Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 05 de dezembro de 2025

O GALANTEIO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O GALANTEIO

Violante Pimentel

 

O antigo galanteio nada tem a ver com o moderno e despudorado Assédio sexual, definido no Art. 216 do Código Penal, como o ato de “Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente de sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função”.

Tempos atrás, não se falava em assédio sexual, como hoje. O que havia era galanteio. As cantadas “sadias”, saudáveis, galanteios e elogios despretensiosos não eram crimes e podiam até envaidecer a alma feminina, aumentando-lhe a autoestima.

As propostas indecentes sempre existiram, sem que caracterizassem, de fato, crime de assédio sexual, como nos tempos atuais.

Pois bem. Dr. Minora, um conhecido advogado, recebeu em seu escritório uma senhora, bonita e insinuante, 50 anos, que queria contratá-lo para fazer o seu divórcio.

Depois de ouvir os motivos que estavam levando a cliente a pedir a separação, o advogado elogiou a sua beleza e comentou que existia homem idiota, que não enxergava a mulher que tinha ao seu lado.

Na verdade, o advogado era galanteador por natureza e não podia ver uma mulher bonita, que tentava conquistá-la, mesmo que fosse sua cliente.

Sentia um certo fascínio por mulheres casadas, em fase de separação. Sentiu-se atraído pela cliente e os elogios eram verdadeiros.

A mulher sentiu-se gratificada, pois vinha atravessando uma fase de desprezo do marido, que há meses não tinha com ela qualquer relacionamento conjugal. As palavras do advogado massagearam seu ego..

Ao sair do escritório, o Dr. Minora foi com um amigo, Dr. Rildo, também advogado, até o café mais próximo, onde fizeram um lanche e conversaram sobre sua nova cliente. Contou ao amigo os elogios que lhe tinha feito, e se justificou, dizendo que toda mulher gosta de receber elogios, principalmente quando já está entrando na idade madura.

De repente, de surpresa, a esposa do Dr. Minora chegou ao café e sentou-se para lanchar também, junto com o marido e o amigo. Muito bonita e elegante, Rosilda despertou a atenção de quem estava por perto, e o amigo do seu marido. não conseguia deixar de admirar a sua beleza. Teceu-lhe elogios e parabenizou Dr. Minora, pela bela mulher que ele tinha. Disse, ainda, que o Dr. Minora era um felizardo, por ter se casado com uma mulher tão bonita, elegante e simpática.

Ele sempre ouviu Dr. Minora dizer que um homem educado, quando está diante de uma mulher atraente, tem o dever de fazê-la sentir-se admirada. Isso massageia o ego feminino, pois a mulher gosta de elogios.

A indiferença do homem diante de uma mulher bem vestida, perfumada e elegante é humilhante para ela, principalmente quando se trata de uma mulher na idade madura. Vem logo o complexo de velhice, que é o pavor de todas as mulheres.

Baseado no que sempre ouvia o Dr. Minora dizer, o amigo se desmanchou em elogios à sua esposa, que ficou muito envaidecida.

Entretanto, Dr. Minora ficou sério e não gostou do excesso de elogios à sua esposa. Teve uma inesperada crise de ciúme. O amigo se justificou:

– Sempre escutei você dizer que o homem educado tem que elogiar as mulheres.

– É verdade. Mas a minha mulher está fora dessa lista. Somente eu, posso elogiar!!!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 28 de novembro de 2025

O FACÍNORA (CRÔNICA DA COLUNISTA VIOLANTE PIMENTEL)

O FACÍNORA

Violante Pimentel

Homem temido por todos na aldeia, o facínora não teme ninguém, nem respeita a propriedade alheia.

Quase sempre, o facínora exibe comportamento antissocial, é manipulador, mentiroso e lhe falta empatia no trato para com as pessoas. Desrespeita as leis e o direto dos outros.

 

 

As ações de um facínora podem causar danos significativos à sociedade, incluindo violência, injustiça, abuso e violação dos direitos humanos, como sempre se vê.

A sociedade é refém das decisões do facínora, de sua maldade e prepotência. Ai de quem se insurgir contra ele. Chega ao ponto do ser humano achar que contra o facínora, só quem pode é Deus.

Facínoras muitas vezes enfrentam consequências legais por seus atos, pois suas ações podem resultar em danos irreparáveis às vítimas e à comunidade como um todo.

Geralmente, eles exibem comportamentos antissociais, e uma mente doentia, criativa e perigosa. São autossuficientes, megalomaníacos e narcisistas.

O seríssimo tema resultou no filme estadunidense “O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA” (1962), do gênero western, dirigido por John Ford, baseado num conto da escritora Dorothy M. Johnson. É considerado um dos melhores filmes de faroeste de todos os tempos, sendo aclamado tanto pela crítica quanto pelo público.

A obra é frequentemente analisada por sua profundidade temática e pela forma como redefine o gênero western, apresentando uma narrativa que questiona os mitos da fronteira americana (Wikipedia). Explora a transição do Velho Oeste para uma era de lei e ordem, com um elenco estrelado por James Stewart e e John Wayne.

O filme, lançado em 1962, conta a história do senador Ransom Stoddard (James Stwart), que retorna à cidade de Shinbone para o funeral de seu amigo Tom Doniphon (John Wayne). Durante sua visita, um repórter o entrevista e Stoddard relembra sua juventude, quando chegou à cidade como um advogado recém-formado, e se deparou com o pistoleiro Liberty Valance (Lee Marvin), que representava a lei do mais forte em um Oeste dominado pela violência. A narrativa é contada em um longo flashback, onde Stoddard tenta usar a lei para combater Valance, enquanto Doniphon acredita que a força é a única solução.

A história começa quando as pessoas estão preparando um funeral. Um senador dos Estados Unidos e sua esposa estão de volta à pequena cidade de Shinbone, num território do Oeste não identificado (provavelmente, o Colorado, com menções ao Rio Picketwire). O senador começa contar a um jornalista a razão de estar ali para o enterro. Na medida em que os fatos são relatados, aparecem as cenas em flashback.

Contando com antigos atores do cinema mudo, foi o último filme da atriz de seriados Helen Gibson, cujo nome não aparece nos créditos. Foi também o último filme do ator de Western Jack Perrim, igualmente não creditado, que atuou, ainda, em algumas séries de televisão. Assim como foi, também, o nome da atriz Doroty Phillips.

Stuart Holmes, outro ator da era muda, que atuava desde 1909, continuaria a trabalhar e fez seu último filme em 1964.

O senador é Ransom Stoddard, na sua juventude um advogado que acreditava na lei e na ordem, mas que se recusava a carregar um revólver. Ele era amigo de Tom Doniphon, um pistoleiro que via nas armas a melhor forma de fazer justiça.

Doniphon e Stoddard mantiveram um tenso relacionamento, pois ambos se interessavam por Hallie. Hallie acabou preferindo Stoddard, para desilusão de Doniphon. (O personagem de John Wayne chamou de “Pilgrim” seu rival amoroso interpretado por James Stewart, cerca de 23 vezes no filme. O termo acabou se tornando característico de Wayne, sendo continuamente imitado, porém só voltou a usá-lo em McLintock).

Quando o fora-da-lei Liberty Valance retornou faminto à cidade, causou desordem nos salões e restaurantes. Valance temia apenas um homem: Tom Doniphon. O bandido roubara e espancara Stoddard quando este chegara à cidade, obrigando-o a trabalhar no restaurante para pagar pela comida e estadia. Quando viu Stoddard, Valance o provocou, mas Tom intercedeu.

Valance continuou a aterrorizar a cidade. Stoddard decidiu fazer alguma coisa e acabou desafiando Valance para um duelo. Completamente desajeitado com uma arma, Stoddard era, porém, presa fácil para o bandoleiro.

Depois que deixou o bar para duelar com Ransom Stoddard, curiosamente Liberty Valance vencera uma rodada de pôquer com um par de “ases” e um par de “oitos”. (Esta é a famosa “Dead man’s hand” (mão do homem morto), chamada assim porque eram essas cartas que estavam na mão de Wild Bill Hickok, quando quando ele foi assassinado por Jack McCall em Deadwood, Dakota do Sul, em 2 de agosto de 1876).

Mas, quando chegou o duelo, coisas misteriosas e surpreendentes aconteceram. Ao final da narrativa para o jornalista Maxwell Scott, Stoddard revelou quem realmente matara Valance, e perguntou: “Vai usar essa história, Mr. Scott?”. A resposta foi a famosa frase: “This is the West, sir. When the legend becomes fact, print the legend”. (“Este é o Oeste, senhor. Quando a lenda precede os fatos, publique-se a lenda”).


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 21 de novembro de 2025

A NOITE DE NÚPCIAS (CRÔNICA DA COLUNISTA NADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A NOITE DE NÚPCIAS

Violante Pimentel

 

A evolução dos costumes pôs fim ao tabu da sonhada “noite de núpcias”, quando oficialmente ocorria a primeira noite de amor entre o casal, iniciando-se a vida conjugal.

Pois bem. Rosina, moça mimada, muito bonita e rica, foi criada com liberdade, e logo cedo passou a frequentar as festas da alta sociedade carioca. Muito vaidosa, vestia-se com esmero, optando por roupas sensuais, decotadas e coladas ao corpo, que deixavam transparecer suas formas.

Educada no tumulto das rodas elegantes, cujas festas logo cedo passou a frequentar, Rosina tornou-se uma das moças mais cobiçadas da capital.

Convencida da sua beleza, trocava de namorado com frequência, até que, aos 24 anos, conheceu Edmundo, um advogado bem sucedido, que por ela se apaixonou, e, poucos meses depois, com ele se casou.

Mesmo não gostando dos hábitos da noiva, Edmundo aceitava o seu temperamento extrovertido e exibicionista, pois a paixão que ela lhe despertou era maior do que tudo. A sua intenção, no entanto, era modificar o temperamento da noiva, depois de casados. Coisa impossível de acontecer.

Edmundo marcou o casamento, apesar da sua decisão não ter sido vista com bons olhos pela sua família. Mas ele não deu ouvidos a ninguém. Era tão violenta sua paixão, que ele não queria enxergar o comportamento leviano de Rosina.

Trajando sempre os tecidos mais leves e transparentes, sugeridos por figurinos inadequados, os modelos que a jovem escolhia deixavam à mostra uma perna, o colo e as costas. Quanto ao resto do corpo, não havia quem não o adivinhasse, na transparência indiscreta do crepe da China, ou da seda que lhe modelavam sensualmente, os seios e quadris volumosos, e a cintura fina.

Um dia, foram os círculos elegantes surpreendidos com uma notícia sensacional: o Dr. Edmundo Filgueira, um dos advogados mais bem sucedidos da nova geração, havia pedido em casamento a belíssima senhorita Rosina Ferreira, filha do Dr. Peixoto Ferreira, um dos maiores juristas do Rio.

Realizado o casamento, em que Rosina se apresentou com um vestido de noiva mais sensual e provocante do que nunca, e com recepção no mais chique salão de festas da época, o casal seguiu para a lua de mel, hospedando-se no hotel mais badalado dos anos 60.

Ao adentrarem à alcova nupcial do hotel, os noivos exultavam de felicidade e desejo. Envolta, de leve, na seda finíssima de uma camisola transparente, ou melhor, na névoa imperceptível que a deixava nua, a recém-casada fazia lembrar as estátuas de mármore, como Anfitrite, veladas convencionalmente, para o momento da inauguração. Nem Anfitrite, com os pés mergulhados na espuma e vestida, apenas, pela bruma fugitiva do Arquipélago, não seria, talvez, mais nua, e mais bela!

Entreolhavam-se, os dois, na alcova silenciosa, ninho de ouro e seda, armado para um casal de pombos amorosos, quando o noivo se adiantou, e, sorrindo, anunciou à moça, tomando-lhe, carinhosamente, as mãos geladas e brancas:

– Sabes, meu amor, que te preparei uma surpresa?

– Surpresa? Qual? – indagou a noiva, demonstrando curiosidade e aflição.

O noivo suspendeu os travesseiros da cama, e tirando daí um vestido para a noite, comprido até o tornozelo, e composto, com mangas longas, trabalhado em seda branca e opaca, com o decote alto, pediu:

– É para que me faças também uma surpresa, dando-me uma sensação inédita nesta noite de núpcias.

E entregando-lhe o vestido, falou:

– É que eu nunca te vi vestida com uma roupa composta!… Nua, já vi demais!!!

Desapontada, Rosina atendeu ao marido e foram felizes para sempre.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 14 de novembro de 2025

FAVELA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

FAVELA

Violante Pimentel

FAVELA era o nome dado a uma comunidade construída para moradia de pessoas menos favorecidas, no Rio de Janeiro. O nome era simplesmente FAVELA. Depois, criaram-se outras comunidades, acrescentando ao nome favela outro adjetivo.

A origem da palavra “favela” remonta à história do Brasil, especialmente à Guerra de Canudos, no final do século XIX. O termo é derivado da planta “favela”, que crescia abundantemente nas regiões áridas do Nordeste Brasileiro. A partir de 1920, o nome passou a ser utilizado para se referir a conjuntos habitacionais informais, surgindo quando ex-escravos e migrantes rurais se instalaram em morros e encostas das grandes cidades brasileiras.

As primeiras favelas no Brasil surgiram no final do século XIX, principalmente depois da Guerra de Canudos, com a formação do Morro da Providência, no Rio de Janeiro.

O conflito resultou no retorno de cerca de 10 mil soldados ao Rio de Janeiro, que se instalaram em uma área já habitada por ex-escravos. A falta de moradia adequada levou à formação de uma comunidade informal.

A urbanização desordenada e a falta de políticas habitacionais adequadas contribuíram para o crescimento das favelas. Muitas pessoas migraram do campo para as cidades em busca de trabalho, mas sem recursos para alugar ou comprar casas, acabaram ocupando terrenos baldios e áreas de risco.

As favelas, como o Morro da Providência, representam um fenômeno complexo que resulta de uma combinação de fatores históricos, sociais e econômicos. O processo de favelização continua a ser um tema relevante no Brasil, refletindo as lutas por moradia e direitos urbanos até os dias de hoje.

As favelas são uma expressão da desigualdade social, refletindo a exclusão de grupos mais pobres da sociedade urbana. A falta de infraestrutura e serviços básicos são característica marcantes dessas comunidades.

Por outro lado, o lirismo aproveitou a favela, e um número considerável de poetas teve nela a inspiração de belos poemas musicados, que ainda hoje enriquecem o nosso cancioneiro.

Muitas composições romantizaram e ainda romantizam as favelas.

O termo Favela está presente na música brasileira desde a primeira ocupação clandestina dos morros cariocas, sendo cantado pelos mais diferentes pontos de vista, que resultaram nos estereótipos de favela que conhecemos hoje. (ZALUAR; ALVITO, 2004). Após um século de história, tanto preconceito e estigma não retratam mais sua verdadeira face (SILVA; BARBOSA, 2005). A música deu voz às favelas, e hoje o tema fala por si mesmo.

 

 

Favela – Francisco Alves

Favela oi, favela,
Favela que guardo no meu coração
Ao recordar com saudade
A minha felicidade
Favela dos sonhos de amor
E do samba-canção.
{Bis}

Hoje tão longe de ti
Se vejo a lua surgir
Eu relembro a batucada
E começo a chorar
Favela das noites de samba
Berço dourado dos bambas
Favela é tudo que eu posso falar.

Favela oi…{Bis}

Minha favela querida
Onde eu senti minha vida
Presa a um romance de amor
Numa doce ilusão
E uma saudade bem rara
Na distância que nos separa
Eu guardo de ti esta recordação.

Favela oi, …{Bis}


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 07 de novembro de 2025

O BOM E O BOMBOM (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O BOM E O BOMBOM

Violante Pimentel

 

O tempo é inexorável, e com ele se vão nossas ilusões e sonhos não realizados.

Os dissabores e mágoas também se vão e ficam sem sentido.

Às vezes, um “espírito de porco” consegue destruir ilusões e plantar a semente do mal. Não há como se tapar o sol com a peneira. O troféu do mal existe e quem o conquista pode bater no peito e dizer: Consegui puxar o tapete e atrapalhar a vida de alguém. No final, somente as amizades verdadeiras resistem ao espírito do mal.

“Quem é bom, já nasce feito”, diz o ditado. Mas, quem é mal piora a cada dia que se passa. Mesmo assim, há pessoas tão boas, que não enxergam a maldade.

Fazer o bem sem olhar a quem, é bíblico. Mas se a caridade for propagada, passa a ser exibicionismo.

“Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á.” (Sermão da Montanha – MT 5.1-2)

Ajudar alguém, eventualmente, é uma coisa. Mas assumir os problemas dos outros, é outra. Há pessoas que não passam sem ter problemas. E quando não tem, arranjam. Depois, querem que os outros resolvam.

Ninguém tem obrigação de assumir os problemas de ninguém. É aí que está a diferença entre ser bom e ser bombom.

Os invejosos não pensam nas pedras que você encontrou pelos caminhos até chegar onde chegou. Nem na dor que você sentiu, ao machucar seus pés nas pedras. Nem nas lágrimas que você derramou, ao ver seus sonhos desfeitos.

Pois bem.

Seu Jorge, dono de uma pequena fazenda, e sua esposa Efigênia moravam numa cidade do interior nordestino. O casal tinha dois filhos. Muito caridosos, marido e mulher combinavam em tudo e viviam em harmonia. A casa deles estava sempre de portas abertas aos necessitados, como se não tivessem chaves nem tramelas.

Era comum, ao amanhecer o dia, pessoas famintas se encontrarem à sua porta, pedindo o café da manhã. Na hora do almoço, a cena se repetia. Os pobres ficavam na calçada, à espera de comida. O casal não negava um prato de alimento a ninguém, ou uma ajuda em dinheiro, para um remédio ou outra coisa necessária.

Com o passar do tempo, oportunistas passaram a se aproveitar da bondade do casal. Na hora das refeições, sempre chegavam alguns desconhecidos, com conversa mole, praticamente se convidando para almoçar ou jantar. Pediam até dormida.

Até pessoas empregadas, mas sem escrúpulos, tentavam tirar proveito do casal, usando de ardil para conseguir dinheiro “emprestado”, o que terminava em calote.

Com a hospitalidade típica do nordestino, o casal tinha prazer em hospedar, em sua casa, pessoas amigas e parentes.

O fazendeiro ajudava aos necessitados, sem alarde, simplesmente, pelo espírito de caridade. Não era político nem cabo eleitoral.

Entretanto, pessoas sovinas e invejosas, que dão adeus de mão fechada, e são incapazes de dar uma esmola, achavam pouco o que ele fazia e instigavam os pobres para que lhe pedissem muito mais. Diziam que o fazendeiro era muito rico e o que ele dava aos necessitados, para ele, não representava nada. Achavam que ele devia ajudar muito mais.

Isso chegou aos ouvidos do casal, que ficou indignado com a maldade humana.

Para completar sua indignação, o fazendeiro escutou, na cidade, uns malandros combinando para irem almoçar na Fazenda Regalia, na casa de “Zé Besta”. Essa fazenda era, exatamente, a dele.

Depois de uma conversa confidencial com o padre da Paróquia, pedindo orientação de como deveria agir para se livrar dos aproveitadores, o casal ouviu este conselho:

– Ajudar às pessoas necessitadas é exercer a caridade. Vocês são verdadeiros cristãos. Dar comida a quem não tem condições de se manter, é uma gesto sublime. Mas não se deixem explorar por pessoas más, verdadeiros golpistas.

O homem tem obrigação de ser bom. Mas não tem obrigação de ser bombom. Quem se faz de mel, as abelhas comem.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 31 de outubro de 2025

A FEIRA DA MINHA ALDEIA (CRÔNICA DE COLUNISTA MADRE SEPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A FEIRA DA MINHA ALDEIA

Violante Pimentel

Décadas atrás, entrando pelo século passado, a pequena cidade de Nova-Cruz (RN) era paupérrima, “sem água e sem luz” e não dispunha de consultórios médicos, ambulatórios nem hospitais.

A mortalidade infantil era absurda. A criança adoecia à tarde e antes de amanhecer o dia estava morta. Não havia assistência médica nenhuma, e, consequentemente, não havia plantão médico.

 

 

 

 

Chá de canela era o “remédio” que os curiosos indicavam para os bebês, quando de repente ficavam febris, pálidos e choramingando. Foi assim que vi um irmãozinho meu, Galdino, morrer, no dia em que completou sete meses de idade, ao sofrer uma convulsão pela madrugada. Tinha amolecido à noitinha, ficou febril e foi “medicado” por um conhecido charlatão da cidade, que, em sua casa, consultava o povo da roça, dia de feira. O remédio por ele indicado foi chá de canela, achando que deveria ser uma gripezinha.

Nunca esqueci o desespero da minha mãe naquela madrugada, gritando desolada, sem querer acreditar que a criança estava morta. Meu pai, também desesperado, tentava acalmá-la, mas era em vão. Eu tinha pouco mais de quatro anos. Nunca esqueci essa terrível cena, numa madrugada escura e fria.

Pela manhã, a casa se encheu de gente. À tarde, houve o enterro de Galdininho (como minha mãe o chamava), com a presença de familiares da minha mãe, que moravam em Natal. Essas coisas tristes da vida, a gente nunca esquece…

Pois bem. A feira municipal de Nova-Cruz era na 2ª feira. Era considerada a maior feira da região agreste. Começava pela madrugada e se estendia até o final da tarde.

Do balcão da bodega do nosso pai, assistíamos a um verdadeiro espetáculo de cultura popular: As cantigas dos cegos, pedindo esmolas, e insultando uns aos outros, defendendo seus direitos àquele ponto. Era uma verdadeira festa do Cordel. Os desafios eram hilários e maliciosos.

A feira era um verdadeiro encontro ou reencontro de almas. Era um dia divertido, com meu pai, minha mãe e todos os filhos no balcão da venda. Em frente, havia duas barracas que vendiam cocorotes (de coco), bolo branco (hoje chamado “bolo da moça”) e doce americano (geleia de coco). Nunca me esqueci do gosto dos cocorotes. Tudo era uma gostosura.

Mais adiante, chegava um vendedor ambulante, com uma mala cheia de óculos de grau para vender, e formava-se uma fila de pretensos “clientes”, para comprar óculos, cujo grau lhes permitisse ler as letrinhas da caixinha de fósforo “MARCA OLHO”. Esse era o teste para aprovação do grau.

A precariedade da vida em Nova-Cruz forçava o povo a dar preferência aos óculos vendidos pelo ambulante, na feira livre. Além do mais, se o problema fosse apenas “vista curta”, seria mais cômodo e mais em conta comprar os óculos já prontos na feira, do que ter que viajar a Natal, somente para esse fim. Os compradores de óculos ficavam satisfeitos quando enxergavam perfeitamente as letrinhas da caixinha de fósforos “Marca Olho”. Era o sinal de que o grau era aquele.

De Nova-Cruz a Natal são 110km. Entretanto, naquela época (60/70), em estrada de barro, a viagem de ônibus levava de 4 a 5 horas. Durante o inverno, o atoleiro era grande. Por isso, tanto os feirantes da zona rural, como os moradores da zona urbana, eram acostumados a comprar óculos de grau na feira, já prontos. A aprovação dos óculos era 100%, e ninguém reclamava. Meu saudoso tio Paulo Bezerra, por comodidade, também só comprava óculos de grau na feira, e se dava muito bem.

Também na feira de Nova-Cruz, costumava estar presente um homem vestido com uma bata branca, com pose de doutor, que ali armava uma pequena banca e sobre ela mantinha uma garrafada, que continha um ácido para “tirar” sinais da pele. Nessa época, não se falava em carcinoma. A fila de pessoas que pagavam para tirar sinais era grande. Nunca se soube de um insucesso de um desses “procedimentos cirúrgicos”. Hoje, esse homem seria preso por charlatanismo, mas, naquela época, era a salvação do povo que tinha problemas com sinais. Meus tios Paulo Bezerra e Eulina Bezerra chegaram a tirar alguns sinais com ele e os “procedimentos” foram muito bem sucedidos.

Essas lembranças fazem parte da minha saudade. Volto à minha infância e juventude. Essa feira, na minha vida, foi muito mais do que uma simples feira. Ela faz parte das mais belas recordações de Nova-Cruz, com cenários inesquecíveis, que guardo na memória e no coração.

Ave, Nova-Cruz!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 24 de outubro de 2025

COISAS DA VIDA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRCOE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

COISAS DA VIDA

Violante Pimentel

 

Certas atitudes de pessoas que nadam em dinheiro, quase sempre, mostram a pequenez da alma que elas carregam consigo.

Há pessoas muito ricas, mas pobres de espírito. O que elas possuem é apenas o dinheiro. Às vezes, essas pessoas fazem questão de um real e não ajudam a ninguém.

Não é regra geral, mas há certos ricos que fazem questão de “quinhentos réis furados”, sendo incapazes de dar uma gorjeta a um empregado, ou ajudar a alguém. São capazes de desistir de uma compra, por falta de troco de um real.

Essa mesquinharia sempre existiu, desde a época remota em que dinheiro era dinheiro mesmo, não se fazendo representar por cartões de crédito, comandados por “maquininhas.”

Tenho traumas de infância, e um deles foi ter assistido um dos homens mais ricos de Nova-Cruz, político e grande fazendeiro, numa segunda feira de grande movimento, voltar à venda do meu pai, e exigir dele cinco cruzeiros, pois havia lhe comprado um saco de açúcar e depois, no armazém de outro comerciante concorrente, encontrou o mesmo produto por cinco cruzeiros a menos. Sem questionar, mas com a testa franzida de vergonha e indignação, meu pai abriu a gaveta do dinheiro e deu ao riquíssimo fazendeiro os cinco cruzeiros reivindicados.

Com raríssimas exceções, em Nova-Cruz, os políticos ricos oprimiam os cidadãos decentes e bravos trabalhadores, prejudicando sua ascensão na vida. Somente nas campanhas politicas para eleição ou reeleição, os comerciantes honestos eram altamente “considerados”.

Meu pai foi prejudicado pela saúde, sendo acometido por trombose aos 60 anos, e sofreu muitas injustiças, ao ter seu estabelecimento comercial parcialmente demolido por determinação do prefeito da época, o que acabou culminando com o agravamento da sua enfermidade.

A venda do meu pai era a menina dos olhos dele, tão importante quanto a residência da família. Desde os 14 anos, ele foi balconista dessa venda, que depois se tornou sua, quando o antigo dono, já bastante idoso resolveu parar de trabalhar, vendendo-lhe o estabelecimento comercial, num negócio “de pai para filho”. Meu pai doou sua juventude a esse estabelecimento comercial, pois ali trabalhou durante toda a sua vida, afastando-se por doença. Com trinta anos, tornou-se o dono, e foi com essa venda que ele manteve a nossa família, nossos estudos, tornando os filhos pessoas íntegras, verdadeiros cidadãos de bem.

Ele centralizava todas as atividades da venda, e nós, os cinco filhos, éramos ajudantes dele, nos dias de feira. Somente nossa mãe partilhava o dia a dia com ele na venda, pela manhã e à tarde.

Quando a fatalidade atingiu meu pai com a trombose (1972), meu irmão Adriano, o primogênito, já se encontrava na Petrobrás, após aprovação em concurso público. O caçula, Bernardo Celestino, cursava Medicina em Natal, e eu já estava casada, morando em natal, restando em Nova-Cruz Valéria, casada, e Ana Maria. Em suma, no núcleo familiar, não havia ninguém com capacidade de assumir o posto do meu pai à frente do nosso estabelecimento comercial.

A incapacidade laboral do meu pai progrediu e o estabelecimento comercial encerrou suas atividades.

Ele passou a viver com uma pequena aposentadoria do INPS, e pequenos aluguéis de 3 ou quatro casas.

Assim se passaram 12 anos, vindo Francisco Bezerra Souto a óbito em 24 de dezembro de 1984, na Noite de Natal mais triste de nossas vidas.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 17 de outubro de 2025

AMOR À PÁTRIA (CRÕNICA DA COLUNISTA MADRE SEPERIORA VIOLOANTE OIMENTEL)

AMOR À PÁTRIA

Violante Pimrntel

 

Patriotismo é o sentimento de orgulho, amor e devoção à Pátria, aos seus símbolos (bandeira, hino nacional, brasão, riquezas naturais e patrimoniais).

O militar presta serviços à Pátria, e, com o tempo, absorve os hábitos próprios da sua profissão. Acaba se identificando com o quartel, e jamais perderá o jeito de soldado, por mais que o tempo passe.

A influência das armas sobre os militares é tão forte, que eles se reconhecem na rua, mesmo quando vestidos á paisana.

Ao ver, na via pública, um oficial do Exército envergando um jaquetão ou um fraque, a impressão que se tem é de que falta alguma coisa à sua elegância.

Por mais correto que ele esteja vestido nas suas roupas apuradas, lembra-nos, sempre, um tigre metido na pele de um urso, ou um leão enfiado, por modéstia, no couro de um elefante. Sentimos a força, a segurança e o respeito que eles impõem, perante a sociedade.

O rigor e o respeito que a farda militar impõe, mostram-se de modo mais acentuado perante os seus subordinados e cidadãos civis.

Absorvido pelo seu mundo de glória, o soldado revela-se em toda a parte e em todas as circunstâncias: no calor das palestras, na energia da vontade, na severidade da vida, na intransigência das atitudes, na disciplina do porte, e, até, ás vezes, no emprego do vocabulário empregado fora do quartel.

Pois bem. O caso do tenente José Porto Brasil é uma comprovação de que o militar guarda dentro do peito, como relíquia, os ensinamentos absorvidos na vida de quartel. A qualquer momento, poderá dar provas dessa verdade.

Militar elegante, bonito, bravo e decidido, o tenente José Porto Brasil utilizava os dias de serenidade da Pátria, passeando pela Avenida principal da capital, quando viu uma tarde, em certa casa de chá, uma bela mulher, que lhe fez acordar tocando alvorada, todos os clarins do coração. Ousado e destemido, pôs-se logo em atividade, para saber quem seria aquela linda criatura, que tanto mexeu com o seu coração. No dia seguinte, já sabia o suficiente para tentar atacar “aquela fortaleza”.

Ficou sabendo do endereço da mulher e se dirigiu até lá. A casa tinha muro alto e portão de ferro, controlado por um porteiro. O tenente viu o portão se abrir e sair um casal, que, segundo o porteiro, eram os donos da casa.

Decepcionado, ao ver que a bela mulher era casada com um homem alto, bonito e elegante, o tenente viu que era impossível atacar a “cobiçada fortaleza”.

No dia seguinte, por curiosidade, dirigiu-se, novamente, à residência da bela mulher, para se convencer de que, realmente, ela era casada com aquele cidadão. Chegou ao palacete, e, nervoso, tocou a sonora campainha. O silêncio era absoluto na casa, e ninguém atendeu. Duas, três, quatro vezes repetiu ele o sinal, mas inutilmente. Quando, desiludido, já batia em retirada, ouviu um chocalhar de corrente no portão. Voltou-se e viu o jardineiro, que abria a grade para dar passagem ao dono da casa, passando, de novo, a corrente no portão.

Atordoado pelo seu pensamento de aventura, e, não menos, pela consciência da sua superioridade de militar, o oficial não teve dúvidas: parou, deu meia volta, e marchou, firme, no rumo do cavalheiro que saíra de casa. Estacaram, pálidos, um diante do outro, dominados pela emoção.

– Que deseja o senhor? – perguntou, com a desconfiança estampada nos olhos, o marido da bela mulher..

Mão no revólver, disfarçando a tempestade que lhe invadia o coração, o tenente respondeu, com voz trêmula:

– A senha!

E os dois soldados se abraçaram emocionados. Eram velhos amigos, do tempo de quartel, que a vida havia afastado.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 10 de outubro de 2025

JE NE SAIS PAS (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

JE NE SAIS PAS

Violante Pimentel

Um político brasileiro, ex-prefeito de uma cidade do interior nordestino, meteu-se num grupo para fazer uma excursão a alguns países da Europa. Ele, a esposa e outros casais amigos ficaram deslumbrados com a beleza das coisas que viram em Portugal, Inglaterra, Suíssa, França, Itália e Alemanha. Viajaram em uma companhia de turismo, e passaram vinte e quatro dias numa verdadeira maratona.

 

 

Com uma semana de excursão, o prefeito e a esposa, marinheiros de primeira viagem, já estavam com saudade da comida brasileira, do povo e, principalmente, da cama e dos seus travesseiros. Exaustos do corre-corre, de terem de acordar cedo, com hora marcada, passar várias horas viajando de ônibus, não viam a hora de voltarem para o Brasil. Cumprindo o roteiro organizado pela companhia de turismo, visitaram tudo o que havia de museu, igrejas e monumentos históricos.

Acostumados a uma alimentação substanciosa, praticamente passaram fome na Europa, pois a alimentação era muito leve, e quase sem tempero. Nunca imaginaram que iriam sentir tanta falta da comida brasileira, principalmente da feijoada, do arroz e da carne de sol. Comiam, quase sempre, para saciar o vazio do estômago, sem gostar nem um pouco da comida.

Em Paris, num momento de folga da excursão, o ex-prefeito Damião afastou-se do hotel com a esposa Marlete, e os dois deram uma volta no quarteirão. Convém salientar que o casal mal sabia ler e escrever.

Em palanque político, Damião era um excelente orador. Decorava com facilidade discursos elaborados por um dos seus assessores, e sempre se dava bem. Entretanto, quando abria a boca para falar, sem discurso escrito por outrem, era um desastre.

Nessa volta que Damião deu com a esposa, os dois tiveram oportunidade de ver um cortejo fúnebre que passava, cheio de aparatos e luxo, que denotava tratar-se de alguém muito importante naquele país. Damião, semianalfabeto, não sabia português e muito menos o idioma francês. Ansioso para saber de quem era aquele enterro tão importante, perguntou a um homem que estava parado, assistindo ao cortejo fúnebre:

– Amigo, de quem é este enterro?

“Je ne sais pas” – respondeu o desconhecido.

Para confirmar o que ouvira, Damião afastou-se e perguntou a uma senhora:

– Senhora, de quem é este enterro?

A resposta da mulher foi a mesma do homem:

“Je ne sais pas”.

O casal voltou para o hotel.

Uma semana depois, a excursão terminou e os turistas retornaram ao Brasil.

Quando já havia chegado à sua cidade, o ex-prefeito fez questão de receber seus parentes para jantar, para contar como foi a excursão.

Muito conversadores, Damião e Marlete contaram todos os detalhes do passeio maravilhoso que haviam feito, o que para eles foi um verdadeiro conto de fadas. Para não dar gosto a ninguém, omitiram a parte chata da excursão, que foi a cansativa correria, uma verdadeira maratona, e o fato de terem achado a comida péssima. Só contaram coisas boas, de dar inveja a quem nunca foi à Europa. Um compadre, que estava presente, perguntou a Damião:

– Mas me diga, compadre, o que foi que você viu de mais bonito nesse passeio à Europa?

Damião respondeu:

– O enterro de um homem muito importante em Paris, chamado “Je ne sais pas”. Foi a coisa mais bonita que eu vi!!!A


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 03 de outubro de 2025

O QUE MAIS TEMES NA VIDA… (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O QUE MAIS TEMES NA VIDA…

Violante Pimentel

Anna Lima, avó materna desta colunista

 

Nada mais chocante para uma mulher do que a realidade inexorável do tempo. É quando ela se olha no espelho e tem que aceitar que “já não tem 35 anos”. Não existe maior desilusão do que essa. Umas tentam “amarrar” a idade, querendo competir com as jovens, na maneira de se vestir, o que se torna ridículo. Outras, travam uma luta permanente contra o envelhecimento, apelando para tratamentos estéticos e até cirurgias plásticas. Mas não adianta tentar esconder o sol com a peneira. Esses tratamentos tem prazo de validade.

Está provado que 90% do sexo feminino tem pavor à velhice. A autoestima tende a baixar e, às vezes, isso provoca até depressão. Mas cada idade tem sua beleza e seu charme. O importante é que a pessoa “nunca desista dos seus sonhos”, como recomenda Augusto Cury em sua excelente obra.

A reação contra o envelhecimento não é marca registrada das mulheres. Geralmente, os homens, também, tem pavor a essa realidade. Tem medo de perder a virilidade, um fato difícil de esconder. Alguns pintam os cabelos e o bigode, achando que ficarão mais jovens. Entretanto, com isso, às vezes se tornam menos bonitos, pois renunciam ao charme de um cabelo grisalho.

Certos cuidados para com uma pessoa “madura”, apesar de lhe serem dispensados como cortesia, são recebidos, também, como uma forma de discriminação.

“Pois não, senhor!” “Senhora, por favor, sente aqui nesta cadeira!” “O (a) senhor (a) é preferencial! “ “Qual é o segredo da senhora(o) estar tão jovem?” “Tomou o elixir da juventude?” “Quando é que se aposenta?”

Essas frases soam aos ouvidos das pessoas maduras, como um aviso reiterado de que o tempo áureo de suas vidas já passou.

Em Natal (RN), havia um senhor idoso, Seu Amadeus, que negava tanto a idade, que esquecia de que seus três filhos também estavam envelhecendo. Nenhum deles sabia, ao certo, a idade do pai.

Certa vez, em uma roda de amigos, no Bar do Caranguejo, um dos presentes perguntou a Seu Amadeus a sua idade. Em cima da bucha, ele respondeu:

– Tenho 65 anos… – na realidade, ele contava 78.

O filho de Seu Amadeus, que tinha tomado umas cervejas e estava “puxando fogo”, rindo muito, interferiu na resposta:

– Eita, pai! Estou quase pegando o senhor!!!

A gargalhada dos amigos de Seu Amadeus foi grande. Isso deixou o idoso irritado, o que fez com que se retirasse dali imediatamente.

Ficou “de mal” com o filho durante vários dias, e também se afastou do bar por algum tempo.

Evocando Anna Lima, minha avó materna, “poetisa do Assu”, conforme arquivos literários do Rio Grande do Norte, certa vez lhe perguntaram em um “álbum de recordações”:

– O que mais temes na vida?

Resposta da poetisa:

A idade caprichosa,
Que faz da moça bonita,
Uma megera maldita
Uma carcaça horrorosa.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 26 de setembro de 2025

O MODISMO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SEPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O MODISMO

Violante Pimentel

 

Com o passar do tempo, os costumes se modificam, no que tange aos hábitos de alimentação, vestuário e vocabulário, abrangendo agora o gênero não binário. A intenção é se introduzir na língua portuguesa novos vocábulos quem nem todas as pessoas aceitam. Trata-se da linguagem neutra usada em eventos do atual governo.

Em algumas cerimônias de posse de novos ministros, foram utilizadas expressões neutras para que pessoas não binárias (que não se identificam nem com o gênero masculino nem com o feminino) ou intersexo, se sintam representadas..

Oradores e comunicadores adotaram a mania de iniciar suas falas com a saudação “brasileiros e brasileiras”. Mas nas reuniões especializadas, a expressão muda para “doutoras e doutores”, acadêmicos e acadêmicas, professores e professoras, eleitores e eleitoras, etc.

As feministas não aceitam ser saudadas implicitamente pelas expressões masculinas tradicionais.

A novidade, agora, é a saudação “Todos, todas e todes”, que, francamente, incomoda aos ouvidos. Um exagero na nossa língua.

Os políticos tem modificado a forma de se iniciar um discurso.

Desde criança, gosto de circo e até hoje sou fã da inteligente saudação circense, “Respeitável Público!”

Bonita e cordial, essa expressão abrange a todos que estiverem presentes ao espetáculo. Com a sabedoria da tradição, a expressão junta homens e mulheres no mesmo saco, colocando-os no mesmo pé de igualdade. Ninguém se sente diminuído, e todos de consideram respeitáveis.

Ao que tudo indica, um importante político brasileiro, José Sarney, foi o primeiro a usar a expressão “brasileiros e brasileiras” para iniciar um discurso. A moda pegou, e hoje todos usam, nos discursos, a saudação com distinção de gênero, como se a humanidade fosse composta de dois seres especiais. Esqueceram que a raiz do homem e da mulher é uma só. A humanidade é uma só.

No nosso País, somente na saudação Circense, “Respeitável Público” o homem e a mulher se encontram no mesmo patamar, sendo respeitado o princípio constitucional da igualdade, contida no Art. 5º da Constituição Federal.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 19 de setembro de 2025

A MENTIRA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A MENTIRA

Violante Pimentel

Há pessoas que mentem descaradamente, por prazer ou leviandade. Mentem, como diz o ditado popular, por todos os dentes da boca.

Conheço mentirosos inveterados. Criam uma história com esmero, e todos acreditam. Para mim, a mania de mentir representa falta de caráter. Geralmente, o mentiroso é trambiqueiro ou golpista.

Se cada mentira fosse dinheiro, essas pessoas estariam milionárias. E se por cada mentira lhe caísse um dente, estariam completamente banguelas. Haveria uma população somente de pessoas desdentadas.

Houve época em que o castigo para a pessoa mentirosa era a extração dos dentes. Quando se via um banguelo, já se sabia que fora castigado por mentir demais e levantar falsos e calúnias.

Conta a história que, no ano de 974, o Conde de Castela expediu uma carta de foral aos moradores de Castro Xariz (Portugal), e num dos parágrafos, justamente aplicado ao mentiroso, quando processado em juízo, encontra-se a pena que a imaginação popular, ainda hoje, julga indispensável como punição ao réu:
A extração de dentes do mentiroso.

“Foral” era o nome da legislação elaborada por um rei, com o intuito de regulamentar a administração de terras conquistadas e que dispunha ainda sobre a cobrança de tributos e quaisquer outros privilégios
“forais de D. Afonso”

Dizia o foral:

“Se entre nós e ele ocorreu caso de calúnia, proceda-se a inquérito legal da nossa e da sua parte, e se alguém der testemunho falso, provando, arranque–lhe o Concelho, a quinta parte dos dentes”.

(Concelho tem sua origem na palavra em latim concilium).

Está muito distante a legislação que apenas confirmava direito consuetudinário vigente, secularmente anterior.

Na voz do povo, esse costume de se extrair dentes do mentiroso deveria ter continuado até hoje. O que haveria de banguelos no nosso país não daria para se contar.

Há mentirosos natos, que mentem por prazer e não tem vergonha de mentir. Acham-se altamente inteligentes, quando, na verdade, não passam de pessoas sem caráter e sem escrúpulos.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 12 de setembro de 2025

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

Violante Pimentel

Por mais que a noite seja escura, um novo dia sempre raiará e o sol voltará a brilhar.

Inesperadamente, o redemoinho político que toma conta do nosso País, ao que tudo indica, começou a ser debelado. As injustiças e perseguições políticas, ontem, foram escancaradas, não dando mais para esconder.

 

Ofendidos e humilhados serão absolvidos das garras dos carrascos e poderão continuar vivendo com liberdade, saúde e sem humilhações.

Mas o mal praticado contra brasileiros, que tiveram seus anos de vida diminuídos pelo sofrimento e humilhação, somente Deus poderá perdoar. E o acerto de contas, o tempo fará.

Pois bem. Um frade estava ao confessionário, atendendo a dezenas de fiéis. Até que ouviu, em confissão, uma mulher, que tinha levantado um falso muito grave a alguém, uma injúria, com sérias consequências. Anos depois, estava arrependida, e pedia que o confessor a perdoasse. Diante da gravidade do caso, o frade lhe sugeriu que conseguisse um saco de açúcar vazio, de 60 quilos, e procurasse enchê-lo de penas, voltando, em seguida, à Igreja. Até que chegou o dia em que a mulher se apresentou diante do confessor, levando o saco cheio de penas, conforme ele lhe havia ordenado.

O frade mandou, então, que ela subisse até a torre da Igreja, levando o saco de penas, e, lá de cima, despejasse todo o conteúdo ao vento. Realizada a tarefa, o frade ordenou que a mulher descesse da torre da Igreja, levasse o mesmo saco, e procurasse juntar todas as penas que jogara dali e que o vento havia espalhado pela cidade. Quando ela conseguisse juntar todas as penas, deveria voltar à Igreja, para receber a absolvição. Esse dia nunca chegou, pois é impossível juntar novamente um saco de penas, jogadas ao vento.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 06 de setembro de 2025

PRA NÃO MORRER DE TRISTEZA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

PRA NÃO MORRER DE TRISTEZA

Violante Pimentel

A passagem do tempo modifica nosso estado de espírito, e as alegrias passam a ser outras. Aliás, hoje temos mais decepções do que alegrias.

O tempo da delicadeza já passou, e estamos vivendo o tempo da traição, da gatunagem, da falsidade e o remédio que temos é esperar um milagre brasileiro, caso a esperança de tempos melhores ainda exista. Acho difícil.

Não adianta mais o trabalho de formiguinhas. O modo de vida das cigarras é mais respeitado.

Não se respeita mais a história de vida de uma pessoa, nem os valores morais. A imoralidade reina e domina a sociedade em que vivemos.

Vemos pessoas de bem, ofendidas e humilhadas, enquanto os asseclas de Nero dominam o mundo e punem com severo rigor crimes imaginários.

A volúpia do poder domina os asseclas de Nero.

É no embrião do processo político, alianças e rupturas, que o demônio do poder se manifesta.

Parece haver limites para o poder, mas, na realidade, no subsolo das paixões, tudo se permite, de acordo com a conveniência do momento. A volúpia do poder é infinita.

Diz o dito popular: ” quem está na chuva tem que se molhar”. Mas há pessoas que mesmo sem chuva, vivem molhadas.

É mais fácil tirar o cavalo da chuva antes que ela caia, do que ter que enxugá-lo depois de molhado.

O modismo trouxe à tona, em processos penais, a figura da delação premiada.

Nos dias atuais, nas fases de investigações e denúncias, as porteiras da delação se escancaram e os mais comprometidos rapidamente negociam os respectivos prêmios, proporcionais ao valor da delação. Todos podem recorrer a ela, na esperança de receber recompensa. Sua forma contemporânea ganhou destaque com a Lei dos Crimes Hediondos (Lei nº 8.072, promulgada em 25 de julho de 1990). Entretanto, seu ápice ocorreu com a Lei das Organizações Criminosas (Lei nº 12.850, der 2 de agosto de 2013). Sua aplicação é polêmica, tanto do ponto de vista moral como do jurídico.

A delação abre a possibilidade de serem valorizadas acusações criminosas, nem sempre verdadeiras. Por isso, ao longo do tempo rola esta verdade:

Aproveita-se a delação, mas se despreza o delator, pela comprovada falta de caráter.

Que Deus ajude os ofendidos e humilhados, livrando-os da maldade dos asseclas de Nero!

E pra não morrer de tristeza, vamos apelar para a música, o remédio da alma.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 29 de agosto de 2025

O COLECIONADOR (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O COLECIONADOR

Violante Pimentel

(The Collector (bra: O Colecionador) é um filme de suspense anglo-americano de 1965, dirigido por William Wyler e estrelado por Terence Stamp e Samantha Eggar.

Seu enredo envolve um jovem inglês que persegue uma bela estudante de arte, antes de sequestrá-la e mantê-la em cativeiro no porão de sua fazenda rural. É baseado no romance homônimo de 1963, de John Fowles, com o roteiro adaptado por Stanley Mann e Juhn Kohn.

 

 

O Colecionador (The Collector) estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 1965, onde Terence Stamp e Samantha Eggar ganharam os prêmios de Melhor Ator e Melhor Atriz, respectivamente.

Depois do seu lançamento em junho de 1965, o filme recebeu críticas amplamente favoráveis.

Samantha Eggar ganhou um Globo de Ouro de melhor atriz em filme dramático, por seu desempenho, e também foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, enquanto Wyler recebeu uma indicação para Melhor Diretor.

Sinopse:

Frederick Clegg (Terence Stamp) é um homem tímido, que trabalha como balconista em uma prefeitura. Os amigos o ridicularizam, principalmente pelo seu hábito de colecionar borboletas. Quando o destino resolve torná-lo ganhador da loteria, ele passa a planejar o sequestro da jovem Miranda (Samantha Eggar), uma bela estudante de arte, por quem ele nutria grande paixão.

Ele estuda todos os lugares por onde ela passa e então prepara uma armadilha. Usando clorofórmio, ele a sequestra e a mantém prisioneira em um grande casarão, comprado com sua nova fortuna. A partir daí, há um duelo psicológico entre a prisioneira e o carcereiro. Miranda é dominadora em tudo, na relação com Freddie, excetuando-se o fato de estar como sua prisioneira.

Vendo-se sem saída para escapar do cativeiro, Miranda finalmente resolve se entregar ao amor de Freddie, mas, para seu desespero, ele a repele sob a alegação de que seu amor não é carnal.

Principais prêmios e indicações:

Samantha Eggar ganhou o Globo de Ouro de 1966, na categoria de melhor atriz dramática.

O ator Terence Henry Stamp, era inglês, conhecido pelos sofisticados papéis de vilão e, premiado nos festivais de Cannes e Berlim.

Um ícone sexual da década de 1960, Terence Stamp namorou estrelas famosas tais como Julie Christie e Brigitte Bardot, além da modelo Jean Shrimoton. Foi escolhido pela revista Empire como uma das 100 estrelas mais sexys da história do cinema.

Stamp nasceu em Bow, Londres, em 22 de julho de 1938. Seus pais, Thomas e Ethel, tiveram cinco filhos no total, dos quais Terence era o mais velho. Seus primeiros anos ele passou no Canal Road Bow, no extremo leste de Londres, mas mais tarde em sua infância a família se mudou para Plaistow, West Ham, em Londres. Seu irmão, Chris Stamp, é um creditado empresário de rock ‘n roll, que ajudou a trazer a banda The Who à proeminência durante a década de 1960. Ele cresceu idolatrando o ator Gary Cooper, depois que sua mãe o levou para ver o filme Beau Geste, com 3 anos de idade.

Ao terminar a escola, Stamp trabalhou em uma variedade de agências de publicidade em Londres, conseguindo trabalhos pelo caminho, até conseguir um bom salário. No meio da década de 1950, ele também trabalhou por um tempo como assistente do golfista profissional Reg Knight na Wanstead Golf Club em East London, descrevendo esse período de sua vida de forma muito positiva em sua autobiografia (Stamp, 1987). No fundo, ele queria ser um ator. A percepção veio quando se encontrou numa situação em que não tinha mais para servir a dois anos de serviço nacional, após ter sido rejeitado por uma vez e ter tido tratamento para seus pés.

O filme de estreia de Stamp foi Term of Trial (1962), no qual atuou com Laurence Olivier. Pouco tempo depois foi um dos protagonistas no filme seguinte, uma adaptação dirigida por Peter Ustinov de uma história de Herman Melville, Billy Budd (1962). Sua interpretação do personagem título causou boa impressão e foi indicado ao Oscar, consolidando sua carreira de ator cinematográfico.

Vários grandes diretores trabalharam com Stamp:

William Wyler em The Collector (1965) (filme que de fato projetou o ator) e Joseph Losey em Modesty Blaise (1966), por exemplo. Este último filme foi produzido por Joe Janni, com quem o ator viria a participar de mais dois projetos: a adaptação de John Schlesinger de Far From The Madding Crowd, com Julie ar From The Madding Crowd (1967), com Julie Christie e o primeiro filme para o cinema de Ken Loach Poor Cow (1967). Ele foi cogitado para estrelar Alfie (1966) mas preferiu filmar Scraps the Rabbit (1966).

Stamp, então, foi para a Itália e trabalhou com Frederico Fellini num dos segmentos de uma obra de 1968, inspirada em Edgar Allan Poe. Stamp morou naquele país por muitos anos e colaborou também com Pier Paolo Pasolini em Teorema (1968), e com Nelo Risi em Una Stagione all’inferno (1971). Depois da namorada, a supermodelo Jean Shrimpton, ter lhe deixado, Stamp viajou para Índia e por lá permaneceu por vários anos para estudo e meditação. Voltou ao trabalho de ator na segunda metade dos anos 70 e se destacou no papel do vilão General Zod no filme Superman (1978), o qual também reprisou em Superman II (1980). Em 1984 apareceu no papel que muitos consideram o seu melhor desempenho, no filme de Stephen Frears The Hit (1984). Participou de Wall Street e Young Guns, depois alguns papéis menores, mas chamativos, como o da transexual Bernadette em As aventuras de Priscila , a Rainha do Deserto (1994), lhe mantiveram em evidência.

Seu papel de gângster vingativo em The Limey (1999) foi criado especialmente para ele pelo diretor. No mesmo ano participou do clássico de George Lucas Star Waer Episode I: The George Lucas Star Wars Episode I: The Phantom Menace, onde interpretou o papel do Chanceler Supremo Finis Valorum, antes de Palpatine assumir sua posição. Fez a voz de Jor-El na série Smallville, e alguns filmes como Elektra, My Boss’s Daugther, Get Smart, Yes Man, onde interpretou o mentor de Jim Carrey, Valkyrie e os Jim Carrey, e Os Agentes do Destino.

 

Terence Stamp - AdoroCinema

Terence Henry Stamp (Londres, 22 de julho de 1938 – 17 de agosto de 2025).


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 16 de agosto de 2025

NATAL E A SEGUNDA GUERRA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

NATAL E A SEGUNDA GUERRA

Na Base Aérea de Natal, avião com homenagem a Maria Boa

 

Quando se fala da reviravolta social que houve em Natal, com a permanência dos americanos durante a II Guerra, abre-se uma fonte inesgotável de narrativas.

No dia 28 de janeiro de 1943, o presidente americano, Franklin Delano Roosevelt, teve um encontro em Natal com o presidente Getúlio Vargas.

Rafael Fernandes, então governador do Rio Grande do Norte, sem saber das ilustres visitas, foi convidado a comparecer à Base Naval sozinho, e lá chegando, tomou enorme susto, ao ver os dois presidentes.

No encontro, foi confirmada a utilização de Natal como base de conexão para as tropas americanas e discutido plano de prevenção quanto a um possível ataque nazista ao Hemisfério Sul, a partir de Dakar, no Senegal. O motivo da escolha foi o fato de Natal ser a cidade brasileira mais próxima do continente africano (3 horas de voo em jatos de hoje e 8 horas para os aviões de 1943, de Natal a Dakar, no Senegal).

Também foi acertado o envio de tropas brasileiras ao “front”.

De 1943 a 1945, portanto, funcionou em Natal, o principal quartel general dos países aliados no Hemisfério Sul.

Natal recebeu 15 mil soldados americanos. A população parecia ter duplicado.

A Base Aérea e a “pista”, ligando Natal a Parnamirim, foram construídas, em tempo recorde, envolvendo 6 mil trabalhadores. A Base Naval também foi construída nesse período.

Natal era uma “ponte” para todos os voos americanos que levavam militares das três armas, rumo à África ou aos combates do Atlântico Sul.

Em 1943, no auge do conflito, Parnamirim era o aeroporto mais congestionado do mundo, alcançando o número de 800 pousos e decolagens num dia de pico.

As jovens natalenses suspiravam, ao ver as ruas de Natal, diariamente, cheias de soldados americanos, loiros de olhos azuis.

Natal passou a ser a cidade mais badalada do Nordeste.

Os americanos se divertiam e circulavam em Natal, pelas praias, cinemas, lojas, igrejas, cabarés, Lagoa do Bonfim, e paqueravam nas pracinhas.

Minhas saudosas tias Carmen e Gilka, filhas do meu avô materno, Celestino Pimentel, professor catedrático da língua inglesa em Natal, inclusive Tradutor Oficial durante a Segunda Guerra, na época jovens, dominavam o idioma inglês fluentemente, e logo fizeram amizade com vários americanos. Inclusive, depois da Guerra tia GILKA foi convidada para trabalhar nos Estados Unidos, no Consulado Brasileiro e terminou se casando “de papel passado”, com um americano, seu chefe. O casamento durou até o fim da sua vida. Os dois tiveram um casal de filhos, que ainda hoje moram na Califórnia.

Como consta nos registros de historiadores potiguares, houve uma grande interação cultural entre norte-rio-grandenses e americanos.

Natal foi a primeira cidade do país a ter Coca-Cola, ketchup, chicletes, roupas “Jeans” e óculos “Ray-ban.

O modo de vida descontraído, dos americanos em Natal, foi influenciando, cada vez mais, a sociedade potiguar. O hábito dos homens fazerem a barba com frequência e não usarem paletó para entrar nos cinemas, causou um rebuliço nos costumes. Tomavam banho de mar, usando calções curtos de helanca, enquanto os natalenses usavam calções compridos.

De repente, as mulheres passaram a usar calças compridas, maiô aberto nas costas, sair com as amigas sem a companhia dos pais, frequentar festas, fumar e beber, principalmente Cuba-Libre. Houve uma verdadeira revolução nos costumes.

A invasão do Jazz, Charleston, Blues e do Fox-trot desbancaram o tango argentino em Natal.

Os americanos não podiam passar sem Coca-Cola. Por isso, logo instalaram em Parnamirim um engarrafamento, o primeiro do Brasil, quarto país do mundo a consumir esse refrigerante, depois dos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra.

Na cantina do “PIÉCS”, para deleite dos nativos, a Coca-Cola saía de torneiras.

O “PIÉCS” era a grande atração de Parnamirim, pelos preços e novidades. Era uma enorme loja, onde se vendia quase tudo: “gadgets” , como isqueiro químico (ao invés de chama, incandescia uma telinha), fósforos de riscar na sola do sapato, óculos Ray-Ban, relógios, tecidos, blusões de couro, calçados, perfumes, vidros de confeitos, latas de biscoitos etc,

Quanto à vida noturna, Natal nunca foi tão agitada. Os soldados americanos ofereciam festas, semanalmente, na base de Parnamirim, e ainda mandavam ônibus para levar e trazer moças da sociedade natalense, sempre com “chaperones” (acompanhantes mais velhas e casadas, às vezes as próprias mães das jovens). Isso gerou a revolta dos rapazes de Natal, que apelidaram os ônibus de “Marmita”, e os vaiavam constantemente.

Pois bem. Maria de Oliveira Barros veio de Campina Grande para Natal, na década de 40, em plena juventude. Ao chegar, aqui instalou uma requintada casa noturna (Cabaré), no período em que reinava na cidade ampla prosperidade, decorrente do estabelecimento da base militar americana em Parnamirim.

Aproveitando o fluxo de soldados e grandes personalidades políticas, Maria Boa fazia questão de ostentar “glamour” em seu estabelecimento. Tornou-se uma “grande dama”, que respeitava e era respeitada pela sociedade natalense.

 

Maria de Oliveira Barros, a dona de cabaré Maria Boa

 

Primava pela boa qualidade dos serviços prestados pela casa; interferia na escolha das “operárias do sexo”, que eram submetidas a rotineiros exames de saúde, e seu gosto predominava na arquitetura do ambiente.

Por trás da “Dama do Cabaré“, estava a figura discreta e íntegra de Maria de Oliveira Barros, grande empresária, que avalizava títulos bancários para alguns figurões locais.

Cabaré era o local de trabalho das damas da noite. Não se confundia com boate, casa de massagens, casa de “strip”, “relax para homens” e outros templos do prazer carnal. Nele, havia uma proprietária, geralmente uma mulher séria e respeitável, conhecedora dos mistérios revelados à meia luz. Essa mulher recebia em sua casa, várias jovens, que, repetindo sua própria história, um dia haviam fugido de casa ou sido colocadas para fora, pelo pai, por terem perdido a virgindade, ou engravidado, sem promessa de casamento.

Natal era influenciada pelos filmes de Hollywood, trazidos pelo próprio exército norte-americano. Maria Boa, em plena juventude, foi fortemente influenciada pela moda e estética dos filmes. Vestia-se com roupas costuradas à mão, usava saltos altos, e copiava os modelos das atrizes de Hollywood.

Seu cabaré tornou-se uma referência turística, e era conhecido no Brasil e internacionalmente, pelo nome de “Casa de Maria Boa”.

O recato e compostura, com que a empresária procurou envolver sua vida e as atividades de seu Cabaré a transformaram num mito. Era considerada uma verdadeira dama. Dona do mais diferenciado cabaré que existiu em Natal, com mulheres selecionadas pela beleza, postura e educação.

O cabaré de “Maria Boa” era frequentado por políticos, empresários, advogados e outras figuras endinheiradas e importantes. Sua fama se eternizou nas telas do cinema, através do filme “For All – O Trampolim da Vitória (vencedor do Festival de Gramado de 1997), de Luiz Carlos Lacerda e Buza Ferraz.

O filme retrata Natal, capital potiguar, em 1943, quando a base americana de Parnamirim Field, a maior base fora dos Estados Unidos, recebe 15 mil soldados, que vão se juntar aos 40 mil habitantes da cidade.

A personagem central se chama “Maria Buena”.

A chegada dos americanos a Natal gerou perspectivas de progresso material e resultou em muitos namoros e casamentos. Para as jovens casadoiras, eles eram os sonhados “príncipes encantados”.

Depois da guerra, a Base Aérea de Natal homenageou Maria de Oliveira Barros, pintando o nome “Maria Boa” no lado esquerdo da fuselagem do nariz do avião B-25 J 5071.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 08 de agosto de 2025

LÁGRIMAS DE UM JABUTI (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

LÁGRIMAS DE UM JABUTI

Violante Pimentel)

Rosinha, uma jovem que ama os animais, ganhou de presente da mãe um bebê-jabuti, que vinha sendo criado em apartamento.

Com o passar do tempo, o jabuti começou a crescer muito, já atingindo 20 centímetros de diâmetro. O espaço em que era criado tornou-se pequeno e desconfortável para o seu desenvolvimento.

Uma prima de Rosinha, vendo a limitação do espaço em que o jabuti estava sendo criado, se prontificou a assumi-lo e foi feita a mudança do pequeno animal para a sua casa, onde há quintal, e onde ele teria mais espaço para se movimentar.

Mesmo com muita saudade do jabuti, Rosinha optou por transferi-lo para a casa da prima, onde ele teria melhor qualidade de vida, e mais espaço.

O que ninguém imaginava era que o jabuti fosse sofrer tanto com a mudança. Vivendo nesse habitat há quase três anos e convivendo diariamente sob os cuidados de Rosinha, que lhe tratava com muito carinho, nada lhe parecia melhor do que o ambiente onde vivia.

Ao perceber que estava sendo levado para outro ambiente, o jabuti encheu os olhos de lágrimas e chorou em silêncio, copiosamente, como choram os seres humanos. Esse fato constrangeu Rosinha, que também não sustentou as lágrimas e chorou o resto do dia.

Ninguém pode imaginar o apego que os animais tem aos seus donos, quando são tratados com amor.

Os animais sentem tanto uma separação, quanto os seres humanos.

Jabuti, jaboti (do tupi iaboti) ou jabutim é a designação vulgar, utilizada no Brasil, para duas espécies de répteis providos de carapaça, exclusivamente terrestres, nativos da América do Sul, do gênero Chelonoidis, da ordem dos quelônios, da família dos testusdinídeos. As duas espécies de jabuti distribuídas no Brasil são a Chelonoidis carbonaria (jabuti-piranga) e a Chelonoidis Chelonoidis denticulata (jabuti-tinga). A fêmea dos jabutis é chamada jabota. Seus parentes mais próximos (inclusive pertencentes ao mesmo gênero Chelonoidis) são a Tartaruga do Chaco (Chelonoidis chilensis, as vezes referida como Jabuti-argentino pelos brasileiros) e a Tartaruga-das galápagos (Chelonoidis nigra).

São encontradas duas espécies de jabuti no Brasil, com ampla distribuição:

Jabuti-piranga (Chelonoidis carbonaria; do tupi “jabuti vermelho”), distribuída em estados do Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil .

Jabuti-tingaJabuti-tinga (Chelonoidis denticulata; em tupi, jabuti branco ou claro), menos comum, distribuída em estados do Norte, Nordeste e Centro-oeste. Esta espécie prefere florestas tropicais densas, como a Mata Amazônica, porém raramente pode ser encontrada em áreas mais abertas.

São animais que possuem casco convexo — carapaça bem arqueada — e pernas grossas e adaptadas à vida terrestre. A carapaça é uma estrutura óssea formada pelas vértebras do tórax e pelas costelas. Funciona como uma caixa protetora na qual o animal se recolhe quando molestado. É revestido por escudos (placas) córneas. Os jabutis podem chegar aos 70 cm de comprimento aos 80 anos. Sua expectativa de vida é de 80 anos, porém, havendo registros de animais alcançando 100 anos.

A carapaça do jabuti é preta e possui um padrão em polígonos de centro amarelo e com desenhos em relevo. A cabeça e as patas retráteis são de um tom de preto fosco, com manchas vermelhas, ou amarelas, a depender da espécie. O plastrão é reto ou convexo nas fêmeas e côncavo nos machos, justamente para encaixarem nas fêmeas por ocasião da cópula.

Possuem hábitos diurnos e gregários (vivem em bandos) e passam o tempo em busca de alimento, podendo percorrer grandes distâncias. Eles são onívoros, e uma alimentação equilibrada deve ter folhas e legumes; frutas e proteína animal.

Em cativeiro os Jabutis podem ter sua dieta complementada por 50% de ração canina de boa qualidade. A ração pode ser umedecida com água para amolecer, o que é importante na alimentação de filhotes. O restante da dieta deve conter frutos variados (uvas, bananas, pera e maçã) e verduras (couve e almeirão). Também pode ser oferecido, ocasionalmente, carne moída crua e ovos cozidos. Por outro lado, nunca oferecer leite ou derivados, que não são digeridos pelo animal. É importante também um suprimento de cálcio, que pode ser fornecido pela farinha de osso. Os jabutis não possuem dentes. No lugar deles há uma placa óssea que funciona como uma lâmina. Os jabutis podem virar caso tentem cruzar algum obstáculo e é comum os machos virarem durante a cópula. Nesse caso, sem ter como se desvirar, o animal pode morrer. Os jabutis precisam de água fresca para viver, e não apenas a água dos alimentos. Por serem exclusivamente terrestres, e sem capacidade de nadar, a morte por afogamento infelizmente é muito comum.

O jabuti é considerado pela legislação como um animal silvestre. Por isso para tê-lo em domicílio, segundo a legislação brasileira, é preciso que seja oriundo de um criadouro e registrado junto ao órgão ambiental.

Até 2011 esse registro era realizado pelo IBAMA. Atualmente os órgãos estaduais de Meio Ambiente é que detêm a competência de registro dos criadouros comerciais de fauna silvestre.

Apesar da proibição, o jabuti é tradicionalmente criado como animal de estimação em diversas partes do país.

O Prêmio Jabuti é considerado o mais importante prêmio literário do Brasil.

Provérbios e ditos

No Brasil, há alguns provérbios populares acerca da figura do jabuti. Entre eles:

“Jabuti não pega ema”.
“Jabuti não sobe em árvore”.
“Jabuti quando tem pressa, aprende a voar”.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho quinta, 07 de agosto de 2025

A CAMINHONETE (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A CAMINHONETE

Violante Pimentel

Adamastor era um engraxate, que, na década de 60, atendia aos fregueses na Praça Padre João Maria, bairro da Cidade Alta, em Natal (RN). No final da tarde, guardava seus apetrechos no estabelecimento de um sapateiro “lambe-sola” (consertador de calçados), seu amigo Osvaldo, um homem fanático por Aluízio Alves, na época, governador do Estado. Convém salientar que Seu Osvaldo só usava camisa verde, símbolo do partido político do seu ídolo, e as paredes do seu minúsculo ponto comercial eram totalmente decoradas com fotos desse homem, que exerceu grande liderança política no Estado, durante muitos anos. Além disso, o sapateiro também mantinha na parede externa do seu estabelecimento de trabalho, onde também morava, uma grande bandeira verde, símbolo do partido de Aluízio Alves. Era uma figura folclórica.

Adamastor, à noite, ganhava dinheiro pastorando carro. Sua freguesia era constituída de frequentadores do Cine Nordeste, localizado na Rua João Pessoa, por sinal, bem perto da Praça Padre João Maria.

Antes disso, jantava um cachorro-quente “Sebosão”, enorme, que tinha tudo o que o diabo gosta: carne moída gordurosa, salsichão da pior qualidade, frango com muita graxa, vinagrete, e uma cobertura generosa de “ketchup” e maionese. Dentro de uma mochila, trazia sempre uma garrafa de pinga e um copo. Trazia também um depósito com água.

À noite, depois que se transformava em pastorador de carro, Adamastor aproveitava para tomar suas chamadas de cana, quando não havia ninguém olhando. Bebia moderadamente e nunca foi visto embriagado.

Adamastor já era uma figura conhecida na redondeza, e de muita confiança. Tinha seus fregueses cinéfilos, que deixavam seus carros estacionados perto do cinema, aos seus cuidados, e lhe pagavam bem. E ai dos malandros que se aproximassem dos carros que pastorava. Ele gritava, mandando-os “desarredar” imediatamente. Para demonstrar zelo, mantinha sempre nas mãos uma flanela molhada, com a qual tirava a poeira dos carros.

Certa noite, Dr. Mesquita, um advogado muito conhecido na cidade, confiou-lhe sua luxuosa e recém adquirida caminhonete, enquanto iria com a esposa ao “Cinema de Arte”, sessão das 21 horas, no Cine Nordeste.

Como o filme era de longa-metragem e só terminava à meia noite, Dr. Mesquita pediu ao pastorador que redobrasse o cuidado.

Nessa noite, Adamastor se excedeu na cachaça, e ficou ainda mais cuidadoso, principalmente com a caminhonete “zerinho” do doutor. Para se sentir mais seguro, resolveu providenciar um “cacete”, para usar contra qualquer malandro que tentasse bulir nos carros. Nesse tempo, ainda não havia assalto nem roubo de carro em Natal.

Depois que a sessão de cinema terminou, o advogado foi pegar seu veículo e notou que Adamastor estava muito nervoso, pois, quando o avistou, foi logo dizendo em voz alta:

– Graças a Deus, doutor, o senhor chegou!

E Dr. Mesquita perguntou:

– Está tudo bem, Adamastor? Aconteceu alguma coisa?

Então, o pastorador respondeu:

– Agora, tá tudo bem, doutor. Mas passei um susto danado! Tava tudo calmo e de uma hora pra outra apareceu um moleque taludo, querendo mexer no trinco da caminhonete do senhor. Parece até que eu tava adivinhando, pois já tava com a arma na mão. Dei uma grande surra de cacete no safado, mas ele conseguiu fugir correndo. Fiquei o resto do tempo “cubando” se ele voltava, mas o ladrão desapareceu de vez.

O “cacete” a que Adamastor se referiu foi, nada mais, nada menos, do que a antena da caminhonete de luxo, novíssima, do advogado, que ele continuava segurando.

Como a causa foi justa, Dr. Mesquita guardou a antena, agradeceu e deu uma nota graúda ao pastorador.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 26 de julho de 2025

A ERA DOS ESCÂNDALOS (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE OIMENTEI)

A ERA DOS ESCÂNDALOS

Violante Pimentel

Nosso País está fervendo de escândalos e perseguições. Estamos assistindo a uma réplica do Calvário de Jesus.

A cada dia que se passa, um ser humano é tratado como se humano não fosse, por tiranos desalmados e sem sentimento de caridade. Mas o mundo dá muitas voltas e quem planta o mal não pode colher o bem.

Conhecer a história é ter a certeza de que o amanhã nascerá sem erros. O hoje que olha o passado é o mesmo olhar que projeta o futuro. A roda viva gira mais rápido do que se espera. A maldade que se pratica retorna em dobro.

Gosto de catar pedaços de sonhos que encontro no caminho. Guardo-os na alma. Desses pedaços sou construída.

O tempo passou sem me avisar. Fiquei sentida.

Não espere que as pessoas adivinhem o que você pensa ou quer. Diga, fale, grite.

A telepatia não é um atributo humano.

“Erra o país que nega aos filhos o direito à memória” (Cézar Britto).

Perguntaram-me o preço de um presente que comprei. A resposta: o preço do meu gostar. O meu querer não se mede em valores.

Defender a liberdade implica em defender quem a defende.

A liberdade de perguntar deve apenas ter limite na liberdade de não responder.

Liberdades absolutamente iguais.

O que impede a Reforma Política: pensa-se mais nas próximas eleições do que nas próximas gerações. Nada mais óbvio.

Empresas não são o povo. Eleição não pode ser um investimento econômico. O Estado não pode ser um balcão de negócios.

O financiamento privado das campanhas eleitorais beneficia os homens de bens.

E afasta da política o homem de bem.

A liberdade de pensamento é direito personalíssimo, não cabendo aos tiranos tentar arrancar, sob tortura, os vários pensamentos e portas que a vida oferece ao ser humano.

O esquecimento alimenta a corrupção. O corrupto sabe que o seu escândalo particular logo será absolvido por um novo escândalo nacional. É o que vemos nos dias atuais.

Existir é a arte de fazer escolhas sobre todos e tudo, pois escolher é a tarefa que a vida nos impõe.

O desenvolvimento sustentável sem desenvolvimento social, não se sustenta. Nem se desenvolve.

Liberdade é sonhar, exprimir e agir. É querer mudar as coisas. É lutar para fazer o que se acha certo. É não ter medo de ousadia.

As utopias são irmãs gêmeas dos sonhos. Nascem todos os dias em que a vida pede atenção.

Qual o limite dos nossos sonhos? Sonhar é infinito. Não se acomoda ou se limita. Sejamos livres sonhadores.

Não nasci nordestina, por ordem do acaso. Parece até que já sabiam do gosto do meu gostar. E acertaram em cheio.

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 18 de julho de 2025

O SAPO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O SAPO

Violante Pimentel

Um neto de um conhecido político do Rio Grande do Norte se surpreendeu ao chegar ao seu gabinete em Brasília e encontrar na parede uma enorme tela que retratava um sapo barbado, de paletó e gravata.

Perguntou ao avô a razão daquela decoração na parede e o homem respondeu:

“A política é a arte de engolir sapos”. Eu, como político, tenho que me conscientizar disso, e saber que tenho de engolir sapos, sempre que estou aqui trabalhando. Por isto, mandei fazer esta tela.

Sapo é bicho esperto e astucioso. A vida dos sapos é intimamente relacionada com a água. A água é fundamental para sua reprodução e a umidade garante sua respiração cutânea.

A pele dos sapos é seca, glandular e vascularizada. Eles não possuem nenhum tipo de pelos ou escamas.

A pele fina permite as trocas gasosas, e respiração cutânea. Essa condição também impõe que os sapos habitem ambientes úmidos e sombreados. A exposição aos raios solares pode provocar o ressecamento da pele. Por isso, muitos sapos são ativos apenas durante a noite.

Normalmente as pessoas confundem rã, perereca e sapo, embora estes três animais, possuam muitas diferenças entre si, na morfologia, no “habitat” e no comportamento.

O que eles têm em comum é o fato de serem classificados como anuros, nome dado aos anfíbios que não possuem rabo.

Ao contrário do que muitos pensam, as rãs e pererecas não são as fêmeas dos sapos. Existe sapo macho e sapo fêmea, rã macho e rã fêmea, assim como perereca macho e perereca fêmea.

Os sapos apresentam uma pele mais seca e rugosa em relação a dos outros anuros. Além disso, preferem viver em terra firme e só procuram ambientes aquáticos quando vão se reproduzir.

As patas posteriores do sapo são mais curtas, assim eles não conseguem dar grandes saltos, como os das pererecas. Devido às glândulas que possui na região dorsal, quando o sapo sofre alguma pressão externa (como ser pisado, por exemplo), libera um veneno que pode irritar nossos olhos e as mucosas. Pode até cegar.

As rãs são as mais habilidosas entre esses três tipos de anuros. Seus membros posteriores mais longos ajudam no salto e na natação. Elas conseguem dar saltos de até 1,5 metro de comprimento e 70 centímetros de altura.

Vivem principalmente em lagoas e apresentam uma pele bem lisa e brilhante. Suas toxinas estão localizadas nas regiões das costas.

Ao contrário dos sapos e pererecas, as rãs são usadas para alimentação, pois possuem uma carne suave e nutritiva, que lembra vagamente a carne de frango.

Normalmente, as pererecas são menores que os sapos e rãs, tendo como característica os olhos esbugalhados, além de serem mais coloridas.

Não gostam de lagoas e preferem viver em árvores. Com pernas finas e longas, são capazes de grandes saltos e de fixarem-se nas superfícies, pois possuem discos nas pontas de seus dedos, que funcionam como ventosas e permitem essa fixação. Assim como as rãs, possuem uma pele bastante lisa.

São pertencentes a várias famílias. Muitas vezes, são encontradas em banheiros de casas, já que gostam de ambientes úmidos.

Pois bem. Certa vez, um fazendeiro rico levou para casa um sapo e entregou aos três filhos ainda meninos, para lhes servir de brinquedo. A alegria foi grande.

Os meninos brincaram muito com o sapo e depois passaram a maltratar o pobre animal indefeso.

Nesse tempo, os bichos podiam falar à vontade.

Apavorado, o sapo pediu que o soltassem, para que ele voltasse ao pântano, que é o seu “habitat”. e os meninos disseram que iriam matá-lo, jogando-o nos espinhos.

O sapo, desesperado, começou a tapear os meninos, dizendo:

– Espinho não fura meu couro! Ah, ah, ah…

Um deles sugeriu:

– Vamos queimar o sapo!!!

O sapo fingiu ter gostado da ideia e vibrou:

– No fogo, eu me sinto em casa!

Os meninos gritaram:

–  Vamos jogar o sapo nas pedras!

O sapo respondeu: Pedra não mata sapo!

O menino maior, o mais malvado, disse:

– Vamos furar o sapo de faca!

O sapo respondeu:

– Faca não atravessa sapo!

Até que um dos meninos sugeriu:

– Vamos jogar o sapo dentro da lagoa!

Aí, o sapo se fingiu de triste e chorou copiosamente, desesperado, implorando:

– Me bote no fogo! Na água eu me afogo!!!

Esse truque do sapo salvou sua vida.

Os meninos, eufóricos, gritaram ao mesmo tempo:

– Vamos todos para a lagoa!!!

Pegaram o pobre do sapo por uma perna e jogaram no meio da lagoa. O sapo mergulhou e subiu à tona, eufórico, pois o remédio que precisava era aquele, depois de ter sido tão judiado pelos meninos. E começou a gritar:

– Eu sou bicho d’água! Eu sou bicho d’água!!!

E escapou são e salvo da maldade dos meninos.

Anos atrás, numa chácara em Pereiras (SP), estava eu com meu marido, minha sogra e um cunhado com a namorada. A moça era chilena e divorciada de um funcionário do alto escalão de Salvador Allende.

Estávamos no terraço da casa, quando ouvimos um grito de pavor vindo do banheiro, onde a namorada do cunhado estava tomando banho. De repente, surge a moça completamente nua, em pânico, tremendo de medo e gritando por socorro, com os olhos esbugalhados. Todos nós nos assustamos, pensando ter havido uma desgraça, como um assalto. Mais que depressa, minha sogra cobriu a moça com um lençol, e lhe deu água, sem ninguém entender o que tinha havido.

Finalmente, ela conseguiu falar:

– Uma rã!!! – Vi uma rã no banheiro!!!

Saí do terraço com meu marido, para rir no quintal. Nunca vi tanto fricote!!! Uma mulher altíssima e altiva, com experiência de vida, dar um escândalo desse por causa de uma inofensiva rã!!!

Nasci e me criei, na simplicidade do Agreste Nordestino, e me acostumei a conviver com sapos cururus enormes. Rãs e pererecas não fazem mal a ninguém.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 11 de julho de 2025

A ESPARRELA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A ESPARRELA

Violante Pimentel

Nasci e me criei ouvindo esse termo, “esparrela”, referindo-se a alguma coisa que não tinha dado certo para alguém. Quando alguém “quebrava a cara”, com uma decepção amorosa, ou era enganado, se dizia que aquela pessoa havia caído na esparrela. Acreditou nas palavras e promessas de um mentiroso enrolão.

 

 

Outra expressão também muito usada, quando alguém levava um calote em dinheiro, era “caiu no conto do vigário”.

Há duas versões da origem dessa expressão.

De acordo com a Wikipêndia, o termo “conto do vigário” teve origem no século XVIII, em Ouro Preto (MG), onde um vigário propôs uma história envolvendo uma imagem de Nossa Senhora entre duas paróquias: a de Pilar e a da Conceição, que queriam a mesma imagem de Nossa Senhora.

Um dos vigários propôs que amarrassem a santa num burro ali presente e o colocassem entre as duas igrejas. A igreja que o burro tomasse direção ficaria com a santa. Acontece que o burro era do vigário da igreja de Pilar e por isso se direcionou para lá, deixando o vigário vigarista com a imagem.

A outra versão do “Conto do Vigário” refere-se a um pequeno lavrador e negociante de gado, português, de nome Manuel Peres Vigário, que comprou e repassou notas falsas e terminou prestando contas à Justiça.

Manuel Peres Vigário teria existido em Portugal, sendo personagem do poeta Fernando Pessoa, em “Conto do Vigário”, escrito em 1929.

A ORIGEM DO “CONTO DO VIGÁRIO – Por Fernando Pessoa

Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário.

Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa. Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: «Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.» «Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se passa.» O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.

Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos negociantes de gado como ele a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se, se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem. Houve então a troca de outro olhar.

O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho. Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas. E ditou o recibo – um recibo de bêbedo, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e «estando nós a jantar (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbedo…), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.

Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira… E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.

Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido.

Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário «nem eu estava tão bêbedo que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era de justiça foi mandado em paz.

O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem.

Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade – nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax.

(Segundo informação que se pensa fidedigna, o texto foi escrito por Fernando Pessoa e publicado pela primeira vez no diário Sol, Lisboa, ano I, nº 1, de 30/10/1926, com o título de «Um Grande Português». Foi publicado depois no Notícias Ilustrado, 2ª série, Lisboa, 18/08/1929, com o título de «A Origem do Conto do Vigário».)

Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da língua portuguesa e figura central do Modernismo português. Poeta lírico e nacionalista, cultivou uma poesia voltada aos temas tradicionais de Portugal e ao seu lirismo saudosista, que expressa reflexões sobre seu “eu profundo”, suas inquietações, sua solidão e seu tédio.

Foi vários poetas ao mesmo tempo, criou heterônimos – poetas com personalidades próprias que escreveram sua poesia e, com eles procurou detectar, sob vários ângulos os dramas do homem do seu tempo.

Há traduções de Fernando Pessoa e seus heterônimos em espanhol, francês, Inglês, alemão, Italiano, chinês etc.

Fernando Pessoa, que vivia em quartos alugados, conflituoso, sujeito a crises de depressão e alcoolismo, faleceu em Lisboa, Portugal, no dia 30 de novembro de 1935, vítima de cirrose hepática.

A biblioteca Nacional de Portugal, localizada em Lisboa, possui 99% do acervo pessoal de Fernando Pessoa, enquanto a Casa Fernando Pessoa guarda e preserva o espólio documental e a biblioteca que pertenceu ao escritor.

Fernando Pessoa, que vivia em quartos alugados, conflituoso, sujeito a crises de depressão e alcoolismo, faleceu em Lisboa, Portugal, em 30 de novembro de 1935, vítima de cirrose hepática.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 04 de julho de 2025

A DESILUSÃO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A DESILUSÃO

Violante Pimentel

A desilusão é o sentimento de descrença que se apossa de alguém, depois de sofrer uma agressão injusta, ou receber pedradas de pessoas invejosas e más.

“Por inveja, Caim matou seu irmão Abel” – está na Bíblia.

A inveja é o sentimento mais sórdido e perigoso que povoa a humanidade. É capaz de provocar a destruição da alma de alguém. Traz danos irreparáveis à alma e torna irrespirável o ambiente em que agredido e agressor se encontrem.

Ao invés de esboçar alegria e gratidão, às vezes, quem foi ajudado estampa no olhar apenas revolta. É normal a pessoa que foi ajudada se afastar, passando a ser indiferente a quem o ajudou.

Diz a história que, certa vez, o filósofo chinês Confúcio recebeu uma pedrada, enquanto caminhava com seus discípulos. Um deles, disse que sabia de onde tinha vindo a pedrada, e apontou um nome. Imediatamente, Confúcio contestou:

– Não! Eu nunca fiz nada por esta pessoa.

Somente quem foi ajudado é capaz de retribuir a ajuda com pedradas…

Faz sentido…

Mudando o rumo desta prosa, e ainda sob o espírito junino, que acaba de findar, evoco a beleza da música MANÉ FOGUETEIRO, que Dona Lia, minha saudosa mãe, gostava de cantarolar:

 

 

Mané Fogueteiro era o Deus das crianças,
Na vila distante de Três Corações,
Nos dias de festa de festa fazia rodinhas,
soltava foguete,
soltava balões.

Mané Fogueteiro
gostava da Rosa,
cabocla mais linda
esse mundo não tem,
porém o pior é que o Zé Boticário,
gostava um bocado da Rosa também.

E um dia encontraram
Mané Fogueteiro,
com olhos vidrados,
de bruços no chão.
Um tiro certeiro varara-lhe o peito,
na volta da festa do Juca Romão.

Porém os que morrem de tiro conservam
a última cena
nos olhos sem luz:
um claro foguete de lágrimas frias,
alguém viu brilhando
em seus olhos azuis.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 27 de junho de 2025

ZÉ AREIA , O BARBEIRO DAS ROCAS (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

ZÉ AREIA , O BARBEIRO DAS ROCAS

Violante Pimentel

Um dos mais famosos boêmios potiguares, Zé Areia, (1900-1972) viveu na época da Segunda Guerra Mundial, e marcou época, não apenas pela vida de boêmio, como pelo arsenal de respostas malcriadas, que trazia na ponta da língua, pronto para se defender dos desafetos ou simples cidadãos anônimos, que, por acaso o incomodassem.

Havia quem mexesse com ele, somente para ouvir a resposta agressiva.

Foi o caso de um professor que o encontrou na porta do Café São Luiz, na Cidade Alta, e foi dizendo:

– Hoje eu estou doido para ver um corno!

Zé Areia o convidou:

– Entre aqui no café. Vou lhe mostrar o maior corno do mundo!

E em frente ao espelho, disse:

– Veja ali! É aquele que está junto de mim!!!

Era o próprio professor.

Zé Areia nunca se preocupou muito com o seu conforto pessoal, vivendo modestamente. Sempre preferiu a vida de boêmio, sem se preocupar em acumular dinheiro.

Sua inteligência privilegiada, suas respostas na ponta da língua e sua simpatia, conquistavam a todos, e lhe facilitavam a venda de loterias ou rifas, desfilando com lindos carneiros, objetos dos sorteios.

Amigo de juventude de João Café Filho, qual não foi a sua alegria ao ver o amigo chegar à Presidência da República. Viajou para o Rio, na esperança de conseguir um bom emprego, conforme lhe havia sido prometido.

Ao chegar ao Palácio, foi atendido por um secretário, que não permitiu sua entrada, e ainda lhe transmitiu o recado de que o emprego disponível no momento era o de seringueiro na Amazônia.

Indignado, Zé Areia teria disparado, no ato:

– Meu amigo, você diga pra Café Filho que quem veio aqui foi o amigo dele Zé Areia, atrás do emprego que ele me prometeu, quando subisse na vida. Diga também, que ele se lembre de que, no Rio Grande do Norte, quem tira leite de pau é “bu…….!” Um emprego desse, eu não quero!!!

Certa tarde, melancólico, num botequim, Zé Areia contava sua desdita. Fora casado, tivera lar, esposa e filhos, mas a mulher não aguentara sua vida boêmia e as incertezas dos dias sem ter o que comer com os filhos. Certa madrugada, ao voltar para casa, não encontrou nem mulher, nem filhos, nem móveis. E Zé Areia confessou que ficou louco de aperreio, não por ela, mas pela saudade dos filhos.

Terminou localizando a nova moradia da ex-mulher. Agora, tida e mantida pelo Coronel Teodósio, conhecido chefe político, poderoso e rico.

Cheio de alegria, Zé Areia foi à procura dos filhos. Estava brincando com eles, quando salta dum cavalo o tal coronel Teodósio, rebenque na mão e falando grosso:

– Boa tarde, seu Areia!

Assustado, conta Zé Areia que só fez desengalhar o chapeu da galhada de chifres e respondeu, educadamente:

– Boa tarde, coronel Teodósio, Deus guarde Vossa Senhoria e suas excelentíssimas famílias!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 20 de junho de 2025

VIVAS PARA AS FESTAS JUNINAS! (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

VIVAS PARA AS FESTAS JUNINAS!

Violante Pimentel

Os festejos juninos, aqui em Natal, tiveram início no Dia dos Namorados, 12 de junho. À noite, todos os bares e restaurantes de Natal estiveram repletos de casais apaixonados, comemorando esse maravilhoso dia.

As festas juninas compreendem as celebrações de Santo Antônio (13/6), São João (23/6) e São Pedro (29/6).

 

 

Santo Antônio, na cultura popular, é considerado o santo casamenteiro. É quem abre as festas juninas. É dia de rezas fortes, com a intenção de se arranjar “pareia”. Santo Antônio é conhecido por trazer “pareia”, por gosto ou aos empurrões. Por isso, o dia dos Namorados é festejado em seu louvor.

As tradições juninas, no Brasil, datam de 1583. A fogueira, as quadrilhas, as roupas caipiras, os fogos e balões tem origem diversa.

A quadrilha teve origem na França (quadrille). Era uma dança com passos inspirados nos bailes da nobreza europeia, surgida nos salões da corte francesa.

Na época da colonização do Brasil, os portugueses trouxeram essa dança, onde os participantes obedecem a um marcador, que usa palavras afrancesadas, para indicar o movimento que devem fazer, tais como: “anavantur” (en avant tout), “anarriê” (en derrière), “avancê” (avancer), “balancê” (balancer), etc.).

As festas juninas são comemoradas em todo o Brasil, principalmente na região Nordeste, onde chegou através dos padres Jesuítas, com muito sucesso.

Como o Nordeste padece com a seca braba, o povo aproveita as festividades juninas para agradecer as chuvas que raramente caem na região, servindo para manter a agricultura.

A mistura do linguajar matuto com o francês deu origem ao “matutês”, com humor e sotaque do interior nordestino. Nesta dança, é preciso seguir os comandos e no final os casais participantes se despedem, acenando ao público.

Os fogos de artifício são originados da China, onde teria surgido a manipulação da pólvora para a fabricação de fogos. Há também quem diga que os fogos são uma forma de agradecer aos deuses pelas boas colheitas. Na crendice popular, os fogos são elementos de proteção, pois espantam os maus espíritos, além de servir para acordar São João com o barulho.

Os trajes de rendas e fitas, tradicionalmente usados pelas damas que dançam as quadrilhas, são características da Península Ibérica, muito usados em Portugal e na Espanha.

Os homens fazem opção por camisas coloridas, estampadas ou “Xadrez”.

Esses caracteres culturais foram, ao longo do tempo, se integrando aos aspectos culturais dos brasileiros, incluindo os indígenas, afro-brasileiros e imigrantes europeus, em todas as regiões do País.

O maior símbolo das festas juninas é a fogueira.

Conta a História que a fogueira tem raízes católicas. Deriva-se de uma promessa feita entre as primas Isabel e Maria, Mãe de Jesus. Isabel havia prometido a Maria mandar acender uma fogueira sobre um monte, para lhe avisar do nascimento do filho João Batista, e assim pedir a sua ajuda.

No Brasil, a fogueira foi muito bem aceita pelos índios, que já gostavam muito de dançar ao redor do fogo.

Há ainda quem considere a fogueira uma proteção contra os maus espíritos, que atrapalhavam a prosperidade das plantações.

Por fim, há aqueles que utilizam a fogueira apenas para se aquecer e unir as pessoas ao seu redor, já que a festa é realizada num mês frio.

As brasas da fogueira também são um exemplo dessas tradições: assim que se apagam, devem ser guardadas. Conservam, desse modo, um poder de talismã que garante uma vida longa a quem segue o ritual. Talvez por isso, algumas superstições dizem que faz mal brincar com fogo, urinar ou cuspir nas brasas ou arrumar a fogueira com os pés.

Em Nova-Cruz (RN), minha terra natal, crianças e adultos aguardavam com ansiedade que a fogueira fosse acesa. Se o fogo pegasse logo, era sinal de que no próximo São João, todos estariam vivos. Se não pegasse, era mal sinal. Por isso, quando a fogueira acendia logo, todos batiam palmas de felicidade!

Os balões coloridos enchiam de alegria o Céu estrelado das noites de São João. E o som das músicas de Luiz Gonzaga se ouvia no rádio à bateria.

A era cibernética ainda estava longe de acontecer.

A Internet era uma utopia; nem ao menos se sonhava com ela. Os sons estridentes também não eram ouvidos, nem em sonho.

Os sons barulhentos das atuais festas juninas, e a substituição dos antigos e românticos forrós de Luiz Gonzaga pelas músicas sertanejas e de vaquejada, e até pelo Funk, Rap e Axé, fazem com que os amantes da boa música sintam-se cada vez mais frustrados e saudosos das antigas festas juninas.

Apesar de Santo Antônio (13/06), São João (24/06) e São Pedro (29/06) cuja comemoração é na véspera, serem muito festejados, das três, a festa mais animada é a de São João, o primo de Jesus Cristo.

Mas, as três festas juntas dão ao mês de junho um sabor de milho verde, iguarias saborosas e uma alegria cheia de saudade dos tempos idos e vividos, quando as festas juninas eram puro lirismo, sonhos, adivinhações e fantasia.
Salve Santo Antônio, São João e São Pedro!

Viva a Cultura Nordestina!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 13 de junho de 2025

EVOCANDO JUCA CHAVES (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

EVOCANDO JUCA CHAVES

Violante Pimentel

Adoro Circo. Sempre fui fã de Juca Chaves. O seu humor inteligente e ímpar, seus poemas musicados e românticos, além da veia irônica sempre presente em suas composições, fizeram dele, para mim, um dos maiores artistas brasileiros, dono de uma inteligência ímpar e de uma verve irônica imbatível.

A ironia é uma figura de linguagem que tem suas raízes no contexto cultural e na comunicação humana. Compreender o significado de ironia e sua aplicação é essencial para qualquer pessoa que deseje se aprofundar nos meandros da língua portuguesa, seja na literatura, na arte, ou mesmo nas interações cotidianas. A ironia pode ser definida de várias maneiras, mas, em essência, refere-se a uma discrepância entre o que é dito e o que realmente se quer dizer.

Juca Chaves, nome artístico de Jurandyr Chaves, nasceu no Rio de Janeiro, no dia 22 de outubro de 1938, filho de Clarita e de um austríaco, naturalizado brasileiro, que montou a primeira fábrica de plásticos no Brasil.

Juca Chaves cresceu ouvindo música erudita em sua casa. Ainda criança mudou-se com a família para o Jardim Europa em São Paulo. Interessado por música e poesia, com seis anos compôs “Hino aos Cachorros”.

Com sete anos, começou a estudar violão. Com 12 anos, compôs “Semente Bonitinha”, sua primeira modinha de amor dedicada a Neusa, que tinha apenas 10 anos.

Juca foi matriculado no curso de piano, mas depois de cinco aulas abandonou o curso porque, dizia ele: “a professora batia em minha mão e eu batia na mão dela”.

Com 13 anos, Juca reuniu uma coletânea de onze poesias em “Meus Primeiros Versos” que falavam do amor por musas diversas. Com 16 anos frequentava o Clube Pinheiros e foi alí que conheceu Ana Maria, sua mais famosa musa e para quem fez várias canções.

Junto com Lemos Brito e Ricardo Amaral, fundou a revista “Rua Augusta Chic” na qual escrevia crônicas e versos. Ingressou no Centro de Oratória Rui Barbosa recebendo o diploma de História e Composição da Música Brasileira em 1955.

Nessa época, começou a se revoltar com a sociedade e daí nasceu o espírito satírico que o acompanhou em todas as suas modinhas.

Com 19 anos, foi reprovado no curso científico. Seu pai colocou-o num banco para trabalhar, obrigando o poeta a cortar o cabelo o que o revoltou.

As brigas com o pai culminaram com a saída da casa, indo morar com sua avó. Para se sustentar passou a dar aulas de violão, “mas só para meninas”, dizia ele.

Com mais tempo livre, realizou seu primeiro recital no Teatro Leopoldo Fróes, patrocinado por jovens da alta sociedade.

Em 1960, Juca lançou, pela RGE, com arranjo de Simonetti, o LP intitulado “As Duas Faces de Juca Chaves”, no qual gravou “Por Quem Sonha Ana Maria?” feita para sua musa:

“Por Quem Sonha Ana Maria?

Na alameda da poesia
chora rimas o luar
Madrugada e Ana Maria
sonha sonhos cor do mar.
Por quem sonha Ana Maria
nessa noite de luar?… “

Foi nessa época que Juca compôs a modinha “Presidente Bossa Nova” uma sátira inspirada no presidente Juscelino Kubitschek que foi gravada em 1961:

“Presidente Bossa Nova

Bossa nova mesmo é ser presidente
desta terra descoberta por Cabral
Para tanto basta ser, tão simplesmente,
simpático, risonho, original,
depois desfrutar da maravilha
de ser presidente do Brasil…”

A música ficou mais famosa depois que foi proibida pela censura.

Com um mandado de segurança, ele ganhou pela primeira vez, no Brasil, uma questão judicial com a censura.

Alguns dias depois, Juca conseguiu uma entrevista com o presidente e compareceu descalço ao encontro.

Daí para frente, diversas sátiras foram feitas com políticos, homens da sociedade, problemas urbanos etc., que continuavam incomodando muita gente.

Em 1962, Juca lançou a sátira “Caixinha Obrigado”, quando insistia em falar nas mazelas político – administrativas da época. A música causou polêmica e o autor teve que retirar da letra o nome de uma deputada.

“Caixinha, Obrigado

A mediocridade é um fato consumado
na sociedade
onde o ar é depravado.
Marido rico, burguesão despreocupado
que foi casado
com mulher burra, mas bela
o filho dela é político ou tarado.
Caixinha… obrigado!…”

Em 1963, Juca partiu para a Europa. Esteve em Portugal onde se consagrou como ídolo dos jovens.

Na Itália, começou tocando órgão numa igreja. Pouco depois estava tocando em cabarés. Apresentou-se na televisão e gravou oito compactos e um LP.

A música “Pequena Marcha Para um Grande Amor” foi um sucesso de vendas. Em 1969, retornou ao Brasil e começou a fazer shows pelo país.

“Pequena Marcha Para Um Grande Amor

A lua vai dormir encabulada
na passarela da madrugada.
Meus olhos vão sonhar sob a janela
dos olhos dela, dos olhos dela.
Meu amor de amor se esconde
se esconde aonde
o teu não vê
não vê porque
Meu amor não é segredo
morre de medo
do segredo
que é você.”

Juca criou o “Circus Sdruws” (S de snob, D de divino Dener, R de ralé, U de wonderful, W de Water-closed e S de souvenir), que instalou no Rio de Janeiro nas proximidades da Lagoa Rodrigo de Freitas, onde apresentava o show “Menestrel Maldito”.

O humorista costumava contar a seguinte história sobre o Sdruws, perto do qual ficava uma favela.

Juca convidara para o circo políticos, empresários e também pessoal da alta-sociedade carioca, e antes da primeira apresentação resolveu reunir os líderes da favela para lhes falar com franqueza, indo direto ao assunto: “Vim aqui para saber como vai ficar o negócio do roubo!” – Uma mulher baixinha, morena, (líder da favela), foi logo respondendo com firmeza: “Olha aqui seu Juca, nós entendemos a sua preocupação e lhe agradecemos pela sinceridade, mas pode o senhor ficar tranquilo, porque a nossa comunidade já se garantiu, e pediu proteção à polícia!”.

Juca foi um crítico da Ditadura Militar, da grande imprensa e do próprio mercado fonográfico. Chegou a ser exilado em Portugal na década de 1970, mas, ao incomodar o regime ditatorial vigente no País com suas sátiras, que ganhavam espaço nas rádios e televisão locais, transferiu-se para a Itália.

De volta ao Brasil, apresentou programas de televisão. Na década de 1980, lançou sua gravadora independente, a Sdruws Records. O bordão mais famoso do “menestrel”, como gostava de ser chamado, era: “Vá ao meu show e ajude o Juquinha a comprar o seu caviar”.

Em 2003, outro sucesso de Juca Chaves nos anos 70 – a canção “Take me Back to Piauí” – foi editado na coletânea “Brazilian Beats Volume 4” da gravadora britânica Mr. Bongo, especializada em música popular brasileira.

Em 2006, lançou-se candidato a senador na Bahia pelo PSDC, ficando em 4º lugar, com 19.603 votos (0,35% do total). Suas propagandas em formato de poesias distinguiam-no dos demais candidatos.

Em 2015, lançou a música “Adeus em ritmo de Lava Jato“, referenciando as investigações de corrupção em curso na época e posicionando-se de forma crítica ao então governo do Partido dos Trabalhadores.

Juca Chaves residia na Bahia, com sua esposa Yara Chaves desde 1975 e teve duas filhas adotivas, Maria Morena e Maria Clara.

Juca Chaves faleceu em Salvador, Bahia, no dia 25 de março de 2023, em consequência de problemas respiratórios.

No ano de 2024, a canção “Take me Back to Piauí” foi tema de cena clássica do filme “Ainda estou aqui“, de Walter Salles, ganhador do Oscar de Melhor Filme Internacional. A música embala a família de Rubens e Eunice Paiva em uma dança envolvente, regada a risadas e coreografias, momentos antes do desaparecimento de Rubens e sua morte pela Ditadura Militar.

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 06 de junho de 2025

*DO TEMPO DO ONÇA* (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

“DO TEMPO DO ONÇA”

Violante Pimentel

No Nordeste brasileiro, ainda hoje se usa uma expressão popular, quando se quer dizer que alguma coisa é muito antiga e ultrapassada: “Do tempo do Onça”. Quando havia honestidade.

O “Onça” foi um apelido dado a um governador da capitania do Rio de Janeiro, no sec. XVIII. O mandatário era conhecido por sua honestidade e rigor no cumprimento da lei, o que contrariava os desonestos, acostumados a mamar nas tetas da Nação.

De acordo com o que a mídia nos mostra, quem quiser, nos dias de hoje, encontrar um governante honesto, terá o mesmo trabalho de quem procura encontrar uma agulha num palheiro.

Pois bem. “Onça”, como ficou conhecido o governador do Rio, que cultuava a honestidade e detestava ladrão, colocou ordem no “galinheiro da casa”, e por isso era considerado pelos desonestos, como um homem intolerável, doido e idiota.

O governador “Onça” fez com que os recursos da Coroa fossem gastos de forma eficiente e transparente; fez uma devassa no transporte do ouro de Minas ao Rio; trouxe segurança à população e tomou medidas enérgicas contra todo tipo de malandros, ladrões, desordeiros, arruaceiros e esquerdopatas que infestavam o Rio de Janeiro.

O “Onça” também era implacável com os ladrões de “colarinho branco”. Sua honestidade lhe causou muitos problemas na vida política. Ele acabou com as mamatas e governou de forma honesta e rígida, o que desagradou a elite local, acostumada aos “favores” do governo.

Como ele não apoiava vagabundos e malandros, e era intolerante à desonestidade independente de classe ou posição social, acabou por ganhar esse apelido de “Onça”, o animal mais temido da época.

Os atritos políticos fizeram com que o “Onça” terminasse sendo destituído do cargo de governador.

Como se vê, ser honesto, já no século XVIII, era uma coisa complicada na política nacional. O “Onça” foi um exemplo de como é possível, e ao mesmo tempo difícil, governar com honestidade e probidade, sem usar de medidas extremas de restrição à liberdade de ir e vir. Por isso, “Onça” era admirado pela banda decente da população, mesmo sem escapar da crítica daqueles que consideram idiotas e burras as pessoas honestas.

O “Onça” se chamava Luís Vahia Monteiro. Governou o Rio de Janeiro de 10/05/1725 a 22/04/1732. Também foi apelidado de “virgem no bordel”.

Quase 300 anos depois, ser honesto ainda causa polêmica!

Frase do governador Luís Vahia Monteiro, em carta ao rei D. João V.

“Senhor, nesta terra todos roubam. Só eu não roubo.”

Deve ter sido o homem mais honesto do País…

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 30 de maio de 2025

CINTURA FINA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

CINTURA FINA

Violante Pimentel

Inspirados em moças elegantes, de cintura fina, as chamadas “cintura de pilão”, os compositores Luiz Gonzaga e Zé Dantas, compuseram a música “CINTURA FINA”, lançado em 1950, que fez estrondoso sucesso e continua fazendo até os dias atuais, principalmente nas festas juninas.

 

 

Antigamente, a moça bem feita de corpo e de cintura naturalmente fina era comparada a um pilão.

A cintura de pilão era o “protótipo” da moça bonita, numa época em que a beleza era natural, dada por Deus.

Nos dias atuais, tendo dinheiro para pagar aos cirurgiões plásticos, a cintura de pilão é opcional.

Minha saudosa mãe, Lia, contava que quando era criança, já órfã de mãe, achava que Isabel, uma moça, irmã da sua madrasta, era um pilão. Ouvia dizer que ela tinha cintura de pilão e era uma pessoa muito boa. Resolvia tudo sobre o cardápio da casa da irmã, casada com um viúvo, seu cunhado, e com seis enteados (inclusive Lia) ainda crianças.

Até que um dia, minha mãe, com pouco mais de quatro anos, por curiosidade, começou a tocar nos braços de Isabel, como quem a estava examinando. A moça estranhou e perguntou por que ela estava fazendo aquilo. E a menina, assustada, perguntou: Você é um pilão, mas não é feita de pau? A decepção da minha mãe foi grande, quando Isabel disse que não era um pilão. Era uma pessoa normal. Minha mãe, muito criança, ouvia os elogios que as pessoas faziam a Isabel, chamando-a de cintura de pilão, e botou na cabeça que a moça, literalmente, era um pilão.

Minha mãe sempre relembrava essa história e nós ríamos muito. Ela disse que seria capaz de jurar que Isabel era um pilão, pois ela tinha a cintura fina, cintura de pilão, e diziam que era uma pessoa muito boa e prestativa.

Sempre que ouço “Cintura Fina”, me lembro desse equívoco da minha mãe, órfã de mãe aos quatro anos de idade.

Pois bem. O Pilão teve origem na África. É um utensílio culinário, indispensável na cozinha da gastronomia africana, com as mesmas funções de um almofariz, ou seja, usado para moer grãos, triturar ou macerar, para preparar alimentos, como cuscuz, café, farinha de mandioca, gergelim ou castanha, etc. A utilidade de um pilão é imensa.

A mão do pilão é tão importante quanto o pilão propriamente dito.

Para fazer pilão são usados troncos de jaqueiras, pequizeiro (nativo da Amazônia, que produzem frutos chamados de pequi). Artesãos também utilizam árvores caídas, de tronco grosso, para produzir pilões de vários tamanhos, que são vendidos em feiras.

O Pilão é utilizado há centenas de anos, para triturar, amassar e moer, ou seja, para pilar alimentos e transformá-los em algo novo.

Um dos maiores exemplos de iguaria, que não dispensa um pilão, é a paçoca nordestina, com carne de sol bem assada, pilada com cebola roxa, socada com um pouco de farinha de mandioca e esquentada com manteiga de garrafa. Por cima, coentro e cebolinha verde.

Historicamente, os pilões da África são grandes e podem ser utilizados por várias pessoas ao mesmo tempo, com o intuito de moer grãos, mas de tamanho muito maior.

O Pilão é feito de um tronco escavado, geralmente de uma madeira macia, com dimensões que variam entre 30 e 70 cm de altura. Utiliza-se colocando dentro o material a moer, batendo-lhe com um pau de 60 cm a 12 cm, dependendo da quantidade, e do tamanho do pilão, que pode ser de uma madeira mais rija e pode ter uma das extremidades arredondadas, chamado de “mão de pilão. Uma mãozada com uma mão de pilão é capaz de causar danos mortíferos. Uma mão de pilão na mão de uma pessoa enraivecida, é crime à vista.

O belíssimo Xote ‘Cintura Fina’, interpretado pelo nosso eterno Rei Luiz Gonzaga, é uma homenagem à dança e ao encanto feminino. Um ritmo nordestino que convida ao aconchego e ao balanço a dois. A letra descreve a atração de um homem por uma mulher bonita e de “cintura fina, cintura de pilão”. A expressão remete à forma física esbelta e atraente, comum na descrição de belezas femininas, na cultura popular brasileira.

Esse Xote é um convite carinhoso para que a mulher se aconchegue ao homem para dançar agarradinho. A música transmite a sensação de alegria e satisfação que o homem apaixonado sente ao dançar com sua amada, criando uma atmosfera de intimidade e cumplicidade. A referência ao ‘cangote’ (parte baixa do pescoço), palavra muito usada pelo nordestino, sugere um contato físico íntimo e confortável durante o Xote.

O imenso talento de Luiz Gonzaga fazia com que ele transformasse elementos culturais em poesia cantada, celebrando a beleza e a sensualidade da mulher nordestina.

O amor simples e sincero foi valorizado por Luiz Gonzaga, estando sempre presente em suas composições. “Cintura Fina” é mais uma prova do seu grande talento e da sua paixão pela cultura nordestina.

 

 

Minha morena, venha pra cá
Pra dançar xote, se deita em meu cangote
E pode cochilar
Tu és muié pra homem nenhum
Botar defeito, por isso satisfeito
Com você vou dançar

Vem cá, cintura fina, cintura de pilão
Cintura de menina, vem cá meu coração

Quando eu abarco essa cintura de pilão
Fico frio, arrepiado, quase morro de paixão
E fecho os olhos quando sinto o teu calor
Pois teu corpo só foi feito pros cochilos do amor


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 23 de maio de 2025

EVOCANDO O V FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO-BR-3 (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

EVOCANDO O V FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO-BR-3

Violante Pimentel

BR-3 é uma canção composta por Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, defendida por Tony Tornado no V Festival Internacional da Canção de 1970. Trata-se de uma canção soul music.

Tony Tornado, nome artístico de Antônio Viana Gomes, é um renomado cantor e ator brasileiro, nascido em 26 de maio de 1930, em Mirante do Paranapanema, São Paulo.

Tony Tornado teve uma infância difícil. Aos 12 anos, fugiu de casa e se mudou para o Rio de Janeiro, onde viveu como menino de rua, vendendo amendoim e engraxando sapatos. Aos 18 anos, serviu na Escola de Paraquedismo de Deodoro e, em 1957, lutou no Canal de Suez.

A canção BR-3, foi defendida por Tony Tornado, no V Festival Internacional da Canção de 1970, onde conquistou o primeiro lugar. É um ícone da Black Music nacional e deu nome ao primeiro álbum da carreira de Tony Tornado.

Essa composição representa a Corrida Contra o Tempo e o Sistema, uma poderosa crítica social embalada pelo ritmo da soul music brasileira.

A letra da canção, que se repete em um refrão contagiante, fala sobre a corrida incessante na BR-3, uma metáfora para a vida e suas adversidades. A repetição das frases ‘A gente corre’ e ‘A gente morre’ na BR-3 sugere um ciclo vicioso de esforço e fatalidade, onde as pessoas estão constantemente em movimento, mas também constantemente enfrentando o risco de morte.

O trecho que menciona um ‘foguete rasgando o céu’ e um ‘Jesus Cristo feito em aço’ pode ser interpretado como uma crítica à modernidade e ao progresso tecnológico que, apesar de avançados, ainda são incapazes de salvar a humanidade de suas próprias mazelas. A imagem de Jesus Cristo crucificado novamente evoca a ideia de sofrimento recorrente e a ineficácia das soluções oferecidas pelo sistema.

A ‘viagem multicolorida’ e o ‘novo herói de cada mês’ podem representar as distrações e as efêmeras figuras de idolatria que surgem na sociedade, desviando a atenção das questões mais profundas e perenes. A ‘notícia fabricada’ e o ‘crime no longo asfalto’ apontam para a manipulação midiática e a violência que permeiam o cotidiano, sugerindo que a realidade é muitas vezes distorcida ou ignorada. Em suma, BR-3 é um retrato crítico da sociedade, que desafia o ouvinte a refletir sobre a direção em que estamos correndo e o preço que pagamos por isso.

O trecho que menciona um ‘foguete rasgando o céu’ e um ‘Jesus Cristo feito em aço’ pode ser interpretado como uma crítica à modernidade e ao progresso tecnológico que, apesar de avançados, ainda são incapazes de salvar a humanidade de suas próprias mazelas.

A imagem de Jesus Cristo crucificado novamente evoca a ideia de sofrimento recorrente e a ineficácia das soluções oferecidas pelo sistema.

A ‘viagem multicolorida’ e o ‘novo herói de cada mês’ podem representar as distrações e as efêmeras figuras de idolatria que surgem na sociedade, desviando a atenção das questões mais profundas e perenes.

A ‘notícia fabricada’ e o ‘crime no longo asfalto’ apontam para a manipulação midiática e a violência que permeiam o cotidiano, sugerindo que a realidade é muitas vezes distorcida ou ignorada.

Em suma, BR-3 é um retrato crítico da sociedade, que desafia o ouvinte a refletir sobre a direção em que estamos correndo e o preço que pagamos por isso.

 

 

A gente corre (E a gente corre)
Na BR-3 (Na BR-3)
E a gente morre (E a gente morre)
Na BR-3 (Na BR-3)

Há um foguete
Rasgando o céu, cruzando o espaço
E um Jesus Cristo feito em aço
Crucificado outra vez

A gente corre (E a gente corre)
Na BR-3 (Na BR-3)
A gente morre (E a gente morre)
Na BR-3 (Na BR-3)

Há um sonho
Viagem multicolorida
Às vezes ponto de partida
E às vezes porto de um talvez

A gente corre (E a gente corre)
Na BR-3 (Na BR-3)
A gente morre (E a gente morre)
Na BR-3 (Na BR-3)

Há um crime
No longo asfalto dessa estrada
E uma notícia fabricada

Pro novo herói de cada mês


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 16 de maio de 2025

MUNDO LOUCO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORE VIOLANTE PIMENTEL)

MUNDO LOUCO

Violante Pimentel

Os loucos e os maus deveriam ser separados dos sãos, pois a loucura e a maldade contagiam.

O mundo bom que Deus criou foi invadido pela perversidade e a proporção de pessoas perversas cada vez mais supera o número de pessoas dignas e idôneas.

Isso de gostar de ver o próximo sofrendo injustiças e humilhações, deve ser herança maldita de uma família de marginais e degenerados. Dizem que os genes se transmitem durante catorze gerações.

Coisa mais ridícula, a onda de perseguição política que abertamente existe em nosso País, como se o sistema político fosse único e não pudesse haver oposição. Cidadãos de bem, que ostentam suas preferências políticas estão sendo encarcerados em prisões ou em casa, como pássaros cativos, até que adoeçam e morram na prisão ou sejam liberados para prisão domiciliar, com a humilhação de não poder se comunicar com correligionários amigos, e usando tornozeleira eletrônica.

O ódio e a inveja transformam seus adeptos em verdadeiros corvos agourentos, que respiram vingança e punem aqueles que não compactuam com as suas ideias, maltratando-os, humilhando-os, oprimindo-os e encarcerando-os como pássaros cativos, até que percam a saúde e a vida.

O poema “O Pássaro Cativo“, de Olavo Bilac , nos faz refletir sobre a natureza intrínseca da liberdade e a necessidade de se respeitar a natureza selvagem e indomável dos seres vivos.

O poema utiliza a figura do pássaro como um símbolo poderoso da busca incessante pela liberdade, mesmo diante de confortos materiais oferecidos em cativeiro. O poema começa com a descrição de um pássaro que é capturado e colocado em uma gaiola dourada. É uma crítica ao encarceramento de seres vivos.

Imaginem o sofrimento da ave encarcerada, cantando por não saber chorar.

No caso de seres humanos injustamente encarcerados, a dor que lhes invade a alma, ninguém pode imaginar, pois eles sentem-se obrigados a sufocá-la.

A sociedade de hoje, constituída de três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – acaba nos dando uma percepção falsa de que as coisas sempre foram assim. Entretanto, esse formato tríplice surgiu a partir da obra de Montesquieu, “Do Espírito das Leis“, publicada em 1748, na qual ele propõe esses três poderes. Mas a sociedade de Israel é muito mais antiga do que isso, e a estrutura sociopolítica que existia na época é profundamente diferente daquilo que hoje vemos. Dentro do conceito judaico, tanto as funções do Executivo como do Legislativo e do Judiciário estavam todas em um único local: o Templo de Jerusalém.

A sociedade da antiga Palestina era marcada pela importância da religião dentro do cenário cultural no qual viviam. O Templo era o centro de todas as discussões. A religião era o eixo maior que movia todas as questões da sociedade israelense daqueles tempos.

Naquela época, o modelo social propunha que todo o poder estivesse concentrado no Templo. Na visão dos judeus, os seus reis, os seus líderes ,em termos políticos, ocupavam esses cargos porque eram ungidos, abençoados pelo Sumo Sacerdote.

O Sumo Sacerdote, portanto, era quem dava a bênção para que aqueles homens exercessem o seu papel como líderes do povo, de tal sorte que o Poder Executivo tinha sujeição ao Templo de Jerusalém.

Era preciso obedecer aos ditames do Templo, para que o rei se mantivesse no poder, do contrário, cairia.

Não era admissível que um rei se colocasse criticando, contestando ou desobedecendo as ordens oriundas do Templo.

Nessa época, havia acentuado senso de justiça, o que significava preocupação com o outro, com o coletivo; não havia exploração, não se fazia nada para destruir a pessoa humana. Não se cultivava ódio nem raiva das pessoas.

Ter ódio e raiva, injustamente, de qualquer pessoa, é um claro sinal de perturbação mental.

Nos dias atuais, as redes sociais são usadas para destilar comentários maldosos, ofendendo, brigando com as pessoas que pensam de forma diferente, em algum aspecto da vida, envolvidos em inveja e ódio.

O bem que faz o mal não é o bem!

O PÁSSARO CATIVO – Olavo Bilac

Armas, num galho de árvore, o alçapão
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
Gaiola dourada;

Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos e tudo.
Por que é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste sem cantar?
É que, criança, os pássaros não falam.

Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro

Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores
Sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola,
De haver perdido aquilo que perdi…
Prefiro o ninho humilde construído

De folhas secas, plácido, escondido.
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pombas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não me roubes a minha liberdade…
Quero voar! Voar!

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar,
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição,
E a tua mão tremenda lhe abriria
A porta da prisão…


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 11 de maio de 2025

DIA DAS MÃES – 2º DOMINGO DE MAIO – 11.05.2025 (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)
DIA DAS MÃES – 2º DOMINGO DE MAIO – 11.05.2025
Violante Pimentel
 
 
 
Por uma convenção delicada e poética, o dia de hoje, 2º domingo de maio, é consagrado às Mães, indistintamente.
 
Guardo dentro do coração, um cravo branco, que representa a saudade da minha Mãe, LIA PIMENTEL BEZERRA, transformada em flor, com a brancura da luz que me guiou na vida, e que, no lume celestial, hoje transborda.
 
Deus acendeu esse lume ao redor das Mães que se encontram na morada celestial.
 
Aos olhos de minha alma, desfila, hoje, uma legião de abnegadas criaturas, dignas de respeito, admiração, e, às vezes, também de pena. São as Mães. No meu pensamento, vão passando, uma por uma:
 
– Mães batalhadoras, que escolheram conscientemente essa missão, e lutam desesperadamente pela felicidade dos filhos. São verdadeiras heroínas anônimas, capazes de qualquer sacrifício por eles, e os defendem como verdadeiras leoas.
 
– Mães que, neste momento, estão curvadas sobre o leito do filho enfermo. Compreendo a angústia que lhes ocupa a alma.
 
– Mães jovens, quase meninas, vítimas do problema da prostituição infantil, que, cantando, embalam no berço um ser pequenino, sem perspectiva de melhorar de vida, e tremendo de medo do futuro. Muitas vezes, cantam com vontade de chorar.
 
– Mães desesperadas, que , chorando, esperam que seus filhos saiam da prisão, onde cumprem pena por crimes que elas não acreditam que tenham cometido. A miséria os arrebatou de seus braços, jogou-os nas ruas, e os transformou em temidos marginais.
 
– Mães que, prematuramente, perderam seus filhos, e tentam abafar sua dor e sua angústia com gemidos e lamentos. Sei que elas os veem em sonhos, e os acariciam num doce enlevo, mas, quando despertam, tornam a mergulhar na dolorosa saudade.
 
– Mães velhinhas, que hoje passeiam, tropegamente, os seus últimos anos, ou seus últimos dias, pelos pátios silenciosos e tristes dos asilos. Os filhos as esqueceram, condenando-as a uma morte antecipada, provocada, na maioria das vezes, por tristeza e solidão.
 
Hoje, mais do que nunca, o semblante de todas as Mães está cheio de luz, e há em torno delas um murmúrio constante, um sussurro de vozes amigas, que, meiga e brandamente, vão ecoando em seus corações. São os seus filhos, que, perto ou distante, repetem sem cessar: Obrigado por tudo, Mãe!
 
E elas, que ainda guardam, na retina cansada, o primeiro sorriso que iluminou o rosto de seus filhos, e hoje ainda ouvem sua vozinha delicada, balbuciando as primeiras palavras, estão hoje mergulhadas em lembranças, enquanto choram de saudade, uma saudade agridoce, que fere como espinho, mas acaricia como uma pluma.
 
“Quando a Mãe beija o filho, sua alma se ajoelha…”
 
Somente as Mães sabem proferir palavras que salvam e abençoam.
 
O amor de Mãe não se extingue nunca, porque ele é a própria vida. E a vida é o próprio Deus!
 
Pode ser uma imagem de 1 pessoa e sorrindo
 
 
 

Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 09 de maio de 2025

O CHOFER (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O CHOFER

Violante Pimentel

Antigamente, não se falava em “motorista de táxi”. O que havia era “chofer de praça”. E na praça, concentravam-se os carros de aluguel.

O táxi, propriamente dito, apareceu historicamente quando foram aplicadas taxas à sua utilização, através do taxímetro, aparelho mecânico ou eletrônico, que mede o valor cobrado pelo serviço, com base em uma combinação entre a distância percorrida e a tarifa inicial. Foi inventado no século XIX, pelo alemão Wilhelm Bruhn.

Em Natal, o chofer de praça trajava sempre terno cáqui, camisa branca, gravata preta e sapatos pretos.

Seu Josias era um conhecido chofer de praça de Natal, educado, conversador e simpático, beirando os 60 anos. Era um contador de histórias. Muito supersticioso, não trabalhava no dia em que tinha um sonho mau. Se sonhasse com gato preto, urubu, sapato ou arrancando dente, sabia que, naquele dia, nada para ele ia dar certo, e preferia ficar em casa. Gostava muito de relembrar episódios de sua vida.

Contava que, antes de ser chofer de praça, tinha sido chofer de um caminhão misto e havia feito muitas viagens pelo sertão nordestino, transportando passageiros. Gostava muito da profissão, até que, num certo dia, em plena viagem, um dos passageiros do misto foi acometido de uma tremenda dor-de-barriga e ele viu-se obrigado a parar o carro na estrada, diversas vezes. O passageiro entrava correndo de mato a dentro, para satisfazer suas necessidades e voltava pálido e envergonhado. A viagem, nesse dia, sofrera um atraso enorme, o que o deixou bastante contrariado. Numa das paradas solicitadas pelo passageiro, para ir ao mato, disse seu Josias que também desceu e se dirigiu a uma casinha que avistou ao longe, em busca de alguma “meizinha” que curasse essa infeliz dor-de-barriga do passageiro. Foi recebido por uma velhinha, que lhe perguntou:

– O senhor já experimentou dar o olho da goiaba a ele (o chá)?

Disse seu Josias que não gostou da pergunta e respondeu grosseiramente:

– Se depender disso, esse passageiro pode se acabar pelo fundo, feito balaio! A senhora é doida, dona? Vôtes!

E o chofer contou que voltou muito contrariado, meteu o pé no acelerador, enquanto, nessas alturas, a catinga do passageiro empestava a boleia do misto. Ao chegar a Natal, deixou o passageiro no pronto-socorro e foi direto tratar de mandar lavar o carro.

Foi a última vez que dirigiu o misto. Ficou traumatizado com o ocorrido. Afinal, teve de parar o carro umas dez vezes, para que o passageiro corresse para o mato. A partir de então, abominou a profissão de chofer de misto, e se tornou chofer de praça.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 02 de maio de 2025

O DIA DO TRABALHO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O DIA DO TRABALHO

Violante Pimentel 

O Dia do Trabalho, ou Dia do Trabalhador, comemorado em 1º de maio, é considerado feriado nacional. No Brasil e em vários países do mundo, esse dia é dedicado aos trabalhadores, com a concessão de benesses reivindicadas, que visam melhorar a qualidade de vida dessa classe tão sofrida e necessitada.

 

 

A História do Dia do Trabalho remonta o ano de 1886, na industrializada cidade de Chicago (Estados Unidos).

No dia 1º de maio desse ano, milhares de trabalhadores foram às ruas reivindicar melhores condições de trabalho. Nesse mesmo dia, ocorreu nos Estados Unidos uma grande greve geral dos trabalhadores.

Era um sábado e o clima em Chicago era de festa, segundo descreve o historiador James Green no livro “Death in the Haymarket”.

Anarquistas como August Spies conduziram marchas pacíficas naquele dia, em apoio à greve nacional que tinha como pauta central a redução da jornada de trabalho de 13 para oito horas.

Além da diminuição da carga horária, os trabalhadores também exigiam descanso semanal remunerado e um período anual de férias, direitos trabalhistas que ainda não existiam na época.

Dois dias após os acontecimentos, um conflito envolvendo policiais e trabalhadores provocou a morte de alguns manifestantes. Esse fato gerou revolta nos trabalhadores, provocando outros enfrentamentos com policiais.

No dia 4 de maio, num conflito de rua, manifestantes atiraram uma bomba nos policiais, provocando a morte de sete deles. Foi o estopim para que os policiais começassem a atirar no grupo de manifestantes. O resultado foi a morte de doze protestantes e dezenas de pessoas feridas.

Foram dias marcantes na história da luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho.

Para homenagear aqueles que morreram nos conflitos, a Segunda Internacional Socialista, ocorrida na capital francesa em 20 de junho de 1889, criou o Dia Mundial do Trabalho, que seria comemorado em 1º de maio de cada ano.

Aqui no Brasil, existem relatos de que a data é comemorada desde o ano de 1895. Porém, foi somente em setembro de 1925 que esta data tornou-se oficial, após a criação de um decreto do então presidente Artur Bernardes (12.º Presidente do Brasil – de 15 de novembro de 1922 a 15 de novembro de 1926.

Em 1º de maio de 1940, o presidente Getúlio Vargas instituiu o Salário Mínimo.

O salário mínimo deveria suprir as necessidades básicas de uma família (moradia, alimentação, saúde, vestuário, educação e lazer). O que, na realidade, ainda está para acontecer.

Em 1º de maio de 1941 foi criada a Justiça do Trabalho, destinada a resolver questões judiciais relacionadas, especificamente, às relações de trabalho e aos direitos dos trabalhadores.

A violência que marcou os protestos daquela primavera teve início dois dias depois. Em um confronto entre grevistas e trabalhadores temporários contratados por uma fábrica para furar a greve, a polícia atirou contra a multidão deixando um morto e vários feridos.

Os organizadores das manifestações foram denominados Mártires de Chicago. No monumento erguido a eles, estava o seguinte epíteto:

“Um dia nosso silêncio será mais forte que as vozes que hoje vocês estrangulam”

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 26 de abril de 2025

ASSECLAS DE NERO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

ASSECLAS DE NERO

Violante Pimentel

O imperador Nero foi o acusado de incendiar a cidade de Roma em 64 d.C

 

Entre as maldades do imperador romano NERO, conhecido na História pela sua tirania, está o incêndio de Roma, por ele provocado e ao qual ele teria assistido com indiferença, dedilhando sua lira.

Esse grande incêndio de Roma ocorreu em 18 de julho de 64 d.C., e depois de seis dias em chamas, a cidade estava com dois terços reduzidos a escombros.

Logo se divulgou o boato de que Nero teria mandado atear fogo em Roma, para apreciar o espantoso espetáculo e depois escrever um poema baseado na cruel realidade.

Para afastar de si as suspeitas, Nero tratou de atribuir a culpa aos cristãos. Daí, tiveram início as perseguições aos seguidores do Cristianismo. Homens, mulheres e crianças foram presos e condenados aos piores suplícios.

Sob o governo de Nero, Roma teria conhecido o clímax do desregramento moral e político.

Paulo, discípulo de Jesus, foi decapitado. Pedro teve a morte na Cruz. Muitos cristãos eram atirados às feras, no Circo Máximo, num espetáculo que visava acalmar a revolta do povo.

Após o incêndio, o imperador Nero iniciou, imediatamente, um grande projeto de reconstrução da cidade. Logo confiscou bens para construção de seu palácio, a “Domus Aurea” (Casa Dourada), que ocupava, com seus jardins, extensa área urbana.

O Brasil, atualmente, parece infiltrado de asseclas de Nero.

Como num pesadelo, o povo se vê na iminência de ter de volta um ex-presidente, que, depois de indiciado, julgado e condenado em alguns tribunais, e em pleno cumprimento de pena em um órgão federal, foi beneficiado por uma reviravolta processual, o que resultou em sua “descondenação”, tudo sob medida, o que pareceu, para uma boa parte do povo brasileiro, uma verdadeira “diarreia jurídica”. De repente, o condenado tornou-se “descondenado”. E em seguida, foi considerado apto a concorrer, mais uma vez, à Presidência da República.

Em pleno cumprimento de pena por improbidade administrativa, lavagem de dinheiro e corrupção passiva, o condenado foi libertado em nome de um suposto “erro de comarca”, numa jogada capciosa e maléfica, para que pudesse novamente se candidatar à Presidência da República. O resultado foi uma surpreendente e misteriosa vitória, após eleição com o uso de urnas eletrônicas, que continuam “atravessadas” na garganta de grande parte do eleitorado brasileiro.

Sob a iminência de ver, pela terceira vez, esse fantasma devorador do dinheiro público, assumir a Presidência da República, o povo brasileiro está decepcionado com os togados que compõem a Suprema Corte do nosso País.

A contratação de 283 componentes para integrar o governo de transição, com altos salários, é uma demonstração do que virá pela frente, com esse novo governo. Somente um assecla de Nero, no seu delírio, teria essa coragem, contra tudo e contra todos, de assumir altos compromissos, antes mesmo de tomar posse no cargo de Presidente da República, o que somente ocorrerá em 1 de janeiro de 2023.

A política, no seu significado mais amplo e mais nobre, deveria ser, com efeito, a arte de organizar a vida coletiva e individual. Entretanto, ela não passa da mais despudorada mentira.

Estamos assistindo, antes da hora, ao espetáculo de um “rei” desfrutar das regalias da Nação, num gasto sem freios, com aprovação dos vermes do poder.

Esse grupo domina e escraviza a grande massa da população. São algumas centenas de homens cavalgando bilhões, impiamente. E ainda por cima, eles chamam de ímpios aos que se revoltam contra os gastos desenfreados do dinheiro público.

Eles dispõem de tudo quanto racionalmente forma o grande patrimônio comum. Açambarcam o que seria o seu quinhão e o dos outros. Para eles, o aumento da abundância; para os pequenos, os horrores da miséria.

Não podemos caminhar, melhorar ou progredir, enquanto os nossos homens públicos continuarem se julgando uma casta à parte, bem acima da Nação.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 18 de abril de 2025

NÃO SEJAMOS TROUXAS… (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

NÃO SEJAMOS TROUXAS…

Violante Pimentel

 

“Trouxa” é um termo que remonta ao século XIX, e sempre se referiu a um pedaço de pano ou tecido, costurado em forma de bolsa ou sacola, para se colocar quinquilharias.

Minha tia Lindalva Bezerra, de saudosa memória, costurava na sua máquina Singer, ótimas sacolas de tamanhos variados, e ainda bordava a palavra a que se destinava. Substituía as trouxas. Ganhei várias sacolas dela para o meu enxoval de noiva, e ainda hoje guardo com carinho. Cada sacola tinha um nome por ela bordado, com muita delicadeza e amor: Pão, Café, Goma, Feijão, Farinha, Açúcar e Arroz. Assim eram as feiras de antigamente, longe de supermercados e dos confortos atuais. Hoje, as mercadorias a granel já saem embaladas das fábricas.

Com o tempo, o termo “trouxa” passou a ser utilizado de forma figurada, para se referir a uma pessoa tola, presa fácil de golpistas, assunto que atualmente está na moda e na mídia.

O progresso tecnológico e a cibernética transformaram pessoas íntegras e sensatas em iscas fáceis de bandidos, empoderados e apadrinhados por políticos, sem escrúpulos, que usam o dinheiro público como se fossem seu dono. Sobem na vida, pisando e tomando o dinheiro alheio, sempre conseguido com muita dificuldade.

O pânico tomou conta do cidadão de bem, que está sem coragem de atender chamadas de celulares, diante do perigo de clonagem de senhas bancárias durante as ligações, como está acontecendo muito.

O índice de mortalidade aumentou muito com o avanço tecnológico.

O celular é o maior vilão da atualidade, quando manuseado por marginais.

Mil vezes a vida pacata de antigamente, sem a ganância da corrida ao ouro, e quando os pais de família podiam dormir e acordar com tranquilidade, sabendo onde e com quem os filhos se encontravam. Não havia o tal celular, principalmente desligado ou fora de área, que enlouquece qualquer cristão.

É uma pena que um invento tão útil, como o telefone celular, por causa dos incautos, tenha trazido à humanidade um desassossego tão grande. São instrumentos perigosos e letais, como verdadeiras armas de fogo. Induzem até crianças e adolescentes ao suicídio.

O avanço tecnológico pôs frente a frente com os trouxas o TELEFONE CELULAR, este objeto tão útil e ao mesmo tempo tão bem manuseado pelos bandidos e marginais, para pratica de crimes.

No contexto atual, o termo “trouxa” é utilizado para descrever uma pessoa que é facilmente manipulada, enganada ou ludibriada. É comum se ouvir expressões como “fulano é um trouxa” ou “não seja trouxa” para alertar alguém sobre a possibilidade de estar sendo enganado ou explorado. Hoje em dia, o trouxa com celular é o “fraco” dos golpistas.

Um trouxa pode ser alguém que acredita facilmente em promessas falsas, que é facilmente convencido por argumentos frágeis ou que é manipulado por pessoas mal-intencionadas. É uma pessoa que não consegue identificar ou questionar as intenções de outros indivíduos, tornando-se vulnerável e fácil de ser explorada.

Há características comuns entre os trouxas, como: Ingenuidade, credulidade, falta de discernimento ou “burrice”, dificuldade de dizer não e a boa-fé.

O termo “trouxa” é utilizado para descrever uma pessoa ingênua, facilmente enganada ou manipulada. É uma expressão coloquial que pode ser usada de forma pejorativa, mas também de forma humorística. É importante ter cuidado ao utilizar esse termo para não ferir ou ridicularizar outras pessoas. Para evitar ser um trouxa, é fundamental desenvolver o pensamento crítico, conhecer seus direitos, desconfiar de promessas exageradas, aprender a dizer “não” e confiar em sua intuição.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 11 de abril de 2025

AS CORES DE ABRIL (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

AS CORES DE ABRIL

Violante Pimentel

As cores de abril chegaram faceiras, através de flores coloridas e perfumosas, enchendo os corações de amor e esperança. Ninguém mais se lembra da alegria de fevereiro, com máscaras, Colombinas, Pierrô e Arlequim, nem das águas de março, ”marcando o verão”.

De fevereiro, restou-nos, como sempre, nossas caras de palhaços, diante dos carrascos das nossas ilusões.

A belíssima composição “As Cores de Abril”, de Vinicius de Moraes, é uma ode à beleza e à renovação, que acompanham a chegada da primavera. A letra utiliza a mudança das estações como metáfora para a transformação e a esperança, elementos recorrentes na obra do poeta.

O poeta Vinicius de Moraes se coloca na narrativa, aconselhando a todos que cantem e celebrem a vida. A expressão ‘ser feliz é viver morto de paixão’ encapsula a filosofia do artista de se entregar completamente às emoções, vivendo intensamente cada momento. A música é um convite para apreciar o espetáculo da natureza e encontrar a felicidade na paixão pela vida.

Nosso calendário foi uma evolução do antigo calendário romano e os nomes dos meses homenageiam os deuses.

Estando os nomes dos meses ligados aos costumes e instituições romanas, o nosso calendário para contagem do tempo permanece o mesmo, estabelecido pelo imperador romano Júlio César.

Escrevendo a história dos nomes dos doze meses do ano, é como se estivéssemos assistindo a um desfile dos meses romanos.

JANEIRO – Primeiro, aparece uma figura estranha, um deus com duas caras, um deus que olha para diante e para trás, e que segura na mão esquerda uma chave. É JANO.

Os romanos adoravam Jano, num templo que estava aberto durante as guerras e que se fechava quando havia paz. Era o deus dos princípios e dos fins. JANO era também considerado o porteiro do céu, e os romanos o tinham como protetor das suas portas e portões. Como o ano tem doze meses, o templo de JANO tinha 12 portas.

FEVEREIRO – Segue-se ao deus JANO, uma majestosa dama romana. Era FEBRUA, a deusa das purificações. Celebravam-se no segundo mês do ano, festas especiais em honra a Juno e Plutão, rei dos infernos e havia sítios especiais para aplacar as almas dos defuntos. Essas festas eram também de expiação para o povo, e chamavam-se “februais”. O termo vem da palavra februm, que significa purificar; neste mês acontecia um ritual de purificação romana.

Fevereiro é o mês mais curto do ano, pois tem 28 dias nos anos comuns, e 29 nos anos bissextos. Constando o ano, aproximadamente, de 365 dias e 6 horas, ao cabo de quatro anos essas 6 horas formam um dia, que se agrega a Fevereiro. Essa inovação é do tempo de Júlio César, o qual, vendo os inconvenientes que resultavam de não serem levadas em conta aquelas 6 horas, chamou a Roma o astrônomo Sosígenes, de Alexandria, o qual propôs que de quatro em quatro anos se acrescentasse um dia a Fevereiro; daí ficou o mês, a cada quatro anos, com mais um dia, passando a ser chamado de “bissexto”.

MARÇO – Nome originado de Marte, o deus da guerra. No desfile imaginário, ele passa num carro puxado por dois cavalos, cujos nomes eram Terror e Fuga. É uma figura de guerreiro ameaçador, manejando uma comprida lança, levantando para o céu um escudo luzidio e erguendo a sua cabeça altiva, sendo iluminado pelos raios e pelo capacete. Para os romanos, Marte era mais do que um guerreiro. Era um deus que podia conseguir tudo pela sua grande força. Pediam-lhe chuva, consultavam-no sobre casos particulares, sacrificando no seu altar um cavalo, carneiro, pega ou abutre.

ABRIL – Depois de Marte (Março), aparece ABRIL. Não é nem deus nem deusa. É o Anjo da primavera. Gracioso, delicado, meigo e bom. Chega espalhando pela terra lindas flores e fazendo nascer nos sulcos feitos pelas rodas do carro do guerreiro, flores tão pequeninas, tão bonitas e tão delicadas, que comove vê-las. “Abril é o que abre.”

MAIO – Nome em homenagem à deusa MAIA, que desfila sentada num trono de luz. Seu pai chamava-se Atlas e sobre os seus ombros pesava o mundo inteiro. Ele tinha sete filhas, das quais a mais célebre foi Maia, cujo filho era Mercúrio, que levava as ordens dos deuses para a terra.

Júpiter, o pai de todos os deuses, levou Maia e as irmãs e colocou-as como estrelas no firmamento. Eram elas que formavam o grupo de estrelas chamadas plêiadas. A sétima estrela do grupo é invisível. Representa uma das irmãs que casou com um homem chamado Sisypho, e, desde então, como o pobre Sisypho foi condenado a rolar eternamente uma pedra por um monte acima, ela, envergonhada, escondeu a cara.

JUNHO – Seguem no cortejo duas figuras disputando o sexto lugar. Uma é a deusa Juno e a outra é um homem de nome JUNIO. Mas a deusa Juno deu nome ao mês de Junho. Juno era a rainha do céu e esposa de Júpiter. Seu trono de ouro estava junto de seu marido. Todos os deuses lhe prestavam homenagem, quando se apresentavam no palácio de Júpiter; tinha poderes superiores e exercia domínio sobre os fenômenos celestes; produzia o trovão nas alturas, desencadeava os ventos e mandava nos astros. Gostava de passear pelos bosques sagrados, num carro puxado por pavões.

JULHO – Em honra ao guerreiro e imperador Júlio César, surgiu o nome do mês de Julho. Júlio César não só conquistou nações, fez leis célebres e escreveu livros imortais, como também emendou o calendário, que estava em estado deplorável. O tempo e os meses já não se correspondiam como antigamente; a primavera vinha em janeiro e o inverno nos meses que deviam corresponder à primavera. O mês “quintilius’ foi eliminado em sua honra, tomando o seu nome Júlio.

AGOSTO – Nome derivado de Augusto, o primeiro imperador romano, última personagem da procissão pagã imaginária a que assistimos. A princípio, Augusto chamava-se Octávio e governou os romanos, com Marco Antônio e Lépido. Por fim, foi imperador, e fez muito pela glória e engrandecimento do seu magnífico império. O povo, na intenção de lhe agradar, mudou o seu nome de Octávio para Augusto, que significa “nobre”.

O oitavo mês foi escolhido para ter o nome de Agosto, porque era nessa ocasião que o imperador Augusto celebrava os principais acontecimentos da sua vida. Foi em Agosto que ele foi nomeado Cônsul, que acabaram as suas guerras e que conquistou o Egito. Augusto ficou na história como uma grande personagem. O seu reinado recebeu o nome de Idade de Ouro, porque ele não só trouxe paz ao mundo, farto e cansado de guerras, como também fez florescer a arte e a literatura.

Foi no reinado desse imperador poderoso que, longe, na Síria, nasceu a Criança, cujo reinado ainda não acabou e cujo nascimento criou uma época. Nunca o imperador orgulhoso pensou, quando se gabava no seu palácio, de ter encontrado Roma feita de tijolo e tê-la deixado de mármore, que existia já uma Criança que dividiria as épocas da terra e poria uma Cruz entre o reinado de Augusto e o começo de uma nova religião.

Os poetas imortais, Horácio e Virgílio, viveram nessa época. Fundaram-se, então, livrarias e construíram-se templos por toda a parte.

SETEMBRO – Os outros meses aparecem disfarçados, com nomes enigmáticos. Para compreendermos o nome do mês de setembro é necessário recordar que o primitivo calendário romano constava de dez meses e que começava em Março, sendo, portanto, Setembro, o sétimo mês. Por isso, é representado pelo número sete, em algarismos romanos, VII. Este número lia-se em latim “septen”, de onde se derivou Setembro.

OUTUBRO – Para os romanos, como hoje é para os povos que lhes sucederam no continente europeu, Outubro era o mês das colheitas e vindimas. O nome provém de “octos”, que em latim é oito. Com efeito, era o oitavo mês do antigo calendário romano, passando a ser o décimo, quando Nuna, rei de Roma, fixou o princípio do ano no dia primeiro de Janeiro.

Celebravam neste mês, tanto os romanos como os gregos, muitas festividades. Em uma dessas festas era costume atirar aos poços e fontes coroas tecidas de flores e ervas, como tributo às ninfas, a quem tais festas eram consagradas. Era também o mês da colheita das frutas, cujas primícias se ofereciam às divindades.

NOVEMBRO – Era o nono mês, no primeiro calendário romano, e por isso lhe chamavam “November”. Contava-se que, entre as festividades e ritos religiosos mais importantes, estava o consagrado a Diana, deusa das montanhas e dos bosques. Começava com um banquete dedicado a Júpiter e com os jogos circenses, chamados assim, porque se realizavam no circo. No mesmo mês se celebravam os jogos “plebeus”, instituídos para comemorar a reconciliação de patrícios, nobres e plebeus. Eram oferecidos sacrifícios a Netuno, deus dos mares; e se faziam as festas abrumais ou do inverno, por começar na Itália o tempo chuvoso, nevoento e frio.

DEZEMBRO – do latim “December” de “decem”, dez – o décimo e último mês do antigo calendário romano. É representado hoje por um velho de barbas brancas, que traz brinquedos para dar às crianças no dia de Natal, 25 de dezembro.

Para algumas pessoas, esse velho representa São Nicolau, que viveu no século IV e é considerado o patrono das crianças. Essa ideia teve origem numa lenda, segundo a qual São Nicolau teria feito ressuscitar três crianças que haviam sido assassinadas por um carniceiro. Dezembro é um mês característico do frio inverno nos países da Europa, e por isso o representam numa paisagem desolada, com os caminhos cobertos de neve.

Falando sobre os doze meses do nosso calendário, vem-nos à memória um desfile dos meses romanos.

Primeiro, aparece janeiro, o deus JANO, com duas caras; um deus que olha para frente e para trás, e que segura na mão esquerda uma chave.

Os romanos adoravam Jano, num templo que estava aberto durante as guerras e que se fechava quando havia paz. Era o deus dos princípios e dos fins. JANO era também considerado o porteiro do céu, e os romanos o tinham como protetor das suas portas e portões. Como o ano tem doze meses, o templo de JANO tinha 12 portas.

Seguindo-se ao deus JANO, vem uma majestosa dama romana, FEBRUA, a deusa das purificações, chamada de FEVEREIRO.

Celebravam-se no segundo mês do ano, festas especiais em honra a Juno e Plutão, rei dos infernos e havia sítios especiais para aplacar as almas dos defuntos. Essas festas eram também de expiação para o povo, e chamavam-se “februais”. Nesse mês, acontecia um ritual de purificação romana.

Fevereiro é o mês mais curto do ano, pois tem 28 dias nos anos comuns, e 29 nos anos bissextos. Constando o ano, aproximadamente, de 365 dias e 6 horas, ao cabo de quatro anos essas 6 horas formam um dia, que se agrega a fevereiro.

Essa inovação é do tempo de Júlio César, o qual, vendo os inconvenientes que resultavam de não serem levadas em conta aquelas 6 horas, chamou a Roma o astrônomo Sosígenes, de Alexandria, o qual propôs que de quatro em quatro anos se acrescentasse um dia a Fevereiro; daí ficou o mês, a cada quatro anos, com mais um dia, passando a ser chamado de “bissexto”.

Seguindo-se a fevereiro, vem março, nome originado de Marte, o deus da guerra.

No desfile imaginário, ele passa num carro puxado por dois cavalos, cujos nomes eram Terror e Fuga. É uma figura de guerreiro ameaçador, manejando uma comprida lança, levantando para o céu um escudo luzidio e erguendo a sua cabeça altiva, sendo iluminado pelos raios e pelo capacete. Para os romanos, Marte era mais do que um guerreiro. Era um deus que podia conseguir tudo pela sua grande força. Pediam-lhe chuva, consultavam-no sobre casos particulares, sacrificando no seu altar um cavalo, carneiro, pega ou abutre.

Finalmente , vem o mês mais bonito e perfumado do ano, ABRIl. Não é deus nem deusa, mas é o Anjo da Primavera. Gracioso, delicado, meigo e perfumoso. Chega espalhando pela terra lindas flores e fazendo nascer nos sulcos feitos pelas rodas do carro do guerreiro, flores perfumadas, bonitas e pequeninas, formando um espetáculo emocionante.

Depois de Abril, vem MAIO, nome em homenagem à deusa MAIA, que desfila sentada num trono de luz. Seu pai chamava-se Atlas e sobre os seus ombros pesava o mundo inteiro. Ele tinha sete filhas, das quais a mais célebre foi Maia, cujo filho, Mercúrio, levava as ordens dos deuses para a terra.

Júpiter, o pai de todos os deuses, levou Maia e as irmãs e as colocou como estrelas no firmamento. Eram elas que formavam o grupo de estrelas chamadas plêiadas. A sétima estrela do grupo é invisível. Representa uma das irmãs que casou com um homem chamado Sisypho, e, desde então, como o pobre Sisypho foi condenado a rolar eternamente uma pedra por um monte acima, ela, envergonhada, escondeu a cara.

Chega JUNHO, seguindo no cortejo duas figuras, disputando o sexto lugar. Uma é a deusa JUNO e a outra é um homem de nome JUNIO. Mas a deusa JUNO deu nome ao mês de Junho.

JUNO era a rainha do céu e esposa de Júpiter. Seu trono de ouro estava junto de seu marido. Todos os deuses lhe prestavam homenagem, quando se apresentavam no palácio de Júpiter; tinha poderes superiores e exercia domínio sobre os fenômenos celestes; produzia o trovão nas alturas, desencadeava os ventos e mandava nos astros. Gostava de passear pelos bosques sagrados, num carro puxado por pavões.

Em seguida, chega JULHO, em honra ao guerreiro e imperador Júlio César. Júlio César não só conquistou nações, fez leis célebres e escreveu livros imortais, como também emendou o calendário, que estava em estado deplorável. O tempo e os meses já não se correspondiam como antigamente; a primavera vinha em janeiro e o inverno nos meses que deviam corresponder à primavera. O mês “quintilius’ foi eliminado em sua honra, tomando o seu nome Júlio.

O oitavo mês é AGOSTO, nome derivado de Augusto, o primeiro imperador romano, última personagem da procissão pagã imaginária a que assistimos. A princípio, Augusto chamava-se Octávio e governou os romanos, com Marco Antônio e Lépido. Por fim, foi imperador, e fez muito pela glória e engrandecimento do seu magnífico império. O povo, na intenção de lhe agradar, mudou o seu nome de Octávio para Augusto, que significa “nobre”.

O oitavo mês foi escolhido para ter o nome de AGOSTO, porque era nessa ocasião que o imperador Augusto celebrava os principais acontecimentos da sua vida. Foi em Agosto que ele foi nomeado Cônsul, que acabaram as suas guerras e que conquistou o Egito. Augusto ficou na história como uma grande personagem. O seu reinado recebeu o nome de Idade de Ouro, porque ele não só trouxe paz ao mundo, farto e cansado de guerras, como também fez florescer a arte e a literatura.

Foi no reinado desse imperador poderoso que, longe, na Síria, nasceu a Criança, cujo reinado ainda não acabou e cujo nascimento criou uma época. Nunca o imperador orgulhoso pensou, quando se gabava no seu palácio, de ter encontrado Roma feita de tijolo e tê-la deixado de mármore, que existia já uma Criança que dividiria as épocas da terra e poria uma Cruz entre o reinado de Augusto e o começo de uma nova religião.

Os poetas imortais, Horácio e Virgílio, viveram nessa época. Fundaram-se, então, livrarias e construíram-se templos por toda a parte.

Veio SETEMBRO e outros meses apareceram, disfarçados, com nomes enigmáticos.

Para compreendermos o nome do mês de setembro, é necessário recordar que o primitivo calendário romano constava de dez meses e que começava em Março, sendo, portanto, Setembro, o sétimo mês. Por isso, é representado pelo número sete, em algarismos romanos, VII. Este número lia-se em latim “septen”, de onde se derivou Setembro.

Veio OUTUBRO. Para os romanos, como hoje é para os povos que lhes sucederam no continente europeu, Outubro era o mês das colheitas e vindimas. O nome provém de “octos”, que em latim é oito. Com efeito, era o oitavo mês do antigo calendário romano, passando a ser o décimo, quando Nuna, rei de Roma, fixou o princípio do ano no dia primeiro de Janeiro.

Celebravam neste mês, tanto os romanos como os gregos, muitas festividades. Em uma dessas festas era costume atirar aos poços e fontes coroas tecidas de flores e ervas, como tributo às ninfas, a quem tais festas eram consagradas. Era também o mês da colheita das frutas, cujas primícias se ofereciam às divindades.

Chegou NOVEMBRO, o nono mês, no primeiro calendário romano, e por isso lhe chamavam “November”. Contava-se que, entre as festividades e ritos religiosos mais importantes, estava o consagrado a Diana, deusa das montanhas e dos bosques. Começava com um banquete dedicado a Júpiter e com os jogos circenses, chamados assim, porque se realizavam no circo. No mesmo mês se celebravam os jogos “plebeus”, instituídos para comemorar a reconciliação de patrícios, nobres e plebeus. Eram oferecidos sacrifícios a Netuno, deus dos mares; e se faziam as festas abrumais ou do inverno, por começar na Itália o tempo chuvoso, nevoento e frio.

Finalmente, surgiu DEZEMBRO – do latim “December” de “decem”, dez – o décimo e último mês do antigo calendário romano. É representado hoje por um velho de barbas brancas, que traz brinquedos para dar às crianças no dia de Natal, 25 de dezembro

Para algumas pessoas, esse velho representa São Nicolau, que viveu no século IV e é considerado o patrono das crianças. Essa ideia teve origem numa lenda, segundo a qual São Nicolau teria feito ressuscitar três crianças que haviam sido assassinadas por um carniceiro. Dezembro é um mês característico do frio inverno nos países da Europa, e por isso o representam numa paisagem desolada, com os caminhos cobertos de neve.

VINÍCIUS E TOQUINHO “AS CORES DE ABRIL”

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 04 de abril de 2025

COCO VELHO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

COCO VELHO

Violante Pimentel

 

Eu era menina em Nova-Cruz, e presenciava uma antiga serviçal da nossa casa, Zefa, raspar coco seco, já estragado, e levar ao fogo numa pequena panela, para fazer azeite e “hidratar” os cabelos encarapinhados. Era o “hidratante” caseiro que ela usava e por isso estava sempre com os cabelos alisados e lustrosos.

A jovem, afrodescendente, dizia que quanto mais velho o coco, mais azeite ela “apurava” no fogo”, para cuidar das suas madeixas. E o cabelo preto de Zefa lustrava, de fazer inveja, com o uso contínuo de azeite de coco velho, de fabricação própria. Se o coco fosse novo, dizia ela que não servia, pois quase não dava azeite.

Sempre que ouço alguém se lastimando por ter entrado na “pior” idade, me lembro de Zefa, e repito o antigo adágio popular (de origem portuguesa), pra mim o melhor de todos: “Coco velho é que dá azeite.”

Quantas pessoas queridas partiram antes do tempo, deixando seus sonhos e amores, sem terem alcançado o progresso tecnológico, e tudo de bom que a vida continua nos oferecendo… É pensando nisso, que não ouso reclamar da passagem do tempo. O ideal seria que passasse mais devagar.

Dizer que o velho lembra rabugem, é uma ignomínia. Depende do “velho”, pois cada caso é um caso. Não foi em vão que Maurício de Sousa criou a figura do Cascão, que ensina a higiene pessoal às crianças. O idoso pode manter a mesma performance e elegância que teve na juventude, e alguns homens se tornam ainda mais charmosos na maturidade. Só não pode é deixar de sonhar.

Nada é mais triste do que a morte de uma ilusão. Quando as ilusões se acabam, se pode continuar existindo, mas não se pode continuar vivendo. Viver é uma coisa. Existir é outra.

A velhice, em si, é um estado de espírito. Nada de decadência, “enferrujamento”, ou frangalhos. A vida é uma dádiva divina, e o homem tem o direito de escolher entre viver com dignidade, sem querer competir com os jovens, ou tentar mascarar os anos, imitando os jovens e se tornando ridículo nos hábitos e escolhas.

O envelhecimento não é notado, quando se tem uma boa qualidade de vida, com saúde bem cuidada, alimentação saudável e cuidados médicos, a título de prevenção.

Devemos viver, como se cada dia fosse “O primeiro dia do resto da nossa Vida”(Título do romance de Kate Eberlem, encantador, revigorante e extremamente verdadeiro).

Devemos valorizar todos os momentos que a vida nos oferece, e aceitar com resignação, mesmo “aos trancos e barrancos”, as provações e percalços que encontramos pelos caminhos. A Vida não é o “ontem” nem o “amanhã”, mas apenas o “hoje”. Quanto mais nos chegarmos às pessoas queridas, incluindo-as na nossa vida, mais momentos de felicidade teremos.

Depois, de nada adiantará chorar sobre o leite derramado. Estamos todos no mesmo barco.

Diz o adágio popular:

“COCO VELHO É QUE DÁ AZEITE”

A sabedoria popular é rica em adágios, que mexem com pessoas que já dobraram o “cabo da boa esperança” e estão na “pior” idade. Em contrapartida, os velhos revidam os gracejos, afirmando com convicção:

“Coco velho é que dá azeite”;

“A cavalo velho, capim novo”;

“À égua velha, cerca nova.”

“Maracujá só presta quando está murcho” (da música “Rela-bucho”, de Elino Julião);

“Panela velha é que faz comida boa” (da música “Panela Velha”, de Sérgio Reis);

Essas músicas engraçadas não deixam de conter uma homenagem ao pessoal “das antigas”.

Pois bem. Todo boato tem um fundo de verdade.

“Maracujá só presta quando está murcho” (da música “Rela-bucho”, de Elino Julião);

“Panela velha é que faz comida boa” (da música “Panela Velha”, de Sérgio Reis).


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 28 de março de 2025

O DISFARCE (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O DISFARCE

Violante Pimentel

O forte disfarça o frágil que há nele. Só a alguns é dado compreender o espetáculo que cerca as estrelas. A alma humana é escondida pela máscara da alegria, que esconde a mais vil tristeza.

O homem luminoso, derrotado nos seus sonhos, mas com sua grande estrela ainda acesa, há de superar, em todos os sentidos, a maldade dos seus semelhantes.

Recordando o filme El Cid, de 1961, que nunca esqueci:

El Cid (bra/prt: El Cid) é um filme épico de 1961, que conta a história romanceada da vida do cristão e maior herói do Reino de Castela, o cavaleiro Don Rodrigo Diaz de Bivar (Vivar), chamado El Cid (do árabe as-Sidi, que significa “O Senhor”), que, no século XI, lutou contra o norte-Africano Ibn Yussuf, da dinastia dos Almorávidas e, finalmente, contribuiu para a unificação da Espanha. O filme é estrelado por Charlton Heston no papel-título e Sophia Loren como Doña Ximena.

 

 

Produzido por Samuel Bronston Productions em associação com Dear Film Production e lançado nos Estados Unidos por Allied Artists Pictures Corporation, o filme foi dirigido por Anthony Maann e produzido por Samuel Bronston, com Jaime Prades e Michal Waszynski como produtores associados. O roteiro foi de Philip Yordan, Bem Barzman e Fredric M. Frank, a partir de uma história de Frank. A trilha sonora foi de Miklós Rozsa, a cinematografia realizada por Robert Krasker e a edição por Robert Lawrence.

Enredo do filme El Cid:

O general Ibn (pronuncia-se Ben) Yussuf (Herbert Lom), da dinastia dos Almorávidas, convocou todos os Emires de Al-Andalus para o Norte de África, castiga-os por sua complacência com os infiéis e revela seu plano para dominar o mundo islâmico.

Mais tarde, durante o caminho para cumprir seus votos de noivado com Dona Ximena (Sophia Loren), o nosso herói Don Rodrigo (Charlton Heston), envolve-se em uma batalha contra o exército mouro. Dois dos emires, Al-Mu’tamin (Douglas WilmeDouglas Wilmer) de Zaragoza e Al-Kadir (Frank Thring) de Valência, são capturados, mas Rodrigo liberta-os na condição de prometerem nunca mais atacar as cercanias de rei Ferdinand de Castela (Ralph Truman).

Assim, os emires proclamam-no “El Cid” (castelhano espanhol para pronúncia árabe de Senhor: “Al Sidi”) e juram amizade a ele. Por este ato de misericórdia, Don Rodrigo é acusado de traição contra o rei pelo conde García Ordóñez (Raf Vallone), e mais tarde pelo pai de Ximena, Gormaz de Oviedo (Andrew Cruickshank). Por esse motivo o pai de Rodrigo, Don Diego (Michael Hordern), declara serem Gormaz e Ordóñez mentirosos. Gormaz atinge Don Diego, com uma luva, para desafiar o velho homem a uma duelo.

Rodrigo chega a implorar a Gormaz que é o Campeão do Rei para retirar o desafio, porém ele se recusa a tomar de volta o mesmo, e Rodrigo mata-o por este duelo.

Gormaz, ferido mortalmente, clama por Ximena, e, como último desejo, pede que ela se vingue de seu assassino, o seu próprio noivo. Rodrigo, em seguida, reclama para si o manto de Campeão do Rei em um único combate pelo controle da cidade de Calahorra, que ele ganha.

Rodrigo é enviado em uma missão para recolher o tributo de vassalos mouros da coroa castelhana, mas Ximena e o conde Ordóñez, se juntam para tentar matá-lo. Rodrigo e seus homens são emboscados, mas são salvos pelo Emir Al-Mu’tamin, um dos pares a quem mostrara misericórdia anteriormente. Voltando para casa, sua recompensa é a mão de Ximena em casamento. Mas o casamento não se consuma e ela desloca-se para um convento.

Com a morte do rei Fernando, o reino é dividido entre seus filhos, mas seu filho mais velho, Príncipe Sancho (Gary Raymon ), a quem foi dado o reino de Castela, age para tornar-se o rei do reino unificado. Ao filho mais novo, Príncipe Alfonso (John Fraser), foi prometido o trono de León, e à sua irmã, a princesa Urraca (Geneviève Page) foi dado o trono da cidade de Calahorra. Diante das tentativas de Sancho de dominar todo o reino, a princesa Urraca envolve-se em um plano para seu assassinato. Na coroação de Alfonso, El Cid o faz jurar sobre a Bíblia que ele não tinha parte na morte de seu irmão. Desde que ele não tinha parte nisso (como sua irmã era responsável), ele jura, e faz Rodrigo banido por seu atrevimento. O amor de Ximena para El Cid reacendeu. Ela o acompanha em seu exílio.

Mas, Rodrigo é posto em serviço por outros combatentes espanhóis exilados e eventualmente, para o serviço do rei em proteger Castela do exército norte-Africano de Yussuf em uma batalha na planície de Sagrajas. Rodrigo não se junta ao rei, mas alia-se com os emires que lutam em Valência, onde Rodrigo alivia a cidade do ímpio Emir de Al-Kadir, que o traiu. Em represália por sua desobediência, o rei Alfonso aprisiona D. Ximena e as filhas gêmeas de El Cid. Ordóñez traz Ximena de onde o rei a tinha aprisionado com suas filhas e juntam-se a Rodrigo nas proximidades de Valência. Valência cai e o Emir Al-Mu’tamin juntamente com o exército de Rodrigo e os valencianos oferecem a coroa a Rodrigo, “O Cid”, mas ele se recusa e envia a coroa para o Rei Alfonso. Rodrigo então repele o exército do invasor de Ben Yussuf, mas é ferido em batalha por uma flecha da vitória final. Se a seta fosse removida, ele seria incapaz de levar seus combatentes, mas ele teria uma chance de recuperação. El Cid obtém uma promessa de Ximena de não retirar a flecha, optando por montar em seu cavalo e lutar, morrendo ou morto. O Rei Alfonso chega em seu leito e pede seu perdão.

Rodrigo, El Cid, morre, e assim seu corpo é preso na cela de seu cavalo e enviado à frente de seu exército, com o rei Alfonso e Emir Al-Mu’tamin montados em ambos os lados. Quando o exército de Yussuf percebe que El Cid está com os olhos abertos, acredita que o seu fantasma voltou dos mortos.

Babieca, seu cavalo, atropela e mata Ben Yussuf, que está apavorado demais para lutar. O exército norte-Africano invasor é esmagado. O rei Alfonso leva mouros e cristãos em uma oração “para o cavaleiro mais puro de todos”.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 22 de março de 2025

O AZULÃO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O AZULÃO

Violante Pimentel

 

Não estou falando do belíssimo pássaro Azulão, mas sim de um antigo bar, que existiu em Natal, durante décadas (possivelmente, a partir da década de 70), e encerrou suas atividades, não faz tanto tempo assim.

As histórias do Azulão eram folclóricas e tornaram-se conhecidas, até por quem nunca o frequentou.

Exaltando o pássaro nordestino, encontrei no Blog dos Pássaros: “O azulão-do-nordeste (Cyanoloxia brissonii) é uma ave passeriforme da família Cardinalidae, também conhecido como azulão-bicudo, azulão, azulão-do-sul, azulão- verdadeiro, azulão-da-mata, guarundi-azul e tiatã. É um pássaro de porte médio, com plumagem predominantemente azul. Ave nativa do Brasil, e pode ser encontrado no nordeste até o Rio Grande do Sul. Além disso, ele também pode ser encontrado em países vizinhos, como Venezuela, Colômbia, Argentina, Paraguai e Bolívia.”

Pois bem. Até poucos anos, havia em Natal (RN) um pequeno bar, localizado na Avenida Afonso Pena, no Tirol, com o nome de Azulão Bar. Era ponto de encontro de boêmios da cidade, incluindo poetas, escritores, políticos e servidores públicos do alto escalão, da administração direta e indireta.

Conta o folclore boêmio da cidade, que um conhecido advogado de Natal, boêmio maduro, alto funcionário público, fazia do Azulão uma “extensão” da repartição onde trabalhava. Era comum, se ver, no final da tarde, um contínuo da repartição adentrar ao bar, portando uma pasta com documentos para o “chefão” assinar, como se estivesse em expediente, no órgão público onde trabalhava.

Havia um bloco de boêmios de idade madura, frequentadores habituais do Azulão Bar, que, de manhã cedo, chegavam ao bar, “para assinar o ponto.” Bebiam antes do início do expediente das repartições públicas, para poderem assinar o nome com firmeza, sem tremer, no “livro de frequência”.

No bar, de manhã cedo, havia sempre uma toalha de rosto para o boêmio colocar no pescoço, segurando com as duas mãos, para parar de tremer, e poder assinar a “folha de presença”. Em alguns, a tremedeira só passava depois que ingeriam alguma bebida.

Como brincadeira mórbida, ao findar o ano, os frequentadores gaiatos organizavam um “bolão”, apostando nos possíveis nomes de quem eles achavam que morreriam no ano seguinte. E quando ocorria o óbito de algum frequentador, era dado baixa no seu nome e prestada uma homenagem póstuma comovente, incluindo discursos de pessoas ilustres.

Naquela confraria, a vida era levada com bom humor e a saúde dos frequentadores preocupava mais à família do que a eles próprios.

Todos os dias, ali se podia saborear tira-gostos simples, como carne de sol e queijo de coalho assados, feijoada, ou cozido.

Aos sábados, podia-se comer uma boa rabada, dobradinha, sarapatel (picado) ou buchada, alimentos fortes e gordurosos, que davam “sustança” aos boêmios.
Aos domingos, o Azulão era fechado.

Alguns figurões da cidade, aos sábados, costumavam levar a família para o Azulão, onde almoçavam e permaneciam até o final da tarde. A diversão eram as boas conversas, coisa que não faltava.

Podia ter música ao vivo, se algum músico amador, seresteiro, lá chegasse com o seu instrumento musical, de preferência um violão.

O Azulão era altamente familiar, reunindo poetas, escritores e outras figuras importantes do Rio Grande do Norte. Era a segunda casa de muitos boêmios de Natal.

Muito bem localizado e bem frequentado por boêmios diferenciados, o Azulão era uma seleta confraria, onde se respirava amizade, respeito e cultura.

Figuras ilustres da cidade, de saudosa memória, como Dr. Ney Aranha Marinho, Dr. Fernando Pereira, Dr. Francisco Bittencour, Dr. Cleto Barreto, Gildázio Felipe de Souza e outros, eram frequentadores do Azulão, e costumavam levar as esposas.

O Azulão faz parte da memória boêmia da cidade, como o Bar do Mário e o bar de Zé Coroa.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 14 de março de 2025

O COMEÇO DE TUDO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VILOANTE PIMENTEL)

O COMEÇO DE TUDO

Violante Pimentel

Estávamos na Barra do Cunhaú, eu e minha filha Diana, juntamente com meu irmão Bernardo, esposa e filhos, em janeiro de 2013, em pleno veraneio.

Percebi que Bernardo e o filho caçula não saíam do “notebook”, coisa que eu ainda não possuía. Certo dia, minha curiosidade aumentou e eu perguntei:

– O que vocês estão vendo de tão engraçado no computador?

Meu irmão e o filho responderam:

– É o Jornal da Besta Fubana, de Recife.

O filho caçula de Bernardo estava cursando Medicina em Recife, e através dos colegas, passou a conhecer o JBF, que, naquela época, já fazia sucesso.

Bernardo tornou-se leitor assíduo do JBF e, uma vez por outra, passou a escrever para Luiz Berto, o Editor, pedindo a publicação de textos que ele escrevia.

Fiquei com inveja do meu irmão e enviei um texto da minha autoria para Luiz Berto, me apresentando como irmã de Bernardo. Nunca tinha publicado nada, apesar de ter mania de escrever, para mim mesma, poesias, crônicas e contos.

Luiz Berto publicou o primeiro texto que enviei, e recebi elogios de leitores e grandes colunistas, como a consagrada poeta Glória Horta (É A GLÓRIA), de saudosa memória, e da grande poeta e Cordelista Dalinha Catunda.

O segundo texto também agradou e, quando eu menos esperava, recebi um e-mail do Editor Luiz Berto, me tecendo elogios e me convidando para assinar uma coluna no JBF.

Temerosa da responsabilidade, liguei para Bernardo, que vibrou com o convite e me incentivou a aceitar, pois “isso é o que todo o mundo deseja.” Disse para mim que “um convite desse ninguém enjeita”.

E assim, com a cara e a coragem, inibida diante da intelectualidade do Escritor e Editor Luiz Berto e dos excelentes colunistas, tornei-me fubânica, numa época em que o JBF já era uma irmandade maravilhosa.

Confesso que sinto saudade da minha estreia no JBF, pois passei a conviver virtualmente com pessoas maravilhosas, que sempre me incentivaram.

Relembrando um dos meus primeiros textos publicados no JBF:

  • * *

UMA CANA

Pedro Elias era motorista de um órgão público estadual. Era um homem bom, respeitador e honesto. Para não ser perfeito, gostava de beber, e, uma vez por outra, tomava umas carraspanas, chegando ao trabalho embriagado. Já havia sido repreendido, verbalmente, diversas vezes, até que recebeu as penalidades de advertência e de suspensão.

Depois disso, ficou envergonhado e com medo de perder o emprego. Afinal, tinha a esposa e três filhos para sustentar. A partir de então, esforçou-se para andar na linha.

Depois de passar dois meses sem beber, recuperou a confiança dos colegas e do chefe imediato. Um dia, o Dr. José Silveira, Secretário desse órgão, precisou fazer uma viagem a João Pessoa, a serviço. Não gostou, quando soube que o motorista escalado para dirigir o carro oficial era Pedro Elias, que tinha fama de pinguço. O chefe da oficina, entretanto, garantiu que ele havia deixado de beber, e agora era outro homem.

Passando em Mamanguape (PB), por volta de meio dia, o Secretário ordenou ao motorista que parasse em um restaurante, a fim de almoçarem. Gentilmente, facultou ao motorista sentar-se com ele à mesa. Por timidez, o homem preferiu ficar mais afastado, em outra mesa, onde se sentiria mais à vontade.

O Secretário pediu ao garçom o almoço e um refrigerante. O motorista chamou o garçom e cochichou-lhe: “Rapaz, pelo amor de Deus, eu estou aqui doido pra tomar uma chamada de cana. Quero que você me traga uma doze grande de cachaça, disfarçada numa xícara, pra meu chefe, que está ali, não notar.”

O garçom anotou os pedidos, inclusive o do motorista, e do meio do salão os transmitiu ao colega que atendia no balcão. Para surpresa do Secretário, soou-lhe aos ouvidos a voz estridente do garçom, lendo os pedidos anotados: – ” Pra mesa 5, uma coca cola e um filé com fritas! Pra mesa 8, aquela ali, o homem quer uma cana “disfalçada”, numa xícara!

O Secretário virou-se para a mesa onde estava Pedro Elias, encarou-o, e balançou a cabeça em sinal de reprovação. O motorista, sentindo-se perdido, levantou-se nervoso e protestou: – Eu mesmo não pedi isso não, doutor! Eu não quero é nada! Esse garçom se atrapalhou!” E saiu do restaurante, indo aguardar o Secretário no carro.

A viagem até João Pessoa prosseguiu em completo silêncio. O motorista, com medo de uma nova punição, ainda tentou explicar ao Secretário, sem êxito, que o garçom havia se enganado. Dr. José Silveira, visivelmente irritado, permaneceu calado, demonstrando não acreditar em nenhuma daquelas palavras.

E foi assim que ruiu por terra a picardia do motorista Pedro Elias, de pretender tomar uma chamada de cana, disfarçada, numa xícara.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 07 de março de 2025

DEPOIS DO CARNAVAL (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

DEPOIS DO CARNAVAL

Violante Pimentel)

Hoje, depois do carnaval, literalmente, inicia-se o Ano Novo (2025). O Carnaval é uma festa que transcende fronteiras geográficas e temporais, representando tradição e inovação.

É uma verdadeira lavagem cerebral do povo, com show de bundas, vestidas apenas com fio dental, na televisão e nos blocos carnavalescos que enchem as ruas do País, onde as visões se turvam e a libido enlouquece.

No Carnaval, há uma lavagem cerebral generalizada e o brasileiro, durante o período de Momo, adormece a mente para os problemas diários, e foca apenas na nudez exibida na mídia, agitando os cérebros e proliferando desejos.

Com as fantasias minúsculas que exibem o corpo, e muita bebida, o carnaval dá uma prega na vida e no pensamento. Fica tudo pra depois…E o depois só traz contas a pagar.

O Carnaval é a expressão mais genuína da cultura brasileira. É o tempo em que o povo brasileiro se reúne para celebrar sua própria miséria e sua própria ignorância, e expor as suas bundas. Alguns aproveitam o carnaval para sair do armário e assumir seus distúrbios hormonais e suas taras.

O Carnaval é o verdadeiro “Laissez-faire”, expressão francesa, que significa “deixe fazer”. Ela é utilizada para identificar um modelo político e econômico de não – intervenção estatal. O poder público deixa tudo acontecer.

A Barra do Cunhaú, bela praia do Rio Grande do Norte (Canguaretama), que já foi um recanto familiar, onde se podia descansar com tranquilidade, atualmente, no carnaval, passou a ser invadida por visitantes carnavalescos perturbadores e inconvenientes, portando paredões e serviços de som, onde a baixaria da música Funk impera. É de fazer vergonha o nível de músicas Funk que esses visitantes impõem aos veranistas e proprietários. Um verdadeiro deboche, sob os olhos do poder público, que, mesmo disponibilizando diversos veículos de fiscalização, são desrespeitados pelos invasores. Ao serem avistados, impõem aos infratores apenas a diminuição do volume dos sons. Ao se afastarem, a barulheira volta a imperar.

Acorda, Barra do Cunhaú!

Os administradores estão se deixando dominar pelos forasteiros, e enxotando os veranistas e proprietários de imóveis. Permitem que os baderneiros invadam a praia, fazendo com que os veranistas e moradores batam em retirada, à procura de outros lugares, onde possam preservar a saúde.

* * *

Marcha de Quarta-Feira de Cinzas – Vinicius de Moraes

 

 

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações, saudades e cinzas
Foi o que restou

Pelas ruas, o que se vê
É uma gente que nem se vê, que nem se sorri
Se beija e se abraça, e sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto, é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia, vai se acabar, todos vão sorrir
Voltou a esperança, é o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar

Porque são tantas coisas azuis
Há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais

Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz, seu canto de paz
Seu canto…


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 28 de fevereiro de 2025

O CARNAVAL (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O CARNAVAL

Violante Pimentel

Alguns estudiosos entendem o Carnaval como uma festa cristã, pois sua origem, na forma como entendemos a festa atualmente, tem relação direta com o jejum quaresmal.

Durante a Idade Média, as festas de Carnaval consistiam, principalmente, em bailes ao ar livre, nas praças públicas, e de serenatas feitas pelas pessoas mais importantes da cidade.

 

Os mascarados usavam uma espécie de capuz com duas orelhas bem compridas, que tinham em cada ponta um guiso.

Nem sempre os músicos se saíam bem nessas serenatas, pois se de algumas casas recebiam dinheiro e víveres, de outras, como nas dos comerciantes e pessoas ricas e avarentas, recebiam lixo, água suja e até estopa em chamas. Em represália, os músicos atiravam pedras nas casas, onde eram mal recebidos, sendo, por sua vez revidados, estabelecendo-se, assim, violentos combates.

Como acontecia quase sempre, resultarem vários feridos, a polícia proibiu essas festas. Também os mascarados e blocos grotescos terminavam quase sempre em pauladas, com grande alegria dos espectadores.

Até bem pouco tempo, o Carnaval de Nice (França) era muito afamado, pelos cortejos e carros artisticamente enfeitados. Os desenhos e “maquetes” para esses préstimos eram obras de dois pintores: pai e filho de nome Mossa, pouco conhecidos. Em 1874, Mossa teve a ideia de preparar um cortejo humorístico que tivesse, numa carroça, uma figura que seria proclamada como o rei do Carnaval.

Esta inovação foi muito aplaudida, tanto que nos anos seguintes foram muitos os imitadores, mas nenhum a suplantou.

Nas grandes oficinas de Mossa, quatro ou cinco meses antes do Carnaval, era intenso o trabalho e havia mais de sessenta pessoas trabalhando na confecção dos carros carnavalescos. As figuras eram feitas de papelão ou de armação de arame e depois vestidas. As cabeças eram verdadeiras obras de arte.

Os povos antigos do Oriente costumavam usar máscaras nas cerimônias. Na fabricação dessas máscaras, eles empregavam os materiais mais diversos.

No Museu de Londres ainda se encontra uma máscara feita de mosaico e malaquita, que foi usada pelos grandes sacerdotes. A malaquita é um carbonato básico de cobre que contém também cromo, cálcio e zinco e se forma em áreas de oxidação superficial em depósitos do mineral. Os egípcios faziam as máscaras de lâminas de ouro, de vidro, de uma espécie de cera, cujo segredo de fabricação possuíam, e até de madeira. Essas máscaras de madeira, porém, só serviam para cobrir os rostos das múmias.

Entre os gregos e romanos as máscaras tiveram utilidade menos fúnebre. Durante o espetáculo, cada ator aparecia com uma máscara que caracterizava seu papel na cena. Para cada idade, cada ramo social , desde o rei, o herói ou o escravo, havia uma máscara diferente, de modo que qualquer pessoa, por menos inteligente que fosse, que assistisse a um espetáculo, logo reconhecia em cada ator o personagem que representava.

Em Veneza, o Dooge – o supremo magistrado – oferecia, durante as festas do Carnaval, grandes bailes no Palácio do Governo. A “Ridotta” (assim se chamava a festa), reunia toda a nobreza veneziana.

Damas e Cavalheiros ostentavam luxuosas fantasias e exibiam caríssimas joias. Nos jardins, muito bem iluminados por lanternas de cores, também se dançava.

Os mascarados se disfarçavam com meias-máscaras de veludo preto, que tiveram sua origem na cidade de Veneza, e assim, irreconhecíveis, podiam fazer brincadeiras espirituosas e interessantes, sem correr o risco de serem descobertos.

Durante o baile, os criados percorriam os salões e jardins com bandejas cheias de guloseimas de toda espécie. Porém, algumas dessas gulodices eram recheadas com substâncias amargas, picantes ou então bem azedas, e aqueles que as recebiam faziam caretas, que muito divertiam os outros convivas. Mas, havia alguns que engoliam depressa o doce, sem dar a perceber aos outros o logro em que haviam caído, enquanto seus companheiros esperavam atentamente o menor sinal de repugnância, para estourarem em gostosas gargalhadas.

Repisando, o Carnaval teve sua origem na Antiguidade, onde se celebravam os deuses, e quando se permitia uma alteração na ordem social.

Desta maneira, os escravos e servos assumiam os lugares dos senhores e a população aproveitava para se divertir.

Embora seja conhecido como o país do Carnaval, o Brasil não é o único a comemorá-lo de forma intensa.

Cidades como Veneza (Itália), Nice (França), Nova Orleans (EUA), Ilhas Canárias (Espanha), Oruro (Bolívia) e Barranquilla (Colômbia), também celebram a festa de forma bem animada.

Na Babilônia, se realizava a comemoração das Saceias, onde era permitido que um prisioneiro assumisse a identidade do rei por alguns dias, sendo morto ao fim da comemoração. Igualmente havia uma celebração, no templo do deus Marduk, quando o rei era agredido e humilhado, confirmando a sua inferioridade diante da figura divina.

Já na Grécia Antiga, havia festas para se comemorar a chegada da primavera onde estava permitido que toda população, sem distinção de nascimento, participasse do evento. Celebração semelhante ocorria no Império Romano, na Saturnália, quando as pessoas se mascaravam e passavam dias a brincar, comer e beber.

Com a ascensão do Cristianismo, as festas pagãs ganharam novos significados. Assim, o Carnaval tornou-se a oportunidade dos fiéis despedirem-se de se alimentarem de carne. Inclusive, a palavra carnaval vem do latim carnis levale, que significa “retirar a carne”.

Para a Igreja Católica, o Carnaval antecede a Quaresma, o período de quarenta dias antes da Páscoa, onde se recorda o momento no qual Jesus esteve no deserto e foi tentado pelo demônio. O carnaval de Veneza se caracterizava pelos bailes e trajes ricamente elaborados.

Desde o início da sua comemoração, no Carnaval, as pessoas podiam esconder ou trocar de identidade.

Assim, tinham maior liberdade para se divertir, ao mesmo tempo que podiam adquirir características ou funções diferentes do que eram verdadeiramente: pobres podiam ser ricos, homens podiam ser mulheres, entre outros.

Em Veneza, Máscaras de Carnaval eram usadas pelos nobres, para esconder sua identidade e para que desfrutassem da festa junto ao povo, na clandestinidade.

Esta é a origem do uso da máscara, que é uma característica marcante desta celebração.

No Brasil, o Carnaval surgiu com o entrudo trazido pelos portugueses. Este consistia numa brincadeira quando as pessoas atiravam água, farinha, ovos e tinta uma nas outras.

Por sua parte, os africanos escravizados se divertiam nestes dias ao som de batuques e ritmos trazidos da África e que se mesclariam com os gêneros musicais portugueses. Esta mistura seria a origem da marchinha de carnaval e do samba, entre muitos outros ritmos musicais.

No começo do século XX, com o objetivo de civilizar a festa, a prática de lançar farinha e água foi proibida. Por isso, as pessoas começaram a importar dos carnavais de Paris e Nice o costume de jogar confetes, serpentinas e buquês de flores.

Com a popularização dos automóveis, as famílias mais abastadas do Rio de Janeiro, Salvador ou Recife, saíam com os carros e jogavam confetes e serpentinas nos passantes.

Esta tradição se manteve até a década de 30, quando se registrou o fim da fabricação dos automóveis descapotáveis e também pelo barateamento dos veículos que permitiam as classes populares entrarem na festa.

O Carnaval de rua era animado pelas marchinhas, um gênero musical parecido com as marchas militares, porém mais rápidas e com letras de duplo sentido. Desta maneira, criticam a sociedade, a classe política e a situação do país de maneira geral.

Considera-se que a primeira marchinha de Carnaval tenha sido “Ò Abre Alas”, escrita em 1899 pela compositora carioca Chiquinha Gonzaga.

Surgem os “ranchos”, as “sociedades carnavalescas” e os “cordões”, agrupações de foliões que saíam pelas ruas da cidade tocando as marchinhas e fazendo todos dançarem.

Com a popularização do rádio, as marchinhas caíram no gosto popular. Vários cantores registraram estas composições, mas cabe destacar os nomes de Carmem Miranda e Francisco Alves como os maiores intérpretes do gênero.

Na década de 60, a marchinha deu lugar ao samba-enredo das escolas de samba.

Começaram a surgir as escolas de samba. A primeira agremiação que surgiu no Rio de Janeiro se chamava “Deixa Falar”, hoje “Estácio de Sá”, em 1928. A origem do nome “escola” se dá ao fato de que os fundadores da “Deixa Falar” estavam num bar em frente a uma escola.

Hoje em dia, elas recebem o nome oficial de “Grêmio Recreativo Escola de Samba”, pois têm o compromisso de difundir a cultura na comunidade onde estão inseridas.

O Carnaval de rua no Rio de Janeiro sofreu um golpe com a construção do “Sambódromo”, que confinava os desfiles a este espaço. A festa passou a ser transmitida pela TV e os ingressos ficaram cada vez mais caros.

Os desfiles das escolas de samba, no Rio de Janeiro, acontecem na marquês de Sapucaí e terminam na Praça da Apoteose.

O Carnaval de rua sobrevivia nos subúrbios com grupos como o “Cacique de Ramos”, no centro da cidade, através de blocos como o “Cordão do Bola Preta” e os “Carmelitas”. Na Zona Sul carioca, havia a “Banda de Ipanema” e mesmo o “Imprensa que eu Gamo”, formado por profissionais da comunicação.

Parecia que a festa carioca mais popular estaria destinada aos turistas, mas um grupo de teatro amador, o Boitatá, ressurgiu com o costume de arrastar os foliões pela rua. Atualmente, quase 500 blocos desfilam pelas ruas cariocas.

Por ser um país de dimensões continentais, cada região do Brasil comemora o Carnaval de uma maneira diferente.

Duas capitais nordestinas, Salvador e Recife, destacam-se pela beleza de sua festa, a diversidade cultural e musical.

Em Salvador, os trios elétricos fazem a alegria dos foliões. Sua origem está ligada às batalhas de flores e aos corsos.

O primeiro trio elétrico foi inventado pelos músicos Dodô e Osmar, em 1950, quando utilizaram amplificação elétrica para seus instrumentos musicais. A partir daí, os demais carros fizeram o mesmo.

Dodô e Osmar animaram o carnaval baiano em 1952.

Se no Rio de Janeiro as marchinhas deram a tônica da festa, na Bahia o samba, a batucada, o axé, a timbalada e os grandes grupos de percussão como os “Filhos de Gandhi” são a marca da festa baiana.

A festa carnavalesca da capital de Pernambuco e da cidade de Olinda é animada pelo frevo. Igualmente, os recifenses utilizam os bonecos gigantes nos seus desfiles.

Estes bonecos vieram da Europa, pois em países como a Espanha, são confeccionados enormes figuras de reis, rainha e da corte, que passeiam pela cidade em certas festas religiosas.

A cada ano, as agremiações lançam novos rostos como jogadores de futebol, atores, personalidades que faleceram, heróis dos quadrinhos, etc.

Igualmente, os bonecos são usados para fazer crítica social e é comum ver políticos retratados por estes artistas.

Ao longo dos anos, o carnaval brasileiro se reinventou, adaptando-se aos tempos modernos sem perder sua essência.

Desfiles de escolas de samba, blocos de rua, bailes de máscaras e festas populares são apenas algumas das formas pelas quais essa festividade se manifesta Brasil afora.

Cada região do país imprime sua marca peculiar no carnaval, refletindo as múltiplas facetas de uma nação tão vasta e diversificada.

Pescando lirismo na grande obra “Lira de Poti” – Versos – 1949, do grande poeta Norte-riograndense ANTÔNIO SOARES (1847 a 1947), da Academia Norte-riograndense de Letras, trago o soneto “Carnaval” (1949)

CARNAVAL – Antônio Soares – 1949

Carnaval! Pelas praças e avenidas,
Sons de clarins e tilintar de guizos;
Verbos galantes, frases atrevidas,
Na confusão dos gestos e dos risos.

Carnaval! Pensamentos indecisos,
Intenções e palavras mal contidas;
Lábios em festa e corações incisos,
Olhos contentes e almas doloridas.

Carnaval! Sob a máscara esquisita,
Quantas vezes, cruel, barbaramente,
Um mundo de misérias não se agita!

Carnaval! Uns instantes de ventura
Trocados, muita vez, levianamente,
Por uma vida inteira de amargura!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 21 de fevereiro de 2025

O LOBO MAU (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O LOBO MAU

Violante Pimentel

 

As histórias do Lobo Mau nasceram na Europa, onde o lobo sempre foi um animal incompreendido e temido.

O Lobo Mau é um personagem que aparece em inúmeras fábulas folclóricas, incluindo as Fábulas de Esopo, e nas histórias dos Irmãos Grimm. É a personificação de um lobo mal-intencionado, famoso pelo seu apetite.

Pois bem. Um lobo mau estava pondo olhos grandes sobre um rebanho de carneirinhos que descansava à sombra amiga das grandes árvore. Como o lobo é feroz, os carneirinhos o temem.

O lobo preparou um plano para se aproximar dos mansos cordeiros, sem intimidá-los. Assim, envolveu-se com um manto e pôs um bastão às costas, querendo passar por um pastor que bem apascenta as suas ovelhas. Para completar o disfarce, colocou um chapéu na cabeça, onde escreveu uma mensagem para os cordeirinhos:

Tão astucioso era o lobo, que passou a usar um manto e um chapéu, onde escreveu: “Meus carneirinhos, eu sou Pedro, o pastor de vocês todos.” O lobo era mesmo muito sabido.

Pé ante pé, o falso Pedro foi se aproximando do rebanho, até chegar bem perto. Todos os carneirinhos estavam dormindo profundamente.

O lobo preparou o “bote”, tentando falar imitando a voz de um pastor. Foi aí que se perdeu.

A voz do lobo saiu horrenda e cavernosa. Voz de lobo mau mesmo. Uma voz que apavora o mundo todo.

O pastor e os carneirinhos acordaram todos, aterrorizados.

Descoberto no seu plano macabro, o lobo malvado não pôde fugir, nem se defender, atrapalhado pelos disfarces que estava usando.

O rebanho escapou ileso e o lobo mau.

Há sempre um pequeno imprevisto que põe a perder os planos de um malfeitor.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 14 de fevereiro de 2025

Ó ABRE ALAS (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VILANTE PIMENTEL)

“Ó ABRE ALAS”

Violante Pimentel

O Carnaval de antigamente era um encanto, um bálsamo, um deslumbramento, e fazia bem à alma das pessoas, exceto aquelas que se reuniam em seus retiros espirituais, levadas pela religiosidade.

No tempo em que o rádio era o maior sucesso da tecnologia, o carnaval era caseiro e toda a família se divertia ao som dos rádios.

As marchinhas de carnaval estrondavam nas rádios brasileiras e a criatividade do pensamento projetava nas mentes saudáveis a beleza do carnaval que acontecia nas principais capitais do País, principalmente o carnaval Pernambucano e o da Cidade Maravilhosa.

Mesmo com a pobreza própria de cada cidade, o povo nordestino também sempre comemorou o carnaval.

O sentido do carnaval, bem diferente do sentido natalino, traz alegria ao povo, independente de classe social. Enquanto o Natal é festa dos ricos, o Carnaval traz alegria a todas as camadas sociais, trazendo ao povo euforia, alegria e também confraternização. No meu entender, o Carnaval embriaga a tristeza, e os pobres se contagiam com o glamour dos ricos. Durante o carnaval, o normal é haver uma prega na tristeza. É festa de ricos e pobres, não se falando em presentes natalinos, “perus do natal” ou bebidas caras.

Por isso, sou fã do carnaval.

Carnaval é uma festa popular marcada pelos exageros. Tem forte ligação com o catolicismo e possui relações com festivais realizados na Antiguidade.

O Carnaval chegou ao Brasil durante a colonização e transformou-se na maior festa popular do país.

Apesar do forte secularismo presente no Carnaval, a festa é tradicionalmente ligada ao catolicismo, uma vez que sua celebração antecede a Quaresma. O Carnaval não é uma invenção brasileira, pois sua origem remonta à Antiguidade. O secularismo é a separação entre o Estado e as instituições religiosas, que garante a liberdade de crença e a igualdade de tratamento para todas as religiões.

A palavra Carnaval é originária do latim, carnis levale, cujo significado é “retirar a carne”. Esse sentido está relacionado ao jejum que deveria ser realizado durante a Quaresma e também ao controle dos prazeres mundanos. Isso demonstra uma tentativa da Igreja Católica de controlar os desejos dos fiéis.

A história do Carnaval no Brasil iniciou-se no período colonial. Uma das primeiras manifestações carnavalescas foi o entrudo, uma brincadeira de origem portuguesa que, na colônia, era praticada pelos escravos. Nela, as pessoas saíam às ruas sujando umas às outras, jogando lama, urina etc. O entrudo foi proibido em 1841, mas continuou até meados do século XX.

Depois, surgiram os cordões e ranchos, as festas de salão, os corsos, e as escolas de samba. Afoxés, frevos e maracatus também passaram a fazer parte da tradição cultural carnavalesca brasileira. Marchinhas, sambas e outros gêneros musicais foram incorporados, posteriormente, à maior manifestação cultural do Brasil.

A primeira marchinha de carnaval brasileira, Ó Abre Alas, foi composta por Chiquinha Gonzaga em 1899. A marcha-rancho Ó Abre Alas foi criada para embalar o desfile do cordão Rosa de Ouro, no Rio de Janeiro.

Ó Abre Alas é a composição mais conhecida de Chiquinha Gonzaga e aquela de maior sucesso.

Repetindo, a canção foi feita para o Cordão Carnavalesco Rosa de Ouro, citado na letra. O sucesso é considerado a primeira marcha carnavalesca da história.

Na época, Chiquinha Gonzaga morava no Andaraí, já era compositora consagrada, quando integrantes do Cordão a procuraram com o pedido de um “hino” para as folias momescas daquele ano, como registrou o historiador Geysa Boscoli, seu parente. Apesar de sua posição, não refutou o pleito que resultou na vitória do Cordão no carnaval. Era comum, naquele tempo, os cordões entoarem versos que anunciavam sua passagem, e a marcha de Chiquinha antecipou um gênero que só veio a se firmar duas décadas após.

Entre os anos 1901 e 1910, “Ó Abre Alas” foi grande sucesso nos carnavais, tornando-se símbolo do carnaval carioca, até os dias atuais.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 07 de fevereiro de 2025

O ANJO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O ANJO

 Violante Pimentel

Mais uma vez, o Carnaval se aproxima, trazendo à nossa memória as mais remotas lembranças de uma infância e juventude felizes, e de um passado feito de encanto, pureza, candura e divertimentos saudáveis. Uma época em que a maldade nem tinha nascido. Um passado de décadas atrás.

Em Nova-Cruz (RN), minha terra natal, o Carnaval era esperado com alegria e os blocos carnavalescos eram organizados com criatividade e arte. Não havia luxo, mas havia euforia, respeito e muita amizade consolidada entre as famílias, incluindo jovens e adultos.

As fantasias que enchiam de brilho os olhares esperançosos, pareciam ungidas da mais pura água, que lavava a alma da juventude e dos adultos, unindo os corações e transformando em intensa alegria o período carnavalesco. Não havia brigas nem excessos de bebidas.

 

 

O Carnaval era esperado com ansiedade e alegria.

Pois bem. Morava em Nova Cruz (RN) um rapaz de nome José Teixeira, filho de uma viúva, pertencente a uma ramificação de tradicional família daquela cidade.

Dizem que, desde criança, sempre demonstrou tendência feminina nos gestos, preferindo os brinquedos das meninas e desprezando carrinhos e bolas com que os meninos brincavam. Cresceu assim, e, dessa forma, tornou-se rapaz, passando a se dedicar às prendas domésticas.

Revelou-se um verdadeiro artista, aprendendo a bordar, pintar, confeccionar flores e chapéus femininos ornamentados.

Com o passar do tempo, José Teixeira dedicou-se completamente à decoração de ambientes e preparação de festas, difundindo cada vez mais suas habilidades artísticas. Com elas, passou a ganhar dinheiro, ajudando no sustento da mãe, viúva pobre, e suas duas irmãs.

Era religioso, educado, e sabia respeitar as pessoas, sendo por isso também respeitado. Nenhuma festa acontecia na cidade, sem que estivessem presentes a sua arte e o seu bom gosto. O preparo de altares na Matriz da Imaculada Conceição, Padroeira da cidade, os andores para as procissões, festas de casamento, aniversários, enfim, quaisquer acontecimentos festivos contavam com a sua indispensável participação.

Tornou-se o decorador oficial da cidade, nos eventos públicos ou privados, inclusive nas festas religiosas do final do ano, onde havia uma Quermesse para angariar fundos para a Igreja.

Eram frequentes os jantares, os saraus, os bailes, as procissões e novenas, como manifestações da realidade artística, religiosa e social da cidade. Em tudo, estava a presença marcante desse filho de Nova-Cruz.

Merece destaque o fato de José Teixeira nunca ter escondido sua tendência feminina, mantendo, entretanto, uma conduta discreta e digna. Vivia para o trabalho, e nunca se meteu em fofocas. Seu excelente círculo de amizade incluía moças, senhoras casadas, senhores e rapazes. Até o Padre da Paróquia de Nova-Cruz lhe fazia elogios publicamente, em agradecimento pelo seu trabalho de embelezador e colaborador das festas e procissões.

Nessa época remota, o distúrbio genético apresentado por José Teixeira era raro, e a cidade que o viu nascer o aceitava como era.

Sua presença tornou-se indispensável nas festas de aniversários, casamentos e bailes. Também ocupava lugar de honra na vida familiar da cidade, sendo sempre convidado para almoços e jantares, e ainda para padrinho de crianças. Tornou-se amigo e confidente de todos.

A cidade se desenvolveu e passou a ter mais festas, aumentando também o prestígio de José Teixeira. Era um verdadeiro “patrimônio” artístico de Nova-Cruz.

Surgiu o primeiro bloco de carnaval da cidade, tendo José Teixeira como organizador, decorador e figurinista. Esse bloco saía às ruas de Nova-Cruz no tríduo carnavalesco, “assaltando” as residências de pessoas da cidade, onde era recebido com bebidas e salgadinhos, à vontade.

As calçadas e ruas transformavam-se em salões de festa e a alegria era imensa.

O nosso Tio Paulo, uma figura inesquecível, era um dos maiores incentivadores do bloco, e o “assalto” à sua casa era indispensável! Irmão do nosso pai, Francisco, as casas eram vizinhas, e o “assalto” era aproveitado por nós, ainda crianças. Dançávamos no meio da rua, jogando confetes e serpentinas, presenteadas por ele, num clima de felicidade sem igual.

Tio Paulo distribuía lança-perfumes para os seus amigos, compradas em Natal, que eram usadas para perfumar o cangote das moças. E o cheiro se espalhava pelo ar. Não havia porre, loló nem brigas. O carnaval era só alegria e higiene mental.

O Rei Momo e a Rainha do Carnaval eram eleitos, uma semana antes, por uma comissão apontada por José Teixeira, da qual fazia parte.

José Teixeira confeccionava as alegorias, porta-estandartes e as fantasias para o carnaval.

Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas (vem Odalisca do meu harém vem, vem vem… ) e Piratas eram as principais fantasias.

A tarde entrava pela noite, com trombones, tamborins e outros instrumentos, executando os mais belos e tradicionais frevos e marchinhas de carnaval. A cidade era calma e o povo todo era conhecido.

Não havia o carnaval sensual/sexual de hoje, e os seios e nádegas eram guardados com recato.

As marchinha e frevos não tinham maldade. Tinham beleza e poesia.

Podemos dizer que, em Nova-Cruz, foi José Teixeira quem inventou o carnaval, o bloco, a alegoria e o estandarte, quando a maldade não tinha nascido.

Assim era José Teixeira. Totalmente feminino, amado, respeitado, e aceito por todos, sem sofrer exclusão pelo seu modo involuntário de ser.

Para mim, ele era um Anjo. E Anjo não tem sexo…

Hoje, desapareceu a pureza. Os Pierrôs, Colombinas, Arlequins, Odaliscas e Piratas se desnudaram. Restaram expostos, em abundância, seios, nádegas e tatuagens. A irreverência tomou conta da festa de momo.

A modernidade nos deixou apenas o direito de nos fantasiar de PALHAÇOS!!!Palhaços das nossas ilusões! E é a fantasia de palhaço, com seu nariz de bola vermelha, a que mais se adapta ao povo brasileiro, com seu riso sardônico, sem razão ser.

Decepcionados, abafamos no peito a saudade dos velhos carnavais.

O cheiro de lança-perfumes sumiu! Roubaram as fantasias do nosso povo!

Roubaram o sorriso de felicidade, que existia nos rostos nos dias de carnaval.

Ó, ABRE ALAS, QUE EU QUERO PASSAR!

Salve José Teixeira, o Eterno Anjo de Nova-Cruz!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 31 de janeiro de 2025

AS PROPAROXÍTONAS (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

AS PROPAROXÍTONAS

Violante Pimentel

A dupla caipira “Alvarenga e Ranchinho”, formada em 1929 por Murilo Alvarenga, mineiro de Itaúna, e Diésis dos Anjos Gaia, paulista de Jacareí, iniciou sua carreira apresentando-se em circos no interior de São Paulo.

Em 1934, Murilo e Diésis foram contratados pelo maestro Breno Rossi e passaram a se apresentar na Rádio São Paulo.

A carreira da dupla se consolidou, após a mudança para o Rio de Janeiro, onde os dois gravaram o seu primeiro disco, em 1936, e passaram a integrar o grupo de atrações do Cassino da Urca. Foi aí que trabalharam durante dez anos e aprimoraram o talento para a sátira política, uma das suas principais características. Por causa dessas sátiras, participaram de dezenas de campanhas eleitorais e também acabaram presos diversas vezes.

A dupla participou do primeiro filme falado feito em São Paulo, “Fazendo Fita”, (1935), levada por Ariovaldo Pires, o Capitão Furtado. Fizeram participações em mais de 30 filmes.

Em 1949, a dupla “Alvarenga e Ranchinho” lançou a composição “O Drama de Angélica”, na qual, cada verso termina com uma palavra proparoxítona, ou seja, a sílaba tônica cai na antepenúltima sílaba. Essa música foi o seu maior sucesso.

Ao que parece, essa dupla foi a precursora das composições com versos terminados em palavra proparoxítona.

O Drama de Angélica” nos remete àqueles “causos” que ouvíamos de nossos antepassados, histórias das quais ansiávamos pelo final, mesmo que fosse trágico. Uma verdadeira novela, arrebatadora, com idas e vindas, em uma interpretação perfeita da dupla. Ao final, não há como não sorrir, em face do modo satírico, como é contado “O Drama de Angélica”.

A formação original da dupla se desfez em 1965, quando Diésis a abandonou definitivamente. Sumiços anteriores já haviam ocorrido, quando, então, havia sido substituído por Delamare de Abreu, irmão por parte de mãe de Murilo Alvarenga.

Com o rompimento definitivo, um “terceiro” Ranchinho surgiu, Homero de Souza Campos, conhecido também como Ranchinho da Viola e como “Ranchinho II” (apesar de ter sido o “terceiro”). Homero cantou com Alvarenga de 1965 até o falecimento deste, em 1978.

Pois bem. Em 1971, cerca de vinte anos depois do lançamento de “O Drama de Angélica”, de “Alvarenga e Ranchinho”, foi lançado o LP “CONSTRUÇÃO”, de Chico Buarque de Holanda, com dez músicas belíssimas, onde se destaca “Construção”, que dá nome ao disco, com estrondoso sucesso no cenário da MPB.

Por coincidência, “Construção” de Chico Buarque e “O Drama de Angélica”, da dupla caipira “Alvarenga e Ranchinho”, tem em comum, versos cuja última palavra é proparoxítona. Além disso, “Construção” também retrata um drama do cotidiano, tal qual a música “O Drama de Angélica”, com a diferença de que esta última tem conotação satírica.

Para muitos admiradores, somente Chico Buarque, com a sua inteligência privilegiada, seria capaz de usar essa peculiaridade, numa composição musical.

Indiscutivelmente, Chico Buarque é genial. Mas, em relação às proparoxítonas ao final dos versos, a dupla caipira, “Alvarenga e Ranchinho”, já tinha feito o mesmo, há mais de vinte anos (1949), com a música “O Drama de Angélica”.

A coincidência de versos, finalizando com uma palavra proparoxítona, feitos por compositores de mundos e épocas diferentes, chamou a atenção da crítica.

Na verdade, a genialidade é universal. Não existe regra geral para se nascer gênio, pessoa com grande capacidade mental. Ela pode se manifestar por um intelecto de primeira grandeza, ou um talento criativo fora do comum.

Chico Buarque, intelectual com ótima formação cultural, e a dupla “Alvarenga e Ranchinho”, de origem humilde, que iniciou a carreira artística em circo, tiveram inspirações parecidas, ao escrever um drama, com versos terminados com uma palavra proparoxítona.

Ainda hoje, o LP “CONSTRUÇÃO”, de Chico Buarque, lançado no início de 1971, é considerado um dos grandes discos da história da MPB, com versos alexandrinos (o que contém doze sílabas poéticas) e uma palavra proparoxítona no final de cada verso.

O primeiro poeta brasileiro a usar versos alexandrinos foi Machado de Assis, ainda no período do Romantismo, movimento artístico caracterizado pelo sentimentalismo, subjetivismo e fuga da realidade.

Esse movimento surgiu no século XVIII na Europa, durante a revolução industrial, e logo se espalhou por diversos países, como: França, Alemanha, Inglaterra, Brasil e Portugal. Durou até meados do século XIX, quando surgiu o Realismo.

A coincidência que há nas duas canções, “O Drama de Angélica (1949 – Alvarenga e Ranchinho) e “Construção” (1971 – Chico Buarque) não está relacionada somente à presença de uma palavra proparoxítona no final de cada verso. As duas canções descrevem, respectivamente, um drama do cotidiano.

Chico Buarque descreve, em “Construção”, o dia a dia de um operário da construção civil, com todos os riscos e desencantos, usando versos alexandrinos ( o que contém doze sílabas poéticas) e uma palavra proparoxítona no final de cada verso. No caso, as proparoxítonas funcionam como tijolos em uma construção mágica e trágica, em uma tensão crescente, embalada pelo bonito arranjo do maestro Rogério Duprat (1932 – 2006).

Chico Buarque é um intelectual, com sólida formação cultural. Tornou-se um ícone da Música Popular Brasileira.

Por sua vez, a dupla “Alvarenga e Ranchinho”, de origem humilde, iniciou a carreira artística em circo e tornou-se um ícone da música caipira, hoje chamada “Música Sertaneja”.

Salve a genialidade do Compositor Brasileiro!

 

Drama de Angélica (1949) – Murilo Alvarenga e M.G. Barreto (Letra completa no final da postagem)

 

 

* * *

Construção, de Chico Buarque

 

 

* * *

Drama de Angélica

Ouve meu cântico
quase sem ritmo
Que a voz de um tísico
magro esquelética

Poesia épica
em forma esdrúxula
Feita sem métrica
com rima rápida

 

Amei Angélica
mulher anêmica
De cores pálidas
e gestos tímidos

Era maligna
e tinha ímpetos
De fazer cócegas
no meu esôfago

Em noite frígida
fomos ao Lírico
Ouvir o músico
pianista célebre

Soprava o zéfiro
ventinho úmido
Então Angélica
ficou asmática

Fomos ao médico
de muita clínica
Com muita prática
e preço módico

Depois do inquérito
descobre o clínico
O mal atávico
mal sifilítico

Mandou-me célere
comprar noz vômica
E ácido cítrico
para o seu fígado

O farmacêutico
mocinho estúpido
Errou na fórmula
fez despropósito

Não tendo escrúpulo
deu-me sem rótulo
Ácido fênico
e ácido prússico

Corri mui lépido
mais de um quilômetro
Num bonde elétrico
de força múltipla

O dia cálido
deixou-me tépido
Achei Angélica
já toda trêmula

A terapêutica
dose alopática
Lhe dei em xícara
de ferro ágate

Tomou num fôlego
triste e bucólica
Esta estrambólica
droga fatídica

Caiu no esôfago
deixou-a lívida
Dando-lhe cólica
e morte trágica

O pai de Angélica
chefe do tráfego
Homem carnívoro
ficou perplexo

Por ser estrábico
usava óculos
Um vidro côncavo
o outro convexo

Morreu Angélica
de um modo lúgubre
Moléstia crônica
levou-a ao túmulo

Foi feita a autópsia
todos os médicos
Foram unânimes
no diagnóstico

Fiz-lhe um sarcófago
assaz artístico
Todo de mármore
da cor do ébano

E sobre o túmulo
uma estatística
Coisa metódica
como Os Lusíadas

E numa lápide
paralelepípedo
Pus esse dístico
terno e simbólico

“Cá jaz Angélica
Moça hiperbólica
Beleza Helênica
Morreu de cólica!”


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 24 de janeiro de 2025

RECORDANDO UM SONHO LINDO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

RECORDANDO UM SONHO LINDO

Violante Pimentel

O passado sempre nos volta em sonhos. E nada mais gratificante do que passarmos a noite revivendo momentos felizes dos tempos idos e vividos, quando no sonho estão presentes figuras queridas e inesquecíveis.

Tenho por hábito pôr em prática o que Freud ensina, em “Além da Alma.” Quando o sonho é bom, ao acordar, registro-o num caderno que trago sempre ao lado da minha cama.

Hoje, sonhei com minha mãe, cantarolando “Garoto da Rua”, uma das suas músicas preferidas (1947 – composição de Renê Bittencourt e gravação de Augusto Calheiros).

Ao acordar, ouvi a música mais de uma vez e de repente me veio à memória a beleza de “Nós, os Meninos de Palmares”, primeiro capítulo do livro “A Prisão de São Benedito e Outras Histórias”, obra prima do consagrado escritor Luiz Berto.

O livro é belíssimo desde a capa, as orelhas escritas pelo autor, e a fabulosa apresentação do poeta Orlando Tejo.

Sobre a Prisão de São Benedito e Outras Histórias, escreveu o poeta Orlando Tejo, em artigo publicado na Revista A REGIÃO, Recife, 1983:

“Há alguns meses, porém, A Prisão de São Benedito e outras histórias”, o mais opulento livro que já li em seu gênero, possibilitou-me a visão clara e geral do universo palmarense.

Nunca os tipos populares de nenhum lugar mereceram perfis literários mais precisos. Nenhum deles é caricaturado. São todos fotografados com a exatidão da arte que se pode exigir de um mestre. Luiz Berto os faz desfilar em assombrosa passarela universal, cada um deles com seus cacoetes humanos e suas características congênitas, fundo do riquíssimo cotidiano local que, em verdade, não é diferente do dia a dia de nenhuma outra cidade interiorana. Todas as cidades possuem os mesmos doidos, os mesmos boêmios, os mesmos aleijados, as mesmas prostitutas, as mesmas presepadas; e os bares, o cabaré, a noite, o clima de vida, o folclore, enfim, são clichês.

Tipos populares, portanto, não são privilégios de lugar nenhum. Ocorre, todavia, que somente Palmares deu um Luiz Berto. E isso explica o fenômeno. É o mesmo que pensarmos o que seria a Bahia sem Jorge Amado.”

Diz o Escritor Luiz Berto que não é poeta. “Nós, os meninos dos Palmares”, entretanto, é poesia pura; puro lirismo, característica dos poetas. Os meninos de Palmares eram “apontadores de estrelas”, “gáveas ao vento’, e “bebiam até a última gota naquele pote de felicidade.” Colocações poéticas lindíssimas!

Teimo em dizer, que o Escritor Luiz Berto é um dos maiores poetas que eu conheço. Seus escritos são poemas em prosa.

O garoto da rua, de que fala a composição de Renê Bittencourt, tinha a mesma alma dos meninos de Palmares, os mesmos sonhos, a mesma liberdade e as mesmas aspirações. Era um craque na bola de meia e andava com o bolso pesado de bolas de gude.

Nós, os meninos de Palmares” é o retrato de uma infância feliz, que marcou uma época em que a maldade não tinha nascido.

Augusto Calheiros – GAROTO DA RUA

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 17 de janeiro de 2025

ACONTECÊNCIAS DA FEIRA DE NOVA-CRUZ (RN) - (CRÔNICA DA COLUNISTAMADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

ACONTECÊNCIAS DA FEIRA DE NOVA-CRUZ (RN)

Violante Pimentel

Décadas atrás, entrando pelo século passado, a pequena cidade de Nova – Cruz (RN) era paupérrima. Sem água e sem luz, também não dispunha de consultórios médicos, ambulatórios nem hospitais.

A mortalidade infantil era absurda. A criança adoecia à tarde e antes de amanhecer o dia estava morta. Lá, não havia assistência médica nenhuma, e, consequentemente, não havia plantão médico.

 

 

Chá de canela era o “remédio” que os curiosos indicavam para os bebês, quando de repente ficavam febris, pálidos e choramingando. Foi assim que vi um irmãozinho meu, Galdino, morrer, no dia em que completou sete meses de idade, ao sofrer uma convulsão pela madrugada. Tinha amolecido à noitinha, ficou febril e foi “medicado” por um conhecido charlatão da cidade, que, em sua casa, consultava o povo da roça, dia de feira. O remédio por ele indicado foi chá de canela, achando que deveria ser uma gripezinha.

Nunca esqueci o desespero da minha mãe naquela madrugada, gritando desolada, sem querer acreditar que a criança estava morta. Meu pai, também desesperado, tentava acalmá-la, mas era em vão. Eu tinha pouco mais de quatro anos. Nunca esqueci essa terrível cena, numa madrugada escura e fria.

Pela manhã, a casa se encheu de gente. À tarde, houve o enterro de Galdininho (como minha mãe o chamava), com a presença de familiares da minha mãe, que moravam em Natal. Essas coisas tristes da vida, a gente nunca esquece…

Pois bem. A feira municipal de Nova – Cruz (RN) acontecia na segunda – feira. Era considerada a maior feira da região agreste. Começava pela madrugada e se estendia até o final da tarde.

Do balcão da venda do nosso pai, assistíamos a um verdadeiro espetáculo de cultura popular: As cantigas dos cegos, pedindo esmolas, e insultando uns aos outros, defendendo seus direitos àquele ponto. Era uma verdadeira festa do Cordel. Os desafios eram hilários e maliciosos.

A feira era um verdadeiro encontro ou reencontro de almas. Era um dia divertido, com meu pai, minha mãe e quase todos os filhos no balcão da venda. Em frente, havia duas barracas que vendiam cocorotes (de coco), bolo branco (hoje chamado “bolo da moça”) e doce americano (geleia de coco). Nunca me esqueci do gosto dos cocorotes. Tudo era uma gostosura.

Mais adiante, chegava um vendedor ambulante, com uma mala cheia de óculos de grau para vender, e formava-se uma fila de pretensos “clientes”, para comprar óculos, cujo grau lhes permitisse ler as letrinhas da caixinha de fósforo “OLHO”. Esse era o teste para aprovação do grau.

A precariedade da vida em Nova – Cruz forçava o povo a dar preferência aos óculos vendidos pelo ambulante. Além do mais, se o problema fosse apenas “vista curta”, seria mais cômodo e mais em conta comprar os óculos já prontos na feira, do que ter que viajar a Natal, somente para esse fim. Os compradores de óculos ficavam satisfeitos quando enxergavam perfeitamente as letrinhas da caixinha de fósforos “OLHO”. Era o sinal de que o grau era aquele.

De Nova – Cruz a Natal são 110km. Entretanto, naquela época (60/70), em estrada de barro, a viagem de ônibus levava de 4 a 5 horas. Durante o inverno, o atoleiro era grande. Por isso, os feirantes da zona rural eram acostumados a comprar óculos de grau na feira, já prontos. A aprovação dos óculos era 100%, e ninguém reclamava. Meu saudoso tio Paulo Bezerra, por comodidade, também só comprava óculos de grau na feira, e se dava muito bem.

Também na feira de Nova – Cruz, costumava estar presente um homem vestido com uma bata branca, com pose de doutor, que ali armava uma pequena banca e sobre ela mantinha uma garrafada, que continha um ácido para “tirar” sinais da pele. Nessa época, não se falava em carcinoma. A fila de pessoas que pagavam para tirar sinais era grande. Nunca se soube de um insucesso de um desses “procedimentos cirúrgicos”. Hoje, esse homem seria preso por charlatanismo. Meus tios Paulo Bezerra e Eulina Bezerra chegaram a tirar alguns sinais com ele e os “procedimentos” foram muito bem sucedidos.

Essas lembranças fazem parte da minha saudade. Volto à minha infância e juventude. Essa feira, na minha vida, foi muito mais do que uma simples feira.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho quinta, 09 de janeiro de 2025

O CRISTIANISMO E OS DOZE MESES DO ANO (POSTAGEM DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)
Blog ponto de vista - Nelson Freire
Artigos
O CRISTIANISMO E OS DOZE MESES DO ANO (Artigo) - Violante Pimentel
Publicado em 8 de janeiro de 2025
O CRISTIANISMO E OS DOZE MESES DO ANO
 
 
O Cristianismo surgiu no Império Romano, durante o reinado de Otávio Augusto, primeiro imperador romano.
 
A religião tem como base os ensinamentos de Jesus Cristo. Por isso, seu nascimento marca o início da doutrina cristã.
 
Com o aparecimento do Cristianismo, a crença em divindades pagãs desapareceu. Mas, apesar disso, a memória dos deuses e deusas ainda permanece viva em muitas tradições.O calendário que usamos foi uma evolução do antigo calendário romano e os nomes utilizados vieram dos deuses.Estando estreitamente ligados os seus nomes aos costumes e instituições romanas, o nosso calendário, para contagem do tempo, permanece o mesmo estabelecido pelo imperador romano Júlio César.Escrevendo a história dos nomes dos doze meses do ano, é como se estivéssemos assistindo a um desfile dos meses romanos.
 
JANEIRO – Primeiro, aparece uma figura estranha, um deus com duas caras, um deus que olha para diante e para trás, e que segura na mão esquerda uma chave. É JANO.
Os romanos adoravam Jano, num templo que estava aberto durante as guerras e que se fechava quando havia paz. Era o deus dos princípios e dos fins. JANO era também considerado o porteiro do céu, e os romanos o tinham como protetor das suas portas e portões. Como o ano tem doze meses, o templo de JANO tinha 12 portas.
 
FEVEREIRO – Segue-se ao deus JANO, uma majestosa dama romana. Era FEBRUA, a deusa das purificações. Celebravam-se no segundo mês do ano, festas especiais em honra a Juno e Plutão, rei dos infernos e havia sítios especiais para aplacar as almas dos defuntos. Essas festas eram também de expiação para o povo, e chamavam-se “februais”. O termo vem da palavra februm, que significa purificar; neste mês acontecia um ritual de purificação romana.Fevereiro é o mês mais curto do ano, pois tem 28 dias nos anos comuns, e 29 nos anos bissextos. Constando o ano, aproximadamente, de 365 dias e 6 horas, ao cabo de quatro anos essas 6 horas formam um dia, que se agrega a Fevereiro. Essa inovação é do tempo de Júlio César, o qual, vendo os inconvenientes que resultavam de não serem levadas em conta aquelas 6 horas, chamou a Roma o astrônomo Sosígenes, de Alexandria, o qual propôs que de quatro em quatro anos se acrescentasse um dia a Fevereiro; daí ficou o mês, a cada quatro anos, com mais um dia, passando a ser chamado de “bissexto”.
 
MARÇO – Nome originado de Marte, o deus da guerra. No desfile imaginário, ele passa num carro puxado por dois cavalos, cujos nomes eram Terror e Fuga. É uma figura de guerreiro ameaçador, manejando uma comprida lança, levantando para o céu um escudo luzidio e erguendo a sua cabeça altiva, sendo iluminado pelos raios e pelo capacete. Para os romanos, Marte era mais do que um guerreiro. Era um deus que podia conseguir tudo pela sua grande força. Pediam-lhe chuva, consultavam-no sobre casos particulares, sacrificando no seu altar um cavalo, carneiro, pega ou abutre.
 
ABRIL – Depois de Marte (Março), aparece ABRIL. Não é nem deus nem deusa. É o Anjo da primavera. Gracioso, delicado, meigo e bom. Chega espalhando pela terra lindas flores e fazendo nascer nos sulcos feitos pelas rodas do carro do guerreiro, flores tão pequeninas, tão bonitas e tão delicadas, que comove vê-las. “Abril é o que abre.”
 
MAIO – Nome em homenagem à deusa MAIA, que desfila sentada num trono de luz. Seu pai chamava-se Atlas e sobre os seus ombros pesava o mundo inteiro. Ele tinha sete filhas, das quais a mais célebre foi Maia, cujo filho era Mercúrio, que levava as ordens dos deuses para a terra.
Júpiter, o pai de todos os deuses, levou Maia e as irmãs e colocou-as como estrelas no firmamento. Eram elas que formavam o grupo de estrelas chamadas plêiadas. A sétima estrela do grupo é invisível. Representa uma das irmãs que casou com um homem chamado Sisypho, e, desde então, como o pobre Sisypho foi condenado a rolar eternamente uma pedra por um monte acima, ela, envergonhada, escondeu a cara.
 
JUNHO- Seguem no cortejo duas figuras disputando o sexto lugar. Uma é a deusa Juno e a outra é um homem de nome JUNIO. Mas a deusa Juno deu nome ao mês de Junho. Juno era a rainha do céu e esposa de Júpiter. Seu trono de ouro estava junto de seu marido. Todos os deuses lhe prestavam homenagem, quando se apresentavam no palácio de Júpiter; tinha poderes superiores e exercia domínio sobre os fenômenos celestes; produzia o trovão nas alturas, desencadeava os ventos e mandava nos astros. Gostava de passear pelos bosques sagrados, num carro puxado por pavões.
 
JULHO – Em honra ao guerreiro e imperador Júlio César, surgiu o nome do mês de Julho. Júlio César não só conquistou nações, fez leis célebres e escreveu livros imortais, como também emendou o calendário, que estava em estado deplorável. O tempo e os meses já não se correspondiam como antigamente; a primavera vinha em janeiro e o inverno nos meses que deviam corresponder à primavera. O mês “quintilius’ foi eliminado em sua honra, tomando o seu nome Júlio.
 
AGOSTO – Nome derivado de Augusto, o primeiro imperador romano, última personagem da procissão pagã imaginária a que assistimos. A princípio, Augusto chamava-se Octávio e governou os romanos, com Marco Antônio e Lépido. Por fim, foi imperador, e fez muito pela glória e engrandecimento do seu magnífico império. O povo, na intenção de lhe agradar, mudou o seu nome de Octávio para Augusto, que significa “nobre”.
O oitavo mês foi escolhido para ter o nome de Agosto, porque era nessa ocasião que o imperador Augusto celebrava os principais acontecimentos da sua vida. Foi em Agosto que ele foi nomeado Cônsul, que acabaram as suas guerras e que conquistou o Egito. Augusto ficou na história como uma grande personagem. O seu reinado recebeu o nome de Idade de Ouro, porque ele não só trouxe paz ao mundo, farto e cansado de guerras, como também fez florescer a arte e a literatura.
Foi no reinado desse imperador poderoso que, longe, na Síria, nasceu a Criança, cujo reinado ainda não acabou e cujo nascimento criou uma época. Nunca o imperador orgulhoso pensou, quando se gabava no seu palácio, de ter encontrado Roma feita de tijolo e tê-la deixado de mármore, que existia já uma Criança que dividiria as épocas da terra e poria uma Cruz entre o reinado de Augusto e o começo de uma nova religião.
Os poetas imortais, Horácio e Virgílio, viveram nessa época. Fundaram-se, então, livrarias e construíram-se templos por toda a parte.
 
SETEMBRO – Os outros meses aparecem disfarçados, com nomes enigmáticos. Para compreendermos o nome do mês de setembro é necessário recordar que o primitivo calendário romano constava de dez meses e que começava em Março, sendo, portanto, Setembro, o sétimo mês. Por isso, é representado pelo número sete, em algarismos romanos, VII. Este número lia-se em latim “septen”, de onde se derivou Setembro.
 
OUTUBRO – Para os romanos, como hoje é para os povos que lhes sucederam no continente europeu, Outubro era o mês das colheitas e vindimas. O nome provém de “octos”, que em latim é oito. Com efeito, era o oitavo mês do antigo calendário romano, passando a ser o décimo, quando Nuna, rei de Roma, fixou o princípio do ano no dia primeiro de Janeiro.Celebravam neste mês, tanto os romanos como os gregos, muitas festividades. Em uma dessas festas era costume atirar aos poços e fontes coroas tecidas de flores e ervas, como tributo às ninfas, a quem tais festas eram consagradas. Era também o mês da colheita das frutas, cujas primícias se ofereciam às divindades.
 
NOVEMBRO – Era o nono mês, no primeiro calendário romano, e por isso lhe chamavam “November”. Contava-se que, entre as festividades e ritos religiosos mais importantes, estava o consagrado a Diana, deusa das montanhas e dos bosques. Começava com um banquete dedicado a Júpiter e com os jogos circenses, chamados assim, porque se realizavam no circo. No mesmo mês se celebravam os jogos “plebeus”, instituídos para comemorar a reconciliação de patrícios, nobres e plebeus. Eram oferecidos sacrifícios a Netuno, deus dos mares; e se faziam as festas abrumais ou do inverno, por começar na Itália o tempo chuvoso, nevoento e frio.
 
DEZEMBRO – do latim “December” de “decem”, dez – o décimo e último mês do antigo calendário romano. É representado hoje por um velho de barbas brancas, que traz brinquedos para dar às crianças no dia de Natal, 25 de dezembro.
Para algumas pessoas, esse velho representa São Nicolau, que viveu no século IV e é considerado o patrono das crianças. Essa ideia teve origem numa lenda, segundo a qual São Nicolau teria feito ressuscitar três crianças que haviam sido assassinadas por um carniceiro. Dezembro é um mês característico do frio inverno nos países da Europa, e por isso o representam numa paisagem desolada, com os caminhos cobertos de neve.
 
Quando se inicia um novo ano, a humanidade se enche de esperança de que venha um bom tempo. Que reine a Paz entre as Nações e entre as pessoas.
 
Em 1968, a música “Bom Tempo”, de Chico Buarque de Holanda, foi classificada em segundo lugar na I Bienal do Samba, realizada em São Paulo. A partir desse ano, passou a ser sempre indicado para receber o Golfinho de Ouro do MIS. O Conselho de Música Popular do museu resolveu declará-lo “Hors concours”. Eis a letra de “Bom Tempo”:
 
Bom Tempo – Chico Buarque – 1968
 
Um marinheiro me contou
Que a boa brisa lhe soprou
Que vem aí bom tempo
O pescador me confirmou
Que o passarinho lhe cantou
Que vem aí bom tempo
Dou duro toda semana
Senão pergunte à Joana
Que não me deixa mentir
Mas, finalmente é domingo
Naturalmente, me vingo
Eu vou me espalhar por aí
No compasso do samba
Eu disfarço o cansaço
Joana debaixo do braço
Carregadinha de amor
Vou que vou
Pela estrada que dá numa praia dourada
Que dá num tal de fazer nada
Como a natureza mandou
Vou
Satisfeito, a alegria batendo no peito
O radinho contando direito
A vitória do meu tricolor
Vou que vou
Lá no alto
O sol quente me leva num salto
Pro lado contrário do asfalto
Pro lado contrário da dor…
Um marinheiro me contou
Que a boa brisa lhe soprou
Que vem aí bom tempo
O pescador me confirmou
Que um passarinho lhe cantou
Que vem aí bom tempo
Ando cansado da lida
Preocupada, corrida, surrada, batida
Dos dias meus
Mas uma vez na vida
Eu vou viver a vida
Que eu pedi a Deus
“As canções de Chico Buarque fazem uma combinação rara entre a atemporalidade de sua beleza lírica, às vezes quase metafísica (quando o tempo em si é seu grande personagem), e a emergência de cada momento histórico”.
Violante Pimentel – Escritora
As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores
Ponto de Vista com Nelson Freire
Acompanhe o blog ponto de vista para obter diariamente as notícias mais relevantes sobre política, economia, negócios e um apanhado geral sobre tudo que acontece no Rio Grande do Norte.
Todos os direitos reservados.

Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 03 de janeiro de 2025

ANO NOVO EM NOVA-CRUZ (RN) - (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

ANO NOVO EM NOVA-CRUZ (RN)

Violante Pimentel

Entre as recordações da minha adolescência, que guardo de Nova Cruz (RN), sempre me vem à memória a passagem de ano de 1959/1960, quando a cidade entrou em polvorosa, diante de previsões radiofônicas de que o Novo Ano raiaria com uma enxurrada de macacos invadindo as ruas.

No final de 1959, surgiu um boato em todo o Brasil, de que um profeta havia preconizado que em 1960 os negros iriam virar macacos (sic). Os compositores imediatamente aproveitaram a dica e fizeram o frevo-canção “Operação Macaco” da autoria de Sebastião Lopes e Nelson Ferreira, interpretado por Nerize Paiva.

No interior nordestino, principalmente em Nova Cruz-RN, antiga Anta Esfolada, o boato se transformou em praga. As pessoas mais ingênuas tomaram isso ao pé da letra, e a notícia, de tão repetida, virou verdade, tal qual a atual fake news.

A festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição, pela primeira vez foi tensa, pois havia quem acreditasse nessa propagada profecia.

A barraca, armada em frente à Matriz estava repleta de pessoas que aguardavam a chegada do Ano Novo. Notavam-se nas fisionomias de todos, tensão e medo, diante da perspectiva do cumprimento da profecia divulgada pela cidade. Havia pessoas nervosas, que acreditavam nos boatos negativos. Mesmo assim, a cidade estava repleta de nova-cruzenses, tanto da zona rural como da zona urbana. Essas pessoas invadiam a cidade, na véspera de Ano Novo, em busca de diversão, como passeios no Parque São Luiz, compras de iguarias regionais, incluindo cestinhas com alfenins e doces secos. Tudo isso era vendido em barraquinhas armadas ao longo da Rua Grande, principal rua da cidade.

Havia também o serviço de alto-falante, onde os casais apaixonados pagavam para oferecer músicas significativas, verdadeiras declarações de amor aos parceiros.

As senhoras católicas da cidade prestavam sua colaboração à Igreja, preparando iguarias, como perus assados, pasteis e outros salgados, e as garçonetes e garçons eram pessoas conhecidas, que também prestavam sua ajuda gratuita à paróquia.

Quando se aproximava a hora da passagem do ano, a banda de música da cidade, comandada pelo exímio maestro Tenente Freitas, de saudosa memória, executava emocionantes dobrados, e na passagem do ano tocava o Hino Nacional. Nessa hora, ouvia-se o pipocar de foguetões, o sino da Igreja repicava por alguns minutos, e as emoções explodiam entre pessoas amigas e até inimigas eventuais. Em seguida, o Padre Pedro Moura dava a Benção do Santíssimo da janela da Igreja, o que completava o clima de emoção. Era uma verdadeira apoteose!!!

Na passagem do ano de 1959 para 1960, notavam-se crianças em pânico, agarradas às saias de suas mães, apavoradas com a profecia de que negro iria virar macaco, na passagem de ano.

Dona Lia, minha saudosa mãe, atendia na barraca da Igreja, juntamente com outras senhoras da sociedade, despachando fatias de peru assado e salgadinhos variados, solicitados pelos ocupantes das mesas. De repente, ela percebeu que o filho caçula, Bernardo, de quatro anos, não se desgrudava de sua saia, e chegava a tremer de medo, observando a fisionomia de cada pessoa morena ou negra da cidade. Apavorado, o menino temia que na passagem do ano, a barraca fosse invadida por gorilas, como nos filmes de Tarzan. Esperava que os negros da cidade se transformassem em macacos. Foi uma expectativa de terror. Não só as crianças, como também alguns adultos supersticiosos, temiam a anunciada previsão, amplamente divulgada pelas emissoras de rádio.

Os passeios em redor da barraca principal eram contínuos, por pessoas mais simples, que não podiam gastar dinheiro na barraca da Igreja. Havia leilão de prendas ofertadas pelas pessoas da cidade, que variavam de coisas simples, como frango assado, até animais vivos, bovinos e caprinos, ofertados por fazendeiros ricos da região, e que davam muito lucro à Paróquia.

A bem da verdade, as pessoas, principalmente as crianças, só se tranquilizaram no final da festa, já ao amanhecer o dia, quando constataram que nenhum negro tinha virado macaco. Nem tampouco tinha havido invasão de gorilas na festa da Padroeira de Nova Cruz, Nossa Senhora da Conceição.

A crendice popular tem o condão de impressionar as pessoas, e essa passagem de ano marcou época em Nova Cruz.

fake new deu origem a um grande sucesso carnavalesco, a música Operação Macaco, da autoria de Sebastião Lopes e Nelson Ferreira, interpretada pela cantora pernambucana Nerize Paiva. 

Isso aconteceu antes da época do politicamente correto. Hoje seria humanamente impossível, tamanha gozação.

Se fosse hoje, a “profecia” seria fake new, e os autores da música Operação Macaco teriam sido punidos.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho quinta, 02 de janeiro de 2025

ORANGO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)
ORANGO
Violante Pimentel 


Alice era empregada doméstica da casa do Sr. José Gadelha e esposa dona Lúcia. O casal nos vendeu a casa e logo nos mudamos para lá. Três dias depois, ouvi palmas no portão de manhã cedo, e dei de cara com uma moça se oferecendo para serviços domésticos. Ela se identificou, dizendo que, há um ano, era empregada do casal que nos vendeu a casa e que não estava gostando da nova morada. Queria voltar a trabalhar ali naquela casa, pois já estava acostumada com a localização. Coincidiu que eu estava precisando de alguém para trabalhar, e, por ter simpatizado com a moça, dei-lhe um crédito de confiança, admitindo-a sem qualquer informação. Décadas atrás, isso era normal. Ela demonstrou ser cozinheira de mão cheia e logo se adaptou à nossa rotina.

Nos primeiros dias, notei que era muito nervosa e gostava de falar sozinha, olhando para um pequeno retrato. Antes que eu perguntasse de quem era a foto, ela me contou que havia tido um filho, sem ser casada, e que para poder trabalhar, deixava a criança na casa de uma irmã, no Morro de Mãe Luíza. Um certo dia, ao voltar do trabalho, procurou o filho, já com nove meses, e a irmã respondeu que tinha dado a criança a um casal rico, ele, um “doutor engenheiro”, que tinha viajado para fora de Natal. 

Antigamente, um caso desse ficava por isso mesmo, principalmente quando a vítima era pobre. Era o retrato da miséria humana. Desde esse dia, Alice passou a “sofrer dos nervos” e, sem saber o que fazer, teve que aceitar o ato criminoso da irmã, que deu o seu filho traiçoeiramente, coisa que ela, a mãe, jamais faria. No desespero de Alice, o único consolo que lhe restava era saber que seu filho iria ter conforto e estudo, o que jamais ela lhe poderia dar.

A tristeza que se apoderava dessa moça, de vez em quando, evoluiu para um quadro depressivo crônico. Tinha mania de doença. Ia ao INPS se consultar quase todos os dias. Uma hora, era uma dor no braço (bursite), outra hora na coluna; outra hora era gastrite, mas do que mais se queixava era de uma “agonia na cumeeira da cabeça”.

Entre os médicos com quem Alice se consultava, estava o Dr. Hélio Barbosa, que era Psiquiatra. Ele lhe receitava antidistônicos, para que essa “agonia na cumeeira da cabeça melhorasse”. Alice era totalmente hipocondríaca.

Pensando em dispor de mais tempo para suas idas ao INPS, passou a me pressionar, para que eu contratasse outra empregada para lhe ajudar. Depois de muita insistência, terminei admitindo uma colega sua. Só deu certo uma semana. Ela queria ser chamada de Dona Alice e que a moça a tratasse de “senhora”. As duas pegaram uma briga e se engalfinharam pelo chão, aos gritos, atraindo a atenção dos vizinhos. Quando cheguei do trabalho, a novata estava de malas prontas para ir embora. Achei ótimo, pois na nossa casa uma empregada era suficiente. Quinze dias depois, Alice me propôs novamente admitir outra empregada. Ameacei de despedi-la. Na mesma semana, por brincadeira, disse-lhe que tinha encomendado um orangotango adestrado, que fazia trabalhos domésticos, para lhe ajudar. Ela se entusiasmou e perguntou logo:

– Posso chamar esse macaco de Orango? Será que ele atende telefone? Só tomara que ele não seja arengueiro!!!

No dia seguinte, a rua toda ficou sabendo que iria chegar na nossa casa um orangotango para trabalhar com Alice. E os vizinhos me perguntaram se era verdade. A calçada se encheu de meninos da rua para perguntar quando o macaco iria chegar.

Eros, meu marido, brincando com Alice, disse-lhe que se preparasse para dar banho no orangotango uma vez por semana. Aí ela endoideceu!!! E assustada, disse:

– Seu Eros, macaco é um bicho enxerido! Meu irmão disse que um macaco do Amazonas “adeflorou” uma moça!!! Para dar banho nele, eu não tenho coragem!!!

Alice levou tão a sério a “compra” do orangotango, que eu fiquei assustada e resolvi dizer que tinha desistido do negócio. Ela já estava tão empolgada com a perspectiva de trabalhar com “Orango, que implorou para que eu o deixasse vir. Disse que não iria arengar com ele e já estava lhe querendo bem. E fez um último apelo:

– Dona Violante, pelo menos, vamos “expromentar”!!!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 27 de dezembro de 2024

O CABO DA CAÇAROLA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VILANTE PIMENTEL)

O CABO DA CAÇAROLA

A história da humanidade se repete, como se o mundo fosse um carrossel que não para de girar, e os cavalinhos fossem sempre os mesmos. Apenas as cores são trocadas cada gestão pública.

 

 

Pois bem. Durante o reinado de Henrique IV, da França, quando o Ministro da Fazenda era Sully, certo dia o Rei percebeu que o mesmo estava com o semblante preocupado e perguntou-lhe a causa.

– Senhor – respondeu Sully: As necessidades do Estado são prementes e vamos ser obrigados a criar novos impostos. É isto o que me preocupa.

– Oh! Novos impostos! – Exclamou o Rei, perdendo, de repente, todo o ar de brincadeira. Não me fale nisto! Meu povo já está muito sobrecarregado de impostos, para que lhe imponhamos outros! É impossível!

– Senhor, continuou Sully – acho-me diante de sérios compromissos: as despesas aumentam dia a dia, e as rendas diminuem, não dando para cobri-las. Preciso fazer grandes pagamentos e me encontro sem recursos. Já sabeis, Majestade, que aquele que segura o cabo da caçarola é o que em pior situação se encontra.

– Quem lhe disse isto? – Perguntou o Rei.

– A sabedoria popular, Majestade. É voz corrente. E a voz do povo é a voz de Deus!

E o Rei contestou, rindo:

– Pois você está redondamente enganado! Não é quem segura o cabo da caçarola quem corre perigo. Quem se encontra em situação de perigo é quem está sendo cozinhado na caçarola. No caso, quem está correndo perigo sou eu, o Rei.

O Ministro Sully se acalmou.

Quem somente segura o cabo da caçarola, assiste de camarote à derrocada do Rei.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho quinta, 26 de dezembro de 2024

A NOITE DE NATAL (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A NOITE DE NATAL

Violante Pimentel

 

O NATAL é a grande festa da cristandade. Há uma Luz nessa festa, e não são luzes artificiais.

A Noite de Natal é sagrada. Noite de encanto, mistério e ternura, para crianças e adultos, principalmente aqueles que tem boas condições financeiras. Para os pobres, é mais uma noite, onde as diferenças sociais são gritantes e eles sabem que a solidariedade, típica da época natalina, é passageira.

É também uma noite de saudade dos nossos entes queridos, que já não se encontram entre nós.

O meu Pai, Francisco Bezerra Souto, se encantou na véspera de Natal (24.12.1984). A partir de então, apesar dos anos decorridos, essa data, para mim, permanece marcada e eu sofro de “uma alegria triste. Por isso, a celebração natalina me traz melancolia. Tento disfarçar a minha dor, mas a saudade e as lembranças são mais fortes.

Entretanto, na noite de Natal, o brilho das estrelas é mais intenso. Entre elas, há o brilho dos olhos dos entes queridos que nos deixaram e que, lá do Céu onde se encontram, estão a nos iluminar.

A representação mais verdadeira dessa noite é o Presépio, que revive o cenário em que Jesus nasceu. O primeiro presépio que existiu foi montado por São Francisco de Assis, no século XIII. Ele quis mostrar ao povo como aconteceu o nascimento do Menino Jesus. Depois, o presépio tornou-se uma tradição e passou a ser montado nas casas, nas igrejas e em diversos locais, durante o ciclo natalino.

No presépio, figuram a Sagrada Família, composta por Jesus, Maria e José; os três Reis Magos (Belchior, Gaspar e Baltasar), o Anjo que anunciou a Maria que ela iria ser a Mãe de Jesus, e a Estrela-guia, que iluminou o caminho para que os Reis Magos encontrassem a manjedoura.

No sentido religioso, os anjos usados na decoração do Natal remetem a São Gabriel, o anjo que teria anunciado à Maria que ela seria a mãe de Jesus.

Os três Reis Magos foram à procura do Menino Jesus, para adorá-lo e levar-lhe de presente, incenso, ouro e mirra.

Jesus nasceu em Belém, a menor cidade da Judéia, na simplicidade, humildade e pobreza.

A festa do Natal tem como figura principal o Menino Jesus, que nasceu numa manjedoura, dentro de uma gruta despojada e pobre.

Naquele momento, a gruta abrigou toda a riqueza do Céu e da terra. O Menino estava envolto em panos e deitado na manjedoura, sob o aconchego de Maria e José, seus pais, porque não havia lugar para eles na casa dos homens.

José era um homem justo e santo, carpinteiro, que acolheu o mistério da encarnação do Filho de Deus no ventre de sua esposa. Maria, a jovem mãe judia, deu à luz o Filho gerado em seu ventre, pela ação do Espírito Santo.

Nas lautas ceias de Natal, em casas de pessoas ricas e poderosas, muitas vezes, a figura do Menino Jesus é esquecida. Nessas ocasiões, o espírito cristão, simplesmente, não existe. Comemora-se o Natal como se fosse uma festa profana, e a preocupação são a comida, a bebida, os presentes trocados e a decoração.

O Menino Jesus, Maria e José são lembrados, superficialmente, salvo em ambientes religiosos.

Para os Cristãos, os presentes de Natal remetem à lembrança dos presentes que os Reis Magos levaram para o Menino Jesus: O ouro, o incenso e a mirra.

Os anjos e estrelas, usados nas decorações natalinas, remetem ao Anjo Gabriel, que anunciou à Virgem Maria, que ela daria à luz o Filho de Deus, e à Estrela-guia, que iluminou o caminho de Belchior, Gaspar e Baltasar até à manjedoura.

Pois bem. Numa noite de Natal, dois mendigos caminhavam pela escuridão. De repente, tropeçaram num cachorro vira-lata, que parecia estar faminto e abandonado. Sentiram dó do animal e viram que ele era tão pobre quanto eles. Os pobres são bons para os pobres e ajudam-se uns aos outros, dividindo entre si o pouco que conseguem para comer.

Os dois mendigos, solidários ao vira-lata, levaram-no com eles, e lhe deram para comer um pouco do pão que haviam recebido de esmola. O cachorro, depois de comer, ficou mais forte e saiu caminhando à frente deles, latindo e olhando para trás, como se os estivesse guiando, através da escuridão, até uma cabana abandonada. Na cabana, havia dois bancos e uma lareira apagada, visíveis através do clarão da lua. Os dois mendigos sentaram- se em frente à lareira.

De repente, o cachorro desapareceu. Como por milagre, as duas brasas se acenderam e tornaram-se enormes. A claridade tomou conta da cabana, e os dois mendigos sentiram seus corpos aquecidos. Ficaram certos de que tinham sido agraciados com um milagre, pois, somente o Menino Jesus teria sido capaz de se lembrar deles, naquela hora de tanto frio e sofrimento. Acreditavam, piamente, que o Menino Jesus os estava protegendo daquele frio, enviando duas brasas para acender a velha lareira. Adormeceram profundamente. As brasas brilharam até o amanhecer do dia.

Os dois mendigos acordaram, como se estivessem despertando de um lindo sonho. Tinham recebido, de presente de Natal, um verdadeiro tesouro. Mesmo por uma única noite, dormiram sob o teto de uma cabana abandonada, aquecidos por uma misteriosa lareira. Olharam em sua volta e viram o cachorro dormindo. Pobre igual a eles, o vira-lata lhes retribuiu o pão que eles lhe haviam dado, levando-os até aquela cabana encantada.

Pelo menos, naquela noite de Natal, eles dormiram sob um teto, abrigados contra o frio e o vento.

Está provado que o grande tesouro dos pobres é o sonho.

Nesta Noite de Natal, elevemos uma prece a Deus:

“Senhor, dai pão a quem tem fome e fome de justiça a quem tem pão!”

A escuridão dos nossos dias decorre da fome, da impunidade e da corrupção.

Que a Noite de Natal ilumine os corações do povo brasileiro!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 20 de dezembro de 2024

A SABEDORIA DOS ANIMAIS (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A SABEDORIA DOS ANIMAIS

Violante Pimentel

 

Quem diz que os animais não pensam, na minha opinião, está redondamente enganado. Eles tem faro, e por isso, tanto pensam quanto raciocinam.

Segundo os estudiosos do assunto, os gatos tem um olfato muito potente, que é até 20 vezes mais potente do que o do ser humano.

O faro do gato é importante para sua comunicação com outros felinos e com o mundo.

Graças ao seu privilegiado sentido auditivo, os felinos são capazes de perceber vários estímulos sonoros que passam despercebidos ao ouvido humano.

Há sons distantes que somente os gatos ouvem.

Sons a longas distâncias, frequências ultrassônicas e ruídos de presas são alguns dos sons que apenas os gatos conseguem ouvir.

Os humanos pensam, mas nem sempre raciocinam. Há pessoas que tem o raciocínio curto.

Há animais muito mais inteligentes do que certos humanos. Assim são os cachorros e gastos.

Sou testemunha de que Koruga, o gato preto angorá, da minha tia Carmen, tanto pensava, como raciocinava. Conhecia que ela estava se aproximando de casa, pela zoada do motor do carro.

Por volta das cinco horas da tarde, o gato ficava pulando junto à janela, querendo subir para vê-la chegar do trabalho, no seu primeiro fusquinha.

Abriam-lhe a janela da casa da Praça Padre João Maria, para que subisse no patamar, onde ficava todo faceiro, com o olhar fixo na esquina da Igreja Matriz, por onde o carro viria. Parecia estar querendo dar-lhe as “boas vindas”, depois do trabalho. Era uma cena linda.

Certo dia, minha tia cismou que o gato estava sendo maltratado por uma serviçal da casa, pois quando ele dormia numa cadeira de balanço, na sala de jantar e a moça se aproximou, bruscamente ele despertou e saiu correndo em disparada, como se estivesse apavorado. Seu instinto animal o avisou de que estava em perigo, e ele se defendeu.

Minha tia botou na cabeça quer iria descobrir o porquê desse pavor. Não deu outra. Poucos dias depois, ela flagrou a moça enxotando Koruga da cozinha, às vassouradas.

Deu-lhe um show de “carões” e deu-lhe as contas, dizendo o porquê: Não admitia que ninguém maltratasse seu gato, nem o enxotasse da cozinha debaixo de vassouradas. Não houve pedido de desculpas que a comovesse. A moça pediu-lhe mil desculpas e prometeu que não faria mais isso.

Não houve jeito dela voltar a confiar na moça. Sabia que a maldade humana não tem jeito. Tinha certeza de que, mais cedo ou mais tarde, o gato voltaria a ser maltratado pela serviçal.

Koruga tinha bom gosto. Era louco por sardinhas enlatadas, e minha tia o acostumou a esse alimento, que estava presente em qualquer refeição que ele fizesse.

Era um bichano fino e muito bem tratado.

Uma vez por outra, o veterinário o consultava em casa, receitando-lhe o que havia de melhor, para mantê-lo saudável, com saúde perfeita. E Koruga viveu muitos anos.

Encontrei, pesquisando no site “Perito Animal”: “O gato Angorá é uma raça de “personalidade” forte e, por isso, precisa de donos dispostos a lidar com as suas manias. É uma raça de gato bem sociável, que gosta de estar em contato com humanos o tempo todo. Mas, apesar de gostar de carinho, também é arisco e se cansa com muito agrado, se afastando de repente.”

Ao se pegar um Angorá no colo, ele, provavelmente, vai pedir para descer. O angorá gosta de atenção e de tomar conta do espaço doméstico. Esperto e ágil, o Angorá também “adora” uma brincadeira, principalmente as que envolvem escalar móveis e objetos altos pela casa. Por isso, telar janelas da casa ou apartamento é uma boa saída para evitar que esse gato agitado fuja.

Ninguém consegue desafiar a inteligência de um gato Angorá. Eles são muito espertos e capazes de aprender muitas coisas com os humanos. Isso pode ser percebido através de sua extrema curiosidade, sempre explorando os ambientes. Além disso, se adaptam facilmente a qualquer local, apesar de não serem fãs de mudanças.

Eles se dão muito bem com crianças e idosos.

Minha saudosa tia Carmen tinha grande afeição por esse tipo de gato.

Aprendi com ela, a também gostar.

Os humanos pensam, mas nem sempre raciocinam. Há pessoas que pensam, mas tem o raciocínio curto.

Há animais inteligentes, como os cachorros e os gatos.

Sou testemunha de que Koruga, o gato preto, angorá, da minha tia Carmen, conhecia que ela estava se aproximando de casa, pela zoada do motor do carro. Por volta das cinco horas da tarde, o gato ficava pulando junto à janela, querendo subir para vê-la chegar do trabalho, no seu primeiro fusquinha. Abriam a janela para o gato subir, e ele ficava todo faceiro, com o olhar fixo na esquina da Igreja Matriz, por onde o carro viria. Parecia estar querendo dar-lhe as “boas vindas”, depois do trabalho. Era uma cena linda.

Certo dia, minha tia cismou que o gato estava sendo maltratado por uma serviçal da casa, pois quando ele dormia numa cadeira de balanço, na sala de jantar e a moça se aproximou, bruscamente ele despertou e saiu correndo em disparada, como se estivesse apavorado. Seu instinto animal o avisou que estava em perigo e ele se defendeu.

Minha tia botou na cabeça quer iria descobrir o porquê desse pavor. Não deu outra. Poucos dias depois, ela flagrou a moça enxotando Koruga da cozinha, às vassouradas.

Deu-lhe um show de “carões” e deu-lhe as contas, dizendo o porquê: Não admitia que ninguém maltratasse seu gato, nem o enxotasse da cozinha debaixo de vassouradas. Não houve pedido de desculpas que a comovesse. A moça pediu-lhe mil desculpas e prometeu que não faria mais isso.

Não houve jeito dela voltar a confiar na moça. Sabia que a maldade humana não tem jeito. Tinha certeza de que, mais cedo ou mais tarde, o gato voltaria a ser maltratado pela serviçal.

Koruga tinha bom gosto. Era louco por sardinhas enlatadas, e minha tia o acostumou a esse alimento, que estava presente em qualquer refeição que ele fizesse.

Era um bichano fino e muito bem tratado.

Uma vez por outra, o veterinário o consultava em casa, receitando-lhe o que havia de melhor, para mantê-lo saudável, com saúde perfeita.

E Koruga viveu muitos anos.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 13 de dezembro de 2024

O PEDIDO DE CASAMENTO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O PEDIDO DE CASAMENTO

Violante Pimentel

Nossa vida é um livro repleto de histórias, nossas ou que vivenciamos ao longo dos anos. Às vezes, dependendo do destino de cada um de nós, o livro da vida pode ter vários volumes, e daí os super inteligentes extraem deles suas histórias, filmes, peças de teatro, composições musicais e poesias

A inspiração é um dom divino, que ilumina a pessoa a só fazer o bem. Às vezes o espírito do mal é mais forte, e é ele que prevalece.

Parafraseando o compositor Gonzaguinha, de saudosa memória, “eu fico com a pureza das respostas das crianças…É a vida, e é bonita e é bonita…”

De repente, me vem à mente histórias antigas.

Contava minha querida e saudosa mãe, Dona Lia, que, quando era jovem, começou a namorar com Francisco, parente da sua madrasta, e o namoro resultou num pedido de casamento dele, cuja aceitação foi por ela condicionada à inclusão de uma privada com aparelho sanitário de louça, igual aos da capital.

A preocupação da noiva era que o seu pedido não fosse atendido.

Apesar de muito apaixonada, ela não suportaria se mudar da capital para o interior, indo morar numa cidade atrasada, sem energia elétrica, água encanada e sem, ao menos, poder desfrutar de um banheiro digno.

Em Nova-Cruz (RN), não havia o mínimo conforto material. A cidade não tinha energia elétrica nem água encanada. Água doce, somente para beber e cozinhar. O banho era com água salobra (salgada), levada do Rio Piquiri , aos sábados pela manhã, de trem. Era o chamado “trem da água”.

Nesse dia, as casas se abasteciam de água doce, mediante pagamento aos carregadores, que usavam seus galões, feitos com latas vazias de querosene “jacaré”.

Nos domingos, minha mãe controlava a lavagem de cabeça da meninada, com água doce do Piquiri e raspa de Juá, para evitar caspa.

Na cidade, ainda não existia aparelho sanitário de louça, e sim um quadrado feito com cimento e tijolo, chamado sentina ou latrina, onde o usuário tinha de se acocorar para fazer suas necessidades fisiológicas.

Embaixo, ficava a fossa.

A outra opção eram os penicos.

Por mais amor que existisse entre um casal, era preciso um esforço sobre-humano, para se trocar o conforto da capital, pelo desconforto de uma cidade do interior, sem energia elétrica, água encanada, assistência médica, e com banheiros precários.

Mas os grandes amores existem. Foi o caso do meu pai e minha mãe.

A exigência da noiva foi atendida, e seu sonho foi realizado. A casa ficou perfeita.

Era estilo “bangalô”, e tinha privada de capital, com sanitário de louça.

Ali, os noivos iniciaram a vida de casados, constituindo família, com uma prole de seis filhos, sendo três homens e três mulheres.

A nossa casinha era um lindo “bangalô”, o primeiro de Nova-Cruz.

Ali nasceram os seis filhos de Francisco e Lia, numa união que durou mais de cinquenta anos.

Essas reminiscências, ouvi diversas vezes minha mãe contar, sob protestos e risos do meu pai, que dizia que essa exigência dela tinha sido desnecessária, pois a casinha tinha sido projetada com “banheiro de capital”.

– Deixe de conversa, Lia! Nunca houve isso. Você era louca por mim, e dizia sempre que queria casar comigo, mesmo que fosse para morar debaixo de um pé de pitomba.

Resposta da minha mãe:

– Isto mesmo não!!!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 06 de dezembro de 2024

O ENXOVAL (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O ENXOVAL

Violante Pimentel

 

Antigamente, era comum pessoas de Nova – Cruz (RN) irem, de trem, às compras em Guarabira (PB), onde o comércio primava pela excelente qualidade de produtos de cama, mesa e banho, com preços módicos. Era o comércio ideal para se comprar enxoval de noivas, coisa fora de moda nos dias de hoje, quando se encontra tudo do bom e do melhor em grandes lojas e armazéns da capital e até em cidades do interior, com a facilidade dos cartões de crédito.

No final da década de 60, quando chegou minha vez de comprar o meu enxoval de noiva, fomos eu e minha mãe a Guarabira (PB), no trem das dez horas, que vinha de Natal, para passarmos o dia fazendo compras, e regressarmos à noite, no trem de Recife.

Quando o trem chegou a Guarabira, minha mãe, de braço comigo, certa de que conhecia bem a cidade, pisou firme no chão à procura da rua do comércio, onde ficavam as lojas principais. Andamos a pé mais de uma hora, e nada de chegarmos ao comércio de Guarabira. Mamãe desconfiou de que estávamos perdidas, sem acertar andar naquela progressiva cidade, onde ela já tinha ido anos atrás, comigo mesma e a amiga Alzira Carneiro. Quando se convenceu de que tínhamos nos perdido, minha mãe pediu informações a um transeunte, que respondeu:

– Senhora, aqui é a zona do “baixo meretrício”. O comércio a que a senhora se refere é bem longe daqui, exatamente no lugar oposto a este. Vocês fizeram o caminho ao contrário. O comércio fica bem pra lá da Estação Ferroviária, voltando. E o ambiente aqui é “carregado.” É o comércio da prostituição.

Minha mãe, desapontada e com vergonha, agradeceu a informação e nós duas, apressadamente, iniciamos o caminho de volta. Demoramos quase uma hora para chegarmos à tão falada rua do comércio de Guarabira, onde se podia comprar enxovais de noivas por preços módicos.

Se arrependimento desse febre, naquela hora, estaríamos, minha mãe e eu, com mais de 40 graus.

Ao chegarmos ao bairro onde ficava o comércio, nossos ânimos serenaram aliviados, e imaginamos a cara aborrecida do meu pai, quando soubesse que a sua esposa e a filha de 17 anos foram “passear” na “zona” de Guarabira. Não paramos de rir.

Em Nova-Cruz (RN), a zona do baixo meretrício se chama “Rua do Sapo”, cujo acesso é um beco estreito, que fica na rua principal. Meu pai não permitia que passássemos nem pela calçada que dá acesso ao tal beco. I

Imaginei o semblante contrariado dele, quando soubesse que a esposa e a filha noiva, perdidas em Guarabira, foram bater na “zona do baixo meretrício”.

Minha mãe, muito católica, desabafou:

– Misericórdia, meu Deus! Que ideia infeliz a minha, de vir comprar o enxoval da minha filha aqui em Guarabira, podendo ter ido comprar em Natal!!!

A compra foi maravilhosa: Colchas de cama requintadas, guarnições completas de cama, mesa e banho, lençóis avulsos, além do tecido de cetim branco e brocado, para o meu vestido de noiva, que foi confeccionado por minha mãe. Juntando-se todas as compras, daria para se montar uma lojinha em Nova-Cruz… rsrs. Foi coisa demais.

Realmente, o comércio de Guarabira (PB), naquela época, era de dar gosto. O comércio de Nova – Cruz “não amarrava a chuteira”. Se bem que, hoje, as duas cidades se equivalem no que se refere ao progresso.

Nova – Cruz (RN) faz fronteira com a Paraíba, e há uma rua depois do Catolé (Bairro), onde a metade é RN e a outra é Paraíba. Dá gosto de ver.

Nessa viagem, para fazer compras em Guarabira, o estresse tirou nosso apetite. Não almoçamos e somente depois das compras, tomamos um sorvete.

Foi um alívio, ao chegarmos à Estação Ferroviária, para aguardar o trem de Recife para voltarmos a Nova -Cruz, onde só chegamos às nove horas da noite.

Seu Francisco, meu pai, estava a nos esperar na estação. Chegando em casa, minha mãe contou-lhe a nossa “odisseia” em Guarabira, onde nos vimos perdidas, sem saber andar na cidade. Minha mãe contou ao meu pai, que tínhamos nos perdido em Guarabira, indo parar na “zona do baixo meretrício”.

Meu pai, muito sisudo, disse: Muito bonito pra minha cara, Lia. Minha mulher e minha filha noiva, serem vistas na “zona” de Guarabira!!! E minha mãe, rindo, respondeu:

– Mas, Chico, foi sem querer… A gente se distraiu. Nem imaginava que aquilo fosse a zona. Não tinha nenhuma placa avisando! Eu não podia imaginar uma coisa dessa!

Só pode ter sido obra de Satanás!!!

Mas, graças a Deus, estamos aqui, sãs e salvas. Maior do que Deus, ninguém!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 29 de novembro de 2024

A SUPERSTIÇÃO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A SUPERSTIÇÃO

Violante Pimentel

 

A superstição sempre esteve presente na cabeça das pessoas, e chega a atrapalhar decisões que devem ser tomadas, como datas de viagem ou de mudanças de imóvel.

Sempre se ouviu falar que gato preto dá azar. Entretanto, minha querida tia Carmen era louca por gato preto, e na casa dela sempre havia um, cujo nome era Koruga.

Existem várias superstições, carregadas de crenças passadas por gerações.

O conceito de superstição está ligado à crença em algo sem fundamento lógico. Ou seja, é passada oralmente entre gerações, como se fosse parte da cultura popular.

Superstição também é chamada de crendice popular, e sempre influencia o comportamento das pessoas .

As superstições podem ter características pessoais, religiosas ou culturais.

Na religião, por exemplo, acredita-se que ao abrir a página da Bíblia ao acaso irá se receber uma resposta, ou mensagem que diz respeito a algum problema pessoal pelo qual alguém está passando.

As superstições acompanham a humanidade desde a antiguidade. Estiveram sempre presentes na história e associadas a rituais pagãos.

O termo superstição vem do latim “superstitio, sendo associado ao conhecimento popular. Desde a antiguidade, os povos associavam as crenças aos aspectos mágicos, determinando o que seria sorte ou não. Muitas superstições da antiguidade se perderam no tempo e deixaram de impressionar as pessoas.

Há pessoas que detestam gato preto, borboleta preta ou qualquer outro animal preto. A visão de um gato preto ou borboleta preta, para essas pessoas, significa aviso de futura contrariedade, premonição de algum acontecimento trágico, ou qualquer outra ocorrência maléfica, que afaste a alegria.

Na obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), Machado de Assis fixa a superstição:

“Digo lá dentro, porque cá fora o que esvoaçou foi uma borboleta preta, que subtamente penetrou na varanda, e começou a bater as asas em derredor de D, Eusébia. D. Eusébia deu um grito, levantou-se, praguejou umas palavras soltas;- T’esconjuro! Sai, diabo… Virgem Nossa Senhora!…- Não tenha medo, disse eu, e, tirando o lenço, expeli a borboleta” (capítulo XXX) No capítulo XXXI, “”A borboleta preta”, há toda uma cena. Brás Cubas não pode suportar a companhia da borboleta negra. Afugenta-a de todos os modos. Acaba matando-a. Depois, arrepende-se, concluindo na velha técnica machadiana: “Também por que diabo não era ela azul?”

Se fosse azul, não anunciava tristeza. borboleta preta, pode ser a representação, figuração, encarnação de uma feiticeira, de um espírito mau, trazendo desgostos, espalhando misérias. A borboleta preta, comumente é chamada de bruxa.

Há pessoas tão supersticiosas, que se descontrolam diante de um animal preto, seja ele qual for, inclusive uma inofensiva borboleta.

Nos dias atuais, a superstição exagerada é algo muito difícil de se ver. Quando muito, admite-se preferências de cor nas vestimentas ou adornos. Nada que tenha a ver com pessoas ou animais.

As superstições estão presentes em várias culturas e países. Em alguns países, sobretudo, essas crenças foram criadas na Idade Média, acerca de bruxas e gatos pretos.

Nos Estados Unidos, por exemplo, tem-se receio do número 13. Aliás, algumas linhas áreas não tem assentos com esse número. E alguns prédios são construídos sem o 13º andar.

Na Itália, o número 13 também é visto como número de azar. Além disso, o número 17 também causa receio nos italianos, principalmente, se for sexta-feira.

Há artistas brasileiros tão supersticiosos, como Roberto Carlos, que só fazem show de azul, ou azul e branco.

Esse tipo de superstição é comum e não prejudica ninguém.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 22 de novembro de 2024

MY FAIR LADY (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

MY FAIR LADY

Violante Pimentel

Não sei porque, hoje, acordei com minhas lembranças agitadas, buscando coisas de um passado remoto, sonhos e fantasias, numa miscelânia com ridículas ocorrências atuais, que não me dizem respeito. Sonhos, bastam os meus. Sonhos perdidos e decepções, também.

Quando me casei, fui morar na casa da minha sogra, viúva, com quem meu marido morava. Tivemos uma convivência maravilhosa e ainda hoje sinto saudade daquele tempo, onde a maldade não existia. Depois de dois anos, nos mudamos para o nosso apartamento.

Minha saudosa sogra preservava a memória viva do falecido marido, livros e discos.

Nunca esqueci de um LP, do meu sogro, o musical “MY FAIR LADY,” que minha sogra gostava muito de ouvir. E por conta dela, me apaixonei pelo disco.

My Fair Lady conta a história de Eliza Doolittle, uma mendiga que vende flores pelas ruas escuras de Londres em busca de uns trocados. Em uma dessas rotineiras noites, Eliza conhece um culto professor de fonética, Henry Higgins, e sua incrível capacidade de descobrir muito sobre as pessoas, apenas através de seus sotaques. Quando o professor ouve o péssimo sotaque de Eliza, aposta com o amigo Hugh Pickering, que é capaz de transformar uma simples vendedora de flores, inculta, numa dama da alta sociedade, no espaço máximo de seis meses.

My Fair Lady (Brasil: Minha Bela Dama ou Minha Querida Dama/ Portugal: Minha Linda Lady ou Minha Linda Senhora) é um filme estadunidense de 1964, do gênero comédia musical, dirigido por George Cukor, baseado na peça teatral Pigmaleão, de George Bernard Shaw.)

No Brasil, a primeira encenação de My Fair Lady, intitulada Minha Querida Lady, foi realizada em 1962 pelo produtor Victor Berbara. Além de Bibi Ferreira e Paulo Autran nos papéis principais, a montagem contava ainda com a jovem atriz Marília Pêra, em início de carreira.

Esse LP, jamais esqueci. E o musical romântico tratava de uma bela história de amor.

Para o meu contentamento, encontrei no YouTube o Musical e o Filme My Fair Lady.

 

Maravilhosos!!!

MY FAIR LADY | Official Trailer | Paramount Movies

 

 

Bibi Ferreira – My Fair Lady (Eu Dançaria Assim)

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 15 de novembro de 2024

ERRO DE COR (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

ERRO DE COR

Violante Pimentel

Seu João Pedro, pequeno vendedor de caibros e linhas, em Nova-Cruz (RN), era um homem solitário, que residia no mesmo local onde trabalhava. Sem família, todas as manhãs, ia à bodega de Dona Lindalva, que ficava vizinha à sua casa, e lá tomava alguns goles de cachaça.

 

 

Certo dia, no “Mercadão das Tintas” de Nova-Cruz, uma das melhores lojas da cidade, Seu João Pedro comprou um galão de tinta “amarelo-ocre”, para pintar a frente da sua pequena casa, para esperar a chegada do natal e Ano Novo. Como de costume, ele mesmo faria a pintura.

No dia seguinte, eufórico, logo cedo começou a pintura.

Quando parou para apreciar o trabalho, percebeu que a tinta não correspondia àquela que ele havia escolhido, “amarelo-ocre”.

A entrega feita pela loja viera trocada. A tinta “vermelho -terra”, nunca fora do seu agrado e ele jamais compraria. Foi a que lhe mandaram, e ele abriu a lata, e foi logo usando, sem conferir.

Quando notou o erro, já tinha pintado a parede quase toda e não tinha mais como trocar a lata de tinta. Contrariado, ficou esbravejando, achando a cor da tinta horrorosa.

Sua vontade era voltar à loja e “quebrar a cara” do vendedor irresponsável, que lhe entregou a tinta errada. Mas, reconhecia que também tinha errado, quando não conferiu a compra recebida.

Muito triste, ele começou a desabafar com todas as pessoas que por sua casa passavam. Elas, sem qualquer sensibilidade, foram unânimes em concordar com ele, dizendo que, de fato, a tinta era muito feia. Bonita mesmo era a “amarelo-ocre”. Sua tristeza aumentava ainda mais.

Seu João Pedro, antes de começar a pintura da frente da casa, já tinha tomado a primeira chamada de cachaça do dia. E quando percebeu que a tinta comprada não era aquela, já tinha usado uma boa parte do galão. Ficou contrariado, até a medula óssea.

Quase caiu da escada.

Convencido do engano da loja, viu que já era tarde, para devolver a tinta, pois já estava pintando a frente da casa. A lata de tinta já estava quase pela metade. Desceu da escada e foi à bodega tomar outra bicada de cachaça. Voltou ao serviço, completamente embriagado.

Nessas alturas, vinha passando a professora Dona Lia Pimentel, minha saudosa mãe, que, ao vê-lo, o cumprimentou e parabenizou pela bonita cor da tinta escolhida para a pintura da casa. Disse-lhe que ele teve bom gosto!

Seu João Pedro não acreditou no que estava ouvindo. Dona Lia achando a cor da tinta bonita, enquanto ele estava contrariado e se maldizendo pelo equívoco da loja.

Teve que se conformar, pois já tinha pintado a parede quase toda e não tinha mais como trocar a lata de tinta. Contrariado, ficou esbravejando, achando a cor da parede horrorosa.

A tinta “amarelo-ocre” que ele escolhera, por equívoco do vendedor veio trocada, e em seu lugar veio uma “vermelho-terra”, que ele jamais compraria. Como já estava usando a tinta, o caso estava sem jeito.

Muito triste, Seu João Pedro começou a desabafar com todas as pessoas que por sua casa passavam. Elas foram unânimes em concordar com ele, dizendo que, de fato, a tinta era muito feia.

Seu João Pedro, antes de começar a pintura da frente da casa, já tinha tomado a primeira chamada de cachaça do dia.

Quando percebeu a troca da tinta, já tinha usado uma boa parte do galão. Ficou contrariado, até a medula óssea.

De repente, mudou o cenário. Pela frente da sua casa, vinha passando a professora Dona Lia Pimentel, que era incapaz de um comentário depreciativo, que contrariasse alguém. E a bondosa senhora cumprimentou o homem, delicadamente:

– Bom dia, Seu João Pedro! Como está ficando linda sua casa! Que cor bonita e diferente! Está formidável!

Contrariado, Seu João Pedro respondeu:

– Bom dia, Dona Lia! Veja que moleza a minha: Comprei uma tinta “amarelo-ocre”, linda, e me mandaram esta cor horrível! Estou com vontade de voltar na loja e quebrar a cara do vendedor. Mas se eu fizer isso, vai sobrar pra mim: vou ser preso e mofar na cadeia.

Muito inteligente, Dona Lia, vendo o estado de nervos do homem, procurou acalmá-lo:

– Seu João Pedro, a cor da tinta está linda! Um amarelo diferente! Está formidável! Pode acreditar! Da próxima vez que eu mandar pintar minha casa, vai ser da cor da sua!

Seu João Pedro ficou mais calmo e Dona Lia seguiu para o Colégio Nossa Senhora do Carmo, onde ensinava Inglês.

Mais calmo e conformado com a cor da tinta, Seu João Pedro foi completar a tarde com outros goles de cachaça na bodega de Dona Lindalva. Tomou mais três bicadas, uma atrás da outra.

Muito embriagado, o homem fez um verdadeiro discurso. Mesmo revoltado com a cor da tinta, teceu grandes elogios à Dona Lia:

– Dona Lia é uma santa! Não faz mal a ninguém. Achou linda a tinta que veio trocada. Disse até que vai mandar pintar a casa dela da mesma cor da minha! Disse que a cor da tinta é linda e a pintura está formidável.

E o homem continuou discursando:

“Dona Lia é uma mulher de fibra! Disse que a minha casa está formidável! Eu já me conformei e estou gostando da cor. Está mesmo formidável!!!.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 08 de novembro de 2024

COALHADA COM RAPADURA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

COALHADA COM RAPADURA

Violante Pimentel

Coalhada e rapadura

 

Numa das campanhas eleitorais para Governador do Estado, um conhecido deputado estadual, candidato à reeleição, após um comício numa cidade do interior, foi dormir em sua fazenda, que ficava a poucos quilômetros de distância. De manhã cedo, acordou com alguém batendo palmas no portão da sua propriedade. Era a esposa de um antigo eleitor, à procura de socorro para o marido, que, desde a noite anterior, encontrava-se passando mal. Segundo ela, durante o jantar, ele havia exagerado na coalhada com rapadura, e pouco tempo depois, começou a passar mal. Deitou-se com o estômago muito cheio e logo que adormeceu, começou a passar mal. Ainda não tinha parado de vomitar. Quanto mais remédio caseiro tomava, mais aumentava sua indisposição. Já estava perdendo as forças, muito pálido e suando frio.

Como se encontrava em plena campanha política, o deputado viu-se na obrigação de transportar o doente para Natal, no seu luxuoso carro, à procura de socorro médico. Mandou, então, que o colocassem deitado no banco de trás, muito bem forrado, com a cabeça no colo da esposa, e sentou-se no banco da frente, ao lado do motorista.

A violenta indisposição gástrica, realmente, havia derrubado o seu fiel eleitor, que agora estava passando por maus momentos. Após uma noite inteira de fermentação, a barriga do homem, cheia de gazes, parecia um zabumba.

O gesto de solidariedade do deputado, para ele, iria comover as pessoas da redondeza, e, com certeza, seria uma forma de angariar mais votos para a sua reeleição. Por isso, fez questão de acompanhar o doente a um pronto-socorro da capital do Estado.

Nessa época, as estradas eram de barro e esburacadas. Com os constantes solavancos do carro, o mal-estar do doente aumentou, ainda mais, durante a viagem. O pobre coitado sofria com os balanços e com os “embrulhos” no estômago. Não parava de vomitar.

Muito encabulado, mesmo trincando os dentes, não podia evitar que os salpicos dos resíduos estomacais atingissem as costas do deputado. A coisa foi ficando feia, e o deputado olhou para trás, visivelmente irritado, ao sentir sua camisa molhada de vômito. Estava bastante chateado e arrependido de estar transportando o doente na sua “Hilux”. Num dado momento, o parlamentar olhou para trás e resmungou um palavrão. O velho eleitor percebeu a sua irritação, e então, num humilde pedido de desculpa, balbuciou:

– Calma, “cumpade”…o soro sai, mas a “quaiada” fica…

O pior é que o mau cheiro de fezes se misturava com o de vômito azedo.

O paciente foi levado ao melhor Pronto Socorro de Natal, onde foi medicado, permanecendo internado até o dia seguinte.

O deputado não podia mais disfarçar sua ira. Entretanto, sabia que sua “generosidade” faria com que conseguisse mais votos.

Essa viagem deixou o deputado tão contrariado, que, para esquecê-la, trocou de carro na mesma semana, e fez uma jura de nunca mais fazer sua “Hilux” de ambulância, para eleitor nenhum.

A infecção intestinal, ou no português rasteiro, a “caganeira” é fator nivelador da igualdade humana, e ninguém está livre dela. Seja rico ou seja pobre, não importando a classe social, o homem sempre estará sujeito a esse tipo de constrangimento.

Mas o deputado não se lembrou disso.

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 01 de novembro de 2024

OS ÓCULOS (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)
 

OS ÓCULOS

Violante Pimentel

 

Toninho era um homem de quarenta anos, boêmio, poeta, namorador e escritor. Vivia apaixonado…Separado da mulher, tinha desistido de se amarrar novamente. Gostava de paixões violentas e aventuras amorosas complicadas.

Mulher casada safada, se fosse bonita e gostosa, era com ele mesmo. Bonitão e insinuante, era também devorador de livros. Um intelectual.

Nas suas andanças pelas portas dos comes e bebes dos bares da vida, conheceu Rosalinda, quando ela e o marido saboreavam um opíparo almoço, em um dos melhores restaurantes da cidade.

A mulher, loura, nova e bonita, dona de um corpo escultural, cravou-lhe os olhos verdes, e Toninho se sentiu fortemente atraído por ela. Flertaram descaradamente, e o marido, almoçando de cabeça baixa, nem ao menos percebeu a troca de olhares entre os dois. Em certo momento, aproveitando a ida do marido da beldade ao banheiro, o conquistador Toninho arranjou um jeito de passar pela mesa do casal. Discretamente, entregou à mulher o seu cartão de apresentação, com telefone e endereço. Ela o guardou imediatamente.

No dia seguinte, Rosalinda lhe telefonou e os dois combinaram um encontro. Tornaram-se amantes fervorosos, passando a frequentar motéis, sempre durante o dia, no horário em que o marido se encontrava no seu consultório.

O tempo passou, e o romance se estendeu por meses.

Muito coquete, Rosalinda traía o marido, desde o início de sua vida de casada. Ele, muito ingênuo, vivia para o trabalho. O homem levava mais chifres do que pano de toureiro. Suspeitava da traição da mulher, mas não queria acreditar, pois a amava loucamente. Era o chamado corno “cuscuz” (abafado).

Os amigos já haviam tentado alertá-lo para os boatos maldosos que circulavam na cidade, sobre a suposta infidelidade da sua mulher, mas ele cortava o assunto, dizendo que isso tudo era inveja, por causa da beleza dela. Não se cansava de dizer que ela era uma santa.

O casal não tinha filhos, pois a mulher dizia que, por enquanto, não queria deformar seu belo corpo.

Num certo dia, o marido viajou para um congresso da área odontológica, em Fortaleza (CE). Avisou à esposa que somente estaria de volta no domingo pela manhã.

Feliz da vida, Rosalinda deu o sinal verde para que, no sábado, o namorado viesse encontrá-la em seu próprio apartamento. A farra foi grande. Foi um início de tarde maravilhoso, e tinha tudo para ser inesquecível. Os dois amantes não se cansavam de trocar carinhos, e o encontro prometia superar os anteriores. O sabor do fruto proibido contribuiu para isso. Afinal, eles usavam a própria cama onde Rosalinda e o esposo dormiam.

Mas a vida apronta grandes surpresas…

O marido de Rosalinda, sem “aviso prévio”, e pensando em agradá-la, antecipou sua volta para o sábado.

Quando menos esperavam, os amantes, quase exaustos da maratona amorosa, foram surpreendidos pelo barulho do carro do dono da casa entrando na garagem.

Apavorados, pularam da cama. Toninho vestiu a cueca, agarrou a calça e a camisa nos braços, e pulou a janela do quarto, correndo para o apartamento do vizinho, seu velho e conhecido amigo. Como era sábado, a rua estava deserta. Por sorte, o amigo ouviu sua voz e mandou que entrasse. Dentro do apartamento do vizinho, Toninho terminou de se vestir e, bastante nervoso, já se preparava para ir embora, quando pôs no rosto os óculos que trazia nas mãos. Notou, então, que aqueles óculos não eram os seus. Estava sem enxergar absolutamente nada, pois usava um grau muito mais forte´, chamado “fundo de garrafa”.

A ficha, então, caiu!!! Ele trocara seus óculos pelos óculos do marido da amante!!!

Apelou, então, para o amigo, e insistiu para que ele fosse ao apartamento do dentista traído, efetuar a troca. Velho conhecedor das peripécias amorosas do poeta, mesmo vendo a sua aflição, o amigo recusou-se a atendê-lo. Naquela hora, isso seria coisa de louco! Seria humanamente impossível!!!

Rindo muito, disse para o poeta que ele criasse juízo. Não aprovava suas loucuras, nem iria arriscar sua vida, se envolvendo num caso sórdido e leviano.
De repente, o dentista traído bateu na janela do vizinho, trazendo nas mãos os óculos do poeta e pedindo pelo amor de Deus que ele devolvesse os seus. Tinha percebido que o traidor, seminu, entrara no apartamento do vizinho, carregado de pertences, e com certeza havia, por equívoco, deixado os seus óculos “fundo de garrafa” e levado os dele.”


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 25 de outubro de 2024

A FORÇA DOS HÁBITOS (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A FORÇA DOS HÁBITOS

Violante Pimentel

 

Os hábitos mudam e o modismo se renova constantemente.

Antigamente, quando se queria dizer que algum acontecimento social tinha sido muito bom, bastava segurar na ponta da orelha e dizer “foi daqui, ó!, da pontinha da orelha”, e estava proclamada a excelência do objeto indicado.

Com o simples gesto de segurar a pontinha da orelha, dava-se opinião sobre vinho, mulher, cavalo, culinária, versos, quadros, finalmente, tudo o que envolvesse a sensibilidade humana. Sem discussão ou polêmica. Segundo os estudiosos, em Portugal, o gesto de se pegar no lóbulo da orelha, em sinal de aprovação a alguma coisa, continua sendo usado, e faz parte da mímica tradicional de comunicação.

A sociedade sempre esteve em ebulição, com renovação de hábitos e lançamento de modas.

Muitas pessoas são escravas do modismo, enquanto outras são indiferentes ao mundo da moda e da futilidade.

A começar pelos cabelos multicoloridos, com vários comprimentos e estilos, adotados, preferencialmente, pelos jovens, o modismo está sempre presente. Uma hora são encaracolados, outra hora são trançados, outra hora com diferentes texturas, e por aí, vai o mundo girando, como uma roda viva do cotidiano.

Há alguns anos, caiu no gosto do povo brasileiro, principalmente dos nordestinos, a alimentação complementada com vários tipos de sementes, como chia, quinoa, linhaça, gergelim, semente de girassol, semente de jerimum, semente de maracujá e outras.

O modismo trouxe outras novidades e já não se fala tanto dos benefícios dessas sementes à saúde. Até o alpiste, alimento de passarinho, já foi introduzido na mesa do nordestino, misturado com água, como remédio milagroso para gota. O tempo passou e não se fala mais nisso, nem se conhece os “milagres” do alpiste. Continua sendo ótima alimentação para passarinhos.

Os costumes também sofreram mutação no tempo, no que se refere às crendices populares. Já não se fala em olho grande ou mau olhado, uma cisma centenária e verdadeira.

Não se diz mais que uma planta morreu por causa de olho grande, nem que um bebê adoeceu por causa de mau olhado. Mesmo assim, a maldade do ser humano continua existindo. Mas, ainda há valores que nos induzem a acreditar que tudo vai melhorar.

Por enquanto, para as rezadeiras ou benzedeiras, como Dona Gina, não falta trabalho.

Pessoalmente, acredito que o olho grande e a inveja continuam existindo.

Mesmo assim, o dicionário Houaiss define “superstição” e “crendice”, como “a crença ou noção sem base na razão ou no conhecimento, que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas inócuas, a depositar confiança em coisas absurdas, sem nenhuma relação racional entre os fatos e as supostas causas a eles associados”. Ou seja, é acreditar em fatos ou relações sobrenaturais, fantásticas ou extraordinárias e que também não encontram apoio nas religiões ou no pensamento religioso.

As crendices e superstições são vestígios de um passado em que o ser humano tinha uma visão mágica do mundo, acreditando que diversos fatores sobrenaturais podiam interferir diretamente no seu dia-a-dia. Esse modo de pensar foi se transmitindo de geração a geração, em especial entre as camadas populares, que foram mantidas à margem da evolução do conhecimento científico.

Segundo o folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo, “as superstições participam da própria essência intelectual humana e não há momento na história do mundo sem a sua inevitável presença. A elevação dos padrões de vida, o domínio da máquina, a cidade industrial ou tumultuosa em sua grandeza assombrosa, são outros tantos viveiros de superstições velhas, renovadas e readaptadas às necessidades modernas e técnicas”.

Portanto, não é preciso ser pobre nem ignorante para ser supersticioso. Como diz o ditado, “não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem”. Então, por via das dúvidas, mesmo as pessoas mais instruídas podem apresentar certos comportamentos supersticiosos.

O cientista dinamarquês Niels Bohr (1885-1962), que ganhou o Prêmio Nobel de física, por superstição, mantinha uma ferradura pregada acima da porta de sua casa.

Por sua origem popular, as crendices e superstições também integram o Folclore de um povo.

São muitas as superstições e crendices do Folclore Brasileiro. Entre elas, acredita-se que dá azar passar debaixo de uma escada, quebrar um espelho ou cruzar com um gato preto na rua. Muita gente também teme as sextas-feiras que caem no dia 13, especialmente quando se trata do mês de agosto – que é “mês de desgosto” ou “mês de cachorro louco”.

“Em bruxas eu não acredito, mas que elas existem, existem.” (Miguel de Cervantes, 1547-1616)


Violante Pimentel - Cenas do Caminho quarta, 23 de outubro de 2024

CARNAVAL DO *PEGA NA CHALEIRA* (CRÔNICA DA CLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)
CARNAVAL DO "PEGA NA CHALEIRA"
Violante Pimentel



“Iaiá me deixa subir esta ladeira…eu sou do bloco do pega na chaleira”…

Essa marchinha, do começo do século passado, ainda hoje faz sucesso e o tema é sempre atual. Os “chaleiras” ou “puxa-sacos” estão sempre presentes em todos os segmentos da sociedade, até mesmo nas Igrejas. No interior, antigamente, havia carolas que chaleiravam o Padre, tornando-se quase governantas da Casa Paroquial. Tomavam conta das batinas, calças, camisas e até das cuecas do vigário, além de manterem o controle de horários das missas e arrumação do Altar da celebração. Elas se apossavam da privacidade do Padre, e ficavam por dentro de todos os seus passos. Eram intoleráveis e dificultavam o seu entrosamento com o povo da cidade.

Em escolas e outras repartições públicas, a figura do (da) chaleira também sempre esteve presente. Dedurava os colegas, fazia fofocas e babava o chefe, querendo fazer dele um amigo íntimo. Mas a falsidade era logo percebida, quando chefe era uma pessoa decente.

O termo chaleirar tem sua história registrada no folclore político brasileiro.

Dizem os memorialistas literários que o termo surgiu motivado pelo chimarrão, tomado todas as tardes pelo ex-Senador gaúcho, José Gomes Pinheiro Machado, nascido em 1852 e assassinado no Rio de Janeiro em 1915.

Esse homem fora a grande força política brasileira, no começo do século passado. Morava na Ladeira da Graça, no Rio de Janeiro, de difícil acesso. Mesmo assim, isso não impedia que os políticos bajuladores fossem todas as tardes visitá-lo e lhe beijar a mão.

O ex-Senador sentava-se em volta de uma pequena fogueira, sobre a qual era posta uma belíssima chaleira de prata, onde a água para o chimarrão era mantida em ebulição. De cuia na mão e canudo no bico, o ex-Senador puxava o seu chimarrão, paparicado pelos bajuladores. Essa chaleira era disputada por eles, que queriam, todos ao mesmo tempo, servir o chimarrão ao “todo-poderoso”. Uma vez por outra, algum deles, na ânsia de pegar primeiro na alça da chaleira, pegava no bico, recebendo todo o bafo quente que dali saía. A história se espalhou e esses políticos bajuladores, que viviam com os dedos queimados, passaram a ser chamados de chaleiras. Esse vocábulo passou a ser sinônimo de puxa-saco e bajulador.

Daí, surgiu a marchinha de carnaval, Pega na Chaleira, de autor desconhecido, com arranjo do Maestro Costa Júnior, que se assinava “Juca Storoni”, sucesso no carnaval de 1909.

 

Depois, surgiu “Cordão de Puxa-Saco”, marchinha de Frazão e Roberto Martins, gravada pelos Anjos do Inferno. Essa marchinha foi grande sucesso no carnaval de 1946, ficando definitivamente conhecido o tema do chaleirismo ou puxa-saquismo.

 

 

Na época atual, os (as) chaleiras ainda continuam inspirando os compositores de plantão, que, como Juca Chaves, não perdem tempo em compor sátiras e paródias, ridicularizando esses políticos sem escrúpulos, que vivem chaleirando os poderosos, tentando conseguir vantagens e favores.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 18 de outubro de 2024

UMA BELA AÇÃO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

UMA BELA AÇÃO

Violante Pimentel

Há muitos séculos, Androcles, um escravo romano, foi levado pelo seu dono ao norte da África. Como o amo era muito perverso, a vida do escravo era de maus tratos e sofrimento. Por isso, o negro resolveu fugir, mesmo sabendo que corria o risco de ser morto, caso fosse capturado. Fugiu, para ver se chegava à costa, e se dali poderia voltar a Roma. Esperou uma noite escura e sem lua para sair, secretamente, da casa do amo. Atravessou a cidade e saiu para o campo.

 

 

No meio da escuridão, apressou a marcha, mas, com a luz do dia, viu que, em lugar de ter fugido para a costa, havia caminhado até um solitário deserto. Estava abatido, cheio de fome e de sede. Descobriu a entrada de uma caverna na base de uma colina, penetrou naquele local escuro, deitou-se no chão e dormiu o sono dos justos. De repente, despertou-o um terrível rugido, e de um salto pôs-se em pé, vendo à entrada da caverna um enorme leão. Assombrado, Androcles viu que tinha dormido no covil daquela fera e entendeu logo que, dali, já não poderia sair, pois o animal impedia a passagem. Esperava, horrorizado, que a fera saltasse sobre ele e o matasse. Mas o leão não se movia.

Queixava-se e lambia uma pata, da qual corria sangue. Androcles esqueceu o seu terror e, vendo o sofrimento da fera, aproximou-se. O leão levantou a pata como que a pedir-lhe auxílio. Androcles viu que o leão tinha nela um enorme espinho, que já lhe produzira grande inflamação. Num rápido movimento, extraiu o espinho, deteve a marcha da inflamação e estancou o sangue.

Aliviado da sua dor, o leão saiu da caverna e daí a poucos minutos voltou com um coelho morto, que pôs junto de Androcles. O pobre escravo assou o coelho e comeu-o. Depois, o leão conduziu-o a um sítio onde brotava na terra um manancial de água fresca.

Durante três anos, o homem e a fera viveram juntos, sempre caçando e comendo o que caçavam. Durante a noite, o leão repousava, estendido ao lado do seu benfeitor e movia a cauda de um lado para o outro, como um cão ou um gato que se deita aos pés do dono e se sente feliz.

Finalmente, Androcles sentiu desejos de se comunicar com os seus semelhantes e deixou a caverna, sendo logo preso por uns soldados e mandado para Roma como escravo fugitivo.

Os antigos romanos não tinham piedade com os escravos que fugiam e eram capturados. Por essa razão, Androcles foi condenado a ser despedaçado pelas feras no primeiro dia de festa no circo, que tinha o nome de Coliseu.

Uma grande multidão correu a presenciar o triste espetáculo, e entre os espectadores via-se o próprio imperador de Roma, que tinha no Coliseu a sua cadeira imperial. Rodeado pelos seus senadores, dali contemplava a cruel festa.

Empurraram Androcles para a arena e meteram-lhe na mão uma lança, para que se defendesse da fera que o atacaria. De repente, entrou na arena um enorme leão, que estava sem se alimentar há vários dias, a fim de que se tornasse mais feroz. Apavorado, o escravo se viu sem qualquer esperança de sobrevivência. Naquela arena, num ato festivo para o imperador, os senadores e o povo em geral, sua vida iria chegar ao fim.

Estremeceu, quando o leão esfomeado saiu da jaula. A lança caiu-lhe das mãos, ao ver que o animal, aos saltos, se dirigia para ele. Mas, em vez de o atacar e o derrubar, o leão agitou amigavelmente a cauda e lambeu-lhe as mãos. Então, Androcles viu que o leão era o seu companheiro da caverna. Acariciou-o, inclinou-se sobre a sua cabeça e chorou copiosamente. Ninguém entendia o que estava acontecendo. Incrédulo e decepcionado diante daquela estranha cena, nunca vista na história do Coliseu, o imperador ordenou que se encerrasse a frustrada execução do escravo. O que deveria ter sido uma apoteose, terminou numa grande frustração para as pessoas ávidas por torturas e mortes.

Não obstante, o povo ficou maravilhado com aquela prodigiosa cena, e o imperador mandou chamar Androcles, pedindo-lhe a explicação para o que havia se passado ali.

De tal forma o encantou a narrativa do escravo, que lhe concedeu a liberdade e a dignidade de homem livre, e deu-lhe uma importante soma em dinheiro. Dias depois, Androcles era visto, passeando pelas ruas de Roma, sempre acompanhado pelo seu leão, que o seguia por todos os lugares, como se fosse um cão fiel.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 11 de outubro de 2024

UMA VIAGEM ATRAPALHADA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPEERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

UMA VIAGEM ATRAPALHADA

Violante Pimentel

Íamos, eu e minha filha Diana, em outubro de 2013, ao XXXIX CONGRESSO NACIONAL DOS PROCURADORES DE ESTADO, a ser realizado em Porto de Galinhas (PE), cujo tema era:

“O Advogado público, as funções da cidadania e os 25 anos da Constituição de 1988. Porto de Galinhas – PE- Outubro de 2013.”

 

 

Preferimos ir de táxi, pois tenho pavor a viajar de avião.

Sabendo disso, um casal amigo nosso, me vendeu a ideia de contratar para nos levar a Porto de Galinhas, um excelente taxista, Seu Radir, da amizade dos dois, que eram seus compadres. Apesar de eu não conhecer ainda o motorista, aceitei viajar com ele, para Porto de Galinhas.

Eles mesmos telefonaram para Seu Radir para que eu falasse com ele e o contratasse para a esperada viagem.

Acertados o preço e o horário, no sábado, às sete horas da manhã, estava o táxi de Seu Radir na porta do edifício em que moramos, para nos levar a Porto de Galinhas.

Muito educado, o motorista se desculpou porque o carro não era novo, mas o importante, para mim, é que ele tivesse experiência com estrada e fosse cuidadoso.

Colocamos a nossa bagagem na mala do veículo e nos sentamos no banco de trás, muito mal acomodadas, tendo entre nós uma grande ampola portando combustível (gás), o que nos assustou.

Não gostei de viajar ao lado dessa ampola de combustível. Tive medo que explodisse. Mas, diante das excelentes informações que nossos amigos nos tinham dado sobre o motorista, procurei me controlar. Iniciada a viagem, me benzi e fechei os olhos por alguns minutos, pedindo a Deus para fazermos uma ótima viagem. Quando abri os olhos, estranhei a estrada que estávamos trafegando, pois o motorista não estava seguindo pela: BR 101.

Perguntei:

– Por que o Senhor não está indo pela BR. 101?

Muito calmo, o motorista respondeu que estava indo pela estrada certa e tinha muita experiência em viagens. Disse que o caminho certo para GALINHOS, perto de Macau (RN), era o que ele estava fazendo.

Fiquei gelada de raiva.

Perguntei o que tinha a ver Porto de Galinhas em Pernambuco, com Galinhos (RN).

O homem mudou de cor. Havia confundido os dois lugares e já estava perto de Galinhos.

Pedi imediatamente para voltar a Natal, para eu contratar um outro motorista que nos levasse a Porto de Galinhas.

O taxista chorou e garantiu que já tinha ido diversas vezes a Porto de Galinhas.

Apenas, dessa vez, sem querer, tinha se equivocado, e entendeu que a nossa viagem seria para Galinhos (RN).

Fiquei furiosa e pedi para voltar para Natal, pois o trato que eu tinha feito com ele era para nos leva a Porto de Galinhas, em Pernambuco.

Realmente, eu o tinha contratado para nos levar a Porto de Galinhas (PE), para a abertura do Congresso de Procuradores do Estado, que seria á noite.

Ao ver o equívoco que havia cometido, o motorista implorou para que eu o desculpasse e permitisse que ele retornasse e seguisse viagem para Porto de Galinhas.

Como eu já tinha pago o hotel e a nossa inscrição, concordei em continuar a viagem com o mesmo taxista.

Superado o problema do equívoco, prosseguimos viagem para Porto de Galinhas, o que durou oito horas.

Depois de duas horas de viagem, pedi ao motorista que ligasse o som do carro e pusesse o CD novo de Chico Buarque que eu levava na bolsa. Ele suspirou e respondeu:

– Como seria bom que isso fosse um som, meu Deus! Mas, de som, só tem a tampa!

E continuou:

– Esse carro (Corsa Classic) faz parte da “frota” de táxis de um conhecido vereador de Natal, e faz dois anos que o som quebrou-se. Ele diz ter levado o som para consertar, e até hoje não trouxe de volta.

Resultado: Fomos de Natal a Porto de Galinhas, sem, ao menos, um rádio para nos distrair, e com um precário ar condicionado.

Ainda bem que o encontro de Procuradores e o Congresso foram uma maravilha, e o show de encerramento com Alceu Valença compensou a viagem.

Como “castigo”, o tal vereador de Natal, dono da frota de táxis, nunca mais conseguiu se reeleger. Ainda se candidatou este ano, mas obteve pouquíssimos votos.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 04 de outubro de 2024

AS BREJEIRAS (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

“AS BREJEIRAS”

Violante Pimentel

No interior nordestino, antigamente, o dia das eleições era um dia de festas, e muita comida nas casas dos candidatos, para alimentar os eleitores que vinham da zona rural. Era um dia divertido, apesar das brigas de rua, entre eleitores do PSD e UDN, com os “boca de urnas” tentando corromper os inocentes eleitores, que já sabiam em quem iriam votar e traziam as “chapas” para servirem de cola. Mas o perigo era a troca de chapas na boca de urna.

Em Nova – Cruz, cidade do interior do Rio Grande do Norte, se instalava um verdadeiro comitê, onde se trancavam conhecidos advogados venais, verdadeiros “medalhões”, vindos da capital, com a finalidade de fraudar as eleições. Eram títulos de eleitor tomados, chapas trocadas e no fim do dia, urnas adulteradas e “roubadas”. A polícia era obediente aos prefeitos e vereadores, e se limitava a prender cachaceiros, arruaceiros e fanáticos, que se agrediam na defesa de seus candidatos preferidos. Além dos eleitores vivos e ativos, também havia casos em que se flagrava pessoas com título eleitoral de pessoas já mortas, tentando votar.

Era um dia divertido, e a movimentação na cidade era grande. A animação e euforia eram maiores do que as que haviam nas festas de final de ano.

Eram comuns, nessas antigas eleições, o desaparecimento e a troca de urnas eleitorais, para o favorecimento de determinados candidatos. A apuração dos votos era lenta, manual e duvidosa, principalmente nas cidades do interior, como Nova – Cruz (RN), onde nasci e me criei.

Nas antigas eleições norte-rio-grandenses, era comum o desaparecimento de urnas eleitorais, após o encerramento da votação. Havia pessoas inescrupulosas e de “gabarito”, como certos advogados e latifundiários da capital, envolvidas nessas fraudes, mas, numa luta desigual; o que se sabia de verdadeiro, morria ali mesmo. A polícia nada podia fazer, diante da quadrilha de fiscais eleitorais, acobertados até a medula óssea, para pôr em prática as falcatruas planejadas para o dia das eleições.

Bem antes da era cibernética, as falcatruas marcavam a luta dos poderosos contra a pobreza. O que se sabia de fraudes morria ali mesmo. Triste de quem denunciasse. Ficava preso, sem pão e sem água, até que algum cristão se lembrasse de soltá-lo . Os conhecidos advogados e latifundiários do Rio Grande do Norte, responsáveis pela garantia dessas fraudes, eram protegidos pelo podres poderes que nunca deixaram de existir. A lei só punia ppp (preto, pobre e p…). Durante as eleições, só quem mandava na cidade eram os “podres poderes”. Os poderosos seriam capazes de destruir quem se opusesse contra eles e ficava tudo por isso mesmo.

Nessa época, o sistema eleitoral era precário e facilmente manipulável. Os fazendeiros ricos e cabos eleitorais compravam votos abertamente, ou negociavam os votos em troca de bens materiais, como dentaduras, óculos, pares de sapatos, cortes de tecidos, ou alimentos. Os “coronéis” alteravam votos e falsificavam títulos de eleitor, para que os eleitores pudessem votar várias vezes, em diversas seções, até mesmo com títulos de pessoas falecidas.

Um conhecido político e latifundiário de Natal, do PSD, era apontado como o principal mentor de fraudes eleitorais homéricas. Semianalfabeto, o homem era dono de um raciocínio rápido e maquiavélico. Dominava seu reduto eleitoral e seu apoio garantia a vitória de qualquer candidato. Seus adversários o acusavam de fazer fraudes nas votações e nos mapas eleitorais, conseguindo falsificar o resultado das urnas. Esse político tinha prestígio no Estado e também no âmbito federal. Liderava um grupo acostumado a fazer campanha política, eleição e apuração. Na época, não havia institutos de pesquisas, nem marqueteiros.

O medo das fraudes, na época apelidadas de “brejeiras” se espalhava tanto no partido da situação como da oposição.

Diz o folclore norte-rio-grandense, que o nome “brejeira”, caracterizando fraude eleitoral, surgiu numa eleição no município de São José de Campestre (RN). Nessa ocasião, o saudoso Deputado Djalma Marinho fora chamado para orientar o delegado do Partido, numa ocorrência, durante a contagem de votos. Ao subir os batentes da prefeitura, onde se realizava a apuração, o Deputado teria cumprimentado um matuto que se encontrava sentado num dos batentes da entrada da prefeitura, fumando um cigarro de palha (brejeiro ) e lhe teria perguntado:

– O que está acontecendo aqui?

O matuto respondeu:

-Tão dizendo que fizeram “brejeira”, doutor…trocaram as urnas verdadeiras por urnas falsas…

O Deputado Djalma Marinho teria achado graça da expressão dita pelo matuto e passou a chamar fraude eleitoral de “brejeira”. Com o tempo, o nome pegou, e os políticos, por brincadeira, também adotaram a expressão “brejeira” quando se referiam às fraudes eleitorais. muito comuns no Rio Grande do Norte, tanto na capital como no interior.

A expressão nativa “brejeira” agradou ao Deputado Djalma Marinho e ficou sendo usada por ele, por brincadeira, quando se referia às fraudes eleitorais, com substituição de urnas autênticas por urnas com votação falsa. Brejeira, no Rio Grande do Norte passou a ser sinônimo de fraude eleitoral. Logo caiu na boca do povo. e tornou-se uma expressão conhecida . Brejeira, portanto, no folclore político norte-rio-grandense, significa fraude eleitoral.

O medo das brejeiras se espalhava entre as lideranças políticas da capital e do interior, atingindo tanto o partido da situação como da oposição.

Inúmeras fraudes eleitorais foram cometidas no Rio Grande do Norte. Mas o caso mais gritante ocorreu com um candidato a deputado estadual, em Natal, que aguardava com ansiedade a apuração, e constatou que a urna em que ele depositara seu voto não fora apurada. Simplesmente, a urna “sumiu”. Ele não teve nem o seu próprio voto, na seção em que votava.

Desesperado, encheu a cara de cachaça e chorou copiosamente numa mesa de bar, depois da apuração, e sua lamentação causava pena:

– Que o meu sogro e minha sogra não tenham votado em mim, eu desculpo…

– Que meus irmãos e cunhados não tenham votado em mim, eu desculpo…

– Que minha mulher não tenha votado em mim, é duro, mas eu desculpo…

– Mas, EU!!! Eu mesmo não ter votado em mim?!!! Isso eu morro e não aceito nunca!!!

Entretanto, a modernidade e segurança das urnas eletrônicas tornaram impraticáveis as antigas fraudes eleitorais.

Salve o progresso!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 27 de setembro de 2024

PAIXÃO POR CAVALO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VOLANTE PIMENTEL )

PAIXÃO POR CAVALO

Violante Pimentel

 

O último presidente militar do Brasil, JOÃO BATISTA FIGUEIREDO, em diversas ocasiões, chocou o País com seus posicionamentos controversos.

Extremamente carismático, o Presidente Figueiredo era uma simpatia e não escondia seus sentimentos. Não era homem de duas palavras. Gostava de externar seus pensamentos, e dizia abertamente que gostava mais do cheiro de animais do que que do cheiro de gente.

Em 1979, questionado por um garoto sobre o que faria se seu pai só ganhasse o salário mínimo, prontamente respondeu: “Eu daria um tiro na cuca”.

Praticante do hipismo, foi questionado uma vez sobre o “cheiro do povo” numa entrevista sobre a cavalaria. Sem dó, ele respondeu: “Eu prefiro o cheiro do cavalo”.

Seu governo foi marcado pela abertura controlada, a transição para um regime de eleições diretas. Quando questionado sobre a abertura, que ao mesmo tempo consolidava a estrutura de poder da Ditadura, mas tirava a centralidade dos militares, ele só gritou: “É para abrir mesmo. Quem quiser que não abra, eu prendo e arrebento”.

Por coincidência, a paixão por cavalo, que marcava o Presidente João Batista Figueiredo, aparece numa antiga fábula de Esopo.

Pois bem. O único ser de quem Frederico o Grande da Prússia gostava apaixonadamente era o seu cavalo, o mais formoso corcel que se possa imaginar, cavalo digno de um rei, e tão inteligente que abrandou e conquistou o coração do monarca.

Um dia em que ele estava muito aborrecido e atarefado, soube que o seu cavalo favorito estava doente.

Num acesso de furor, sentindo a sua própria insignificância, por não poder salvar a vida ao seu cavalo, apesar de ser um grande monarca, fez apregoar que aquele que lhe desse a notícia da morte do cavalo seria enforcado.

Passaram-se alguns dias e o estado do nobre animal era sempre o mesmo, mas uma manhã, quando os pajens faziam uma visita às cavalariças, encontraram o moço da estrebaria que lhes disse que o cavalo havia morrido. Quem se atreveria a dar a notícia ao rei? Quem iria correr o risco de ser enforcado?

Os escudeiros permaneceram conversando e discutindo vários planos, procurando uma forma de comunicar ao monarca a morte do seu cavalo favorito. Finalmente, chegou a hora de redigir o boletim para ser entregue ao rei, comunicando-lhe a morte do cavalo. Os escudeiros estavam em pânico, diante da ameaça previamente recebida do rei, de que aquele que lhe comunicasse a morte do seu cavalo seria enforcado.

Naquele momento, um dos escudeiros disse ao moço da estrebaria que não tivesse medo, pois ele próprio iria dar a notícia da morte do cavalo ao monarca. Iria enfrentar o rei.

Nesse momento, todos ficaram assustados com a inesperada visita do monarca.

“Olá! – Disse o Rei Frederico. “Como está o meu cavalo?”

“Senhor, respondeu o escudeiro. – O cavalo continua no seu lugar. Está deitado e não se mexe. Não tem forças e não come. Também não bebe, não dorme, nem respira, nem…

“Então,” exclamou, impacientemente, o rei, “meu cavalo favorito morreu!!!…”

“Vossa Majestade disse a verdade, respondeu tranquilamente o escudeiro. “Vossa Majestade foi o primeiro a dizer que o seu cavalo tinha morrido.”

O rei lembrou-se da jura de enforcamento que tinha feito contra quem lhe comunicasse a morte do seu cavalo favorito, e empalideceu. Afinal, foi ele mesmo quem pronunciou as palavras fatais, sobre a morte de “puro sangue”, seu cavalo favorito.

E os empregados foram perdoados.

A FÁBULA E O SEU NARRADOR MAIS FAMOSO-ESOPO

Esopo (Nessebar, 620 a.C. – Delfos, 564 a.C.) foi um escritor da Grécia Antiga a quem são atribuídas várias fábulas populares. A ele se atribui a paternidade da fábula como gênero literário. Sua obra, que constitui as Fábulas de Esopo, serviu como inspiração para outros escritores ao longo dos séculos, como Fedro e La Fontaine.

A Fábula é uma narração com intuitos morais.

Segundo os historiadores, as fábulas são muito antigas e foram empregadas nos livros sagrados, onde aparecem sob a forma de parábolas.

As fábulas mais célebres foram escritas por um escravo chamado Esopo, que nasceu em Xanto e Idmo; este último emancipou-o. Esopo adotou um método mais claro e mais simples que o dos filósofos: Fez falar os animais e as coisas inanimadas, para dar lições aos homens.

Creso, rei de Lydia, chamou-o à sua corte, e encheu-o de benefícios. Esopo chegou a viajar pelo Egyto e Pérsia, e estava em Athenas, quando Pisistrato a avassalava, e ao ver o que os atenienses sofriam sob o jugo d’aquele tirano, compôs a fábula das rãs descontentes que pediam um rei. De volta à corte de Creso, este mandou-o a Delphos para fazer um sacrifício a Apolo: a fábula das rãs, das achas flutuantes sobre as águas, que de longe parecem alguma coisa e de perto nada são, desagradou aos seus habitantes e Esopo foi atirado do alto de uma rocha.

Toda a Grécia lastimou a sua morte e em Athenas erigiram-lhe uma estátua.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 20 de setembro de 2024

A HISTÓRIA SE REPETE (CRÔNICA DA COLUNISTA PADRE SUPERIORA VIOLANTRE PIMENTEL)

A HISTÓRIA SE REPETE

Violante Pimentel

As Catilinárias são uma série de quatro discursos célebres de Cícero, (o Cônsul romano Marco Túlio Cícero), pronunciado em 63 a.C. Esses discursos são um ato de denúncia, contra a conspiração pretendida pelo senador Lúcio Sérgio Catilina, que logo de início destila:

“Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência? (…) Não vês que tua conspiração foi dominada pelos que a conhecem?”

 

 

O primeiro e o último destes discursos foram dirigidos ao Senado Romano; os outros dois foram proferidos diretamente ao povo romano. Os quatro foram compostos para denunciar explicitamente Lúcio Sérgio Catilina, no contexto da Segunda Conspiração Catilinária.

Falido financeiramente, Catilina, filho de família nobre, juntamente com seus seguidores subversivos, planejava derrubar o governo republicano para obter riquezas e poder. No entanto, após o confronto aberto por Cícero no senado, Catilina resolveu afastar-se, indo juntar-se a seu exército ilícito, para armar defesa.

Segundo registros históricos, após o quarto discurso, Catilina estava condenado à morte, mas recusou-se a entregar-se e foi morto em um campo de batalha no ano seguinte.

O modelo político de República passou a vigorar na antiga Roma, após a queda do último rei da dinastia etrusca que governou Roma durante 244 anos, chamado Tarquínio, o Soberbo, no ano de 509 a.C.

Cícero, que havia sido designado como um dos cônsules, no ano de 63 a.C., encarregou-se de desmascarar Catilina dentro do senado, por meio de discursos, os quais ficaram conhecidos até hoje por Catilinárias e são notáveis pela elegância de estilo e pela firmeza das acusações ciceronianas, com afluência de todos os homens de bem.

Marco Túlio Cícero, (3 de janeiro do ano 106 A.C), foi um dos mais importantes filósofos, e cônsul da Roma antiga.

Proveniente de uma cidade ao sul de Roma de nome Arpino, esse fato o discriminava, por não ser um romano tradicional.

 

Sua educação foi baseada nos grandes filósofos, poetas e historiadores gregos .

Foi toda a sua eficiência e competência na língua grega, que o levou à condição de intelectual e o colocou entre a elite romana tradicional.

A família de Cícero também o ajudou a crescer. Seu pai era um rico equestre, com importantes contatos em Roma.

Cícero era um estudante incansável e extremamente talentoso, características que despertaram a atenção de Roma. Desprovido de qualquer interesse pela vida militar, Cícero era um intelectual e começou sua carreira como advogado. Mais tarde, mudou-se para a Grécia e ampliou seus estudos de retórica. Através dessa estadia na Grécia, teve contato e passou a admirar calorosamente a obra de Platão. Foi o responsável por introduzir a filosofia grega em Roma, criando um vocabulário filosófico em Latim.

Tornou-se o homem mais importante de Roma, ao lado de Marco Antônio. O primeiro, como porta-voz do Senado e o segundo como Cônsul. Só que os dois nunca tiveram uma relação amigável, o que piorou quando Cícero acusou Marco Antônio de abusar na interpretação das intenções e dos desejos de Júlio César.

Cícero articulou um plano para colocar no poder o herdeiro de César, contudo seu plano não saiu como desejava. Octaviano aliou-se a Marco Antônio e formaram um triunvirato juntamente com Lépido para governar Roma.

Esse triunvirato elaborou uma lista de pessoas que deveriam ser consideradas inimigas do Estado, na qual Cícero foi incluído. Como o intelectual romano era muito bem visto por grande parte do público, Octaviano também se recusou a inseri-lo nessa listagem. Mas a medida foi inevitável.

Cícero foi capturado no dia 7 de dezembro do ano 43 A.C. , quando tentava fugir para a Macedônia. Seus escravos ainda tentaram escondê-lo, mas os assassinos o encontraram e o mataram. Cícero teve a cabeça cortada e as mãos também, por ordem de Marco Antônio, partes que foram pregadas no Fórum Romano.

O que Cícero clamava há dois mil anos pode ter se perdido entre as infinitas ressonâncias dos séculos. Mas, a corrupção que ele condenava continua impassível, cantando as suas vitórias e vangloriando-se da sua longa impunidade. Para poucos ouvidos ainda ecoam, da sombra de dois mil anos, as apóstrofes dos discursos de Cícero; e ouvindo-as, fica-se menos espantado diante dos quadros de corrupção e impunidade dos dias atuais.

Pergunta-se, ainda hoje, se toda aquela degradação social era possível em Roma, dentro do Senado e sob a indiferença do povo-rei. E os exemplos de homens da estirpe de Cincinato e Régulo, de que serviram? Onde andam os homens como Catão, o Antigo? Onde anda aquela jovem patrícia citada por Renan e cujo epitáfio dizia que fora bela, e que fiara o seu linho sem jamais sair de casa? É o próprio Cícero quem responde:

”A severidade dos costumes não está hoje em prática. Ainda mais, quase não se leem os livros que as recomendam; envelheceram e estão desatualizados. Hoje em dia, os livros que pregam que se deve seguir penosamente o caminho do direito para chegar à glória, são abandonados nas solidões das escolas”.

Essas palavras tem vinte séculos. Mas, repetidas em nossa época, ainda se traduzem em todas as línguas, sobretudo entre os povos mais novos, que poderiam, ao menos, ter a desculpa da inocência e da boa fé.

Justamente a fraude, a corrupção e o suborno se constituíram, em nosso tempo, as marcas predominantes nos crimes contra o patrimônio.

O que Cícero clamava, há dois mil anos, pode se ter perdido entre as infinitas ressonâncias dos séculos. Mas a corrupção que ele verberou continua, impassível, cantando as suas vitórias e vangloriando-se da sua longa impunidade.

Foi na antiga civilização romana que o modelo político da república se desenvolveu.

República, em sentido literal, quer dizer “Coisa Pública”, “Bem Público”, isto é, aquilo que diz respeito à vida em sociedade, à administração dos interesses e necessidades de todos.

Esse modelo político passou a vigorar na antiga Roma após a queda de Tarquínio, o Soberbo, último rei da dinastia etrusca (dinastia que governou Roma durante 244 anos), no ano de 509 anos AC.,

Com o advento da República, a estrutura monárquica foi abandonada e em seu lugar, novas instituições foram erguidas. Dentre elas, as mais importantes eram a Magistratura (que executava a administração pública) e o Senado (composto pelos cidadãos mais velhos, que eram encarregados da elaboração das leis e do controle da ação dos magistrados).

Dos vários cargos da magistratura, o mais alto era o de Cônsul. Quem estava à frente do poder da República eram dois Cônsules, escolhidos pela Assembleia Curiata, ou Assembléia das Cúrias, organismo legislativo, que existiu durante o período da Monarquia em Roma..

Na década de 60 a.C., Catilina, que já era um militar e senador famoso, e que também já havia passado por cargos de magistratura, pretendia ser designado Cônsul da República. Mas Catilina era encarado com desconfiança por seus pares.

Muitos viam nele um risco para as instituições republicanas. Em retaliação, Catilina, junto a seus aliados, entre eles o ex-Cônsul Públio Cornélio Lêntulo Sura, procurou organizar uma sublevação, ou golpe, contra a República. Esse golpe consistia no assassinato dos dois cônsules e na subjugação do Senado.”

Os extremos como conservadorismo, liberalismo, feminismo, machismo e outros devem ser evitados, pois atentam contra o Estado de Direito Constitucional.

A fraude, a corrupção e o suborno constituem, no tempo atual, as marcas predominantes dos crimes contra o patrimônio público.

O ladrão violento, nos dias atuais, passou a ser figurante, no palco onde se exibem os assaltantes do erário público e os ladrões de colarinho branco.

O cangaceiro brasileiro do tipo de Lampião e os “fora da lei” do oeste americano são personagens que saíram do palco, postos para fora do cenário, pelos golpistas e trapaceiros que estão em evidência.

É nas metrópoles, que agem esses bandidos elegantes, simpáticos, bem vestidos e sociáveis, que comandam o crime, esboçando sempre um sorriso sardônico.

Como exemplo, pode ser citado Al Capone, cavalheiro distinto, de superior elegância, que era considerado o rei dos “gangsters”. Morreu docemente, sem nenhum remorso, e ainda hoje é lembrado como um herói.

O que Cícero clamava, há dois mil anos, pode ter se perdido entre as infinitas ressonâncias dos séculos. Mas, a corrupção que ele condenava, continua, impassível, cantando as suas vitórias e vangloriando-se da sua longa impunidade. Para poucos ouvidos ainda ecoam, da sombra de dois mil anos, as apóstrofes dos discursos de Cícero; e ouvindo-as, fica-se menos espantado diante dos quadros de corrupção e impunidade dos dias atuais.

Pergunta-se ainda hoje, se toda aquela ignomínia era possível em Roma, dentro do Senado e sob a indiferença do povo-rei. E os exemplos de homens da estirpe de Cincinato e Régulo? Onde andam os homens como Catão o Antigo? Onde anda aquela jovem patrícia citada por Renan e cujo epitáfio dizia que fora bela, e que fiara o seu linho sem jamais sair de casa? É o próprio Cícero quem responde:

”A severidade dos costumes não está hoje em prática. Ainda mais, quase não se leem os livros que as recomendam; envelheceram e estão desatualizados. Hoje em dia, os livros que pregam que se deve seguir penosamente o caminho do direito para chegar à glória, são abandonados nas solidões das escolas”.

Essas palavras tem vinte séculos. Mas, repetidas em nossa época, ainda se traduzem em todas as línguas, sobretudo entre os povos mais novos, que poderiam ao menos ter a desculpa da inocência e da boa fé.

Justamente a fraude, a corrupção e o suborno se constituíram, em nosso tempo, as marcas predominantes nos crimes contra o patrimônio.

Foi na antiga civilização romana que o modelo político da república se desenvolveu.

República, em sentido literal, quer dizer “Coisa Pública”, “Bem Público”, isto é, aquilo que diz respeito à vida em sociedade, à administração dos interesses e necessidades de todos.

Esse modelo político passou a vigorar na antiga Roma após a queda de Tarquínio. o Soberbo, último rei da dinastia etrusca (dinastia que governou Roma durante 244 anos), no ano de 509 anos AC.,

Com o advento da República, a estrutura monárquica foi abandonada e em seu lugar, novas instituições foram erguidas. Dentre elas, as mais importantes eram a Magistratura (que executava a administração pública) e o Senado (composto pelos cidadãos mais velhos, que eram encarregados da elaboração das leis e do controle da ação dos magistrados).

Dos vários cargos da magistratura, o mais alto era o de Cônsul. Quem estava à frente do poder da República eram dois Cônsules, escolhidos pela Assembleia Curiata, ou Assembléia das Cúrias, organismo legislativo, que existiu durante o período da Monarquia em Roma.

Na década de 60 a.C., Catilina, que já era um militar e senador famoso, e que também já havia passado por cargos de magistratura, pretendia ser designado Cônsul da República. Mas Catilina era encarado com desconfiança por seus pares. Muitos viam nele um risco para as instituições republicanas. Em retaliação, Catilina, junto a seus aliados, entre eles o ex-Cônsul Públio Cornélio Lêntulo Sura, procurou organizar uma sublevação, ou golpe, contra a República. Esse golpe consistia no assassinato dos dois cônsules e na subjugação do Senado.”

DAS CATALINÁRIAS:

“Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os tremores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a tem já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberação foram as tuas?

“Oh tempos, oh costumes! O Senado tem conhecimento destes fatos, o cônsul tem-nos diante dos olhos: todavia, este homem continua vivo! Vivo?! Mais ainda, até no Senado ele aparece, toma parte no Conselho de Estado, aponta-nos e marca-nos, com o olhar um a um para a chacina. E nós homens valorosos, cuidamos cumprir o nosso dever para com o Estado, se evitamos os dardos da sua loucura à morte, Catilina, é que tu deverias, há muito, ter sido arrastado por ordem do cônsul, contra ti e que se deveria lançar a ruína que tu, desde há muito tempo, tramas contra todos nós.”

Para onde quer que se olhe, a paisagem não está tranquila. Se as árvores estão paradas e as casas mudas e tristes, o seu silêncio é o de estarrecimento, insegurança e torpor.

O povo sofre a crise constitucional que afeta os poderes da Democracia.

Falido financeiramente, Catilina, filho de família nobre, juntamente com seus seguidores subversivos, planejava derrubar o governo republicano para obter riquezas e poder. No entanto, após o confronto aberto por Cícero no senado, Catilina resolveu afastar-se, indo juntar-se a seu exército ilícito para armar defesa.

Segundo registros históricos, após o quarto discurso, Catilina estava condenado à morte, mas recusou-se a entregar-se e foi morto em um campo de batalha no ano seguinte.

O modelo político de República passou a vigorar na antiga Roma, após a queda do último rei da dinastia etrusca que governou Roma durante 244 anos, chamado Tarquínio, o Soberbo, no ano de 509 a.C. Com o advento da República, a estrutura monárquica foi abandonada e, em seu lugar, novas instituições foram erguidas.

Cícero, que havia sido designado como um dos cônsules, no ano de 63 a.C., encarregou-se de desmascarar Catilina dentro do senado, por meio de discursos, os quais ficaram conhecidos até hoje por Catilinárias e são notáveis pela elegância de estilo e pela firmeza das acusações ciceronianas.

“Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?

Por quanto tempo a tua loucura há de zombar de nós?
A que extremos se há de precipitar a tua desenfreada audácia?
Nem a guarda noturna do Palatino,
nem a ronda da cidade,
nem o temor do povo,
nem a afluência de todos os homens de bem,
nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado,
nem a expressão do voto destas pessoas?
nada disto conseguiu perturbar-te?
Não te dás conta que os teus planos foram descobertos?
Não vês que a tua conspiração está vinculado ao conhecimento de tudo isto?
Quem, dentre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, onde estiveste, com quem te encontraste, que decisão tomaste?
Oh tempos, oh costumes!”

Original (em latim): Marcus Tullius Cicero

— Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?
Quam diu etiam furor iste tuus eludet?
Quem ad finem sese effrenata iactabit audacia?
Nihilne te nocturnum praesidium Palatii,
nihil urbis vigiliae,
nihil timor populi,
nihil concursus bonorum omnium,
nihil hic munitissimus habendi senatus locus,
nihil horum ora vultusque moverunt?
Patere tua consilia non sentis?
Constrictam omnium horum scientia teneri coniurationem tuam non vides?
Quid proxima, quid superiore nocte egeris, ubi fueris, quos convocaveris, quid consilii ceperis, quem nostrum ignorare arbitraris?
O tempora, o mores!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 13 de setembro de 2024

A INTOLERÂNCIA DO REI (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A INTOLERÂNCIA DO REI

Violante Pimentel

Juliano, um orgulhoso Rei de uma belíssima cidade, almoçava tranquilamente, quando viu sobre a mesa uma pequena e inofensiva formiga, perto do seu prato. Como se falasse ao mais humilde servo, exclamou:

 


 

– Como ousas, desprezível formiga, andar sobre a mesa de Juliano o Grande Rei?

A formiga, nem sequer tomou conhecimento das palavras reais, ocupada como estava, em carregar sobre as costas um minúsculo pedaço de pão. Um formigueiro inteiro a aguardava.

– Então, não paras? Não me obedeces? Pois, então, morrerás! – Falou o odioso Rei.

Dizendo isto, ergueu o braço para esmagá-la, mas, com tal brutalidade que, ao levantá-lo, derrubou uma terrina de sopa quente. Furioso, pôs-se a procurar a formiga, para efetuar sua vingança imediatamente.

Não a encontrando, e dominado pela ira, virou a mesa, espalhando sobre o chão todas as iguarias, na tentativa de atingir a pobre formiguinha.

Atraídos pelo barulho, todos os criados tentaram contê-lo, mas o rei, furioso, atirou sobre eles um enorme castiçal. Este, porém, atingiu uma cortina, inflamando-a. Deu-se início a um grande incêndio, que, em segundos, se alastrou por todo o palácio real.

Tentaram extinguir o fogo, mas ele se propagou rapidamente, uma vez que a sala era forrada com tapetes persas e veludos da Turquia.

Em uma hora, todo o palácio estava em chamas. Como houvesse uma grande ventania, o fogo tomou conta dos prédios vizinhos.

Uma cidade inimiga sabendo do ocorrido, mobilizou seu exército, o qual, depois de um pequeno cerco, dominou a cidade de Juliano, o Grande Rei. O povo só pensava em fugir do incêndio que tudo devorava e destruía.

Enlouquecido, o rei tentava escapar, sob delírios, esbravejando impropérios contra a pobre formiga, e jurando matá-la.

Depois de algumas horas, o incêndio ainda ardia, e o povo enlouquecido fugia da cidade.

O rei conseguiu sobreviver, mas perdeu o juízo (que nunca teve), e seu palácio banhado a ouro.

O Rei enlouqueceu e tornou-se um mendigo.

Ao lhe perguntarem a causa da sua desgraça, laconicamente, ele respondia:

– Uma formiga…uma formiga destruiu todo o meu império!

Ninguém acreditava…

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 06 de setembro de 2024

LOUVADO SEJA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

LOUVADO SEJA

Violante Pimentel

 

Louvado Seja era o apelido de um pedinte de Nova- Cruz, que sofria de um distúrbio nervoso, que o impulsionava a dar constantes carreiras, involuntariamente, com pequenos intervalos. Seu apelido foi motivado pela louvação que dizia ao pedir uma esmola: LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! E vinha a resposta das pessoas que lhe davam esmolas: PARA SEMPRE SEJA LOUVADO!

Esse homem provocava medo às crianças, que, se estivessem na calçada, entravam em casa ligeiro, ao ouvirem a louvação do pedinte. O medo era consequência de boatos que se espalharam pela cidade, de que o pedinte tinha um “encosto”, ou mau espírito, que o empurrava o tempo todo e o fazia correr em disparada. Diziam que isso era obra do demônio. As pessoas ingênuas e céticas acreditavam que isso fosse verdade.

De longe, ouvia-se a voz do pedinte, quase gritando:

“Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo! “

Assustados, os meninos corriam para casa.

Louvado seja chegava às portas correndo, recebia as esmolas que punha numa sacola de pano, que trazia pendurada ao ombro, e saia correndo, repetindo o costumeiro jargão, em agradecimento: “Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Deus lhe pague”!

As crianças tinham pavor a ele, inclusive eu. Minha avó paterna, dona Júlia, nunca deixou de lhe dar uma esmola, nem tinha medo dele. Eu, que vivia muito na casa dela, que era vizinha à nossa, quando o avistava, tremia de medo e entrava correndo na nossa casa, pelo quintal, e me agarrava na saia da minha mãe. Ela me abraçava e tentava me explicar que Louvado Seja não fazia mal a ninguém e que o problema dele era uma doença.

Nova-Cruz, nessa época, era uma cidade muito atrasada, e, praticamente, sem assistência médica.

Minha mãe, Lia Pimentel, possuía um livro comprado em Natal, chamado “Medicina do Lar”, que fazia referência a esses sintomas como sendo próprios da “doença de São Guido” ou São Vito, doença que causa movimentos espasmódicos incontroláveis nos membros inferiores.

Ela relacionou essa informação à doença de Louvado Seja. Mas não comentou com ninguém, pois não era médica nem tinha certeza de que aquela informação fosse verdadeira. O fato é que Louvado Seja padeceu a vida toda desse mal, e nunca fez um exame médico. Era tido como um homem dominado por uma entidade espiritual, ou encosto. O estranho é que, mentalmente, era são.

Ainda hoje me lembro de Louvado Seja, e sinto medo. As carreiras rápidas, constantes e incontroláveis, e sua voz grossa me faziam tremer de medo. A louvação que ele fazia ao pedir esmolas soava tétrica aos meus ouvidos de criança. Tinha a aparência de um boneco movido a cordas. Apesar dos impulsos ou empurrões que, supostamente, levava do “espírito” que incorporava, Louvado Seja nunca foi visto caindo. Deus o protegia.

O caso mais hilário, apesar de triste, foi a carreira que, involuntariamente, Louvado Seja deu no entregador de pão de Nova-Cruz, seu Anízio, que, segurando o cesto de pão na cabeça, viu-se obrigado a descer a ladeira da rua Alberto Maranhão em disparada, sentindo-se perseguido por um suposto malfeitor, que corria em seu encalço.

Quando Louvado Seja conseguiu parar, seu Anízio já estava caído ao chão, no meio dos pães, que iria vender em diversas casas. Os pães quentinhos se espalharam pela areia, tornando-se imprestáveis para serem entregues à freguesia do patrão.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 06 de setembro de 2024

PRINCIPAIS FIGURAS DE LINGUAGEM (POSTAGEM DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

Pode ser uma imagem de texto


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 30 de agosto de 2024

AS CHAVES (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

AS CHAVES

Violante Pimentel

 

Décadas atrás, as mulheres eram submissas aos maridos, e suportavam caladas a “dor da traição”, se fossem casadas com homens mulherengos. Nessa época, muitos fazendeiros ricos de um conhecido Estado nordestino, costumavam resolver, semanalmente, seus negócios comerciais e bancários na capital do Estado. Hospedavam-se no melhor hotel da cidade. Era uma maneira de juntar o útil ao agradável. Resolviam todos os assuntos importantes e, em seguida, deslocavam-se para o mais famoso cabaré da cidade, o “Mary Good”.

À noite, voltavam para o hotel, e ali entregavam-se a uma famosa jogatina, que varava a madrugada, regada pelo mais legítimo whisky escocês. Estouravam dinheiro à vontade, perdendo ou ganhando.

Essas viagens à capital também serviam para que os maridos pudessem respirar melhor, longe das esposas, por quem já não nutriam qualquer atração física.

Enciumadas com essas repetidas viagens, as mulheres passaram a desconfiar dos maridos, achando que estavam sendo traídas. Por isso, começaram a exigir que eles as levassem também nessas viagens semanais à capital do Estado.

Para acabar com as sucessivas brigas, os fazendeiros concordaram em levá-las. Ao chegarem à capital, Incentivavam que elas fossem fazer compras no comércio, passear pelas praias, ver coisas novas, contanto que, à noite, estivessem nos seus respectivos apartamentos, no hotel onde costumeiramente se hospedavam.

Dentro de pouco tempo, todas as esposas desses fazendeiros ficaram amigas e aprenderam a beber, gostando da liberdade que os maridos resolveram lhes dar.

À noite, enquanto os homens jogavam dentro do hotel, as esposas ficavam recolhidas nos apartamentos. O jogo entrava pela madrugada. Quando já estavam exaustos de beber e jogar, e queriam encerrar o jogo, os homens anunciavam a última aposta da noite. Todos eles, então, jogavam na mesa de jogo as chaves dos apartamentos onde estavam hospedados e onde as esposas os esperavam, e as embaralhavam. Em seguida, cada um pegava uma dessas chaves e todos saíam, embriagados, em busca do quarto, cuja porta aquela chave abrisse. Nessas alturas, as mulheres já haviam se revelado fogosas e desavergonhadas, já aceitavam o troca-troca de homens, e já tinham sido iniciadas, pelos próprios maridos, na arte da infidelidade. Faziam isso, como uma forma de vingança contra eles, que já não as desejavam mais.

Certa vez, um conhecido fazendeiro, no final do jogo, por engano, pegou a chave do seu próprio apartamento. A esposa, sedenta por sexo, estava preparada para receber outro jogador em sua cama e não ele, o marido.

Na penumbra, ao reconhecer o próprio esposo, a mulher, também embriagada, deu um verdadeiro escândalo. Seus gritos ecoaram em todo o hotel:

– Além de não saber jogar baralho, meu marido não sabe, sequer, embaralhar as chaves!!! Só merece mesmo é ser corno!!!

Todos os homens, que participavam da tal jogatina, transformaram-se em cornos, por culpa deles próprios.

E a história se espalhou pela cidade, caindo no ridículo os machões milionários, que vinham de suas fazendas do interior do Estado, farrear na capital, contribuindo, eles mesmos, para que se transformassem em cornos.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 23 de agosto de 2024

O TEMPO DA DELICADEZA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANRE PIMENTEL)
 

O TEMPO DA DELICADEZA

Violante Pimentel

A boa Música alimenta a alma. Não tem idade. Ela é eternizada pela letra e pela harmonia. Falo da música, cuja essência é pura poesia. A música que acalenta a alma e transmite a paz.

Nem toda música é poesia. Há músicas para a alma e músicas para o corpo, onde o ritmo contagiante traz alegria e vontade de dançar.

Minha vida sempre foi recheada de música, desde que eu nasci, a começar pelo meu nome de Batismo, que lembra um instrumento musical.

Ainda criança, aprendi a cantar as antigas modinhas que minha mãe cantava, acompanhada ao violão pelo meu avô paterno, Seu Bezerra, ou por ela mesma, que também tocava. Uma dessas modinhas nem se conhece mais. Chama-se “O Pajem”, ou “Pesadas Trevas”, cuja autoria não me lembro.

Hoje, o cancioneiro mudou e temos que conviver com ritmos agressivos e letras debochadas.

Mas as pérolas da MPB continuam vivas, como as composições de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, que o tempo jamais apagará.

Evaldo Gouveia de Oliveira (Orós, 8 de agosto de 1928 — Fortaleza, 29 de maio de 2020) foi um músico compositor, cantor e violonista brasileiro, que marcou época e ainda hoje é sucesso em rodas de seresteiros. Era o romantismo em pessoa.

Além de Jair Amorim, Evaldo Gouveia compôs com outros grandes compositores, como o carioca Paulo César Pinheiro.

O talento que Deus lhe deu o fez superar as dificuldades da vida.

Aos seis anos, já cantava num sistema de alto-falantes na praça de sua cidade, Orós, no Ceará. Aos onze, mudou-se para Fortaleza para estudar. Nessa época, trabalhava como feirante e não dispensava o violão nas horas de folga.

Aos dezenove anos, passou a tocar violão num conjunto e acabou conseguindo um contrato numa rádio local. Em 1950, formou o Trio Nagô, com Mário Alves (seu alfaiate) e Epaminondas de Souza (colega de boemia). Após representar o estado do Ceará no programa Cesar de Alencar, na Rádio Nacional, o grupo foi contratado pela Rádio Jornal do Brasil e posteriormente pelas boates Vogue (RJ) e Oásis(SP). Dois anos depois, iniciaram um programa semanal na Rádio Record (SP), que durou cinco anos.

Em 57, Evaldo compôs sua primeira canção, “Deixe que Ela Se Vá” (com Gilberto Ferraz), obtendo sucesso na voz de Nelson Gonçalves.

No mesmo ano, fez “Eu e Deus”, com Pedro Caetano, gravada por Nora Ney. A partir de julho de 1958, quando conheceu o também compositor Jair Amorim na UBC, sua carreira deslanchou.

Logo no primeiro dia de contato, compuseram “Conversa”, gravada inicialmente por Alaíde Costa, em 1959. Essa seria a primeira de uma série de 150 composições da dupla nos dez anos que se seguiram, normalmente sambas-canções abolerados, cujo primeiro sucesso de vendas foi “Alguém Me Disse”, lançada por Anísio Silva em 60. Em 1962, o Trio Nagô se desfez com a saída de Mário Alves, mas Evaldo prosseguiu compondo com Jair Amorim, sucessos como “Poema do Olhar” (gravado por Miltinho) e o bolero “E a Vida Continua” nas vozes de Morgana e Agnaldo Rayol.

No ano seguinte, 63, Altemar Dutra fez muito sucesso, com a gravação de um bolero da dupla, “Tudo de Mim”, passando a ser seu intérprete mais constante com sambas-canções/boleros como “Que Queres Tu de Mim”, “Somos Iguais”, “Sentimental Demais”, “Brigas”, “Serenata da Chuva” e as marchas-rancho “O Trovador” e “Bloco da Solidão”. Moacyr Franco também vendeu muitos discos com o bolero “Ninguém Chora por Mim”, em 62, assim como Cauby Peixoto, no ano seguinte, com “Ave Maria dos Namorados”, lançada por Anísio Silva pouco antes.

Outros intérpretes da dupla foram Wilson Simonal, “Garota Moderna”, 1965, Agnaldo Timóteo, “Quem Será”, 1967, Jair Rodrigues, “O Conde”, 1969, a escola de samba Portela, “O Mundo Melhor de Pixinguinha”, 1973, Maysa, “Bloco da Solidão”, 1974, Ângela Maria, “Tango para Teresa” 1975, Jamelão, “Certas Mulheres” 1977, Dalva de Oliveira “E a Vida Continua”, além de Elymar Santos, Chitãozinho e Xororó, Gal Costa, Maria Bethânia, Zizi Possi, Emílio Santiago, Júlio Iglesias, Joanna, Cris Braun, Ana Carolina, Simone, Fafá de Belém, dentre muitas regravações.

Evaldo Gouveia teve uma vida profissional muito ativa e nunca esteve no ostracismo. As vezes em que fez show aqui em Natal, no Teatro Alberto Maranhão, era “casa cheia”. Sucesso garantido!

O grande músico, cantor e compositor cearense Evaldo Gouveia morreu aos 91 anos, em 29.05.2020, vítima do Covid-19.

Suas belíssimas composições, como “Sentimental Demais”, o eternizaram. E a lacuna por ele deixada na Música Popular Brasileira jamais será preenchida.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 16 de agosto de 2024

UM MUNDO SEM LIVROS (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

UM MUNDO SEM LIVROS

Violante Pimentel

 

O mundo seria um atraso geral, e um caos, se não tivesse havido a evolução Cultural.

Sem os livros, a evolução da humanidade não teria existido. O livro é o símbolo da Civilização.

O livro é um dos maiores símbolos da evolução humana.

Os amantes do progresso tecnológico tentam extinguir o livro impresso, substituindo-o pelo livro virtual. Fizeram isso com alguns jornais, que terminaram falindo.

O jornal virtual não possui a magia do contato com o cheiro do papel, com o qual nos acostumamos desde a infância.

Folhear um jornal e sentir o cheiro do papel faz parte do ritual da leitura, que é um ato de amor.

Amo meus livros como se fossem filhos. Jamais os substituirei por livros virtuais.

A satisfação que um livro ou um jornal impresso proporciona ao leitor é bem maior do que o prazer de uma leitura virtual. O livro ou o jornal pode ser lido em qualquer lugar, qualquer dia ou qualquer hora.

Um bom livro é um companheiro agradável e insubstituível.

Que destino teria uma sociedade que, fascinada pelo “novo”, abolisse o livro, a grande conquista da Civilização?

Proclamar a morte de um livro seria o maior retrocesso da Civilização.

Num país fictício, onde o avanço tecnológico andava a todo vapor, por decisão política, os livros foram proibidos. Ter livros era considerado crime.

Foi deflagrada, então, a operação caça-livros. Não só livros políticos, mas qualquer tipo de livros. Os livros encontrados eram incinerados na presença dos proprietários, e se estes opusessem resistência, eram presos, julgados e condenados.

Luzia, uma menina de 10 anos, maltratada pelos pais, descobre no porão da casa de seus avós, uma fortuna intelectual em livros, sem saber sequer o que era aquilo.Tentou esconder alguns volumes, pois sabia que os bombeiros viriam incinerá-los.

A menina se apaixonou pelos “cadernos bonitos”, sem saber o que significavam. Muito inteligente, Luzia captou a magia dos livros.

Quem cultua livros, está fazendo uma declaração de amor à Cultura, à Literatura, à Civilização e à língua Pátria.

Já houve em nosso País uma época em que a liberdade de ter livros era limitada. Nem todo livro era permitida a compra e muito menos a leitura. Era permitido ler, somente livros didáticos ou religiosos.

Nesse cenário tecnológico, encontramos homens que só interagem com mulheres, virtualmente; uma mãe que só se ocupa em assistir televisão; uma adolescente que só se relaciona com o mundo por meio das redes sociais, e uma menina que gosta de histórias, mas estas não tem quem lhe conte.

Para quebrar a monotonia, chegou à cidade um forasteiro, disposto a acabar com a proibição de livros.

O forasteiro encontrou nessa cidade uma placa, onde estava escrito que ter livros era crime.

A diferença do que aconteceu em certa época, num determinado país, é que a proibição antiga abrangia apenas os livros que lembrassem ideologia política. Já nesse mundo novo, a proibição atingia todos os livros impressos, sobre qualquer assunto, tal qual a trama contida do grande filme Fahrenheit 451, baseado romance distópico de 1953. O livro já havia sido adaptado para o cinema em 1966, pelo grande cineasta francês François Truffaut.

Fahrenheit conta a história de Guy Montag (Michael B. Jordan), um bombeiro, em um futuro distante, cuja tarefa ingrata é queimar todos os livros existentes, enquanto rebeldes tentam impedir que isso aconteça.

São os livros que nos levam a recônditos de nossas vidas, e através dos personagens, conseguimos observar o mundo com outros olhos, saboreando vidas que não são as nossas e, assim melhor entendendo os que nos cercam.

Os livros podem nos trazer imagens fictícias, como um oceano de livros e livros feitos de mar.

E a menina Luzia guardava um livro em casa, umas páginas velhas, pensava, com dedicatória da avó e tudo, mas tinham sido banidas. E era o único remanescente da antiga coleção do tio, uma dádiva colhida da estante abarrotada de livros que convidavam a uma amizade genuína e que encantaram a menina antes mesmo que ela soubesse ler. Vez por outra, ainda criança, a menina vira uma lombada saltar da prateleira, como se a desafiá-la “venha, devora-me, decifra-me” – e ela metia -se então em devaneios, inebriada com as cores, texturas e cheiros do papel. Mas depois o tio acabou preso por colecionar livros e todos os volumes foram destruídos, sobrando só aquele, de histórias, que a avó conseguira esconder na antiga máquina de costura.

Nem sempre havia sido assim: a menina ouvira sobre uma época, remota e mágica, na qual era permitido ler histórias em livros.

A menina gostava de histórias, mas não tinha quem as contasse. Os contadores já se tinham ido, e ela andava à procura de quem lhe contasse histórias do mar, desertos e colinas.

Como não tinha quem lhe contasse histórias, Luzia conversava com os pássaros, besouros e borboletas.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 09 de agosto de 2024

O PESO DA CACHAÇA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

O PESO DA CACHAÇA

Violante Pimentel

Conheci pessoas que se perderam na vida e nunca mais se encontraram. Por causa da “cachaça”. Perderam a família, perderam a saúde e tudo o que tinham conquistado de bom. Essas pessoas, hoje, estão mortas.

A Maldita Cachaça, envolta na máscara “alegria, alegria”, levou-lhes embora, para a terra do “nunca mais”, depois de aniquilar a sua saúde, sua família e todos os seus ideais.

Josélio, dominado pelo álcool, desconhecia pai e mãe, mulher e filhos. Para ele, a família era um monstro marinho, que queria acabar com ele, porque estava dominado pelo alcoolismo.

A cachaça tirou-lhe as boas atitudes, o decoro e a dignidade. Também lhe tirou o respeito que os amigos tinham por ele.

Senão vejamos:

Após um dia de muita bebedeira, boa música e mesa farta, completamente embriagados, os dois amigos Josélio e Chiquinho, na Barra do Cunhaú (Canguaretama), se desentenderam na hora da despedida:

Chiquinho costumava se despedir de Rozana, a dona da casa, com os dois beijinhos costumeiros, nos dois lados do rosto.

Josélio, machista e bruto, detestava isso, mas nunca tinha demonstrado.

Nessa noite, como por obra do diabo, ele explodiu, dirigindo-se a Chiquinho, na hora dos cumprimentos de final de festa:

– Ei, rapaz! Não quero ninguém beijando a minha mulher! Somente eu, posso fazer isso!!!

Chiquinho ficou paralisado, pois não admitia uma grosseria dessa, vinda de um amigo tão querido, “quase irmão”, e depois de um dia tão feliz.

O mundo caiu para Chiquinho, homem sensível, que tocava flauta de olhos fechados e tocava violão sempre emocionado, deixando escapar lágrimas em seus olhos.
.
A grosseria de Josélio pegou Chiquinho de surpresa. E o seu “mundo caiu” mesmo, diante da decepção sofrida, na frente de todos. Uma grosseria dessa, logo com ele, que era a delicadeza em pessoa, além de respeitador.

Chiquinho, além de grande amigo de Josélio, era um músico de mão cheia. Exímio “violonista 7 cordas” e flautista, Chiquinho tocava na flauta, praticamente, todo o repertório do exímio flautista Altamiro Carrilho, como também do Mestre do Cavaquinho, Waldir Azevedo, autor dos choros Brasileirinho, Delicado e Pedacinhos do Céu. além de mais de uma centena de outros chorinhos.

Sem acreditar na grosseria que o amigo Josélio lhe havia feito, Chiquinho, praticamente, foi puxado pela esposa, , com o filho pequeno nos braços, e entrou no seu Jeep Willians 51, dirigindo lentamente de volta até sua chácara, que ficava perto.

Chiquinho, ainda perplexo, não acreditava na grosseria que o amigo Josélio lhe havia feito. Há anos, frequentava a casa de Josélio, e nunca o tinha visto fazer uma grosseria com ninguém, principalmente com ele.

Chiquinho saiu em lágrimas, ofendido e humilhado, por aquela atitude baixa e vil de Josélio. Passou a noite assim, e logo ao amanhecer, cuidou de voltar à casa de Josélio, para “passar a limpo” aquele incidente. Queria dizer a Josélio que aquela grosseria que recebera dele, não tinha razão de ser. Jamais teve a intenção de desrespeitar sua esposa. Aqueles dois beijinhos, habituais, nos dois lados do rosto da dona da casa, para ele, eram sinônimo de carinho, como se estivesse cumprimentando uma filha. Josélio voltou a repetir que não gostava que homem nenhum beijasse sua mulher. A ignorância de Josélio extrapolou todos os limites. Chiquinho silenciou e retirou-se.

Esse episódio fez com que a amizade esfriasse e acabaram-se as visitas. A mágoa fou entranhada, congelando uma amizade antiga e sempre respeitosa.

Acabrunhado e com ressaca moral, Josélio não se desculpou ao amigo e ainda repetiu que não gostava que beijassem sua mulher.

Chiquinho se retirou e Josélio não deu um passo para reverter a situação. Para o bom entendedor, meias palavras bastam., diz o ditado popular.

Chiquinho era um grande músico e um amigo adorável. Tocava na flauta, todos os chorinhos de Altamiro Carrilho, Waldir Azevedo, Pixinguinha, Abel Fereira, Jacob do Bandolin e de outros grandes compositores.

No violão de sete cordas, dava “show”, acompanhando o vozeirão do grande seresteiro, Toinho de Canguaretama, e outros cantores amadores, que se chegavam à sua casa.

Por alguns anos, essa casa de praia foi chamada pelas crianças ,”a casa da música”. O motivo era simples. Sempre tinha um som portátil tocando músicas maravilhosas, quando não era música ao vivo, da melhor qualidade, principalmente nos finais de semana.

O propósito do casal era reunir sempre a família, principalmente nos finais de semana, com boa música, ao vivo ou através do aparelho de som.

Entretanto, o alcoolismo prejudicou a convivência familiar, e fez aparecer o lado doentio que o dono da casa escondia.

Josélio detestava crianças, o que não era normal, e sentia um ciúme tóxico pela mulher, sem nenhuma justificativa ou motivos aparentes.. E por cima de tudo, vivia alcoolizado e procurando inticar por tudo. Queria que somente sua palavra predominasse.

Gostava de dizer:

– “Mulher minha não manda nem no prato de comida que come! Mulher minha, eu trato debaixo dos pés. “

Estéril, odiava crianças, e isso não escondia, levando sempre regulagem dos “amigos”, que aos poucos iam se afastando.

Josélio sentia cheiro de chifre queimado por todos os cantos. Não aceitava as amizades da esposa com ninguém, incluindo os familiares.

O mau-caratismo é sempre camuflado pelo alcoolismo, e este é a desculpa barata para as agressões que tem havido entre casais, levando a fins dolorosos, como o feminicídio.

Prefiro, hoje, dizer que o alcoolismo moderado não é mal. A maldade está nas pessoas que bebem e se aproveitam da bebida, para extravasar suas taras, frustrações e recalques enrustidos, principalmente, se houver desnível social ou financeiro entre o casal.

Para liberar sua maldade e instinto tirânico, sob o efeito do álcool, essas pessoas se igualam aos maiores delinquentes da história.

Josélio, logo passou a conviver com a cirrose hepática, e faleceu aos 58 anos, depois de longo internamento hospitalar.

Voltando ao problema do alcoolismo, já vi muito bêbado que, quanto mais bebe, mais apaixonado pela esposa, é. Mas a “parte que desse latifúndio” coube a Rozana, foi a pior de todas. Quanto mais Josélio bebia, mais detestava a mulher, chamando o tempo todo pela falecida esposa, com quem tinha sido casado durante 17 anos.

Voltando ao Chorinho:

Altamiro Aquino Carrilho , o Áz do chorinho brasileiro, gravou seu primeiro choro em 1949, “Flauteando na Chacrinha” e em 1950 formou seu próprio conjunto na Rádio Guanabara. Em 1958, recebeu o troféu Microfone de Ouro, instituído pela revista Radiolândia. Em 1997, seu disco “Flauta Maravilhosa” recebeu o prêmio Sharp, de melhor álbum instrumental.

Altamiro Aquino Carrilho (Santo Antônio de Pádua, 21 de dezembro de 1924 – Rio de Janeiro, 15 de agosto de 2012) foi um compositor e flautista brasileiro. Gravou mais de cem discos e compôs cerca de duzentas canções, tendo se apresentado em mais de quarenta países, difundindo o Choro Brasileiro.

Foi o flautista brasileiro, com maior número de gravações registradas na história do disco no Brasil, além de ser considerado por críticos e especialistas da área, como um dos maiores flautistas da história desse instrumento.

Foi considerado pelo flautista francês Jean Pierre Rampal, como o melhor flautista do mundo.

Estreou em disco em 1943, participando da gravação de Moreira da Silva em formato 78 rpm, na Odeon.

Outro Ás do chorinho:

WALDIR AZEVEDO – (27 de janeiro de 1923 – Rio de Janeiro – RN – 20 de setembro de 1980 – São Paulo-SP)

Músico e compositor brasileiro, mestre do cavaquinho e autor dos famosos choros “Brasileirinho”, “Delicado” e Pedacinhos do Céu” além de uma infinidade de outro belíssimos chorinhos.

Nascido na Piedade e criado no bairro do Engenho Novo, no Rio de Janeiro, Waldir Azevedo foi, até hoje, o maior nome do cavaquinho brasileiro. Apesar disso, ele demorou a se encontrar com o instrumento. Começou tocando flauta e, em seguida, passou para o bandolim, só então assumindo o cavaquinho que o consagraria. Nesse meio tempo, também tocou violão. Mas foi com o inconfundível cavaquinho que ele criou “Pedacinhos do Céu”, uma das músicas mais bonitas do repertório de choro e que batiza um bar em Belo Horizonte.

“Pedacinhos do Céu” é considerado pelos adoradores do chorinho, o Hino Nacional do Choro.

“ANDRÉ DE SAPATO NOVO” é um chorinho que mexe comigo. Desde sempre aprendi a gostar, pois em Nova-Cruz, nas rodas de choro da casa da minha tia Nazinha (Ana Gadelha) não me cansava de ouvir e pedir bis para esse chorinho.

Em Barra de Cunhaú, Chiquinho da Flauta (ou Chiquinho Felipe) sempre atendia aos meus pedidos e uma vez por outra intercalava outras músicas com “ANDRÉ DE SAPATO NOVO”.

Quando Chiquinho da Flauta, ou Chiquinho Felipe, começava a tocar flauta, o prefixo que eu pedia era “ANDRÉ DE SAPATO NOVO”, que eu adorava. E ele sempre me atendia. Inclusive, intercalando outras músicas com esse maravilhoso chorinho.

Hoje, a saudade dos dias idos e vividos está doendo em mim. Saudade dos dias alegres da Barra do Cunhaú, com a família reunida, e todos vivos.

Waldir Azevedo – Delicado

 

 

Altamiro Carrilho – André De Sapato Novo

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 02 de agosto de 2024

A FALTA QUE ELE ME FEZ (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A FALTA QUE ELE ME FEZ

Violante Pimentel

Estou tensa com o avançado da hora. A partir da meia noite, também terei que me desligar dele. Não poderei vê-lo, pegá-lo ou apertá-lo. Ele é meu companheiro de todas as horas. Sem ele, não me deito. E se me deito, não consigo dormir. Tem sido o meu amor e está comigo em todas as horas. A saudade dele está “doendo em mim”.

 

 

 

Pela primeira vez, depois 10 anos, vi-me obrigada a me afastar dele. Nunca imaginei que isso fosse possível. De repente, não mais que de repente, isso aconteceu.

Para mim, ele é do tamanho do mundo. Um mundo de paz e alegria.

A tranquilidade bateu em minha porta, desde o dia em que o conheci.

Fecho os olhos e tento mudar o pensamento. Sem ele, perdi “meu norte” e nada me satisfaz.

De repente, senti falta dele. De repente, o mundo parou. A sensação de que o ar iria me faltar tomou conta de mim. Senti pânico. Medo da vida, medo de tudo.

Já no Centro Cirúrgico, aguardando a minha vez, senti a boca seca.

Pensamentos confusos me embaraçaram a mente.

Pedi água, mas não me deram. Pedi ajuda a quem estava por perto, mas todos me ignoraram. Mesmo sem respirar direito, fechei os olhos. O Centro Cirúrgico estava gelado. Não notei quando fui anestesiada. Só me lembro do médico me respondendo “não” a tudo o que eu pedia.

Quando despertei, o pesadelo havia terminado. A cirurgia de vesícula foi um sucesso.

Com alegria, recebi de volta meu inseparável SORINE, razão dessa minha agonia.

O cirurgião, risonho, disse que ali no Centro Cirúrgico, já tinha visto de tudo:

Pacientes com escapulários, “agnus dei” e medalhas de santos, mas pela primeira vez na vida, tinha visto uma paciente desesperada, agarrada com um vidro de “sorine”.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 27 de julho de 2024

TUPI (CRÔNICA DA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

TUPI

Violante Pimentel

 

Tupi foi o mais inteligente e o mais dócil dos cães vira-latas, que eu conheci. Amigo das pessoas da casa, principalmente do dono e das crianças, fazia as vezes de vigilante e de um verdadeiro cão- de- guarda.

Brincava com as crianças e disputava com elas todos os brinquedos. Era um companheiro incansável.

Dava gosto vê-lo jogar-se à piscina e resgatar os brinquedos que os filhos do seu dono lhe atiravam, por mais distantes que caíssem. Repetia essa “obrigação” até que os meninos se cansassem. Tirava da água cada brinquedo com a boca, e o exibia, como se fora um troféu. As crianças vibravam, com a rapidez com que o cão resgatava os brinquedos por elas atirados à água.

Essa brincadeira recomeçava inúmeras vezes, sem cansar a paciência de Tupi. Depois, eram corridas, lanches, gargalhadas, saltos, até que o assobio de um empregado da fazenda chamava o fiel animal às suas obrigações. Corria, então, como um raio, para tanger as vacas, que eram levadas aos pastos, impedindo-as de entrar nas terras do vizinho.

Quando Pedro, o carroceiro, ia levar batatas para vender no mercado, Tupi o acompanhava, como se fosse o capataz da fazenda.

Triste de quem ousasse saltar o muro para roubar. Uma vez, o cão deu prova de sua extraordinária sagacidade. Um desocupado pulou o muro, à noite, e tentou furtar uma saca de batatas, de 60k. Tupi, como um bom vigilante, esperou que ele procurasse o caminho da saída, levando a saca na cabeça, e o agarrou pela camisa, fazendo-o largar o objeto furtado.

Era como se dissesse: “Onde você pensa que vai, levando as batatas do meu dono?”

O homem quis pôr o saco no local de onde o tinha tirado, mas Tupi não deixou, mantendo-o seguro pela camisa, até amanhecer o dia, sem o ferir ou morder.

O dono da fazenda, logo cedo, levantou-se e encontrou Tupi nessa difícil posição. Repreendeu o malfeitor, que tremia de medo, e ameaçou de mandar prendê-lo, caso repetisse a má ação.

O ladrão, porém, passou a odiar o cachorro, e jurou para si mesmo que sua vingança contra aquele animal seria “maligna”.

Ladrão hoje, ladrão sempre”- diz a sabedoria popular.

Alguns dias depois, o ladrão voltou a pular o muro da fazenda. Percebendo a ausência do fazendeiro e das crianças, chamou Tupi, que correu para ele sem desconfiança. Sem qualquer testemunha, o bandido enlaçou o pescoço do cachorro com uma corda e o arrastou até à margem do rio, num local sinalizado como perigoso.

Atou à outra ponta da corda uma grande pedra, e, levantando o animal, jogou-o às águas do rio. Com o esforço feito ao segurar Tupi e a pedra, o malfeitor se desequilibrou e também caiu no rio, no mesmo local onde acabara de jogar o indefeso animal.

Como não sabia nadar, o covarde, apavorado, viu-se perdido. E teria morrido afogado, se não fosse o corajoso Tupi. Obedecendo ao seu instinto de salvador, e desembaraçando-se da pedra mal atada, o fiel cão de guarda, mergulhou duas vezes, trazendo para terra o seu mortal inimigo.

O cachorro conseguiu sair da água nadando. Olhou para o rio e viu seu algoz se debatendo, sem conseguir tomar pé. Decidido, Tupi pulou no rio e conseguiu salvar seu pretenso assassino.

Desnorteado, o homem se deu conta de que o cachorro que ele tentou matar afogado, fora salvo pelas mãos de Deus. E foi esse cachorro que pulou nas águas para salvá-lo.

O remorso subiu-lhe à cabeça

O bandido envergonhou-se do ato miserável que praticara e, desde esse dia, se regenerou, deixando de praticar ações violentas, contra pessoas ou animais.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 19 de julho de 2024

A ORELHA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A ORELHA

Violante Pimentel

 

A Orelha possui intenso significado na cultura popular, e sobre ela, se tem muitas histórias a contar.

Houve época em que os ladrões tinham as duas orelhas cortadas. (Ordenações Afonsinas, Livro I, título 60, parágrafo 11) e tornou-se uso velho e vulgar em Portugal e Espanha, espalhando-se pelas Américas.

Cortar a orelha do inimigo vencido era o troféu mais importante da época, pois isso o impediria de captar conhecimentos, pois todos achavam que entrava pela audição.

O pavilhão auricular era dedicado a Mnemosine, a deusa da Memória. Dessa certeza veio o costume de se puxar a orelha dos estudantes para que decorassem ou não esquecessem o que aprendiam. era o processo de mnemotécnica. Qualquer história antiga e minuciosa

O Conhecimento entrava pela audição. Era o pavilhão auricular dedicado a Mnemosine, a deusa da Memória. Por isso, havia o costume de puxar aorelha dos alunos a fim de que decorassem ou nã esquecesse3m o que aprendiam na Escola. Qualquer história antiga e registra esse furor de cortar orelhas.

Os portugueses fizeram maravilhas no Oriente, empilhando as orelhas derrotadas. Começou por Vasco da Gama, cortando 800 orelhas. Afonso de Albuquerque cortou ta orelha, que perdeu o número.

No Brasil, tornou-se uso e costume. Bartolomeu Dias, esmagando um quilombo de escravos fugidos, deixou todos sem orelhas, num total de 7.800 que ofereceu ao Conde de Bodadela, capitão-general.

No Dicionário do folclore brasileiro, Edição atual – 12 ed. São Paulo: Global, 2012. (N.E), a informação é maior, incluindo o costume romano de levar as testemunhas pela orelha ao tribunal, para que prestassem depoimento.

Puxar a orelha era uma invocação à deusa da Memória, atendida pela conservação imediata do que se procurava reter mentalmente. Seria uma maneira especial de pedir a intervenção sobrenatural de Mnemosine.

O castigo de cortar as orelhas, é muito antigo e comum. Era a punição por alguém não ter ouvido, entendido, compreendido, ou obedecido ao que determina a lei.

João Brígido (Ceará: homens e fatos, Rio de Janeiro, 1919) informando sobre a data de 3 de março de 1741, escreve:

“Um alvará dessa data ordena que os escravos que se encontrassem em quilombos, estando neles voluntariamennte, fossem assinalados com um F, e na resistência tivessem uma orelha cortada.

Esta pena se podia aplicar por simples mandado do ouvidor, do juiz de fora ou do juiz ordinário.

Se o Brasil adotasse essa norma, seria menos doloroso para a população carcerária do que apodrecer na prisão, cumprindo prisões preventivas infindáveis.

Pois bem. A orelha cortada mais famosa do mundo foi a do pintor Van Gog.

Por falar em orelha cortada:

Em 1888, na cidade francesa de Arles, aconteceu um dos episódios mais famosos da história da arte: um estrangeiro foi até um bordel da cidade e entregou a uma garota que estava no local um pacote com um pedaço sangrento de sua própria carne.

Era Vincent van Gogh, que acabara de cortar a própria orelha. Na época, tratava-se de um pintor desconhecido e sem sucesso, mas que posteriormente se tornaria um dos artistas mais famosos de todos os tempos.

O ano que ele passara na região francesa de Provença o definiu: foi o período em que criou suas obras-primas mais apreciadas, mas também aquele em que se mutilou.

Horas depois do episódio no bordel, às 7h da manhã, na véspera de Natal, o pintor Vincent van Gogh foi encontrado pela polícia em sua cama, em posição fetal e com a cabeça envolta em trapos empapados de sangue.

Os policiais pensaram que ele estava morto, mas não estava.

Van Gogh morreu 18 meses depois, em 29 de julho de 1890, em consequência de uma infecção que contraíra alguns dias antes, após tentar se matar com um revolver.

A história do corte de sua orelha é o incidente mais famoso do mundo da arte moderna. No entanto, ninguém sabe o que ocorreu realmente naquele dia de dezembro de 1888.

Até pouco tempo atrás, não havia nem certeza de que ele realmente tivesse cortado a própria orelha – se desconfiava que tinha apenas cortado o lóbulo.

A BBC acompanhou a historiadora de arte Bernadette Murphy, que desde 2010 se dedica a desvendar o mistério.

Em 2010, Murphy começou pesquisas nos cartórios da cidade, nas bibliotecas e nos arquivos de Arles e outras cidades da região.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 12 de julho de 2024

Aí SÃO OUTROS QUINHENTOS! (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

Aí SÃO OUTROS QUINHENTOS!

Violante Pimentel

 

Este ditado popular veio de Portugal há mais de três séculos, e ainda hoje permanece atual.

Nesse mesmo sentido, Walter Barelli, Ex-ministro do Trabalho do governo Itamar Franco (1992 a 1995), costumava dizer: “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.”

Somente não enxerga as diferenças quem estiver acometido da cegueira política. E o maior cego que existe é aquele que não quer ver.

No Tesouro da Língua Portuguesa, de Frei Domingos Vieira (2ª edição, Lisboa 1874), consta: “Isto são outros quinhentos” quer dizer que nem todas as coisas são iguais. Cada caso é um caso.

A parte decente do povo brasileiro, cada vez mais indignado, vê a injustiça tomando corpo e o espírito do mal tentando aniquilar o cidadão de bem.

Enquanto isso, os corruptos estão, escandalosamente, mandando e destruindo o nosso País. E Mr. Pig, o torturador, continua agindo e cercando ofendidos e humilhados, sem temer a Deus, nem ao reverso da medalha.

A sede de vingança do poderoso chefão é infinita. Está ostensivamente amarrando a corda em redor do mito, pois o fato dele estar vivo, incomoda. Quer tirar o mito Jair Messias Bolsonaro definitivamente de cena. Ignora que existe outro mito maior, com quem ele não pode medir forças. Este grande mito é Deus. Contra Deus, não se pode medir forças.

Voltando à expressão “Aí são outros quinhentos”, nada se sabe sobre sua evolução temática. Continua sendo usado com o mesmo sentido. Mas, é impressionante, como uma velha frase, que veio de Portugal há mais de três séculos, seja tão atual.

O caso do ex-prisioneiro sortudo, que hoje é presidente, é um, enquanto os pecados do mito são puramente veniais. “Aí são outro quinhentos!!!”.

A frase vem de Portugal, na Península Ibérica, no século XIII. Surgiu a partir de uma lei que estipulava uma multa de 500 soldos a quem ofendesse um membro da nobreza. Caso houvesse reincidência, aí seriam cobrados “outros quinhentos”.

A expressão significa “outra coisa, outra situação, outra atividade, algo diferente”. Outro processo.

“São outros quinhentos!”, segundo o Historiador e Folclorista potiguar, Luís da Câmara Cascudo, vale dizer: “são outras razões”, é um novo caso; outra penalidade.

Quanto à opinião da mídia de que o ex-Presidente e o atual incorreram nos mesmos delitos, trata-se de uma narrativa equivocada. Não há termos de comparação. Só não vê quem não quer.

Atentemo-nos para a obra “A Revolução dos Bichos“, da autoria de George Orwell. Quando escrita em 1945, a obra causou mal-estar no cenário literário e político da época, pois foi recebida como uma sátira feroz da ditadura stalinista, e os soviéticos eram vistos como aliados na luta contra o nazifascismo.

Para agravar a provocação, os líderes do regime totalitário da “Granja dos Bichos” eram os Porcos – o que soou como uma ofensa direta aos dirigentes russos. Realmente, a semelhança era incontestável. Era impossível não identificar nos expurgos, assassinatos, exílios e na distorção da memória histórica o que ocorria na União Soviética.

Poucos anos depois, a situação se inverteu: com o acirramento da Guerra Fria, o Ocidente passou a usar a fábula política de George Orwell como arma ideológica anticomunista – situação incômoda para o próprio autor, que se professava socialista e havia lutado como voluntário ao lado dos republicanos na Guerra Civil Espanhola.

Hoje, passadas várias décadas de profundas transformações no mundo, “A Revolução dos Bichos“, verdadeira obra-prima de George Orwell, resiste intacta, refletindo como um espelho os mecanismo do poder, onde os diversos animais encarnam as fraquezas humanas, que levam à corrosão dos ideais igualitários e os transformam em tirania.

Pois bem. Falando sobre “A Revolução dos Bichos“:

“Cansados da exploração a que são submetidos pelos humanos, os animais da Granja dos Bichos rebelam-se contra seus donos e tomam posse da fazenda, com o objetivo de instituir um sistema cooperativo e igualitário, sob o slogan “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”.

Mas não demora muito para que alguns bichos – em particular os porcos, que são mais inteligentes- voltem a usufruir de privilégios, restituindo aos poucos um regime de opressão, agora inspirado no lema “Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros.”

A história da insurreição libertária dos animais é reescrita, de modo a justificar a nova tirania. Os dissidentes desaparecem ou são silenciados à força.

A magnífica obra “A Revolução dos Bichos” foi inspirada na ditadura stalinista, e ainda hoje, decorridas várias décadas, continua se impondo como uma das mais importantes fábulas sobre o poder, produzidas pela literatura brasileira.

George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair (1903 – 1950), jornalista, crítico e romancista, foi considerado um dos mais importantes escritores do século XX.

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 05 de julho de 2024

SENTIMENTAL DEMAIS (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIRORA VIOLANTE PIMENTEL)

SENTIMENTAL DEMAIS

Violante Pimentel

A música Sentimental Demais, da autoria do compositor, cantor e músico cearense Evaldo Gouveia, foi lançada em 1965, na voz do cantor mineiro Altemar Dutra (1940 – 1983), com estrondoso sucesso.

Essa música sintetizou no título, a natureza do cancioneiro popular do compositor cearense Evaldo Gouveia (8 de agosto de 1928 – 29 de maio de 2020).

Em parceria com o compositor capixaba Jair Amorim (1915 – 1993), a quem foi apresentado em 1958, Evaldo Gouveia construiu uma obra já eternizada na memória afetiva do povo brasileiro.
Quase sempre compostas na cadência do bolero ou do samba-canção, suas músicas sempre soaram sentimentais, como a alma do povo brasileiro, que sempre as cantou em casa, nas ruas, nos bares, nos shows, enfim, em qualquer lugar em que, ao vivo ou na gravação de um disco, um intérprete se derrame ao dar voz a uma música de Evaldo Gouveia e Jair Amorim.

Nos anos 1960, um desses intérpretes foi Anísio Silva (1920 – 1989), cantor baiano que lançou o bolero Alguém me disse. Primeiro grande sucesso do compositor Evaldo Gouveia, Alguém me disse veio ao mundo um ano após Conversa (1959), primeiro título da parceria de Jair e Evaldo. Conversa ganhou as vozes das cantoras Alaíde Costa, Hebe Camargo (1929 – 2012) e Luciene Franco em gravações quase simultâneas.

Contudo, o laço mais forte da dupla de compositores foi mesmo com Altemar Dutra, em vínculo iniciado em 1963 com a gravação do bolero Tudo de mim pelo então emergente cantor com voz de trovador. Os registros sequenciais do bolero Que queres tu de mim e do samba-canção Somos iguais reforçaram em 1964 esse laço, definitivamente consolidado em 1965 com a gravação da canção Sentimental demais, à qual se seguiu, no ano seguinte, outro grande sucesso, Brigas (1966).

Sem se afastar totalmente dessa linha sentimental, Evaldo Gouveia também caiu no samba mais animado – sempre em parceria com Jair Amorim – ao compor O Conde (1969), grande sucesso na voz esfuziante do cantor Jair Rodrigues (1939 – 2014).

Na letra de O Conde, há referência à escola de samba Portela, para a qual Jair e Evaldo fizeram (com a adesão do compositor Euzébio Nascimento, o Velha) O mundo melhor de Pixinguinha (Pizindin), samba-enredo com o qual a agremiação desfilou no Carnaval de 1974, após compositores tradicionais do gênero terem protestado nos bastidores contra a entrada de dois estranhos no ninho folião. Alheio à controvérsia, o povo carioca cantou a plenos pulmões o fluente samba-enredo de Jair Amorim, Evaldo Gouveia e Velha.

Nascido na interiorana cidade cearense de Iguatu (CE), Evaldo Gouveia morreu em Fortaleza (CE), onde residia nos últimos anos, mas fez sucesso ao transitar entre as cidades de Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP) a partir dos anos 1940, em plena era do rádio.

Se o cantor (integrante do Trio Nagô de 1950 a 1962) nunca ficou muito tempo sob os holofotes, o compositor reinou nas paradas – em vozes alheias – entre 1960 e 1975, ano em que a cantora Ângela Maria (1929 – 2018) voltou a fazer sucesso massivo com Tango pra Tereza, última composição da dupla a obter ampla repercussão nacional.

A partir da década de 1980, o cancioneiro de Evaldo Gouveia perdeu impulso no mercado, embora sempre reaparecesse regularmente através de regravações dos sucessos do compositor por cantoras como Ana Carolina, Fafá de Belém e Gal Costa, entre outras vozes.

Além de Jair Amorim, Evaldo Gouveia compôs com parceiros do quilate do compositor carioca Paulo César Pinheiro – com quem assinou músicas como Poster, samba-canção gravado em 2017 pelo cantor Léo Russo – e do poeta conterrâneo Fausto Nilo, com quem fez Esquinas do Brasil (2001) e Nada mudou (2017).

Contudo, é mesmo pela obra composta com o parceiro mais famoso, Jair Amorim, que Evaldo Gouveia será lembrado como hábil arquiteto da canção popular. Um artista assumidamente sentimental demais, como o povo que, imune aos preconceitos dos críticos e das elites culturais do Brasil, desde o início referendou Evaldo Gouveia como compositor de grande sucesso.

Entre os compositores românticos da nossa MPB, na minha opinião, o que mais mexeu com os corações apaixonados foi o cearense EVALDO GOUVEIA, autor de uma discografia invejável.

Ele acertava em cheio, cada música para um momento próprio da trajetória do amor, inclusive os momentos de ciúmes.

Suas belíssimas composições também foram gravadas por grandes intérpretes da MPB, como Anízio Silva (Alguém Me Disse – 1960), Altemar Dutra (Sentimental Demais- 1965), Jair Rodrigues (O Conde – Samba-enredo da Escola de Samba Portela – 1973) e outros.

Evaldo Gouveia teve outros grandes parceiros musicais, como Paulo César Pinheiro e Fausto Nilo, valorizando ainda mais o seu legado musical.

Ao morrer em Fortaleza (CE), na sexta-feira, 29 de maio de 2020, aos 91 anos, vítima de infecção pelo covid-19, Evaldo Gouveia deixou para a posteridade suas canções belíssimas e sentimentais demais.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 28 de junho de 2024

A VOZ DO POVO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A VOZ DO POVO

Violante Pimentel

 

Antigamente, calvar ou descalvar a terra era abater a vegetação que cobria um cimo de monte, ficando a elevação despida de arvoredo.

Também, antigamente, o homem careca era chamado de calvo.

Ficar com a calva à mostra, era uma pena aplicada a um condenado, por ter se portado covardemente numa batalha, fugindo das fileiras, abandonando o posto que lhe fora confiado, ou praticando atos de vilania. O condenado tornava-se indigno do título e situação de fidalgo, e tinha a cabeleira cortada pelo carrasco, seguindo-se a sua expulsão das hostes privilegiadas.

Esse ato era uma dolorosa punição, e acontecia na presença de todos os antigos companheiros.

Os cabelos longos eram atributos notórios da nobreza. Um condenado, portanto, jamais poderia ter cabeleira bonita.

O ex- cavaleiro, com a calva à mostra, estava publicamente degradado de sua condição aristocrática. Passava a ser um plebeu miserável e um covarde por todos conhecido. Sua reabilitação era impossível.

Nos dias atuais, a evolução da cibernética tornou pública a exposição do infrator, com a revelação dos seus defeitos, sem falar dos seus direitos. Os chamados direitos humanos só existem no papel.

A mídia nos fala sobre infratores presos há mais de um ano, por suposta tentativa de golpe, sem quaisquer resquícios de sentimento humano, com relação à saúde e a vida regrada que eles, comprovadamente, levavam antes do fatídico dia, que resultou nesse encarceramento sem sentido.

Assim como os podres poderes, os presídios estão cheios de homens vazios e descrentes de tudo, à espera de um julgamento justo, que dê uma solução rápida aos seus supostos crimes. Enquanto criminosos cumprem pena fora da prisão, inocentes continuam na cadeia, cumprindo prisão preventiva infindável, o que acontece ao arrepio da lei.

E assim “caminha a humanidade”. Até quando?

Mudando o rumo dessa prosa:

No interior nordestino, o caloteiro contumaz tem fama de não pagar nem promessa a santo.

Há caloteiros de carteirinha, desonestos por compulsão. Incomodam pessoas conhecidas, sabendo que quem lhe emprestar dinheiro, já perdeu. O empréstimo irá para o “tinteiro”. Jamais será pago. Os caloteiros compulsivos enganam até ao Papa. Se tiverem oportunidade, serão capazes de furtar até o dinheiro da coleta da Igreja.

A humanidade é dividida em duas classes: Os honestos e os desonestos.

Não existe remédio para regenerar uma pessoa desonesta, principalmente no meio político. A desonestidade está no sangue e se propaga até a 5ª geração, ou mais. A reabilitação é muito rara, senão impossível.

Séculos atrás, raspar a cabeça do desonesto era punição. Hoje já não é. Nem se fala nisso. Se a moda de raspar a cabeça de ladrões voltar, vai ser “uma gracinha”.

Ninguém perde por ser honesto. O desonesto “está frito” para o resto da vida. É condenado pela opinião pública e perde sua dignidade.

A opinião pública é decisiva, em determinados julgamentos. Vale a sentença ditada pelo povo.

E “a voz do povo é a voz de Deus” – diz o ditado.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho segunda, 24 de junho de 2024

LOUVADO SEJA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL

 

LOUVADO SEJA
Violante Pimentel
 
 

Há décadas, Louvado Seja era o apelido de um antigo pedinte de Nova- Cruz, portador de um distúrbio neurológico, que o impulsionava a andar correndo. Era como se alguém invisível o estivesse empurrando. Dava pequenas e constantes carreiras, em curtos intervalos. Não ficava parado um só instante, nas horas em que era visto a esmolar. Seu apelido foi motivado pela louvação que dizia a toda hora, inclusive antes de pedir uma esmola. Quando ele apontava no começo da nossa rua, Barão do Rio Branco, a meninada que brincava nas calçadas corria para casa, com medo. Esse pavor era provocado por comentários maldosos, espalhados pela cidade, de que Louvado Seja incorporava um espírito maligno, que o empurrava, para que corresse até sofrer uma queda fatal. Era como se alguém estivesse querendo, com ele, um acerto de contas. Diziam que eram coisas do demônio, e muita gente acreditava piamente nessa versão. Ao pedir uma esmola, a voz forte de Louvado Seja podia ser ouvida de longe:

“Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Uma esmola pelo amor de Deus”!

Recebia a esmola, repetia a louvação e era impulsionado a correr novamente. As crianças tinham pavor a ele, inclusive eu. Minha avó paterna, dona Júlia, nunca deixou de lhe dar uma esmola, nem tinha medo dele. Eu, que vivia muito com ela, em sua casa, vizinha à nossa, quando o avistava tremia de medo e entrava correndo. Arrodeava pelo quintal e ia à procura de minha mãe. Agarrava-me à sua saia, apavorada. Ela me abraçava e tentava me explicar que Louvado Seja não fazia mal a ninguém e que o problema dele era um doença.

Nova-Cruz, naquela época, era um atraso total. Morria-se à míngua, sem qualquer assistência médica.O deslocamento para Natal ou João Pessoa levava de cinco a seis horas. Isso, se o trem ou o ônibus não desse o “prego”. As estradas rodoviárias eram de barro e esburacadas, e no inverno, então, uma viagem dessa era um suplício. Uma verdadeira “odisseia”.

Nova-Cruz faz fronteira com a Paraíba. O progresso demorou muito a chegar até lá. A energia de Paulo Afonso só foi inaugurada em 1962, por esforço do então Governador Aluízio Alves. Água encanada, também demorou muito a chegar.

Minha saudosa mãe possuía um livro comprado em Natal, chamado “Medicina do Lar”, que, entre diversas doenças, fazia referência aos sintomas idênticos aos apresentados por Louvado Seja. Eram próprios da “doença de São Guido (ou Vito)”. Essa doença também é conhecida como Coreia de Huntington ou Mal de Huntington. É uma alteração hereditária do cérebro, que afeta pessoas de todas as populações em todo o mundo. O seu nome vem do médico George Huntington, que fez a primeira descrição do que ele chamou “Coreia Hereditária”. O termo “Coreia” tem origem na palavra latina choreus (que se refere a “dança”) devido aos movimentos involuntários, que são uns dos sintomas principais dessa doença rara.

Dona Lia se convenceu de que Louvado Seja era portador dessa enfermidade neurológica. Como não era médica, só comentava o assunto com o marido e familiares. O fato é que Louvado Seja padeceu desse mal a vida toda, sem nunca ter ido a um médico.

São Vito (?-303), também chamado por muitos de São Guido, foi um mártir italiano filho de pagãos, mas educado na fé cristã, por Santa Crescência e São Modesto.

As publicações católicas esclarecem que esse santo é considerado padroeiro dos epilépticos e foi um dos mais populares na Idade Média. Sua festa é comemorada no dia 15 de junho.

A associação existente entre São Guido ou Vito e a doença nervosa a que nos referimos, provavelmente, prende-se ao fato de que pessoas atacadas por esse mal começaram a procurar a sua Capela, erguida na Suábia, um antigo ducado alemão da Idade Média, para pedir sua proteção.

O nome “doença de São Guido (ou São Vito)” pegou, e, em algumas regiões, virou expressão popular, para denominar pessoas agitadas, com movimentos involuntários, provocados por contrações nervosas no rosto ou em outras partes do corpo. Estariam atacadas pela “doença de São Guido”.

Ainda hoje me lembro de Louvado Seja, e sinto medo. Suas carreiras curtas e constantes, seus tiques nervosos, além da voz grossa e assustadora, davam-lhe a aparência de um homem elétrico, um ser sobrenatural. Apesar das carreiras que dava, impulsionado pelos nervos doentes, Louvado Seja nunca fez mal a ninguém, durante os anos em que percorreu as ruas de Nova-Cruz, pedindo esmolas. Se algum espírito o empurrava, como muitas pessoas acreditavam, o poder de Deus sempre o protegeu e ele nunca caiu. Deixou de pedir esmolas de repente, e a notícia de sua morte se espalhou na cidade, provocando dó em todas as pessoas.

Ninguém sabia o seu verdadeiro nome, mas o seu apelido é impossível esquecer.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 22 de junho de 2024

A SAUDADE (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

A SAUDADE

Violante Pimentel

A palavra saudade tem origem latina. A hipótese mais aceita pelos estudiosos é que ela vem do latim “solitatem”, que significa solidão.

Saudade é o tema mais cantado pelos poetas e seresteiros brasileiros. É a palavra mais bonita da língua portuguesa e abrange um alcance infinito. Sentimos saudade de pessoas, lugares, épocas, perfumes, e até do cheiro e do gosto de algumas comidas, que marcaram época em nossas vidas.

Pois bem. A saudade tem cheiro e tem gosto. É assim que ela se apresenta diante de nós. A voz, o sorriso e a imagem de alguém querido nos acompanharão por toda a nossa vida. As lembranças doem demais.

Para quem é nordestino, há lembranças crônicas, que o tempo não apaga: O cheiro de café torrado, com rapadura derretendo no fogo, pão assando na chapa, milho-alho pipocando no tacho, canjica fervendo no caldeirão, milho cozinhando ou assando, cravo, canela e erva-doce no pé-de-moleque, cheiro de feijão cozinhando com jabá e jerimum, cheiro de castanha assando, e por aí vai…

Isso tudo faz ativar nossa memória e um festival de lembranças nos assola. De repente, se apossa de nós a saudade “matadeira”, que se traduz em pingos de chuva que inundam nossos olhos.

Saudade é uma das palavras mais usadas nas poesias de amor e nas músicas românticas da língua portuguesa. Significa a lembrança de um tempo feliz ou algo muito bom que já aconteceu na nossa vida e a imensa vontade de reviver esses momentos. É uma lembrança forte, sentimento de felicidade, mágoa ou nostalgia, causado pela ausência, distância ou privação de pessoas, épocas, lugares ou coisas, a que estivemos afetivamente ligados e que faríamos qualquer coisa para viver tudo novamente.

Vivo olhando pelo retrovisor do tempo e as minhas saudades são infinitas. Não sou masoquista, mas elas não me largam. A saudade é dor da gente…está dentro de nós, e quanto mais solitários somos, mais a saudade nos consome.

Saudade é um sentimento causado pela distância ou pela perda de algo ou alguém. Essa palavra tem origem no latim, com o significado de solidão. Ela é uma das palavras mais usadas nas poesias de amor e nas músicas românticas da língua portuguesa.

Saudade significa a memória de algo que aconteceu e a intensa vontade de reviver certos momentos.

Segundo a lenda, esse sentimento surgiu no período dos descobrimentos e definia a solidão que os portugueses vindos para o Brasil tinham da sua terra e dos seus familiares. Quando alguém sente saudades de algo ou de alguém, é chamado de saudosista. Os escravos adoeciam de saudade, que na época se chamava banzo.

Todas as pessoas sensíveis são saudosistas. É impossível não ser. Se bem, que conheço pessoas que ridicularizam os saudosistas, e usam como escudo a frase: “O que passou, passou…”

O que passou, passou, mas alguma coisa ficou. Não podemos dominar nossos sentimentos. Ninguém é igual a ninguém.

* * *

Sigo o gênio Chico Buarque de Holanda, Patrimônio da Música Popular Brasileira, no alto dos seus 80 anos, que emociona seus fãs desde os 16 anos, com a mesma pureza e magia da sua maturidade.

Músico, poeta, dramaturgo e escritor brasileiro, Chico Buarque se revelou ao público com a música “A Banda”, interpretada por Nara Leão, no II Festival de Música Popular Brasileira, exibido pela TV Record em 1966. Essa canção marcou o início da carreira do cantor e conquistou o público com sua melodia simples e mensagem de alegria em tempos difíceis.

Nascido em 19 de junho de 1944 no Rio de Janeiro, Chico Buarque é uma das figuras de maior destaque na música brasileira e nas artes e cultura do nosso País.

Filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, sua paixão pela música começou muito cedo.

Sua discografia é composta por 99 álbuns.

Sua composição “Maninha”, lançada em 1 de janeiro de 1977, aguça a saudade da minha infância e juventude, ao lado do meu Porto Seguro, Francisco Bezerra e Lia, e de todos os meus irmãos.

Outra música do grande compositor Chico Buarque que me emociona, entre tantas outras é “Tua Cantiga”, lançada em 28 de julho de 2017.

Puro lirismo e muita saudade.

Que Chico Buarque de Holanda, do alto dos seus 80 anos, receba todas as homenagens que merece, por ter atravessado todos esses anos com a personalidade firme e inabalável, sem mudar de opinião, nem se render ao deboche de pessoas pobres de espírito, que não valorizam o talento deste grande Brasileiro!

 

Viva Chico Buarque de Holanda!

A Banda

 

 

Maninha

 

 

Tua Cantiga

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 14 de junho de 2024

FESTAS JUNINAS (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

 

FESTAS JUNINAS

Violante Pimentel

Anteontem, Dia dos Namorados, à noite, os bares e restaurantes de Natal estavam repletos de casais apaixonados, indistintamente.

As festas juninas compreendem as celebrações de Santo Antônio (13/6), São João (23/6) e São Pedro (29/6).

Santo Antônio, na cultura popular, é considerado o santo casamenteiro. É quem abre as festas juninas. É dia de rezas fortes, com a intenção de se arranjar “pareia”. Santo Antônio é conhecido por trazer “pareia”, por gosto ou aos empurrões. Por isso, o dia dos Namorados é festejado em seu louvor.

 

 

 

As tradições juninas, no Brasil, datam de 1583. A fogueira, as quadrilhas, as roupas caipiras, os fogos e balões tem origem diversa.

A quadrilha teve origem na França (quadrille). Era uma dança com passos inspirados nos bailes da nobreza europeia, surgida nos salões da corte francesa.

Na época da colonização do Brasil, os portugueses trouxeram essa dança, onde os participantes obedecem a um marcador, que usa palavras afrancesadas, para indicar o movimento que devem fazer, tais como: “anavantur” (en avant tout), “anarriê” (en derrière), “avancê” (avancer), “balancê” (balancer), etc.).

As festas juninas são comemoradas em todo o Brasil, principalmente na região Nordeste, onde chegou através dos padres Jesuítas, com muito sucesso.

Como o Nordeste padece com a seca braba, o povo aproveita as festividades juninas para agradecer as chuvas que raramente caem na região, servindo para manter a agricultura.

A mistura do linguajar matuto com o francês deu origem ao “matutês”, com humor e sotaque do interior nordestino. Nesta dança, é preciso seguir os comandos e no final os casais participantes se despedem, acenando ao público.

Os fogos de artifício são originados da China, onde teria surgido a manipulação da pólvora para a fabricação de fogos. Há também quem diga que os fogos são uma forma de agradecer aos deuses pelas boas colheitas. Na crendice popular, os fogos são elementos de proteção, pois espantam os maus espíritos, além de servir para acordar São João com o barulho.

Os trajes de rendas e fitas, tradicionalmente usados pelas damas que dançam as quadrilhas, são características da Península Ibérica, muito usados em Portugal e na Espanha.

Os homens fazem opção por camisas coloridas, estampadas ou “Xadrez”.

Esses caracteres culturais foram, ao longo do tempo, se integrando aos aspectos culturais dos brasileiros, incluindo os indígenas, afro-brasileiros e imigrantes europeus, em todas as regiões do País.

O maior símbolo das festas juninas é a fogueira.

Conta a História que a fogueira tem raízes católicas. Deriva-se de uma promessa feita entre as primas Isabel e Maria, Mãe de Jesus. Isabel havia prometido a Maria mandar acender uma fogueira sobre um monte, para lhe avisar do nascimento do filho João Batista, e assim pedir a sua ajuda.

No Brasil, a fogueira foi muito bem aceita pelos índios, que já gostavam muito de dançar ao redor do fogo.

Há ainda quem considere a fogueira uma proteção contra os maus espíritos, que atrapalhavam a prosperidade das plantações.

Por fim, há aqueles que utilizam a fogueira apenas para se aquecer e unir as pessoas ao seu redor, já que a festa é realizada num mês frio.

As brasas da fogueira também são um exemplo dessas tradições: assim que se apagam, devem ser guardadas. Conservam, desse modo, um poder de talismã que garante uma vida longa a quem segue o ritual. Talvez por isso, algumas superstições dizem que faz mal brincar com fogo, urinar ou cuspir nas brasas ou arrumar a fogueira com os pés.

Em Nova-Cruz (RN), minha terra natal, crianças e adultos aguardavam com ansiedade que a fogueira fosse acesa. Se o fogo pegasse logo, era sinal de que no próximo São João, todos estariam vivos. Se não pegasse, era mal sinal. Por isso, quando a fogueira acendia logo, todos batiam palmas de felicidade!

Os balões coloridos enchiam de alegria o Céu estrelado das noites de São João. E o som das músicas de Luiz Gonzaga se ouvia no rádio à bateria.

A era cibernética ainda estava longe de acontecer.

A Internet era uma utopia; nem ao menos se sonhava com ela. Os sons estridentes também não eram ouvidos, nem em sonho.

Os sons barulhentos das atuais festas juninas, e a substituição dos antigos e românticos forrós de Luiz Gonzaga pelas músicas sertanejas e de vaquejada, e até pelo Funk, Rap e Axé, fazem com que os amantes da boa música sintam-se cada vez mais frustrados e saudosos das antigas festas juninas.

Apesar de Santo Antônio (13/06), São João (23/06) e São Pedro (29/06) serem muito festejados, entre as três festas juninas, a mais animada, por tradição, é a Festa de São João.

Mas, as três festas juntas dão ao mês de junho um sabor de milho verde, iguarias saborosas e uma alegria cheia de saudade dos tempos idos e vividos, quando as festas juninas eram puro lirismo, sonhos, adivinhações e fantasia.

Salve Santo Antônio, São João e São Pedro!

Viva a Cultura Nordestina!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 07 de junho de 2024

*INVESTIGAÇÃO SOBRE UM CIDADÃO ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA* (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUERIORRA VIOLANTE PIMENTEL)

 

“INVESTIGAÇÃO SOBRE UM CIDADÃO ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA”

Violante Pimentel

Este é o título de um clássico do cinema italiano, dos anos 70, “relativamente esquecido, mas terrivelmente atual.”

Elenco: Gian Maria Volontè, Florinda Bolkan, Massimo Foschi

A trama mostra a dificuldade que tem as instituições competentes, na hora de proceder inquéritos, que envolvam figuras importantes do meio político.

Trata-se de um filme italiano, de 1970, dirigido por Elio Petri e escrito por Elio Petri e Ugo Pirro.

 

Em um momento de perturbação política interna na Itália, um Inspetor do alto escalão da polícia italiana, com reputação ilibada, fama de incorruptível, mas reacionário, recebe a tarefa de reprimir os dissidentes políticos. Dentre eles está sua amante Augusta Terzi (Florinda Bolkan), que é por ele assassinada, por motivos outros.

Ele começa a testar os limites da polícia, vendo se irá ser acusado pelo crime. Assim, começa a plantar pistas óbvias que o identificam como o assassino da mulher, e vê seus colegas ignorando-as, seja intencionalmente ou não. Nenhum colega seu acredita que seja ele o assassino. E desviam o curso das investigações.

O filme é levemente baseado em Crime e Castigo, de Dostoiévski e aborda o abuso e corrupção do poder e da moral.

Uma denúncia nua e crua do que acontece e permanece chocante até hoje.

A opinião pública, nem de longe admite que o Inspetor seja o assassino da amante, mesmo com indícios plantados por ele próprio. Ele atravessa o inquérito incólume.

Enquanto isso, um jovem esquerdista é incriminado pela morte da amante do Inspetor, justamente pelo policial responsável pelas investigações do verdadeiro assassino. O Inspetor assiste ao desenrolar dos fatos, perplexo diante da facilidade com que se usa a impunidade no alto escalão.

O Inspetor foi transferido da Seção de Homicídios para o Gabinete Político. Entre as salas em acesso da população civil no departamento de polícia, por duas vezes se pode ver uma placa azul com a frase, “No Estado Democrático, a polícia está a serviço dos cidadãos.”

Pouco antes, ele havia assassinado Augusta Terzi, sua amante. Ela gostava muito de simular os casos de homicídio que o Inspetor acompanhava em seu trabalho. A festa de troca de cargo foi comemorada com champanhe que o Inspetor roubou da geladeira de Augusta, após tê-la matado.

A partir daí, começa a espalhar amplas evidências de sua culpa na cena do crime e assiste cada vez mais confiante à descoberta delas, sem que ninguém da polícia o interrogue. A instituição prefere acusar o marido de Augusta, que o próprio Inspetor diz que é inocente.

Quando a polícia chega ao apartamento de Augusta e começa a analisar os indícios, um dos policiais diz que o assassino é um cretino e o Inspetor também concorda e repete “um cretino”.

Em flashback, Augusta e o Inspetor simulavam situações onde ele a interroga, como se ela estivesse presa, desempenhando o papel de pai substituto. Quando explica para Augusta que a polícia atua sobre os sentimentos de culpa dos cidadãos, que se tornam crianças quando confrontados com o Estado, ela diz que dos homens que conheceu, ele é o mais parecido com uma criança. O inspetor se irrita. Antônio Pace, o rapaz que o viu sair do prédio, é preso como agitador político de esquerda e ameaçado pelo Inspetor – até porque Augusta queria se separar dele e justificou, chamando-o de sexualmente incompetente e dizendo que Pace, o vizinho do andar de cima, era seu novo amante.

Durante o interrogatório, a coisa foge ao controle do policial, quando Pace demonstra saber que o encarregado da repressão de Estado é um assassino, e ameaça denunciá-lo.

Depois da discussão com Pace, o Inspetor (que seus pares chamam de doutor e a amante chamava de comissário) se entrega a um de seus subordinados através de uma carta onde confessa a autoria do assassinato de Augusta.

Em seguida, se fecha em sua residência, até ser acordado em sua cama por um colega, que o avisa da presença de figurões, que o esperam na sala. O Inspetor insiste em declarar-se culpado, apresentando uma após a outra as provas que o incriminam. Reiteradamente, o grupo de senhores nega a existência de provas, como por exemplo, no caso do fio de sua gravata que ele colocou na unha da vítima. Quando lhe pedem a gravata, ele diz que a destruiu porque ficou em dúvida entre confessar ou utilizar seu poder para encobrir o fato.

O Inspetor falou de uma doença contraída por aqueles que fazem uso permanente e prolongado do poder: “uma doença profissional, disse ele, comum a muitas personalidades que tem nas mãos as rédeas da nossa pequena sociedade.”

Ridicularizado e agredido, o Inspetor termina concordando com a versão dos fatos de acordo com os colegas, e brinda o seu retorno ao rebanho, com uma frase lapidar:

“CONFESSO MINHA INOCÊNCIA.”

Todos se retiram.

A história termina com a citação da frase de Franz Kafka em O Processo (1925, capítulo 9):

“Não importa a impressão que nos dê, ele é um servidor da Lei, portanto pertence à Lei e escapa ao juízo humano”.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho segunda, 03 de junho de 2024

CASA DA FARINHA (POSTAGEM DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

 

Pode ser uma imagem de 5 pessoas
 
CASA DA FARINHA SÓ QUEM É NASCIDO NA ROÇA SABE!
 
BOA TARDE A TODOS OS PARTICIPANTES!
 
 
 
 

Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 31 de maio de 2024

HAJA PRAGA! (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMEMNTEL)

 

HAJA PRAGA!

Violante Pimentel

 

Décadas atrás, entrando pelo século passado, de uma hora para outra, do telhado de uma casa simples em Nova-Cruz, passou a cair por todos os cantos, uma “peste” de rãs, que não havia vassoura nem inseticida que conseguisse expulsar.

Aí moravam três irmãs, Chanoca, Chiquinha e Doroteia, uma solteira e duas viúvas. As três eram muito religiosas e comungavam diariamente. Mesmo assim, passaram a acreditar que aquela chuva de rãs era coisa do demônio.

A rua tinha diversas casas conjugadas, mas a infestação de rãs ocorreu apenas na casa das três idosas, católicas fervorosas, que acreditavam em Deus.

Desde o primeiro dia da invasão das rãs, as três irmãs passaram a dormir na casa de parentes.

Durante o dia, dentro de casa, rezavam-se terços e rosários e acendiam-se velas, na esperança de que as rãs voltassem ao seu “habitat”, que é a beira do rio ou lagoa.

O fato se tornou público e os curiosos pediam para ver de perto a “peste” de rãs que tirava o sossego das moradoras. Parecia coisa demoníaca, de casa mal- assombrada.

O Padre, ao tomar conhecimento do que estava acontecendo, foi benzer a casa e “exorcizou” as rãs, como se elas tivessem vindo de um lugar amaldiçoado.

As mulheres se mudaram para outra casa e abandonaram de vez a casa invadida pelas rãs.

Mas a casa continuou sendo vista como “mal-assombrada”.

Esse caso faz parte do folclore mórbido de Nova-Cruz.

Depois disso, a história das dez Pragas do Egito passou a ser contada no sermão do Padre, semanalmente, para amedrontar, e também para forçar as pessoas a fazer o bem.

Eram elas:

Águas que se tornaram sangue; infestação de rãs, piolhos e moscas; peste no gado; úlceras nas pessoas; chuva de pedras; infestação de gafanhotos escuridão e a morte dos primogênitos das famílias e animais.

A história é narrada na Bíblia, no livro Êxodo do Antigo Testamento. A passagem conta que Deus mandou Moisés e Aarão ao encontro do Faraó (rei do Egito) para pedir que os hebreus ficassem livres da escravidão e pudessem realizar um culto. Porém, o Faraó recusou dez vezes os pedidos de Moisés e a cada recusa, Deus enviou uma praga à região.

Além de forçar a liberdade do povo hebreu, as pragas também serviram à tentativa de provar que os deuses egípcios não existiam ou eram fracos diante do Deus Cristão.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 24 de maio de 2024

OS HETERÔNIMOS (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

 

OS HETERÔNIMOS

Violante Pimentel

 

Há colecionadores de borboletas, selos, discos etc. Também há colecionadores de heterônimos, com personalidades variadas, estilo literário próprio, e inúmeros intuitos.

O heterônimo é um conceito literário utilizado por um autor, para criar um personagem completamente diferente da sua própria pessoa e se esconder atrás dele.

É uma construção completa de uma personalidade, com características próprias.

Foi o poeta Fernando Pessoa, um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa, quem criou o heterônimo.

É usado, quando o autor quer se esconder de si mesmo ou de outras pessoas.

Heterônimos e pseudônimo se confundem. Alceu de Amoroso Lima (1893 – 1983) usava o pseudônimo de Tristão de Ataíde. Mas não representava outro personagem.

Enquanto os pseudônimos são apenas a criação e utilização de um nome falso para assinar um trabalho ou obra artística, os chamados heterônimos são criações de nomes e personalidades inteiras.

Um grande compositor brasileiro, perseguido pela censura nos “anos de chumbo”, para não perder o direito de compor, usou o pseudônimo de Julinho de Adelaide, e a censura o deixou em paz.

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, no dia 13 de junho de 1888 e faleceu na mesma cidade, aos 47 anos, em 30 de novembro de 1935, vítima de complicações hepáticas. Pessoa foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. Fernando Pessoa é o mais universal poeta português.

Criou mais de setenta heterônimos, ou seja, autores fictícios, com características próprias.

Os heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa são: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares. Cada heterônimo desses tem um estilo próprio e uma ideologia diferente, que refletem o projeto artístico e a personalidade rara de Pessoa, poeta inigualável.

Cada heterônimo possui uma voz própria, com suas próprias ideias, opiniões e visão de mundo. Essa diferenciação é fundamental para que o autor possa explorar diferentes perspectivas e estilos literários em suas obras.

Além dos heterônimos criados por Fernando Pessoa, existem diversos outros exemplos de autores que utilizaram esse conceito em suas obras. Um dos mais conhecidos é o escritor argentino Jorge Luis Borges, que criou diversos heterônimos ao longo de sua carreira. Outro exemplo é o poeta brasileiro Manuel Bandeira, que utilizou o heterônimo de “Mário de Andrade” para assinar algumas de suas obras.

Os heterônimos desempenham um papel fundamental na literatura, pois permitem que os autores explorem diferentes perspectivas e estilos literários.

Ao criar um personagem completamente diferente do seu próprio, o autor pode experimentar novas formas de expressão e abordar temas de maneira diferente. Além disso, os heterônimos também podem ser utilizados como uma forma de escapismo, permitindo que o autor se distancie de sua própria identidade e explore outros aspectos de sua personalidade.

A criação de um heterônimo envolve um processo complexo, no qual o autor precisa desenvolver uma personalidade completa, com características próprias, e estilo de escrita. Para criar um heterônimo, o autor precisa pensar em todos os aspectos da personalidade do personagem, como sua história de vida, suas opiniões, seus gostos e até mesmo suas manias. Além disso, o autor também precisa desenvolver um estilo de escrita único para o heterônimo, de forma a diferenciá-lo de sua própria escrita.

Embora mais usados pelos autores do passado, o heterônimo pode ser encontrado na literatura atual. Alguns autores ainda utilizam heterônimos para explorar diferentes estilos literários e perspectivas em suas obras. Além disso, os heterônimos também são utilizados em outras áreas artísticas, como a música e o cinema, onde artistas criam personagens fictícias para se expressarem de maneiras diferentes.

A utilização de heterônimos na literatura não está isenta de críticas e controvérsias. Alguns críticos argumentam que a criação de heterônimos pode ser vista como uma forma de enganar as pessoas, pois o autor está criando outro autor fictício para assinar suas obras. Além disso, também há quem argumente que a utilização de heterônimos pode ser uma forma de escapismo, na qual o autor foge de sua própria identidade e seu estilo literário.

Há quem considere o uso de heterônimos uma fuga da própria personalidade. É como se o escritor se escondesse na pele de outra pessoa, com um nome fictício, por insegurança ou deboche. É tentar se esconder de si mesmo e ludibriar a boa fé das pessoas.

Os heterônimos são uma ferramenta poderosa utilizada por autores para explorar diferentes perspectivas e estilos literários em suas obras. Ao criar uma personalidade completa, com características próprias, biografia e estilo de escrita, o autor pode experimentar novas formas de expressão e abordar temas de maneiras diferentes. A utilização de heterônimos pode gerar controvérsias, e é inegável o impacto que eles têm na literatura.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho quinta, 23 de maio de 2024

BRINCADEIRA DO ANEL (POSTAGEM DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

Pode ser uma imagem de 5 pessoas e texto que diz "Recordar é Viver QUEM BRINCOU SOUBE comO ERA DIVERTIDO."


Violante Pimentel - Cenas do Caminho segunda, 20 de maio de 2024

A LÍNGUA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

 

A LÍNGUA

Violante Pimentel

O hábito de estirar a língua para um irmão ou colega de classe, durante uma discussão, rendia para a criança um castigo ou a ameaça da mãe passar pimenta na boca do filho.

É claro que a criança aprendeu a estirar a língua e dizer palavrões, com alguém, como colegas da escola ou mesmo gente de casa. Às vezes, os próprios pais e parentes ensinam gestos e palavrões aos filhos ainda pequenos, por brincadeira, e depois querem corrigir, quando já é tarde. Nenhuma criança nasce sabendo estirar a língua para alguém ou dizer palavrões. É injusto que os pais as castiguem por isso, se eles mesmos, às vezes, são os responsáveis por tal aprendizado.

No interior nordestino, as pessoas faladeiras e mentirosas tem fama de ter a língua muito grande. Existe até uma praga que diz que elas pagarão a maldade que praticam, com a língua pendurada e espetada com uma enorme e grossa agulha. Isso era castigo usado séculos atrás, também para aqueles que fossem incrédulos ou blasfemassem contra Deus e sua Mãe Santíssima. “Que lhes fosse tirada a língua pelo pescoço e fosse queimada.”

O Rei D. Afonso V estabeleceu que todo aquele que renegasse a Deus ou à Santa Maria, “se fosse Fidalgo, Cavaleiro ou Vassalo, pagasse por cada vez, mil réis para a arca da piedade (dos cativos); se fosse peão, que lhe dessem vinte açoites , enquanto, ao mesmo tempo, lhe metiam pela língua uma agulha de albardeiro, que ficasse na língua enquanto durassem os açoites.

O albardeiro era o fabricante de albardas, espécie de selas para jumentos e cavalos, e usava para costurá-las, uma agulha longa e grossa. Em qualquer castigo aplicado, a vítima teria o palmo de língua estirado fora da boca. A língua, atravessada por uma agulha, não podia ser recolhida. E o suplício era maior ainda, quando aplicado aos incrédulos e heréticos, homens de falsa fé, julgados merecedores da imagem atroz exposta.

Essa tortura, ao que se sabe, só é usada no Brasil como perjuros e pragas, rogadas aos merecedores de tal castigo.

Dizer que, necessariamente, alguém pagará a maldade praticada, com um palmo de língua de fora, espetada por uma agulha longa e grossa, é apenas um desejo de vingança de quem é ofendido.

O Gesto de estirar a língua para alguém, é considerado um insulto, pois, na prática, quem faz isso, está querendo mandar o outro para um determinado lugar, como o inferno ou à “m……”.

É um gesto agressivo e grosseiro e tem a mesma conotação de uma afronta ou injúria, em quase todas as partes do mundo. Sua prática é instintiva, quando “o saco” de alguém transborda de indignação. É uma reação agressiva, automática e não planejada. É uma resposta a um estímulo ou provocação.

Estirar a língua para alguém, num momento de raiva, é um gesto milenar, nacional e natural, sem origem nem história. Todos os povos o conhecem.

O escárnio, contido no gesto de mostrar a língua já era conhecido antes de Cristo.

Pois bem. – Trezentos e cinquenta e dois anos antes de Cristo, os gauleses assaltaram Roma com a violência tradicional. Um dos guerreiros, agigantado, confiando na sua robustez pessoal, diante do exército romano, desafiou-o para um duelo, exigindo um antagonista para o combate singular.
Os romanos, intimidados com a arrogância selvagem, ficaram silenciosos. O gaulês começou a rir com zombaria, e pôs a língua de fora num escárnio:

– “Deinde Gallus irridere coepit atque linguam exertare.” “Então o galo começou a rir e a esticar a língua”.

O jovem Titus Manlius, indignado com o ultraje, enfrentou o altíssimo inimigo, derrubou-o, decepou-lhe a cabeça, arrancando-lhe do pescoço um colar de ouro, e ornando-se com ele, a título de troféu. Ficou sendo chamado Torquatus, de “torques”, o colar.

O episódio consta em Tito Livio (VII, 9, 10) e em Aulo Gélio (IX, 13, 3), divulgando página dos desaparecidos Anais de Q. Claudius.
Portanto, séculos atrás, a língua estirada tinha a mesma conotação injuriosa, humilhante e provocadora dos dias atuais. Era um gesto idêntico para romanos e gauleses, germânicos e celtas.

Merece destaque a famosa fotografia do físico teórico alemão, Albert Einstein (Ulm, 14.03.1879 – Princeton, 18.04.1955), mostrando toda a língua, no dia em que completou setenta anos. Perguntado sobre a razão desse gesto, respondeu:

“A língua esticada expressa minhas opiniões políticas”, disse o célebre físico sobre a foto que o tornou um ícone pop.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 19 de maio de 2024

UM FELIZ DIA DAS MÃES (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANE PIMENTEL)

 

UM FELIZ DIA DAS MÃES

Violante Pimentel

Era um dia de domingo, o 2º domingo do maio, do ano de 1955. Eu era criança e chegou o Dia das Mães.

Em casa, Dona Lia, minha mãe, sentiu as dores do parto e meu pai foi buscar a parteira, Dona Maria Gorda, num troller da Rede Ferroviária.

Ao voltarem, a parteira já encontrou minha mãe em trabalho de parto, e o procedimento foi muito rápido.

Muito ansiosa, fiquei de pescoço duro (torcicolo) de olhar para o céu, pastorando a cegonha, que viria deixar o presente da minha mãe, naquele dia festivo. Sabia que eu iria ganhar um irmão ou irmã.

Desapontada, não vi a cegonha chegar, mas ouvi o choro do bebê, quando nasceu. A euforia dentro de casa foi grande. A parteira saiu do quarto onde estava minha mãe e disse para o meu pai: -“É um menino”.

Ele se emocionou e deixou cair algumas lágrimas. Tinha dado tudo certo, graças a Deus!

Dentro do quarto, uma bacia com água morna com uma colher de álcool garantia a assepsia do bebê e da minha mãe. Nossa casa era vizinha à da minha avó paterna, Dona Júlia.

Com minha mãe já relaxada do esforço do parto, e o bebê já limpinho e arrumado, a porta do quarto se abriu e podemos admirar o presente que minha mãe havia recebido. Um menino lindo, que recebeu o nome de Bernardo Celestino, o sexto filho de Lia e Francisco.

Era um presente de Deus para nossa Mãe e nosso Pai. Foi o que as minhas tias Edite e Eulina me disseram, emocionadas.

O bebê nasceu em casa, sob os cuidados de Deus e da eficiente parteira, Dona Maria Gorda, considerada a melhor parteira da cidade. Naquele tempo, em Nova-Cruz, não se dispunha de médico, nem de hospital ou maternidade. O parto foi normal e a nossa alegria foi imensa, com o presente que nossa mãe recebeu no Dia das Mães.

Ainda me lembro do cheiro de Alfazema, que perfumava o quarto e o berço do bebê.

Minha mãe exultava de alegria, por ter recebido como presente de Deus, naquele Dia das Mães, outro filho homem.

Anos depois, o menino se tornou médico. Deus atendeu aos anseios de Dona Lia, que viu seu ideal realizado.

Muitas vezes, vi minha mãe debruçada sobre o berço, estendendo as suas mãos de veludo e acariciando seu bebê, como uma ave que estende as asas macias sobre o ninho onde repousam seus filhotes implumes.

Cenas enternecedoras aconteceram junto àquele berço!

O amor e o carinho materno transbordavam em minha Mãe, não só com relação ao bebé recém-nascido, como com relação a mim, que perdi o posto de caçula, e aos outros irmãos.

As doces canções de ninar, que as mães cantam para adormecer os filhos, são preces que elas fazem a Deus, rogando para eles um futuro brilhante. O mais importante na vida delas é que os filhos sejam felizes.

É ali, junto ao berço, que se formam sábios, poetas, patriotas, heróis e santos! É ali que começa a educação para as coisas belas da vida, para a virtude, para o heroísmo, e para a bondade no coração.

É verdadeira a premissa que diz:

“A educação vem do Berço!”

A semente de boa qualidade, que a mãe depositar no coração dos filhos, há de germinar, crescer e subir, até ramificar-se numa grande árvore, que dará bons frutos.

Felizes as mães que plantam a semente do bem no terreno virgem do coração dos filhos! A colheita será farta, e grande a felicidade de quem semeou!

Os dias felizes da nossa vida jamais serão esquecidos.

Hoje, no topo da minha maturidade e órfã de pai e mãe, com a proximidade do Dia das Mães, as lembranças e a saudade dos dias idos e vividos afloram à minha memória e inundam a minha alma. E chove nos meus olhos.

Lia e Francisco, o nosso porto seguro, deixaram plantadas em nós as sementes do amor ao próximo, da generosidade, da caridade, da retidão e da solidariedade humana. As sementes germinaram e resultaram numa árvore imensa, que dá muita sombra e continua frutificando.

Dona Lia, minha querida Mãe, não era só uma rosa, mas um imenso jardim em flor!!!

Salve o Dia das Mães!

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 03 de maio de 2024

O GATO (CONTO DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIIOLANTE PIMENTEL)

 

O GATO

Violante Pimentel

 

Este caso é verídico.

Tonico, o gato mourisco de Dona Vera, que há cinco anos apareceu em sua casa e lá ficou, gozando das benesses de um filho, fugiu de casa. Viúva e morando somente com um filho único, rapaz, a companhia do gato preenchia a solidão de Dona Vera, que a ele muito se apegou.

Certo dia, Tonico, saiu de casa pela manhã e não voltou para dormir.

Amanheceu o dia e Dona Vera, sentindo sua ausência, saiu à sua procura, percorrendo algumas ruas do bairro onde morava. Quando já estava cansada de procurar, a mulher foi atraída por uma roda de curiosos, em volta de um gato mourisco atropelado, já morto, perto de uma parada de ônibus. Desesperada, Dona Vera constatou que se tratava do seu gato Tonico, amado como um filho.

Dona Vera conseguiu levar o “de cujus” para casa, e, com a ajuda do filho Daniel, o enterrou no quintal de sua casa, chorando muito, e sentindo-se enlutada, como se tivesse perdido um ente querido.

Dona Vera adoeceu de tristeza. Tomou um banho, mudou de roupa, tomou um chá de camomila preparado pelo filho e passou o resto do dia deitada, sem ânimo para nada. À noite, aceitou tomar um café e continuou deitada.

Pela madrugada, Dona Vera acordou sobressaltada, ouvindo miado de gato, como se fosse uma assombração. Reconheceu o miado de Tonico, acordou o filho que dormia em uma rede e o rapaz tentou acalmá-la, achando que ela tinha tido um pesadelo.

E o filho pensou:

– Assombração não é, pois ”isso não existe”. Além do mais, “Tonico está morto e sepultado, tendo eu mesmo ajudado a enterrá-lo.”

Para ele, um gato ressuscitar, seria uma coisa nunca vista. Seria impossível. Lógico que a mãe havia tido um pesadelo, pois a morte de Tonico a deixou muito nervosa.

De repente, o miado do gato foi ouvido por ele também, que pulou da rede assustado, mas querendo se fazer de forte. O rapaz, junto com a mãe, pegaram uma lanterna e saíram na escuridão da noite, à procura do gato, cujo miado eles estavam ouvindo.

Ele sabia que, infelizmente, o bichano estava morto e sepultado, e não acreditava que ele tivesse se transformado numa assombração, nem que tivesse ressuscitado. Será que Tonico estava pedindo reza???- Pensou o rapaz.

Por insistência da mãe, percorreram o quintal e o jardim, sem encontrar rastro de Tonico. De repente, um miado forte como um lamento, vindo de cima do muro, foi ouvido por mãe e filho, causando arrepios aos dois.

A surpresa de Dona Vera e do filho Daniel foi enorme. O gato estava preso em cima do muro, entre este e a cerca elétrica, sem conseguir se desvencilhar. Mãe e filho se aterrorizaram, sem acreditar naquela aparição. Com muita dificuldade, o filho de Dona Vera, ajudado pela mãe, conseguiu retirar o gato de cima do muro, sem, entretanto, deixar de levar um pequeno choque na cerca elétrica, sem sérias consequências.

Os dois identificaram o gato como sendo Tonico, o gato de estimação que havia morrido atropelado, e já estava sepultado.

Dona Vera abraçou o gato e se convenceu de que era mesmo o seu Tonico, que há cinco anos fazia parte da família. Botou na cabeça que o gato tinha ressuscitado, por obra e graça de São Francisco de Assis, o protetor dos animais.

Mãe e filho, emocionados, choravam com a volta do gato de estimação, se bem que agora, sem dúvida, Tonico estava morto e sepultado. Mas que era ele, era. Mistério!!!

De qualquer forma, Dona Vera e o filho Daniel, no dia anterior, haviam praticado uma obra de caridade, ao enterrar no quintal da casa onde moravam, um gato de rua, morto por atropelamento, e, por coincidência, sósia de Tonico.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho quarta, 01 de maio de 2024

A MORTE DE AYRTON SENNA – 1º DE MAIO DE 1994 (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)
A MORTE DE AYRTON SENNA – 1º DE MAIO DE 1994
 
 
 
 
 
O DIA EM QUE O BRASIL CHOROU...E A BARRA DO CUNHAÚ TAMBÉM CHOROU...
 
Era o feriado de 1º de maio, um dia de domingo, um dia de sol, um dia de mar, um dia de GP de Fórmula 1, com a expectativa de mais uma vitória de Ayrton Senna, que estava no auge do sucesso na modalidade de esporte que ele elegeu como prioridade em sua vida.
 
A Barra do Cunhaú era só alegria. A grande expectativa era a corrida de Fórmula 1. Os televisores ainda eram pequenos, com, no máximo, 20 polegadas. A cerveja corria solta, na Barra do Cunhaú, aliviando o calor, na euforia do feriado do Dia do Trabalho, como também pela expectativa da corrida. O Bar de Neco, o “point” da Barra do Cunhaú naquela época, encontrava-se com suas mesas todas ocupadas, inclusive com caravanas do interior, em comemoração ao “Dia do Trabalho”.
 
As conversas da maioria das pessoas, principalmente dos homens, giravam em torno da grande corrida de Fórmula 1, prestes a começar. Todos tinham certeza de que seria mais uma vitória do nosso tricampeão AYRTON SENNA, no auge da sua carreira, e no vigor dos seus 34 anos, e que tantas alegrias vinha dando ao esporte brasileiro, na modalidade de esporte por ele escolhida. Começou a corrida, e o barulho das conversas diminuiu, sendo substituído pelo barulho dos motores dos carros que participavam do certame. De repente, o acidente fatal, ocorrido com o ídolo brasileiro Ayrton Senna...A perplexidade se estampou no rosto dos telespectadores, instalando-se o pânico entre as pessoas que lotavam o Bar de Neco. Ninguém queria acreditar no que estava claro nas imagens da televisão e nas palavras dos comentaristas esportivos: AYRTON SENNA ESTAVA MORTO!!!! Um dia, que todos esperavam que fosse só de alegrias, de repente, não mais que de repente, se transformou num dia cinzento, com gosto de fel, não só para o mundo esportivo, como para todo o Brasil, que não se conformava em ver seu ídolo Ayrton Senna, no auge de sua carreira e no vigor dos seus 34 anos, ter sua vida ceifada ao praticar o esporte que ele amava. A confirmação da triste notícia levou às lágrimas todo o Brasil, inclusive aquele recanto abençoado por Deus, a Barra do Cunhaú. No Bar de Neco, onde eu me encontrava, a tristeza foi geral e todos choraram.
 
As águas azuis do mar se turvaram, e a Barra do Cunhaú também chorou...

Violante Pimentel - Cenas do Caminho quarta, 01 de maio de 2024

DIA DO TRABALHO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)
DIA DO TRABALHO
Violante Pimentel
 
Pode ser uma imagem de 1 pessoa e texto que diz "1° de Maio DIA DO TRABALHADOR Sào José Abençoe e proteja nossos trabalhadores REDEVIDA"
 
 
Hoje é feriado universal. No Brasil e em pelo menos mais 80 países, o 1º de maio tem ligação com a reivindicação da jornada de trabalho de oito horas, no fim do século 19 e massacres de trabalhadores.
 
Mas, ao longo do tempo, a data passou a ser conhecida em lugares, como a França e o Brasil, como "dia do trabalho" e não do trabalhador.
 
Na década de 1880, operários aderiam em massa aos movimentos sindicais, influenciados especialmente pelo pensamento anarquista, e a cidade fervilhava com seus encontros e discussões.
 
Em 1º de maio de 1886, cerca de 80 mil trabalhadores pararam a cidade de Chicago para reivindicar melhores condições de trabalho.
 
O 1º de maio, Dia do Trabalho, é feriado em todo o mundo, menos nos Estados Unidos.
 
A expansão da comemoração do Dia do Trabalho pelo mundo teve como origem os protestos na cidade americana de Chicago.
 
Em 1º de maio de 1886, os trabalhadores tomaram as ruas, junto da Federação Americana do Trabalho - a maior central operária dos Estados Unidos - e iniciaram um protesto que levaria dias.
 
Os trabalhadores, que tinham uma jornada de até 13 horas diárias por seis dias na semana, reivindicavam uma redução para oito horas de trabalho diárias, além de melhores condições nas indústrias.
 
O protesto tomou forma. Foi alguns dias depois, na noite do dia 4, que as tensões aumentaram. Um confronto com a polícia começou, causando a morte de 11 pessoas e dezenas de feridos.
 
A notícia da manifestação chegou em todo o mundo.
 
Em 1889, a Segunda Internacional definiu na França o dia do início do protesto - 1º de maio - como o Dia do Trabalho.
 
A data do primeiro de maio é pensada por conta de Chicago. E, na França, começa a ser celebrado em 1890, com “feriados forçados” e paralisações.
 
A celebração começou a se repetir nos anos seguintes, com a reunião de trabalhadores em paradas comemorativas, mas também manifestações por melhores condições laborais. Em 1920, foi a vez da Rússia aderir à celebração.
 
Além do Brasil, cerca de 80 países consideram feriado o Dia Internacional do Trabalho, como Itália, Alemanha, Japão e Portugal.
 
Por aqui, a comemoração do dia foi sancionada pelo presidente Artur Bernardes em setembro de 1924, começando a valer no ano seguinte. O governo do presidente mineiro teve pequenos avanços na legislação, como assistência médica e definição de aposentadoria para alguns setores.
 
Mas foi com Getúlio Vargas que o 1º de maio ganhou força.
 
Em 1931, a comemoração da abolição da escravidão, em 13 de maio, deixou de ser feriado, passando a folga para o Dia do Trabalho.
A partir de 1938, o Estado Novo começa a valorizar a ideia de trabalho, fazendo grandes passeatas pelo Rio de Janeiro.
Vargas se utiliza dos grandes discursos, instituindo a lei do salário mínimo. A partir dali, em todo dia 1º de maio, era anunciado o reajuste do piso salarial.

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 28 de abril de 2024

ME CATIVE (POSTAGEM DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)
 · 
A memória das pessoas parecem
com antigas mesas de trabalho de costura.
Há nas gavetas histórias guardadas
por muito tempo, há sachês de flores secas,
como os doces aromas que lembramos.
Há emaranhados de fios, tesouras que cortaram
sonhos e às vezes alguns alfinetes.
_ Marguerite Yourcenar

Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 26 de abril de 2024

VIVER (POSTAGEM DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

Pode ser uma imagem de 1 pessoa e texto que diz ""Viver é um um rasgar-se e remendar-se..." Guimarães Rosa"


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 26 de abril de 2024

ÁGUA DE BEBER (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

 

ÁGUA DE BEBER

Violante Pimentel

Nasci e me criei em Nova-Cruz, região agreste do rio Grande do Norte, fronteira com a Paraíba.

Uma terra seca e quente, e a cidade não tinha energia elétrica nem água encanada, o que só aconteceu no começo da década de 60.

A água que se usava era salobra e tirada de cacimbões. No sábado pela manhã, chegava o trem com água do Piquiri, água doce, para se beber e cozinhar.

Minha mãe tinha na cozinha uma jarra com capacidade para 150 m3, onde a água de beber era colocada, coada num pano de saco de açúcar vazio, lavado e abainhado por ela na máquina de costura. Essa jarra era sempre coberta com esse pano e sobre ele havia uma tampa feita de madeira. Antes de ser colocada no filtro de barro, a água fervida.

 

 

 

A água de beber era trazida do Rio Piquiri (Canguaretama), no “trem da água”, aos sábados, de manhã cedo. Os carregadores se aglomeravam na Estação Ferroviária, à espera do trem da água, o que lhes renderia alguns trocados.

Nessa ocasião, na Estação Ferroviária, ficava um aglomerado de carregadores de água, com galões feitos com duas latas vazias de querosene Jacaré, já lavadas e desinfetadas, e amarradas com correntes a um pedaço de madeira fornido, que eles carregavam nos ombros. Os carregadores de água davam inúmeras viagens, para abastecer as casas com “água doce, fria, gelada, do Piquiri”. Passavam o dia todo carregando água para os fregueses, mediante pagamento simbólico, pois aquela água e aquele serviço não tinham preço.

Repetindo, na nossa casa, a água de beber era colocada numa jarra de 150 litros cúbicos, coada num pano branco, feito de sacas de açúcar vazias, lavadas e desinfetadas por minha mãe, amarrado na boca da jarra. A água era fervida, antes de ser colocada em dois filtros de barro, para consumo.

Essa água era exclusivamente para se beber e cozinhar. Mas minha mãe enchia um balde com ela, para lavar as nossas cabeças, aos domingos, pois durante a semana o banho completo era com água salgada (salobra). Passávamos a semana tomando banho com água salgada, o que deixava nossos cabelos pegajosos.

No domingo, nossa mãe abria uma exceção, ao encher um baldo de água doce, para lavar nossas cabeças. Havia um grande caneco de alumínio emborcado sobre a tampa da jarra, exclusivamente para ser usado para tirar água doce da jarra.

A cidade era paupérrima, não havia médico nem posto de saúde, e o povo morria à míngua, como aconteceu com meu irmão Galdino, aos sete meses de idade. Era o fim do mundo!!!

Pois bem. Uma parenta de meu pai, idosa, que morava num sítio perto de Nova-Cruz, uma vez por outra era nossa hóspede. Surda igual a uma porta, chegava com uma trouxa de tecidos para costurar na máquina “Singer” da minha mãe e permanecia uma temporada conosco. Falava muito, mas ouvia pouquíssimo. Era uma pessoa agradável e muito querida.

O cuidado que a minha mãe tinha com a água de beber era grande. Somente ela tirava água dessa jarra, inclusive para ferver e colocar nos dois filtros.

Certa noite, já tarde, quando todos já haviam se recolhido para dormir, minha mãe acordou, com o barulho de água correndo dentro de casa.

Levantou-se descalça, para não acordar meu pai, e foi ver o que estava acontecendo.

Dona Lia, minha mãe, teve uma péssima surpresa, que lhe fez adoecer. Encontrou na cozinha, a lamparina acesa em cima da mesa, e a hóspede Lindoca nuazinha, de frente para a “jarra de ouro” de água de beber, calmamente, tomando banho, e tirando água da jarra com o penico que lhe servia durante a noite, para satisfazer às suas necessidades, uma vez que o banheiro ficava fora da casa.

Minha mãe, para suportar o mal-estar que sentiu com essa contrariedade, tomou 40 gotas de Coramina, remédio que não faltava na nossa casa.

A infratora Lindoca não percebeu a presença da minha mãe, por estar de frente para a jarrona d’água, e ser surda.

Minha mãe não acordou ninguém, e suportou essa contrariedade sozinha, sem ter com quem desabafar. Não chamou a atenção da hóspede, pois a água já estava contaminada. Não adiantava dar um escândalo, àquela hora da noite. E ainda mais, “não adianta chorar sobre o leite derramado”, diz o ditado.

Mal amanheceu o dia, com a chegada de Mendonça, o cortador de lenha para o fogão, minha mãe lhe ordenou que secasse a jarra imediatamente, e a tirasse de dentro de casa, levando-a bem pra longe da nossa casa. Desse-lhe o destino que quisesse.

Meu pai nunca soube disso, e minha mãe não teve coragem de repreender a hóspede. Ficou tudo por isso mesmo. Só que a guarda foi reforçada, sempre que Lindoca chegava à nossa casa para alguma temporada.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho quinta, 25 de abril de 2024

AMIGOS PARA SEMPRE (POSTAGEM DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

Violante e Raimundo
Uma amizade que já dura 6 anos

Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 19 de abril de 2024

O CINISMO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL(

 

O CINISMO

Violante Pimentel

Cinismo, palavra com origem no termo grego kynismos, é o sistema e doutrina filosófica dos cínicos.

Antístenes foi o filósofo fundador da Escola Cínica de Filosofia e mestre de Diógenes de Sinope. Nasceu em Atenas em 445 a.C. e morreu em 365 a.C., aos 80 anos. Antístenes fundou sua escola no ginásio chamado Cinosargos, que em grego significa “cão rápido”.

 

 

Em sentido figurado, o cinismo tem uma conotação pejorativa, pois designa o homem bruto, que não respeita sentimentos, valores estabelecidos, nem convenções sociais.

O famoso escritor britânico Oscar Wilde cunhou uma frase lapidar a respeito do cínico: “Um cínico é um homem que sabe o preço de tudo, mas o valor de nada”.

A origem do cinismo vem da palavra grega kýon (“cão”, em português), pelo fato de Diógenes de Sinope, o filósofo, dormir no local usado como abrigo para cães. O filósofo faria isso para demonstrar seu desacordo com o modo de viver dos homens.

Antístenes acreditava que a virtude era a única coisa necessária para a felicidade e que ela poderia ser alcançada através do autocontrole e da renúncia aos prazeres materiais.

Os cínicos desprezavam as convenções sociais. Desprezavam a riqueza, o poder e o prestígio, considerando-os como fontes de corrupção e sofrimento. Em vez disso, valorizavam a liberdade, a autossuficiência e a honestidade.

Um cínico é alguém que desafia as normas sociais e as convenções estabelecidas. Eles não se importam com a opinião dos outros e não têm medo de expressar suas opiniões de forma franca e direta. São conhecidos por suas atitudes desafiadoras e sua tendência de ironizar tudo.

Embora o ceticismo cínico tenha suas raízes na Grécia Antiga, ainda podemos encontrar traços dessa filosofia na sociedade contemporânea. Muitas vezes, vemos pessoas que desafiam as normas sociais e questionam as convenções estabelecidas. Elas não têm medo de expressar suas opiniões e são conhecidas por suas atitudes irreverentes e falta de polidez.

Portanto, o ceticismo cínico pode ser uma fonte de inspiração e reflexão para aqueles que desejam viver de forma autêntica e verdadeira. Ele nos convida a pensar por nós mesmos e a buscar a virtude em um mundo cheio de ilusões.

O ideal do sábio era a indiferença perante o mundo. A origem da escola do Cinismo remonta aos séculos III e II A.C., com um ressurgimento posterior, nos séculos I e II d.C. Alguns filósofos a classificam como escola socrática, na linha de Sócrates-Antístenes-Diógenes. Outros negam a relação Antístenes-Diógenes, não a consideram uma escola socrática e veem em Diógenes o seu fundador e inspirador.

No contexto contemporâneo, o termo “cínico” é frequentemente usado para descrever pessoas que demonstram uma atitude de desrespeito e deboche em relação às motivações e intenções dos outros. Essas pessoas tendem a ser sarcásticas, irônicas e desdenhosas em suas interações sociais. Cometem erros e são injustas, além de não ter respeito a ninguém, salvo quando por interesse próprio.

O grupo de filósofos associados ao Cinismo tornou-se conhecido por seu comportamento, estabelecendo, assim, uma perspectiva ética. Acreditavam que a felicidade estaria relacionada a uma vida simples, em acordo com a natureza, e sem as complexidades das regras e valores sociais. Os cínicos eram, então, pessoas que desprezavam os ordenamentos sociais e viviam em circunstâncias consideradas degradantes para um grego, assemelhando-se a animais.

O comportamento dos filósofos cínicos apontava para uma distinção filosófica entre os aspectos naturais e os costumes humanos, um problema que permeou todo o pensamento filosófico da Grécia Antiga.

Diógenes representou uma das mais importantes figuras da corrente filosófica do Cinismo. Eram homens simples, nômades, sem família e sem pátria.

Diógenes de Sinope (404 ou 412 AC. – Corinto, 323aC), também conhecido como Diógenes, o Cínico, foi um filósofo da Grécia Antiga.

Diógenes de Sinope foi exilado de sua cidade natal e se mudou para Atenas, onde teria se tornado um discípulo de Antistenes, antigo pupilo de Sócrates. Tornou-se um mendigo que habitava as ruas de Atenas, fazendo da pobreza extrema uma virtude. Diz a História, que ele teria vivido num grande barril, no lugar de uma casa, e perambulava pelas ruas, carregando uma lamparina, durante o dia, alegando estar procurando por um homem honesto. Posteriormente estabeleceu-se em Corinto, onde continuou a buscar o ideal cínico da autossuficiência: uma vida que fosse natural e não dependesse das luxúrias da civilização. Por acreditar que a virtude era melhor revelada na ação do que na teoria, sua vida consistiu de uma campanha incansável para desbancar as instituições e valores sociais do que ele via como uma sociedade corrupta.

Segundo a tradição, Diógenes vivia a perambular pelas ruas na mais completa miséria até que um dia foi aprisionado por piratas para, posteriormente, ser vendido como escravo. Um homem com boa educação chamado Xeníades o comprou. Logo ele pôde constatar a inteligência de seu novo escravo e lhe confiou tanto a gerência de seus bens quanto a educação de seus filhos.

Diógenes levou ao extremo os preceitos cínicos de seu mestre Antístenes. Foi o exemplo vivo que perpetuou a indiferença cínica perante os valores da sociedade da qual fazia parte. Desprezava a opinião pública e parece ter vivido em uma pipa ou barril. Reza a lenda que seus únicos bens eram um alforje, um bastão e uma tigela (que simbolizavam o desapego e autossuficiência perante o mundo), sendo ele conhecido também, talvez pejorativamente como kinos, o cão, pela forma como vivia.

Diógenes é tido como um dos primeiros homens (antecedido por Sócrates com a sua célebre frase “Não sou nem ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo.”) a afirmar, “Sou uma criatura do mundo (cosmos), e não de um estado ou uma cidade (polis) particular”, manifestando assim um cosmopolitismo relativamente raro em seu tempo.

Diógenes parece ter escrito tragédias ilustrativas da condição humana e também uma República que teria influenciado Zenão de Cítio, fundador do estoicismo. De fato, a influência cínica sobre o estoicismo é bastante saliente.

É famosa a história de que Diógenes saía em plena luz do dia com uma lamparina acesa procurando por homens verdadeiros (ou seja, homens autossuficientes e virtuosos).

Igualmente famosa é sua história com Alexandre, o Grande, que, ao encontrá-lo, ter-lhe-ia perguntado o que poderia fazer por ele. Acontece que devido à posição em que se encontrava, Alexandre fazia-lhe sombra. Diógenes, então, olhando para Alexandre, disse: “deixa-me ao meu sol!”. Essa resposta impressionou vivamente Alexandre, que, na volta, ouvindo seus oficiais zombarem de Diógenes, disse: “Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes.”

Normalmente, os cínicos são pessoas debochadas e sarcásticas, que caminham na contra-mão da consideração e do respeito às pessoas de bem e aos bons costumes. Transitam, querendo puxar o tapete de pessoas bem sucedidas.

Quando querem alcançar um intento, são iguais ao cururu. Quanto mais são enxotados, mais insistem, persistem e não desistem.

 

Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 12 de abril de 2024

UM FUMO PRETO (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)

 

UM FUMO PRETO

Violante Pimentel

Adriano, meu saudoso irmão, funcionário da Petrobrás, estava morando em Aracaju, (Década de 60) e Tereza, a esposa, só tinha a filha Adriane, de seis meses.

Fui com minha mãe e Bernardo meu irmão caçula, de trem, de Nova-Cruz para Recife e lá pegamos um ônibus para Maceió (AL), na ânsia de conhecermos a 1ª neta da minha mãe e minha 1ª sobrinha.

Passamos quinze dias na casa de Adriano e Tereza, para matar a saudade, e curtir a filhinha deles.

Voltamos de ônibus até Recife e ali tomamos o trem de volta para Nova-Cruz. Na altura de João Pessoa, Seu Júlio, um ferroviário amigo de meus pais, seguiu viagem nesse trem e ao nos ver, se dirigiu à minha mãe muito comovido, e falou:

– Que pena, Dona Lia, a velhinha ter morrido!

Surpresa, minha mãe perguntou:

– Quem?

– Dona Júlia, sua sogra! Respondeu o homem.

Ficamos mudas, diante da triste notícia. Seu Júlio se desculpou, ao ver que nós ainda não sabíamos do ocorrido. Dona Júlia era minha avó paterna, a quem eu era muito apegada, a ponto de dormir com ela todas as noites. As casas eram vizinhas. Ela na cama e eu na rede. Meu avô, Seu Bezerra, já havia morrido.

Daí em diante, a viagem foi um mar de lágrimas e tristeza.

Nesse tempo, Nova-Cruz não tinha luz elétrica nem água encanada, e, muito menos, telefone.

Chegamos à Estação Ferroviária por volta das oito horas da noite. Encontramos a nos esperar, Francisco (meu pai) e Eulina (minha tia). Os dois de luto: Meu pai com um fumo preto no bolso da camisa (um quadrado de tecido preto que os homens usavam em sinal de luto), e a minha tia de vestido preto. Há quatro dias, minha avó Júlia havia sido sepultada.

A notícia da morte da minha avó Júlia marcou, para sempre, a alegria da nossa viagem a Maceió. Foi uma noite de tristeza e choro. Toda a alegria que vivemos durante nossa permanência em Maceió, em visita ao meu saudoso irmão Adriano, esposa Tereza e minha sobrinha Adriane, que estava com seis meses, de repente desapareceu.

Sentimos uma pena horrível de não termos participado do funeral da minha querida avó Júlia, que morreu de repente, de um edema pulmonar, aos 73 anos.

Foi um retorno muito triste.

Faça chuva ou faça sol, a cor do luto foi, por muito tempo, a preta. A tradição que perdurou por décadas dizia que, para estar adequado ao contexto fúnebre, a cor preta deveria ser usada nas vestimentas quando alguém morria. Atualmente deixado de lado, mas não completamente, o costume teve início em uma das famílias mais influentes da história – a realeza britânica.

Usamos luto durante seis meses. Mas a saudade permanece até hoje.

Pois bem. Os velórios do Ocidente tem o preto como predominância nos visuais. Embora Holywood ainda pareça tentar preservar esse costume, as vestimentas pretas não são mais o “uniforme dos cemitérios”, principalmente no Brasil. A cor preta é a que mais absorve calor. Permanecer por horas, sob o sol e em um país tropical, é uma tarefa que exige esforço. Somado à tristeza pela perda de um ente querido, o desconforto do luto é imenso.

 

 

 

 

A história do luto começou com a rainha Vitória, uma das monarcas de maior importância da história do Reino Unido, que viveu de 1819 a 1901. Durante esse tempo, a Inglaterra vivia a difusão do Romantismo, movimento artístico e social que, entre as pautas, defendia a revalorização da estética.

Em 1861, a morte do amado marido da rainha Vitória , o príncipe Albert, surpreendeu o mundo. Com apenas 42 anos, Albert estava doente há duas semanas antes de finalmente dar seu último suspiro. Sua viúva permaneceria no trono por mais cinquenta anos, e sua morte empurrou a rainha para uma dor tão intensa que mudou o curso do mundo. Pelo resto de seu reinado, até 1901, a Inglaterra e muitos outros lugares adotaram práticas funerárias e de morte incomuns, todas influenciadas pelo luto público de Victoria pelo falecido príncipe Albert. Graças à rainha Vitória, a dor e o luto tornaram-se bastante na moda.

Embora a rainha Vitória usasse vestidos de luto pretos pelo resto de sua vida após a morte de Albert, a maioria das pessoas não usava crepe por tanto tempo. No entanto, havia certos protocolos que tinham que ser seguidos para trajes de luto.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho terça, 09 de abril de 2024

A VASSOURADA (CRÔNICA DA COLUNISTA MADRE SUPERIORA VIOLANTE PIMENTEL)
A VASSOURADA
Violante Pimentel
 
 

Na campanha política para Presidente da República, em 1960, o então candidato Jânio da Silva Quadros tinha como símbolo da sua campanha uma vassoura. Nos comícios, subia ao palanque com uma vassoura na mão. Dizia que com a vassoura, seria varrida a bandalheira e a corrupção do País.

A vassoura, portanto, tornou-se a marca registrada da campanha de Jânio da Silva Quadro (UDN) contra o Marechal HenriqueLott (PSD).

No interior nordestino , os “janistas” tinham, cada qual a sua vassoura, usada nas passeatas e comícios, para insultar os adversários, partidários do Marechal Henrique Lott.

Em algumas cidades, durante a campanha a bagunça foi grande. Os eleitores que apenas assinavam o nome, não compreendiam o sentido da vassoura, nem os discursos de Jânio transmitidos pelo rádio. Então, começaram os insultos e, o que era pior, as vassouradas, durante as passeatas e comícios. A vassoura tornou-se uma arma perigosa nas mãos das pessoas ignorantes. Em Nova-Cruz (RN), o comércio de vassouras prosperou. A campanha tomou proporções alarmantes, e as vassouradas eram dadas indiscriminadamente, chegando a provocar ferimentos em algumas pessoas.

Lourdes, uma moradora da nossa rua, mulher ignorante e agressiva, resolveu ser “janista”, e passou a varrer a calçada de sua casa de manhã, de tarde e de noite, para insultar quem passava. Usando a vassoura como estandarte, agrediu o ex-marido com uma vassourada, e o acertou na fronte. Por um triz, o homem não morreu. Semianalfabeta, Lourdes não entendia de nada, principalmente de política. Mas tornou-se especialista em vassouradas. Não perdia passeatas e comícios, cantava todos os jingles e era uma entusiasta da campanha da vassoura.

Os carros de som, com seus incansáveis alto-falantes, invadiam as ruas das cidades com marchinhas (jingles), que o povão logo aprendeu a cantar.

Algumas delas:

“ Varre, varre, varre vassourinha, varre a corrupção”;

“Jânio vem aí / não demora não / ele vem aí / com uma vassoura na mão”;

“Varre, varre, varre, varre vassourinha / varre, varre a bandalheira / que o povo já tá cansado / de sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado! .Jânio Quadros é a esperança de um Brasil moralizado/ Alerta meu irmão, vassoura, conterrâneo/ Vamos vencer com Jânio!”

 

 

Jânio Quadros chegou à presidência da República de forma muito veloz. Em São Paulo, havia exercido sucessivamente os cargos de vereador, deputado, prefeito da capital e governador do estado. Tinha um estilo político excêntrico e um vocabulário exótico, que chegava a ser hilário. Para parecer popular, enchia os bolsos de sanduíches para comer nos comícios.

Foi eleito Presidente da República em 3 de outubro de 1960, pela coligação PTN-PDC-UDN-PR-PL, para o mandato de 1961 a 1965, com 5,6 milhões de votos – a maior votação até então obtida no Brasil. Venceu o Marechal Henrique Lott de forma arrasadora, por mais de dois milhões de votos. Porém, não conseguiu eleger o candidato a vice-presidente de sua chapa, Milton Campos (naquela época votava-se separadamente para presidente e vice). Quem se elegeu para vice-presidente foi João Goulart, do partido da oposição.

Jânio Quadros assumiu a presidência em 31 de janeiro de 1961, em Brasília, que ,pela primeira vez, foi palco de uma posse presidencial.

O governo de Jânio Quadros perdeu sua base de apoio político e social, a partir do momento em que adotou uma política econômica austera. Adotou medidas drásticas, restringindo o crédito, congelando os salários e incentivando as exportações.

Mas foi na área da política externa que o presidente Jânio Quadros acirrou os ânimos da oposição ao seu governo. Jânio nomeou para o ministério das Relações Exteriores Afonso Arinos, que se encarregou de alterar os rumos da política externa brasileira. O Brasil começou a se aproximar dos países socialistas. O governo brasileiro restabeleceu relações diplomáticas com a União Soviética (URSS).

Num gesto considerado tresloucado, Jânio condecorou, no dia 19 de agosto de 1961, com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, Ernesto Che Guevara, o guerrilheiro argentino que fora um dos líderes da revolução cubana, e era ministro daquele país. Entretanto, segundo conta a História, essa condecoração foi um agradecimento a Ernesto Che Guevara, por ter atendido a seu apelo e libertado mais de vinte sacerdotes presos em Cuba, que estavam condenados ao fuzilamento, exilando-os na Espanha. Jânio fez esse pedido de clemência a Guevara por solicitação de Dom Armando Lombardi, Núncio Apostólico no Brasil, que o solicitou em nome do Vaticano.

A outorga da condecoração foi aprovada no Conselho da Ordem por unanimidade, inclusive pelos três ministros militares.
A repercussão desse gesto foi a pior possível, sendo, ainda segundo a História, a causa principal da perda de mandato de Jânio. Os problemas começaram na véspera, com a insubordinação da oficialidade do Batalhão de Guarda. Amotinada, se recusava a acatar as ordens de formar as tropas defronte ao Palácio do Planalto, para a execução dos hinos nacionais dos dois países, e a revista. Só a poucas horas da cerimônia, já na manhã do dia 19, conseguiram os oficiais superiores convencer os comandantes da guarda a se enquadrar.

Na imprensa e no Congresso, começaram a surgir violentos protestos contra a condecoração de Che Guevara. Alguns militares ameaçaram devolver suas condecorações em sinal de protesto. Em represália ao que foi descrito como um apoio de Jânio ao regime ditatorial de Fidel, nesse mesmo dia, Carlos Lacerda entregou a chave do Estado da Guanabara ao líder anticastrista Manuel Verona, diretor da Frente Revolucionária Democrática Cubana, que se encontrava viajando pelo Brasil em busca de apoio à sua causa.

No dia 21 de agosto de 1961, Jânio Quadros assinou uma resolução que anulava as autorizações ilegais outorgadas a favor da empresa Hanna e restituía as jazidas de ferro de Minas Gerais à reserva nacional. Quatro dias depois, os ministros militares pressionaram Jânio Quadros a renunciar:
Diz o texto da renúncia:

“Forças terríveis levantam-se contra mim, e me intrigam ou infamam, até com a desculpa da colaboração. Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranquilidade, ora quebradas, e indispensáveis ao exercício da minha autoridade……………………………………”

Brasília, 25-8-61.

a) J. Quadros

E assim terminou o mandato de Jânio Quadros, que só durou sete meses. 56 anos se passaram, e o País encontra-se hoje mergulhado na maior crise política da História.

Não há vassourada que dê jeito…


Busca


Leitores on-line

Carregando

Arquivos


Colunistas e assuntos


Parceiros