recomposição do corpo de sua própria mãe, decapitada e esquartejada pelos rapazes da Faculdade de Medicina do Estado do Rio. A velha dama falecera num hospital público de Niterói.

Informada do óbito de sua mãe, a filha se deslocou ao hospital, para providenciar o sepultamento. Tencionava fazer a inumação piedosa e conveniente, de acordo com os preceitos cristãos. Mas, chegou atrasada. O cadáver da sua mãe já havia sido encaminhado pelo Diretor da Faculdade de Medicina, ao anfiteatro da sua escola, estando disponível aos estudos de Anatomia dos seus discípulos. Não se sabe o resultado dessa “operação”. A luta do pobre contra o rico não deve ter dado em nada, apesar da torpeza do assunto.

Um dos grandes heróis da Grécia Antiga, o poeta, profeta e músico, Orfeu, foi assassinado, tendo o corpo despedaçado pelas “Mênades”, mulheres apaixonadas e furiosas, que não estudavam medicina, nem tinham compromisso com a Ciência. Cansadas de serem menosprezadas, as Mênades, cortaram o corpo de Orfeu em pedaços e lançaram sua cabeça no Rio Hebrus.

Já nesse hospital de Niterói, uma veneranda e pobre senhora pagou o ultrajante tributo à Ciência, ao ir a óbito, e cair, em seguida, sob o bisturi de algumas centenas de jovens, que andam a pesquisar nos domínios da Morte os profundos e eternos segredos da Vida.

Seu cadáver foi usado, como se fosse um “cadáver desconhecido”, nas aulas de Anatomia, da Faculdade de Medicina. Enquanto isso, desesperada, a filha aguardava o reconhecimento e liberação do corpo da mãe, para o sepultamento Cristão.

Esse caso impressionou Zé da Silva, e entrou como complemento nos seus pesadelos.

Com as pálpebras querendo fechar e sinais de “sono à vista”, logo cedo, ele adormecia. Pouco tempo depois, começavam os sonhos, verdadeiros pesadelos.

Via-se passando na “borboleta” da barca de Niterói e, no sonho, acabava de sentar-se em um dos bancos, próximo à caldeira. De repente, alguém tocou-lhe o ombro. Era o temível Dr. Lauro Amaral, Diretor da Faculdade de Medicina, que também estava a atravessar aquele mar.

Os dois começaram a palestrar.

Palestra de barca tem tempo certo para acabar. É feita sob medida e se escolhe o tamanho do assunto, de acordo com o tempo que falta para a barca atracar.

– O senhor não imagina, como estou preocupado com a falta de cadáveres na faculdade, para as aulas de Anatomia. – Falou o médico.

Zé da Silva perguntou:

– O Dr. está falando em falta de defunto? Pra que? Credo em Cruz!!! Vejo falar em falta de dinheiro no bolso do povo brasileiro! Mas de defunto, não! O Doutor anda sendo perseguido pelos cadáveres?

Não, senhor! – Pelo contrário! Os cadáveres é que andam sendo perseguidos por mim!

E o doutor continuou:

– A Medicina é a Ciência que atrai o maior número de alunos no Brasil. A cada ano saem das escolas superiores do país milhares de brasileiros jovens, autorizados a exercer o seu apostolado, na pele, na carne, no osso e no tutano do próximo. E a cada ano, entram para os lugares que eles deixaram nos bancos das Faculdades, novas centenas de candidatos. Como consequência, começaram a faltar corpos humanos para os estudos. A procura valorizou o produto. E de tal modo, que é mais fácil, hoje, um cadáver encontrar um estudante, do que um estudante encontrar um cadáver. Em Niterói, principalmente, um defunto está, agora, pela hora da morte!

Não morre ninguém?

– Morrer, morre. Mas, a questão, é que o defunto que vai para a Faculdade, servir de campo de pesquisas ao estudante, é unicamente o pobre, que passa pelo necrotério. É preciso que o sujeito tenha sido assassinado, e não tenha parente que o sepulte.

– O Doutor já experimentou mandar matar alguém? – Perguntou Zé da Silva.

– Já. Os rapazes da Faculdade tem animado alguns valentões a enfiar a faca no bucho alheio. E o resultado tem sido nulo. Duas ou três mortes, e acabou-se. Que são, porém, dois ou três defuntos para mais de oitocentos rapazes armados de bisturi? Nada! Quando aparece um cadáver no anfiteatro da nossa Faculdade, é tanta gente em cima dele que vem logo a lembrança da afluência dos pintos lá nas casas do interior, quando se atirava uma casca de banana no quintal!

Fez-se um silêncio ligeiro, e o médico falou baixinho:

– O senhor não leu o que alguns jornais de Niterói publicaram a seu respeito?

– Não, senhor….

– Pois, olhe: eu, no seu caso, não aguentava! Ia à redação, e metia seis balas no primeiro sujeito que encontrasse lá dentro! Não interessa quem seja!!!

– Mas, em que redação, Doutor? Qual é o jornal?

– Qualquer um. A imprensa é uma só. E o senhor está na obrigação de vingar-se! Não se faça de fraco! Não aguente desaforo!

E disse, ao ouvido de Zé da Silva:

– A Faculdade dá quinhentos mil reis por cada defunto!

– E se eu morrer, Doutor? – perguntou Zé da Silva.

Um sorriso maléfico iluminou o rosto do “bondoso” médico. As suas pupilas se acenderam, numa alegria sinistra.

– Se o senhor morrer?

Correu os olhos sobre Zé da Siva, contemplando as anomalias da sua figura. E com entusiasmo, apertou-lhe a mão, com vivacidade:

– Dou-lhe um conto de reis, hoje!….

Com essa, Zé da Silva despertou do sono, ainda mais perturbado. Mas, se consolou, sabendo que ele, pelo menos em sonho, é um “homem de valor.”
Aquele médico, só podia estar louco!!!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 10 de setembro de 2022

O TEMPO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

O TEMPO

Violante Pimentel

 

 

Clepsidra ou relógio do tempo

 

O grande poeta Olavo Bilac (1865-1918) escreveu este belo soneto, inspirado nesse tema, que pertence a toda a poesia e que está em todas as línguas:

“TODA HORA FERE E A DERRADEIRA MATA”

Vão-se os dias, semanas, meses, anos
E ao findar na terra a fugaz visita,
Temendo o êxodo, nossa alma hesita,
Deixar o palco dos seus desenganos.

É o tempo senhor dos nossos planos
E a última vez que um coração palpita,
Um relógio invisível a hora grita,
No necrológio triste dos insanos.

Inexoravelmente se consuma
A breve história da vida aqui na terra,
Pela percepção de quem a capta.

Como a onda do mar por entre a bruma,
Ergue-se altiva e depois se encerra,
“Toda hora fere e a derradeira mata”.

O tempo é inexorável. É o senhor dos nossos planos. Não para, nem espera por ninguém. E os sonhos ficam sempre inacabados, como uma sinfonia. Quando o tempo diz que é hora, os planos ficam no ar.

Há um antigo provérbio latino, inscrito em antigos relógios de sol, que se refere ao tempo, às horas e à nossa passagem pela vida, que diz:

“Todas ferem e a última mata”.

O provérbio pretende alertar-nos para o efeito que o tempo tem sobre nós. Todas as horas que vivemos, bem ou mal, deixam as suas marcas. Temos, portanto, que vivê-las o melhor possível, para que a sua marca não seja uma ferida fatal, e para que possamos atrasar a última hora.

Não é, pois, de se estranhar que este provérbio apareça, essencialmente, nos relógios, símbolos da passagem do tempo.

Há uma antiga lenda, que conta a história de um jovem frade, que, certa manhã, saiu do seu convento, atraído pelo cântico de um rouxinol e se embrenhou pela floresta. Deslumbrado com tanta beleza ali encontrada, distanciou-se cada vez mais, floresta a dentro, envolvido pela magia da diversidade de pássaros e seus cânticos maravilhosos.

Embevecido com a beleza que estava diante dos seus olhos, o jovem frade se esqueceu do tempo que passava ao seu redor e das pessoas que aguardavam a sua volta. Quando despertou desse enlevo, perdeu a noção de quantas horas permanecera ali, encantado com o cântico dos pássaros.

Apressou-se em voltar ao Convento, mas, em ali chegando, notou que estava tudo diferente. O jovem porteiro havia se transformado em um velho frade, de cabelos brancos e enorme barba.

Não só o irmão porteiro havia envelhecido, como também todos os frades que ainda restavam no Convento. Estavam todos de cabelos brancos e alguns já haviam morrido.

Muitos anos se tinham passado, e entre o recém-chegado moço e o eremitério velho, acontecera o hiato de Deus, a eternidade. Nada tinha mais sentido para o jovem frade.

Essa realidade é sempre esquecida e o tempo é desperdiçado e gasto com brigas, violência e desamor.

A legenda dourada do tempo, que diz que ele está passando, é sempre ignorada, e esquecida pela volúpia com que se deixa que se escoem as horas, estas horas que passam nos ferindo, uma a uma, até o minuto fatal.

A hora atual nos parece mais vertiginosa e à medida em que envelhecemos, contamo-la por minutos, como as pulsações do coração.

Há homens que se deixam, também, atrair pela música dos pássaros levianos. Caminham, dentro da floresta, de clareira em clareira, esquecidos das horas.

A clepsidra (relógio de água, um dos primeiros sistemas criados pela humanidade para medir o tempo) se esgota, a velhice chega, mas o engano persiste até o momento em que se deparam com o velho muro da morada esquecida, onde se retratam as dores e as decepções.

O milagre não aconteceu. O irmão de cabelos brancos que os espera à porta do Convento é a própria figura do destino, que não abandona aqueles a quem marca e a quem dirige com sua mão vigilante.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 03 de setembro de 2022

A HISTÓRIA SE REPETE (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

A HISTÓRIA SE REPETE

Violante Pimentel

 

As fraudes, as corrupções e os subornos constituem, nos dias atuais, as marcas predominantes dos crimes contra o patrimônio público.

Nestes tempos sombrios de uma disputa política acirrada, em que a liberdade de expressão de um partido é cerceada a toda hora, e em contrapartida, as divindades supremas fecham olhos e ouvidos para o que dizem e fazem os componentes do “Cordão Vermelho”, nada melhor do que mergulharmos na história da Roma Antiga, e nos deliciarmos com a inteligência de Cícero, o grande filósofo.

Marco Túlio Cícero, (3 de janeiro do ano 106 A.C), foi um dos mais importantes filósofos da Roma antiga.

Proveniente de uma cidade ao sul de Roma, de nome Arpino, no começo da sua vida, esse fato o discriminava, por não ser um romano tradicional.

 

 

A família de Cícero também o ajudou a crescer. Seu pai era um rico equestre, com importantes contatos em Roma.

Sua educação foi baseada nos grandes filósofos, poetas e historiadores gregos.

Desprovido de qualquer interesse pela vida militar, Cícero começou sua carreira como advogado. Mais tarde, mudou-se para a Grécia e ampliou seus estudos de retórica. Através dessa estadia na Grécia, teve contato e passou a admirar calorosamente a obra de Platão. Foi o responsável por introduzir a filosofia grega em Roma, criando um vocabulário filosófico em Latim.

Foi toda a sua eficiência e competência na língua grega, que o levou à condição de intelectual e o colocou entre a elite romana tradicional.

Na década de 60 a.C., Catilina, um militar e senador romano famoso, que também já havia passado por cargos de magistratura, pretendia ser designado Cônsul da República. Mas, seu nome era encarado com desconfiança por seus pares. Muitos viam nele um risco para as instituições republicanas. Em retaliação, Catilina, junto a seus aliados, entre eles o ex-Cônsul Públio Cornélio Lêntulo Sura, procurou organizar uma rebelião, ou golpe, contra a República. Esse golpe consistia no assassinato dos dois cônsules e na subjugação do Senado.

Cícero, que era Cônsul, ao tomar conhecimento do planejado golpe, escreveu, então, uma série de quatro discursos célebres contra Catilina, pronunciados em 63 a.C. Esses discursos denominados Catilinárias, posteriormente, se notabilizaram.

Logo de início, destilavam:

“Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?

Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os tremores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a tem já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberação foram as tuas?

Oh tempos, oh costumes! O Senado tem conhecimento destes fatos, o cônsul tem-nos diante dos olhos: todavia, este homem continua vivo! Vivo?! Mais ainda, até no Senado ele aparece, toma parte no Conselho de Estado, aponta-nos e marca-nos, com o olhar um a um para a chacina. E nós homens valorosos, cuidamos cumprir o nosso dever para com o Estado, se evitamos os dardos da sua loucura à morte, Catilina, é que tu deverias, há muito, ter sido arrastado por ordem do cônsul, contra ti e que se deveria lançar a ruína que tu, desde há muito tempo, tramas contra todos nós.”

Cícero tornou-se o homem mais importante de Roma, ao lado de Marco Antônio. O primeiro, como porta-voz do Senado e o segundo como Cônsul. Só que os dois nunca tiveram uma relação amigável, o que piorou quando Cícero acusou Marco Antônio de abusar na interpretação das intenções e dos desejos de Júlio César.

Cícero articulou um plano para colocar no poder o herdeiro de César. Mas, seu plano não saiu como desejava. Octaviano aliou-se a Marco Antônio e formaram um triunvirato, juntamente com Marco Emílio Lépido, para governar Roma.

Esse triunvirato elaborou uma lista de pessoas que deveriam ser consideradas inimigas do Estado, na qual Cícero foi incluído. Como o intelectual romano era muito bem visto por grande parte do público, Octaviano se recusou a inseri-lo nessa listagem. Mas, a medida drástica foi inevitável.

Cícero foi capturado no dia 7 de dezembro do ano 43 A.C. , quando tentava fugir para a Macedônia. Seus escravos ainda tentaram escondê-lo, mas os assassinos o encontraram e o mataram. Cícero teve a cabeça cortada e as mãos também, por ordem de Marco Antônio, partes que foram pregadas no Fórum Romano.

Ainda ecoam, da sombra de dois mil anos, as apóstrofes dos discursos de Cícero; e ouvindo-as, fica-se menos espantado diante dos quadros de corrupção e impunidade dos dias atuais.

Foi na antiga civilização romana que o modelo político da república se desenvolveu.

República, em sentido literal, quer dizer “Coisa Pública”, “Bem Público”, isto é, aquilo que diz respeito à vida em sociedade, à administração dos interesses e necessidades de todos.

Esse modelo político passou a vigorar na antiga Roma, após a queda de Tarquínio, o Soberbo, último rei da dinastia etrusca (dinastia que governou Roma durante 244 anos), no ano de 509 AC.

Com o advento da República, a estrutura monárquica foi abandonada e em seu lugar, novas instituições foram erguidas. Dentre elas, as mais importantes eram a Magistratura (que executava a administração pública) e o Senado (composto pelos cidadãos mais velhos, que eram encarregados da elaboração das leis e do controle da ação dos magistrados).

Dos vários cargos da magistratura, o mais alto era o de Cônsul. Quem estava à frente do poder da República eram dois Cônsules, escolhidos pela Assembleia Curiata, ou Assembléia das Cúrias, organismo legislativo, que existiu durante o período da Monarquia em Roma.

O que Cícero clamava há dois mil anos, pode ter se perdido entre as infinitas ressonâncias dos séculos. Entretanto, a corrupção que ele verberava continua impassível, cantando as suas vitórias e vangloriando-se da sua longa impunidade.

Além de um grande filósofo e escritor, Cícero deixou um legado de grande influência à cultura europeia.

Tornou-se uma das principais fontes primárias para o estudo da Roma antiga.

Para onde quer que se olhe, nos dias atuais, a paisagem não está tranquila. Se as árvores estão paradas e as casas mudas e tristes, o seu silêncio é o de estarrecimento, insegurança e torpor.

O povo sofre a crise constitucional que afeta os poderes da Democracia.

Atualmente, a liberdade de expressão é limitada, e o povo assiste, impotente, às injustiças cometidas contra parlamentares, com foro privilegiado.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 27 de agosto de 2022

MEDO DE MÉDICO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

MEDO DE MÉDICO

Violante Pimentel

A fome é uma doença crônica, que somente a comida pode controlar.

É estranho o comportamento de pessoas, portadoras de doenças crônicas como hipertensão arterial e diabetes, que se recusam a procurar tratamento médico. Mesmo sendo doenças crônicas, para o resto da vida, essas doenças podem ser controladas. Para isso, o doente terá que se submeter a uma rotina diária de tomar a medicação prescrita pelo médico.

 

 

A doença crônica da fome, se não for tratada diariamente, pode levar o doente a óbito em um mês. E o remédio diário é um farto prato de comida, no mínimo, três vezes ao dia.

Esses pacientes que tem medo de médico devem ser adeptos da filosofia dos avestruzes. Dizem que quando um avestruz avista um leão, enfia a cabeça na areia para não vê-lo.

Acham que ignorando a doença, ela não existe. Ledo engano. O leão existe e está sempre à espreita.

Entretanto, para a doença da fome, o único remédio que existe é a comida, como o feijão com arroz e carne, leite, ovos etc. diariamente.

Há pessoas que brincam com a saúde e dizem ter medo de médicos. “Esquecem” de tomar os remédios por eles prescritos, e adotam a filosofia do avestruz. Acham que médico só faz descobrir doença. E usam o velho ditado popular: “o que os olhos não veem, o coração não sente.”

Acham que escondendo a doença, ela não existe.

Conheço pessoas que evitam ir a médicos, com medo de que eles descubram nelas alguma doença incurável. Fogem do tratamento precoce ou preventivo, como o diabo foge da cruz, e só procuram o médico, quando a doença já avançou.

Acontece que o leão é verdadeiro e vive à procura de caça. Por isso, não adianta o avestruz enfiar a cabeça na areia, para não ver o leão, pois terminará sendo devorado por ele.

Os avestruzes são injustiçados. Seus detratores declaram que aquelas aves são de uma estupidez sem paralelo. Dizem que elas, ao se defrontar com um leão, enterram suas cabeças na areia, como quem diz: “se não percebo o perigo, o perigo não existe para mim, desde que eu continue com a cabeça enfiada na areia.”

Não haveria problema nenhum, se o leão não existisse. Mas o leão existe, é caçador, e termina devorando o avestruz. Entretanto, é estranho que o avestruz, pelo instinto de conservação, não fuja do leão, ao invés de enfiar a cabeça na areia. Mas o que não se admite é que a pessoa humana evite ir ao médico, mesmo com sintomas de uma doença.

“É melhor prevenir, do que remediar”


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 21 de agosto de 2022

O MUNDO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FORIANO)

O MUNDO

Violane Pimentel

O mundo é pequeno, mas a maioria dos homens se julga tão grande, que não se pode andar em direção alguma, sem se correr o risco de pisar nos calos de alguém. Se, porém, ficarmos parados, os que tem pressa passarão por cima de nós e pisarão nossos pés.

Não agradamos a ninguém pela nossa brandura, e jamais agradaremos pelo nosso modo ríspido de dizer a verdade. Temos que dizer sim aos mandões, sob pena de ficarmos antipatizados.

Seja qual for a forma de procedermos, teremos sempre inimigos gratuitos. E não são poucos.

A simplicidade dos bons é vista como idiotice por parte dos esnobes, prepotentes e ambiciosos.

O culto ao dinheiro por parte dos invejosos, faz com que eles sofram, com inveja daqueles que são controlados e não gastam mais do que podem.

As “parcelinhas” do cartão de crédito tiram o sono dos irresponsáveis, viciados em dever.

O pior é que muitos acham que quem economizou e fez um pé de meia, deve abrir mão do que tem, para dar cobertura à irresponsabilidade deles, que sempre gastam mais do que podem, optando pelas coisas supérfluas e deixando as necessárias para depois. Estes planejam sempre tirar vantagem do dinheiro alheio, e no vocabulário deles não existe a palavra “escrúpulo”.

A inveja, o olho grande e a ganância fazem do mundo uma competição. Ninguém perdoa o sucesso de ninguém e as boas qualidades de uma pessoa são ignoradas. Enquanto isso, os defeitos são procurados com lente de aumento, ou lupa.

Há pessoas vaidosas e orgulhosas, que parecem certos pasteis de feira. Tem uma casca crocante e estufada, de chamar a atenção. Mas, por dentro, quase não tem recheio. Um verdadeiro engodo.

 

 

Isso me faz lembrar um ditado do tempo da minha avó paterna, D. Júlia: “Por cima, muita farofa, e por baixo molambo só”.

E assim caminha a humanidade.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 13 de agosto de 2022

ACONTECIA NA FEIRA (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

ACONTECIA NA FEIRA

Violane Pimentel

 

A mortalidade infantil era absurda. A criança adoecia à tarde e antes de amanhecer o dia estava morta. Não havia assistência médica nenhuma, e, consequentemente, não havia plantão médico.

 

Chá de canela era o “remédio” que os curiosos indicavam para os bebês, quando de repente ficavam febris, pálidos e choramingando. Foi assim que vi um irmãozinho meu, Galdino, morrer, no dia em que completou sete meses de idade, ao sofrer uma convulsão pela madrugada. Tinha amolecido à noitinha, ficou febril e foi “medicado” por um conhecido charlatão da cidade, que, em sua casa, consultava o povo da roça, dia de feira. O remédio por ele indicado foi chá de canela, achando que deveria ser uma gripezinha.

Nunca esqueci o desespero da minha mãe naquela madrugada, gritando desolada, sem querer acreditar que a criança estava morta. Meu pai, também desesperado, tentava acalmá-la, mas era em vão. Eu tinha pouco mais de quatro anos. Nunca esqueci essa terrível cena, numa madrugada escura e fria.

Pela manhã, a casa se encheu de gente. À tarde, houve o enterro de Galdininho (como minha mãe o chamava), com a presença de familiares da minha mãe, que moravam em Natal. Essas coisas tristes da vida, a gente nunca esquece…

Pois bem. A feira municipal de Nova-Cruz era na 2ª feira. Era considerada a maior feira da região agreste. Começava pela madrugada e se estendia até o final da tarde.

Do balcão da bodega do nosso pai, assistíamos a um verdadeiro espetáculo de cultura popular: As cantigas dos cegos, pedindo esmolas, e insultando uns aos outros, defendendo seus direitos àquele ponto. Era uma verdadeira festa do Cordel. Os desafios eram hilários e maliciosos.

A feira era um verdadeiro encontro ou reencontro de almas. Era um dia divertido, com meu pai, minha mãe e quase todos os filhos no balcão da venda. Em frente, havia duas barracas que vendiam cocorotes (de coco), bolo branco (hoje chamado “bolo da moça”) e doce americano (geleia de coco). Nunca me esqueci do gosto dos cocorotes. Tudo era uma gostosura.

Mais adiante, chegava um vendedor ambulante, com uma mala cheia de óculos de grau para vender, e formava-se uma fila de pretensos “clientes”, para comprar óculos, cujo grau lhes permitisse ler as letrinhas da caixinha de fósforo “MARCA OLHO”. Esse era o teste para aprovação do grau.

A precariedade da vida em Nova-Cruz forçava o povo a dar preferência aos óculos vendidos pelo ambulante. Além do mais, se o problema fosse apenas “vista curta”, seria mais cômodo e mais em conta comprar os óculos já prontos na feira, do que ter que viajar a Natal, somente para esse fim. Os compradores de óculos ficavam satisfeitos quando enxergavam perfeitamente as letrinhas da caixinha de fósforos “Marca Olho”. Era o sinal de que o grau era aquele.

De Nova-Cruz a Natal são 110km. Entretanto, naquela época (60/70), em estrada de barro, a viagem de ônibus levava de 4 a 5 horas. Durante o inverno, o atoleiro era grande. Por isso, os feirantes da zona rural eram acostumados a comprar óculos de grau na feira, já prontos. A aprovação dos óculos era 100%, e ninguém reclamava. Meu saudoso tio Paulo Bezerra, por comodidade, também só comprava óculos de grau na feira, e se dava muito bem.

Também na feira de Nova-Cruz, costumava estar presente um homem vestido com uma bata branca, com pose de doutor, que ali armava uma pequena banca e sobre ela mantinha uma garrafada, que continha um ácido para “tirar” sinais da pele. Nessa época, não se falava em carcinoma. A fila de pessoas que pagavam para tirar sinais era grande. Nunca se soube de um insucesso de um desses “procedimentos cirúrgicos”. Hoje, esse homem seria preso por charlatanismo. Meus tios Paulo Bezerra e Eulina Bezerra chegaram a tirar alguns sinais com ele e os “procedimentos” foram muito bem sucedidos.

Essas lembranças fazem parte da minha saudade. Volto à minha infância e juventude. Essa feira, na minha vida, foi muito mais do que uma simples feira.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 06 de agosto de 2022

*DO TEMPO DO RONCA* (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

“DO TEMPO DO RONCA”

Violante Pimentel

 

“Isto é do tempo do Ronca”.

Há quem diga que essa expressão é uma variante do dito popular “do tempo do Onça”. Na verdade, as duas expressões tem o mesmo sentido.

O “Onça” foi um apelido dado a um governador da capitania do Rio de Janeiro, no sec. XVIII. O mandatário era conhecido por sua honestidade e rigor no cumprimento da lei, o que contrariava osdesonestos, acostumados a mamar nas tetas da Nação.

 

 

De acordo com o que a mídia nos mostra, quem quiser, nos dias de hoje, encontrar um governante honesto, terá o mesmo trabalho de quem procura encontrar uma agulha num palheiro.

Pois bem. “Onça”, como ficou conhecido o governador do Rio, que cultuava a honestidade e detestava ladrão, colocou ordem no “galinheiro da casa”, e por isso era considerado pelos desonestos, como um homem intolerável, doido e idiota.

O governador “Onça” fez com que os recursos da Coroa fossem gastos de forma eficiente e transparente; fez uma devassa no transporte do ouro de Minas ao Rio; trouxe segurança à população e tomou medidas enérgicas contra todo tipo de malandros, ladrões, desordeiros, arruaceiros e esquerdopatas que infestavam o Rio de Janeiro.

O “Onça” também era implacável com os ladrões de “colarinho branco”. Sua honestidade lhe causou muitos problemas na vida política. Ele acabou com as mamatas e governou de forma honesta e rígida, o que desagradou a elite local, acostumada aos “favores” do governo.

Como ele não apoiava vagabundos e malandros, e era intolerante à desonestidade independente de classe ou posição social, acabou por ganhar esse apelido de “Onça”, o animal mais temido da época.

Os atritos políticos fizeram com que o “Onça” terminasse sendo destituído do cargo de governador.

Como se vê, ser honesto, já no século XVIII, era uma coisa complicada na política nacional. O “Onça” foi um exemplo de como é possível, e ao mesmo tempo difícil, governar com honestidade e probidade, sem usar de medidas extremas de restrição à liberdade de ir e vir. Por isso, “Onça” era admirado pela banda decente da população, mesmo sem escapar da crítica daqueles que consideram idiotas e burras as pessoas honestas.

O “Onça” se chamava Luís Vahia Monteiro. Governou o Rio de Janeiro de 10/05/1725 a 22/04/1732. Também foi apelidado de “virgem no bordel”.

Quase 300 anos depois, ser honesto ainda causa polêmica!

Frase do governador Luís Vahia Monteiro, em carta ao rei D. João V.

“Senhor, nesta terra todos roubam. Só eu não roubo.”


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 31 de julho de 2022

GANHAR OU PERDER (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

GANHAR OU PERDER

Violante Pimentel

 

Os jogadores compulsivos agem como os apaixonados e como os alcoólatras, sob o império de uma força irresistível.

Há pessoas tão votadas ao jogo, como votadas ao amor. Cultivam seu vício até o fim da vida.

A paixão pelo jogo também é vista como um ato de destruição do patrimônio e da família, levando, às vezes, o jogador à miséria.

O vício do jogo é uma luta corpo a corpo com o destino. Arrisca-se o dinheiro, na certeza de se ter de volta muito mais do que se jogou. O jogador tem certeza de que vencerá, como se por trás da certeza existisse um pacto com o diabo.

O jogo é alimentado por sonhos. O jogador vê no jogo uma divindade e nos jogadores os devotos. A carta esperada ou a bola que corre, dará, talvez, ao jogador os bens materiais que alimentam seus sonhos, sejam viagens, apartamentos, casas de praia, carros de luxo, jardins, parques, bosques e castelos.

A paixão pelo jogo também é vista como um corvo, que vê de longe o cadáver do jogador.

O mais terrível do jogo é que ele dá o dinheiro e ele mesmo o tira rapidamente. No jogo do bicho, então, há uma piada que diz: o bicho dá e o bicho mesmo come. É mudo, cego e surdo. Não escuta lamentos. Tem os seus devotos e os seus santos.

Quando o jogador perde, acusa a si mesmo pela derrota e jamais se revolta contra o jogo, como se este exercesse um grande feitiço sobre ele.

Há quem tenha adoração por jogo, por tudo o que ele promete, e que, por uma sorte grande um dia poderá dar a alguém. Há também aqueles que consideram o vício do jogo uma das maiores desgraças que penetram na vida do homem pela algibeira, arruínam seu caráter e às vezes sua fortuna. O jogo abrange as cartas, os naipes, os dados e a mesa verde.

Em Nova-Cruz (RN), na época da minha infância, havia dois irmãos, que pareciam dois galãs, por nome Tássio e Tarquino. Eram jogadores de cartas compulsivos. Como perdiam tudo quanto tinham no jogo, chegavam a apostar até a roupa que vestiam. Certa vez, Tássio chegou em casa somente de cuecas, Tinha apostado até o paletó e as calças que vestia. A mãe deles, viúva, sofria muito com isso. Essa família mudou-se para o Recife e não foi mais a Nova Cruz.

Pois bem. Um certo vigário de uma pequena paróquia do interior do Estado, que passava por sérias dificuldades financeiras, inteligente e arguto, aproveitando-se das imunidades morais do seu local de trabalho, mandou colocar na sacristia da sua Igreja quatro mesas, em torno das quais reunia todas as noites, alguns cavalheiros respeitáveis, ricos, católicos e moderados, para jogar “poker”, ou pôquer.

Esse fato foi levado ao conhecimento do Arcebispo, que, imediatamente, mandou chamar o Pároco à capital, para pedir-lhe explicações. Sem qualquer arrodeio, o Pároco confessou:

-A Igreja, Sr. Arcebispo, estava estragadíssima, e eu, com o intuito de repará-la, saí com o pálio do Santíssimo, a pedir esmolas para as obras. Bati de porta em porta e não consegui nada. Toda a gente era viciada em jogo e dizia que o dinheiro era pouco para jogar na vaca, no burro e no macaco, e não sobrava dinheiro para o dízimo. Diante disso, como o templo ameaçasse desmoronar, resolvi tirar partido da situação, sem comprometer a autoridade divina. Desviei os jogadores de um clube da cidade para a Sacristia da nossa Igreja, e aí passei a arrecadar o “dízimo de Deus”, destinado à substituição das traves, pintura do templo, e restauração das imagens. Minha ideia serviu para que a Igreja passasse a ser mais frequentada. As Missas agora são lotadas, e os devotos permanecem na Sacristia jogando, até o dia amanhecer.

O Arcebispo cochichou com o Pároco e não se sabe qual a sua resposta.

O certo é que a Paróquia prosperou muito e as Missas continuaram bem frequentadas.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 23 de julho de 2022

A ARMA (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

A ARMA

Violante Pimentel

Quem se arma para se defender não é o mendigo, mas sim alguém que possui alguma coisa de valor, e quer preservar.

Tal qual a Abelha, que usa o ferrão para se defender, o homem também precisa saber defender a si e à sua família.

Certa vez, uma Mosca se encontrava quieta, pousada em um cortina de uma casa de Homem. De repente, uma Abelha, para encurtar a rota, entrou zumbindo na casa e ficou voando em redor da Mosca.

 

 

Era um pequeno inseto quase redondo, o corpo colorido de um azul brilhante e húmido, e que não tinha por hábito , jamais, passar por aqueles lugares. Ao vê-la deter-se no seu voo, a Mosca deu uma ligeira volta e foi sentar-se à pequena distância.

Mostrando-se descontraída, com modos de quem queria puxar conversa, mas sem dar muita confiança, a Mosca deu bom dia à Abelha e perguntou-lhe se também era uma Mosca.

Com arrogância, o inseto respondeu que era uma Abelha e vivia das flores. Por isso não poderia jamais ser confundida com uma Mosca.

A Mosca, ressentida com a resposta grosseira, respondeu que se a Abelha fosse uma Mosca igual a ela, não seria desonra. Muito pelo contrário, passando de Abelha a Mosca, ela somente lucraria com a transformação, pois sabia que as abelhas trabalham o dia todo, para sustentar as companheiras que ficam em casa, além de andar armada com um ferrão, para enfrentar as brigas. Enquanto ela, não trabalhava e quando acordava, a comida do dia já estava pronta. Não sustentava ninguém, pois na família das Moscas, cada uma cuida de si. Não andam armadas e diante de um ataque, elas fogem. Por isso, não precisava trabalhar.

A Abelha, com desdém, perguntou à Mosca se era vantagem, ao acordar a comida já estar pronta. Sabia que Isso só ocorria porque a comida de que ela se alimentava era podre, pois o almoço da Mosca é no monturo. A Abelha disse à Mosca que ela tinha o que merecia, pois quem não trabalha vive da podridão.

A Mosca respondeu que não trabalhava para ela, nem se sacrificava pelos outros, ao que a Abelha revidou, dizendo não invejar aquela felicidade. Se ela não prestava favores aos outros, também ninguém os faria a ela, e que a Mosca era bem diferente da Abelha e da Formiga, que sempre ajudam quando alguma delas precisa.

Debochada, a Mosca respondeu que aquilo era o progresso e que a sua espécie era companheira do Homem; vivia na casa dele e é com ele que tem aprendido essas regras de sabedoria.

A Abelha, indignada, respondeu que é por isso mesmo que não queria a companhia do Homem. Quando ele muda o cortiço dela para as proximidades da sua casa, ela fica no mesmo local, mas todos os dias vai para o mato, jardins, chácaras, e vida livre. Disse que não era como a Mosca, que se metia nas casas, pousava no nariz das pessoas, comia sobejos, e ficava na cozinha, rodeando os pratos sujos e a lata do lixo. Finalmente, disse que amava a vida independente e as coisas simples da natureza.

Indignada, a Mosca, que se dizia pacifista, perguntou à Abelha, por que razão, então, se ela levava uma vida tão boa e livre, andava armada com um ferrão.

A Abelha achou graça e respondeu que somente quem não tem o que defender, não se arma. E repetiu que a Mosca, certamente, não andava armada, porque não tinha nada para defender, para guardar nem preservar contra os inimigos.

Perguntou se a Mosca tinha casa, filhos, alguma propriedade, e de que se sustentava. A Mosca respondeu que não tinha casa, e filhos, os que ela paria deixava-os no monturo e ia embora; não tinha nenhuma propriedade. Dormia onde a noite a apanhava e vivia do que encontrava pelo caminho. Sustentava-se daquilo que ninguém queria mais.

Pensativa, a Mosca disse para a Abelha, que, se ela levava uma vida tão feliz, não precisava de um ferrão. E se não queria o que os outros tem de bom, nem ninguém queria o que ela tinha, de nada lhe servia um ferrão.

A resposta da Abelha foi que a arma serve para defender quem possui alguma coisa a preservar. Quem nada tem, não precisa de arma ou ferrão. Quem se arma para a defesa, não é o mendigo, mais sim o o que possui alguma coisa de bom.

Dando de ombros para a Mosca, a Abelha disse-lhe: É por isso que eu ando armada.

Esse é o único ponto em que estão de acordo a sabedoria das Abelhas e a sabedoria das Nações.

E, levantando voo, a Abelha, alegre e ligeira, tomou o caminho do seu cortiço.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 16 de julho de 2022

ELAS POR ELAS (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

ELAS POR ELAS

Violante Pimentel

 

 

Décadas atrás, Gasparino, um cidadão bonito e falante, funcionário público aposentado, conquistador barato e puxa-saco de políticos, parecia honesto, mas não era.

Astucioso e calculista, para adquirir a confiança das pessoas, fazia questão de devolver pontualmente tudo o que pedisse emprestado a alguém. Por isso, sem dificuldade, encontrava sempre quem lhe emprestasse dinheiro, mediante juros baixíssimos.

 

 

 

Do dia para a noite, Gasparino se apaixonou por Lisiane, a jovem e bela esposa de Osmar, um rico comerciante e um dos maiores “emprestadores de dinheiro” da cidade.

Julgando que a formosa dama ficaria ancha, por lhe despertar tamanha paixão, não hesitou em lhe enviar um bilhete, declarando os seus sentimentos e lhe propondo um encontro.

Depois de refletir sobre a monotonia do seu casamento e a indiferença com que o marido a tratava, a jovem esposa, após muita hesitação, resolveu aceitar os galanteios de Gasparino. Concordou em se encontrar com ele e entregar-se aos seus desejos, sob a condição de que ele guardasse segredo inviolável e de que lhe arranjasse 200 mil cruzeiros, de que ela naquele momento necessitava.

Gasparino ficou decepcionado com essa exigência, uma vez que a jovem senhora era casada com um homem muito rico. Pouco faltou para que a violenta paixão se transformasse em “fogo de palha” e se diluísse no tempo e no espaço.

Como o homem, pela própria natureza, é caçador, Gasparino não desistiu da investida sobre a bonita senhora e resolveu enfrentá-la, procurando um jeito de ludibriá-la, com uma ideia que lhe viera à cabeça. Mandou dizer-lhe que estava disposto a acatar o seu pedido e lamentava não ser mais rico, para oferecer-lhe uma quantia maior. Bastaria que ela lhe indicasse o dia, a hora e o local em que pudessem se encontrar, que ele lá estaria. Antes disso, lhe entregaria a importância solicitada.

Procurou o costumeiro “agiota”, que sempre quebrava seus galhos, pedindo-lhe um empréstimo de 200 mil cruzeiros, com os juros baixos de sempre. Com prazer, o agiota atendeu-lhe o pedido e Gasparino guardou o dinheiro para dar à sua amada.

A “bela dona” o avisou de que o marido iria viajar brevemente, a negócios, e que demoraria alguns dias para retornar. No mesmo dia ela o receberia em casa.

Alguns dias mais tarde, partiu o comerciante para a viagem a negócios, e a mulher logo mandou um recado ao seu novo apaixonado, dizendo que já poderiam se encontrar, e que ele fosse logo lhe entregar o dinheiro.

Logo pela manhã, Gasparino dirigiu-se à residência da amada, para entregar-lhe o dinheiro combinado. Levou consigo um dos seus amigos e na presença dele falou:

– Aqui estão, minha senhora, 200 mil cruzeiros bem contados, que lhe peço entregar ao seu marido, quando ele voltar da viagem.

Ela os recebeu, sem deslumbrar nas palavras de Gasparino qualquer malícia, senão a de querer evitar que o amigo suspeitasse de alguma coisa comprometedora. Jamais o amigo poderia saber que aquele dinheiro fosse o preço exigido pela bela mulher em troca dos seus favores. E assim, ela respondeu que cumpriria aquela incumbência, no mesmo instante da chegada do seu marido. Conferiu o dinheiro e disse baixinho a Gasparino, que ele voltasse ao cair da tarde, pois estaria sozinha.

No final da tarde, então, estava Gasparino adentrando aos aposentos da bela senhora, por ela conduzido. Passaram a noite juntos e ele não se contentou apenas com esse encontro. Soube convencer a amante de compartilhar com ele o leito, outras vezes, enquanto o marido estivesse viajando.

Quando Osmar, o marido cornudo, retornou da viagem, Gasparino aproveitou o momento em que o comerciante estava em casa com a esposa, para ir visitá-lo. Fez isso na companhia do mesmo amigo que testemunhara a entrega do dinheiro à amante. Depois dos cumprimentos, disse-lhe:

– Amigo, os 200 mil cruzeiros que te pedi emprestados antes da tua viagem, de nada me serviram e por isso, no dia em que viajaste, os devolvi à sua esposa. Dona Lisiane os contou na minha frente e deste amigo aqui presente. Por isso, peço-lhe que dê baixa em seus livros.

Virando-se para a mulher, Osmar perguntou se ela recebera esse dinheiro. Como a avarenta se via diante da testemunha ocular da entrega do dinheiro, nada pôde negar e pediu desculpas ao marido, por ainda não lhe haver entregue.

– Fica sossegado – afirmou o comerciante a Gasparino – hoje mesmo, sem tardar, cancelarei o débito em meu livro.

Ouvindo isto, o golpista se retirou muito contente, por ter assim punido a amante de sua avareza, e por ter tão habilmente gozado seus favores por vários dias, sem ter gasto um “vintém.”

É fácil de imaginar a revolta de Lisiane, diante do golpe sofrido pelo picareta Gasparino, coisa que jamais o marido poderia saber.

E morreu aí a carreira de “chifreira” da avarenta Lisiane.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 09 de julho de 2022

O ENX0ORE (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

O ENXOFRE

Violante Pimentel

 

De repente, ouviu-se dentro de casa uma voz rouca, chamando: “AFONSO…..”.Imediatamente, o ar foi empestado pelo mau cheiro de enxofre, próprio dos flatos. Em seguida, ouviu-se uma enxurrada de espirros.

Entre eles, não havia ninguém chamado “AFONSO”. Todos se entreolharam, e chegaram a pensar em alma penada.

Mara, visivelmente tensa, disse que a voz e os espirros pareciam ter vindo da rua, pois dentro de casa, além dela, o marido e o casal de amigos, não havia ninguém. Ainda tentou justificar o mau-cheiro de enxofre no ar, dizendo que esse mineral era usado para clarear roupas brancas. E naquele dia, ela havia queimado um pouco de enxofre para vaporizar as roupas brancas estendidas.

Acontece que não era nada disso. A dona da casa, uma mulher jovem e fogosa, tinha um “choro baixo” pelo verdureiro, um rapaz bonito e viçoso, que fazia entregas a domicílio. Nesse dia, o “lanche” com o entregador havia sido demorado, só terminando em virtude da antecipada chegada do dono da casa e o casal de amigos.

O jeito foi empurrar o verdureiro para se esconder no cubículo embaixo da escada, na saleta vizinha.

Tornaram a ouvir a voz cavernosa chamando “AFONSO!” e outros espirros. Aí o bicho pegou. Silvino, que era muito violento, saiu da mesa para caçar o invasor.

Dirigiu-se, exatamente, à saleta, onde estava escondido o verdureiro, no cubículo feito de tábuas, embaixo da escada. Viu, então, ali deitado, um rapaz todo defecado, e emitindo outros sons de “Afonso”, numa descontrolada diarreia.

Ordenou ao “invasor” que saísse dali imediatamente, mas o rapaz continuou deitado, tremendo da cabeça aos pés, sem condições de se levantar. Silvino agarrou-o por uma perna, puxou-o para fora, atingindo-o com um golpe de faca. Mas o amigo Hermes o impediu de consumar o tresloucado ato de matá-lo.

Os gritos de Hermes, para defender o suposto pé de lã das garras de Silvino, atraíram alguns vizinhos, que, vendo o rapaz quase morto, o levaram ao pronto-socorro.

Voltando-se para a esposa, Silvino disse que via agora, por qual motivo ela o havia deixado, juntamente com o casal amigo, tanto tempo esperando para abrir a porta.

Sem respeitar a presença do casal, disse, aos gritos, que esse procedimento da mulher merecia uma “recompensa, que ela jamais esqueceria.

Sob os insultos do marido, Mara saiu da sala, e, sem procurar se justificar, pôs-se em fuga, para lugar incerto e não sabido.

A fama de corno de Silvino se espalhou pela cidade, além de ser processado por tentativa de homicídio, mesmo “em legítima defesa da honra”.

Mara “caiu na vida” para sobreviver, protestando sempre que não seria ela a primeira nem a última mulher a colocar chifres no marido, pois como diz a música do compositor Rossini Pinto, interpretada por Núbia Lafayette (1972), “não é só casa e comida que faz a mulher feliz”.

 

Núbia Lafayette – Casa e Comida

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 02 de julho de 2022

LEI DE TALIÃO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

LEI DE TALIÃO

Violante Pimentel

 

 

Pois bem. Décadas atrás, quando se supunha que houvesse mais pudor e compostura, Lazarine não perdoava a indiferença sexual de Plínio, com quem se casara há um ano. Continuava virgem e ão tinha coragem de revelar aos pais nem a ninguém.

 

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Seu marido era um homem riquíssimo, conhecido como amante dos prazeres, mas suspeito de não gostar dos prazeres oferecidos pelas mulheres.

Para afastar essa fama, resolveu se casar com essa linda jovem, 20 anos, alta, elegante, olhos verdes e ruiva, um tipo físico que atraía qualquer homem.

Infelizmente, para decepção da jovem, seu marido não procurou cumprir a obrigação natural do matrimônio, nem na noite de núpcias. Seus gostos e sua inclinação o afastavam das mulheres. Dormia com a esposa o menos que podia, e assim mesmo como se fossem irmãos.

Era público e notório que seus gostos nada tinham a ver com o sexo feminino. Seu modo de agir decepcionou a jovem esposa, uma mulher normal, na flor da idade e com os hormônios fervendo.

Lazarine percebeu que o marido tinha aversão ao aconchego na cama, e repulsa ao seu corpo. Como era bem dotado e cheio de vigor, as suspeitas de que ele tivesse alguma perversão fora de casa, passaram a incomodá-la.

Sentindo-se rejeitada sexualmente, a primeira ideia que lhe acorreu, foi dar-lhe o troco, com indiferença total e talvez uma traição.

Com o tempo, as indiretas ao marido começaram a fluir da sua boca, com censuras, insultos e injúrias. Não houve jeito dele se tocar e procurar contornar a situação. Sua frieza era gritante e a mulher não suportava mais.

Sentindo-se sozinha e sem ânimo para se separar desse homem tão rico e respeitado, numa época em que a mulher era apenas um objeto de uso pessoal, Lazarine procurou fazer amizade e se aconselhar com uma beata conhecida na cidade, que, na realidade, era uma cafetina.

Estava disposta a se vingar do marido, procurando sentir os prazeres com que sonhava e dos quais ele a privava.

Tinha entrado no casamento com um bom dote e só o aceitou como esposo por pensar que ele fosse um homem normal, que gostasse do que os outros homens gostam e devem gostar. Se ela soubesse que ele tinha aversão ao sexo feminino, jamais com ele teria se casado. Preferia mil vezes ter continuado solteira..

Jamais o perdoaria por tê-la usado, para tapar a boca do povo. Se ela quisesse renunciar aos prazeres do mundo, teria ingressado num convento para ser freira. Mas já que não renunciou, não era justo estar sendo privada desses prazeres, enquanto o marido ficava na rua até altas horas da noite, fazendo só Deus sabia o que.

Ao conversar com a beata e contar o drama por que estava passando, ouviu da experiente mulher que não abrisse mão da sua mocidade, nem renunciasse aos prazeres do seu corpo e da sua vida, pois, quando a frescura de sua pele tiver cedido lugar às rugas da velhice, ela não encontrará mais nenhum homem que a queira. Como diz o antigo ditado: “Às moças, o bom-bocado; às velhas, o rebotalho.”

E a beata disse à jovem que iria lhe arranjar os amantes que ela escolhesse. Era só dizer os nomes, ou os tipos que ela quisesse e deixar o resto por conta dela. O único favor que pediu foi que Lazarine a ajudasse sempre, pois era uma pobre mulher necessitada.

Lazarine disse à beata o tipo e características de um rapaz que sempre passava por seu bairro e pelo qual ela tinha grande simpatia. Mandou que sondasse se ele era aproveitador de mulheres ou se era decente.

A mulher não tardou em levar o rapaz à sua presença. Alguns dias depois, arranjou-lhe o segundo, e mais tarde um terceiro, e ainda outros em seguida, de acordo com a fantasia da jovem dama, que, por instinto de vingança, queria sempre novas emoções para a sua “galeria do amor”. Apesar de tudo, não se cansava de tomar precauções, para evitar que o marido soubesse do seu novo gênero de vida, por maiores que fossem as culpas que ele tivesse para com ela.

Como era dotada de bom apetite, a jovem esposa multiplicava e prolongava tanto quanto podia as visitas dos galãs por ela escolhidos, um de cada vez, a fim de aproveitar o tempo, seguindo o bom conselho da beata alcoviteira.

Um dia em que seu marido fora convidado para cear em casa de um amigo, Lazarine aproveitou a oportunidade para induzir a beata a levar à sua presença um dos mais belos rapazes da cidade, um verdadeiro galã, sendo atendida prontamente. Ronaldo era o nome dele.

Só deu tempo mesmo da dama e o novo amante se sentarem à mesa para cear, Plínio, o marido, bateu à porta, inesperadamente, pedindo aos gritos que a abrissem. Ouvindo aquela voz, a quem não esperava antes de amanhecer o dia, Lazarine julgou-se perdida. Mesmo assim, achou-se no dever de ocultar o rapaz “visitante”, que tampouco imaginava o que seria feito dele.

Sem tempo para raciocinar, sua primeira ideia foi escondê-lo numa espécie de galeria, contígua à sala onde ceavam, e debaixo de um cesto de colocar galinhas, coberto com um saco de estopa. Nesse meio tempo, a criada, que era conivente com a patroa, guardou o que se encontrava sobre a mesa, e correu a abrir a porta ao patrão.

Lazarine, ao ver o marido chegar, mostrou-se surpresa por ele ter voltado tão cedo da casa do amigo. Plínio esclareceu que tinha havido um imprevisto e o jantar fora cancelado.

Não esquecendo do galã escondido debaixo do cesto das galinhas, Lazarine disse ao marido que ele devia ir deitar-se logo. Mas ele queria cear. A mulher mandou que a criada repusesse a mesa e servisse a ceia. Disse ao marido que, na verdade, não costumava se banquetear quando ele não estava.

Na manhã seguinte, os rendeiros de Plínio, logo cedo, lhe trouxeram os produtos de uma de suas fazendas e colocaram os burros, sem lhes dar de beber, numa pequena estribaria, ao lado da galeria onde o rapaz se encontrava escondido no cesto.

Aconteceu que um dos animais, impelido pela sede, libertou-se da corda e saiu da estribaria, farejando aqui e ali à procura de água. Correndo assim de um lado para o outro, passou junto do cesto sob o qual se achava o jovem amoroso, e pisou-lhe os dedos, que estavam um pouco para fora. O pobre diabo, por causa da forma do cesto, viu-se forçado a manter-se curvado sobre o ventre, e pousar as mãos em terra, para sustentar-se melhor. A dor que sentiu o fez soltar um grito de pavor. Plínio ouviu-o, e ficou muito espantado, compreendendo que aquele grito não poderia ter partido senão da sua casa. Saiu da sala, e como o rapaz escondido continuasse a lastimar-se, porque o burro conservava sempre as patas sobre os seus dedos, Plínio gritou, indagando quem ali estava, ao mesmo tempo em que se encaminhava diretamente para o cesto de galinhas.

Levantou-o e encontrou o “pássaro”, que tremia com todos os membros, de medo que o marido irado lhe fizesse passar um mau-bocado. Plínio, que o reconheceu por já lhe ter feito a corte durante longo tempo, mas inutilmente, limitou-se a perguntar-lhe o que viera fazer em sua casa. A única resposta que obteve foi a sua súplica de que não lhe fizesse nenhum mal.

Plínio mandou que o rapaz se levantasse e disse-lhe que nada temesse, mas sob a condição de lhe informar como e por que estava ali.

Enquanto Lazarine sentia-se triste e aflita, temendo que ali ocorresse uma tragédia, seu marido mostrava-se exultante, com a presença do seu “Adonis” em sua casa. Tomou o rapaz pela mão e o levou até ela, que se achava num estado de pavor e sobressalto indescritíveis.

Irônico e irado, Plínio perguntou a Lazarine como justificar aquela situação. Calada e trêmula, a mulher não olhou nos olhos do marido. Ele esbravejou que queria que o diabo levasse todas as mulheres para queimá-las no fogo do inferno, sem exceção, pois eram todas iguais e infiéis.

Ao ver que o marido apenas a estava maltratando com palavras, e calculando que ficaria quites com ele por muito menos do que acreditara, não duvidou de que ele estivesse muito satisfeito por ter em sua casa um rapaz tão bonito.

Esta ideia a reanimou e ela respondeu-lhe, sem parecer perturbada, que o fato dele ter desejado que o diabo levasse todas as mulheres para o inferno não a surpreendia, haja vista que era público e notório que ele detestava o sexo feminino. Porém, graças a Deus não seria assim, pois, afinal de contas, ele podia se queixar da infidelidade dela, mas havia uma gritante diferença entre ela e outras mulheres que se fingiam de santas, e mesmo tendo o amor e o respeito dos maridos, eram descaradamente infiéis. Disse-lhe que, no seu caso, ela não sabia o que era ser amada e desejada pelo marido. Com ele, só tinha conhecido a solidão do leito conjugal e a indiferença. Reconhecia que, em matéria de vestuários e ornamentos, nada lhe faltava. Entretanto, ao invés disso, preferia mil vezes receber dele amor e carinho, coisas que ele não lhe dava. Disse-lhe que é uma mulher normal, e na idade em que se encontrava tinha seus desejos e paixões. Como ele a desprezava, nada a impedia de procurar em outros braços o que ele não lhe dava. Finalmente, disse-lhe que suas escolhas eram seletivas, como o belo rapaz que ali se encontrava, fino e educado.

Plínio, já cansado de tanto “bla-bla-bla”, interrompeu a mulher, dizendo:

– Deixa, mulher, não falemos mais nisso. Hás de ficar contente comigo em relação a esta história. Sabes que sou um bom marido, e assim, nada mais de censuras, de parte a parte. Tudo quanto te peço é uma ceia, pois me parece que este gentil cavalheiro também está com fome. Em seguida, disporei as coisas, de maneira que não tenhas do que reclamar.

A boa dama ordenou, imediatamente, que pusessem de novo a toalha na mesa e servissem as iguarias que ela mandara preparar. E ceou, tranquilamente, com o infame cornudo e o belo mancebo.

O que se passou entre esses três personagens depois da refeição, não é difícil de imaginar. O cornudo, a esposa e o amante se entenderam muito bem.

No dia seguinte, os “novidadeiros” da praça espalharam aos quatro cantos da cidade, cada qual a sua versão. O difícil era dizer quem tinha aproveitado melhor a noite: o marido, a mulher ou o amante.

Diz a voz da sabedoria, que a quem nos prega uma peça, devemos pregar-lhe outra, ou como diz o ditado, “olho por olho, dente por dente.” Se não for possível no mesmo instante, não faltará ocasião.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 18 de junho de 2022

OLHA PRO CÉU (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO)

OLHA PRO CÉU

Violante Pimentel

 

Celebradas no Brasil desde o século XVII, as Festas Juninas ou Joaninas constituem a segunda maior comemoração realizada pelos brasileiros, perdendo apenas para o Carnaval.

Com a chegada dos portugueses ao Brasil, as festas que já existiam na Europa também aqui desembarcaram. Aos poucos, houve uma fusão dos costumes trazidos pelos portugueses com as tradições sertanejas e elementos próprios do interior do nosso País.

Comidas típicas, danças e enfeites, utilizados nas festas juninas, são hoje uma junção de partes da cultura africana, europeia e indígena.

O mês de junho representa a “safra” dos sanfoneiros e dos trios de forró “pé-de-serra” (sanfona, triângulo e zabumba).

Não existe forró eletrizado que supere o forró “pé- de- serra”. Principalmente, para as festas juninas.

Barulho é uma coisa e a boa música é outra.

Sem estourar os ouvidos de ninguém, como, geralmente, faz o forró eletrizado, o forró “pé de serra” faz o povo delirar, principalmente, com o lirismo das músicas do saudoso compositor e cantor brasileiro Luiz Gonzaga do Nascimento (13.12.1912 – 02.08.1989), imortalizado como o Rei do Baião.

Tocando e cantando o verdadeiro forró, com letras cheias de lirismo e encanto, como na música “Olha pro Céu”, o grande compositor Luiz Gonzaga continua vivo, eternizado pelas suas belas músicas, algumas feitas em parceria com Zé Dantas, Humberto Teixeira, João Silva e outros grandes compositores.

As músicas de Luiz Gonzaga são insuperáveis. O lirismo das suas marchinhas e quadrilhas juninas é marcante e encantador.

As quadrilhas tradicionais, com seus trajes matutos, e ao som de músicas próprias para as festas juninas, eram um delírio.

As atuais quadrilhas estilizadas são um fracasso. Irritantes, e com trajes “chocados” de uma só vez. Os trajes são todos iguais, e mais parecem escola de samba.

“Olha Pro Céu” (Luiz Gonzaga – José Fernandes) é um poema lindíssimo e por isso se perpetuou através do tempo.

Assim são as músicas de Luiz Gonzaga, como: Polca Fogueteira, Lascando o Cano, Pagode Russo, Fogueiras de São João, São João na Roça, Fogo sem Fuzil, Quero Chá, Matuto de Opinião, Assum Preto, Asa Branca, Vem Morena, Choromingô, e outras.

Na etimologia popular, a origem da palavra “forró” está associada à expressão da língua inglesa “for all” (para todos). Para essa versão, conta-se que no início do século XX, os engenheiros britânicos, instalados em Pernambuco, para construir a ferrovia Great Western, sempre promoviam bailes abertos ao público, ou seja “para todos”. O termo passou a ser pronunciado “forró” pelos nordestinos.

Outra versão da mesma história substitui os ingleses pelos americanos fixados em Natal, no período da Segunda Guerra Mundial, quando uma base militar foi instalada em Parnamirim (RN). As festas na base aérea eram constantes e os americanos disponibilizavam ônibus para levar as moças da sociedade natalense para os bailes que promoviam. Daí surgiram namoros e muitos casamentos de jovens potiguares com soldados americanos.

Atualmente, o forró é a dança mais popular do Nordeste brasileiro e a que provoca maior animação entre as pessoas jovens. As tradicionais festas juninas só são autênticas, quando abrilhantadas por conjunto de forró pé-de´serra, com sanfona, triângulo e zabumba.

 

 

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 04 de junho de 2022

O VIRA-LATA (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

O VIRA-LATA

Violante Pimentel

Dona Lia, minha saudosa Mãe, dizia que o cachorro de olhar mais terno que existe é o vira-lata. Eé também o mais amigo do dono.

 

 

Convém salientar que as ruas nivelam as pessoas. Elas acolhem o bem e o mal, o Céu e o Inferno. As ruas desconhecem a erudição. Aceitam palavras de baixo calão e chulas, que terminam inseridas nos dicionários.

O vira-lata é um cão de rua, sem coleira e sem patrão. Dorme na sarjeta e quando escuta corneta, corre atrás do batalhão ou da banda.

O Escritor Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850 – 1923) conta no seu poema intitulado “O Fiel”, a emocionante história de um cachorro que vivia e sobrevivia nas ruas.

Para sobreviver, garimpava sobejos nas lixeiras dos bares e restaurantes. Era acostumado ao vento e ao frio. Durante as chuvas fortes, abrigava-se nos portais e vestíbulos, mas era sempre enxotado a pedradas e pontapés. Mesmo assim, ele era incapaz de morder alguém. Olhava para as pessoas como quem pedia desculpas por existir.

Certo dia, um pintor boêmio e solitário deparou-se com esse cachorro de rua, de olhar triste, e se identificou com ele. Levou-o para casa e se propôs a cuidar dele, em troca da companhia. Passou a chamá-lo de Fiel.

E falou para si mesmo: Eu sou igual a este cachorro. Sem família e sem amigos. Agora vou ser amigo dele e ele vai ser meu amigo.

Depois de alguns anos passados juntos, dividindo por igual privações e dores, o pintor, por obra do destino, foi contemplado com a glória, que o libertou da miséria. Livres dos aperreios financeiros, ele e Fiel passaram a desfrutar de uma vida tranquila e alimentação farta.

O cão dormia em confortável tapete à borda do leito do pintor. Ao despertar, de manhã cedo, cuidava de acariciar festivamente o seu amo.

Mas o pintor, inebriado com a riqueza, enveredou pelos caminhos da luxúria, das paixões e da esbórnia, circunstância que o afastava cada vez mais do seu leal rafeiro, de quem, aliás, já não tolerava a presença.

A indiferença do pintor entristecia cada vez mais o olhar do cachorro. Os animais sentem quando são rejeitados. E os olhos tristes do animal denotavam que ele entendia perfeitamente o desprezo que o seu dono passara a sentir por ele. Velho e desprezado, o cachorro muitas vezes chegou a ser castigado pelos criados, sem ter feito nada de certo ou errado. Levava pontapés, e foi preterido de acompanhar o dono nos seus passeios pelas ruas. Os pelos começaram a cair e tornou-se rabugento, por falta de trato..

Certo dia, chegando em casa embriagado, tarde da noite, e encontrando o cachorro dormindo no seu quarto, o pintor se voltou contra ele, irado:

– Que fazes aqui, animal lazarento? Hei de pôr fim à tua teimosia agora mesmo!!!

Mas, fingindo calma, continuou:

– Ó meu querido amigo fiel, de tantos anos, tão velho e doente, vamos passear!

E na escuridão da noite, seguiram os dois em direção ao cais. O comportamento do pintor assustou o cachorro, que se recusou a andar, mas foi forçado pelo dono. O cachorro pressentia que alguma coisa funesta o esperava. Repetia-se, no fiel animal, a cena do beijo de Judas em Jesus Nazareno.

Bruscamente, o pintor arremessou o cão às águas profundas e geladas, mas junto se foi o gorro de memoráveis lembranças, do qual ele tanto se orgulhava.

De volta à casa, o pintor exclamava indignado:

“Por causa desse cão lazarento, perdi o meu gorro de estimação, que me trazia tão boas recordações! Eu devia tê-lo envenenado!!!, Pagarei uma grande recompensa a quem conseguir encontrar meu gorro!!!

Deitou-se, mas, não conseguiu dormir, contrariado por ter perdido o gorro. Ao amanhecer o dia, sentiu bater a porta; ergueu-se e foi abrir. Recuou, cheio de espanto e horror. Era o amigo fiel, a quem ele traíra miseravelmente.. Era o cão que voltava arquejante, encharcado, a tremer e a uivar no último estertor. E o cão tombou fulminante, deixando cair da boca o gorro do diabólico pintor.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 28 de maio de 2022

NOITE SEM ESTRELAS (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

NOITE SEM ESTRELAS

Violante Pimentel

 

 

Entre eles, havia um sexagenário cego, Genaro, que não conseguia ver nem ser visto, por ser do tipo de gente que a gente não vê, “porque é quase nada”. Sua dolorosa e indesejável deficiência visual o tornava um “eu sozinho”. As pessoas pobres de espírito se afastavam dele, como se cegueira pegasse.

 

 

A bem da verdade, a deficiência visual do cego o tornava totalmente incapaz para o trabalho na lavoura. Por isso, sua inclusão entre os retirantes era inadmissível.

De um modo geral, os retirantes não gozavam de tratamento digno por parte dos funcionários em serviço. Eram vistos por eles como carga indesejável e mal cheirosa, que lotava o navio.

Não eram considerados passageiros, mas apenas fardos de couro fresco, com carne magra por dentro, provocada pela fome, e pela triste carga do trabalho sob o sol causticante do Nordeste brasileiro, irmão da “bucha do canhão”.

Ao ser notada a sua deficiência visual, o cego Genaro foi interpelado pelo funcionário responsável pelo setor de imigração e explicou sua presença entre os retirantes como um grande equívoco de despacho. Seu destino seria o “Asilo dos Inválidos da Pátria”, no Rio, mas pregaram nas suas costas a papeleta do “Para a agricultura”, e ele foi “jogado” entre os retirantes destinados ao trabalho na lavoura do café. Como não tinha olhos para se guiar nem olhos alheios que o guiassem, estava vivendo o triste destino dos desvalidos e invisíveis.

– Por que para o Asilo dos Inválidos da Pátria, no Rio? Perguntou-lhe o funcionário. É voluntário da Pátria?

– Sim, respondeu o cego. Fiz cinco anos de campanha no Paraguai e lá apanhei a doença que me pôs a noite nos olhos. Depois que ceguei, caí no desamparo. Um cego não serve para nada.

E a amargura extrapolou do peito do cego, numa chuva de lágrimas.

E reclamou suspirando, falando consigo mesmo e revirando os olhos esbranquiçados:

– Se o meu capitão soubesse da minha situação, viria ao meu socorro…Eu o perdi de vista, mas não o perdi da memória. Não tenho a menor chance de me comunicar com ele. Se o encontrasse, tenho certeza de que até meus olhos voltariam a enxergar…

– Não tem família?- perguntou o funcionário.

– Tenho uma menina, que não conheço.. Quando ela veio ao mundo, nos meus olhos já havia trevas. Daria o que me resta de vida para vê-la, ao menos um instante.

E o cego continuou mergulhado na tristeza infinita da sua noite sem estrelas.

A conversa impressionou o funcionário, que a levou ao conhecimento do Major, Diretor da Imigração.

Ao tomar conhecimento de que o cego Genaro participara da campanha do Paraguai, como soldado de 70, o Diretor interessou-se pelo caso e foi pessoalmente procurá-lo.

– Então, meu velho, é verdade que participaste da campanha do Paraguai?

O cego ergueu a cabeça, tocado pela voz amável.

– Verdade, sim, meu patrão . Vim no 13 e logo depois de chegar ao Império do Lopez (Francisco Solano Lopez) entrei em fogo. Tivemos má sorte. Na batalha de Tuiuti, nosso batalhão foi dizimado como um milharal em tempo de chuva de pedra. Salvamo-nos eu e uma porção de camaradas. Fomos, então, incorporados ao 33 paulista, a fim de preencher os claros, e nele fiz o resto da campanha.

O Major, Diretor da Imigração, também era veterano da guerra do Paraguai, e por coincidência servira no 33. Por isso, interessou-se, pela história do cego, passando a interrogá-lo com veemência:

– Quem era o teu capitão?

– Um homem que, se eu o encontrasse, minha vida tomaria outro rumo e ele faria tudo para que eu recuperasse a visão… Um verdadeiro santo… .

– Como se chamava?

– Capitão Bocaiuva de Sales.

O major, ao ouvir esse nome, sentiu suas carnes trêmulas e um arrepio imenso. Respirou fundo e continuou:

– Conheci seu capitão. Foi meu companheiro de Regimento. Era um homem péssimo e grosseiro para com os soldados.

O cego, até ali vergado em atitude humilde de mendigo, ergueu o busto corajosamente e, com a voz trêmula de indignação, protestou:

– Pare aí! Não blasfeme! Não ofenda um homem santo como o meu capitão. Ele era um pai para os soldados! Perto de mim, ninguém o injuria!!! Convivi com ele durante anos, como sua ordenança e nunca o vi praticar o menor ato de maldade contra ninguém!

O tom firme do cego comoveu o Major. e ele percebeu que nem a miséria conseguira apagar do peito do velho soldado as fibras heroicas da lealdade.

O major se conteve por um momento, mas logo prosseguiu na provocação, para ver até onde iria a lealdade do cego ao seu idolatrado capitão:

– Capitão Bocaiuva de Sales era um covarde!!!…

Num assomo de ira e indignação, as feições do cego Genaro se transformaram. Seus olhos anuviados pela catarata revolveram-se nas órbitas, num terrível esforço para ver a cara do infame detrator. Sua vontade era atacá-lo, como fazem as feras. Mas, por não ser ninguém, procurou se conter.

Pela primeira vez na vida, Genaro sentiu a infinita fragilidade dos cegos. E caiu em si, com a alma esmagada. Sua cólera transformou-se em dor e a dor fez correr dos seus olhos um rio de lágrimas. E chorando, murmurou com a voz embargada:

– Não se insulta assim um cego…

Mal pronunciara estas palavras, sentiu-se apertado nos braços do major, também em lágrimas, que dizia:

– Abraça, amigo, o teu velho capitão! Sou eu o antigo Bocaiuva!

Confuso e desorientado diante do rumo tomado pela conversa, e receoso de uma insídia, o cego vacilou, sem acreditar no que estava ouvindo.

– Dúvidas?!!! – exclamou o Major – Dúvidas de quem te salvou a nado na passagem de Tebiquari?

Ao ouvir aquelas palavras mágicas, os receios do cego Genaro se dissiparam como fumaça. Livre de dúvidas e chorando como uma criança, abraçou-se aos joelhos do Major Bocaiuva de Sales, exclamando, como se estivesse sonhando:

– Achei meu capitão! Achei meu Pai! Minhas desgraças se acabaram!!!…

E realmente, a roda viva do cotidiano carregou a tristeza do cego Genaro pra lá, Sua vida mudou da água para o vinho.

Internado num Hospital às expensas do Major Bocaiuva, seu antigo Capitão, foi submetido à cirurgia de catarata e recuperou 100% a capacidade visual.

Foi à janela e sorriu para a luz que inundava a natureza. Sorriu para as árvores, o céu, os pássaros e as flores!

Sentia-se ressuscitado, pois, antes, estava morto em vida.

Não cansava de repetir:

– Eu não dizia, que se reencontrasse o meu capitão, até a luz dos meus olhos eu teria de volta? Foi Deus quem me reaproximou do capitão!!!

E Genaro, recuperado da cegueira, voltou para o Ceará, nadando de felicidade e repetindo frases do cearense José de Alencar, um dos maiores escritores brasileiros ((1829-1877):

“Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba; verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros.”


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 15 de maio de 2022

GAIOLA DE OURO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

GAIOLA DE OURO

Violante Pimentel

 

Conheço crianças que só comem mel em vez de açúcar, alimentos integrais, não comem guloseimas como chocolates, e que são policiadas por mães neuróticas para que não engordem. Crescem pálidas, e raquíticas, sem resistência física, pois as mães as privam das melhores comidas, como se elas fossem doentes.

Junte-se a isso, o fato dessas crianças não terem direito a colocar os pés no chão dentro de casa, e não terem acesso a nenhum quintal, onde possam estar em contato com areia, sol, chuva ou sereno. Não adquirem “anticorpus” e por tudo adoecem.

Essas crianças ricas não conhecem a felicidade de brincar num quintal, correr descalças na terra seca do chão, jogar bola, subir em árvores, colher frutas maduras, tomar banho de chuva, sentar no chão, dar topadas, cair e ralar os joelhos, mesmo arrancando chaboques,

Não veem os passarinhos voando e cantando, ao vivo e a cores, fora da televisão.

Quando, desde cedo, não vão para as luxuosas creches, onde passam o dia todo, os meninos ricos ficam entregues às babás. nem sempre qualificadas. Sentam-se em um quarto atapetado, arrodeado de brinquedos eletrônicos, sem apego a nenhum deles, diante da fartura de opções que tem ao seu dispor.

Não imaginam que, fora daquele mundo artificial de fantasias, existe um mundo natural, onde a natureza coloca fruteiras variadas, pássaros com seus cantos maravilhosos, sol, chuva, e uma terra seca para eles brincarem à vontade.

Quase sempre, usam sapatos ortopédicos, pois a mãe tem medo que seus pés entortem. E só conhecem as árvores, que passam apressadas atrás do vidro do carro do pai.

Certa vez, um menino rico ganhou um belo pássaro importado, que vivia preso em uma gaiola caríssima, e se alimentava do melhor alpiste e água fresca. Ele não entendia porque razão o pássaro vivia triste e não cantava, apesar da gaiola bonita e boa alimentação. Era a falta da liberdade, que Deus deu ao pássaro para voar.

Na inocência do menino rico, o leite vinha das caixinhas da padaria e não das vacas. Tinha muitos brinquedos, bolas coloridas, mas sempre brincava sozinho, dentro do quarto atapetado. Só via a rua através das grades de sua janela. Ouvia na televisão histórias que falavam de assaltos, sequestros, balas perdidas, e ficava com medo do mundo lá de fora.

Na realidade, as “gaiolas de ouro” geram pobres meninos ricos. São meninos tristes e “policiados” pelos pais ou babás 24 horas por dia.

Não tem liberdade nem contato com a natureza. Não comem cuscuz com ovo, a base da alimentação do menino pobre, e que dá sustança. Mas comem granola e outros alimentos sofisticados, da moda.

Enquanto isso, os meninos pobres, sem conforto em casa, não notam que são pobres, pois a maior riqueza que eles tem é a liberdade. Jogam bola, tomam banho de rio, sobem nas árvores e comem frutas frescas. E até acompanham a chamada do palhaço do Circo: “Hoje tem espetáculo? Tem, sim, senhor”!

Hoje, o menino pobre cresceu, cheio de sonhos de ganhar muito dinheiro, para comprar toda a felicidade que ele já tinha e não sabia. Trabalhou muito, juntou dinheiro, construiu uma casa, mas teve que colocar grades.

O menino rico cresceu querendo ser livre. Somente depois de homem feito, pôde correr descalço e descobrir que a felicidade estava nas coisas simples.

Vivo hoje a saudade do quintal da casa dos meus pais .e dos meus avós paternos em Nova-Cruz (RN), onde na minha meninice, eu subia nas goiabeiras e pinheiras, e ali mesmo comia goiaba e pinha à vontade.

A modernidade veio para destruir o lirismo dos quintais, das conversas nas calçadas e das esquinas.

Lana Bittencourt – POBRE MENINO RICO – Vargas Júnior-Oscar Bellandi – Ano de 1955

 

 

 

Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 07 de maio de 2022

BALANÇARAM O PÉ DE FAVA (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

BALANÇARAM O PÉ DE FAVA

Violante Pimentel

 

 

Algumas pessoas supersticiosas acendiam velas para espantar o Demônio, quando sentiam flatos espalhados pelo ar.

 

 

Foi aí que começou o famoso costume de se riscar um fósforo, para acabar com o mau cheiro da flatulência..

Martinho Lutero, inclusive, recomendava aos fiéis soltar puns para afastar o diabo.

O enxofre é um elemento químico com odor igual a ovos podres. Por isso, ninguém consegue suportar a catinga de flato sem demonstrar indignação.

O odor dos flatos provém de pequenas quantidades de sulfeto de hidrogênio (gás sulfídrico) e enxofre e os mercaptanos livres na mistura.

Quanto mais rica em enxofre for a dieta, mais desses gases vão ser produzidos pelas bactérias no intestino, fazendo portanto com que estes gases cheirem ainda pior.

Alimentos como cebola, repolho, batata doce, milho, pimenta, couve-flor, leite e ovos são notórios por produzirem esses gases.

Flatulência é muitas vezes referida, vulgarmente, como pum (onomatopeia), peido (do latim peditu), bufa, gases, bombatraque (onomatopeia), entre outros nomes.
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Pois bem. Décadas atrás, entrando pelo século passado, numa certa noite, em plena campanha política para prefeito de Nova-Cruz (RN) e governador do Estado, durante a realização de um acirrado comício da UDN, com a presença do candidato a governador Djalma Marinho, houve um acontecimento hilário: “Balançaram o pé de fava” e o povo se dispersou.

Alguém que parecia ter comido guisado de urubu cozinhado no fogo do inferno, se infiltrou na multidão e “empestou” o comício com uma catinga de carniça e enxofre, que denunciava a chegada do Demônio ou da Besta Fera. No mesmo instante, Dona Neném Calango, mulher cinquentona, viciada em comício e desbocada, gritou:

– EU NÃO FUI!!!

E uma voz de homem respondeu:

–  AH, CONDENADA INFELIZ!!! QUEM PRIMEIRO SENTIU DO SEU LHE SAÍU!!!!

Muitos insultos foram dirigidos a Dona Neném, que perdeu a “classe” que nunca teve e respondeu com palavrões, pagando na mesma moeda.

Muita gente cuspiu e escarrou, e algumas pessoas chegaram a vomitar, com a sensação de que tinham engolido o “traque”.

Foi o caso de Lúcia, nossa vizinha, que estava com a tia no comício. A jovem chegou em casa doente, com a sufocante catinga do traque entranhada no nariz. Vomitou a noite toda. Estava gritando “Já ganhou”, de boca aberta, quando a catinga de carniça se espalhou no ar. Em pânico, botou na cabeça que tinha engolido o traque. Adoeceu na hora. Teve uma intoxicação, que levou uma semana para ir embora.

Dona Neném Calango já era conhecida, por expelir gases podres, onde quer que se encontrasse. Certa vez, acabou com o velório de um político, ficando, por alguns minutos, na sala da casa, apenas ela e o distinto “de cujus”.

Por isso, sua presença era evitada pelos conhecidos, em qualquer aglomeração. Era uma presença indesejável.

A história do comício se espalhou e Dona Neném Calango ganhou a fama de ter sido responsável pela intoxicação de Lúcia. Sua ideia infeliz de gritar “eu não fui !” quando a catinga se espalhou, contribuiu para que isso fosse uma declaração de culpa, ou melhor, uma confissão.

Valeu o ditado popular:

“Quem primeiro sentiu, do seu lhe saiu”!!!

Pela primeira vez, em Nova-Cruz (RN), alguém adoeceu por ter engolido um “traque ”.

Este caso é Verdade e dou Fé.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 30 de abril de 2022

MUNDO CÃO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

MUNDO CÃO

Violante Pimentel

 

É um documentário sobre coisas bizarras do mundo inteiro, e o primeiro “blockbuster”, palavra de origem inglesa, que indica um filme (ou outra expressão artística) produzido de forma exímia, sendo popular para muitas pessoas .do gênero na História. A partir de então, surgiram outros documentários chocantes mostrando coisas absurdas.

 

 

O cineasta Marcos Jorge, autor de Mundo Cão, traduziu a epígrafe desse documentário :

“As cenas que vocês vão ver são verdadeiras e filmadas sem truques. Se, às vezes, serão amargas, é porque muitas coisas são amargas nesta terra. O dever do cronista não é adocicar a realidade, mas descrevê-la objetivamente”.

Os temas de “Mundo Cão” são difíceis de digerir. A trama se passa quando ainda ocorria o extermínio de animais sadios no âmbito do município de São Paulo. “Santana é um funcionário do Departamento de Combate às Zoonoses e trabalha recolhendo cachorros perigosos das ruas. Com uma mulher evangélica e dois filhos, leva uma rotina tranquila, até que seu caminho se cruza com o de um rottweiler. Ele terá que se ver com o dono do cão, Nenê, envolvido com atos ilícitos”.

O conflito principal surge da impossibilidade do diálogo. “Os dois homens se encontram, um deles já está furioso, e o outro fica nervoso também. Eles trocam palavras, mas nenhum tenta entender o ponto de vista do outro. Tudo nasce disso, do diálogo que não se estabeleceu entre o Santana e o Nenê.”

Apesar de antigo, o documentário “Mundo Cão” reflete o momento atual do País, em que as pessoas estão “homologando” em vez de dialogar. Uma vez estabelecido o diálogo, você deixa de considerar o outro como um objeto, alguém sem importância. Ele assume subjetividade e personalidade. Dialogar faz com que você se aproxime do outro ser humano.

Pois bem. O Império Etíope, também conhecido como Abissínia, se enquadra muito bem nesse “Mundo Cão”. Ocupou os territórios da Etiópia e da Eritreia, existindo aproximadamente de 1270 (início da dinastia salomônica) até 1974, quando a monarquia foi deposta por um golpe de estado. Foi, na sua época, o mais antigo estado do mundo, e, além da Libéria, o único cuja independência resistiu com sucesso à Partilha da África pelas potências coloniais do século XIX.

Os Massais são um grupo étnico de seminômades, que vive no Quênia e no norte da Tanzânia. Devido aos seus costumes distintos e residência próxima aos parques de caça da África oriental, eles se situam entre os grupos étnicos africanos mais bem conhecidos internacionalmente. Famosos como pastores e guerreiros, preservam seus costumes e tradições culturais. A vida deles gira em torno do gado, como comprova a base de sua alimentação, leite com sangue.

É uma sociedade patriarcal em que o homem pode ter quantas mulheres conseguir sustentar. Suas vidas são marcadas pela passagem de diversos rituais, sendo o mais importante o da circuncisão, quando o garoto passa a ser considerado um homem. As meninas também vivenciam um ritual semelhante, em que seu clitóris é “retirado”, para serem consideradas mulheres.

Na tribo abissínia dos “massais”, o filósofo Ludwig encontrou um estranho costume: Durante as festividades, os chefes guerreiros fazem introduzir um boi vivo na sala do banquete, para carneá-lo, poupando-lhe as artérias e deixando-o esvair-se em sangue, sob os olhos estarrecidos dos convidados. Parece cena do “Mundo Cão”.

A descrição desta cena nos faz refletir se será mais cruel devorar uma nação viva, ou um animal que entra para o matadouro inconsciente do que o espera.

O Brasil, como nação livre e capaz de determinar-se por si mesma, está sendo tratado à semelhança do boi abissínio.

Condotiero (em italiano: Condottiere) é um chefe mercenário que controla uma milícia, sobre a qual tem comando ilimitado, e estabelece contratos com qualquer Estado interessado em seus serviços. Enquanto se julgam delfins e herdeiros, os chefes supremos estão carneando vivo o regime e só poupando as artérias para que estas, imprensa, parlamento e garantias constitucionais, deem ao povo a ilusão de que está viva a soberania nacional, quando, na verdade, ela morreu com a própria arma que lhe deram para defender-se.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 24 de abril de 2022

A VOLTA (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

A VOLTA

Violante Pimentel

 

 

A humanidade precisa de amor, numa dose cavalar, capaz de nos reumanizar, nos corrigir e nos vacinar contra o ódio e a tirania. Precisa-se de uma vacina contra a volúpia da destruição dos mais fracos, ofendidos e humilhados.

Um amor que nos vacine contra a maldade, a opressão, a humilhação, a tortura psicológica, e tudo o mais que estamos vivenciando.

 

 

A coroa de espinhos de Cristo continua sendo posta na cabeça de pessoas inocentes.

Se Luiz Gonçalo ainda fosse vivo, estaria implorando hoje para ver novamente a banda passar, “cantando coisas de amor”.

Na época em que Chico Buarque de Holanda, aos 22 anos de idade, gravou A Banda (1966), Luiz Gonçalo já era sessentão. Contador antigo, fazia a escrita de vários estabelecimentos comerciais de Natal e ia sempre à Receita Federal, trocar ideias sobre as eventuais mudanças relativas à Declaração de Imposto de Renda.

Sempre de bem com a vida, bem-humorado, inteligente e educado, Luiz Gonçalo era muito bem relacionado, e os funcionários da Receita Federal o recebiam muito bem.

Carmen Pimentel, minha tia, era fiscal da Receita Federal, cargo que passou a se chamar posteriormente, Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil. Era funcionária antiga, já perto de se aposentar.

Nessa época, estava no auge o grande sucesso de Chico Buarque de Holanda, A Banda, a música mais tocada nas rádios de Natal.

Numa certa tarde, Carmen estava em pleno expediente na Receita Federal, quando Luiz Gonçalo entrou na sua sala, com a costumeira pasta executiva na mão. Ele sempre se dirigia a ela, quando precisava fazer alguma consulta relacionada ao Imposto de Renda. Amiga pessoal do contador, Carmen tinha satisfação em atendê-lo. Como também era muito bem humorada, ao vê-lo, Carmen, por brincadeira, cantarolou um trecho da música A Banda, que diz:

“O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou…”

Imediatamente e sem sair do tom, Luiz Gonçalo respondeu à provocação da amiga, cantando outro trecho da mesma música. “A Banda”:

“A moça feia debruçou na janela,
Pensando que a banda tocava pra ela…”

Os funcionários da Receita Federal que ouviram a resposta de Luiz Gonçalo não se contiveram , e a gargalhada foi geral.

O contador, com sua presença de espírito, não ficou por baixo diante da provocação de Carmen, que também riu muito, diante da merecida resposta que ouviu. Ela não imaginava que Luiz Gonçalo também soubesse cantar A Banda.

Carmen Pimentel, muitos anos depois de aposentada, ainda ria, quando se lembrava desse fato.

O momento atual, de tanta maldade, opressão, autoritarismo e sede de vingança, me traz à memória o lirismo da música de Chico Buarque de Holanda, A Banda, que tanta alegria e esperança leva aos corações de adultos e crianças.

A felicidade imensa com que é recebida a passagem dessa banda tão simples, tão brasileira e repleta de lirismo, é a comprovação da carência de amor pela qual o povo brasileiro passa.

A Banda de Chico não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra, nem convida a matar o inimigo, pois ela não tem inimigos. Essa banda é feita de amor e só festeja o amor. Prefere rasgar corações, fazendo penetrar neles “o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente”, como fala o poeta português Luís de Camões.

Encontro na banda o remédio para todas as tristezas, pois a alegria que ela proporciona atinge meninos e velhos, feios e bonitos, fracos e fortes. Se a banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e até a lua cheia surgir, é porque é possuidora de uma beleza generosa e de uma força superior. Há nela, uma indicação clara, para todos que tem responsabilidade de mandar e os que são mandados; os que estão contando dinheiro e os que nada tem; os vingativos, os que tem facilidade de perdoar e os ambiciosos.

As coisas do amor abrangem um vasto terreno nas relações humanas. A Banda consegue alvoroçar a cidade, atrair o velho fraco, a moça feia, o homem sério, o faroleiro, e todos que a veem passar. Por uns minutos, todos se sentem felizes.

Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las e distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. Abrangem um vasto terreno, nas relações humanas.

Se depois que a banda passou, “o que era doce acabou”, que venha outra banda, que nunca deixe de musicalizar o povo brasileiro.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 16 de abril de 2022

A SEMANA SANTA, NA MINHA INFÂNCIA E JUVENTUDE (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

A SEMANA SANTA, NA MINHA INFÂNCIA E JUVENTUDE

Violante Pimentel

 

 

“UMA ESMOLINHA, PRA MINHA MÃE JEJUAR NO DIA D’OJE!!!”

Eram as crianças de Nova-Cruz pedindo esmolas na Semana Santa.

Na sala da nossa casa em Nova-Cruz (RN), ficavam dois sacos grandes, um com brote, outro com bacalhau. Eram as esmolas que minha mãe distribuía aos pedintes, na Quinta-Feira Santa e na Sexta-Feira da Paixão. Nessa época, década de 60, bacalhau era produto de baixo custo.

 

Paralelamente, na Sexta-Feira, havia uma grande preocupação das famílias, de esconderem suas galinhas dentro de casa. Os “biriteiros” de plantão costumavam furtá-las dos galinheiros nessa noite, e transformá-las em guisados, para lhes servir de tira-gosto.

O furto de galinhas, na noite da Sexta-Feira Santa, era uma tradição, fruto da cultura popular nordestina. Geralmente, os “gatunos” eram jovens conhecidos e de boa família, e faziam isso por danação. Às vezes, o furto era compartilhado pelos próprios filhos dos donos da casa.

As comadres da minha mãe, que residiam na área rural, traziam-lhe beijus de goma com coco de presente, cujo cheiro e gosto nunca esqueci.

A Semana Santa, para os adeptos da Igreja Católica, era uma época triste e sombria. Para começar, não havia aula durante essa semana. O martírio de Nosso Senhor Jesus Cristo era revivido com respeito. Não se ouvia música profana. Não se chamava nome feio, e quase não havia briga na cidade. Era um período de reflexão e esperança de um mundo melhor.

Na Quarta-Feira da Semana Santa, a chamada Quarta-Feira de Trevas, a Igreja ficava lotada de fiéis à tardinha, para se assistir a cerimônia do Ofício das Trevas. Os fanáticos e sujos acreditavam que o banho tomado nesse dia poderia deixar a pessoa “entrevada” para o resto da vida.

Mas, Frei Damião, numa das Santas Missões que fez em Nova-Cruz, acabou com esse tabu, que assombrava o povo do mato. Durante as Missões, no intervalo das missas, mandava que todos fossem para casa tomar banho, para não voltarem fedendo a paturi (produto do cruzamento de pato com marreca).

Na Quinta-Feira Santa, quando se revive a traição de Judas durante a Última Ceia, sentia-se na cidade o clima de tristeza, Era o começo do martírio de Jesus, que carregaria sua Cruz até ser crucificado e morto.

Na Sexta – Feira da Paixão, Jesus estava morto e a imagem do seu corpo ficava em exposição na Igreja, durante todo o dia. Formava-se uma fila interminável, para que os fiéis o beijassem. Era a cerimônia do “beija”.

Nesse dia triste, eram praticados o jejum de carne e a abstinência de bebidas alcoólicas.

As rádios só transmitiam músicas sacras ou clássicas. Não se comercializava nenhuma mercadoria, em respeito ao sofrimento de Jesus Cristo, traído por Judas, em troca de 30 moedas.

Os clubes sociais e outros ambientes de entretenimento não funcionavam, em respeito à morte de Jesus Cristo.

O sábado de Aleluia revive a expectativa da Ressurreição de Jesus Cristo, o filho de Deus.. A liturgia da Páscoa, ou passagem, ocorre pela madrugada.

A RESSURREIÇÃO DE CRISTO é o acontecimento mais importante da humanidade!

A Páscoa Cristã é uma das festividades mais importantes para o cristianismo. De acordo com o calendário cristão, a Páscoa consiste no encerramento da chamada Semana Santa.

Hoje, os costumes mudaram e a Semana Santa se transformou num feriadão igual ao carnaval.

Na praia da Pipa, onde o turismo do Rio Grande do Norte se concentra, os dias da Semana Santa são dias de intensa euforia, festas, danças e muita música eletrônica.

Apesar da banalização dos costumes, os ritos religiosos continuam sendo celebrados na Igreja Católica, durante toda a semana Santa, começando no Domingo de Ramos.

O antigo preceito de jejum de carne vermelha durante a Semana Santa, que é substituída pelo peixe, bacalhau e camarão, continua presente na mesa dos ricos, sejam católicos ou não. Esse hábito se dá por luxo e tradição, dificilmente por religiosidade.

Enfim, os tempos mudaram. O povo mais simples continua frequentando os ritos da Semana Santa nas Igrejas, enquanto os ricos, por comodidade, preferem assistir tudo pela televisão, isso quando não viajam para o turismo religioso.

E a saudade bate forte no meu peito, na Semana Santa. Vejo Dona Lia, minha querida e saudosa Mãe, dando o toque final no feijão de coco, arroz de coco, uma fritada de sardinha com batatinhas, ou um ensopado de bacalhau, com batatinhas e azeite de oliva.

Quanto mais o tempo passa, mais aflora essa saudade. E ninguém tinha morrido.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho quinta, 14 de abril de 2022

SEMANA SANTA - HISTÓRICO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

SEMANA SANTA - HISTÓRICO

Violante Pimentel

 


 

A SEMANA SANTA é uma tradição religiosa cristã que celebra a PAIXÃO, a MORTE e a RESSURREIÇÃO de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela se inicia no Domingo de Ramos, que relembra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, e termina com a Ressurreição de Jesus, que ocorre no domingo de Páscoa.

OS DIAS DA SEMANA SANTA:

1- DOMINGO DE RAMOS - Abertura solene da Semana Santa, com a celebração da Missa de Ramos, onde os fiéis exibem um ramo nas mãos, comemorando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Jesus é recebido com um Rei, mas os mesmos homens que o receberam com festa o condenaram à morte. Jesus é recebido e aclamado com ramos de palmeiras. Nesse dia, são comuns procissões em que os fiéis levam consigo ramos de oliveira ou palmeira, o que deu origem ao nome da celebração. De acordo com os Evangelhos, Jesus foi para Jerusalém celebrar a Páscoa Judaica com os seus discípulos. Entrou na cidade como um rei, mas sentado num jumentinho - simbolo da humildade - e foi aclamado pela população como o Messias, o Rei de de Israel. A multidão o aclamava: "Hosana ao Filho de Davi!" Isso aconteceu alguns dias antes da sua Paixão, Morte e Ressurreição.

SEGUNDA-FEIRA SANTA - A Segunda-Feira Santa é o segundo dia da Semana Santa, cujo começo tem lugar no Domingo de Ramos, e durante o qual os cristãos se preparam em orações para reviver a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

TERÇA-FEIRA SANTA - É o terceiro dia da Semana Santa, onde são celebradas as Sete Dores de Nossa Senhora Virgem Maria. E um dia de penitências, no qual os cristãos cumprem promessas de vários tipos ou o dia da memória do encontro de Jesus e Maria no caminho do Calvário.

1.4 QUARTA-FEIRA SANTA- Ou QUARTA-FEIRA DE TREVAS- É o quarto dia da Semana Santa. Em algumas Igrejas celebra-se nesse dia a piedosa procissão do encontro de Nosso Senhor dos Passos e Nossa Senhora das Dores. Ainda há Igrejas que nesse dia celebram o Ofício das Trevas, lembrando que o mundo já está em trevas, devido à proximidade da morte de Jesus. É uma celebração bonita e muito triste.

QUINTA-FEIRA SANTA - ou QUINTA-FEIRA DA CEIA DO SENHOR - é o quinto dia da Semana Santa e, na manhã desse dia, nas catedrais das dioceses, o Bispo se reúne com o Clero para a celebração do Crisma, na qual são abençoados os óleos que serão usados na administração dos Sacramentos do Batismo, Crisma e Unção dos Enfermos. Com essa celebração se encerra a Quaresma.
Neste mesmo dia, à noite, são relembrados os três gestos de Jesus durante a Última Ceia: a instituição da Eucaristia, o exemplo do Lava-pés, com a instituição de um novo mandamento (ou "ordenança") segundo algumas denominações cristãs, e a instituição do Sacerdócio. É neste momento que Judas Iscariotes sai para entregar Jesus por trinta moedas de prata. E é nesta noite que Jesus é preso, interrogado e, no amanhecer da sexta-feira, açoitado e condenado a morrer na CRUZ.

SEXTA-FEIRA SANTA ou SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO -

É quando a Igreja recorda a morte de Jesus. É celebrada a Solene Ação Litúrgica, Paixão e a Adoração da Cruz. A recordação da morte de Jesus consiste em quatro momentos: A Liturgia da Palavra, Oração Universal, Adoração da Cruz e Rito da Comunhão. Presidida por presbítero ou bispo, os paramentos para a celebração são de cor vermelha.

SÁBADO SANTO ou SÁBADO DE ALELUIA -
É o dia da espera. Os cristãos junto ao sepulcro de Jesus aguardam sua ressurreição. No final deste dia é celebrada a Solene Vigília Pascal, a mãe de todas as vigílias, como disse Santo Agostinho, que se inicia com a Bênção do Fogo Novo e também do Círio Pascal; proclama-se a Páscoa através do canto do Exultet e faz-se a leitura de 8 passagens da Bíblia (4 leituras e 4 salmos) percorrendo-se toda história da salvação, desde Adão até o relato dos primeiros cristãos. Entoa-se o Glória e o Aleluia, que foram omitidos durante todo o período quaresmal. Há também o batismo daqueles adultos que se prepararam durante toda a quaresma. A celebração se encerra com a Liturgia Eucarística, o ápice de todas as missas.

DOMINGO DE PÁSCOA -

É O DIA MAIS IMPORTANTE PARA A FÉ CRISTÃ, POIS JESUS VENCE A MORTE, PARA MOSTRAR O VALOR DA VIDA. Esse dia é estendido por mais cinquenta dias até o Domingo de Pentecostes.

A PÁSCOA CRISTÃ celebra, portanto, a RESSURREIÇÃO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 09 de abril de 2022

UM SONHO LINDO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO
 

UM SONHO LINDO

Violante Pimentel

Tenho por hábito pôr em prática o que Freud ensina, em “Além da Alma.” Quando o sonho é bom, ao acordar, registro-o num caderno que trago sempre ao lado da minha cama.

Hoje, sonhei com minha mãe, cantarolando “Garoto da Rua”, uma das suas músicas preferidas (1947 – composição de Renê Bittencourt e gravação de Augusto Calheiros).

Ao acordar, ouvi a música mais de uma vez e de repente me veio à memória a beleza de “Nós, os Meninos de Palmares”, primeiro capítulo do livro “A Prisão de São Benedito e Outras Histórias”, obra prima do consagrado escritor Luiz Berto. O livro é belíssimo desde a capa, as orelhas escritas pelo autor, e a fabulosa apresentação do poeta Orlando Tejo.

Sobre a Prisão de São Benedito e Outras Histórias, escreveu o poeta Orlando Tejo, em artigo publicado na Revista A REGIÃO, Recife, 1983:

“Há alguns meses, porém, A Prisão de São Benedito e outras histórias”, o mais opulento livro que já li em seu gênero, possibilitou-me a visão clara e geral do universo palmarense.

Nunca os tipos populares de nenhum lugar mereceram perfis literários mais precisos. Nenhum deles é caricaturado. São todos fotografados com a exatidão da arte que se pode exigir de um mestre. Luiz Berto os faz desfilar em assombrosa passarela universal, cada um deles com seus cacoetes humanos e suas características congênitas, fundo do riquíssimo cotidiano local que, em verdade, não é diferente do dia a dia de nenhuma outra cidade interiorana. Todas as cidades possuem os mesmos doidos, os mesmos boêmios, os mesmos aleijados, as mesmas prostitutas, as mesmas presepadas; e os bares, o cabaré, a noite, o clima de vida, o folclore, enfim, são clichês.

Tipos populares, portanto, não são privilégios de lugar nenhum. Ocorre, todavia, que somente Palmares deu um Luiz Berto. E isso explica o fenômeno. É o mesmo que pensarmos o que seria a Bahia sem Jorge Amado.”

Diz o Escritor Luiz Berto que não é poeta. “Nós, os meninos dos Palmares”, entretanto, é poesia pura; puro lirismo, característica dos poetas. Os meninos de Palmares eram “apontadores de estrelas”, “gáveas ao vento’, e “bebiam até a última gota naquele pote de felicidade.” Colocações poéticas lindíssimas!

Teimo em dizer, que o Escritor Luiz Berto é um dos maiores poetas que eu conheço. Seus escritos são poemas em prosa.

O garoto da rua, de que fala a composição de Renê Bittencourt, tinha a mesma alma dos meninos de Palmares, os mesmos sonhos, a mesma liberdade e as mesmas aspirações. Era um craque na bola de meia e andava com o bolso pesado de bolas de gude.

“Nós, os meninos de Palmares” é o retrato de uma infância feliz, que marcou uma época em que a maldade não tinha nascido.

Augusto Calheiros GAROTO DA RUA

 

 

 
 

Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 02 de abril de 2022

MESA DE BAR (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

MESA DE BAR

Violante Pimentel

 

– Já fui casado, já tive um lar, com uma esposa que era uma santa, e cinco filhos. Mas a minha irresponsabilidade e minha vida boêmia destruíram meu lar.

 

 

Os amigos de copo já sabiam da história de cor e salteado, mas, mesmo assim, gostavam de ouvir.

Durante o tempo em que fora casado, Zé de Vina esquecia que a esposa e filhos precisavam se alimentar. A prioridade do seu dinheiro era a boemia. Mesmo com família constituída, ele só tinha olhos para mesa de bar e mulheres de cabarés.

Depois de anos de discussões e promessas não cumpridas, Bernadete, a esposa, cansada de passar privações junto com os cinco filhos, e de ver o marido chegar de madrugada, embriagado e agressivo, tomou uma atitude desesperada, para escapar das garras de um casamento infeliz.

Numa certa madrugada, ao chegar em casa trocando as pernas, Zé de Vina a encontrou completamente vazia. A mulher havia se mudado, para lugar incerto e não sabido, com os filhos e os móveis. O susto que ele levou fez com que ficasse sóbrio, imediatamente. Sem rumo e sem prumo, saiu perambulando pelos bares e adormeceu no chão.

Desesperado por se ver sozinho, sem esposa e filhos e com a casa vazia, Zé de Vina mergulhou ainda mais na boemia. Pagara muito alto o preço de sua irresponsabilidade. Mas, reconhecia que fizera por merecer.

Os maus-tratos a que tinha submetido a família, durante os dez anos em que fora casado, não mereciam perdão.

Dias depois que a família o abandonou, chegou aos ouvidos de Zé de Vina que um rico “coronel”, dono de fazendas, viúvo e cheio de filhos, fizera de Bernadete sua “teúda e manteúda” e estava fazendo as vezes de pai para seus filhos, dando a todos uma vida sossegada e com conforto.

O “coronel” era um importante chefe político, um figurão, e contava com o respeito de todos na cidade.

Depois de descobrir o endereço do tal fazendeiro, Zé de Vina, foi até lá, na esperança de rever, não a mulher, mas os cinco filhos. Estava conversando com eles, quando desceu de um cavalo o tal coronel, de rebenque na mão e com um vozeirão estridente:

– Boa tarde, seu Vina!

Os companheiros de copo, mais uma vez, ouviam atentos, talvez pela vigésima vez, a narrativa de Zé de Vina, e aguardavam o desfecho.

Percebendo a curiosidade dos amigos, Zé de Vina concluiu a conversa, jocosamente:

– Quando eu vi o tipão que é o coronel, só fiz desengalhar meu honroso chapéu da galhada de chifres e respondi, educadamente:

– Boa tarde, coronel Homero! Que Deus guarde Vossa Senhoria e suas excelentíssimas famílias! Bernadete tem bom gosto…


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 26 de março de 2022

A PROPAGANDA (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

A PROPAGANDA

Violante Pimentel


Antigamente, a melhor maneira de se promover um produto era o tradicional “boca-a-boca”. Os próprios consumidores elogiavam para amigos, vizinhos e parentes os artigos de que haviam gostado.

A história da propaganda no Brasil começou em 1808, quando nasceu a Gazeta do Rio de Janeiro. Esse periódico publicou o primeiro anúncio de que se tem notícia:

”Quem quiser comprar uma morada de casas de sobrado com frente para Santa Rita, fale com Joaquina da Silva, que mora nas mesmas casas.”

 

 

A partir daí, pequenos textos sem ilustração, alguns sem título, do tipo “classificados”, começaram a oferecer serviços: professores de línguas, casas à venda ou para alugar, oferta de escravos, recompensas para quem encontrasse algum negro fugido etc.

Por volta de 1860, começaram a aparecer os primeiros painéis de rua, bulas de remédios e panfletos de propaganda.

Quinze anos depois, em 1875, os jornais Mequetrefe e O Mosquito inauguravam os reclames ilustrados. Desenhos, litogravuras e logotipos passaram a ocupar um espaço cada vez maior, sobretudo depois de 1898, quando surgiu O Mercúrio, jornal de propaganda comercial. Impresso em duas cores, esse periódico contava com ilustradores famosos, como Julião Machado, Bambino e Belmiro de Almeida. Os grandes anunciantes eram, então, os hotéis, as lojas de confecções e os fabricantes de remédios.

Os anos 30 deram à propaganda um novo e importante veículo: o rádio, que transmitia comerciais na voz dos grandes astros das emissoras.

A Agência Ayer foi pioneira no patrocínio de programas de rádio em cadeia (1933/1934), transmitindo as vozes de Francisco Alves, Carmen Miranda, e outros.

Em 1936, a Unilever (resultado da junção da empresa holandesa Margarine Unie e a Lever Brothers, da Inglaterra) se esforçaria em conquistar o mercado brasileiro. Os jingles serviriam como uma estratégia, não somente da Lever, mas também de outras empresas internacionais, para conquistar um mercado urbano brasileiro que começava a assumir uma postura consumista.

Lançada pela Unilever, no Brasil, a campanha do sabonete Lifebuoy começou a ser veiculada em 1937, nas rádios brasileiras, com o jingle:

“ESTE É O TAL QUE NÃO USA LIFEBUOY”, de autoria do publicitário Rodolfo Lima Martensen, responsável também pela criação do termo “C.C” (cheiro de corpo), que ainda hoje é usado no mesmo sentido.

Surgiram outras propagandas, como:

“Evite o “C.C”. (cheiro de corpo)! Use Lifebuoy!”

“Use sabonete Lifebuoy! Só ele contém o elemento purificador especial que de fato evita o “C.C”.

“Lifebuoy livra você do “C.C.”

“Nada de “C.C” comigo! Uso Lifebuoy!”

O odor da transpiração afastava os amigos e as mulheres, e transformava o ‘tal’ que não usava Lifebuoy, num renegado e marginalizado pelo próprio corpo.

Presente em mais de 40 países, Lifebuoy tornou-se marca líder, no segmento de sabonetes antibacterianos, no mundo.

Exalar o cheiro do corpo ou o cheiro de suor, seria algo inaceitável, num período de aglomeração nas cidades. Essa luta pelo bom cheiro do corpo sempre existiu.
O olfato se transformou num bem material, em forma de sabonetes, desodorantes, perfumes, pastas ou enxaguatórios bucais. O mau cheiro deveria ser banido e o bom cheiro deveria ser comprado.

O alerta servia a todos, sem exceção de cor, raça ou classe social.

O sabonete Lifebuoy e a sua campanha publicitária contra o “C.C.” foram considerados o que melhor representava o anseio de se livrar dos maus odores corporais.

O termo “C.C.” acabou sendo incorporado à norma culta da Língua Portuguesa na década de 1980, como “cê-cê” – cheiro de corpo.

A prova de que a preocupação com os odores naturais do corpo se faz presente na vida das pessoas, é que a campanha do “Lifebuoy” ganhou a atenção dos potenciais consumidores e foi um sucesso.

Nos anos 50, com o aparecimento da televisão, ampliou-se largamente o campo publicitário. O grande sucesso da década eram as “garotas-propaganda”, que ganhavam a simpatia e cumplicidade do telespectador para o produto.

As fotos de modelos provinham dos Estados Unidos: mulheres lindas, mas quase todas louras.

Percebendo a necessidade de gente morena para vender os produtos brasileiros, Charles Dulley , da Agência Ayer, colocou um anúncio nos classificados de “O Estado de São Paulo”: “Jovens bonitas, morenas, para trabalho fácil e bem pago.” No dia seguinte, dois “secretas” (policiais) foram à agência averiguar que tipo de “trabalho fácil” era aquele.

Os executivos da Unilever, no Brasil, identificaram um ponto que deveria ser revisto na propaganda do sabonete Lifeboy:

Em 1937, o desodorante ainda não era um produto acessível a todos. Naquela época, não havia no Brasil poder aquisitivo para justificar o uso cotidiano de desodorantes. Portanto, um sabonete que oferecesse as vantagens de um desodorante e dramatizasse essa qualidade junto ao consumidor, através de um forte cheiro, teria grande aceitação.

A utilização de figuras como a miss Brasil Marta Rocha ou a atriz Grace Kelly ajudava a compor o denominado “mundo da fantasia”, criado pela indústria cinematográfica de Hollywood.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 20 de março de 2022

ARLEQUIM (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

ARLEQUIM

Violante Pimentel

O escritor australiano Morris West (1916 – 1999) escreveu a obra “Arlequim” (1974), que narra o que acontece com um homem, quando se vê envolvido e visado pelos “mercadores da morte”.

Na ausência de uma filosofia que permita frear as pressões do mundo moderno, a era dos assassinos parece que nunca terá fim.

O que vemos agora é o terror rondando o nosso planeta, e a humanidade apavorada, diante da perspectiva de uma hecatombe mundial. O terror nos ronda e os “mercadores da morte” nos cercam. Eles existem, literalmente.

 

 

 

São homens que, através do uso sofisticado de computadores, promovem um assassinato aqui, uma revolução mais além, conspirando sempre contra a humanidade.

Paul Desmond passou a ser constantemente assediado, com sucessivos convites para almoços, jantares, coquetéis, conferências particulares. Alguns “amigos” de Arlequim, há muito afastados, ao saberem da sua enfermidade, procuraram Paul, com informações úteis sobre o mercado de ações, ou sobre um lote de ações a preço reduzido.

O fato mais significativo, porém, foi a intervenção pessoal de Basil Yanko, presidente da “Creative Systems Incorporated”. Seu telex de Nova York foi lacônico e objetivo:

“Em Genebra amanhã. Solicito conferência particular às 10 horas. Confirme, por favor. Yanko.”

Apesar de não gostar de Yanko devido à sua arrogância, Paul confirmou sua presença. Afinal, “Arlequim et Cie” havia subscrito todas as iniciativas da “Creative Systems Incorporated” e suas empresas afiliadas. Por recomendação deles, haviam conquistado uma dúzia de contas da maior importância.

Yanko era um homem alto, esquelético, de pele cinzenta, boca pequena e olhos pretos e pequenos, nos quais não havia o menor indício de humor. Era mundialmente conhecido e bajulado como o mais brilhante cérebro na tecnologia do computador.

Sua riqueza já se tornara conhecida em todo o mundo. Seus sistemas eram os fios que controlavam milhões de vidas-marionetes. Fazia questão de deixar isso bem claro, pois ninguém usava seus sistemas. Ao contrário, seus sistemas é que usavam as pessoas.

Mal começou a reunião em Genebra, Yanko jogou um envelope na frente de Paul e disse:

– Leia isto. É o relatório médico sobre George Arlequim.

Furioso com aquele ato de invasão de privacidade e desrespeito a Arlequim, que se encontrava hospitalizado, Paul mostrou-se indignado. Yanko não poderia estar de posse daquele relatório médico, sobre a saúde de Arlequim, exibindo-o numa reunião.

E Yanko continuou:

– Se Arlequim morrer, os herdeiros naturais são a esposa e um filho ainda criança. A direção de “Arlequim et Cie” será delegada aos atuais diretores e quaisquer talentos novos que eles possam descobrir. Não é muito fácil encontrar bons banqueiros. A consequência lógica é uma redução no valor das ações e nos lucros em potencial.

Essa era a lógica de Yanko, que estava disposto a apostar nessa consequência inevitável. Se Arlequim viesse a morrer, ele queria comprar todas as suas ações. Cobriria qualquer proposta que fosse feita. Se Arlequim sobrevivesse, como não tinha dúvidas Paul, a proposta de Yanko continuava de pé, conforme ele anunciou na reunião. Solicitou, inclusive, que Paul a transmitisse a Arlequim, assim que ele estivesse em condições de examiná-la.

Paul Desmond estava certo de que Arlequim recusaria. Como alternativa, Yanko comunicou que estava preparado para comprar as ações de todos os sócios.

Pelos Estatutos do banco “Arlequim et Cie”, George Arlequim tinha a preferência para comprá-las. Yanko sabia disso, mas esperava que ele estivesse disposto a renunciar à preferência na compra das ações, ou a vendê-la.

Paul perguntou porque esse interesse de Yanko sobre o patrimônio de Arlequim. Ele só fez sorrir. Fez uma pausa e tirou da maleta uma pasta volumosa, acrescentando:

– Vocês nos pagam para efetuarmos uma verificação de segurança em suas contas. Este é o relatório dos últimos seis meses. Os computadores mostraram algumas anomalias curiosas. Descobriram que algumas estão a exigir ação imediata. Se precisar de mais algum esclarecimento ou ajuda, o meu pessoal está à sua disposição.

Yanko se levantou e estendeu a Paul a mão frouxa e fria. Agradeceu por dispor do seu tempo e enviou para Madame Arlequim votos de rápida recuperação do seu marido.

Ao acompanhá-lo ao elevador, Paul Desmond sentiu um tênue calafrio, como mau presságio.

O computador seduz o homem a uma fé cega por ele e depois o trai à sua própria idiotice. Não se pode comprar o cérebro. Aluga-se o seu tempo. Contrata-se analistas de sistemas e se lhes explicam as necessidades.

Recorre-se a programadores, para fornecer ao cérebro os fatos e os números. Baseiam-se decisões de fundamental importância nas respostas proporcionadas pelo computador. Mas, não se tem tranquilidade, com relação aos possíveis erros dos programadores a que eles sejam subornados. Utilizam-se monitores para controlarem o cérebro em busca do menor indício de erro ou fraude. E assim se acreditava que o sistema era seguro e sagrado, à prova de escroques. Ledo engano. As fraudes são constantes.

Havia apenas um sério problema: o cérebro eletrônico, os programadores e os monitores eram todos membros da mesma família, a “Creative Systms Incorporated”, que sonhava em ter todos sob o seu controle, ao comando do seu chefe, Basil Yanko.

Quer gostassem quer não, estavam todos presos dentro de um círculo mágico, riscado por um mago do século XX. O relatório que estava em cima da mesa de Paul, esperando ser aberto, era um documento de magia, cheio de encantamentos e perigosos mistérios. Ele precisava reunir toda a sua coragem para abri-lo. Precisava de silêncio e tranquilidade para examiná-lo. Avisou à secretária que não lhe passasse nenhum telefonema. Trancou a porta e começou a ler o relatório. Duas horas depois, Paul enfrentava a brutal realidade: “Arlequim et Cie.” fora sangrada em quinze milhões de dólares. E quem a sangrara, fora o próprio George Arlequim!!!

A fraude mais absurda que Basil Yanko poderia ter feito em sua vida. Arlequim teria “roubado” seu próprio banco!!!

Paul Desmond quebrou lanças para conseguir cobrir o “desfalque” fraudulento no valor de quinze milhões de dólares, enquanto Arlequim ainda estava hospitalizado.

Quando Arlequim se recuperou da enfermidade, tomou conhecimento de tudo e se recusou a negociar suas ações com Basil Yanko. Lutou, pagando para provar a sua inocência, e não cedeu à pressão do verdadeiro autor da fraude.

Os abutres contavam com as ações do “Arlequim et Cie”. Mas, para desapontamento de todos, principalmente Basil Yanko, Arlequim se recuperou e pôde lutar para se defender da acusação de fraude e punir o verdadeiro culpado.

São os crimes da era cibernética; operações fraudulentas, para prejudicar empresas. É a lei do mais forte. Arlequim foi acusado de roubar seu próprio banco”, em fraude praticada por ordem de Basil Yanko.

Arlequim se recuperou e pode lutar para provar que os mafiosos da computação tinham praticado uma fraude em seu nome, no seu próprio banco.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 13 de março de 2022

CASIMIRA INGLESA (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

CASIMIRA INGLESA

Violante Pimentel

 

 

O portador, Adamastor Silva, era amigo da sua família e viajaria a Natal, alguns dias antes da festejada data natalícia.

 

 

O presente era um corte de casimira inglesa, azul-marinho, para confecção de um terno, cor predileta do seu pai.

Junto com o presente, o Almirante enviou-lhe uma carta de felicitações pelo seu aniversário (21/06), como costumava fazer.

Convém salientar que a roupa clássica do Professor Celestino Pimentel era terno azul-marinho, de casimira inglesa, com camisa branca de cambraia de linho e gravata.

Ansioso para saber se o pai havia gostado do presente, tio Alberto contava os dias, estranhando a demora de notícias dele.

Quatro meses depois do aniversário do pai, o Almirante resolveu lhe escrever, pedindo notícias. Na verdade, ele também queria sondar se o pai tinha recebido, ou não, o corte de casimira inglesa, presente de aniversário que lhe enviara por um portador idôneo, acima de qualquer suspeita.

O Almirante não quis se mostrar sentido pela falta de notícias do pai, depois da remessa do presente. Entretanto, como ele sempre respondia suas cartas rapidamente, e sempre agradecia os presentes que recebia, o silêncio foi estranho.

Alberto passou a se inquietar, chegando a fazer mau juízo do portador. Mas, comprovadamente, Adamastor era um homem acima de qualquer suspeita.

Nessa época, décadas de 50/60, o único meio de comunicação que havia era através dos Correios. Uma carta demorava mais de um mês para chegar ao seu destino.

O Almirante ficou meses aguardando a resposta da carta, que acusaria o recebimento do presente. Estranhou o esquecimento do pai e mil cogitações passaram pela sua cabeça. Sabia que o pai era muito atencioso. Jamais deixaria de responder à sua carta nem de agradecer seu presente.

Seis meses de espera da resposta da carta se passaram e nenhuma notícia do pai do Almirante. Não aguentando mais esperar, tio Alberto escreveu ao pai e procurou um jeito sutil de tocar no assunto do suposto extravio do presente.

Muito escrupuloso, não queria se mostrar sentido com o pai, pela falta de resposta da carta, nem queria insinuar que o presente pudesse ter sido surrupiado pelo portador, pessoa conhecida e, até então, idônea.

O Almirante Alberto, então, escreveu ao pai, dizendo-se muito decepcionado com o amigo Adamastor, pois sempre o tivera em alta conta, como um homem íntegro e honrado. Entretanto, o presente de aniversário do qual ele fora portador, com certeza, não foi entregue ao destinatário. Não queria fazer mau juízo de Adamastor, mas “diante de fatos, não há argumentos”.

Após receber essa carta, o Professor Celestino escreveu, imediatamente, ao filho, desfazendo o mal-entendido e se desculpando pelo lapso de não haver agradecido, imediatamente, o presente.

O amigo Adamastor, portador do presente de aniversário do Professor Celestino Pimentel, estava completamente inocente nessa história. E o novo terno de Casimira Inglesa já tinha sido confeccionado pelo melhor alfaiate de Natal.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 05 de março de 2022

SOMENTE CINZAS (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

SOMENTE CINZAS

Violante Pimentel

 

Saudade da composição de Chico Buarque de Holanda A Banda:

A “minha gente sofrida” ainda não pôde se despedir da dor, “pra ver a Banda passar, cantando coisas de amor.. “

“O homem sério que contava dinheiro” não parou; “o faroleiro que contava vantagem” não parou; “a namorada que contava as estrelas” também não parou, para ver, ouvir e dar passagem à Banda, que mais uma vez, neste carnaval, foi proibida de sair às ruas.

“A moça triste que vivia calada” não teve motivos para sorrir…”A rosa triste que vivia fechada” não se abriu…

“A meninada” nem ao menos se assanhou, pois não havia banda a passar, tocando coisas de amor.

“O velho fraco” não se esqueceu do cansaço, nem pensou que ainda era moço pra sair no terraço e dançar…

“A moça feia” não se debruçou na janela, pensando que a banda tocava pra ela, pois, simplesmente, não havia banda.

“A marcha alegre” não se espalhou na avenida, nem “a lua cheia”, que vivia escondida, surgiu.

E a minha cidade não se enfeitou, pois não havia banda a passar, cantando coisas de amor.

O carnaval do fatídico mês 2 do ano de 2022 foi um desencanto total e “a Banda”, mais uma vez, não passou.

Há mais de dois anos, o povo não sabe o que é alegria nem liberdade de brincar o Carnaval. Nada mudou de lugar, nem a banda passou cantando coisas de amor.

Lembrei-me do personagem de Carlos Heitor Cony, na crônica “Cinzas e Nada Mais”. Trata-se de um religioso, que atendia pelo nome de Monsenhor Cinzas, como fora apelidado. Ao contrário do que o apelido sugeria, não era incolor nem apático, e sim um homem sanguíneo, dono de inúmeras frustrações e revoltado contra as pessoas bem sucedidas. Um pasto de “imensas cóleras contra a iniquidade do homem”.

Não tinha nada de cinzento, a não ser a alma.

 

 

Seu comportamento amargo afastava as pessoas que dele se aproximavam. Destruía as amizades, com sua curiosidade mórbida e sua inveja gritante. Sua revolta e seu mau humor deram origem ao apelido, que o acompanhou por toda a sua vida.

O apelido vinha do fato dele sempre gostar de lembrar que tudo na “humana lida” termina em cinzas.

Seu dia glorioso, seu grande dia, portanto, era a Quarta-feira de Cinzas (sua “finest hour”). “Cinzas e Nada Mais” era o seu bordão.

Ele passava o ano todo se lembrando de que toda a glória, toda a exultação e toda a formosura, mais cedo ou mais tarde, sem metáforas nem ressentimentos, acabam em um punhado de cinzas. E só se sentia feliz, quando tinha oportunidade de gritar o seu bordão: “Cinzas e Nada Mais”. Queria entristecer as pessoas que lhe ouviam e acabar com a alegria de viver de todos.

Contam os memorialistas que “quando o Fluminense foi tricampeão em 1938, Monsenhor Cinzas, que era Botafogo, invadiu a festa das Laranjeiras e ficou gritando: “Cinzas e Nada Mais!” Como quem diz: “Um dia, isto se acaba”…

Sua ferocidade era destruidora e desarticulava a alegria de quem estivesse feliz. Conta-se que ele agrediu um folião na terça-feira do Carnaval de 1944, que no bonde, cantava alto nos ouvidos dos passageiros:

“É hoje só, amanhã não tem mais! É hoje só, amanhã não tem mais!”

Deu-lhe um bofetão e ameaçou os demais passageiros, gritando:

“Cinzas e Nada Mais! Cinzas e Nada Mais!”

Monsenhor Cinzas terminou velho, desbotado e cinzento. Sofreu um AVC, sobreviveu, mas, mesmo assim, continuou revivendo “sua glória”, quando chegava a Quarta-Feira de Cinzas. Esse dia era para ele, ao mesmo tempo, a epifania, o Natal, a Páscoa e o triunfo. Era o dia das cinzas!!! Sua glória!

Ele era o verdadeiro “Corvo”, de Alan Poe. Uma figura macabra.

Foi professor de vários idiomas, mas a única frase que deixou gravada na memória dos alunos foi:

“Cinzas e Nada Mais!”

Pesquisando as marchinhas antigas, da coleção (Anos 30 a 84),organizada pelo produtor musical natalense, meu amigo José dias, encontrei essa bonita e significativa marchinha de Carnaval dos anos 30, “Rasguei Minha Fantasia”, do grande compositor brasileiro, Lamartine Babo: (Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 1904 — Rio de Janeiro, 16 de junho de 1963).

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 27 de fevereiro de 2022

SAINDO DO SÉRIO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

SAINDO DO SÉRIO

Violante Pimentel

 

 

Por sinal, tenho loucura pelo carnaval, apesar de nunca ter brincado em clubes nem blocos, salvo no interior, na minha adolescência.

Hoje, me divirto, assistindo aos desfiles na TV, ouvindo as músicas dos carnavais antigos do Recife e também dos imortais trios elétricos de Armandinho, Dodô e Osmar.

Pois bem. Zé de Vina, quando não estava trabalhando na usina de algodão da qual era sócio e gerente, gostava de ler jornais e ouvir os noticiários do rádio.

Inteligentíssimo e politizado, também era muito observador.

Décadas atrás, num sábado de carnaval, enquanto ele se dirigia à banca de Jornal, um rapaz com aparência de necessitado e com voz chorosa o abordou, pedindo-lhe um auxílio para o funeral do pai. Entretanto, Zé de Vina reconheceu na fisionomia do rapaz, a mesma pessoa que, em anos anteriores, no sábado de carnaval, lhe pedira auxílio para esse mesmo fim. E no último ano, esse mesmo rapaz lhe pedira ajuda para o sepultamento da mãe. Descaradamente e com bafo de cachaça, estava, agora, repetindo o pedido de ajuda, para, mais uma vez, enterrar a mãe.

 Homem vivido e experiente, Zé de Vina encarou o golpista e lhe disse com sua voz grossa e estridente, em tom irritado:

– PAI VOCÊ PODE TER MUITOS!!! MAS MÃE, VOCÊ SÓ PODE TER UMA, seu malandro! Você já me pediu ajuda para enterrar seu pai umas dez vezes. Agora é a segunda vez que você está pedindo ajuda para o enterro de sua mãe. E é sempre no sábado de carnaval, já com bafo de cachaça. Você já está conhecido por aqui como um grande malandro, picareta e enrolão. Pegue o beco e se mande daqui, se não quiser que eu entregue você à Polícia.

O “órfão” se mandou, com medo de ser preso por malandragem.

Deve ter ido aplicar golpes em outro bairro, para poder encher a cara nos dias de carnaval.

 

Marchinhas de Carnaval – Me dá Um Dinheiro Aí

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 19 de fevereiro de 2022

REMEMORANDO O ALMIRANTE (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

REMEMORANDO O ALMIRANTE

Violante Pimentel

 

Certo dia, durante um banquete que reunia a alta cúpula da Marinha, a esposa de um Almirante amigo dele, Josino Alves, sentiu que um dos saltos dos seus sapatos havia se quebrado. O Almirante Alberto, no final, se ofereceu para levar o sapato da esposa do amigo ao sapateiro de sua confiança. Segundo ele, esse sapateiro era um exímio profissional e o sapato, com certeza, ficaria perfeito.

 

 

Três dias depois, o Almirante Josino Alves, marido da senhora, dona do sapato, faleceu de um mal súbito. Não deu tempo do Almirante Alberto devolver ao amigo o sapato consertado, da sua esposa.

Inconsolável com o precoce e súbito falecimento do marido, a viúva entrou num processo depressivo e, poucos dias depois, viajou para o exterior, onde moravam seus parentes.

Não teve condições de comunicar sua mudança aos amigos e viajou sem se despedir.

Dez anos depois, regressou ao Rio de Janeiro e entrou em contato com o Almirante Alberto, um dos maiores amigos do seu falecido marido, querendo fazer-lhe uma visita.

Acompanhada da filha e do genro, a viúva fez a visita ao Almirante Alberto, no seu apartamento, à Rua Santa Clara, em Copacabana.

Depois de superadas as emoções do reencontro, o Almirante entregou à mulher uma sacola com alguma coisa dentro: Era o sapato, devidamente consertado há mais de dez anos, conforme ele se prontificara a mandar fazer.

Mostrando-se surpresa com a memória do Almirante Alberto, ela agradeceu os préstimos, e se emocionou, relembrando que aquele fora o último banquete da Marinha, do qual ela e o saudoso marido participaram. Entretanto, jamais imaginou que o Almirante Alberto houvesse guardado seu sapato consertado, durante todo esse tempo.

Perguntado por alguém, por qual motivo guardara esse sapato por tanto tempo, tio Alberto respondeu:

-Cumpri meu dever como militar. Promessa é dívida. Prometi ao meu grande amigo, Almirante Josino Alves, que mandaria consertar o sapato de sua esposa e assim o fiz. Infelizmente, em face do súbito falecimento dele e da consequente mudança da viúva para o exterior, não tive oportunidade de devolver, em tempo hábil, o sapato consertado.

O Almirante Alberto contava essa história e dizia que só teve sossego, depois que entregou o sapato à sua dona, mesmo decorridos mais de dez anos.

Se ainda havia serventia ou não do sapato, somente a dona poderia decidir.

– Só Deus sabe como me preocupei com isso! – Dizia o Almirante Alberto Pimentel, quando relembrava esse fato.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 12 de fevereiro de 2022

O ALMIRANTE (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

O ALMIRANTE

Violante Pimentel

 

O combate às muriçocas

 

Minha mãe tinha dois irmãos, Luiz Gonzaga Pimentel e Alberto Edmundo Pimentel, que cursaram a Escola Naval no Rio de Janeiro e chegaram ao posto de Almirante da Marinha de Guerra. Só vinham a Natal a passeio.

Tio Luiz, não cheguei a conhecer, pois faleceu aos 52 anos e eu era de braço.

Tio Alberto, eu o visitava na casa do meu avô materno, sempre que ele vinha a Natal.

Décadas atrás, Nova-Cruz (RN), onde nós morávamos, era o fim do mundo. Ninguém tinha automóvel e as viagens daqui pra lá e de lá pra cá (Natal) eram feitas de trem ou de ônibus, e levavam de 5 a 6 horas.

Quando vinha a Natal, tio Alberto fazia questão de ir a Nova-Cruz, visitar a irmã Lia, minha mãe. Gostava de observar as conversas de meio de rua e a linguagem do povo. O que achava engraçado, anotava num caderno.

Nova-Cruz fazia um calor horrível durante o dia (30 a 40 graus), e à noite soprava uma brisa agradável, chegando mesmo a fazer um friozinho gostoso.

Os esgotos a céu aberto colaboravam para a proliferação de muriçocas. E as surras de muriçocas, que o Almirante Alberto levava nas noites em Nova-Cruz, ficaram na história. E ele, muito bem humorado, se divertia, contando, pela manhã, quantas picadas havia levado durante a noite. Como diz o matuto, ele devia ter o sangue doce, para que, numa só noite, levasse mais de 100 picadas de muriçoca.

Ele também se divertia com a linguagem do povo. Os termos: “Sostou!!!”, “bom que só!”, “Oi de casa”!, “Verter água”(urinar)”, “se banhar”, “bassoura”, “Bacio” (pinico), “ Aparelho” (sanitário)”, “Boca da noite” (o anoitecer), “Pico do meio-dia”, “Ponche”, “Garapa” (água com açúcar), Caningado (chato), Caninga (chatice), ”Barrer”(varrer) e outros, ele anotava num caderno que fazia parte da sua bagagem.

Depoimento da nora do Almirante Alberto Pimentel, residente em Brasília, no Facebook:

Esse depoimento da minha prima Catharina, que reside em Brasília e é viúva de Milton, filho de Tio Alberto, me comoveu. Ele era adorável!

O Almirante Alberto Edmundo Pimentel combatia a corrupção e abominava a desonestidade.

Costumava dizer que, aquele que deseja banalizar o roubo, achando que roubar é normal e que todo brasileiro é ladrão, deveria conhecer a história do Almirante Ary Parreiras, que construiu a Base Naval de Natal (que hoje tem o seu nome), entre os anos de 1941 e 1942, com a metade do dinheiro que lhe foi destinado para a construção. A outra metade, devolveu ao Ministério da Marinha, porque não precisou usar.

Um caso nunca visto!

Atualmente, os corruptos dominam a Nação.

E os desonestos consideram os honestos pessoas burras.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho terça, 08 de fevereiro de 2022

SATÍRICON – PETRÔNIO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

SATÍRICON – PETRÔNIO

Violante Pimentel

 

SUPERNUS AMOR
(Autor desconhecido)

Ser Petrônio, imperar dentro do Palatino
Conversar, dialogar com Sêneca e Lucano;
A César confundir, detestar Tigelino;
Afrontar o poder do Exército Romano.

Dos elegantes, ser o árbitro divino;
Sentir pela beleza, um desdém soberano;
Por Eunice descrer, o Zeus Capitolino,
Crisóstomo odiar, sobranceiro e tirano…

Tudo isso não vale, a atroz paixão sincera,
Desse funesto amor, a Lígia idolatrada,
Que Vinícius pagão cristãmente venera…

Ah! tudo isso não vale a trágica jornada,
em que o belo augustal todo se dilacera,
Procurando Calina em Roma incendiada.

 

Gaio Petrônio Árbitro (Petronius – Roma, 66 d.C.) foi um cortesão romano, da época do Imperador Nero, escritor, mestre na prosa da literatura latina, e satirista notável. Deixou um retrato sarcástico da sociedade romana do século I, da era cristã, na obra “SATÍRICON”, que se mantém atual, como crítica social e fonte documental.

Escreveu “SATIRICON”, com a clara intenção de ridicularizar o Imperador Nero e sua Corte.

Provavelmente, era filho de Públio Petrônio, cônsul sufecto em 19 e governador da Síria entre 37 42.

 

 

 

De família aristocrática, Petrônio foi descrito pelos historiadores como pessoa requintada, que amava os prazeres da mesa e da vida em geral, o que não o impediu de exercer, com eficiência e retidão, os cargos de governador da Bitínia, atual Turquia, e depois o de cônsul.

Conselheiro de Nero, no ano 63, aproximadamente, Petrônio foi por ele nomeado “Arbitere Legantiae” (árbitro da elegância).

A obra “SATÍRICON” foi escrita no período da decadência literária de Roma, que coincide com o seu declínio econômico, político e social. É um romance “costumbrista” em que se entremeiam prosa e verso, sendo narrado por Encolpo, seu personagem principal.

Em “Satíricon”, Petrônio faz uma paródia dos romances de amor gregos, substituindo, no entanto, divindades e heróis convencionais por gente da vida quotidiana depravada: homossexuais, ninfomaníacas, alcoviteiras, criados, estalajadeiros, escravos, poetas, políticos, aristocratas, frequentadores de bordeis, novos-ricos e parasitas de toda a ordem; todos povoam esse livro silencioso, o mais silencioso de toda a literatura latina.

Em linguagem, ora culta, ora cheia de vocábulos populares, de idiotismo e do coloquial da época, Petrônio denuncia, em tom risonho e mordaz, a desigualdade social e a corrupção provocada pela riqueza e a mesquinhez das classes dominantes, entregues a banquetes e orgias. “Enquanto a gente pobre jejua, vemos numa festa contínua as bocas privilegiadas”.

Como todo clássico universal, o texto de Petrônio descreve cenas que podem ser identificadas ainda no comportamento humano de nossos dias.

É também um importante testemunho da vida na antiga Roma. Porém, dizem os historiadores que a obra não chegou até a atualidade com o conteúdo completo. Ao longo dos anos, a partir da análise do texto restante, foi possível deduzir algumas passagens perdidas. Além disso, alguns fragmentos do “SATÍRICON” são encontrados em obras de autores contemporâneos, como Mauro Sérvio Honorato e Sidônio Apolinário.

As partes remanescentes do texto narram as desventuras do narrador Encolpo, em meio às viagens que realiza pela Itália, junto a seu amigo e ex-amante Ascilto e seu escravo e amante, um menino de 16 anos de nome Giton. Ao longo da história. Encolpo enfrenta dificuldades, em manter Gíton fiel à relação, pois este é constantemente seduzido por outros personagens.

A maioria dos personagens do “SATÍRICON” são desprovidos de pudor. Nota-se a completa amoralidade dos cidadãos, uma vez que o cristianismo ainda não tinha “purificado” a todos. Não existia repressão, tampouco vergonha com relação à sexualidade.

A história narrada por Encolpo cita as práticas orgíacas, heterossexuais e homossexuais das sociedades que este e seus dois companheiros de viagem vão encontrando. Há um total desprendimento moral nas pessoas, já que a visão de mundo cristão que “castraria” o sexo como elemento essencial do ser humano, ainda não ameaçava o “estilo de vida” do mundo pagão. Desse modo, não existiam pecados capitais, para podar as vontades de homens e mulheres, jovens ou velhos.

O romance foi adaptado para o cinema, em 1969 (SATÍRICON DE FELLINI – 1969).

A obra deu origem à novela moderna e foi o primeiro romance realista da literatura universal.

“SATÍRICON” é o sensível sismógrafo dos vícios e depravações de um momento histórico.

Petrônio foi condenado ao suicídio, acusado de participar da conspiração do ano de 65, contra o imperador Nero.

Passou suas últimas horas numa festa em Cumas. Nessa ocasião, catalogou os vícios de Nero e enviou-lhe a lista, antes de cortar os pulsos, no ano de 66 D.C.

Petrônio foi retratado pelo escritor Caio Tácito, nos Anais (XVI, 18-19), como um cortesão que se entregava, ora aos prazeres, ora aos negócios públicos, costumando consagrar o dia ao sono, e repartir a noite entre os deveres, a mesa e as amantes. Era ídolo de uma corte libertina, e foi nela, durante muito tempo, o árbitro do bom gosto e da elegância. Mas, finalmente, foi superado por Tigelino, seu rival, e antecipou-se à crueldade de Nero, suicidando-se. Epicurista sincero, vivia para o prazer. Mesmo nos seus últimos momentos, olhava sorrindo sua vida se escoando pelo sangue das veias abertas. E, de vez em quando, pedia que as estancassem, para conversar mais alguns minutos com os amigos, acerca de poesias festivas e versos levianos.

Entreteve-se, nos momentos finais, em traçar um relato sucinto dos excessos de Nero: pintou-o nos braços de seus amantes e amadas, ultrajando, a um só tempo, o pudor e a natureza.

Depois de encaminhar a Nero esse testamento acusador, selado com seu anel consular, morreu tranquilamente, como se estivesse dormindo.

SATÍRICON, a obra de Petrônio, é de extraordinária atualidade.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 29 de janeiro de 2022

LOUCURA POR PITOMBA (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

LOUCURA POR PITOMBA

Violante Pimentel

 

A feira da nossa casa era levada na cabeça de um balaieiro, Seu Severino, que continuou fazendo o mesmo serviço, mesmo depois que conseguiu ser aposentado pelo FUNRURAL.

Era um homem humilde e trabalhador, de baixa estatura, moreno, magro e sério.

Eu voltava da feira feliz da vida, com meu cacho de pitomba realçando na cestinha.

Nunca tomei suco, ponche, nem comi doce ou geleia de pitomba, em Nova-Cruz. Lá, pitomba só servia para se chupar e comer a polpa, com muito cuidado para não engolir o caroço, que é grande para o tamanho do fruto.

Não servia nem para lanche, pois não satisfazia à fome. Não dava sustança. E as propriedades nutrientes da pitomba eram desconhecidas.

E a deliciosa frutinha ainda deixava os dentes dormentes, se chupadas com exagero, como eu fazia.

Mesmo assim, eu não abria mão do meu cacho de pitomba, no dia da feira em Nova-Cruz.

Não matava a fome, mas eu gostava; deixava meus dentes dormentes, mas eu nem ligava.

Protegida por uma casca dura e redonda, a polpa da pitomba é esbranquiçada, suculenta, levemente ácida e adocicada. É muito difícil alguém não gostar de pitomba.

Se um fruto pode ser simpático, é o caso da pitomba, além de ser gostoso. Faz parte das saudades da minha infância.

Naquele tempo, bem distante da era cibernética, não havia como se pesquisar sobre qualquer coisa, muito menos sobre pitomba.

Depois de adulta, minha loucura por pitomba diminuiu. As “jaquetas” dentárias me obrigaram a controlar minha ansiedade de chupar pitomba.

Mesmo assim, minha “loucura” continua viva, como uma brasa escondida na cinza. Continuo gostando muito de pitomba. É um vício do qual nunca consegui me livrar. Não posso ver um cacho de pitomba, que eu compro.

Fiquei feliz e surpresa, certo dia, ao me deparar com as qualidades nutrientes da pitomba, no Google:

“Apesar de pequena, a pitomba possui grande quantidade de vitaminas, fibras e propriedades que auxiliam no combate ao envelhecimento precoce, à prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, além de fortalecer o sistema imunológico. É rica em vitamina C, ferro e antioxidantes.

A Pitombeira está presente na maior parte do território brasileiro, especialmente na Amazônia e na Mata Atlântica.

Em Pernambuco, Região Nordeste, a festa de Nossa Senhora dos Prazeres, festejo religioso tradicional, realizada no Parque Histórico Nacional dos Guararapes, em Jaboatão dos Guararapes, também é conhecida como Festa da Pitomba.

A Pitombeira, árvore que pode chegar a medir até 12 metros de altura, é cultuada no Recife, e serviu de inspiração a poetas, compositores e foliões carnavalescos, influenciando a criação do Bloco da Pitombeira, com belas músicas pertinentes ao tema.

A Troça Carnavalesca “Pitombeira dos Quatro Cantos” nasceu em 17 de fevereiro de 1947, com um grupo de amigos fazendo versos embaixo de um pé de pitomba, nos Quatro Cantos, em Olinda. Segundo os historiadores, eles saíram pelas ladeiras, nus da cintura para cima, com galhos de pitomba, fazendo belíssimas canções.

Três anos depois, os foliões passaram a se fantasiar de acordo com o tema e com elementos da cultura popular do Carnaval de Pernambuco. Esse famoso bloco de carnaval visa a preservação do frevo pernambucano, característico da folia do Estado.

O “Hino da Pitombeira”, da autoria do compositor Alex Caldas, foi composto em 1950.

Esse belíssimo hino é o mais conhecido e tocado em Pernambuco, durante o carnaval.

Música e letra são contagiantes:

“Nós somos da Pitombeira
Nós brincamos muito mais
Se a turma não saísse
Não havia carnaval
Se a turma não saísse
Não havia carnaval
Bate-bate com doce eu também quero
Também quero, também quero
Bate-bate com doce eu também quero
Também quero, também quero…”

 

 

Por sua vez, o compositor Alceu Valença gravou “PITOMBA PITOMBEIRA” em 1976, que diz:

“Ó lá, ô lô, morena, flor de cheiro
Sai dessa roda, quebra esse cordão
Te dou um doce, um cacho de pitomba
Vem pro meu lado e sai da contra-mão…”

 

 

Essas músicas por mim citadas lavam a minha alma e me dão contentamento, pois a pitomba faz parte das doces recordações da minha infância.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 22 de janeiro de 2022

O PRECURSOR (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

O PRECURSOR

Violante Pimentel

 

 

Dr. Ramos, médico pernambucano da Fundação SESP, radicado em Nova Cruz durante muitos anos (60/70), exercia a medicina como um sacerdócio. Ele e a esposa, Dona Gabi, que era parteira, eram abnegados benfeitores da humanidade, dedicados à saúde dos pobres, na pequena cidade de Nova-Cruz (RN).

 

 

Dr. Ramos atendia no Posto de Saúde, e também na sua residência, onde instalou um consultório particular, e ali atendia ricos e pobres, com a mesma abnegação.

A cidade era muito atrasada. Não dispunha de energia elétrica nem de água encanada.

As mulheres que batiam à porta de Dr. Ramos para se consultar, fosse qual fosse a queixa, antes de qualquer coisa, teriam que se submeter a um exame ginecológico, para coleta de lâmina, a fim de poder ser detectada qualquer inflamação uterina. Era o exame preventivo contra Câncer, numa época em que ainda não se falava nisso.

As pessoas de mente doentia faziam comentários maldosos contra o médico, por causa desse “exame preventivo”, mas nunca houve qualquer comprovação de conduta libidinosa por parte do respeitável profissional. Durante esse exame preventivo, o médico era auxiliado pela esposa, Dona Gabi.

Numa noite chuvosa, por volta das 19 horas, Dr. Ramos ouviu palmas à sua porta. Era Severino, um senhor que morava no Alto de São Sebastião, cuja esposa era cardíaca e estava passando mal.

Dr. Ramos o acompanhou, mandou abrir a farmácia e providenciou uma medicação paliativa, para tirar a paciente da crise.

Em Nova-Cruz, não havia hospital nem ambulância, para transporte de pacientes para Natal (RN) ou João Pessoa (PB), onde estavam localizadas as mais próximas unidades hospitalares, para atendimento de urgência.

Diante da gravidade do caso, Dr. Ramos recomendou ao marido da paciente que, no dia seguinte, a transportasse a Natal ou João Pessoa (PB), com urgência, pois o caso era grave. Tirou a paciente da crise, com os medicamentos disponíveis na farmácia e só voltou para sua residência à uma hora da manhã.

Antes de amanhecer o dia, Dr. Ramos ouviu, mais uma vez, palmas à sua porta. Era Severino, o marido da paciente, que viera avisar que a esposa havia falecido. Chorando muito, o homem esperou que Dr. Ramos preenchesse o Atestado de Óbito de Josefa Maria da Silva, para que o Cartório expedisse a competente Certidão de Óbito, e ele pudesse providenciar o enterro.

Compadecido diante do choro do viúvo, Dr. Ramos pronunciou estas palavras de solidariedade:

-Severino, se conforme. Aquele remédio que eu ministrei à D. Josefa é muito bom! Ela morreu, mas morreu muito melhorada…

Esse caso ocorreu nos anos 60/70.

Nos dias atuais, temos notícias de mortes por COVID-19, de pessoas já vacinadas com as duas doses e até com a dose de “reforço” da vacina, considerada milagrosa, pela mídia.

O que são 50 anos na História? Nada! A História se repete.

Uma verdade deve ser propagada: Pessoas já vacinadas contra COVID-19, com a primeira, segunda dose e a dose de reforço, continuam morrendo do mesmo mal, mas agora é diferente:

“ESTÃO MORRENDO MUITO MELHORADAS.”

Já é um alento para a humanidade!

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 15 de janeiro de 2022

VIAGEM DE AVIÃO (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

VIAGEM DE AVIÃO

Violante Pimentel


Aquela seria a primeira vez que Maria viajaria de avião. Ernesto, seu marido, havia tirado três dias de folga do seu emprego no Banco do Brasil, em Natal, para aproveitar o feriadão do dia 8 de dezembro em Recife (PE).

Com ele, Maria estava certa de que não sentiria medo “das alturas”. Ledo engano. Subiu no avião com “o coração na mão”, praticamente, “puxada” por Ernesto. Tensa e assustada, Maria “perdeu a voz”. Sabia que se o avião “baixasse um pneu”, não tinha acostamento para fazer a troca. Encolhida à janela do avião, Maria fixou os olhos nas nuvens, sem olhar para o rosto do marido. Mas não soltava sua mão, apertando tanto, a ponto dele achar graça e dizer que estava vendo a hora ela quebrar sua mão esquerda.

 

 

O que seria uma viagem rápida, de 35 minutos, para ela parecia que estava atravessando o Oceano Atlântico, num voo de várias horas.

O nervosismo de Maria era visível e Ernesto, que já era acostumado a viajar de avião, se divertia com isso.

Naquela época, década de 70, as companhias de aviação serviam refeições durante as viagens. Logo após a decolagem, foi servido o café da manhã. Maria mal se serviu, preferindo apreciar a “paisagem”.

De repente, teve a certeza de que o avião estava sobrevoando Tangará (conhecida, antigamente, por Riacho), cidade do Rio Grande do Norte, parada certa do ônibus que fazia a linha Natal/Nova-Cruz – Nova-Cruz/Natal, da Viação Riograndense.

Surpresa, Maria falou:

– Oxente! Estamos sobrevoando Tangará?!!!

A voz de Maria foi abafada pela voz da aeromoça, que anunciava:

– Senhores passageiros, dentro de 10 minutos estaremos aterrissando no Aeroporto dos Guararapes, Recife, Pernambuco, Brasil! Tempo bom e temperatura marcando 28 graus.

Maria, morta de vergonha, se sentiu uma verdadeira “beradeira”. Havia falado uma besteira, coisa de matuta mesmo, que nunca tinha viajado de avião. Até então, ela só tinha se aventurado na Onda Marinha, na Roda Gigante e nas Canoas do Parque de Diversões “São Luiz”, nas festas de final de ano em Nova-Cruz, sua terra natal.

Não deu tempo nem de Ernesto terminar de tomar o café da manhã. Foram, apenas, 35 minutos de voo.

Maria ficou sem acreditar, que o avião já houvesse chegado ao Recife. Sentiu um alívio imenso, ao desembarcar. Mas não venceu o medo, e até hoje tem pavor a viajar de avião.

Parafraseando o saudoso Ariano Suassuna, Maria não se cansa de dizer: “Tenho horror a viajar de avião”

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 08 de janeiro de 2022

UMA VIAGEM DE AMARGAR (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

UMA VIAGEM DE AMARGAR

Violante Pimentel

 

Fiquei admirada com o preço baixo cobrado pelo motorista e atribui isso à amizade dele com Zanoni e Kátima.

No sábado pela manha, às 7 horas, eu e minha filha Diana entramos no táxi de Seu Radir, um senhor beirando à meia idade, educado e sério. Com pequena bagagem, estranhamos o rumo que ele tomou. Ele já estava prestes a passar pela antiga Ponte de Igapó, quanto eu lhe perguntei por que não tinha pegado a BR 101. Ele disse que eu tinha acertado com ele uma viagem à praia de Galinhos, em Macau (RN). E o caminho certo era aquele. Eu disse que ele estava completamente enganado, pois a viagem acertada seria para Porto de Galinhas, em Pernambuco e não para Galinhos (RN).

Irritada, ordenei que ele retornasse ao prédio onde moramos, pois, com ele, não iriamos mais a lugar nenhum. O taxista, só faltou chorar, e se desculpou por ter entendido mal. O preço dado por ele seria para nos deixar na Praia de de Galinhos (RN), bem mais perto. Implorou para que eu não desistisse de viajar com ele, e disse que, já que ele entendeu mal e deu o preço errado, pensando que a viagem fosse para Galinhos, iria cobrar como se a viagem fosse para Recife. De lá, até Porto de Galinhas, ele não cobraria nada. Mostrou-me a tabela de preços e eu até senti dó da situação dele.

Percebi que era uma pessoa decente e resolvi “desculpar a falha”.

Pegamos a BR 101, mas, antes disso, senti que estava muito mal sentada no Corsa Classic de Seu Radir. Simplesmente, o banco de trás tinha um enorme rasgão e se podia ver a ampola de combustível que ele conduzia (gás).

Era nesse banco que eu e Diana estávamos sentadas, salvando a ampola de gás.

Fiquei assustada com o gás, mas depois me acalmei.

O motorista nos pediu desculpas, pelo rasgão que havia no banco.

Eu trazia na bolsa de mão alguns CDs novos, dentre eles o mais novo de Chico Buarque, meu ídolo.

Depois de Goianinha, pedi ao motorista para ligar o som do carro e colocar o CD de Chico. Ele pediu desculpas novamente e disse que ali estava somente a tampa do toca-CD. O som tinha dado problema e o dono do táxi, que não era ele, tinha mandado consertar. Nem rádio tinha no carro.

Decepcionada, mostrei-me indignada, por ter que viajar durante 8 horas para Porto de Galinhas, sem ouvir nem ao menos um rádio.

Seu Radir, mais uma vez, nos pediu desculpas e disse que aquele táxi pertencia à frota de táxi de um conhecido Vereador de Natal, que não gastava um centavo com a manutenção dos carros.

Esse Vereador foi eleito pela 1ª vez em 2012. Sua campanha eleitoral foi hilária. Voltada para os idosos e crianças, pois elas poderiam conseguir para ele os votos dos pais e avós.

Imitando o Carro do Ovo, quando candidato, ele andava pelas ruas de Natal, anunciando a passagem do Carro do “Picolé”, que ele distribuía em troca de promessas de votos.

 

 

Na Zona Norte de Natal, ele mantinha uma casa de “Forró”, com entrada livre, mediante promessas de votos. Depois de seis candidaturas, ele conseguiu ser eleito.

Meu amigo Zanoni estava doente, e, pouco tempo depois, faleceu, no Pará, sem saber da Odisseia que essa viagem no táxi dirigido por seu compadre Radir representou para nós.

Não obstante o imprevisto do desconforto do táxi, o Congresso foi excelente, e o encerramento foi ótimo, com show de Alceu Valença.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 01 de janeiro de 2022

ADEUS, ANO VELHO! (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

ADEUS, ANO VELHO!

Violante Pimentel

 

 

Torço para que surjam mais fortes, a Fé e a Esperança em que nos seguramos, pois somente Deus fará atingível o nosso ideal inatingível: a cura definitiva da COVID-19.

Muito tem feito a Ciência, no intuito de erradicar esse vírus. E o que vemos são pessoas vacinadas com as duas doses, e também com o reforço da vacina, gripando constantemente, com quadros sérios de infecção pulmonar.

Ano Novo, vida nova! Que o Pai Celestial, o único Poderoso e Supremo, afaste da humanidade o terrível vírus, que tem dizimado vidas e causado sofrimento em milhares de famílias, que viram seus entes queridos e amigos partirem, vítimas também das brigas de laboratórios e desvio de verbas públicas. Tudo comprovado pela CPI da COVID, mas, até agora, os verdadeiros vilões continuam impunes.

Adeus, Ano Velho ! Vá com Deus! Que neste Novo Ano, as almas sofridas se refaçam e renasçam das cinzas! Que um novo horizonte volte a brilhar. Que a Estrela do Natal ilumine os homens da Ciência, para que acertem na vacina certa, e acabe logo o jogo de adivinhação.

Para mudar o rumo desta prosa, e falando de Adeus, lembrei-me do antigo filme “Adeus, Mr. Chips” (Good Bye, Mr. Chips – 1ª versão em 1939 e a 2ª versão em 1969), baseado no romance do americano James Hilton.

Na primeira versão, o gênero do filme era drama-romance. O elenco era composto por Robert Donat (Arthur Chipping), John Mills, Greer Garson e Terry Kilbum.

Data de lançamento: 15 de maio de 1939 (EUA)

Na segunda versão de Adeus Mr. Chips (estreia no Brasil em 1969), Peter O’Toole é o abnegado e austero professor de latim, de uma tradicional escola inglesa. Seu sonho é ser Diretor dessa escola, mas não goza da simpatia dos alunos, em virtude do seu jeito arcaico de ser e da sua austeridade.

Apesar de aspirar ao cargo de Diretor, Mr. Chips, era muito sisudo e caladão, sendo antipatizado pelos alunos.

Algum tempo depois, ele se casa com uma jovem atriz de musicais, Katherine Bridges (Petula Clark), que deixa o palco para ser apenas sua esposa, e acaba conquistando os alunos do marido, com sua beleza e espontaneidade. Aos poucos, ela também consegue transformar o marido, que, gradativamente, deixa a austeridade de lado, passando a ser amável com os alunos, a ponto de ser considerado o professor mais simpático e mais querido da escola.

Adeus, Mr. Chips é a refilmagem, em forma de musical, da produção homônima de 1939, que reuniu Robert Donat e Greer Garson. As canções foram compostas por Leslie Bricusse e interpretadas, na maioria, por Petula Clark. Apesar da transposição de gêneros ter sido bem feita, o filme não conseguiu fazer com que as velhas gerações esquecessem o original, nem conseguiu atrair os mais jovens. Com isso, o musical não fez sucesso nas bilheterias.

Ao contrário da maioria dos musicais, não há um final feliz para Adeus, Mr. Chips.

O filme marca a estreia no cinema do diretor Herbert Ross e, entre várias premiações, recebeu duas indicações ao Oscar, uma para a atuação de Peter O’Toole e outra para a trilha sonora de Bricusse e John Williams.

Segundo Ken Wlaschin, este é um dos dez melhores trabalhos da carreira de Peter O’Toole.

Peter O’Toole é o ator principal do filmaço “A Noite dos Generais”, um dos melhores filmes que já assisti.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 25 de dezembro de 2021

A NOITE DE NATAL (CONTO DA MADRE SUPEIRORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

A NOITE DE NATAL

Violante Pimentel

 

 

O Natal é a maior festa da cristandade. Há uma Luz nessa festa, e não são luzes artificiais.

 

A Noite de Natal é sagrada. Noite de encanto, mistério e ternura, para crianças e adultos, principalmente aqueles que tem boas condições financeiras. Para os pobres, é mais uma noite, onde as diferenças sociais são gritantes e eles sabem que a solidariedade, típica da época natalina, é passageira.

É também uma noite de saudade dos nossos entes queridos, que já não se encontram entre nós.

O meu Pai, Francisco Bezerra Souto, se encantou na véspera de Natal (24.12.1984). A partir de então, apesar dos anos decorridos, essa data, para mim, permanece marcada e a minha alegria é triste. Por isso, a celebração natalina me traz melancolia. Tento disfarçar a minha dor, mas a saudade e as lembranças são mais fortes.

Entretanto, na noite de Natal, o brilho das estrelas é mais intenso. Entre elas, há o brilho dos olhos dos entes queridos que nos deixaram e que, lá do Céu onde se encontram, estão a nos iluminar.

A representação mais verdadeira dessa noite é o Presépio, que revive o cenário em que Jesus nasceu. O primeiro presépio que existiu foi montado por São Francisco de Assis, no século XIII. Ele quis mostrar ao povo como aconteceu o nascimento do Menino Jesus. Depois, o presépio tornou-se uma tradição e passou a ser montado nas casas, nas igrejas e em diversos locais, durante o ciclo natalino.

No presépio, figuram a Sagrada Família, composta por Jesus, Maria e José; os três Reis Magos (Belchior, Gaspar e Baltasar), o Anjo que anunciou a Maria que ela iria ser a Mãe de Jesus, e a Estrela-guia, que iluminou o caminho para que os Reis Magos encontrassem a manjedoura.

No sentido religioso, os anjos usados na decoração do Natal remetem a São Gabriel, o anjo que teria anunciado à Maria que ela seria a mãe de Jesus.

Os três Reis Magos foram à procura do Menino Jesus, para adorá-lo e levar-lhe de presente, incenso, ouro e mirra.

Jesus nasceu em Belém, a menor cidade da Judéia, na simplicidade, humildade e pobreza.

A festa do Natal tem como figura principal o Menino Jesus, que nasceu numa manjedoura, dentro de uma gruta despojada e pobre.

Naquele momento, a gruta abrigou toda a riqueza do Céu e da terra. O Menino estava envolto em panos e deitado na manjedoura, sob o aconchego de Maria e José, seus pais, porque não havia lugar para eles na casa dos homens.

José era um homem justo e santo, carpinteiro, que acolheu o mistério da encarnação do Filho de Deus no ventre de sua esposa. Maria, a jovem mãe judia, deu à luz o Filho gerado em seu ventre, pela ação do Espírito Santo.

Nas lautas ceias de Natal, em casas de pessoas ricas e poderosas, muitas vezes, a figura do Menino Jesus é esquecida. Nessas ocasiões, o espírito cristão, simplesmente, não existe. Comemora-se o Natal como se fosse uma festa profana, e a preocupação são a comida, a bebida, os presentes trocados e a decoração.

O Menino Jesus, Maria e José não são lembrados.

Para os Cristãos, os presentes de Natal remetem à lembrança dos presentes que os Reis Magos levaram para o Menino Jesus: O ouro, o incenso e a mirra.

Os anjos e estrelas, usados nas decorações natalinas, remetem ao Anjo Gabriel, que anunciou à Virgem Maria, que ela daria à luz o Filho de Deus, e à Estrela-guia, que iluminou o caminho de Belchior, Gaspar e Baltasar até à manjedoura.

Pois bem. Numa noite de Natal, dois mendigos caminhavam pela escuridão. De repente, tropeçaram num cachorro vira-lata, que parecia estar faminto e abandonado. Sentiram dó do animal e viram que ele era tão pobre quanto eles. Os pobres são bons para os pobres e ajudam-se uns aos outros, dividindo entre si o pouco que conseguem para comer.

Os dois mendigos, solidários ao vira-lata, levaram-no com eles, e lhe deram para comer um pouco do pão que haviam recebido de esmola. O cachorro, depois de comer, ficou mais forte e saiu caminhando à frente deles, latindo e olhando para trás, como se os estivesse guiando, através da escuridão, até uma cabana abandonada. Na cabana, havia dois bancos e uma lareira apagada, visíveis através do clarão da lua. Os dois mendigos sentaram- se em frente à lareira.

De repente, o cachorro desapareceu. Como por milagre, as duas brasas se acenderam e tornaram-se enormes. A claridade tomou conta da cabana, e os dois sentiram seus corpos aquecidos. Ficaram certos de que tinham sido agraciados com um milagre, pois, somente o Menino Jesus teria sido capaz de se lembrar deles, naquela hora de tanto frio e sofrimento. Acreditavam, piamente, que o Menino Jesus os estava protegendo daquele frio, enviando duas brasas para acender a velha lareira. Adormeceram profundamente. As brasas brilharam até o amanhecer do dia.

Os dois mendigos acordaram, como se estivessem despertando de um lindo sonho. Tinham recebido, de presente de Natal, um verdadeiro tesouro. Mesmo por uma única noite, dormiram sob o teto de uma cabana abandonada, aquecidos por uma misteriosa lareira. Olharam em sua volta e viram o cachorro dormindo. Pobre igual a eles, o vira-lata lhes retribuiu o pão que eles lhe haviam dado, levando-os até aquela cabana encantada.

Pelo menos, naquela noite de Natal, eles dormiram sob um teto, abrigados contra o frio e o vento.

Está provado que o grande tesouro dos pobres é a fantasia.

Nesta Noite de Natal, elevemos uma prece a Deus:

“Senhor, dai pão a quem tem fome e fome de justiça a quem tem pão!”

A escuridão dos nossos dias é a fome, a impunidade e a corrupção.

Que a Noite de Natal ilumine os corações do povo brasileiro!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 18 de dezembro de 2021

NATAL E A SEGUNDA GUERRA (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

NATAL E A SEGUNDA GUERRA

Violante Pimentel

 

Na Base Aérea de Natal, avião com homenagem a Maria Boa

 

Quando se fala da reviravolta social que houve em Natal, com a permanência dos americanos durante a II Guerra, abre-se uma fonte inesgotável de narrativas.

No dia 28 de janeiro de 1943, o presidente americano, Franklin Delano Roosevelt, teve um encontro em Natal com o presidente Getúlio Vargas.

Rafael Fernandes, então governador do Rio Grande do Norte, sem saber das ilustres visitas, foi convidado a comparecer à Base Naval sozinho, e lá chegando, tomou enorme susto, ao ver os dois presidentes.

No encontro, foi confirmada a utilização de Natal como base de conexão para as tropas americanas e discutido plano de prevenção quanto a um possível ataque nazista ao Hemisfério Sul, a partir de Dakar, no Senegal. O motivo da escolha foi o fato de Natal ser a cidade brasileira mais próxima do continente africano (3 horas de voo em jatos de hoje e 8 horas para os aviões de 1943, de Natal a Dakar, no Senegal).

Também foi acertado o envio de tropas brasileiras ao “front”.

De 1943 a 1945, portanto, funcionou em Natal, o principal quartel general dos países aliados no Hemisfério Sul.

Natal recebeu 15 mil soldados americanos. A população parecia ter duplicado.

A Base Aérea e a “pista”, ligando Natal a Parnamirim, foram construídas, em tempo recorde, envolvendo 6 mil trabalhadores. A Base Naval também foi construída nesse período.

Natal era uma “ponte” para todos os voos americanos que levavam militares das três armas, rumo à África ou aos combates do Atlântico Sul.

Em 1943, no auge do conflito, Parnamirim era o aeroporto mais congestionado do mundo, alcançando o número de 800 pousos e decolagens num dia de pico.

As jovens natalenses suspiravam, ao ver as ruas de Natal, diariamente, cheias de soldados americanos, loiros de olhos azuis.

Natal passou a ser a cidade mais badalada do Nordeste.

Os americanos se divertiam e circulavam em Natal, pelas praias, cinemas, lojas, igrejas, cabarés, Lagoa do Bonfim, e paqueravam nas pracinhas.

Minhas saudosas tias Carmen e Gilka, filhas do meu avô materno, Celestino Pimentel, professor catedrático da língua inglesa em Natal, inclusive Tradutor Oficial durante a Segunda Guerra, na época jovens, dominavam o idioma inglês fluentemente, e logo fizeram amizade com vários americanos. Inclusive, depois da Guerra tia GILKA foi convidada para trabalhar nos Estados Unidos, no Consulado Brasileiro e terminou se casando “de papel passado”, com um americano, seu chefe. O casamento durou até o fim da sua vida. Os dois tiveram um casal de filhos, que ainda hoje moram na Califórnia.

Como consta nos registros de historiadores potiguares, houve uma grande interação cultural entre norte-rio-grandenses e americanos.

Natal foi a primeira cidade do país a ter Coca-Cola, ketchup, chicletes, roupas “Jeans” e óculos “Ray-ban.

O modo de vida descontraído, dos americanos em Natal, foi influenciando, cada vez mais, a sociedade potiguar. O hábito dos homens fazerem a barba com frequência e não usarem paletó para entrar nos cinemas, causou um rebuliço nos costumes. Tomavam banho de mar, usando calções curtos de helanca, enquanto os natalenses usavam calções compridos.

De repente, as mulheres passaram a usar calças compridas, maiô aberto nas costas, sair com as amigas sem a companhia dos pais, frequentar festas, fumar e beber, principalmente Cuba-Libre. Houve uma verdadeira revolução nos costumes.

A invasão do Jazz, Charleston, Blues e do Fox-trot desbancaram o tango argentino em Natal.

Os americanos não podiam passar sem Coca-Cola. Por isso, logo instalaram em Parnamirim um engarrafamento, o primeiro do Brasil, quarto país do mundo a consumir esse refrigerante, depois dos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra.

Na cantina do “PIÉCS”, para deleite dos nativos, a Coca-Cola saía de torneiras.

O “PIÉCS” era a grande atração de Parnamirim, pelos preços e novidades. Era uma enorme loja, onde se vendia quase tudo: “gadgets” , como isqueiro químico (ao invés de chama, incandescia uma telinha), fósforos de riscar na sola do sapato, óculos Ray-Ban, relógios, tecidos, blusões de couro, calçados, perfumes, vidros de confeitos, latas de biscoitos etc,

Quanto à vida noturna, Natal nunca foi tão agitada. Os soldados americanos ofereciam festas, semanalmente, na base de Parnamirim, e ainda mandavam ônibus para levar e trazer moças da sociedade natalense, sempre com “chaperones” (acompanhantes mais velhas e casadas, às vezes as próprias mães das jovens). Isso gerou a revolta dos rapazes de Natal, que apelidaram os ônibus de “Marmita”, e os vaiavam constantemente.

Pois bem. Maria de Oliveira Barros veio de Campina Grande para Natal, na década de 40, em plena juventude. Ao chegar, aqui instalou uma requintada casa noturna (Cabaré), no período em que reinava na cidade ampla prosperidade, decorrente do estabelecimento da base militar americana em Parnamirim.

Aproveitando o fluxo de soldados e grandes personalidades políticas, Maria Boa fazia questão de ostentar “glamour” em seu estabelecimento. Tornou-se uma “grande dama”, que respeitava e era respeitada pela sociedade natalense.

Maria de Oliveira Barros, a dona de cabaré Maria Boa

Primava pela boa qualidade dos serviços prestados pela casa; interferia na escolha das “operárias do sexo”, que eram submetidas a rotineiros exames de saúde, e seu gosto predominava na arquitetura do ambiente.

Por trás da “Dama do Cabaré“, estava a figura discreta e íntegra de Maria de Oliveira Barros, grande empresária, que avalizava títulos bancários para alguns figurões locais.

Cabaré era o local de trabalho das damas da noite. Não se confundia com boate, casa de massagens, casa de “strip”, “relax para homens” e outros templos do prazer carnal. Nele, havia uma proprietária, geralmente uma mulher séria e respeitável, conhecedora dos mistérios revelados à meia luz. Essa mulher recebia em sua casa, várias jovens, que, repetindo sua própria história, um dia haviam fugido de casa ou sido colocadas para fora, pelo pai, por terem perdido a virgindade, ou engravidado, sem promessa de casamento.

Natal era influenciada pelos filmes de Hollywood, trazidos pelo próprio exército norte-americano. Maria Boa, em plena juventude, foi fortemente influenciada pela moda e estética dos filmes. Vestia-se com roupas costuradas à mão, usava saltos altos, e copiava os modelos das atrizes de Hollywood.

Seu cabaré tornou-se uma referência turística, e era conhecido no Brasil e internacionalmente, pelo nome de “Casa de Maria Boa”.

O recato e compostura, com que a empresária procurou envolver sua vida e as atividades de seu Cabaré a transformaram num mito. Era considerada uma verdadeira dama. Dona do mais diferenciado cabaré que existiu em Natal, com mulheres selecionadas pela beleza, postura e educação.

O cabaré de “Maria Boa” era frequentado por políticos, empresários, advogados e outras figuras endinheiradas e importantes. Sua fama se eternizou nas telas do cinema, através do filme “For All – O Trampolim da Vitória (vencedor do Festival de Gramado de 1997), de Luiz Carlos Lacerda e Buza Ferraz.

O filme retrata Natal, capital potiguar, em 1943, quando a base americana de Parnamirim Field, a maior base fora dos Estados Unidos, recebe 15 mil soldados, que vão se juntar aos 40 mil habitantes da cidade.

A personagem central se chama “Maria Buena”.

A chegada dos americanos a Natal gerou perspectivas de progresso material e resultou em muitos namoros e casamentos. Para as jovens casadoiras, eles eram os sonhados “príncipes encantados”.

Depois da guerra, a Base Aérea de Natal homenageou Maria de Oliveira Barros, pintando o nome “Maria Boa” no lado esquerdo da fuselagem do nariz do avião B-25 J 5071.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 12 de dezembro de 2021

O HOMEM E SUAS MANIAS (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

O HOMEM E SUAS MANIAS

Violante Pimentel

 

Quase sempre, a palavra “mania” é utilizada para se referir a um mau hábito, vício ou esquisitice, ou ainda superstição, que algumas pessoas apresentam, como só usar roupas de determinada cor, roer unhas, fumar, viver com o dedo no nariz etc.

Entretanto, as “manias cotidianas” das pessoas, ou seja, os hábitos repetitivos e, em muitos casos, extravagantes, só podem ser classificadas como algum tipo de transtorno mental, quando se tornam prejudiciais às diferentes esferas da vida do indivíduo. Neste caso, as manias podem ser consideradas transtornos obsessivos-compulsivos (TOC).

Todo homem tem suas manias, mesmo sem ser doido. Há homem que só dorme de meia; mulher que só dorme de touca; outros tem mania de assobiar; alguns são cantores de banheiro, pois só tomam banho cantando; e ainda há aqueles que só se servem do vaso sanitário, lendo jornais, ou usando o celular.

Pois bem. Um rico fazendeiro do nordeste, “coronel” Josias, era um homem virtuoso, chefe de família exemplar, que nunca havia passado uma noite fora de casa. Evitava qualquer viagem, se não pudesse voltar no mesmo dia.

A posse do Sr. Manoel Soares, no cargo de ministro do governo federal, implicou numa quebra de rotina na vida do bem conceituado “coronel” Josias. Compadre e correligionário do ilustre político, não poderia faltar à importante cerimônia da sua posse. A esposa, D. Mafalda, mãe dos seus dez filhos, e sua companheira de cama há dezesseis anos, não quis acompanhá-lo. A viagem, apesar de tentadora, seria muito incômoda para ela, que nunca passara uma noite fora de casa, deixando os filhos entregues às serviçais.

O fazendeiro mandou preparar duas malas de mão, e viajou para o Rio de Janeiro para a posse do amigo.

A primeira noite de capital, para ele, foi uma tortura. Habituado à vida caseira e doméstica, não conseguiu dormir. A falta da esposa na cama o incomodou, além da saudade da casa e dos filhos. Não conciliou o sono e viu o dia amanhecer.

Sentiu tanta saudade de casa, dos filhos e, principalmente, da esposa, que um empregado do hotel onde estava hospedado, ao levar-lhe o café da manhã no quarto, perguntou-lhe se estava doente, e ele lhe contou da insônia que tivera.

Durante o dia, saiu para a posse do amigo, encontrou outros conhecidos e as boas conversas fizeram com que se divertisse.

Entretanto, à noite retornou ao hotel, e, mesmo cansado, a saudade e a insônia voltaram a lhe perturbar. Fechava os olhos e apertava as pálpebras para ver se dormia, mas a simples lembrança de que estava muito longe de casa o torturava. O sono lhe fugia e a saudade aumentava. Ficava a remexer-se aflito, na larga cama, e não conseguia dormir.

Após duas horas de martírio, deitado na cama, mas sem conseguir dormir, o fazendeiro levantou-se e começou a andar de um lado para outro, num estado de nervos, que hoje seria chamado de “crise de pânico”. Apavorado, teve uma ideia “sui generis”. Tocou a campainha, chamou o empregado do hotel e falou:

– O senhor pode me arranjar uma escova de cabelo, mesmo usada?

– Posso sim, senhor. – Respondeu o empregado, assustado, achando que o hóspede só podia ser doido.

– Traga-a aqui, por favor! – Ordenou o hóspede.

O empregado, rapidamente, trouxe a escova, recebeu uma gorjeta e saiu. O fazendeiro a segurou pelo meio, do lado do pelo, com a mão aberta, e, apagando a luz, deitou-se na cama e dormiu o “sono dos justos”, até de manhã. Adormeceu, segurando os pelos da escova, como se tivesse tomado um calmante.

Cada doido, com sua mania…


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 05 de dezembro de 2021

A NOTÍVAGA (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

A NOTÍVAGA

Violante Pimentel

 

Os comentários eram agressivos entre as vizinhas, de janela para janela.

– Ontem à noite, fiquei de “plantão”, olhando pela rótula da janela, e vi tudo…Dizia a maldosa d. Maroca.

 

 

Outra respondia:

– A safada esperou que se fechassem todas as casas, abriu a porta, olhou de um lado para o outro, e como não havia ninguém, colocou um xale e saiu, só Deus sabe pra onde!!! Acho que ela vai se encontrar com algum sujeito muito rico. Não resta dúvida de que está prostituída, e já esqueceu o infeliz do falecido.

E o falatório era fogo cruzado:

– Guilhermina me contou que, outro dia, quando voltava de uma festa, tarde da noite, a encontrou saindo de casa. A degenerada cobriu o rosto com o chale, pra não ser reconhecida…

– Que mulher baixa, cínica e desavergonhada! – Isso era o mínimo que se dizia contra Madalena.

Propagado o escândalo pela redondeza, alguns moradores da rua em que morava Madalena, ficavam à espreita, horas e horas, aguardando, pelas frestas das janelas, o momento da sua saída.

Quando as rótulas se escancaravam, as cabeças apareciam e o falatório recomeçava, com a voz estridente de dona Marilu:

– Vocês viram a que hora essa “messalina” saiu de casa, ontem pela madrugada???

E a vizinhança respondia em coro uníssono:

– Somente um cego não vê uma coisa dessa! O defunto deve estar estrebuchando na cova, de raiva e vergonha…

E os comentários se espalhavam, cada vez mais:

– Quem diria! Era muito sonsa!!! Já devia chifrar o marido, há muito tempo! E o infeliz pensava que ela era uma santa!!!

Certa noite, alta madrugada, instigados pelas mulheres, alguns vizinhos acompanharam, à distância, os passos da notívaga, para desagravo do ultrajado morto.

Escondendo-se entre portais e árvores, olhando de canto a canto e pisando pé ante pé, os homens seguiram a mulher, de rua em rua, até que a viram chegar a um campo deserto, em frente a um mercado. E viram, enxugando os olhos, enquanto abria as torrentes do seu pranto, a “cadela”, “pervertida” e “degenerada”, que, saía todas as noites, mergulhada nas trevas, a disputar com os porcos, no lixão do mercado, frutas estragadas, para matar a fome dos três filhos, que todas as noites adormeciam de fome..


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 27 de novembro de 2021

O MONTURO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

O MONTURO

Violante Pimentel

 

Totalmente em jejum, sai de casa, batendo o queixo de frio, mesmo tendo enrolado ao pescoço um lenço, que sua mãe sempre lhe põe, para proteger-lhe a garganta. Sabe que tem de andar ligeiro, para encontrar espaço, onde cumprirá sua tarefa diária. Como companhia, leva um cajado e quatro sacos plásticos, dos grandes.

O lenço amarrado ao pescoço também servirá para cobrir seu nariz e sua boca, e atenuar o mau cheiro vindo da podridão contida no monturo. Lá dentro, há gases, micróbios, bactérias e outros tipos de coisas putrefatas, que agridem o organismo humano.

Esse lenço que sua mãe amarra ao seu pescoço pertencia ao seu pai. Desde que ele morreu, o menino usa, sentindo-se o homem da casa. A mãe e suas duas irmãs pequenas não tem condições de enfrentar o monturo, na luta pela sobrevivência.

A mulher, entretanto, lhe recomenda que, ao chegar a esse local insalubre, proteja os olhos e o nariz, e não respire o ar putrefato que ele exala.

Depois de andar quase uma hora, Zezinho chega ao monturo e percebe que está atrasado. Quase não há espaço para ele. Não pode “fuçar” à vontade, para procurar alguma coisa aproveitável, seja alimento, roupa ou algo diferente.

Dezenas de meninos chegaram antes dele e já “fuçaram” o que tinha de melhor, como alimentos mais frescos e ainda aproveitáveis. Os melhores restos, que ainda poderiam ser comidos, já haviam sido resgatados. Mesmo assim, Zezinho cobre o rosto com o lenço, mete os pés no monturo e, com seu cajado, espanta os urubus.

É uma cena horripilante, cruel e degradante, comum entre os pobres do nosso país, onde a distância entre eles e os ricos aumenta cada vez mais.

Enquanto crianças famintas disputam, no monturo, restos de comida estragada para saciar a fome, nos palácios, a lagosta e o caviar, acompanhados de vinhos importados, de altas marcas, sobram do bico de outro tipo de urubus, numa cena revoltante, que agride a realidade brasileira.

São Urubus que riem da desgraça do povo, que pisoteiam nos caixões dos mortos pela COVID-19 e se divertem com isso, amordaçando pessoas de bem, e colocando na rua o bloco dos “Kanalhas”, com suas alegorias vermelhas.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 19 de novembro de 2021

A DEMORA (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

A DEMORA

Violante Pimentel

 

Depois de plantada a semente do Bambu-Chinês, não se vê nada, exceto um diminuto broto, a partir do bulbo.

Durante cinco anos, todo o crescimento é subterrâneo, mas, uma maciça e fibrosa estrutura de raiz que se estende, horizontalmente, pela terra está sendo construída. Então, no final do quinto ano, o Bambu-Chinês floresce e passa a crescer, podendo atingir até a altura de vinte e cinco metros.

Às vezes, chegamos a perder a esperança de que o nosso ideal, um dia, seja alcançado. Sentimo-nos injustiçados, diante de sonhos que se perdem no tempo e no espaço. Às vezes, a pessoa trabalha, investe seu tempo integral na conquista de um lugar ao sol, e não vê o mínimo resultado. E o homem chega a desacreditar da sorte.

Entretanto, chega o dia em que, como por milagre, aparece uma luz no fim do túnel, como sinal de que nem tudo está perdido.

Tal qual o Bambu-Chinês, alguns sonhos precisam ser perseguidos, sem que se perca a fé no amanhã.

As pessoas podem não estar percebendo, que o seu esforço está sendo recompensado, e não imaginam a complexa estrutura, que está se formando no seu interior, onde a semente foi plantada.

Talvez, no presente momento, você esteja se perguntando por que as coisas não estão acontecendo, de acordo com os seus anseios. Você estuda, investe, planeja e se sente frustrado, por não ver o resultado do seu esforço.

Então, quando esses sentimentos negativos invadirem seus pensamentos e a dúvida invadir seu coração, lembre-se do Bambu-Chinês, e continue se esforçando para atingir o seu ideal.

Nunca se esqueça de que, para ascender ao Céu, o Bambu-Chinês tem a sabedoria de esperar o momento certo, porque precisará estar amparado por uma base sólida, que dará todo o suporte ao seu desenvolvimento.

Assim, também acontece com as pessoas. Você pode nem estar enxergando a complexa estrutura que está se formando no seu interior. Mas, tenha a certeza de que a semente já foi plantada.

Permita-se vivenciar o caminho com alegria e acredite que o seu crescimento está acontecendo.

Crescer é um processo que demanda tempo e paciência. Por isso, não entregue os pontos. Insista, persista e não desista dos seus sonhos!

Quando menos esperar, você vai se deparar com o seu próprio Bambu-Chinês, pronto para ser contemplado, e poderá mostrar ao mundo a beleza da sua essência.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 12 de novembro de 2021

BOCA DE OURO (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO

BOCA DE OURO

Violante Pimentel

Em 1957, Nelson Rodrigues escreveu uma peça que se chamava “Boca de Ouro”, sobre um bicheiro que mandava arrancar todos os dentes e colocar uma dentadura de ouro, para “se alugar”.

 

 

Nessea período, pessoas ricas e vaidosas investiam altos valores em dentes de ouro, exibindo sorrisos dourados, o que começou a despertar a cobiça de assaltantes, que se “armavam” com “boticões” (alicates usados por dentistas), no intuito de assaltá-las, violentamente.

Uma ilustre dama da sociedade carioca, cuja boca era considerada uma verdadeira sucursal do maior banco do País, por um triz não perdeu a vida, ao ser atacada por marginais, que a raptaram e, na marra, “extraíram” seus dentes de ouro, de forma inadequada, provocando-lhe hemorragia, além de dores insuportáveis, que a fizeram perder os sentidos.

Os portadores de dentes de ouro, portanto, passavam a correr o risco de sofrer ataques de marginais, na ânsia de se apossarem da fortuna que eles traziam na boca.

Lana, 30 anos e dona de uma grande fortuna, nessa época, ao precisar de tratamento dentário, por vaidade, pediu ao dentista que lhe colocasse alguns dentes e obturações de ouro. Queria ter um sorriso dourado e uma “boca de ouro”. Quando falava, seus lábios pareciam uma porta se abrindo, para deixar à mostra um altar de ouro de uma luxuosa Igreja. A mulher dava suas gostosas risadas, para exibir seus dentes de ouro. Por isso, entrou na mira de marginais, que procuravam o momento adequado para atacá-la.

Certa noite, armados com “boticões”, marginais conseguiram arrombar uma porta da sua casa. Na mesma hora, ouviram entrar um carro na garagem. Era o dono da casa que chegava. Por ter encontrado o portão aberto, e temendo que houvesse ladrão dentro de casa, desceu do carro armado de revólver, atirando para cima e gritando pelos empregados, que prontamente apareceram, também armados. Viu dois bandidos fugindo. Ele e dois empregados, todos armados, percorreram os cômodos da casa e tiveram uma surpresa: Encontraram, debaixo de uma cama, um dos ladrões, escondido. Arrastado pelos empregados, o marginal foi imobilizado, tendo pés e mãos amarrados, enquanto a polícia era aguardada.

O marginal confessou que estava ali, somente, para levar a fortuna guardada na boca de ouro da dona da casa. Ao lado dele, estava a arma: um “boticão”, usado por dentistas.

Por um triz, Lana não foi vítima de uma grande violência, mesmo numa época em que a criminalidade era menor.

Felizmente, esse modismo passou e já não se usa dente de ouro.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 05 de novembro de 2021

AS LARANJAS (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

AS LARANJAS

Violante Pimentel 

 

Renildo, grande boêmio e pintor de letras de Natal, iniciou sua carreira ainda menino, copiando dos sacos de papel o nome de seu pai, que tinha a mania de marcar compras, feitas na padaria ou na bodega. Aos poucos, o menino ampliava e aperfeiçoava as letras, usando as paredes da casa dos seus pais como painel. Eles achavam bonito tudo o que o filho pintava e o estimulavam.

 

 

Com o tempo, a arte de Renildo tornou-se conhecida e começou a render frutos. Um bodegueiro, que morava na mesma rua que ele, amigo do seu pai, ficou impressionado com a beleza das letras que viu pintadas nas paredes internas da casa, e contratou o rapaz para pintar um letreiro, dando nome à sua bodega, que passou a se chamar “CANTINA SÃO JOÃO”.

Autodidata, Renildo desenhava a bico de pena. Sua arte o transformou-se num famoso pintor de letreiros, e ele passou a ser contratado para pintar nomes de lojas, repartições públicas e instituições bancárias. Não lhe faltava serviço.

Abriu logo uma conta num banco e juntou dinheiro. Pouco depois, sacou a metade do dinheiro, enchei o carro de prostitutas e foi farrear no Recife, num final de semana.

Familiarizou-se com o meretrício e apaixonou-se pelas mulheres. Nos cabarés onde chegava, era sempre uma festa. Enquanto estava ali, era o rei das mulheres. Cheio de dinheiro e envolvente, não queria uma só mulher, mas várias. Quando se despedia, elas continuavam trabalhando normalmente, na linha de frente do serviço. Ele não exigia exclusividade.

Renildo deixava a barba crescer bastante e só gostava de se vestir de branco. Como sofria de astigmatismo, para proteger os olhos contra o sol, acostumou-se a usar um sombreiro, chapéu do tipo mexicano, de abas enormes. inclusive para trabalhar.

Tinha voz de tenor e só trabalhava cantando músicas mexicanas, espanholas ou italianas. Granada, a famosa música do mexicano Agustin de Lara, era a música mais solicitada pelos amigos. O som da sua bela voz enchia as ruas de Natal, quando ele estava em cima de sua escada, pintando letreiros.

Casou-se por conveniência, com uma mulher direita, mas não deixou que ela lhe botasse cabresto.

Nunca deixou de farrear na companhia de amigos, mas tinha o cuidado de fazer uma boa feira semanal, abastecer a despensa e deixar sempre com a esposa, uma reserva em dinheiro, para alguma eventualidade.

Saía de casa, aos sábados pela manhã, depois de fazer feira, mercearia, e arrumar ele mesmo a despensa. Tomava banho, se arrumava, colocava dinheiro no bolso, e dizia à esposa que iria se encontrar com os amigos e tomar umas cervejas.

Essas saídas podiam ser rápidas ou não, e a mulher sabia disso.

Numa certa manhã de sábado, Renildo fez a feira e a mercearia habituais, e enquanto arrumava a despensa, a esposa lhe disse que ele tinha esquecido das laranjas.

Depois de tomar banho e se arrumar, Renildo disse à mulher que iria voltar ao Mercado, somente para comprá-las. No caminho, encontrou alguns amigos que estavam à sua procura e lhe convenceram de ir comprar laranjas em Ceará-Mirim, que era para onde eles estavam indo àquela hora. No máximo, às três horas da tarde, estariam de volta. Ele topou na hora.

Em Ceará-Mirim, não encontraram laranja nenhuma, mas havia feijoada e churrasco na casa de um amigo. Às três horas, alguém perguntou se a turma topava ir tomar banho na barragem de Poço Branco (RN), e de lá, iriam à Vaquejada de João Câmara, que seriam três dias de forró, com muitas mulheres. O dinheiro da gasolina, Renildo disse que garantia. Ele, no seu Jeep/60, e a turma atrás, em dois carros, se dirigiram em busca da vaquejada.

No terceiro dia, Renildo, comprou 2 bermudas, duas cuecas e duas camisas numa lojinha, tomou um banho, mudou de roupa e foram “tomar uma” na fazenda de um amigo. De lá, a turma foi farrear em Areia Branca, onde um cunhado de um dos amigos estava aniversariando.

Esse cunhado era o chefe da Alfândega e tinha um enorme estoque de bebidas importadas apreendidas. A esposa dele, irmã do amigo que convidou a cambada de cachaceiro, ao ver o irmão foi logo dizendo: Ai, meu Deus, com tanto doido aqui, ainda chegando mais…Foram dormir às duas horas da manhã.

No dia seguinte, foram para o Assu, beber na “Adega”. De lá, foram até a praia deTibau, em Mossoró.

Continuaram a farra, pelas cidades por onde passavam. Foram dormir na fazenda do pai de um dos amigos, onde chegaram tarde da noite. Renildo, a pedido da turma, acordou o dono da casa, cantando “Granada”. Um enorme holofote foi aceso, as portas abertas e um empregado trouxe logo um carrinho lotado de bebidas.

Dormiram todos nessa fazenda e depois do café da manhã, prosseguiram farreando por onde passavam, até que chegaram a Sobral, no Ceará. Lá, Renildo foi abordado por um conhecido, que convidou a turma para uma festa em sua fazenda, em Picos, no Piaui. Houve churrasco e bebedeira à vontade.

No 25º dia, resolveram farrear em Pernambuco. De Boa Viagem, foram até Caruaru. No 30º dia de farras, houve um convite para uma festa em Campina Grande (PB), mas Renildo não concordou. Queria retornar a Natal e precisava providenciar seu “salvo-conduto”. Iniciaram a viagem de volta.

Pararam no Mercado Público de Bayeux, Município da Paraíba, para Renildo comprar as laranjas. Ele comprou cinco centos de laranjas, embaladas em três sacas de estopa, que foram postas no seu Jeep.

Retornaram a Natal. O Jeep de Renildo e mais dois carros formavam um “comboio” de cachaceiros, com cana dormida.

Ao chegar em casa, Renildo encontrou a sogra na calçada, acalentando um neném nos braços, nascido na ausência dele. De cara feia, a mulher disse:

– Não fale comigo, seu safado. Esse tempo todo, você longe de casa, sem dar notícia! E minha filha em “estado interessante”, mais uma vez, deu à luz sem ter o marido perto!

Revoltada, a sogra recusou o abraço que o genro quis lhe dar. Ele disse que ia somente abraçar o neném, mas, a abraçou à força, feliz da vida com o nascimento de mais um filho.

Santinha, a esposa, chegou à calçada, de cara feia, esfriando um mingau no papeiro. Mesmo sendo uma verdadeira santa, não se controlou:

– Renildo, onde você estava? A gente aqui, em tempo de enlouquecer! Eu com as dores do parto, e você farreando! O rádio ligado 24 horas por dia, vendo a hora uma notícia ruim sobre você!!!

O marido respondeu:

– Saí pra comprar as laranjas. Encontrei Vilinha e outros amigos, e eles me chamaram pra comprar laranja na feira de Ceará -Mirim. Lá, não tinha laranja nenhuma, mas estava havendo um churrasco e feijoada na casa de um amigo deles. Às três horas da tarde, me chamaram pra tomar banho na barragem de Poço Branco. De lá, fomos pra umas três vaquejadas e uns dez aniversários.

“Fumaçando” de raiva, Santinha continuou falando:

– “Vamo” entrando e tire logo esta roupa fedorenta a quenga! Tome um banho pra se desinfetar! Como foi que você teve coragem de fazer, novamente, uma coisa dessa? Um mês fora de casa! Eu, mais uma vez, com as dores do parto e você farreando!!!

Ele, calmamente, respondeu:

– Pode me chamar de cachaceiro, cabra ruim, irresponsável e farrista!

Santinha, mesmo sendo uma verdadeira santa, não se conteve:

– Faltou um defeito grande: VOCÊ NÃO PASSA DE UM QUENGUEIRO SAFADO E CÍNICO!!!

Renildo, tomado banho, foi buscar no Jeep as três sacas enormes de laranjas. A mulher, admirada, falou que aquilo era demais e que as frutas iriam se estragar. Ele respondeu:

– Distribua com a vizinhança! Não quero que falte laranja aqui, nem na casa de ninguém.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 29 de outubro de 2021

O PURGANTE (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

O PURGANTE

Violante Pimentel

O empregado anterior havia sido dispensado, por desonestidade. Manoel contou essa ocorrência a Pedro, que ouviu tranquilamente, pois era cônscio da sua honestidade. Preferia passar fome, do que lançar mão do dinheiro alheio.

 

 

Uma semana depois, o patrão lhe ordenou que fosse à casa de um freguês, receber uma conta no valor de cinquenta reais.

Pedro pegou a conta escrita numa folha de caderno, dirigiu-se ao endereço indicado e recebeu o dinheiro. Quando retornava à padaria, encontrou-se com Zenilton, um conterrâneo e amigo de infância, a quem não via há bastante tempo. Os dois amigos selaram o encontro, entrando num botequim para conversar alguns minutos.

Beberam duas garrafas de cerveja, colocaram alguns assuntos em dia e Pedro apressou-se em dizer que precisava voltar à padaria. Zenilton lhe pediu que pagasse a conta, pois estava liso. Da próxima vez, ele pagaria.

Pedro lembrou-se de que o dinheiro que tinha no bolso era, apenas, a cédula de cinquenta reais, que pertencia ao patrão, da conta que fora receber. Mesmo assim, pegou a nota, pagou as duas cervejas e recebeu o troco.

Vendo a besteira que tinha feito, voltou depressa à padaria, sem saber qual desculpa daria ao patrão, ao lhe entregar o dinheiro incompleto. Na certa, seria despedido.

Entrou na padaria pela porta dos fundos, deparando-se, no quintal, com “Sultão”, o Rottweiler que o patrão criava. Pôs-se a agradá-lo e, de repente, um plano lhe veio à cabeça: Deu um grito de pavor, para chamar a atenção do patrão.

Na mesma hora, ouviu o vozeirão do homem, a perguntar:

– Que grito foi esse? O que aconteceu?

Fingindo estar em pânico, ofegante, e com os olhos esbugalhados, Pedro contou ao patrão:

– Ocorreu uma tragédia, patrão!!! Quando eu vinha entrando aqui, trazendo na mão o dinheiro que o senhor me mandou receber, “Sultão” o abocanhou e engoliu!!!

O dono da padaria franziu a testa, calculou o prejuízo, e, de um salto, estava diante do inocente “Sultão”, empunhando uma garrafa de óleo de rícino. Auxiliado pelo empregado, abriu a boca do animal, empurrou-lhe garganta a dentro todo o conteúdo da garrafa, e, depois de purgá-lo, recomendou ao rapaz:

– Agora, você vai ficar aqui junto do cachorrão, à espera do dinheiro. Logo que ele “descoma”, retire o dinheiro das fezes, trate de limpar e secar.

Duas horas depois, estava o dono da padaria de volta, para saber notícia do resultado do purgante:

– O cachorro já “descomeu” o dinheiro? – perguntou ao empregado.

Pedro, que aguardava, ansioso, por esse momento decisivo em sua vida, abriu a mão e mostrou o dinheiro que havia sobrado das cervejas, dizendo:

– Todo não, senhor. Ele só descomeu este aqui. Mas, tenho certeza que já, já ele vai descomer o que falta.

De cara feia, o patrão recebeu o dinheiro incompleto, que Pedro trazia na mão.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 23 de outubro de 2021

A MENTIRA (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

A MENTIRA

Violante Pimentel

Entretanto, há mentiras necessárias, quando a finalidade é poupar ou amenizar o sofrimento de alguém que se encontra em estado precário ou terminal de saúde. Nesses casos, a mentira se torna um mal necessário. Pode ser considerada um “pecado venial.”

 

 

 

Pois bem. Nicanor acabava de fechar os olhos da esposa Minervina, que há dias se encontrava no leito de morte, com uma doença terminal. Nos seus últimos momentos, a moribunda ouviu dos lábios do marido, a notícia mais feliz, que poderia ouvir naquela hora: A total regeneração do seu neto Edu, viciado em tóxico, que havia abandonado, há mais de um ano, a casa dos pais.

O homem lançou mão de uma mentira, pensando em amenizar os últimos momentos de vida da sua mulher, uma verdadeira santa, cheia de virtudes e sofrimento.

Muito abalado pela emoção da partida da esposa, Nicanor desabafou com o motorista do táxi, no qual se dirigia à funerária, para providenciar o velório e sepultamento..

Contou ao motorista a mentira de que lançara mão há alguns minutos, para suavizar a morte da sua mulher, cujo maior desejo era ver o neto livre das drogas:

– Tenho certeza de que Deus me perdoou. Sussurrei ao ouvido dela que o nosso neto tinha se curado do vício e já estava em casa. Ela abriu os olhos, deu um leve sorriso, e deixou escorrer uma lágrima, antes do último suspiro.

Percebendo a perplexidade do motorista, Nicanor continuou:

– Conheci um piedoso monge, cuja vida se resumia em rezar e cultivar o jardim do Mosteiro onde morava. Era um jardineiro de almas e flores. Passava as manhãs de joelhos, no silêncio do Mosteiro, aos pés do Cristo Crucificado, e as tardes no pequeno jardim da ordem, curvado diante das roseiras que ele próprio plantava e regava.

O monge perseguia uma ideia fixa, de ver desabrochar no seu jardim a rosa azul do Oriente, de que tivera notícia, uma noite, ao ler os poemas latinos dos velhos monges medievais.

Para isso, casava as sementes, juntava os brotos, fundia os enxertos, combinando as terras com que os cobria, e as águas com que os regava. Esperava, ansioso, o aparecimento, no topo da haste, do sonhado botão azul.

Ao fim de setenta anos de experiências e sonhos, em que se misturavam, na sua imaginação, as chagas vermelhas de Cristo e as manchas celestes da sua rosa encantada, surgiu, afinal, no coroamento de um galho de roseira, um botão azul como o céu.

Centenário e curvado, o velho monge não suportou a emoção. Adoeceu e foi levado ao seu quarto. Ajoelhado diante do Cristo Crucificado, lhe pedia entre soluços pungentes, que, como premio à sua vida de dedicação às roseiras e às almas, não lhe cerrasse os olhos, sem que eles vissem, felizes, o desabrochar da sua rosa azul.

Ao redor do seu leito, todos choravam, emocionados.

Divulgada de boca em boca, a notícia chegou a um convento das proximidades, onde se encontrava orando uma bondosa freira. Ao ouvir a história da paixão do santo monge pela rosa azul do Oriente, a freira se compadeceu e perfumou, com essência de gerânio, uma flor de seda azul, feita por ela mesma, para ofertar ao monge, no seu leito de morte.

No dia seguinte, pela manhã, morria o monge, sorrindo entre lágrimas de alegria, pensando ter entre as mãos a sua rosa azul, com que sempre sonhara, brotada de uma das roseiras plantadas e regadas por ele.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 15 de outubro de 2021

O RANZINZA (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

O RANZINZA

Violante Pimentel

 

A mulher era considerada uma Cruz na vida do homem, transmissora de doenças, e por isso estigmatizada.

Vivia-se uma época excessivamente escrupulosa, e atrasada cientificamente. O temor das doenças, fazia com que os pais dos namorados pesquisassem as condições sanitárias dos antepassados dos pretendentes de seus filhos, até a quinta geração. Os noivos eram forçados a tomar um purgante de óleo de rícino oito dias antes do casamento, para limpar as impurezas do organismo. Era uma medida humanitária propagada pelo governo. Essa exigência chegava a reduzir o número de casamentos.

Considerado um prêmio para a mulher, o casamento, na verdade, era semelhante a uma coleira, que ela recebia no pescoço, até que a morte separasse o casal.

Na realidade, a mulher era um objeto de satisfação dos desejos do homem, com a finalidade de reproduzir a espécie.

Pois bem. Sem constrangimento nem entraves na língua, certo dia, Alvino, um fazendeiro grosseirão e metido a engraçado, dizendo-se insatisfeito com a vida, “filosofava” com os amigos, na mesa de um botequim, sobre a chatice e o peso do casamento:

– O casamento só pode ser compreendido por alguém, que já teve um automóvel. A esposa, mulher definitiva, é uma espécie de automóvel particular. À medida que o tempo vai passando, não existe no mundo coisa que dê mais trabalho e despesa do que um automóvel. Um dia, é uma peça que falha; no outro, é a gasolina que está acabando; mais tarde, aparecem arranhões na lataria…. E o dono do automóvel gasta quase tudo o que ganha, para mantê-lo funcionando.

Dizia que uma amante era considerada o “táxi” do coração. Ao homem, só proporcionava alegria. O homem pega, paga, e salta onde quer, sem se preocupar onde fica a garagem, nem com o estado do motor ou a marca do lubrificante.

Nesse momento, soaram, monótonas, na torre da Igreja, as seis badaladas metálicas da Ave-Maria. Era a “”Hora do Angelus”, mediante o Toque das Ave-Marias ou Toque das Trindades, que corresponde às 6h00, 12h00 e 18h00, e relembra aos católicos (através de um toque especial dos sinos das igrejas e capelas) o momento da Anunciação – feita pelo anjo Gabriel à Virgem Maria – da concepção de Jesus Cristo, acreditada como livre do pecado original. Nesse instante, é comum ao cristão parar a sua atividade por uns breves momentos, e se recolher em meditação e oração.

Alvino levantou-se, persignou-se, fazendo, solenemente, o sinal da Cruz, e foi ligeiro para casa, onde a esposa e os cinco filhos o esperavam para jantar.

No caminho, pediu perdão a Deus, pelas besteiras que tinha conversado com os amigos. Jurou que era tudo “da boca pra fora”.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 10 de outubro de 2021

OLHO POR OLHO (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

OLHO POR OLHO

Violante Pimentel

 

Apesar dos cuidados de Pacífico, que procurava sempre consertar qualquer abertura na cerca do seu quintal, uma vez por outra era surpreendido com o furto de uma galinha gorda do seu terreiro. Já imaginava quem poderia ter sido, mas não podia provar.

Numa certa tarde, após sentir falta de mais uma galinha, o homem saiu pelo fundo do enorme quintal e ao olhar pela cerca do vizinho, descobriu que ali estava a galinha gorda e cevada que ele procurava. Estava sendo depenada pela dona da casa, certamente, para o jantar.

Pacífico rodeou o cercado, bateu à porta da casa, e reclamou do que estavam fazendo com a sua galinha. Acusou os vizinhos de terem furtado sua galinha, e que não era a primeira vez que aquilo acontecia.

Zé de Virna sorriu, cinicamente, e argumentou:

– Ora, compadre, pra que brigar por conta de uma galinha? Vamos entrar num acordo: A galinha vai já pra panela. Espere e jante “com nós”!

Como era Pacífico, até no nome, o dono da galinha não gostava de confusão e aceitou o convite. Esperou a hora, jantou, e voltou pra casa, de cabeça baixa, mas planejando um meio de se vingar do vizinho. Apesar de sempre suspeitar dele, quando sumia uma galinha, dessa vez a dúvida desapareceu. O vizinho era mesmo o ladrão de galinhas.

Doroteia, mulher de Zé de Virna, era uma morena forte e bonita, e toda vez que olhava para Pacífico, os olhos faiscavam e quase não desgrudavam dele. Isso acontecia em qualquer lugar, fosse na vila, na bodega ou na feira.

Pacífico lembrou-se disso e, com o desejo de vingança, resolveu explorar essa fraqueza da vizinha. Tanto planejou, que um dia, ao voltar do roçado, Zé de Virna não encontrou mais a mulher em casa.

Desconfiado, dirigiu-se à casa de Pacífico, bateu palmas, e perguntou, com seu vozeirão:

– Doroteia está aqui?

Pacífico apareceu na porta do casebre e, sorrindo, respondeu:

– Ela está aqui, compadre. Está lá dentro.

E puxando o vizinho pelo braço, convidou:

– Entre, compadre. Fique pra dormir com a gente!!! Vizinho não vai brigar por causa de galinha…


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 03 de outubro de 2021

BONEQUINHAS DE LUXO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

BONEQUINHAS DE LUXO

Violante Pimentel

 

A mulher, por muitos anos, teve uma educação diferenciada da educação dada ao homem. Era educada para servir, enquanto o homem era educado para assumir a posição de senhor todo poderoso. Quando solteira, vivia sob a dominação do pai ou do irmão mais velho; ao casar-se, o pai transmitia todos os seus direitos ao marido, submetendo a mulher à autoridade deste.

Durante muitos anos, as mulheres eram verdadeiros ornamentos da família brasileira. Objetos de reprodução da espécie. Quanto mais filhos o casal tinha, mais orgulhosos os homens se sentiam.

No interior nordestino, não havia energia elétrica nem água encanada. As famílias dormiam cedo, e era comum o casal ter mais de oito filhos.

Em 9 de maio de 1960, a primeira pílula anticoncepcional foi aprovada nos EUA. O medicamento revolucionou hábitos sexuais e ajudou a consolidar a mulher no mercado de trabalho. No Brasil, foi recebida com forte resistência.

Com a evolução dos costumes, a mulher conquistou seu lugar ao sol, e passou a ter vontade própria. A pílula anticoncepcional a libertou da gravidez inoportuna.

Depois, a mulher conseguiu progredir culturalmente, conquistando o direito de cursar faculdade e competir com o homem no mercado de trabalho.

O progresso fez com que, hoje, a mulher ocupe cargos importantes, no cenário civil e político.

Pois bem. No tempo em que a mulher era apenas “do lar”, a virtuosa D. Gertrudes, esposa de um rico capitalista, todas as tardes, reunia no terraço de sua casa, uma dezena de senhoras, na sua situação, para boas conversas e um lauto lanche.

A reunião acontecia no terraço de sua casa e as conversas eram amenas e divertidas.

Naquela tarde, o assunto mais importante que se discutiu foi o medo de baratas, ratos, rãs e outros pequenos seres, para elas, repugnantes.

De repente, Matilde, uma das senhoras presentes, esposa de um político, interveio, com uma narrativa:

– Pois eu não tenho medo de nada disso. Nenhum desses bichinhos me faz qualquer mal aos nervos, como a vocês. Imaginem que outro dia, eu estava em pé na sala de espera do cinema, quando senti uma coisa subindo pela minha perna. Sem me mover, compreendi que era uma enorme barata. Quieta eu estava, quieta fiquei. A barata subiu- me aos poucos pela perna, e eu, imóvel e enojada, suportei até atingir o meu limite.

Dona Gertrudes interrompeu a narrativa, com a maior ingenuidade do mundo, mostrando os braços arrepiados, com asco à barata. E perguntou:

– A barata subiu mesmo? Foi até aonde? Mas desceu depois?

A narradora, irritada, respondeu:

-Claro que eu não esperei que ela avançasse. Levantei a saia, a sacudi e a barata caiu. Ela quis correr, mas eu a esmaguei com o pé.

Esse tipo de conversa provocava risos em quem a ouvia, inclusive aos próprios maridos. Educadas e ricas, essas figuras da “elite”, esposas de maridos ricos, dondocas e “do lar”, totalmente submissas, eram, para eles, verdadeiras bonequinhas de luxo.

A evolução dos costumes colocou a mulher em pé de igualdade com o homem, e ela hoje está apta a exercer qualquer lugar de destaque na sociedade em que vivemos.

Acabou-se o tempo das bonequinhas de luxo.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho segunda, 20 de setembro de 2021

A HEROÍNA (CONTO DA MADRE SUPERIORA VOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)
 

A HEROÍNA

Violante Pimentel

 

Nos meados do século passado, depois de passar seis meses em Lisboa, em visita aos pais, Dalva regressava, enfim, ao Brasil, louca de saudade do marido e não vendo a hora de cair nos seus braços. Viajava num navio repleto de passageiros, de diversas nacionalidades.

No restaurante do navio, conversando com o imediato, Dalva ficou sabendo que ali viajavam mais de 1.000 pessoas, entre passageiros e tripulantes.

O navio parecia uma cidade flutuante, onde Dalva não conhecia ninguém.

Os passageiros de 1ª classe, na maior parte argentinos, passavam a maior parte do tempo, bebendo e jogando.

No tombadilho, passageiros ingleses, que se dirigiam ao Rio e a Buenos Aires, fumavam, discretamente.

Durante o almoço, a saltitante e atraente senhora percebeu que o comandante, um bonito “marujo” britânico, tinha os olhos fixos nela. Ela desviou o olhar, mas continuou sentindo-se observada. Ficou incomodada com isso, pois era uma senhora casada e de respeito. Mesmo assim, sentiu-se envaidecida, por atrair o olhar de um homem tão bonito, onde havia tantas mulheres mais bonitas e jovens.

À noite, Dalva não desceu para o jantar.

No dia seguinte, durante o almoço, o comandante continuou a olhá-la insistentemente, a ponto de esquecer o whisky que tomava.

Era um inglês bonito, alto, forte, louro, bigode, pele corada e olhos azuis. Aparentava beirar os 50 anos.

A insistência do olhar do homem irritou Dalva, mas, ao mesmo tempo, massageou seu ego, ao sentir que, com 49 anos, ainda “dava um ponche”.

Após o jantar, o comandante desceu da casa de comando ao tombadilho. Aproximou-se de Dalva e lhe falou em inglês. Declarou-se apaixonado por ela, desde o primeiro minuto em que a viu.

Ela fez o possível para não ser indelicada. Disse-lhe que era casada e que o marido estava a esperá-la no Brasil. Mas, de nada adiantou. Dalva ficou tensa com a insistência do comandante, mas sua autoestima aumentou, consideravelmente.

No dia seguinte, o comandante passou o dia quase todo a persegui-la, insistindo em declarar sua paixão violenta.

Nessa época, não se falava em assédio sexual e as mulheres normais sentiam-se envaidecidas, quando eram cortejadas. Certos galanteios eram bem-vindos.

À tarde, no salão de música, o comandante se aproximou de Dalva, com os olhos inchados pela insônia e pelo desejo, e lhe declarou novamente a paixão violenta que ela lhe despertara. Convidou-a para ir, à noite, ao seu camarote. Disse-lhe, com voz trêmula e olhar apaixonado, que se ela não fosse lá até meia noite, meia hora depois ele seria capaz de meter o navio a pique, em pleno oceano, e não escaparia ninguém.

Dalva se viu entre a cruz e a espada. Sem saber se a ameaça era coisa séria ou brincadeira, se aconselhou com anjos, arcanjos e todos os santos do mundo e tomou a mais séria decisão da sua vida:

Evitou a morte de mais de mil pessoas, indo ao camarote do comandante e satisfazendo aos seus desejos.

Esse segredo, ela guardou para sempre, como um sonho “das mil e uma noites”.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 12 de setembro de 2021

O BOM E O BOMBOM (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

O BOM E O “BOMBOM”

Violante Pimentel

“Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á.” (Sermão da Montanha – MT 5.1-2)

 

Ajudar alguém, eventualmente, é uma coisa. Mas assumir os problemas dos outros, é outra. Há pessoas que não passam sem ter problemas. E quando não tem, arranjam. Depois, querem que os outros resolvam.
Ninguém tem obrigação de assumir os problemas de ninguém. É aí que está a diferença entre ser bom e ser “bombom.”

Os invejosos não pensam nas pedras que você encontrou pelos caminhos até chegar onde chegou. Nem na dor que você sentiu, ao machucar seus pés nas pedras. Nem nas lágrimas que você derramou, ao ver seus sonhos desfeitos.

Pois bem.

Seu Jorge, dono de uma pequena fazenda, e sua esposa Efigênia moravam numa cidade do interior nordestino. O casal tinha dois filhos. Muito caridosos, marido e mulher combinavam em tudo e viviam em harmonia. A casa deles estava sempre de portas abertas aos necessitados, como se não tivessem chaves nem tramelas.

Era comum, ao amanhecer o dia, pessoas famintas se encontrarem à sua porta, pedindo o café da manhã. Na hora do almoço, a cena se repetia. Os pobres ficavam na calçada, à espera de comida. O casal não negava um prato de alimento a ninguém, ou uma ajuda em dinheiro, para um remédio ou outra coisa necessária.

Com o passar do tempo, oportunistas passaram a se aproveitar da bondade do casal. Na hora das refeições, sempre chegavam alguns desconhecidos, com conversa mole, praticamente se convidando para almoçar ou jantar. Pediam até dormida.

Até pessoas empregadas, mas sem escrúpulos, tentavam tirar proveito do casal, usando de ardil para conseguir dinheiro “emprestado”, o que terminava em calote.

Com a hospitalidade típica do nordestino, o casal tinha prazer em hospedar, em sua casa, pessoas amigas e parentes.

O fazendeiro ajudava aos necessitados, sem alarde e, simplesmente, pelo espírito de caridade. Não era político nem cabo eleitoral.

Entretanto, pessoas sovinas e invejosas, que dão adeus de mão fechada, e são incapazes de dar uma esmola, achavam pouco o que ele fazia e instigavam os pobres para que lhe pedissem muito mais. Diziam que o fazendeiro era muito rico e devia ajudar ainda mais.

Isso chegou aos ouvidos do casal, que ficou indignado com a maldade humana.

Depois de uma conversa confidencial com o padre da Paróquia, pedindo orientação de como deveria agir para se livrar dos aproveitadores, o casal ouviu este conselho:

– Ajudar às pessoas necessitadas é exercer a caridade. Vocês são verdadeiros cristãos. Dar comida a quem não tem condições de se manter, é uma gesto sublime. Mas não se deixem explorar por pessoas más, verdadeiros golpistas.

O homem tem obrigação de ser bom. Mas não tem obrigação de ser “bombom”. Quem se faz de mel, as abelhas comem.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 05 de setembro de 2021

O FORMIGUEIRO (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

O FORMIGUEIRO

Violante Pimentel

 

As eleições para renovação da Câmara e recomposição do Senado se aproximavam e atemorizavam o velho senador politiqueiro, que não queria perder sua poderosa máquina eleitoral. Para isso, sempre se conduziu bem, não hesitando em atropelar amigos e se contemporizar com certos adversários. Sentia-se vitorioso e forte, como um homem que nunca se curvou a ninguém e a todos esmagou pelo caminho.

 

 

 

Enquanto ouvia as informações, trazidas pelo “formigueiro” que lhe garantia o prestígio, entrou no seu gabinete, com intimidade, um antigo senador, afastado das lides partidárias. Era um velho companheiro, que preferiu gozar em sossego os proventos da sua aposentadoria, e que continuava desfrutando de considerações especiais.

– Você, por aqui?!!!- exclamou o “Poderoso Chefão”, tirando o charuto cubano da boca, cheia de enormes dentes, que lembravam um animal feroz.
 O visitante sentou-se satisfeito e aguardou sua vez de conversar com o velho amigo, confidencialmente.

Até que o senador lhe perguntou o motivo da sua visita, e ele entrou no assunto:

– O que me traz aqui, amigo, é a situação de Josivaldo, meu afilhado. Ele precisa entrar para a Câmara e o seu apoio é fundamental. Se ele contar com o seu apoio, já é meio caminho andado. Conto com você.

O senador, acostumado a esse tipo de pedidos, lançou para o teto uma baforada do charuto que fumava e perguntou se o protegido do amigo tinha vocação para a política e se era um homem íntegro.

A resposta foi “sim”.

O senador continuou:

– Então, creio que não há nada contra ele. Vamos fazer o que for possível para que ele seja eleito.

Olhando nos olhos do velho companheiro, o senador percebeu uma certa preocupação e perguntou qual a razão do seu temor de que Josivaldo, seu protegido, não consiga se eleger para deputado.

Encabulado, o velho companheiro falou:

– O problema, amigo, é que ele é casado com uma mulher feia como um bicho!!! É de assombrar!!!

Com essa informação, a fisionomia do senador, que até então se mostrava risonha e satisfeita, mudou de expressão. O homem franziu a testa, unindo o bigode com a cabeleira, acendeu outro charuto, e, com ar preocupado, falou:

– Amigo, agora deu o diabo!!! Mas vamos ver!!!

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 22 de agosto de 2021

MUDANÇA DE HÁBITOS (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

Aposentada e viúva, Maria Rosa se habituou a ir com sua filha, todas as manhãs, à academia, e à tarde, dia sim, outro também, ao rodízio de shoppings. Depois do jantar, adotou o hábito de escrever no computador, ate meia noite, ou até o sono chegar.

Nos finais de semana, ela e algumas amigas, quase todas aposentadas, independentes e descasadas pela lei de Deus (viúvas), ou pela lei dos homens, não perdiam as danças da AABB, onde é sócia. Vez por outra, pintava alguma festa fora da AABB, e lá iam as “andorinhas” se divertir. Se não tivessem par para dançar, a animação era a mesma, pois elas dançavam mesmo sozinhas e soltas. O importante era a descontração. Todas elas, filhos criados e bem resolvidas, levavam uma vida de dar inveja às mulheres mal casadas, que arrastam casamentos desastrosos, apenas por conveniência.

De repente, não mais que de repente, no começo de 2020, a TV anunciou, em rede nacional, que um terrível vírus letal, o Covid-19, assomara às portas do Brasil, vindo do estrangeiro, e já estava fazendo vítimas.

Ainda bem que o Dr. Dráuzio Varela, no programa do Faustão, tranquilizou a população, opinando que o vírus que estava invadindo o Brasil seria apenas “uma gripezinha”.

Ledo engano. O Covid-19 terraplanou a população e, em poucos meses, ceifou milhares de vida, causando sofrimento e dor às famílias brasileiras.

O terrível vírus já se alastrara pelo mundo inteiro, e a luta pela cura, travada pela ciência, não obtinha êxito, nos casos avançados.

E deu-se o pânico. Medidas sanitárias alertavam a população, a fim de conter a disseminação do Covid-19. Tornou-se obrigatório o distanciamento social, o uso de máscaras, a higienização das mãos com sabão ou álcool em gel, e, por fim, o fechamento de academias, clubes, repartições públicas, templos religiosos, e do comércio formal, incluindo shoppings, restaurantes e bares, e o informal, como camelôs, vendedores ambulantes, inclusive pipoqueiros e vendedores de cachorro-quente, que alimentam a família com o apurado do dia.

Isso enlouqueceu a população. Quem tinha a cabeça boa, passou a sofrer de depressão. Quem já tinha depressão, destrambelhou, e piorou de vez. Nunca se procurou tanto terapeuta, e nunca se tomou tanto antidepressivo no Brasil. Também nunca se tomou tanta Ivermectina e Cloroquina, como tratamento precoce.

E a Ciência entrou em campo, em busca de uma vacina contra o Covid-19.

A imprensa funerária, nos noticiários, informava, com ênfase, o número crescente, diário, de mortos pelo Covid-19, aumentando cada vez mais o terror da população. As crises de pânico aumentaram, resultando, inclusive, em casos de suicídios.

A partir do mês de março de 2021, com a chegada das vacinas contra o Covid-19, a população sã foi convocada a se vacinar. A imunização ainda não se completou, mas o poder público está se esforçando para que todos os brasileiros estejam vacinados até o final do ano.

O Covid-19 ainda continua ceifando vidas e os hospitais continuam cheios. Porém, com a vacinação, o povo criou alma nova. E a luta continua. Abriram-se “as portas da esperança.”

E as viúvas e descasadas, confinadas em casa por quase dois anos, que antes da pandemia saíam sempre, para espantar o fantasma da solidão, continuam sem perspectiva do “alvará de soltura.”

Mesmo já vacinadas, ainda continuam usando máscaras, e evitando aglomerações. Aguardam, ansiosas, que os tempos mudem e o lazer volte a existir, com a liberdade e segurança de antes. E que o fantasma do Covid-19 fique, apenas, como mais uma tragédia, na história da humanidade.

O distanciamento social, imposto pelas autoridades sanitárias, deixou traumas que perdurarão durante muito tempo.

E a “mídia funerária” continua aterrorizando a população, pois a vacina não garante a imunidade 100%.

Cada qual se defende como pode.

Esta semana, Maria Rosa, que é louca por música, deu um “lance de mestre”. Para espantar o estresse, comprou uma sanfona nova e bem mais leve do que a sua antiga e encostada, de 120 baixos, já “velhinha”. A distração de Maria Rosa, agora, é tocar sanfona, que voltou a ser o seu xodó, sem desprezar o teclado.

Pelo menos, ela se distrai, preenche o tempo e esquece a vontade de sair de casa, até que termine a vacinação em Natal. As festas da AABB ainda não recomeçaram. E o remédio é esperar.

Afinal, a música é o alimento da alma. Tocar um instrumento, melhora a vida interior.

Repetindo o Escritor Artur da Távola, pseudônimo de Paulo Alberto Moretzsonh Monteiro de Barros, música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 15 de agosto de 2021

A INSATISFAÇÃO (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

A INSATISFAÇÃO

Violante Pimentel

 

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Andorinhas em voo

 

Há pessoas insatisfeitas e mal-humoradas, que reclamam de tudo e de todos. Essas pessoas não poupam os ouvidos de ninguém e estão sempre apontando defeitos em alguém ou em alguma coisa. São pessoas irritadas, por natureza. Só se satisfazem, quando provocam alguém e forçam uma resposta contraditória, capaz de dar início a um bate-boca. Geralmente, essas pessoas são mal resolvidas, frustradas, que erraram nas suas escolhas e querem se vingar do mundo. Quando não encontram alguém para Cristo, como se diz no interior nordestino, "dão coice no vento."

Pois bem. Benício Silva, fazendeiro rico do interior nordestino e engenheiro agrônomo aposentado, era desse tipo. Insatisfeito e mal humorado. Reclamava de tudo e de todos. Dizia detestar política, mas não deixava de ler jornais e revistas, além de não desprezar um bom livro, atual ou antigo.

Com filhos casados e netos, morando fora, o fazendeiro passava a maior parte do tempo na companhia da esposa e dos empregados, e raramente recebia visitas de amigos ou parentes.

Apontava os defeitos do governo federal, estadual ou municipal, dos partidos políticos, ministros, senadores, deputados e vereadores, e até do Papa, Bispos e padres.

Enfim, achava que somente ele era supremo, e que somente ele tinha capacidade de fazer tudo bem feito e de ser honesto.

Depois do almoço, deitava-se numa rede armada no alpendre de sua casa, para ler algum jornal ou revista, mas logo adormecia. À tardinha, se levantava, para fazer sua caminhada no pátio da fazenda, e ao mesmo tempo admirar a passagem do seu enorme rebanho, quando era tangido para o curral.

Enquanto caminhava, meditava sobre o sentido da vida, a criação do mundo, seus arrependimentos e frustrações, sempre atribuindo a causa dos seus desacertos a outras pessoas e à sua falta de coragem na hora de fazer escolhas.

Tinha ideias próprias sobre a existência humana, e chegava a dizer que se tivesse feito o mundo, seria tudo diferente. e não haveria injustiça.

À noite, junto com a esposa, costumava ler a Bíblia, pausadamente, focalizando, de preferência, os Salmos de Davi. Esse hábito sempre existiu, desde a infância dos três filhos (dois meninos e uma menina).

Numa certa tarde, ao fazer sua caminhada pelo pátio da fazenda, Benício, dominado por ideias reacionárias lidas num jornal matutino, se perdeu em pensamentos, revoltado contra as "coisas erradas do mundo".

Observando a passagem do seu enorme rebanho, achou uma injustiça o boi, que é tão forte e pesado, tem patas, chifres, orelhas e cauda, ser condenado a caminhar sempre na terra, enfrentando a quentura ou a lama, enquanto os pássaros, que são leves, voam livres e soltos, pela amplidão do espaço.

Atrás do rebanho vinham revoadas de pássaros, num espetáculo deslumbrante.

As andorinhas sobrevoaram o pátio da fazenda, chamando a atenção de Benício. Ao vê-las a voejar, Benício chegou a blasfemar:

– Está tudo errado! O mundo foi muito mal feito. Quem devia voar era o boi, que é um animal pesado! E não os pássaros, que não pesam quase nada! Mas são eles que voam, leves e soltos, se locomovendo rapidamente e dominando os ares!

Nesse momento, uma andorinha que voejava sobre o pátio, deixou cair sobre a cabeça calva e descoberta do irritado fazendeiro, alguma coisa que lhe fazia sobrecarga no intestino. Instintivamente, ele passou a mão na cabeça e, olhando seus dedos brancos daquela "sujeira", caiu de joelhos, pedindo perdão a Deus:

– Perdão, meu Senhor e meu Deus! Quem sou eu para julgar a criação do mundo! Tudo o que no mundo existe foi feito com perfeição, acerto e sabedoria!

Em lágrimas, o fazendeiro levantou-se, limpando a mão, enojado e dizendo:

– Graças a Deus, não foi um boi!...


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 08 de agosto de 2021

SOBRE AS ONDAS (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

SOBRE AS ONDAS

Violante Pimentel

O garoto Ítalo Ferreira, nascido e criado na praia de Baía Formosa (RN), município do litoral leste do Estado do Rio Grande do Norte, filho de Luiz Ferreira e Catiana Ferreira, desde os seis anos de idade, apaixonou-se pelo Surfe. Gostava de brincar com as ondas, e o mar povoava seus sonhos.

Enquanto o pai trabalhava na praia, permitia que o filho brincasse, com a tampa da caixa de isopor, onde estavam os peixes, à sua vista e da mãe.

Nessa idade, o garoto já revelava sua vocação para o Surfe.

Muitas tampas de isopor se quebraram, com a brincadeira do filho, sem que o pai se aborrecesse. Afinal, o garoto ainda não possuía uma prancha.

Aos 8 anos, o menino ganhou, de um amigo do seu pai, uma prancha usada, com a ponta quebrada, que para ele teve o sabor de nova. E, usando o dom que Deus lhe deu, sem treinador, passou a enfrentar as ondas de Baía Formosa, com habilidade de chamar a atenção.

Aos 11 anos, Ítalo recebeu, de presente do pai, uma prancha de Surfe, ainda na embalagem, zerada, comprada com dificuldade, mas com muito amor. A felicidade que o homem viu estampada no rosto do filho compensou o sacrifício.
Se o garoto ficou feliz, o pai ficou ainda mais.

Pouco tempo depois, Ítalo já era vencedor de campeonatos locais.

Apesar de surfar todos os dias, o menino sempre frequentou a escola, e a prática de esporte nunca atrapalhou seus estudos.

Ítalo sofria com a falta de apoio, estrutura de treinamento e equipamento para as competições, pois o poder público, raramente, ajuda aos jovens atletas.

Mas, um verdadeiro milagre aconteceu:

Aos 12 anos, Ítalo foi descoberto por Luiz “Pinga” Campos, então diretor de marketing da Oakley, uma das mais importantes marcas de Surfe do mundo. Impressionado com o desempenho de Ítalo, durante um evento para amadores na praia de Ponta Negra, em Natal, Pinga o convidou para se juntar à sua equipe, a qual já contava com surfistas consagrados, como Adriano de Souza, Jadson André e Miguel Pupo, hoje seus colegas na elite do Surfe mundial.

Sendo conhecido como um grande gestor de carreiras de atletas, mais uma vez, Pinga mostrou sua competência, ao assumir a responsabilidade pela carreira do garoto Ítalo Ferreira, o pequeno prodígio de Baía Formosa.

Em 2019, o Surfe teve uma grande revelação, e um dos títulos mais marcantes e inesperados. Ítalo Ferreira, que havia entrado no CT em 2015, foi o grande campeão mundial de surf da WSL, depois de uma final épica, nos tubos de Pipeline e Backdoor, contra Gabriel Medina.

E agora, nas Olimpíadas Mundiais de 2021, que acontecem em Tóquio (Japão), Ítalo Ferreira, representando o Brasil na modalidade de Surfe, consagrou-se campeão mundial, conquistando medalha de ouro.

Salve ÍTALO FERREIRA, aquele garoto praiano, nordestino, que sonhava sobre as ondas do mar, e que hoje, aos 27 anos, é o atleta mais importante do nosso País, na modalidade de Surfe.

Salve BAÍA FORMOSA, RIO GRANDE DO NORTE, BRASIL!!!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 31 de julho de 2021

MACARRÃO9 COM LOMBO (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

MACARRÃO COM LOMBO

Violante Pimentel

 

No dia-a-dia, a carne consumida nas refeições era a carne-de sol, na época, chamada de “carne-seca.” Somente às sextas-feiras, no açougue, havia carne verde (gado recém abatido). O preço da carne era um só, inclusive o filé, excetuando-se apenas a carne com osso, que era a mais barata. Não se dava valor a filé. Era uma carne como outra qualquer. Tanto fazia filé, como chã de dentro, chã de fora, alcatra, picanha, patinho etc.

 

 

 

Particularmente, Dona Lia, minha saudosa Mãe, não gostava de filé, por considerá-lo uma carne sem consistência. Sempre preferiu chã de dentro, alcatra ou patinho.

Dona Lia tinha predileção por macarrão. Ela mesma fazia a massa, manualmente, usando farinha de trigo, ovos, e água para unir. Deixava-a descansar um pouco e depois a abria, com um rolo de madeira, sobre um quadrado de mármore, salpicado de farinha de trigo.

Aberta a massa, ela a cortava, com o auxílio de uma faca, em tiras largas, e as colocava para secar, sobre um pano de prato estirado sobre a mesa, também salpicado de farinha de trigo. Depois de seco, o macarrão era posto para cozinhar em água fervendo, com um pouco de sal, por uns vinte minutos, e depois escorrido.

Nessas alturas, a molha (se chamava molha, mesmo) do macarrão já estava no fogo. Era feita com manteiga, massa de tomate e um pouco da graxa do lombo de chã de dentro, por ela preparado, com esmero, e que já estava pronto, na panela. Posto o macarrão numa travessa, era colocada sobre ele a suculenta molha, queijo parmesão ralado em casa e rodelas de ovos cozidos. Em outra travessa, era colocado o lombo, regado com a sua própria graxa, e enfeitado com batatinha cozida, chamada, na época, de “batata inglesa.”

Movida pela saudade, hoje acordei com vontade de almoçar macarrão com lombo, do jeito que Dona Lia fazia. Mãos à obra.

Preparei o lombo de chá de dentro, da forma que eu, muitas vezes, a vi preparar, usando os temperos tradicionais (sal, pimenta do reino, alho, vinagre, tomate, pimentão, cebola e um pouquinho de colorau). Nada de modismos. Coloquei um pacote de macarrão para cozinhar, largo e de boa marca, mas que não chegava nem perto do que ela fazia. Entretanto, com a molha (ou molho), queijo parmesão ralado e rodelas de ovos cozidos, deu para disfarçar.

O queijo parmesão, que agora se compra ralado, já não tem o mesmo gosto do de antigamente, ralado em casa.

O macarrão e o lombo ficaram apetitosos.

Mas, faltava o principal: O toque de Dona Lia, que tinha as mãos de fada e cozinhava divinamente.

Quis comer com gosto, imaginando-a à mesa, ao nosso lado, mas a realidade falou mais alto e a saudade tomou conta do ambiente. Não parou de chover nos meus olhos.

E a falta que ela me faz doeu, ainda mais forte, dentro de mim.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 25 de julho de 2021

PAIXÃO VIOLENTA (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

PAIXÃO VIOLENTA

Violante Pimentel

O fato de ter abandonado o marido poderia tê-la conduzido à lama e à vergonha, mas, ao contrário, com a nova união, ela conheceu o esplendor da glória. Viagens, restaurantes caros e amigos ricos logo lhe despertaram a vaidade de ser rica.

 

 

 

 

Três anos depois, o “fogo baixou” e a paixão de Jorgete se diluiu no tempo e no espaço. Entretanto, gostava do luxo e do conforto, que Vilton lhe proporcionava.

Jorgete cultuava a fortuna e a vida boa que levava. Sentia-se feliz e via aos seus pés, derretido numa chuva de ouro, o coração desse homem generoso, nobre e rico, como aquela com que Júpiter fecundou, na torre de Argos, a desditosa Dânae, mãe de Perseu, um dos heróis mais emblemáticos da mitologia grega, considerado um semideus.

Bonito, elegante e rico, o empresário não tinha motivos para temer um competidor. No entanto, mesmo consciente da sua invejável situação econômica, Vilton vivia com o coração apertado, pela insegurança que sentia, com relação a Jorgete, que não hesitara em abandonar o primeiro marido, quando o conheceu.

E foi dominado por essa fraqueza, que, certa noite, não se controlou e desabafou com a mulher, abrindo as torrentes da sua alma:

– Você não imagina, Jorgete, o que tem sido a minha vida, depois que passamos a viver juntos. Eu tenho por você uma paixão desesperada. A minha fortuna, a minha vida e o meu destino estão nas suas mãos. Dou a você, além do meu amor, tudo o que você deseja. Nunca lhe neguei nada. Realizar seus desejos sempre foi a minha religião e a minha maior alegria. Entretanto, a minha felicidade é perturbada por uma insegurança terrível, quando penso no que você fez com seu marido, abandonando-o sem dó nem piedade.

Diante dessas palavras tão sinceras, brotadas do coração do marido, a mulher franziu a testa, coroada de cabelos dourados, como quem acabava de ouvir uma novidade maravilhosa. Sentiu-se envaidecida com essa declaração de amor.

Com os cotovelos fincados na mesa do jantar, e com o rosto de boneca, muito claro e lindo, a fisionomia de Jorgete denunciava uma grave inquietação. De repente, com ar de ingenuidade, uma pergunta aflorou, na sua boca vermelha:

– Então, existe, aqui na capital, outro homem ainda mais rico do que você?!!!

E, ansiosa, disse para si mesmo, sem olhar para o marido:

– Preciso, urgente, conhecer esse homem tão rico assim…


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 18 de julho de 2021

O MEDO (CONTO DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

O MEDO

Violante Pimentel

Casado com Elza, uma das mulheres mais bonitas da cidade, e bem mais nova do que ele, tinha tanto medo de ser traído, que ameaçava qualquer homem que a olhasse com admiração. Ninguém se atrevia, sequer, a levantar os olhos para sua esposa. Na opinião de todas as pessoas, aquele que o fizesse seria um homem liquidado.

Foi no auge do ciúme do coronel, e quando mais se acentuava a fama da sua agressividade, que voltou a residir na mesma cidade, o famoso advogado Dr. Agostinho Santos, depois de morar vários anos fora. Não era coronel, nem major, nem capitão, nem tenente, mas sempre foi considerado o homem mais namorador da cidade, quando jovem.

Divorciado e sozinho, o advogado foi morar num apartamento de sua propriedade, que, por coincidência, ficava no mesmo prédio em que morava o coronel Otávio. Muito simpático e conversador, não foi preciso muito esforço para que o advogado se tornasse amigo do coronel.

A amizade foi tão espontânea e sincera, que, uma semana depois, o coronel convidou o Dr. Agostinho para almoçar com ele e sua esposa, no apartamento.

Muito simpático e gentil, Agostinho conquistou a simpatia do casal. O coronel, com grande esforço, conseguia disfarçar o seu ciúme e insegurança. Com um sorriso sem graça e uma amabilidade forçada, conseguia esconder sua austeridade marcial. Elza, usando um vestido elegante e jovial, jogava charme para cima do marido, chamando a atenção do convidado.

Minutos depois, estavam sentados à mesa redonda, em que havia três talheres. A palestra corria num clima amigável e feliz, entre petiscos saborosos e sorrisos significativos, quando o telefone tocou. Era o procurador do coronel, que precisava lhe falar com urgência, sobre transações comerciais, no escritório.


– Diabo! – exclamou o militar, irritado. Tenho de ir resolver um problema. E virando-se para o advogado, falou:

– Esteja à vontade, doutor. É questão de meia hora. Fique por aí; eu não demoro!

E para a esposa:

– Elza, se encarregue das honras da casa, que eu volto já!

Mal o coronel saiu, duas taças de vinho se chocaram no ar, por cima da mesa, festejando aquele momento. O enlevo foi tão grande, que, ao retornar, o marido encontrou a mulher e o advogado no seu gabinete, num colóquio amoroso. Apanhado em flagrante, o advogado pôs-se de pé, sentindo-se paralisado. Apoiado na porta que empurrara, o coronel o encarou, esbravejando:

– Sim, senhor advogado!!! Sim, Dr. Agostinho!!!

Pálido e trêmulo, o advogado lembrou-se da fama do coronel, e sentiu que iria morrer.

A mulher ainda teve coragem de dizer para o marido:

– Amor, não é nada disso que você está pensando!!!

Humilhado, o coronel falou novamente:

– Sim, senhor!!!

E abrandando a voz:

– Você está correndo o risco de sofrer uma congestão!!!


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