Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 05 de julho de 2019

O XERIFE ULTRAJADO PELOS LADRÕES

 

 

VIOLANTE PIMENTEL – NATAL-RN

Prezado Editor,

Boa tarde!

Jesus Cristo continua sendo crucificado todos os dias. Ontem, foi a vez dele se encarnar na pessoa do Ministro Sérgio Moro, o grande brasileiro que, como Juiz, atuou a Operação Lava-Jato, no combate à corrupção que ainda se alastra pelo País.

Os assaltantes do erário público, ladrões de colarinho branco, achincalharam, ultrajaram e humilharam o Ministro Sérgio Moro, chamando-o de ladrão, numa gritante inversão de valores, uma vez que ali os ladrões eram eles próprios. Tiveram a coragem de ultrajar o homem íntegro, que tem nas mãos a lista de nomes dos maiores ladrões do Brasil, com seus respectivos codinomes, inclusive, daqueles que o agrediram.

O Ministro Sérgio Moro é odiado por esses elementos, por ter erguido a bandeira de combate à corrupção espalhada pelo Brasil, punindo os responsáveis e colocando na cadeia os peixes mais graúdos, que se consideravam intocáveis, os verdadeiros tubarões.

Na Audiência da Comissão de Constituição e Justiça na Câmara dos Deputados, a Nação assistiu a um espetáculo degradante, numa cena revoltante de inversão de valores, onde bandidos interrogavam e ultrajavam o “xerife”. Eram as bananas “querendo comer o macaco”, contrariando a metáfora que diz:

“O macaco é quem come a banana. A banana não pode comer o macaco.”

Os agressores do Ministro Sérgio Moro, todos atolados em investigações criminosas até o pescoço, e todos com processos nas costas, sentiram-se no direito de interrogar, intimidar e ultrajar o Herói Brasileiro, Ministro Sérgio Moro, numa atitude vil e revoltante.

Que esses Parlamentares inconsequentes, e com “ficha suja”, sejam logo punidos, na forma da lei, pelos crimes já apurados e agora pelos crimes de Calúnia e Injúria contra o Ministro Sérgio Moro, e também por falta de decoro parlamentar, uma vez que, durante a audiência, comportaram-se como verdadeiros canalhas e agitadores.

Para seu engrandecimento, o Brasil precisa de mais homens honrados, como o Ministro Sérgio Moro, símbolo de competência e integridade moral!

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 29 de junho de 2019

A ABRIDEIRA

 

 

A ABRIDEIRA

 

No Brasil, a aguardente de cana, posteriormente denominada “cachaça”, está ligada à cultura popular, assim como o samba e o futebol. Começou como bebida dos escravos e de pessoas pobres. Com a evolução dos costumes, os ricos descobriram a cachaça e o preconceito que havia contra ela desapareceu. Atualmente, a cachaça está presente nos melhores restaurantes nordestinos e é considerada a “Abrideira” do apetite, principalmente quando se trata de uma feijoada.

A cachaça nasceu da indústria do açúcar. Tornou-se bebida nacional e está para o Brasil, como o Rum está para a Ilha de Cuba. O Tabaco, soberano em Cuba, e abundante no Brasil, não conseguiu superar a cachaça, na influência cultural.

Os negros e ameríndios gostavam muito da aguardente destilada do mel de açúcar. O nome “cachaça, termo do Brasil” surgiu em 1873, no Tesouro da Língua Portuguesa, de Domingos Vieira,

A cachaça tornou-se a mais popular bebida brasileira. Foi a primeira bebida destilada pelo português, imitando a técnica espanhola usada na América. Para a cachaça, convergiram todos os sumos das frutas nativas ou aclimatadas no Brasil, resultando na série inacabável das “batidas”.

Como toda bebida alcoólica, a cachaça, tomada com moderação, não faz mal a ninguém. No entanto, quando o hábito de beber se torna um vício, qualquer bebida passa a ser prejudicial à saúde.

As bebedeiras tem sido responsáveis por casos hilários.

Certa vez, após uma festa de Padroeira numa cidade do interior, Josenildo e mais dois colegas “biriteiros” pegaram a estrada para voltar para Caraúbas, num “Celta” antigo.

No primeiro boteco que eles avistaram, pararam o carro para ir ao banheiro e aproveitaram para beber umas “bicadas” de cachaça. Logo continuaram a viagem e menos de duas horas depois, avistaram outro boteco. O mesmo ritual. Pararam, foram ao banheiro e aproveitaram para tomar outra “chamada”. Pegaram a estrada novamente. Quem estava dirigindo era Josenildo, o dono do Celta. Nessa pisada, já viajavam ha mais de três horas, e ainda havia muita estrada pela frente.

Uma hora depois, avistaram outro boteco e pararam novamente, para as mesmas finalidades.

Prosseguiram viagem novamente, até que avistaram mais um boteco. Quando Josenildo estava estacionando, notou que o possível dono estava fechando as portas. Os três homens desceram do carro, e só por muita insistência o proprietário os atendeu. Disse que serviria apenas uma dose a cada um, pois estava de saída. Iria ao velório de um fazendeiro da região, Seu Brás Fonseca, de quem era compadre..Josenildo disse que o falecido era seu padrinho de Crisma e por isso eles também iriam ao velório. Os três viajantes do Corsa acompanharam o fusquinha do dono do boteco.

Chegando ao casarão da fazenda, dirigiram-se à enorme sala, onde estava ocorrendo o velório. Josenildo, já bastante melado, não suportou olhar para o morto e chorou compulsivamente, chegando a beijar-lhe a testa. Disse que aquele homem era seu padrinho de Crisma e para ele representava o seu segundo pai..Disse que naquele triste momento, sentia-se órfão de pai pela segunda vez. Seu pai havia morrido, há dois anos.

Os três filhos do “de cujos” cumprimentaram Josenildo e ele explicou que morava em São Paulo há alguns anos, e tinha vindo de férias, visitar a mãe e a irmã.

Na realidade, os três amigos nunca tinham visto o falecido. Mesmo assim, Josenildo fez um discurso, exaltando as boas qualidades do “seu padrinho”, e lamentando sua triste e inesperada partida.

Os três impostores passaram a noite toda no velório, comendo do bom e do melhor, e bebendo cachaça a noite toda, como é costume no interior.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 22 de junho de 2019

COISAS DO ARCO DA VELHA

 

COISAS DO ARCO DA VELHA

 

A calçada da casa de praia na Barra do Cunhaú estava animada. Sessão de conversas amenas de uma noite de verão. Histórias do “Arco da Velha” vinham à tona. Lembranças e saudades das coisas de Nova-Cruz.

Saudade do apito e do barulho do trem, quando a locomotiva Maria Fumaça fazia suas manobras em plena madrugada; saudade do toque do triângulo do vendedor de cavaco chinês; saudade de Seu Anísio, o vendedor de pão, gritando na porta da casa da minha avó, “Olha o pão, dona Júlia!”; saudade da voz do vendedor de copos d’água na feira: “Água doce, fria, gelada, do Piquiri!!!”.

Arco-da-velha é uma expressão usada, quando se quer referir algo de tempos antigos. Trata-se de uma forma reduzida de “Arco da lei velha”, em referência ao “Arco-íris”, que, segundo diz a Bíblia Sagrada, no Velho Testamento, Deus teria criado, em sinal da eterna aliança entre ele e os homens, após o dilúvio.

Enquanto conversávamos animadamente, parou na calçada uma nativa muito desbocada, que foi logo puxando conversa:

– Eu queria ter nascido uma jabuticaba… É a fruta da felicidade. Nasce e vive pregada no tronco da Jabuticabeira, e morre sendo “degustada”. Disse isso e passou, deixando-nos com ar de riso.

A Jabuticabeira é uma árvore brasileira, da família Myrtaceae. Originou-se no centro-sul do país, e depois tornou-se conhecida, passando a ser plantada em toda a América do Sul.

Aliás, a Jabuticabeira e o seu fruto fazem parte, agora, do anedotário político brasileiro, como metáfora, em relação ao crescimento econômico do País e à politicalha que se apoderou do Brasil há vários anos. A bandalheira cresceu, igual a uma Jabuticabeira florida, que frutificou assombrosamente e se alastrou pelo país inteiro.

A jabuticaba é uma frutinha negra, muito gostosa. A Jabuticabeira é uma árvore brasileira, da família Myrtaceae. Originou-se no centro-sul do país. Depois propagou-se, passando a ser plantada em toda a América do Sul.

Já existe até um ditado popular que diz:

“Se só existe no Brasil e não é jabuticaba, desconfie”.

O economista Winston Fritsch, um dos formuladores do Real, em 1966, foi categórico: “Quando falam que o Brasil tem alguma coisa diferente dos outros países que não é jabuticaba, então é besteira.” A frase ilustra uma apropriação simbólica frequente da jabuticaba: se o país burlar os padrões do mundo globalizado, acabará mal.

“Jabuticaba do mesmo pé” significa o mesmo ditado: ” É tudo farinha do mesmo saco.”

É característica da Jabuticabeira, o crescimento lento e a rápida velocidade com que da flor surge o fruto maduro (30 dias).

Mas, as jabuticabas fenecem rapidamente.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 15 de junho de 2019

O CÓDIGO DE BARRAS

 

O CÓDIGO DE BARRAS

 

Nerina era muito espirituosa e vivia de bem com a vida. Muito querida, tinha sempre um bom conselho para dar às amigas. Não sabia o que era mau-humor. Era casada com Salin,, um turco da fala enrolada, apesar de radicado no Brasil, há muitos anos.

 

O casamento já durava há mais de 20 anos e Nerina continuava fogosa , o que não acontecia com o marido. O homem só se preocupava com o seu comércio e já não a tratava com o carinho e o romantismo de antigamente. Mas Nerina procurava sempre ser coquete e sensual, para despertar o desejo de Salin.

Muito astuciosa e sentida com o esfriamento do marido, Nerina resolveu lhe provocar ciume. Certo dia, na hora do almoço, quando estava toda a família reunida, Nerina recebeu uma corbelle de rosas vermelhas, com um cartão assinado por um “admirador misterioso”.

A empregada recebeu o presente e Nerina levantou-se para ver quem era o remetente. O marido estava na mesa, almoçando de cabeça baixa, e de cabeça baixa continuou. Não deu o menor cabimento de olhar o que era. Também não demonstrou o menor ciúme. Serviu-se da sobremesa e se retirou da mesa. Quando Salin saiu da mesa, o filho mais velho do casal disse para a mãe:

– Deixa de presepada, mamãe…Essa corbelle, eu juro que foi a senhora mesmo quem lhe enviou. Não existe por trás disso nenhum admirador… O rapaz caiu na risada, sob os protestos da mãe.

Nerina mantinha na parede da sala de visitas as fotos dos sogros, em tamanho natural. Salin passava horas olhando para as fotos, e às vezes parecia estar conversando com os pais.

Concita, uma amiga de infância de Nerina, que havia morado fora vários anos, voltou para Natal e foi fazer-lhe uma visita.. Ao ver as duas fotos na parede e ouvir da amiga que aqueles eram os pais de Salin, perguntou:

– Eles são vivos?

Nerina respondeu:

– Graças a Deus, não!!!

Conversando com Nerina a amiga contou-lhe que estava namorando com um homem muito bom, mas sem estudo. Ele falava errado e lhe fazia vergonha. Numa roda de pessoas intelectuais, ele se saía com:

“Nesse “INTERÍM…” “Menas gente”, “O pessoal chegaram” e daí por diante. Ela disse que sentia muita vergonha do namorado falar errado. Só estava levando o namoro adiante, com medo da solidão.

Nerina, então, torcendo para que a amiga, já coroa, saísse do caritó, deu-lhe o conselho mais inteligente do mundo:

– Ô Concita, você, já com 50 anos, quer um namorado pra fazer discurso, ou pra namorar? Porque se for pra fazer discurso, mande desenterrar o finado Rui Barbosa!!!

As gargalhadas foram grandes.

Chegou o aniversário de 60 anos de Nerina, e os filhos organizaram um almoço em sua homenagem, reunindo 100 convidados, entre familiares e amigos. A festa foi num sábado pela manhã, num buffet de luxo, ao som de um excelente pianista, que executava uma seleção de MPB, de 1ª qualidade.

Foi uma festa muito bonita, e a aniversariante, muito bem vestida, de cabelo arrumado e maquiada, irradiava alegria, não aparentando a idade que estava completando.

Às 16 horas, todos se aproximaram da mesa , muito bem ornamentada, onde estava o belíssimo bolo artístico, confeccionado pela mais famosa especialista de Natal., para o tradicional “parabéns a você”.. Acenderam as duas velas , 6 e 0 e começaram a cantar “Parabéns”.

Na hora de apagar as velas, Nerina se recusou a fazê-lo. As velas queimando e os filhos e netos adulando a aniversariante para apagá-las. Só eram duas: um 6 e um 0 (sessenta, de rombo), e mesmo assim, Nerina só fazia rir.

Então, a filha lhe perguntou por que motivo ela não queria apagar as velas. Rindo muito, Nerina confessou:

– Para apagar as velas, vou ter que fazer um bico, soprar e vai aparecer meu Código de Barras, que eu tenho horror. E, ainda mais, vai aparecer nas fotos…

Ela se referia às inevitáveis rugas (preguinhas) que ficam abaixo do nariz.

Sopra, Mãe!!! Sopra, Vó!!! Sopra as velas!!!

Finalmente, Nerina apagou as velas, protegendo o “Código de Barras” com as duas mãos, numa cena hilária, que provocou risos em todas as pessoas presentes.

Muito espirituosa, a aniversariante gritou:

– Mas não mostro o “Código de Barras!!!”


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 08 de junho de 2019

OS CONES INFERNAIS

 

 

OS CONES INFERNAIS

 

Os cones de tráfego (também chamados cones de estrada ou cones de segurança) são cones de plástico, de cores brilhantes e fortes. São sempre vermelhos, amarelos ou laranja, com uma fita refletora que os torna mais visíveis., Esses cones são muito usados nas estradas e também dentro das cidades. Tem a finalidade de avisar aos condutores de veículos, que por ali trafegam, algum desvio necessário, em decorrência de obras ou serviços. São usados, também, nas Blitz, dentro ou fora da cidade.

Dentro das cidades, quando necessário, os cones são usados para organizar o trânsito em frente às escolas, espaços públicos , ou marcar ruas em obras e serviços, que impliquem em desvio de passagem de veículos..

Esses cones são fáceis de colocar e retirar. Onde se precisam de marcas maiores e consistentes se utilizam barreiras de tráfego, recheadas de areia.

O furto de cones de tráfego parece ser comum entre vândalos, pessoas embriagadas e violentas. Eles são usados na realização de blitz nas estradas, em vésperas de feriados e nos dias de carnaval. São de grande utilidade. Entretanto, em Natal, nos últimos anos, os cones de tráfego passaram a invadir o espaço de circulação de pessoas e veículos, a ponto de impedir a passagem por algumas ruas e lojas, dificultando a vida do povo. Os cones deixaram de ser usados somente pelo DETRAN, passando agora, ilegalmente, a serem usados por particulares, donos de garagem e lojas, impedindo o estacionamento de veículos em sua frente. O uso dos famigerados cones invadiu indiscriminadamente o comércio do Bairro do Alecrim, a ponto de você se ver obrigado a usar estacionamentos privativos e afastados. Os logistas não permitem que se estacione na frente de suas lojas, mesmo que o condutor do veículo seja um freguês.

O contribuinte paga IPTU e IPVA, e se vê impedido de circular livremente, a pé, ou de carro, pelas ruas da cidade. Centenas de “amarelinhos” (a cor da farda é amarela), servidores da “indústria da multa”, com talonário e caneta bic na mão, “pastoram” quem infringe as absurdas regras estabelecidas para o condutor de veículo particular ou não, gerando multas altas e constantes. Os guardas de trânsito, jocosamente chamados de amarelinhos, estão em toda parte, caçando presas para multar e garantir suas gratificações na folha de pagamento.

Além do desassossego provocado pelos agentes de trânsito (Amarelinhos), com um talonário de multas e uma caneta “bic” na mão, aplicando multas absurdas, até em portas de hospital, finais de semana, deparamo-nos, agora, com a proliferação de cones de trânsito por toda parte, atrapalhando a passagem de pessoas e veículos..

Sábado à tarde, precisei parar numa padaria, no Tirol, e a Avenida Afonso Pena estava interditada, cheia de cones impedindo a passagem de veículos, e com barracas armadas e espalhadas nas duas vias (mão e contramão), A metade da Avenida Afonso Pena, uma via pública, de intensa movimentação, estava à disposição de um logista, durante toda a tarde do sábado. Estava servindo a uma exposição de produtos encalhados de uma determinada loja. Um evento de iniciativa privada, impedindo a passagem de veículos.

Certa vez, num dia de semana, às 13 horas, precisei ir ao Escritório de uma Casa Funerária no Alecrim, pegar a Nota Fiscal das despesas que havia pago pelo funeral de uma tia minha e fiquei procurando vaga para estacionar o carro. Depois de rodar muito, sem encontrar onde estacionar, vi um espaço na frente de uma loja, com dois famigerados cones impedindo o estacionamento. Já estressada, num calor de quase quarenta graus, e cansada de ouvir das pessoas que ali era “estacionamento proibido”, dei uma de doida. O escritório da Funerária ficava perto de onde eu estava, e a Nota Fiscal das despesas, segundo informação que me fora dada por telefone, já estava pronta. Em menos de 20 minutos, daria para eu ir e voltar. Parei o carro entre os dois cones, e foi o suficiente para vir correndo um vigilante da loja e me mandar tirar o carro. Na mesma hora, chegou um guarda de trânsito e me pediu para eu estacionar em outro local. Chorando de raiva e muito nervosa. implorei ao guarda :

-Pelo amor de Deus, seu Guarda, deixe eu parar esse carro aqui, pois só quero ir ali àquele Escritório do “Grupo Vila”, buscar uma Nota Fiscal, que já está pronta, referente às despesas do funeral de uma tia minha, que se enterrou ontem. Eu volto rapidamente.

Nessas alturas, meu nível de estresse aumentou e eu disparei no choro. O guarda me olhou assustado , tirou os cones da frente da calçada da loja e disse:

-Tenha calma, senhora! Já que é coisa rápida, pode deixar o carro aqui. Eu mesmo vou ficar pastorando, para evitar que um colega meu venha lhe aplicar uma multa e queira rebocar o veículo.

Quase sem acreditar naquele fato, para mim inédito, do próprio guarda de trânsito me tratar com tanta gentileza, fui quase correndo ao escritório do Grupo Vila, recebi a Nota Fiscal que já estava pronta, e retornei como um raio.

Agradeci ao guarda e ele me tratou com muito respeito. Saí dali, ainda triste, tanto pela morte da minha tia Edite, como pelo estresse que acabara de passar. Entretanto, senti-me gratificada, por ter encontrado, naquele momento, um Guarda de Trânsito tão humano.

Lembrei-me do filme “OS BRUTOS TAMBÉM AMAM”.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 01 de junho de 2019

O GATO

 

 

O GATO

 

Carmen criava um gato preto retinto, a quem dera o nome de Koruga. Ela acostumou o gato a ser “luxento” . Era um gato tão bonito, que parecia um príncipe negro, um verdadeiro “ébano”.

O gato vivia dormindo no sofá, no tapete, nas cadeiras, nas camas, conforme sua vontade, e ela não permitia que ninguém o enxotasse. Koruga tinha todas as regalias, como se fosse um filho que Carmen não tivera.

 

Certa vez, Carmen notou que Koruga estava na cadeira de balanço e quando Madalena, a empregada, apareceu na sala, ele deu um pulo e saiu correndo apavorado. Achando estranho o comportamento do gato, Carmen perguntou à empregada por que o animal tinha medo dela. A moça gaguejou, dizendo que gato era assim mesmo. Carmen fez de conta que tinha se conformado com a resposta, mas resolveu fiscalizar o tratamento que a empregada dava a Koruga.

Não demorou muito para que Carmen flagrasse as vassouradas que o gato levou da empregada, por ter entrado na cozinha. Isso devia ser frequente, e agora estava explicado o motivo desse medo. Bastou esse flagrante, para que a serviçal fosse despedida, sem dó nem piedade. Não houve pedido de desculpa nem lágrimas, que fizessem Carmen confiar mais nessa mulher.

Koruga era louco por sardinha enlatada. Era mais inteligente do que certos humanos.

À tardinha, quando estava perto da hora de Carmen voltar da Receita Federal, onde trabalhava, Koruga se plantava na janela, olhando para a rua, até que o fusquinha de sua dona apontasse na esquina da Matriz de Nossa Senhora da Apresentação. Antes disso, não tinha quem conseguisse tirá-lo da janela. Nessa época, as janelas ainda podiam ficar abertas até à noite. Era um tempo em que, em Natal, ainda não havia ladrão.

Um certo dia, meses depois da saída da perversa empregada, Carmen já estava no trabalho, quando chegou na sua casa um irmão casado. Foi ver a mãe e terminou almoçando lá. Depois, dirigiu-se ao quarto de hóspedes, para dar um cochilo. Chateado por encontrar o gato deitado na cama, enxotou-o com uma grosseira mãozada. O homem adormeceu e dormiu a tarde toda. Ao acordar, enfiou os pés nos sapatos e eles estavam cheios de cocô de gato, cujo fedor se espalhou por toda a casa.

Nesse ínterim, Carmen chega do trabalho e sente falta de Koruga na janela. Entrou em casa, na hora em que o irmão esbravejava contra o gato e o procurava para dar-lhe outras mãozadas, por ter enchido seus sapatos de cocô.

O escândalo foi grande. Carmen quando ouviu o alarido dentro de casa, interferiu e ameaçou o irmão de cortar relações com ele, se tivesse a ousadia de encostar um dedo em Koruga, seu gato de estimação. Nesse momento, Koruga estava acuado e escondido debaixo de outra cama, temendo ser espancado novamente.

Esse irmão demorou muito a voltar à casa de Carmen.

Dessa vez, para alegria de Carmen, Koruga se vingou do agressor.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 25 de maio de 2019

PISA NA FULÔ

 

 

PISA NA FULÔ

 

Esse era o apelido de Gerinaldo, um “faz tudo” ou “quebra-galho” de Natal. Ele era ótimo para fazer pagamentos em bancos, enfrentar filas do INPS, desde a madrugada, para tirar fichas para atendimento médico, resolver problemas na Prefeitura, no Detran e em outras repartições públicas. Todos os “abacaxis”, ele descascava com perfeição. Era um portador de 1ª qualidade, e sabendo que portador não merece pancada, arranjava confusão em tudo que era canto. Pedia para ser logo atendido e inventava, sempre, que a pessoa interessada estava muito doente. O apelido lhe foi posto pelos amigos “biriteiros”, em homenagem à música do saudoso João do Vale, “Pisa na Fulô”, que ele gostava de cantar.

 

 

Era o final da década de 80, quando chegaram a Natal as primeiras secretárias eletrônicas, também chamadas de atendedores de chamadas (ou ainda atendedores automáticos). Era um dispositivo usado para responder automaticamente chamadas telefônicas e gravar mensagens, deixadas por pessoas que ligavam para um determinado número, quando a pessoa chamada não podia atender o telefone, nessa época, fixo. As primeiras secretárias eletrônicas usavam tecnologia de fita magnética. Hoje, os equipamentos são mais modernos, mas as fitas magnéticas ainda são utilizadas em muitos dispositivos de baixo custo.

Na época, uma secretária eletrônica facilitava os contatos comerciais. Era o que havia de mais moderno. No caso de Sérgio, que era representante comercial, ele podia atender aos clientes através do telefone, anotando os pedidos deixados na secretária eletrônica.

O dono da secretária eletrônica podia gravar sua própria mensagem, ou utilizar-se da mensagem-padrão, instalada de fábrica, que era mais prático.

Como o aparelho atendia, automaticamente, o telefone e gravava recados, era ideal para quem precisava se ausentar do escritório, ou para quem trabalhava sozinho.

Ao saber do lançamento desse importante aparelho eletrônico, Sérgio comprou um imediatamente e a firma lhe indicou um técnico autorizado para a instalação. A fita gravada de fábrica, com uma bonita voz feminina, dizia:

“ESTA É UMA GRAVAÇÃO. NO MOMENTO, SÉRGIO NÃO SE ENCONTRA. APÓS O SINAL, DEIXE SEU RECADO.”

No primeiro dia, foi um fracasso. Sérgio só chegou ao escritório no 2º expediente, confiando na secretária eletrônica. Apertou o botão para ouvir as mensagens deixadas por seus cliente, mas só ouviu desaforos e palavrões.

No dia seguinte, Pisa na Fulô foi logo cedo ao DETRAN, agendar a vistoria do carro de Sérgio. Ao ser atendido, surgiu um problema e ele, de um orelhão, ligou para o escritório do “patrão”, ignorando a existência da secretária eletrônica.

Ao ouvir que aquela voz era uma gravação e que ele deixasse seu recado, o fiel escudeiro de Sérgio entrou em parafuso. Pensou logo que tivesse ligado para o número errado. Insistiu na ligação e na 3ª vez explodiu, soltando o verbo para “aquela sirigaita” que atendera o telefone de Seu Sérgio:

-Moça, eu quero falar com Seu Sérgio!!! Quem tá falando aqui é Pisa Na Fulô. Só quero falar com Seu Sérgio!!!Passe o telefone pra ele!!! Ainda estou no Detran!!! Chame logo, sua condenada!!!

E terminou Pisa na Fulô mandando a secretária eletrônica se danar.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 18 de maio de 2019

OS LENÇÓIS

 

 

OS LENÇÓIS

 

Na sua venda, que na verdade era um armazém de “Secos e Molhados”, Seu Francisco vendia em grosso e a varejo. No grande depósito, entre diversas mercadorias, ele estocava açúcar da Usina “Estivas”, comprado em sacas de 60 quilos, feitas de tecido de algodão rústico. À medida que o açúcar ia sendo despejado num depósito de madeira com tampa, para ser vendido a granel, ou seja, no peso, as sacas vazias eram levadas para nossa casa por Dona Lia, minha mãe, que as colocava de molho e depois de bem lavadas, secas e passadas, fazia com elas panos de chão, para a limpeza doméstica.

Como eram muitas, minha mãe sempre costumava doar sacas vazias às pessoas que lhe pediam. Algumas donas de casa usavam essas sacas até mesmo para confeccionar lençóis e fronhas, para uso da família.

Nesse tempo, os lençóis e fronhas eram costurados em casa, numa máquia de costura, quase sempre da marca “Singer”, movida a pedal. Comprava-se em peças o tecido apropriado para esse fim (bramante).

Nos tempos em que não havia tanta tecnologia, os armazéns (ou vendas) existiam em cada esquina, e eram a maior, e, às vezes, a única fonte de mantimentos para a população, principalmente nas cidades do interior do Estado.

Nesse tempo, os dias eram calmos e não havia violência. As mães podiam mandar um filho sozinho a uma venda, comprar alguma coisa de última hora e pedir ao dono para anotar na caderneta. Esse era o sistema de crediário mais antigo e seguro da época. Dificilmente, um freguês não cumpria a obrigação de pagar a caderneta no dia em que recebia “o ordenado”. O tempo da desonestidade ainda não tinha nascido.

O dono da venda, geralmente, sabia de cor os dias em que cada freguês recebia seu ordenado, palavra usada para “salário” ou “vencimento”, naquela época, e tinha como certo o pagamento das dívidas do mês para aquela data. A palavra dada valia mais do que o papel e a letra.

Nas cidades do interior, todos se conheciam pelo nome, e todos confiavam uns nos outros.

Nas vendas ou armazéns de “Secos e Molhados”, havia sempre uma balança sobre o balcão, para pesar as mercadorias que seriam vendidas a granel. As balanças antigas foram substituídas pelas da marca”Filizola”, mais modernas e bonitas, com o marcador do peso à mostra, em ponteiros. Os antigos “pesos”, aos poucos, foram abolidos.

A “Caderneta”, portanto, era o “cartão de crédito” de antigamente. Todas as pessoas da cidade tinham conta corrente em alguma venda (ou armazém). Compravam o mês todo e pagavam quando saía o “ordenado”. Os calotes quase não existiam. Também não existia o supérfluo, que hoje “enlouquece” os compradores compulsivos.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 10 de maio de 2019

A VOCAÇÃO

 

 

A VOCAÇÃO

 

Era dia de Finados, 2 de novembro, década de 70. Luizinho, 12 anos, entrou na venda do tio Francisquinho, pela manhã, e pediu que lhe confiasse uma caixa de velas, com 20 caixinhas, para ele vender no Cemitério. Quando vendesse todas, voltaria para pagar a dívida. Perguntou qual era o valor e por quanto deveria vender cada caixinha. Queria lucrar um dinheirinho.

O tio ficou surpreso com o pedido, pois era a primeira vez que isso acontecia. Confiou no menino e entregou-lhe a caixa com as velas. Uma hora depois, Luizinho estava de volta, para pagar o que devia, com parte do apurado e comprar “fiado” outra caixa de velas. Voltou ao Cemitério para continuar a venda. 
Nessas idas e vindas, o menino passou o dia todo vendendo velas no Cemitério, e pagando ao tio quando voltava para comprar outra caixa. Guardava o lucro no bolso da calça curta que vestia. Nessa época, em Nova-Cruz, não havia lanceiros nem ladrões.

Luizinho guardou o pouco dinheiro que obteve com a venda das velas e passou dias custeando seus gastos com chocolates, pirulitos e outras guloseimas, sem incomodar a mãe.

Chegaram as festas de fim de ano. Em Nova-Cruz, o Comercial Atlético Clube promovia um grande baile no dia 1º de janeiro, com uma orquestra de Natal, João 
Pessoa ou Recife. Essa festa atraía o povo da redondeza e também de João Pessoa e Natal. Havia, ainda, a turma animada do Recife, pessoas que tinham família em Nova-Cruz.

Luizinho começou a azucrinar o juízo de sua mãe, dois dias antes dessa festa. Queria, por que queria, que ela preparasse um caldeirão de carne moída para ele vender cachorro quente em frente ao Clube, onde populares ficariam no sereno, apreciando a entrada do povo rico e bem vestido. Os populares, com certeza, iriam sentir fome e comprariam cachorro quente para lanchar.

A mãe deu-lhe diversos “não”, sob a alegação de que seria uma vergonha seu filho, tão novo ainda, vender cachorro quente em frente ao Clube. Eles não precisavam disso. Ela e o marido podiam sustentar os 5 filhos. Inconsolável , Luizinho chorou muito. Dona Lia, sua tia, ouviu a discussão e entrou na casa da concunhada, para saber o que estava acontecendo. Ao se inteirar do problema, teve pena de Luizinho e intercedeu em seu favor. Disse à sua mãe que não via nada demais nisso. Afinal, era uma noite de festa e o dinheiro apurado seria para ele mesmo. Além do mais, trabalhar não era desonra.

E lá se foi Luizinho, na noite do baile, com um caldeirão de carne moída, muito bem temperada por sua mãe, e um pacotão de pão de sanduíche, vender cachorro quente, em frente ao Clube. Seu ajudante era outro garoto, amigo seu.

A venda de cachorro quente foi um sucesso.

Enquanto a vocação para o comércio aflorou logo cedo em Luizinho, a vocação para estudar passou por muito longe. Ele nunca se saiu bem na escola. Por mais 
que a mãe e o pai o estimulassem a estudar, inclusive colocando-o em aulas de reforço, quase sempre era reprovado. Nunca conseguiu ser um bom aluno.

Um tio materno de Luizinho, dono de uma madeireira em Natal, tomando conhecimento do problema, propôs à irmã trazê-lo para trabalhar com ele. Aqui ele poderia continuar os estudos.

Para Luizinho, esse convite foi uma alegria. Com 14 anos, viajou para Natal com o tio e passou a trabalhar com ele na madeireira. Tornou-se os pés e as mãos desse tio. Anos depois, o homem se aposentou e encerrou suas atividades. Luizinho recebeu uma excelente indenização em madeira e o ponto comercial onde trabalhava, que tinha uma grande clientela. Investiu numa pequena fábrica de portas, janelas e esquadrias, a que deu o nome de “O JANELÃO”. Tornou-se um comerciante próspero. Casou-se e constituiu família, com uma prole de quatro filhos.

Tempos depois, Luizinho construiu um Restaurante na Praia de Tabatinga, com um apartamento no 1º andar, onde passou a residir. O menino sonhador, nascido em Nova-Cruz, que, por vontade própria, chegou a vender velas no Cemitério e cachorro quente na frente do Clube da cidade, transformou-se num alto comerciante em Natal e dono de um requintado restaurante. Ainda tinha muitos planos pela frente. Mas seus sonhos pararam aí.

Numa noite de domingo, depois de um dia muito cheio, Luizinho, aos 45 anos, morreu, em consequência de um assalto, no Restaurante de Tabatinga, sua maior 
realização.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 04 de maio de 2019

O ALFAIATE

 

O ALFAIATE

 

Nicanor ficou rico costurando roupas masculinas. Alfaiate de mão cheia, aprendeu esse ofício, ainda rapaz, ajudando a um antigo alfaiate da cidade. Começou pregando botões, fazendo costuras de mão e alinhavos. Anos depois, de ajudante, passou a dono da alfaiataria. Nesse tempo, as máquinas de costura eram manuais ou de pedal. Com a sua arte, conseguiu juntar dinheiro e, vivendo com simplicidade, tornou-se um homem razoavelmente rico.

 

Já coroa, casou-se e constituiu família, com uma prole de quatro filhos. Mesmo cheio de dinheiro, Nicanor continuou com “um pé preso na senzala”, como diz o ditado popular. Sem estudo e convivendo com pessoas simples, mal assinava o nome e tinha um vocabulário muito pobre. Faltava-lhe o traquejo social e a cultura geral que a leitura proporciona. Faltava-lhe também o bom gosto na maneira de se vestir. Ao falar, perdia-se nas palavras, mas não se perdia nas ideias. Mesmo rico, Nicanor continuou sendo um homem simples.

Era tímido e sabia manter a distância entre ele e os seus clientes ricos.

Um dos seus clientes, padrinho do seu filho, convidou-o para se associar aos Clubes da cidade, a fim de se entrosar mais com as pessoas. e fazer novas amizades. Afinal, ele tinha dinheiro suficiente para frequentar a mesma roda social dos seus fregueses.

Aconselhou-o a arranjar um “personal stylist”,professor de etiquetas, para lhe ensinar a ser traquejado.

A primeira orientação desse “professor” foi de que ele providenciasse roupas de boas marcas, de cores berrantes e chamativas, para se vestir com mais elegância.

Sua esposa, Esmeralda, não aprovou nada disso, pois era muito simples e tímida. Mas o marido não lhe deu ouvidos.

Ele, então, foi na onda do compadre e se associou ao Clube Comercial e ao Lions Clube da cidade. Reuniões, festas, mensalidades e novas amizades.

Nicanor passou a frequentar uma academia e se matriculou num curso de dança de salão. Seu sonho era aprender a valsar.

Contratou um professor de Português para lhe dar aulas, mas não houve jeito de Nicanor aprender nada mais do que já sabia. Continuou falando errado e lendo e escrevendo pouco e ruim. Leitura lhe dava sono. Jamais seria um autodidata.

Nicanor terminou desistindo de tudo, ao ver que estava gastando muito, e o custo-benefício não compensava. Preferiu continuar na sua vida simples de antes. Nada de novo no “front”. Leitura lhe dava sono. Vida social, academia e aula de dança, tudo isso custava dinheiro, o dinheiro do seu trabalho. Era mais barato, continuar fazendo suas caminhadas, junto com Esmeralda, sua esposa. Essa mudança de hábitos estava mexendo com o seu bolso. Afinal, tudo o que ele conquistou foi fruto de anos e anos de trabalho na sua alfaiataria. Nicanor nasceu pobre, mas não queria ver a sua família terminar a vida pobre. Desistiu de ser chique e voltou à sua vida normal, para felicidade geral da família e para o bem de suas finanças.

“Quem não pode com o pote, não pega na rodilha”.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 27 de abril de 2019

A UNIÃO

 

A UNIÃO

 

Antonina, viúva, 38 anos, tinha duas filhas e era costureira. Apaixonou-se por Zé Bento, um fazendeiro de 60 anos, também viúvo e com um filho rapaz. O romance dos dois resultou num “casamento” pelo regime do livre arbítrio, onde não foi preciso padre nem juiz. Como toda vassoura nova varre bem, o “casamento” começou muito feliz. Antonina teve quatro filhos, um atrás do outro.

Decorridos 15 anos dessa união, Zé Bento começou a mudar. A paixão que uniu o casal se diluiu no tempo e no espaço.

Do dia pra noite, o homem virou a cabeça e abandonou a família, sem dar qualquer satisfação a ninguém. Foi dominado por outra paixão violenta, que fez ruir por terra sua união com Antonina, aparentemente estável e definitiva.

A mulher adoeceu de tristeza e de revolta, com a falsidade de Zé Bento. Jamais imaginou que, sendo bem mais nova do que ele, fosse passar por essa humilhação de ser abandonada, juntamente com todos os filhos, inclusive o enteado.

Revoltado com a atitude do pai, por haver abandonado a mulher e os filhos, Júnior, filho do 1º casamento de Zé Bento, já com 30 anos, assumiu a família, e meses depois pediu Antonina em casamento. Sentia-se o pai dos seus próprios irmãos e o peso da responsabilidade pesava sobre os seu ombros. Literalmente, ocupou o lugar do pai, dentro de casa.

Zé Bento, quando soube do resultado do embrolho que havia provocado, e do casamento do filho Júnior com Antonina, entrou em parafuso e, envergonhado, meteu a cara na cachaça. Indignado, sentia-se traído pelo filho e desrespeitado pela ex-companheira. Como “macaco não olha pro rabo”, Zé Bento não reconhecia seus erros.

A situação de Antonina mudou. De madrasta, quase mãe, passou a ser mulher do enteado, irmão dos seus quatro filhos, por parte de pai. Júnior passou a ser padrasto dos irmãos e ao mesmo tempo marido de Antonina, que antes era sua madrasta e mãe dos seus irmãos. Antonina agora era a mulher do enteado, quase filho. Os quatro filhos que teve com Zé Bento eram irmãos por parte de pai de Júnior, que, por conseguinte, passou a ser o pai deles. Júnior passou a ser padrasto dos seus irmãos e marido da “madrasta”.

Zé Bento não se conformava de ser sogro de Antonina, sua ex- mulher. Nem com o fato dela ser mulher do seu próprio enteado, quase filho.

Passou a viver embriagado, e a toda hora comentava com os companheiros de copo que essa história era de arrombar…

Já não sabia quem era ele…

Para aumentar a confusão, Antonina e Júnior tiveram um filho homem, neto dela e de Zé Bento. Com essa, o homem esclerosou de vez.

O caso foi igual ao drama vivido por um homem, que passou por situação semelhante e resolveu morrer, por não saber mais quem era.

Quando a cabeça não pensa, o corpo padece.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 20 de abril de 2019

O APELO

 

 

O APELO

 

“UMA ESMOLINHA, PRA MINHA MÃE JEJUAR NO DIA D’HOJE!!!”

Nunca esqueci esse triste apelo, ouvido das crianças que pediam esmolas, de porta em porta, em Nova-Cruz, na Quinta-Feira Santa e na Sexta-Feira da Paixão. Aos meus ouvidos, esse apelo soava como um lamento cheio de dor.

Na sala da nossa casa, ficavam dois sacos grandes, um com brote, outro com bacalhau. Eram as esmolas que minha mãe distribuía aos pedintes, durante a Semana Santa, especialmente na quinta e na sexta-feira. A distribuição começava de manhã cedo, sem hora para terminar.

 

 

 

Nessa época, começo da década de 60, bacalhau era produto de baixo custo. Não chegava a Nova-Cruz o bacalhau de 1ª qualidade.

A Semana Santa, principalmente para os católicos, era uma época triste e sombria. O martírio de Nosso Senhor Jesus Cristo era revivido com respeito.

Para começar, não havia aula durante a Semana Santa. Não se ouvia música profana; ninguém chamava “nome feio”, e ninguém brigava. Era um período de reflexão, arrependimento e orações.

Na Quarta-Feira de Trevas, que antecede o martírio de Jesus, parecia que o mundo estava de luto, com a perspectiva de que no dia seguinte começaria o seu Calvário. Na Igreja lotada de fiéis, era rezado o “Ofício das Trevas” , no final da tarde,

A crendice popular era tão forte, que grande parte do povo da roça chegava ao ponto de não tomar banho na Quarta-Feira de Trevas, achando que era pecado e temendo ficar entrevado. Foi preciso a intervenção de Frei Damião, numa das “Santas Missões” que costumava fazer na cidade, para convencer o povo da roça de que não era pecado tomar banho na Quarta-feira de Trevas. E o Santo Frade Capuchinho, sempre terminava seus sermões, pela manhã, dizendo:

-Agora, vocês voltem para suas casa, e vão tomar banho!!! Não quero que cheguem aqui na Igreja mais tarde, fedendo a “bacurim”!

Na Quinta-Feira Santa, quando se revive a traição de Judas durante a Última Ceia, sentia-se na cidade o clima de tristeza e solidariedade. Era o começo do martírio de Jesus, que carregaria sua Cruz até o Calvário ou Gólgota, colina na qual seria crucificado e que, na época, ficava fora de Jerusalém.

Fazia parte da cultura nordestina, o furto de galinhas, na Sexta-Feira da Paixão, para servir de tira-gosto aos cachaceiros de plantão. Essa brincadeira grosseira, detestada pelas donas de casa, quase sempre era praticada por turmas de amigos, que gostavam de farrear.

Para se precaver dessa prática desalmada, à tardinha, as donas de casa mais cuidadosas transferiam as galinhas, do galinheiro para um quarto dentro de casa.

Na Semana Santa, as comadres da minha mãe, que residiam na zona rural, traziam-lhe beijus de goma com coco de presente, feitos em Casa de Farinha. O cheiro e o gosto desses beijus, eu nunca esqueci.

A partir da 4ª feira de trevas, não se comia carne. O almoço era na base de bacalhau, peixe, ou fritada de sardinha “Coqueiro”, feijão e arroz de coco.

Na Sexta – Feira da Paixão, Jesus estava morto e a imagem do seu corpo ficava em exposição na Igreja, durante todo o dia. Formava-se uma fila interminável, para que os fiéis o beijassem. Era o chamado dia do “beija”.

Nesse dia triste, eram obrigatórios, de acordo com os preceitos da Igreja Católica, o jejum e a abstinência de carne e bebidas alcoólicas.

As rádios só transmitiam músicas sacras ou clássicas. Não se ouvia o apito do trem, pois ele não trafegava. Não havia entrega de leite dos currais, pois não se tirava leite naquele dia. Não se comercializava nenhuma mercadoria, em respeito ao sofrimento de Jesus Cristo, traído por Judas, em troca de 30 moedas.

Os clubes sociais, os bares ou outros ambientes de entretenimento também não funcionavam.

A tristeza só desaparecia no Sábado de Aleluia, que revive a expectativa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nesse dia, havia a malhação de Judas, um boneco/homem, de palha ou de pano, em tamanho natural, que era exposto em praça pública, para ser castigado. por ter traído Jesus.

A malhação ou queima de Judas é uma tradição vigente em diversas comunidades católicas e ortodoxas, que foi introduzida na América Latina pelos espanhóis e portugueses. É também realizada em diversos outros países, sempre da Sexta-Feira da Paixão para o Sábado de Aleluia, à meia noite. Simboliza a morte de Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Jesus.

A liturgia da Páscoa, ou passagem, ocorre na madrugada do Sábado de Aleluia para o Domingo.

No Domingo de Páscoa, a data mais importante do calendário cristão, comemora-se a Ressurreição de Cristo, três dias depois de sua morte. Esse é o maior motivo e fundamento da Fé cristã.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 13 de abril de 2019

O QUINTAL

 

O QUINTAL

 

A casa da minha infância, em Nova-Cruz (RN), era vizinha à de Dona Júlia, minha avó paterna, onde havia um enorme quintal. Eu acordava cedo e corria logo para lá, ao encontro das goiabeiras, colher as minhas frutas preferidas.

Minha avó sempre dizia que eu iria ficar com o pescoço defeituoso, de tanto olhar para cima, procurando goiaba. No quintal, havia uma vara com um gancho, próprio para esse fim, o que facilitava o trabalho, quando as goiabas brotavam nos galhos altos. As mangas caíam sozinhas.

Eu vivia com os pés cheios de frieira, pois, contrariando as ordens da minha mãe e da minha avó, eu entrava descalça no chiqueiro dos porcos, onde também havia pinhas maduras. Sem as sandálias, podia subir melhor nas pinheiras.

O chiqueiro dos porcos, no interior nordestino, é uma fonte de micoses e fungos. Os porcos são animais injustiçados. Os criadores inventaram que eles são sujos e não tem paladar. Por isso, os criam na lama e os alimentam com restos de comida. São criados no desconforto, com fama de mal-cheirosos e sujos. No Sul, o tratamento dado aos porcos é diferente. As pocilgas são amplas e limpas.

Está provado que os porcos nunca utilizam o local em que comem e dormem, para fazer suas necessidades fisiológicas. Isso só acontece quando não há espaço suficiente. Eles adoram tomar banho dentro d’água. Deitam-se na terra molhada, porque não conseguem transpirar. São, praticamente, obrigados a se deitar na lama.

Voltando à “Frieira”, ela provocava uma coceira desesperadora e incontrolável nos pés, principalmente entre os dedos. E eu coçava até sangrar… Às vezes, os pés ardiam tanto, que se tornava impossível até o uso de chinelo.

“A frieira é uma infecção provocada pelos fungos Trichophyton mentagrophytes ou Trichophyton rubrum, que ataca preferencialmente a sola dos pés e os espaços entre os dedos. Conhecida também como tinea pedis ou pé de atleta, a frieira é a micose de pele mais comum no mundo. “

Certa vez, meus pés ficaram tão inflamados, e com o aspecto tão feio, que o “Unguento Maravilhoso”, vendido na farmácia de Nova-Cruz, não estava mais surtindo efeito. Por sorte, coincidiu que, à noite, Nova-Cruz seria palco de um grandioso comício, com a presença do renomado médico norte-riograndense, Dr. Vulpiano Cavalcanti, líder do antigo Partido Comunista Brasileiro, posteriormente transformado em PC do B (1962).

Depois desse esperado comício, meu tio Paulo Bezerra, correligionário e amigo pessoal do Dr. Vulpiano Cavalcanti, levou-o para jantar em sua casa, que era vizinha à nossa.

Tio Paulo aproveitou a ocasião e também o levou até a nossa casa, para ver o estado dos meus pés. À luz de candeeiro, Dr. Vulpiano Cavalcanti examinou meus pés e prescreveu uma fórmula, a ser manipulada em Natal, com urgência, para ser aplicada sobre eles três vezes ao dia, e durante 60 dias. Foi um santo remédio.

A partir de então, para minha tristeza, fui definitivamente proibida de andar de pés descalços no quintal da casa de Dona Júlia.

Mas, esse quintal nunca saiu dos meus sonhos e faz parte das minhas saudades. Era um paraíso particular, onde, de manhã cedo, ouvia-se o cantar dos passarinhos e se sentia o cheiro das frutas frescas, misturado com o cheiro do mato verde.

Ainda hoje, sofro da nostalgia do quintal, recanto sagrado que faz parte das lembranças da minha infância.

Tenho pena das crianças que, na vida moderna, não desfrutam mais das coisas da natureza e não sabem como é gostoso brincar num quintal. Elas não conhecem a paz que existe nesse recanto do paraíso, cujo cheiro nos acompanha por toda a vida, povoando nossos sonhos.

Toda criança precisa conhecer um quintal, onde possa brincar, correr, saborear uma fruta colhida por ela mesma, e onde possa, de manhã cedo, ouvir o cantar dos passarinhos, o “có có có” das galinhas “de verdade” e o “glu glu glu” dos perus.

Longe desse insensato mundo do Celular e da Televisão.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 06 de abril de 2019

E O DESTINO DESFOLHOU

 

 

“E O DESTINO DESFOLHOU”

 

Esse é o título de uma linda valsa, uma das preferidas do meu pai. Quando eu era menina, sempre o ouvia solfejá-la. Descobri agora, pesquisando, que é da autoria de Gastão Lamouner (1893-1984) e Mário Rossi (1911-1981) – gravação de Carlos Galhardo (ODEON- 1938).

 

Houve uma época, quase na década de 60, em que estava na moda as moças estudarem acordeon (sanfona). Em Nova-Cruz, foi uma verdadeira “coqueluche”. Minha mãe comprou uma sanfona para a minha irmã Ana Maria e contratou o Mestre da Banda de Música de Nova-Cruz, para ministrar aulas a ela e à outra minha irmã, Valéria. Elas estudavam pelo “Método de Acordeom”, de Mário Mascarenhas”. Nesse Método, entre inúmeras músicas, também constava a valsa “E o Destino Desfolhou”, de que meu pai tanto gostava.

Por ser eu a caçula, ou talvez por economia, não fui matriculada na aula de sanfona. Tampouco, podia chegar perto dela, com a desculpa das minhas irmãs de que eu iria desafiná-la.

Irmã caçula sofre muito…Todos achavam que eu era muito criança para estudar acordeon. Sentindo-me injustiçada, quando eu me via sozinha em casa, a primeira coisa que eu fazia era colocar a sanfona no colo e tentar aprender a tocar de ouvido. E aprendi a tocar, quase com perfeição, todas as músicas que minhas irmãs estudavam pela partitura,com aulas diariamente, das 13 às 14 horas. Eu me “babava” de inveja, mas não tinha coragem de reclamar. Só não entendia por que não me foi dado o direito de também estudar acordeon. Seria pecado ser caçula??? Mas isso não me impediu de aprender a tocar, mesmo de ouvido.

Conheço pessoas que só tem orelha. Mas tenho certeza de que, além de orelha, eu também tenho “ouvido”. E dei prova disso. Aprendi a tocar sozinha. Aliás, o Nordeste é berço de excelentes sanfoneiros, que aprenderam a tocar sozinhos, de ouvido. São coisas de Deus…

Certa vez, no Cinema Éden, do meu tio Paulo, foi organizado um “showmício”, em homenagem a um determinado candidato a governador do Estado do Rio Grande do Norte. Luiz Gadelha, conhecido político de Nova-Cruz e marido da minha tia Nazinha, foi o organizador. Pensando que eu também estudava acordeon, perguntou-me se podia incluir meu nome na pauta das atrações musicais que fariam parte do show. Eu disse que sim, só por danação, e que só não poderia levar a sanfona. A música que eu escolhi para tocar foi “E o Destino Desfolhou”, que minhas irmãs tocavam por partitura e eu aprendi “de ouvido”. Mas, na nossa casa, ninguém sabia disso.

Pois bem. No dia do “showmício”, o cinema do tio Paulo ficou lotado.

Luiz Gadelha, fazendo as vezes de apresentador, começou a anunciar diversos números artísticos. Houve poesias, cantorias, e chegou a minha vez de tocar. E ele anunciou:

“Ouviremos, agora, um número de acordeon!!! Com a garota Violante, a valsa “E O DESTINO DESFOLHOU”. Silêncio total…

Subi no palco pela entrada lateral e sentei-me em uma cadeira que já me esperava. Luiz Gadelha me acompanhou, trazendo a sanfona de um dos músicos e colocou-a sobre o meu colo.

Toquei calmamente, como se estivesse sozinha em casa. Não enxerguei ninguém na plateia. Nem meus pais, que estavam nas cadeiras da frente. O Mestre da Banda de Música , professor de acordeon das minhas irmãs, levantou-se e me acompanhou com o Saxofone, numa verdadeira apoteose interiorana. Sinal de que eu estava tocando bem. Só dei por mim, quando estrondaram os aplausos do “respeitável público”.

Desci do palco por onde eu tinha entrado e corri para junto de Dona Lia e Seu Francisco, que me abraçaram fervorosamente. Meu pai estava chorando, emocionado com a surpresa de me ver tocar, e ainda por cima, a música que ele adorava, “E O DESTINO DESFOLHOU”.

Minha mãe ainda estava tensa, com a surpresa de me ver subir ao palco e tocar, sem ainda ter sido aluna do Mestre da Banda de Música, como minhas duas irmãs.. Ela comentou que, ao ouvir Luiz Gadelha anunciar o meu nome, pensou que ele houvesse se confundido. Com certeza, quem iria apresentar o número de acordeon seria Ana ou Valéria, alunas do Mestre da Banda de Música .E quando me viu entrar no palco, com Luiz Gadelha atrás de mim trazendo uma sanfona, gelou… Esperou que a apresentação fosse um fracasso, coisa de menina danada. Mas foi um sucesso…

Dona Lia adorava contar essa história…


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 30 de março de 2019

UMA LUTA INGLÓRIA

 

 

UMA LUTA INGLÓRIA

 

Acabou-se o tempo em que a vaidade era requisito exclusivamente feminino.

Décadas atrás, ouvi meu avô materno dizer que perfume de homem era o suor. No seu entender, homem de verdade não usava perfume, pois isso era coisa de mulher.

Com a modernidade, o homem passou a ser concorrente da mulher, em matéria de vaidade e também na luta contra a velhice. A vaidade física dos dois é a mesma, a começar

pela pintura dos cabelos e tratamentos em busca de rejuvenescimento.

Minha avó materna, a poetisa Anna Lima, respondendo sobre o que mais temia na vida, disse:

“O que mais temo na vida é a velhice caprichosa/ que faz da moça bonita/ uma carcaça horrorosa/ uma megera maldita”. Palavras fatídicas.

As mulheres detestam dizer a idade, muito mais do que os homens. Todas temem o envelhecimento.

Quando a fachada facial começa a dar sinais de que ela já não tem 24 anos, a mulher entra em ação, para camuflar o início da maturidade. E quando se torna impossível esconder as primeiras rugas, a mulher vaidosa procura logo uma solução, recorrendo aos cosméticos antirrugas ou ao esteticista. Se tiver boa condição financeira, apela para os modismos: “botox”, “pelling”, e, por fim, cirurgia plástica, recursos que cooperam, de forma mais que perfeita, com “as farsas” contra o envelhecimento. E a luta continua, até que se esgotem todos os recursos possíveis e imagináveis, na preservação da juventude.

Mesmo assim, chega um dia em que o prazo de validade da juventude se esgota. E o tempo de vigência da beleza física também.

Pois bem. Matilde era esposa de um político importante do Rio Grande do Norte, e chegou a ocupar o “posto” de 1ª dama de uma importante cidade. Muito vaidosa e rica, todos os anos viajava ao Rio de Janeiro, para “pedir socorro” ao mais famoso cirurgião plástico da época, na luta contra o envelhecimento. A força dos anos pesava sobre ela como uma maldição.

Ao longo de mais de dez anos, submeteu-se a várias cirurgias plásticas e sempre voltava do Rio com cara de menina, “passível de pegar sarampo”. Rosto esticado, silhueta elegante, mas já sem a leveza do andar, própria da juventude.

Induvidosamente, toda luta tem começo, meio e fim. Chega um tempo em que, realmente, a velhice caprichosa “ faz da moça bonita uma carcaça horrorosa, uma megera maldita”.

Matilde, ao se aproximar dos 80 anos, já havia se submetido a todas as cirurgias plásticas que a medicina permitia. Passou por todas as recauchutagens possíveis e imagináveis. Nem o moderno “botox” resolvia mais. Só fazia efeito dois meses e a pele arriava novamente.

Finalmente, na sua última viagem ao Rio à procura de socorro, seu cirurgião plástico usou de franqueza e lhe disse que sua verdadeira idade não lhe permitia mais nenhuma cirurgia plástica. Sua pele estava completamente flácida e não tinha mais elasticidade para ser esticada.

O mundo desabou sobre a cabeça da vaidosa Matilde. Revoltou-se com o médico, mas teve que se conformar. Dessa vez, voltou à sua cidade, sem ter feito nenhum procedimento para rejuvenescer. Olhava-se no espelho, sentia-se uma múmia, e não se conformava com o “veredicto” do famoso médico, de que não adiantava mais fazer plástica.

Não havia base nem pó de arroz que escondesse as rugas do seu rosto. Quem a conhecia sabia que ela tinha sido uma mulher linda, chique e adorada pelo marido, que fazia questão de alimentar a sua excessiva vaidade.

Matilde entrou em depressão e foi obrigada a fazer terapia, para tentar aceitar a velhice.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 22 de março de 2019

UMA VACA PARIDA

 

UMA VACA PARIDA

Violante Pimentel

 

Desde criança, em Nova-Cruz (RN), eu era acordada por Dona Lia, minha mãe, às 5 horas da manhã, para tomar leite cru no curral de Seu Leó. Depois, passamos para o curral de Seu Manoel Silvestre, onde o ordenhador avisava:

 

– Leite com "dote" é mais caro, porque não faz espuma.

 

Ele queria dizer "Toddy", um dos achocolatados mais antigos do Brasil, e, na época, o mais usado. Meu copo de 500 ml era de alumínio e eu o tomava completamente cheio. E sem "dote". Gostava do leite com açúcar e muita espuma.

 

A Toddy foi fundada em 1916 pelo porto-riquenho Pedro Santiago.

 

Em 15 de março de 1933, Pedro Santiago obteve licença do governo provisório de Getúlio Vargas, para comercializar o produto no Brasil.

 

Vim para Natal, aos 15 anos, para estudar na Escola Normal. Trouxe comigo, entre as minhas saudades, a saudade do leite cru da minha infância, tomado na companhia da minha mãe e irmãs. Perdi, para sempre, o convívio com aquela folia gostosa do curral, quando tomava leite cru, tirado diretamente do "peito da vaca", em ordenha manual.

 

Esse afastamento faz parte das minhas lembranças e das minhas perdas. Parece infantilidade, mas não é. Com a minha vinda para Natal, distanciei-me de um dos melhores costumes da minha terra, que era essa ida ao curral todas as manhãs, quando o sol estava raiando.

 

Mesmo passando as férias escolares em Nova-Cruz, a vida foi mudando seu rumo, e o rumo foi mudando a minha vida. Nas férias escolares, cheguei a ir algumas vezes ao curral de Seu Miguel Silvestre, mas sem a mesma euforia do meu tempo de criança.

 

Meu plano era terminar o curso pedagógico e voltar para Nova-Cruz, para exercer o magistério. Mas a roda-viva do cotidiano mudou tudo. Casei-me aos 18 anos e continuei morando em Natal.

 

Meu marido tinha um irmão, que morava, e ainda mora, em São Paulo, e é proprietário de uma chácara no município de Pereiras, a duas horas da capital paulista. Logo que casamos, fomos a São Paulo, juntamente com a minha sogra, visitar esse seu irmão. No fim de semana, fomos a Pereiras, conhecer a chácara.

 

Minha surpresa foi grande, quando chegamos nesse local abençoado. Eu não sabia que na chácara do meu cunhado havia algumas cabeças de gado, incluindo uma vaca parida. À tardinha, ele nos convidou para tomar leite cru, e eu me esbaldei. Matei a saudade do leite cru de Nova-Cruz, do curral de Seu Leó e do curral de Seu Miguel Silvestre.  Lembrei-me do aviso do ordenhador, palavras que nunca esqueci:

 

– "LEITE COM "DOTE" É MAIS CARO"! Porque "Dote", não deixa o leite espumar! "

 

Em Pereiras, eu, meu marido, minha sogra, meu cunhado e sua namorada tomamos leite-cru até topar.

 

Foi gratificante o meu reencontro com o leite cru, tirado "do peito da vaca", na hora. Leite puro, sem ser "batizado" com água, e sem aditivos químicos para conservá-lo, como acontece com o leite atualmente. O leite " in natura" é inigualável. Por mais cara que seja a marca do leite pasteurizado e industrializado, nenhum tem o seu sabor.

 

O progresso modificou tudo, trazendo danos à saúde do consumidor e aumentando o lucro do produtor. Prejudicou o povo com os aditivos químicos e hormônios, que complementam a ração do gado, mas provocam doenças da moda, como "intolerância à lactose".

 

Para quebrar a harmonia do fim de semana em Pereiras, assustei-me com os gritos de pavor da namorada do meu cunhado, dono da chácara, que estava tomando banho e saiu do banheiro toda molhada e enrolada na toalha, chorando, como se tivesse visto uma assombração. A moça, criada na capital, aterrorizou-se com a presença de uma inofensiva rãzinha, agarrada à parede do banheiro. Não estava acostumada com sapos, rãs, grilos e outros bichinhos que vivem no mato.

 

Minha sogra, mais que depressa, preparou-lhe uma garapa, para que se acalmasse.

 

Eu, acostumada com os sapos e enormes Cururus de Nova-Cruz, quando entendi do que se tratava, tive uma crise de riso, no que fui acompanhada por meu marido. Saímos da sala e fomos rir bem distante da casa. Nunca tinha visto tanto "fricote" na minha vida, como diria minha mãe.

 

O tempo passou e hoje, quando ouço pessoas amigas, falando em comprar apartamentos novos, carros importados, IPHONE e IPAD, fico rindo e confesso que o meu sonho de consumo continua sendo uma vaca parida, para eu poder tomar leite cru à vontade.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 15 de março de 2019

O CENTRO DA TERRA

 

 

O CENTRO DA TERRA

 

Quando alguém perguntava, aos antigos sábios, onde ficava o Inferno, de pronto, eles respondiam:

– O INFERNO FICA NO CENTRO DA TERRA.

E citavam a existência dos vulcões.

Nessa época, os vulcões eram temidos, como se fossem a cozinha do Inferno. E ninguém queria ser condenado a arder numa fornalha.

Séculos se passaram e o inferno, até hoje, continua sendo no centro da terra, povoado por assassinos, ladrões, estupradores, pedófilos, assaltante etc.

O tempo levou consigo os sábios de antigamente, que tinham inspiração divina. Mas a resposta deles, com relação à localização do inferno, ainda prevalece.

Nos dias atuais, a televisão e a Internet trazem para dentro de nossas casas, notícias piores do que a erupção de um vulcão. São verdadeiras comédias humanas, tragédias que aterrorizam crianças, adultos e idosos.

Acordamos com as notícias do inferno dentro de nossas casas. Além da violência das ruas, entre os humanos, aumentou assustadoramente o índice de violência doméstica, assaltos e crimes de toda espécie. Desapareceu a tranquilidade do povo, que vive assustado, mesmo quando trancado em apartamentos de luxo e condomínios fechados, verdadeiras “gaiolas douradas”.

Paralelamente, tem aumentado o índice de desastres ecológicos, acidentes aéreos e tragédias que destroem vidas humanas.

O homem está acuado, com medo, e preso em gaiolas de ouro, enquanto os bandidos estão soltos, invadindo bancos e escolas, dizimando vidas humanas.
O povo brasileiro está cansado de sofrer.

A tragédia de Brumadinho (MG), que, para os entendidos, foi anunciada previamente, mostrou que, para os ricos, uma vida humana não tem o menor valor.

E de quebra, hoje, o Brasil foi surpreendido com o massacre ocorrido em uma Escola Pública de Suzano (SP). Dois assassinos, ex-alunos, armados até os dentes, contra uma escola totalmente desarmada e de portas abertas. Mais uma tragédia, que chocou o povo brasileiro.

O povo anseia por notícias boas! Chega de indecência na televisão e nas ruas, vídeos imorais, violência nas redes sociais e baixaria!

Chega de se tentar tirar leite de pedra, procurando atrapalhar o novo Governo do Brasil, legitimamente eleito!

Apesar do sofrimento do povo brasileiro, ainda houve, em São Paulo, no ultimo carnaval, uma Escola de Samba, cujo samba-enredo homenageou o Demônio e humilhou Jesus Cristo, com coreografia agressiva à religião católica. Nota ZERO para essa Escola de Samba.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 08 de março de 2019

DEU A LOUCA NO MUNDO

 

 

DEU A LOUCA NO MUNDO

 

A palavra moda vem do latim “modus” e significa costume, maneira ou comportamento.

A evolução da moda e dos costumes, ao longo de décadas, indiretamente, tem contribuído para a degeneração dos valores morais da sociedade.

Entretanto, “para os anormais, tudo é normal”.

O modernismo atual resultou no culto ao que é “antinatural” e ao que se opõe aos costumes e aos princípios morais. Essa mudança conseguiu fazer, numa grande parte da população, uma verdadeira lavagem cerebral, no que se refere a tudo aquilo que envolve respeito à moral e aos costumes. No começo, houve um choque entre os costumes tradicionais e o modernismo considerado “indecente”, pelas pessoas conservadoras. Mas a maioria é quem manda…

 

Antigamente, no nordeste brasileiro, a moda chegava atrasada. Mas com a globalização, o modismo passou a influenciar as pessoas, imediatamente.

A televisão é uma verdadeira escola de novos hábitos e costumes, e a juventude tende a seguir os seus ensinamentos.

Pois bem. Certa vez, no início da década de 60, presenciei Dona Lia, minha saudosa mãe, que costurava muito bem, ficar sem graça, ao receber a visita de uma sobrinha que tinha chegado da capital. A jovem, de 17 anos, estava vestida com uma mini blusa de mangas compridas e uma calça bastante colada ao corpo, de cintura baixíssima, que mostrava o umbigo e boa parte do torso. Para Dona Lia, isso era falta de pudor. Ela considerava o umbigo uma parte sagrada do corpo, pois estava ligada ao parto.

Horrorizada com a exposição do umbigo da sobrinha, Dona Lia, muito franca, não se conteve e disse:

– Minha filha, você se vestiu tão bem, mas deixou de fora seu umbigo?!!!

Resposta da sobrinha:

– É calça “Saint-Tropez”, tia! É a última moda!!!

Dona Lia respondeu que considerava aquela roupa uma indecência. Para ela, o umbigo era quase uma parte genital. Era falta de pudor, deixá-lo à mostra.

A resposta da jovem veio com estupidez:

– A SENHORA É DE 12… “ (Xingamento usado, na época, pelos jovens, para agredir as pessoas mais velhas e conservadoras) .

Deu uma rabissaca e deixou a tia falando sozinha.

Minha mãe ficou chocada com isso. Nunca imaginou que fosse chegar o dia em que as moças se cobririam todas, mas deixariam à mostra o umbigo. Nunca tinha visto uma indecência tão grande!!!

Pouco tempo depois, surgiram outros modismos que escandalizaram Dona Lia, como o “monoquíni”, “fio dental” “exposição de barriga grávida” (adotada pela saudosa atriz Leila Diniz) e a nudez mostrada na televisão.

Coisas muito piores, como as que acontecem atualmente, incluindo a desvirtuação total dos valores morais, ela não chegou a ver.

A cintura baixa foi uma novidade dos anos 1960, na forma da calça saint-tropez, que mostrava escandalosamente toda a região do umbigo. A parte da frente da calça, que tinha normalmente 30cm, passou a ter entre 10 e 20cm, alongando o desenho do torso. Este corte de calças durou mais alguns anos como parte da cultura hippie, nos anos 1970. A região francesa onde foi lançada essa moda, emprestou seu nome ao novo tipo de calça.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 01 de março de 2019

O HOMEM NA LUA

 

 

O HOMEM NA LUA

Violante Pimentel

 

 

A chegada do homem na Lua, que completará 50 anos no dia 20 de julho do corrente ano, marcou um dos ciclos da corrida espacial, disputada entre os Estados Unidos e a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

A Apolo 11 foi um voo espacial tripulado norte-americano, responsável pelo primeiro pouso na Lua.

A ficção se confundiu com a realidade. Na tarde de 16 de julho de 1969, a nave Apollo 11, que foi lançada de Cabo Canaveral, na Flórida (EUA), levou à órbita da Lua os astronautas Neil Armstrong, Edwin "Buzz" Aldrin e Michael Collins. Quatro dias depois, Armstrong entrou para a história, como o primeiro ser humano a pisar na superfície lunar.

 

O comandante Neill Armstrong e o piloto Buzz Aldrin pousaram o módulo lunar Eagle em 20 de julho de 1969 às 20h17min UTC. Armstrong foi, portanto, o primeiro homem a pisar na Lua seis horas depois já no dia 21, seguido por Aldrin vinte minutos depois. Os dois passaram aproximadamente duas horas e quinze minutos fora da espaçonave e coletaram 21,5 quilogramas de material para trazer de volta à Terra. Michael Collins pilotou sozinho o módulo de comando e serviço Columbia na órbita da Lua, enquanto seus companheiros estavam na superfície. Armstrong e Aldrin passaram um total de 21 horas e meia na Lua até reencontrarem com Collins.

 

"Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade" - foram as palavras proferidas pelo astronauta Neil Armstrong, enquanto descia do módulo aterrissado na superfície lunar, em 20 de julho de 1969. Ele tornou-se o primeiro ser humano a caminhar sobre a Lua, seguido pelo astronauta Edwin Buzz Aldrin, seu companheiro de missão. Esse momento histórico foi televisionado para o mundo todo. Cerca de um bilhão de pessoas assistiram a essa memorável cena, testemunhando o que viria a ser uma das maiores conquistas tecnológicas de todos os tempos e um marco do progresso científico. A chegada do homem ao solo lunar foi uma conquista obtida na corrida entre os Estados Unidos e a Rússia (na época ainda União Soviética), as duas potências econômicas que disputavam, em meio à Guerra Fria, a superioridade científica, tecnológica e cultural.

 

Os soviéticos saíram na frente, com o lançamento do satélite espacial Sputnik, em 1957 e no mesmo ano foram os primeiros a enviar seres vivos, como a cadela Kudriavka, e, logo depois, o astronauta Yuri Gagarin, ao espaço em 1961.

Sete anos depois, os norte-americanos comemoraram o pioneirismo, ao circunavegar a Lua e, no ano seguinte, a missão Apolo 11, tripulada por Michael Collins, Neil Armstrong e Edwin Aldrin, fincou a bandeira dos EUA na superfície da Lua, aos olhos estarrecidos dos telespectadores do mundo todo.

 

Em 1968, foi lançado o filme de ficção científica "2001: A Space Odyssey (2001: Uma Odisseia no Espaço), produzido e dirigido por Stanley Kubrick, coescrito por Kubrick e Arthur C. Clarke, baseado parcialmente no conto " "The Sentinel" do próprio Clarke. Um romance do mesmo nome, escrito concomitantemente com o roteiro, foi publicado logo após o lançamento do filme.

O filme lida com os elementos temáticos da evolução humana, existencialismo, tecnologia, inteligência artificial e vida extraterrestre.

A trilha sonora é belíssima, resultado da associação feita por Kubrick entre o movimento de satélites e os dançarinos de valsas, o que o levou a usar a valsa Danúbio Azul, de Jonhann Strauss II, e o famoso poema sinfônico de Richardd Strauss, Also sprach Zarathustra, para mostrar a evolução filosófica do Homem, teorizado no trabalho de Friedrich Nietzsche de mesmo nome.

Esse filme assombrou o mundo, e o sucesso foi enorme.

 

Pois bem. Em Nova-Cruz (RN), interior nordestino, conheci um senhor. Seu Josivaldo, ferroviário aposentado, que não acreditava em notícia de rádio, jornal ou televisão. 

Analfabeto de pai e mãe, para ele qualquer notícia extraordinária era pura mentira.

Josivaldo era um homem muito sério e mal-humorado. Certas coisas lhe pareciam absurdas. Parecia que em sua volta tudo fedia.

 

Foi assim com a notícia da chegada do homem na lua.

Ele esbravejava, para todo o mundo ouvir:

 

– Uma notícia mentirosa dessa, quem inventou devia ser preso. É coisa de Satanás!!!

 

Para Seu Josivaldo, certas coisas lhe pareciam absurdas. Uma delas foi a chegada do homem na Lua. Parecia que em sua volta tudo rodava. E com essa notícia de que o homem fora à Lua, quem saiu de órbita foi Seu Josivaldo. Desorientou o juízo mesmo. E não parava de gritar:

 

– Essa foi a maior mentira de todos os tempos!!! Deus ia permitir uma coisa dessa? Como é que o homem furou a Lua pra entrar???

 

E Seu Josivaldo morreu com mais de 90 anos, sem acreditar que o homem foi à Lua. Descrente como ele, ainda existe muita gente no interior nordestino.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 22 de fevereiro de 2019

O TELEGRAMA (PROFESSOR CLEMENTINO CÂMARA)

 

O TELEGRAMA

(PROFESSOR CLEMENTINO CÂMARA)

Violante Pimentel

 

Minha mãe me contou. Era um começo de noite em Nova-Cruz (RN), quando meu pai chegou do trabalho, trazendo um telegrama vindo de Natal.

 

À luz de candeeiro, ele leu o telegrama em voz alta, onde viu escrito:  "PROFESSOR CELESTINO MORREU." 

 

Minha mãe, filha de Celestino Pimentel, tomou o telegrama, leu novamente, e gritou: –Não foi meu pai que morreu!!! Aqui está escrito: "PROFESSOR CLEMENTINO MORREU".

 

Muito choro na sala, principalmente da minha avó Júlia, prima/irmã de Clementino Câmara e das tias que tinham estudado em Natal, na sua casa.

 

Sempre ouvi minha avó falar com muito carinho desse primo/irmão, que ficou órfão de pai aos dois anos de idade, e de mãe, aos nove. Apesar do pai ter sido senhor de engenho, dono de terras e escravos, depois de sua morte, a família passou sérias dificuldades.

 

Clementino Câmara Nasceu na Praia de Pipa, em Tibau do Sul (hoje, Município de Goianinha), a 17.01.1888

 

Dona Júlia, minha avó paterna, dizia que Clementino aprendeu a ler atrás da porta, ouvindo aulas particulares.

 

Ainda garoto, em Natal, começou a trabalhar como serralheiro e depois como operário de fábrica de tecidos (Patronos e Acadêmicos, V. II, p. 194 - Veríssimo de Melo). Aos 17 anos, em Natal, matriculou-se num Externato, completando sua alfabetização. Começou a ensinar aos próprios colegas de classe, que tinham mais dificuldade em aprender.

 

Aos 18 anos, ensinava particular nas residências e também na casa onde morava em Natal, na antiga Rua dos Tocos, cuja sala foi transformada em sala de aula.

 

Já casado, numa das aulas particulares, mandou para casa, por mau comportamento, o aluno JOÃO CAFÉ FILHO Motivo: Ao ser chamado à atenção, o aluno, muito insubordinado, deu "uma banana" à dona Hilda, esposa do professor. Na época em que não se dizia palavrão, esse gesto significava uma grande irreverência.

 

Professor Clementino nunca imaginou, que, décadas depois, esse aluno insubordinado chegaria à Presidência da República do Brasil, como chegou (Café Filho foi presidente do Brasil entre 24 de agosto de 1954 e 8 de novembro de 1955. Filho de Presbítero da Igreja Presbiteriana, foi o único potiguar e o primeiro protestante a ocupar a Presidência da República do Brasil (junto com Ernesto Geisel).

 

Professor Clementino Câmara tornou-se autodidata, dedicando-se à leitura de jornais e se interessando pela História do Brasil e do Rio Grande do Norte.

 

Firmando-se como professor particular, fez boas amizades e conseguiu emprego num jornal da cidade, chegando a trabalhar como redator.  Tempos depois, foi convidado para lecionar no Atheneu Norte-Rio-Grandense e posteriormente na Escola Normal, onde chegou a exercer o cargo de diretor.  Sua disciplina era História e Geografia do Rio Grande do Norte.

 

Publicou as seguintes obras: "Revelações", "Geografia e História do Rio Grande do Norte", "Décadas" e "Romance do Atheneu".

 

Clementino Câmara, além de professor, consciente das funções que exercia e da dedicação com que assumiu o magistério durante toda a sua vida, tinha dois posicionamentos não aceitos pela Igreja católica, nem pela forma de governo da época. Ele havia assumido sua função de intelectual, junto à Maçonaria e à Igreja Presbiteriana. Os dois posicionamentos se opunham aos princípios religiosos dominantes.

 

Pesquisou a linguagem popular e os costumes do povo do agreste, do campo e das praias, fazendo anotações, que se tornaram preciosas em sua vida literária. Transformou sua longa pesquisa em livro, ao qual deu o título de "GERINGONÇA DO NORDESTE." (1937)

 

Esse livro merece uma especial atenção, pelo fato de ter sido censurado durante o Estado Novo. O livro buscava tratar a questão do estudo realizado por Clementino Câmara, sobre os termos falados pelas classes populares do sertão, agreste e praias do Nordeste. Na verdade, era um grande dicionário de gírias populares e que, por se tratar de um patrimônio intelectual da cultura potiguar, deveria ser publicado pelo governo do Estado, com base na lei estadual 145, de 06.08.1900, que versava sobre o custeio de publicação de livros escritos por autores potiguares.

 

A recusa veio, então, pelo interventor Rafael Fernandes Gurjão, por meio do parecer emitido por uma comissão que julgara o livro como " INADEQUADO E ATÉ PERIGOSO" para os jovens que porventura o lessem.

 

Por falta de sorte, o requerimento foi parar nas mãos do Cônego Amâncio Ramalho, Diretor do Departamento de Educação do Estado e guardião dos interesses do Estado Novo, em se tratando de política educacional. O trabalho foi jogado no Arquivo Público Estadual, como se fosse lixo.

Cinquenta anos depois (1986), e muito depois da morte do grande Professor Clementino Câmara, esse processo, datado de 4.10.1937, foi localizado no Arquivo Público Estadual. Nele, o insigne Professor, invocando a lei estadual nº 145, de 6 de agosto de 1900, de incentivo à cultura, sancionada pelo então Governador Alberto Maranhão (V. "MARANHÃO, Alberto Frederico de Albuquerque", Século XIX), solicita a publicação do seu estudo sobre as classes populares do sertão, agreste e praias do Nordeste, onde colhera elementos para constituir um vocabulário típico e que, assim entendia, logo seria incorporado ao léxico. O Governador, à época Rafael Fernandes, que em pouco tempo seria Interventor, indeferiu o requerimento, face ao parecer contrário recebido. Entre outros argumentos, alegava-se o realismo de certas expressões "que não podiam cair em mão de pessoas de pequena idade". Não obstante, o Dr. Edgar Barbosa, um dos Membros da Comissão, aprovara-o, reputando-o como ótimo glossário de modismos, dos mais completos que já se editaram no Brasil. Acompanhando-o, apenas sugerira a exclusão de alguns termos; o terceiro membro, Sr. Véscio Barreto, omitira-se e o Cônego Amâncio Ramalho, na condição de Diretor do Departamento Estadual de Educação, encaminhara a decisão).

 

Cinquenta anos depois, "post mortem", ironicamente, o processo foi retirado do Arquivo Público Estadual, sendo o trabalho do Professor Clementino Câmara resgatado, estudado e usado como base de tese de pós-graduação, por aluno da UFRN. Somente assim, o trabalho de pesquisa do Professor Clementino Câmara foi reconhecido. Aprovada a tese, o autor, Geraldo Queiroz, publicou o livro GERINGONÇA DO NORDESTE, agora com o subtítulo A FALA PROIBIDA DO POVO. (Saiu a 2ª Edição - Natal-2009).

 

Na capa, não há referência ao nome do Professor Clementino Câmara, primeiro ocupante da Cadeira nº 19 da Academia Norte-rio-grandense de Letras (Patrono: Ferreira Itajubá) e Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

 

Hoje, Clementino Câmara é nome de rua, de escola e de Loja Maçônica, em Natal. Faleceu, nesta capital, em 18 de setembro de 1954.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho quinta, 14 de fevereiro de 2019

A INTRIGA

 

A INTRIGA

Violante Cavalcante

 

Bartolomeu passou muito tempo no Rio de Janeiro e, já beirando os 60 anos, voltou para sua terra natal, no interior do Rio Grande do Norte. Boêmio e seresteiro, reencontrou vários amigos da sua juventude e os encontros em mesa de bar tornaram-se diários.  Voltou do Rio de Janeiro, chiando e com uma boa economia financeira, fruto do seu trabalho em um Jornal. Veio disposto a viver a vida com que sempre sonhou:  "Sombra e água fresca". Queria, agora, somente tomar suas cervejas, conversar com os amigos e curtir serestas, onde ele mesmo era o melhor violonista e cantor.

 

Divorciado, preferiu permanecer sozinho, sem qualquer relacionamento sério. Bom de copo e de conversa, os amigos sempre aguardavam, com ansiedade, a sua chegada.

 

Certo dia, Bartolomeu sentiu um incômodo no pescoço e, muito assombrado com doença, foi depressa à casa do Dr.  Simplício, um médico antigo da cidade, que há anos estava aposentado.  O Dr. Simplício, disse-lhe que não estava mais clinicando, mas, por delicadeza, apalpou o pescoço de Bartolomeu, constatando alguns gânglios. Contundente, o médico sugeriu, então, que ele fizesse uma consulta com um médico moderno, na capital do Estado. Podia não ser nada e podia ser muita coisa. Por isso, era melhor prevenir do que remediar.

 

Bartolomeu ficou decepcionado com o Dr. Simplício e considerou uma grosseria o fato de ele ter se recusado a lhe receitar qualquer remédio.  E falou:

 

– O que é isso, Dr. Simplício?  Um médico bom, como o senhor sempre foi, não esquece nunca o que aprendeu no exercício da sua profissão. Não está vendo que eu não vou sair daqui para me consultar a um médico novo, que ainda não tem a sua experiência?

 

Bartolomeu reclamou tanto que o médico saiu do sério. E falou aborrecido:

 

– Olha, Bartolomeu, para mim é difícil dar um diagnóstico sem os exames que se fazem necessários. Por isso, eu insisto com você, para que vá a um médico em Natal, especialista em pescoço.

 

Bartolomeu não concordou com a sugestão do Dr. Simplício e disse que não iria a nenhum outro médico, muito menos em Natal.  Já tinha passado muito tempo longe de sua terra e de seus familiares, e não se afastaria mais dali por motivo nenhum.

 

Nessas alturas, o nervosismo tomou conta de Bartolomeu e ele perguntou ao médico:

 

– Se for câncer, quanto tempo terei de vida, doutor?  Pode dizer, pois não tenho medo de morrer!!!

 

Já irritado com a insistência de Bartolomeu, o médico sentenciou:

 

–Se for câncer, no máximo, seis meses.

 

Bartolomeu saiu arrasado da casa do Dr. Simplício. Não foi a nenhum centro adiantado para se consultar e continuou no interior, com a sua vida normal, de boemia e boas conversas com os amigos. Passou a usar no pescoço, todos os unguentos caseiros que lhe arranjavam, e, aos poucos, seu pescoço normalizou.

 

Quase um ano depois, Bartolomeu, completamente em forma, resolveu voltar à casa do Dr. Simplício, que lhe sentenciara, se fosse câncer, "no máximo, seis meses de vida". Lógico, que não era câncer. Sorte de Bartolomeu.

 

O velho médico costumava passar as tardes na janela de sua casa, olhando o movimento da rua.  Quando Bartolomeu vinha se aproximando, Dr. Simplício o reconheceu, saiu da janela e a fechou bruscamente. Humilhado, Bartolomeu foi ao encontro dos amigos que o esperavam no bar e contou a decepção por que tinha passado. Literalmente, o médico batera a janela na sua cara.

 

Um dos amigos saiu-se com essa tirada:

 

– Não se engane não, Bartolomeu. Esse Dr. Simplício ficou intrigado com você, somente porque você não morreu!!!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho quinta, 07 de fevereiro de 2019

A SOMBRINHA

 

A SOMBRINHA

Violante Pimentel

 

Rosilda e Josimar eram casados há bastante tempo e já caminhavam para as Bodas de Ouro. As duas filhas já estavam casadas e haviam lhes dado dois netos.

 

Certa vez, Rosilda tinha saído de casa para assistir à Missa das 6:30 h, como costumava fazer todas as manhãs.  Deixara o marido dormindo e todo coberto. A Igreja não ficava muito longe e dava para ir a pé.

 

Quando já tinha percorrido mais da metade do caminho, o tempo fechou e, como ainda era cedo, Rosilda resolveu voltar ligeiro, para buscar a sombrinha. Ao chegar em casa, abriu o portão da garagem e entrou.  Qual não foi sua surpresa, ao encontrar Josimar e a empregada da vizinha deitados no chão da garagem, transando loucamente. Ao vê-la, Josimar, nervoso, disse a célebre frase:

 

– Não é nada disso do que você está pensando!!!

 

Revoltada, Rosilda foi para a calçada, gritando para quem quisesse ouvir:

 

– Venham ver a cena que encontrei na minha própria casa! Olhem que tipo de marido eu tenho há 45 anos e não sabia!!! Ele é indigno de ter uma esposa como eu!!! Canalha!!! Bandido!!!

 

A empregada da vizinha saiu na carreira, antes que levasse uns bofetões de Rosilda.

 

Desesperada, a mulher telefonou para as duas filhas casadas, contando o que o pai delas tinha aprontado. Desde quando ele vinha fazendo isso, ela não podia imaginar!

 

Dentro de pouco tempo, as filhas chegaram e encontraram a mãe em estado de choque, dizendo que tinha vontade de matar "esse cabra safado"!!! Enquanto isso, o gostosão, safenado e beirando os setenta anos, chorava de vergonha, trancado no escritório.

 

As filhas tentaram acalmar a mãe, dando-lhe uma garapa e até uma dose de "Coramina".

 

Josimar era tão sonso, que, nem de banda, olhava para outra mulher, por mais bonita que fosse. Dizia sempre que, para ele, só existia Rosilda. Os dois eram considerados um casal exemplar.

 

Depois dessa decepção, Rosilda, dona de um gênio muito forte, separou-se de Josimar, que chegou a lhe pedir perdão de joelhos. As filhas imploraram à mãe que o perdoasse, mas não houve jeito.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 01 de fevereiro de 2019

NÃO POSSO VIVER SEM ELA

 

NÃO POSSO VIVER SEM ELA

Violante Pimentel

Estou só, e as lembranças não me deixam sossegada. Procuro desviar o pensamento, mas o redemoinho das recordações me perturba a mente.

Quero contornar essa ausência, neutralizar as lembranças, mas para mim é impossível. Sonhei com ela ontem, e hoje passei o dia todo sofrendo com saudade. Emocionalmente, sempre dependi dela, mas foi impossível continuarmos juntas. Ela enfraqueceu, tornou-se frágil, sem forças, incapaz de me enlaçar com firmeza. Não podia mais me envolver com o seu calor. Impossível evitar o final.

O tempo passou e chegou o momento da separação. Tive que substituí-la por outra. A cada minuto que passa, mais me dói a solidão. À medida que a noite avança, minha inquietação vai aumentando. Está demorando a amanhecer…

A noite está fria e a lua se escondeu com os seus mistérios. As estrelas, em solidariedade à lua, também se esconderam. As recordações longínquas ocupam minha mente. Sua quentura, seu aconchego e até o seu cheiro estão encravados em mim. Ardo de saudade dela, e chego a murmurar:

MINHA QUERIDA E ANTIGA COLCHA DE FLANELA, VOLTA PRA MIM!!!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho terça, 29 de janeiro de 2019

O NOIVADO

 

O NOIVADO

Violante Pimentel

Dona Nazinha , viúva, tinha uma filha única, Maria das Dores. Ficava louca de preocupação quando Felisberto, seu futuro genro, chegava em sua casa para “noivar”, todas as noites.

Nesse tempo, anos 60/70 do século passado, era tradição as jovens casarem virgens. Também não saíam sozinhas com o pretendente, nem para assistir Missa. Todo cuidado era pouco, e as mães não confiavam nem nas ”batatinhas”.

Astuciosa como todas as mães, Dona Nazinha, para acalmar sua neurose, instalou o seu velho piano na sala de visitas, e no horário nobre do namoro da filha, permanecia executando alguma partitura musical do tempo do “ronca”. Às vezes, para tormento do casal, a distinta senhora resolvia cantar, com sua voz estridente e feia, acompanhando-se pelo instrumento de estimação. Às suas costas, a filha e o noivo, no sofá, namoravam como podiam.

Certa noite, a educada senhora demonstrou cansaço e resolveu deixar o casal a sós, longe da sua fiscalização. Justificou-se, alegando estar com dor de cabeça e que iria tomar um analgésico para repousar. Não se rendeu, e de cinco em cinco minutos, posicionava-se perto da sala, para olhar como estava o “namoro” e ouvir o que os dois pombinhos conversavam. Mas, logo teve uma decepção. Cismada com o silêncio dos namorados, adentrou à sala e viu o casal em pé, abraçado, e num beijo de “desentupir pia”. Os dois nem sequer perceberam a presença de Dona Nazinha, que voltou para o quarto em pânico.

Mais que depressa, a mulher pegou um despertador e programou para que “despertasse” a cada 15 minutos, na entrada da sala. Na cabeça de Dona Nazinha, isso seria uma forma de interromper o que o casal estivesse fazendo. A cena se repetiu por várias noites, até que o noivo, não aguentando mais o controle da futura sogra, resolveu antecipar o casamento.

Para decepção de Dona Nazinha, cinco meses depois do enlace, sua filha foi mãe e ela foi avó de um menino. O impacto da mulher foi grande. Sentiu-se traída miseravelmente pela filha e pelo genro. Viu que fizera papel de idiota, ao tentar fiscalizar o noivado da filha e preservar a sua virgindade.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho segunda, 21 de janeiro de 2019

O CINE ÉDEN

 

O CINE ÉDEN

Violante Pimentel

 

Paulo Bezerra era o retrato vivo da generosidade. Foi um dos maiores empreendedores de Nova-Cruz, na metade do século passado. Nessa época, na cidade, não havia agência bancária, e os financiamentos para instalação de empresas eram uma utopia.

 

Paulo Bezerra era baixinho, (1,55m) e franzino, mas dono de um grande coração. Era um sonhador e acreditava no futuro. Suas ideias eram ímpares, e ele não contava com assessoria técnica, para lhe dar orientações. Foi o dono do 1º cinema de Nova-Cruz, o “CINE ÉDEN”, cujo palco também serviu à apresentação de peças teatrais e shows. Nesse palco, houve encenação da peça O Avarento, de Moliére, com a troupe do grande artista Procópio Ferreira, além de apresentações de outras companhias de teatro, conhecidas nacionalmente…

 

Além de ter sido o dono do primeiro cinema de Nova-Cruz, Paulo Bezerra também foi dono de uma Gráfica, a única da redondeza, e de um enchimento de bebida, onde ele mesmo fabricava, artesanalmente, Vinho de Jurubeba, que, na época, tornou-se famoso na região.

 

O Cine Éden possuía um prefixo musical, que anunciava o início do filme. “Estrondava” no recinto a Ópera “O Guarany”, de Carlos Gomes. A plateia fazia silêncio total, igual ao que deveria ser feito durante a execução do Hino Nacional. O filme, propriamente dito, era antecedido de episódios de seriados, como TARZAN e JIM DAS SELVAS.

 

A torcida e a gritaria da plateia infantil e juvenil eram grandes. Eufóricos, todos torciam pelos seus heróis.

 

Os projetores não passavam o filme inteiro, e havia intervalos, para que o “rolo” da fita fosse trocado. Fora a troca normal dos rolos de filmes, havia interrupções da projeção, porque a toda hora as fitas se quebravam, A gritaria da plateia era grande, e Ernesto, o encarregado da projeção dos filmes, era xingado de fdp a toda hora. Quando recomeçava a projeção, Ernesto era louvado e aplaudido.

 

Os filmes de Carlitos e os de “O GORDO E O MAGRO”, além dos clássicos com John Wayne, Gary Cooper, Bette Davis, Robert Mitchum e outros, garantiam a frequência dos amantes do cinema

 

Lindalva, esposa de Paulo Bezerra, era a vendedora dos “ingressos”, ou “bilheteira”. A ordem do marido era de que a bilheteria fosse fechada, logo que acabasse a fila de compradores. Simultaneamente, era aberto o portão lateral, que dava acesso à plateia 2, para que a turma da pracinha, que ficava ao lado da Igreja Matriz e em frente ao cinema, pudesse entrar, gratuitamente. Era a “hora dos lisos”, que ocupavam a plateia 2, mais perto da tela, e onde assistiam o filme sentados em bancos, ao invés de cadeiras. A intenção de Paulo Bezerra era beneficiar os pobres e descamisados. Entretanto, a afluência maior, na “hora dos lisos”, era de “pirangueiros”, que preferiam se arriscar a saírem do cinema com torcicolos, por ficarem mal sentados e olhando para cima, do que pagar ingresso para a Plateia!, onde havia cadeiras.

 

Nova-Cruz teve a honra de ter sido berço de Paulo Bezerra, um homem generoso e preocupado com os pobres, que poderia muito bem ser cognominado de “Pequeno Grande Homem”.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 20 de janeiro de 2019

MUITO MELHORADA

 

MUITO MELHORADA

Violante Pimentel

 

Dr. Francisco Santos, médico pernambucano, que trabalhava no Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), em Nova-Cruz (RN), nas décadas de 50 e 60, era um homem alto, forte, grisalho, muito vermelho, e simpático. A esposa era parteira e o casal era muito querido na cidade.  Além do atendimento no Posto de Saúde do SESP, na sua casa havia um consultório particular, onde ele atendia pacientes ricos e pobres, indistintamente. Consultava, também, a domicílio.

 

Se o doente não tivesse condições de lhe pagar nada, o atendimento era o mesmo, pois exercia a medicina como se fora um sacerdócio.

 

No atendimento em seu consultório particular, quando se tratava de uma paciente já adulta, o primeiro procedimento exigido pelo Dr. Francisco Santos era um exame ginecológico, feito na hora, antes mesmo de ouvir as queixas da doente, que, frequentemente, se resumiam à garganta inflamada, gripe, dor de estômago ou enxaqueca. Essa sua prática gerava comentários maldosos a seu respeito, e havia quem dissesse que isso fosse enxerimento. Entretanto, os seus dois netos, meninos de dez e doze anos, que passavam férias na sua casa em Nova-Cruz, acompanhavam pelo buraco da fechadura, esses exames ginecológicos, e saíam contando os detalhes aos amigos. Durante esses exames, os netos nunca viram no avô qualquer gesto ou atitude suspeita, que indicasse libidinagem, ou pretensão de se aproveitar das pacientes. Somente depois de muito tempo, o povo se conscientizou de que esse exame ginecológico, exigido pelo Dr. Francisco Santos naquela época, não passava de um exame preventivo, hoje tão comum e necessário.

Portanto, em Nova-Cruz, o Dr. Francisco Santos foi o precursor do exame para prevenção do câncer de útero e outras doenças ginecológicas. Até então, os exames preventivos eram desconhecidos em Nova-Cruz,

 

Uma noite, Dr. Francisco Santos recebeu um chamado, para atender, a domicílio, uma paciente cardíaca, que estava passando mal. O médico viu a gravidade do caso, mas como na cidade não havia hospital, o jeito foi tratá-la em casa mesmo, utilizando os recursos de que dispunha. Com muito esforço, conseguiu tirar a paciente da crise de falta de ar, e deixou a medicação para lhe ser dada novamente, depois de algum tempo.  Retornou à sua casa pela madrugada, preocupado com o estado de saúde da paciente, tendo recomendado ao marido que a levasse, com urgência, a Natal, para uma consulta a um cardiologista.

Mal amanheceu o dia, o médico foi acordado por alguém batendo palmas à sua porta. Era Seu Antônio, o marido da paciente, que viera lhe comunicar o seu falecimento, há alguns minutos. Surpreso e desapontado, Dr. Francisco Santos procurou palavras para confortar o pobre homem, que estava inconsolável, mas somente acertou dizer:

 

"Olhe, Seu Antônio, pode ficar certo de que sua esposa morreu, mas morreu muito melhorada!!! Aquele remédio que ela tomou era muito bom!!! "

 

O médico assinou o atestado de óbito da mulher e entregou ao viúvo, que saiu para providenciar o funeral, sem conseguir entender o significado daquelas palavras. Na sua ignorância, o homem chegou a comentar com algumas pessoas, que Dr. Francisco Santos lhe garantiu que sua esposa tinha morrido muito melhorada... 

Essa história se espalhou e virou piada.

Pouco tempo depois, o médico voltou para Recife, sua terra natal e de sua esposa, e o caso passou a fazer parte do folclore médico da cidade.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho segunda, 07 de janeiro de 2019

VIOLANTE E DAMARES: COINCIDÊNCIAS NO TRAJAR

 

Senhor Editor,

Boa tarde!,

Veja a coincidência nos “trajes”:

O meu, no lançamento de meu livro “Cenas do Caminho“, em Natal – 28.11.2018, na Academia Norte-Riograndense de Letras, e o da Ministra Damares Alves, no dia da sua posse…..rsrsrs.

Um abraço e um Feliz 2019!

COMENTÁRIO DE LUIZ BERTO, EDITOR DO JBF:

 

R. Minha querida amiga e ilustre colunista do JBF, não vejo motivo algum pra ficarmos espantados com esta coincidência.

É que este povo dos altos escalões governamentais é tudo ligado nesta gazeta escrota.

Eles acessam o JBF todos os dias, ávidos pra saber das fofocas e das novidades.

É evidente que a nova ministra leu aqui a postagem feita no dia 4 de dezembro passado, na qual aparecem fotos do concorrido lançamento do seu livro aí na capital potiguar.

Damares gostou, achou lindo e copiou o modelito que você usava no evento!

Simples assim.

É como eu sempre digo: neste JBF acontece de tudo e mais alguma coisa!

Pra encerrar, um dica:

Quem ainda não leu o excelente livro de Violante, é só fazer a solicitação no espaço dos comentários desta postagem que receberá em casa o seu exemplar autografado pela autora.

Sucesso, minha querida amiga!!!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 05 de janeiro de 2019

A CRISE

 

A CRISE

A rotina é a maior vilã que existe na vida conjugal. É tão perigosa quanto a infidelidade. Põe fim às paixões violentas, destrói a atração física e até a vaidade do homem e da mulher.

Marleide, casada há oito anos com Vítor, estava insatisfeita com a monotonia do seu casamento. Não tinham filhos, e ela se contentava em cuidar da casa e do marido. A paixão que os uniu já tinha se evaporado, no tempo e no espaço.

Recentemente, Marleide tinha lido numa revista, que o marido lhe trouxera, o benefício que as férias conjugais representavam para o casal em crise. Sobre o assunto, havia depoimentos de diversos médicos, inclusive de um psiquiatra, favoráveis a esse tipo de férias. Todos tinham a mesma opinião de que a insatisfação conjugal era responsável pelo aparecimento de várias doenças, inclusive gastrite e depressão.

Marleide era hipocondríaca e ficou impressionada com o que lera nessa revista, sobre o perigo das crises conjugais. Convencida de que um casamento fracassado poderia adoecer o casal, Marleide resolveu fazer a sua parte. Para tentar salvar seu casamento e preservar sua saúde e a do seu marido, estava decidida a tirar férias conjugais, por período indeterminado.

Para completar sua irritação, naquela tarde, Vitor lhe telefonou, avisando que, depois do trabalho, levaria seu amigo Tiago para jantar, e, por isso, ela caprichasse um pouquinho mais na comida.

Foi a gota d’água. Marleide achava Tiago intolerável. Pernóstico e falante, esse advogado tinha mania de grandeza. Vítor o bajulava, por ser ele de família de políticos. As conversas eram sempre as mesmas, e seu marido dizia “amém” para todas as suas opiniões. Transformara-se num puxa-saco de 1ª grandeza.

Irritadíssima, por Vitor não respeitar sua antipatia por Tiago, Marleide não fez jantar nenhum. Preparou uma bolsa de viagem, e se mandou para Fortaleza, onde residiam seus pais. Resolveu “dar um tempo” ao seu monótono casamento, e refletir sobre os seus sentimentos com relação ao marido. Deixou um bilhete em cima da mesa, dizendo que precisava de férias conjugais. Não disse para onde iria, nem quando voltaria.

Ao chegar em casa, sem amigo nenhum, Vítor não encontrou a esposa, como também não encontrou jantar preparado. Leu o bilhete da mulher e sorriu de felicidade.

Afinal, a revista funcionou… Era o que ele mais queria.

Feliz da vida, ligou para os amigos e foi comemorar sua liberdade.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 28 de dezembro de 2018

A FEDENTINA

 

 
A FEDENTINA

De uma hora para outra, a cozinha da casa de Joana e Mandurico começou a exalar um mau cheiro terrível! A patroa escalou a cozinheira para descobrir de onde vinha o odor fétido. Nada foi encontrado e o fedor persistiu. Foi a vez da copeira se encarregar de descobrir de onde vinha o mau cheiro. Ela e a cozinheira se empenharam na caça à catinga e não obtiveram êxito. Limparam a casa toda, os móveis, o fogão e a geladeira, mas o mau cheiro de coisa podre persistia. No dia seguinte, ainda estava pior.

No terceiro dia, quando Mandurico chegou do trabalho, ensaiou dar um escândalo com a mulher, por causa do mau cheiro que continuava. Não admitia uma coisa daquela, se ele pagava à cozinheira, arrumadeira, lavadeira e engomadeira, para não ter preocupação. Não tinha cabimento ele ainda encontrar a casa fedendo.

 

A mulher se voltou contra o marido, pondo a culpa no desleixo das serviçais. Ao mesmo tempo, reconheceu que estava sendo injusta com elas, pois, conjuntamente, tinham feito uma faxina geral na casa, todas empenhadas em descobrir o foco do mau cheiro.

Mandurico ameaçou dispensar todas as serviçais, caso o problema não fosse resolvido no prazo de 24 horas. Houve choro e uma revolta conjunta, das empregadas e da patroa.

A casa estava visivelmente limpa e encerada com Cera “Parquetina”; os móveis estavam lustrando e cheirando a óleo de Peroba, e o terrível mau cheiro persistia.

No dia seguinte, Joana acordou às cinco horas da manhã e trouxe dois vidros de perfume francês, de 100 ml, para ela mesma espalhar pela cozinha e pelo resto da casa.

Para Joana, o efeito do perfume foi ótimo. Neutralizou, momentaneamente, o fedor. Mas o marido não gostou. Ao descer para tomar café, ele mesmo saiu farejando pela casa toda, com um lenço tapando o nariz, para não vomitar. A mistura do perfume francês, com o mau cheiro entranhado na casa, irritou ainda mais Mandurico.

Aos gritos, o homem teve um acesso de raiva:

-Jogaram perfume numa ruma de cocô!!!

Muito irritado, o dono da casa começou a revirar a cozinha. Puxou todas as gavetas de um móvel, onde eram guardados os panos de prato, e, numa delas, encontrou um ninho de ratos mortos e podres.

Ele mesmo costumava, antes de ir dormir, colocar perto desse móvel alguns pedacinhos de queijo com raticida, para acabar com os ratos que invadiam a cozinha de sua casa, através de um pergolado.. Vinham de um terreno baldio, que havia ao lado. Pela lógica, os ratos comiam o queijo envenenado e entravam numa das gavetas do tal móvel.

A culpa foi do patrão.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 21 de dezembro de 2018

A NOVATA

 

 

A NOVATA

Era o final da década de 60. Maria tinha chegado de Nova-Cruz, pela manhã, para trabalhar como empregada doméstica, em Natal, na residência do casal Ângela e Nelson. Saiu diretamente das brenhas daquela cidade, para a capital, onde os costumes e até as comidas eram um pouco diferentes.

Antes da chegada do progresso ao interior nordestino, as jovens da roça chegavam para trabalhar em Natal, sem nunca terem visto Coca-Cola, geladeira, chuveiro,  ventilador, fogão a gás, ferro elétrico ou piscina.

A primeira vez que viu o mar, Maria perguntou à patroa, se aquilo era um açude do governo.

Ao ver a piscina da casa de um casal amigo dos patrões, ficou impressionada e confessou que, até aquele dia, nunca tinha visto um “barreiro” tão bonito (barreiro é um pequeno açude, feito para amenizar a seca nordestina).

Ao lhe ser oferecido, pela patroa, um copo de Coca-Cola, timidamente, Maria recusou, procurando se justificar:

– Eu não quero esse vinho, não. Tenho medo de ficar “beba”. E não houve jeito de tomar a Coca-Cola.

De água gelada, a moça disse que já tinha ouvido falar, mas nunca tinha visto. Mas não gostou de conhecer. Dizia que sentia dor nos dentes, com a frieza da água.

No dia em que Maria chegou em Natal, Ângela, a patroa, tinha feito uma caçarola de calda de ameixa, para decorar um pudim e um manjar, que seriam servidos no dia seguinte, aniversário do seu marido. Essa caçarola com a calda de ameixa, já pronta, passou o dia todo em cima do fogão, devidamente tampada.

A dona da casa passou o dia desempenhando outros afazeres e somente à noite desenformou o pudim e o manjar nos respectivos pratos. Em seguida, foi buscar a caçarola da calda de ameixa, para decorar as duas gostosas iguarias, que estavam “na moda”. Encontrou o fogão limpo, coberto com um pano bordado, e nem sinal da caçarola com a calda de ameixa. A patroa viu o referido utensílio doméstico lavado e pendurado no tripé de alumínio, na época, usado para esse fim. Imaginou que a nova empregada houvesse guardado a calda de ameixa em algum recipiente e procurou nos lugares onde poderia estar. Não a encontrando em lugar nenhum, a mulher resolveu chamar a empregada, que, por sinal, já estava recolhida aos seus aposentos. O jeito foi bater na porta do quarto de Maria, para perguntar onde ela tinha guardado o conteúdo da caçarola. A empregada levantou-se sonolenta e respondeu que não tinha mexido em nada; não sabia de nada, nem tinha visto nada daquilo, que a patroa estava lhe perguntando.

A dona da casa segurou a caçarola vazia e mostrou à empregada, dizendo:

-Maria, a calda de ameixa estava aqui, nesta caçarola que você lavou!!! Onde foi que você guardou?

A moça ficou pensativa, olhando para o teto da casa, como quem estava procurando a resposta. Parecia um aluno traquino, que não estudou a lição. e estava sendo interrogado pela professora.

Encabulada e sem olhar nos olhos da patroa, Maria perguntou:

– Dona Ângela, era um negócio preto, da cor de piche, com um caldo grosso, que “tava” dentro dessa panela, em riba do fogão?

Depois da patroa dizer que sim, Maria confessou:

-“Apois”, eu “avoei” tudo no mato. Pensei que fosse coisa “pôde” e não tive nem coragem de cheirar. Não sabia que aquilo se comia.

Ângela, mesmo contrariada, explicou que aquilo era uma calda de ameixa, que se usava para acompanhar sobremesas.

A resposta de Maria:

-Nunca ouvi falar, na minha vida, nessa tal de “almeixa”.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 14 de dezembro de 2018

SABUGO

 

 
SABUGO

Toda cidade do interior possui suas figuras folclóricas, cujas lembranças se eternizam na nossa memória. São figuras que nos causavam medo, mas, ao mesmo tempo, nos divertiam.

Em Nova-Cruz (RN), Sabugo era uma dessas figuras. Seu nome era Daniel, porém era mais conhecido por esse apelido, devido à cor da sua pele, meio rajada de sarnas, em cima de um branco desbotado. Nascera com um atraso mental, que o acompanhou por toda a vida.

Sabugo tinha loucura por caminhão. Passava horas sentado, em frente à usina de beneficiamento de algodão, observando o carregamento dos caminhões, que transportavam o produto para outros estados. Ficava fascinado com o barulho dos motores e vivia imitando esse barulho e a buzina, com a sua voz estridente. Já adulto, só andava correndo, girando os braços para frente e para os lados. simulando curvas, como se estivesse segurando a direção de um caminhão. Corria, freava, fazia de conta que ligava a ignição, e assim passava a maior parte do seu tempo, sem fazer mal a ninguém e vivendo num mundo imaginário.

Por brincadeira, certa vez, um mecânico, dono de uma velha sucata, deu-lhe “de presente” uma direção de caminhão, danificada e imprestável, que alguém havia jogado no lixão. Sabugo ficou radiante com o presente e seu gosto por caminhão aumentou mais ainda. Continuou correndo pelas ruas da cidade, agora muito orgulhoso, “dirigindo” seu caminhão imaginário, e imitando, agora com a voz ainda mais forte, a buzina e o barulho do motor.

Na sua debilidade mental, Sabugo se sentia possuidor de um caminhão, como se tivesse alcançado o seu maior ideal. Passou a correr mais ainda pelas ruas da cidade, feliz da vida, segurando a direção velha que ganhara de “presente”. Às vezes, chegava a se enveredar pela estrada afora, até se cansar e adormecer debaixo de alguma árvore frondosa.

Sabugo era conhecido em toda a redondeza e todos o protegiam, exceto os moleques de rua.

Quando ainda nem se falava em “bullyng”, Sabugo já era vítima dessa covardia. O seu apelido o deixava completamente perturbado, quando proferido em tom de deboche, pelos moleques da cidade, que o vaiavam sempre, ao vê-lo correndo pelas ruas, “dirigindo” seu caminhão imaginário.

Certo dia, diante das vaias humilhantes dos moleques, Sabugo teve uma reação inesperada. Cheio de ira, baixou o calção e, com a duas mãos, segurou os órgãos genitais, exibindo-os para o lado dos seus algozes. Essa reação se tornou frequente, sempre que era vaiado. Apesar dessa atitude obscena, que caracteriza crime de atentado ao pudor, Sabugo tinha o atenuante de ser inimputável, perante a lei.

Essa sua reação tornou-se frequente, sempre que os moleques da rua o vaiavam. Por ser portador de debilidade mental, as pessoas da cidade o defendiam e intercediam em seu favor, repreendendo a molecada canalha. Essa situação vinha passando incólume, até ser presenciada por um grupo de religiosas do Colégio de Nova-Cruz, causando um desmaio em uma das freiras, que precisou de atendimento médico. A partir de então, Sabugo foi levado para um hospital psiquiátrico em João Pessoa (PB), onde permaneceu em tratamento, durante vários meses.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 08 de dezembro de 2018

O INFRATOR

 

O INFRATOR

Josivaldo, CD (come e dorme), rapaz de família rica, estacionou o carro em local proibido. Um guarda de trânsito que estava de serviço, aproximou-se e exigiu do infrator a apresentação da Carteira de Habilitação e os documentos do carro.

Visivelmente alcoolizado, Josivaldo negou-se a apresentar os documentos solicitados e proferiu impropérios contra a autoridade do trânsito. Logo se formou uma platéia de curiosos e as gargalhadas ecoaram no ar.

Ao sentir-se apoiado pela platéia, Josivaldo se encheu mais ainda de razão. Aumentou o tom da voz e também os insultos contra o guarda, chegando a dizer:

– Homem vai te “rear”!!!

O guarda, então, usou dos seus direitos. Chamou uma viatura policial e conduziu o infrator à Delegacia Distrital.

O Comissário de plantão, muito mal humorado, quis saber o que tinha havido. O guarda de transito relatou que aquele homem havia estacionado seu veículo em local proibido, e se recusara a apresentar os documentos de praxe. Além disso, chegara a desacatá-lo, mandando-o “se rear”.

O Comissário encarou o infrator e perguntou o que o levado a desrespeitar as normas do trânsito.

A resposta foi rápida:

– Estaciono onde quero. A rua é pública. Se estiver achando ruim, vá se “rear” também!!!

A vontade do Comissário foi jogar o infrator no xadrez e mandar que lhe fosse aplicado um corretivo.

Com o Livro de Ocorrências na mão, o homem perguntou ao infrator:

– Qual o seu nome completo?

O infrator respondeu:

– Marcolino Alves.

O Delegado ia passando na hora e, ao ouvir o nome do infrator, gritou:

– Soltem esse homem, imediatamente!!!

A ordem foi cumprida e o infrator foi levado à sala do Delegado, que, muito nervoso, desculpou-se:

– O senhor está coberto de razão, por ter se chateado com o guarda de trânsito. Ele foi muito infeliz, tratando o senhor tão mal, por causa de uma infração de trânsito tão leve. Nós não o ensinamos a agir assim. Ele vai ser punido, por abuso de autoridade!!! O senhor é um homem fino e é da família do Governador!!! Queira desculpar!!!

Nesse ínterim, o Guarda de Trânsito já ia se afastar, quando o comissário perguntou:

– Pra onde o senhor está indo?

Humilhado, o Guarda respondeu:

– O infrator mandou que eu fosse “me rear” e é o que vou fazer, antes que a coisa complique pro meu lado.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 30 de novembro de 2018

MEDO DE DOENÇA

 

 
MEDO DE DOENÇA

Dona Dalva tinha muito medo de doença. Por isso, era viciada em remédios. Diariamente, ia à farmácia e só saía de lá, depois que o “farmacêutico” lhe vendia um remédio para a dor que estava sentindo. Cada dia era uma dor diferente. Entretanto, dizia que os remédios eram faca de dois gumes. Serviam para uma coisa e provocavam outra. Cada remédio tinha o seu efeito colateral.

 

 

Todo remédio que tomava, Dona Dalva achava que tinha lhe atacado o fígado, os rins, o estômago, ou qualquer outro órgão.

Em sua casa, havia uma “farmacinha” branca, com uma cruz vermelha desenhada, pendurada na parede do seu quarto, Ali ela mantinha estoque de remédios paliativos, como analgésicos, pomadas, colírios, antiácidos, remédio para gases, mertiolate e outros.

Impressionada com doença, a mulher só se sentia segura, se, diariamente, tomasse um remédio, seja para qual doença fosse. Seu assunto principal eram as dores que sempre dizia sentir. Para facilitar sua “neurose”, Dona Dalva já andava com uma lista das dores que sentia, para mostrar ao “farmacêutico”, ou apenas aos empregados de farmácias. Dizia que sofria de todas as doenças simples, como:

“Amidalite”, otite”, apendicite, faringite, azia, gases, prisão de vente ou dores de barriga, quando comia rabada ou feijoada em excesso. Para completar a lista de doenças, dizia que não podia ter uma contrariedade, pois lhe dava uma agonia na “cumeeira da cabeça”.

Dona Dalva gostava de recomendar dietas alimentares às pessoas. Dizia que não se devia misturar certos alimentos, pois algumas combinações poderiam se transformar em veneno, levando a pessoa à morte. Por exemplo:

-Manga com leite fazia mal;

-Manga com cachaça se transformava em veneno;

– Melancia, melão, jaca e talo de abacaxi eram indigestos, e assim por diante.

-A carne de porco era condutora da tênia solitária, responsável pelo aparecimento de tumores no cérebro.

A mulher tomava remédio para o coração, mas o remédio atacava-lhe os rins. Tomava remédio para os rins, que lhe causava desarranjo intestinal, e o remédio para esses desarranjos terminava lhe provocando prisão de ventre..

Pela manhã, quando o farmacêutico a via entrar na farmácia, sabia que a “lengalenga” sobre doenças imaginárias seria grande.

Dona Dalva começou a entrar em pânico, por causa dos males imaginários que dizia sentir. Foi morar com uma filha, em outra cidade, com medo de morrer a qualquer momento. Os anos se passaram, e vinte anos depois, chegou a notícia de que Dona Dalva havia morrido, com mais de noventa anos.

Quando o farmacêutico soube, ficou penalizado e lamentou?

-Com tanta doença que pensava ter, Dona Dalva terminou morrendo de velhice. Seu mal era apenas “sistema nervoso abalado.”


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 24 de novembro de 2018

O FILME

 

O FILME

Violência significa agressão, desrespeito e transgressão à lei, como também significa o ato de violentar.

O índice da violência aumentou nas últimas décadas, tanto em relação ao idoso, como em relação à população em geral. Ocorre a qualquer hora e em qualquer lugar, inclusive em teatros e cinemas.

Não tem coisa mais intolerável do que duas pessoas juntas no cinema, na fila atrás da nossa, comentando o filme o tempo todo, ou batendo com o pé na nossa cadeira.

Já vi discussões e brigas feias no cinema, por causa disso. Quando o incomodado é calmo, procura mudar de cadeira. Mas quando é afobado, reclama em voz alta, chegando a chamar de “mal educado”, o espectador que não respeita quem está sentado à sua frente. A discussão continua, às vezes transformando-se numa briga.

Certa vez, num cinema de Natal, um casal de idade madura entrou, quando o filme já havia começado. Os lanterninhas estavam distantes e a escuridão do ambiente dificultava a visibilidade. O casal entrou “tateando”, sem enxergar direito as cadeiras.

De repente, sem querer, “abalroou” um indivíduo que estava saindo. Embriagado e enfurecido, o “abalroado” deu um empurrão no casal, jogando, marido e mulher, por cima dos espectadores que estavam sentados. Além do empurrão, o “valentão” chamou o casal de “velhos dementes e cegos”, chegando a gritar que “lugar de velho é fundo de rede”. Vários espectadores se levantaram para acudir o casal, que continuava sendo xingado.

A desumana e desrespeitosa agressão provocou a revolta da plateia, e vários espectadores compraram a briga, defendendo o casal, das garras do agressor. O rapaz, visivelmente embriagado, parecia estar possuído pelo espírito do mal. Distribuía pesadas e empurrões com os defensores do casal. Nessa altura do acontecimento, a luz da plateia foi acesa.

Finalmente, o “valentão foi imobilizado pelos seguranças do cinema, auxiliados por alguns espectadores, e conduzido ao Distrito Policial do Bairro. Mesmo amarrado, o agressor continuava xingando o casal e dizendo palavrões com todos.

Ao chegar ao Distrito Policial, o “valentão” experimentou xingar também os policiais e o delegado, mas se deu mal. Além de ser instaurado contra ele, o competente Inquérito Policial, foi trancafiado no xilindró, “para se acalmar”, por ter sido preso em flagrante delito.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho terça, 20 de novembro de 2018

TESTE

TESTE


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 17 de novembro de 2018

O QUEIMA

 

O “QUEIMA”

Décadas atrás, entrando pelo século passado, as lojas não faziam promoções. Faziam “queimas”.

Em Natal, o povo esperava, com ansiedade, o “queima” semestral das Lojas Paulista, Casas Cebarros e outras lojas tradicionais da cidade. Era possível se comprar tecidos, lençóis, toalhas e outros artigos, por preços baratos, com pagamento à vista.

 

As tentadoras “parcelinhas”, dos cartões de crédito, só apareceram muito tempo depois.

A modernidade trouxe vantagens e desvantagens para o povo. Entretanto, ainda há pessoas que sentem saudade dos antigos “queimas”, quando o freguês tinha que ter o dinheiro na mão, para poder comprar.

Em 1956, o Diners chegou ao Brasil, sendo, inicialmente, um cartão de compra e não um cartão de crédito. Em 1968, foi lançado o primeiro cartão de crédito de banco, o Credicard, e em 1971 foi fundada, no Rio de Janeiro, a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços – ABECS.

Antes do advento do cartão de crédito, o poder aquisitivo do povo era menor, mas, em compensação, havia mais controle entre os compradores. Com as facilidades proporcionadas pelos cartões de crédito, as pessoas passaram a ser induzidas a comprar cada vez mais, para pagar em “parcelinhas”.

Atualmente, com as constantes promoções, as lojas atraem centenas de pessoas por dia, incluindo compradores compulsivos. Confiando nas parcelinhas do cartão de crédito, nesse momento, eles esquecem suas limitações financeiras e comprometem o orçamento doméstico.

Dizem os estudiosos, que os compradores compulsivos, estimulados pelas “parcelinhas” dos cartões de crédito, entram nas lojas com o olhar sereno e depois de cinco minutos, diante das “promoções”, o “pisco” dos olhos acelera, acentuadamente. No final das compras, quando já estão no caixa, subscrevendo as dívidas contraídas, esses “piscos” atingem seu ápice, como se o “freguês” houvesse sido acometido por uma enfermidade ocular.

A inadimplência do comprador compulsivo poderá resultar em angústia e depressão, se ele tiver boa índole. Caso contrário, passará a encarar a inadimplência com naturalidade.

Os devedores compulsivos, quando se tornam inadimplentes, procuram contrair empréstimos, aumentando ainda mais suas dívidas. É o que se chama, na linguagem popular, procurar “cobrir um santo, descobrindo outro.”

O bom é evitar a tentação das promoções e das “parcelinhas” dos cartões de crédito, pois, como diz o ditado popular, “quem não pode com o pote, não pega na rodilha”.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 09 de novembro de 2018

BELEZA INTERIOR

 

BELEZA INTERIOR

Nem sempre uma pessoa bonita, fisicamente, reúne todas as grandes qualidades que a tornariam perfeita. Às vezes, a pessoa é somente bonita e nada mais. Falta-lhe cultura, educação, bom caráter e simplicidade. Entretanto, há casos raros, em que uma pessoa é bonita por dentro e por fora. É a tal da beleza interior, que não interessa somente aos “decoradores de ambiente”.

Pois bem. Belisário considerava Maura, sua esposa, a mulher ideal. Aquela mulher que todo homem gostaria de ter ao seu lado. Para não ser perfeita, Belisário achava Maura bonita demais para ele. Era seu único defeito.

Baixinho, usando óculos de grau do tipo “fundo de garrafa”, narigudo, careca e muito magro, Belisário tinha complexo de feiura. Por isso, preferia que a esposa fosse menos bonita e não tivesse atributos físicos tão acentuados. Por outro lado, não podia negar que se sentia orgulhoso, por ser casado com uma mulher linda como Maura. Além da beleza física, sua esposa reunia qualidades, como bom caráter, simpatia, cumplicidade, bondade, além de ser totalmente dedicada a ele e aos filhos. Não jogava problemas corriqueiros em cima dele, tomando, ela mesma, providências para resolvê-los.

Maura procurava contornar todas as dificuldades da vida e não dava valor aos bens materiais. Para ela, a beleza interior valia mais do que tudo nesse mundo.

O casal vivia em plena harmonia. Aos domingos, os dois iam à Missa das 9 horas, levando com eles os dois filhos de 7 e 9 anos.

Na realidade, o que tinha Maura de bonita, tinha Belisário de feio. Ele se sentia humilhado, quando iam à praia, e ela, mesmo com um maiô discreto, deixava homens e mulheres boquiabertos. Sabia que destoava fisicamente de Maura. Perto dela, sentia-se um tipo insignificante.

Maura era alta, de pele morena clara, ancas largas, seios fartos e chamava atenção pela sua elegância.

Certa vez, em conversa com Bento, seu melhor amigo e colega de trabalho, depois de tomar algumas cervejas, Belisário confessou o seu complexo de feiura. Chegou a manifestar vontade de se separar da esposa, por causa disso.

O amigo quis convencê-lo de que ele não era feio, mas foi em vão. Embriagado, Belisário abriu as torrentes, chorou e disse que Maura chamava a atenção até de mulheres e pessoas idosas. Parecia uma misse. Disse que tinha a impressão de que todas as pessoas sentiam pena dela, por ser tão bonita e ter se casado com um homem horroroso como ele. E não parava de elogiar a mulher:

– Saiba, amigo, que minha mulher tem beleza natural. Nem ao menos se pinta. Nunca vai à academia, cabeleireiro, manicure, nem usa cosméticos. Usa sabonete no corpo e até na cabeça. Nem Xampu ela usa. Seu perfume é natural, igual ao da Gabriela de Jorge Amado, com seu cheiro de cravo e canela.

O amigo, cheio de cerveja e já irritado com a “lenga-lenga”, falou:

– Pois, quando ouço você falar isso tudo, fico revoltado com Rosilda, minha mulher. Quanto mais a danada gasta pra ficar bonita, mais feia fica. Tenho uma proposta pra lhe fazer, Belisário:

– Vamos trocar de mulher, amigo???

Belisário não gostou da proposta e retirou-se indignado. A partir desse dia, cortou relações com o amigo Bento.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 02 de novembro de 2018

O MARIDO MANSO

 

 
O MARIDO MANSO

Antonino, como todos os homens traídos, era um marido manso, incapaz de levantar a voz para a esposa Bernadete, ou para quem quer que fosse. Dizia aos amigos que sua mulher era uma santa, e que os dois eram muito felizes. Quando dava as costas, suas palavras serviam de chacota, pois todos sabiam que a coquete e bonitona mulher não era confiável e tinha um comportamento suspeito. Flertava abertamente com os amigos do marido, e isso era o mínimo que ela fazia. Em suma, Antonino levava mais chifres do que pano de toureiro.

Certa tarde, Antonino saiu do escritório mais cedo. Querendo fazer uma surpresa, antes de ir para casa, entrou numa doceria e comprou uma torta de abacaxi para levar para a mulher. Era a sua torta preferida.

Ao chegar em casa, foi direto colocar a torta na geladeira. Não viu Bernadete, mas ouviu sua voz e sua risada, falando com alguém ao telefone, dentro do quarto do casal. Como sempre fazia, foi até onde estava a mulher, que se assustou e demonstrou irritação pela sua chegada inesperada. Bernadete abafou o telefone e disse para o marido:

-Quer me matar de susto? Entrou silencioso como um ladrão! Estou conversando com Rosanália. Ela está me contando um filme ótimo, que assistiu na televisão. Uma comédia nacional.

Antonino sentiu algo estranho no ar. Nunca tinha desconfiado da mulher, mas, dessa vez, ficou de orelha em pé. Achou muito estranha a reação dela ao notar que ele havia chegado. Em vez de demonstrar alegria, Bernadete mostrou-se irritada, chegando a ser grosseira com ele. Antonino saiu do quarto pensativo e a mulher continuou falando ao telefone, agora em tom muito alto, como quem queria mostrar que estava conversando mesmo com a amiga:

-Desculpe, Rosanália! Foi Antonino que chegou. Amanhã eu te ligo. Vamos combinar para almoçarmos juntas, quando você se curar dessa virose.

Bernadete desligou o telefone e disse para Antonino que a amiga Rosanália havia sido acometida de uma virose, e estava em casa, repousando.

Na mesma ocasião, alguém tocou a campainha da porta e Antonino mesmo foi abrir. Era Rosanália, saudável e eufórica como sempre, que viera visitar Bernadete.

O destino é imprevisível. A chegada de Rosanália foi uma péssima surpresa para Bernadete e uma grande decepção para Antonino.

Desse dia em diante, o marido manso acordou para a realidade.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 27 de outubro de 2018

A ARTRITE

 

 
A ARTRITE

A artrite é uma inflamação das articulações, com desgaste da cartilagem, que gera sintomas como dor, deformidade e dificuldade nos movimentos. Em geral, seu tratamento é feito com medicamentos, fisioterapia e exercícios, e, em alguns casos, com cirurgia. É uma enfermidade que não mata, mas maltrata, e é muito comum nos dias atuais.

Pois bem. Na época em que os religiosos cumpriam votos de pobreza, vestiam batina e usavam transporte coletivo, Padre Belizário, muito conhecido em Natal, sempre andava de ônibus, para fazer visitas às Paróquias da periferia. Durante o percurso, evitava conversar com estranhos, procurando ler a Bíblia, que sempre levava consigo.

De pouca conversa e irritado por natureza, certa vez, esse padre teve a “sorte” de ver sentar-se ao seu lado, num transporte coletivo, um bêbado, sujo e mal cheiroso, que insistia em puxar assunto com ele. Essa figura entrou no ônibus tombando e tossia bastante. A cada solavanco do ônibus, o bêbado tombava para o lado do padre, que o empurrava irritado. O padre abriu Bíblia e fingiu estar lendo. Mas o bêbado não parava de interromper a leitura do vigário, sempre cutucando o seu braço:

-Padre, que horas são no seu relógio?

E o padre, secamente, respondeu: – São 14 horas.

-Padre, já viu que calor???

O padre balançou a cabeça, afirmativamente, e fixou os olhos na Bíblia, fingindo concentrar-se na leitura.

De repente, o bêbado interrompeu, novamente, a leitura do padre:

-Seu Padre, o senhor sabe o que é artrite?

Chateado, o padre respondeu:

-É uma doença muito grave, que dá nas pessoas cachaceiras, farristas e irresponsáveis.

Assustado, o bêbado perguntou?

-Essa doença mata, padre?

O padre respondeu, irritado:

-Mata e mata muito rápido. Se o doente não parar de beber, morre logo. Não dura seis meses. É galopante mesmo.

Ao ouvir a resposta do padre, o bêbado entrou em pânico:

-Padre, o senhor jura que isso é verdade? Artrite mata ligeiro assim?

O Padre respondeu?

-Pode acreditar, em nome da Cruz de Cristo, que artrite mata muito ligeiro. Não tem cura! E o pior: Quem morre de artrite, vai direto arder no fogo do inferno! Vai se encontrar com Satanás, na mesma hora!!!

O bêbado começou a chorar e depois falou:

-Ô meu Deus!!! Coitadinho dele, Padre! Vai morrer logo. Ele bebe vinho todo dia!!!

O padre, já cheio de tanta chateação, disse:

-Pois trate logo de se tratar e não beber mais nada! Se não, você vai morrer já, já. E vai se encontrar com Lúcifer!!!

O bêbado, com a voz trêmula, respondeu:

– Eu estou bonzinho, seu padre. Quem está com artrite é o Papa. Eu ouvi a notícia no rádio…

O padre levantou-se e foi sentar-se mais na frente.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 19 de outubro de 2018

O INTERROGATÓRIO

 

 
O INTERROGATÓRIO

A vida imita a arte, muito mais do que a arte imita a vida… (Oscar Wilde)

“A Escolinha do Professor Raimundo”, programa do saudoso e genial humorista cearense, Chico Anysio, durante anos encantou os telespectadores brasileiros. Nesse programa, entre outros personagens hilários, havia um que se destacava: “Seu Rolando Lero”. As reações desse personagem, coincidentemente, eram idênticas às de algumas pessoas, arroladas como testemunhas, em processos criminais.

 

 

Esse caso ocorreu há várias décadas, numa Comarca do interior do Rio Grande do Norte.

Foi cometido um homicídio em Serra Negra do Norte (RN), em plena via pública e em frente à principal Barbearia da cidade, frequentada por fazendeiros ricos, chefes políticos e outras pessoas importantes da comunidade. Ali, era o ponto de encontro, onde tudo que acontecia na cidade, de bom ou de ruim, era comentado.

O barbeiro Manoel Divino, proprietário da barbearia, foi arrolado como principal testemunha do crime, no inquérito e na denúncia, para ser ouvido em Juízo.

No dia da audiência de instrução e julgamento, o barbeiro compareceu ao Fórum, visivelmente nervoso. Aguardava, com ansiedade, a sua vez, para relatar ao Juiz, na presença do Promotor de Justiça, do Advogado e do Escrivão, e de todos os interessados no processo, o que sabia informar sobre o fato criminoso.

Iniciada a audiência, o Juiz perguntou à testemunha:

– O que a testemunha sabe dizer, sobre o crime ocorrido em frente à sua barbearia, e a morte de Antônio Bento da Silva, na tarde de 10 de março do corrente ano?

Demonstrando uma grande surpresa, o barbeiro respondeu, com voz trêmula:

– Doutor, o senhor está dizendo que o meu compadre Antônio Bento morreu? Mataram o meu compadre???– Juro que estou sabendo desse acontecimento infeliz, agora. Pode acreditar, Dr. Juiz, que eu não sabia dessa tragédia! Então, o meu compadre, amigo e melhor cliente morreu e eu não fui avisado?!!!

Ato contínuo, a testemunha puxou um enorme lenço do bolso da calça e disparou num choro compulsivo, abrindo as torrentes e ensopando o lenço de lágrimas.

O barbeiro, principal testemunha arrolada, não teve mais condições psicológicas para dar o seu depoimento, indispensável na elucidação do fato criminoso. .

O Juiz dispensou a testemunha, marcando outra data para ouvir o seu valioso depoimento, sem tanto nervosismo.

A cidade inteira sabia que Manoel Divino tinha sido testemunha ocular do crime. Seu depoimento seria de suma importância nos autos.

Essas cenas imprevistas, em que as testemunhas são acometidas de surtos nervosos, são comuns, quando elas são ameaçadas pela parte contrária ou, praticamente, são obrigadas a depor. Ninguém gosta de ser testemunha, principalmente em processos criminais. Por isso, é fato comprovado, que, mesmo jurando dizer a verdade, é comum as testemunhas omitirem, nos depoimentos, detalhes importantes por elas testemunhados, e que, por si só, bastariam à elucidação do crime… Essas omissões prejudicam o julgamento dos processos, e tornam a justiça mais lenta..


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 12 de outubro de 2018

TEM GENTE!!!

 

 
TEM GENTE!!!

Era dia de eleições municipais. Nas cidades do interior, os caminhões começavam a transportar, ainda pela madrugada, os eleitores da zona rural, que votariam nas zonas eleitorais da cidade.

Nesse tempo, as cabines de votação eram verdadeiros quartinhos fechados, e o voto era mesmo secreto. O eleitor ficava mais à vontade, para votar.

Muitos eleitores da zona rural só sabiam assinar o nome. Eram semianalfabetos e os votos eram de cabresto, fiscalizados pelos políticos e donos de propriedades rurais, onde eles trabalhavam. Era fácil votar, pois bastava colocar um “X” no quadrinho ao lado do nome do candidato escolhido e depois colocar na urna eleitoral. A apuração dos votos era manual e demorada. O resultado das eleições somente era divulgado, no mínimo, dois ou três dias depois.

Para votar, a matutada vinha para a cidade, vestida com a melhor roupa que tivesse. Os homens que tinham paletó, iam votar todos enfatiotados. O dia da eleição era um dia de festa, nas cidades do interior.

Em Nova-Cruz (RN), a prefeita em exercício abria as portas de sua enorme casa, oferecendo ao eleitorado de cabresto, comida farta, ponches e água para beber, à vontade.

Da mesma forma, acontecia na casa do candidato da oposição. Era o dia em que a pobreza aproveitava para se empanturrar de comida, tirando, literalmente, a barriga da miséria.

Havia eleitores inescrupulosos, que aproveitavam o dia da fartura e enchiam a barriga, exageradamente, com tudo o que havia de comida boa, nas casas dos candidatos dos partidos da situação e da oposição. O PSD e a UDN eram os partidos principais. Os eleitores chegavam a se empanzinar com tanta comida. Essa fartura durava até o fim do dia. Ainda havia almoço farto, em algumas casas de outros cabras eleitorais dos dois partidos.

Havia, nesse tempo, as fraudes de se entregar a chapa ao eleitor já marcada, como também de se trocar a chapa que o eleitor levava para lhe servir de modelo, por outra do outro partido, com o nome do outro candidato. Essas fraudes eram feitas por pessoas que faziam “boca de urna”.

Fora isso, ainda havia as famosas “BREJEIRAS”, nome que se dava ao “roubo” de urnas, depois do encerramento das eleições. Essas “brejeiras”, onde os votos eram trocados, eram chefiadas por verdadeiras quadrilhas, especializadas em fraudes eleitorais, compostas por “gente grossa”, incluindo políticos e advogados.

Conta-se que em uma conhecida cidade do interior nordestino, um matuto entrou na cabine para sufragar o seu voto, sentindo cólicas intestinais. Não deu tempo de olhar para a chapa, e só lhe restou se acocorar e evacuar ali mesmo. Para se higienizar, fez uso da chapa eleitoral onde teria que marcar seu candidato com um X e de santinhos de diversos candidatos, que trazia no bolso.

Quando o mesário bateu na porta da cabine, avisando que seu tempo de votação havia se esgotado, o eleitor gritou:

-TEM GENTE!!!

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 05 de outubro de 2018

A INJÚRIA

 

 
A INJÚRIA

Injúria é a ação de ofender a honra e a dignidade de alguém. Em termos penais, o direito define a injúria como um dos crimes contra a honra, assim como a calúnia e a difamação.

O crime de injúria está previsto no artigo 140 do Código Penal (CP), e a queixa crime por injúria pode gerar condenação, com pena de 1 (um) a 6 (seis) meses de prisão e multa.

Esse caso ocorreu há décadas, numa determinada audiência, quando o Juiz ouvia o depoimento de uma testemunha de defesa, em processo de crime de injúria.

A acusação que pesava contra o constituinte do grande criminalista José Moreno, era a de que o acusado havia chamado o autor da representação de “PEDERASTA”. O autor tratava-se de um conhecido vereador da cidade, candidato à reeleição.

O Ministério Público estava ali representado por uma Promotora de Justiça, no início da carreira, muito séria e cerimoniosa, que demonstrava absoluto respeito aos circunstantes.

O crime de injúria, para ser provado, exigia perguntas indiscretas e respostas claras, no sentido de inocentar o réu. O Juiz começou a ouvir o depoimento de uma testemunha de defesa, empregado de uma mercearia, que tinha pouco estudo. O réu seria inocentado, caso a prova da pederastia de que era portador o autor da representação viesse para o processo.

Mesmo se esforçando, para manter o equilíbrio da seriedade da audiência, o advogado de defesa, com muita ética profissional, fez, através do juiz, a seguinte pergunta:

– Pergunto à testemunha se pode informar se o autor da ação demonstra “trejeitos” nos seus costumes de homem honrado ou algum gesto efeminado?

Imediatamente, a testemunha respondeu:

– Doutor, eu não entendo essas palavras difíceis que o senhor falou. Mas, mesmo assim, doutor, pela maneira e o tom da pergunta, posso dizer, com toda a certeza, que o autor da representação, como toda a cidade sabe, realmente, dá o “SEDÉM”.

Diante da inesperada resposta que a testemunha deu ao Juiz, na presença das partes, pairou na sala de audiências um silêncio sepulcral, deixando surpresos todos os participantes daquele ato jurídico.

Esse caso passou a fazer parte do anedotário forense do Rio Grande do Norte.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 28 de setembro de 2018

O PARENTE

 

 
O PARENTE

Numa manhã de domingo, Severina estava preparando o almoço, quando alguém tocou a campainha da porta. Era um homem aparentando uns 30 anos, bem vestido e educado, que assim falou:

-Bom dia! O Genésio está?

A empregada respondeu:

-Não. Dr. Genésio saiu com dona Ângela e os filhos. Só volta na hora do almoço.

O homem continuou:

-Ah, meu Deus! Meu primo parece que é leso. Combinou comigo para eu vir almoçar com ele hoje e colocar os assuntos em dia, e parece que se esqueceu.

O homem segurava uma sacola na mão, onde se podia ver alguns presentes.

A empregada, que era novata na casa, perguntou:

-O senhor é primo dele?

E o estranho respondeu

-Sou primo legítimo, quase irmão.. Fomos criados juntos. Meu nome é Josué.

A empregada , então, disse:

-Faz uma semana que estou trabalhando aqui. Vim do interior. Já que o senhor é primo dele, pode entrar e esperar que ele chegue.

O rapaz agradeceu o convite, entrou e colocou a sacola de presentes sobre uma cadeira. Sentou-se na sala, pegou o controle remoto e ligou a televisão, como se fosse muito íntimo da casa.

A empregada voltou para a cozinha e continuou preparando o almoço. O visitante elogiou o cheiro da comida e permaneceu, muito à vontade, assistindo televisão. Toda ancha com o elogio, Severina ofereceu ao homem um cafezinho com bolo, mas ele recusou. Perguntou se tinha cerveja, e foi o que a mulher lhe serviu.

Josué, o “primo”, perguntou à empregada:

– Genésio tem recebido carta da tia Raimunda, a mãe dele?

A mulher respondeu:

-Não sei não, senhor. Só faz uma semana que estou trabalhando aqui.

O “primo” visitante entrou no quarto do dono da casa, dizendo que iria usar o banheiro. A empregada ouviu isso com naturalidade, já que se tratava de um primo do seu patrão.

O homem saiu do quarto e disse à empregada que iria dar uma volta pelo quarteirão, para fazer hora. A espera pelo primo já estava lhe dando sono. Lá da praça, ele veria Genésio chegar em casa e voltaria para o almoço.

Genésio, Elza e os dois filhos, finalmente, chegaram em casa. Estranharam a liberdade da empregada novata, em ligar a televisão, e em volume tão alto.
A patroa reclamou, irritada:

-Quem lhe ensinou a ligar a televisão, Severina?

A empregada respondeu:

-Quem ligou a televisão, não fui eu, não. Foi o primo de Dr. Genésio, Seu Josué, que estava aqui esperando por ele. Ele disse que Dr. Genésio convidou ele pra almoçar hoje aqui. Ele deixou até uma sacola de presentes aí na cadeira. Esperou muito e depois disse que ia dar uma volta no quarteirão, pra passar o tempo e depois voltava pra almoçar.

Genésio mudou de cor:

-Eu não tenho nenhum primo chamado Josué, nem convidei ninguém pra almoçar aqui, Severina!

-Dr. Genésio, ele disse que era quase seu irmão.trouxe até essa sacola cheia de presente, que está aí na cadeira, pro senhor, Dona Ângela e os meninos. Ele chegou antes das 10 horas. Ligou a televisão, pediu cerveja e depois usou seu banheiro. Parece que estava desarranjado. Depois disse que já estava cansado de esperar e por isso ia dar uma volta pra passar o tempo. Depois, voltava para o almoço.

Genésio, Ângela e os dois filhos de 8 e 10 anos pegaram a sacola e abriram todos os “presentes”. O que parecia uma caixa de sapato, continha um vidro vazio. Os outros, eram somente papel picado.

Ao avisar à empregada que estava indo ao banheiro, o golpista furtou de dentro do guarda-roupa do casal, todas as joias da casa, e todo o dinheiro que ali estava guardado.

Genésio e a esposa registraram um Boletim de Ocorrência (BO) na Delegacia de Polícia, mas não deu em nada.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 21 de setembro de 2018

MARQUESA

 

 
MARQUESA

Era o final da década de 70. Zefa, 26 anos, saía todas as tardes para comprar o pão, na Padaria São Miguel. Numa certa quarta-feira, ao chegarmos do trabalho, não a encontramos em casa. Já eram quase 18 horas e a casa ainda estava às escuras. Também, não havia jantar pronto.

Ficamos apreensivos, quando vimos que o dinheiro do pão não estava em cima da geladeira. Estava claro que Zefa tinha saído para comprar o pão e que algo muito grave havia acontecido. O nosso primeiro pensamento foi de que a moça houvesse sido atropelada, na Avenida. Hermes da Fonseca, onde o trânsito, em Natal, é muito intenso.

Saímos à procura de Zefa, perguntando às empregadas domésticas da vizinhança, se a tinham visto naquela tarde, indo à padaria. Mas ninguém a tinha visto sair de casa. Os empregados da padaria também não a tinham visto. Percorremos todas as ruas próximas à nossa casa, no bairro do Tirol, indagando das pessoas, aqui e ali, se tinham notícia de algum atropelamento, ali por perto, naquela tarde. Todas as respostas foram negativas.

Telefonamos para o Pronto-Socorro mais próximo, mas não constava a entrada de ninguém com o nome de Josefa Maria da Silva, nas ocorrências daquela tarde. Telefonamos para outros hospitais e recebemos a mesma resposta. Até para o IML, nós ligamos, e, para nosso alívio, o nome de Josefa Maria da Silva não constava na relação de cadáveres que tinham dado entrada, no referido órgão, naquela tarde/noite.

No dia seguinte, fomos registrar esse desaparecimento na Delegacia de Polícia Civil.

Zefa era do interior e não tinha parentes em Natal. Trabalhava na nossa casa, há mais de um ano, e o seu endereço era o nosso: Rua Ângelo Varela – 1007, Tirol. Não sabíamos detalhes da sua vida, pois era muito calada e se limitava a fazer suas tarefas domésticas com perfeição. Sua folga dominical, passava na casa de uma amiga chamada Rosilda, cujo endereço nós nunca soubemos.

O fato é que o sumiço de Zefa nos causou um transtorno muito grande.

No sábado, três dias depois do seu desaparecimento, Zefa, por volta das 14 horas, abriu o portão do quintal da nossa casa e entrou, calmamente, dirigindo-se para o seu quarto e fechando a porta.

Mesmo aliviada por ela estar viva, senti uma certa indignação, pelo fato dela ter ficado três dias sem nos dar notícia. Como se fazia antigamente, em Nova-Cruz (RN), tomei uma garapa para me acalmar e fui conversar com Zefa, para saber o que tinha acontecido.

Quando lhe perguntei o motivo do seu inesperado desaparecimento, imediatamente, ela começou a chorar e falou:

– Meu pai está no hospital, operado, muito doente, e eu estava sendo acompanhante dele.

Muito irritada, eu respondi:

-Ainda que ele tivesse morrido, você devia ter mandado me avisar. Você não sabe a aflição que nós passamos com isso. Telefonamos para todos os hospitais e até para o IML, pensando que você houvesse morrido atropelada!!! Fomos à Polícia e comunicamos o seu desaparecimento! Amanhã, seu nome vai ser publicado no jornal “O POTI”, como pessoa desaparecida.

E continuei, irritada:

-Seu pai foi operado de que? Em que hospital está?

Em cima da bucha, Zefa respondeu, sempre chorando:

-Pai se operou de ovário (Isso mesmo, OVÁRIO!!!). Está internado no Hospital das Clínicas, na enfermaria 12, leito 3, pelo FUNRURAL. O nome dele é José Bento da Silva. A senhora pode ir lá, pra ver se não é verdade!!!

É lógico que o pai de Zefa não podia ter sido operado dos ovários. Atribuí o equívoco à sua ignorância. Na certa, o homem havia se operado da próstata.

Peguei a chave do fusca e, sem dizer nada, fui ao Hospital das Clínicas. Constatei as seguintes mentiras:

-Não havia nenhum paciente internado, com o nome de José Bento da Silva;

-Naquele hospital, não havia enfermaria 12, leito 3, no segundo andar;

-Os pacientes do FUNRURAL não tinham direito a acompanhantes.

Voltei para casa, vermelha de raiva e fui novamente conversar com Zefa:

-Como você mente mal, Zefa! Estou voltando do Hospital das Clinicas agora. Seu pai nunca esteve lá, pois o nome dele não consta na relação das pessoas ali internadas. Também não existe enfermaria 12, leito 3, no segundo andar. Mesmo que fosse verdade, os pacientes do FUNRURAL não tem direito a acompanhantes. E você ainda levantou um falso ao seu pai, dizendo que ele se operou de ovário.Quem tem ovário é mulher, Zefa!!!

A “moça” prendeu o choro e confessou:

– “Apois”, vou contar a verdade: Quarta-feira de tarde, eu tive que fazer uma “coretage” (curetagem). Tinha tomado uma garrafada pra abortar e depois que a senhora e seu marido saíram pra trabalhar, senti uma dor muito grande no pé da barriga. De repente, comecei a ter uma “morragia” (hemorragia), que não parava. Com medo de morrer, peguei um táxi na pista e corri pra Maternidade. Só tive alta hoje… A senhora me desculpe! Eu tive vergonha de lhe dizer que estava “buchuda”.

Sem acreditar mais em nenhuma palavra de Zefa, peguei o fusca, novamente, e fui à “Maternidade Escola Januário Cicco”, para conferir se ela continuava mentindo.

Para minha surpresa, dessa vez, ela havia dito a verdade. Seu nome e o nosso endereço estavam registrados na lista de pacientes, atendidas gratuitamente,. na tarde da última quarta-feira. Também estava registrado o procedimento cirúrgico ao qual Zefa fora submetida, em consequência do aborto sofrido. A curetagem, realmente, tinha acontecido, e Zefa não morreu por um triz, pois perdeu muito sangue.

Voltei para casa mais calma e muito triste. Fui ao quarto de Zefa e lhe contei que tinha ido à Maternidade, conferir se o que ela tinha dito, dessa vez, era verdade. De fato, agora estava tudo esclarecido. Reclamei por ela não haver confiado em mim, pois, talvez, nada disso tivesse acontecido. Também, alertei-a para o risco de morte pelo qual ela havia passado, ao provocar um aborto, que poderia ter tirado, ao mesmo tempo, duas vidas. Ela chorou muito e eu confesso que fiquei muito penalizada com o ocorrido. Vi até que ponto vai a miséria humana.

Enquanto isso, ali perto, cheia de ternura, estava Marquesa, a minha gata angorá, alimentando seus filhotes. É impressionante, como os animais amam e defendem suas crias.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 14 de setembro de 2018

DUAS VIÚVAS, DOIS DESTINOS

 

 
DUAS VIÚVAS, DOIS DESTINOS

Tina, 53 anos, sofreu muito com a morte repentina de Quintino, 60 anos, com quem foi casada durante dez anos. Ele era aposentado da Rede Ferroviária Federal. Moravam em João Pessoa (PB), mas iam sempre a Nova-Cruz, onde ela tinha familiares. Viviam bem, financeiramente, e sempre em harmonia.

Com a morte do marido, e sem filhos, Tina ficou muito depressiva e sozinha. Era alta e bonitona. Depois de viúva, começou a engordar e tornou-se obesa. Tinha 1.70 m, e passou a pesar quase 100 quilos. Tornou-se o que se diz no interior, “um mulherão”.

Um ano depois, Maura, 46 anos, sua melhor amiga, também residente em João Pessoa (PB) e casada com Petrônio, também ferroviário, por coincidência, enviuvou. Sua única filha já era casada e morava no Rio de Janeiro. De repente, Maura se viu mergulhada na mesma solidão em que Tina passara a viver.

As duas amigas, viúvas, e ainda “casáveis”, meses depois, começaram a sair juntas para o shopping, Igreja, cinema, circo e finalmente se juntaram a outras pessoas da cidade, para fazer excursões. Isso serviu para que descobrissem que a vida continuava. Tornaram-se vaidosas e alegres.

De repente, os olhos das duas voltaram a brilhar, apesar da saudade que continuavam sentindo dos falecidos maridos.

Maura, mais coquete e charmosa do que Tina, por obra do destino, reencontrou numa das viagens ao Rio de Janeiro, um ex-namorado do seu tempo de juventude, agora divorciado. Os dois se sentiram novamente atraídos um pelo outro e ressurgiu entre eles um novo relacionamento, que depois se transformou em união estável.

Tina era muito religiosa, conservadora e se policiava muito. Jurava que jamais colocaria outro homem no lugar de Quintino.. Apesar de muito simpática, não era atraente, e sua obesidade a prejudicava. Era ruim de dieta e tinha dificuldade de perder peso.

Ao ver Maura se aprumar com o ex-namorado, Tina sentiu inveja, embora escondesse isso da amiga. Disfarçava sua frustração, dizendo sempre que a coisa melhor do mundo era a liberdade. Jurava que, após esses cinco anos de viuvez, se fosse possível o falecido voltar, ela seria a primeira pessoa a lhe dizer:

“Homem, pela caridade, não invente de voltar, não! Fique aí no Céu mesmo! A sede do inferno mudou-se aqui pra terra. É época de campanha política e a coisa aqui está preta. “

Com o passar do tempo, Tina entrou em depressão. Perdeu o gosto de passear e viajar, deixando que a tristeza se apoderasse dela. Vivia sempre chorando e olhando para o retrovisor do passado. As amigas a aconselharam a fazer terapia. A viúva procurou um Psiquiatra e abriu-lhe as torrentes, confessando o motivo de toda sua angústia:

– Doutor! Eu sinto falta de um companheiro, como meu marido Quintino era! Não é de um “macho”! Estou tão solitária, que já redigi até um anúncio para colocar, domingo, nos “classificados” do melhor jornal da cidade. O senhor pode ler!

No papel, estava escrito:

“Procura-se um companheiro, para fins de relacionamento sério, de 45 a 60 anos, que “dê no couro”, seja .sadio e que tenha ainda as seguintes qualidades:

– Saiba ler e escrever;

– não diga: “adevogado” “menas gente”, “o pessoal foram”, “o povo disseram”, “nesse “interím”, “bonel”, “fazem dois anos”;

– de preferência, que seja motorista de caminhão, podendo ser um belo mulato. Não precisa ser doutor, nem “branco de m…..”

Em troca, ofereço:

– casa, comida, roupa lavada, e ainda uma boa mesada!!!”

O médico se controlou para não sorrir. Aconselhou Tina a sair de casa, para se divertir, namorar, viajar e evitar a solidão. Receitou-lhe antidepressivos, até que a angústia desaparecesse. A viúva ainda continua “esperando Godot”.

Nas suas crises de solidão, Tina se lastima:

“Ah, meu Deus, se as farmácias vendessem marido bom, eu comprava de ruma…”


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 07 de setembro de 2018

O APOSENTADO

 

 
O APOSENTADO

Alexandrino, professor aposentado, tinha horror à velhice, e não dizia sua idade, “nem a pau”.

A quem lhe perguntasse quantos anos tinha, respondia em cima da bucha: “Sou do tempo da civilidade, quando era falta de educação se perguntar a idade”.
Na verdade, o homem já beirava os setenta anos, assim como quase todos os seus amigos de prosa, com quem se reunia todas as tardes.

Sentindo que a velhice estava chegando, o aposentado começou a ter sonhos eróticos, passando a alimentar o desejo de ir para a cama com uma mulher bonita, fogosa e de carne dura, como tantas vezes fizera no seu tempo de rapaz. Ele não aceitava o fato de ser idoso.

 

Há quarenta anos, apaixonou-se por Rosalinda, com quem se casou e constituiu família. Entretanto, a rotina, a maior responsável pelo fim dos relacionamentos, logo transformou a paixão em fogo de palha. O amor que uniu o casal, há anos havia sumido, no tempo e no espaço.

A frustração de Alexandrino, ao acordar todas as manhãs, era grande. Passava a noite sonhando com outras mulheres e logo cedo despertava, ao lado da esposa sessentona, xexelenta e flácida da cabeça aos pés. Esquecia de que ele, também, já não tinha 24 anos. No íntimo, quando via a esposa ao seu lado, a vontade que tinha era de lhe dar uma pisa. Mas vontade dá e passa… Jamais faria isso. Sempre dizia que numa mulher, não se bate nem com uma flor.

A diferença de idade entre o casal era somente de dois anos.

Certo dia, morreu uma cunhada de Rosalinda, e ele, como bom marido que era, comprou-lhe passagem de avião para ir ao Rio de Janeiro, assistir aos funerais. Por economia, não acompanhou a mulher.

Ao se ver sozinho, Alexandrino foi se encontrar com os amigos e manifestou sua vontade de fazer uma farra. Afinal, esse sonho ele há muito tempo alimentava, mas não tinha coragem de pôr em prática. Considerava-se um preso, em prisão domiciliar. Só faltavam as tornozeleiras. Era dominado por Rosalinda, e não tinha voz altiva pra nada. A mulher era uma jararaca.

Por essa chance, ele não esperava. Por isso, não podia desperdiçá-la. Dessa vez, iria matar seu desejo de ir pra cama com uma das mulheres lindas, que povoavam os seus sonhos.

No “clube” em que a turma foi se reunir, havia mulheres para todos os gostos.

O aposentado sentiu-se atraído por uma bela morena, e com ela seguiu para uma suíte. Até que enfim, iria matar o seu desejo de ter nos braços uma mulher jovem, bonita e gostosa, e reviver sua juventude.

Depois de horas de amor, exausto, Alexandrino adormeceu. A “mariposa”, acostumada a grandes noitadas, aproveitou o seu sono profundo, retornou ao salão, e continuou se divertindo e bebendo. Quando o dia estava amanhecendo, muito embriagada, voltou à suíte e deitou-se junto do cliente.

O homem, ainda sonolento, acordou assustado, pensando que estava em sua casa, ao lado de Rosalinda. Mas, de imediato, veio-lhe à mente a noite de amor que tivera com uma mulher linda e gostosa, uma verdadeira artista na cama. Procurou a beldade e ficou paralisado. Ao seu lado, estava um travesti sem peruca, exageradamente pintado e completamente nu. Uma figura dantesca, que lhe provocou um terrível mal-estar. Ao vê-lo passando mal, a “moça” fugiu da suíte, correndo, à procura de socorro.

O SAMU veio buscar Alexandrino, que estava desfalecido. O idoso sofreu um AVC, que lhe deixou sequelas para o resto da vida.

Rosalinda nunca soube dessa estripulia do marido. Soube, apenas, que ele se sentiu mal, em casa mesmo.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 01 de setembro de 2018

TERRA SECA

 

 
 
TERRA SECA

Num lugar de terra muito seca, um matuto perseverante, que tinha muita fé em Deus, comprou um pequeno terreno, e começou a trabalhar nele com empenho. Terminou transformando a terra seca numa produtiva plantação. Empenhou-se de noite e de dia, capinando, arando, cultivando, adubando e limpando as pragas locais. Exausto pelo trabalho físico, recebeu a visita do vigário da cidade, que passeava pelos campos.

Ao avistar a plantação, de um verde deslumbrante, o vigário perguntou quem era o responsável por aquela plantação. O matuto respondeu que era ele.

Mas o padre retrucou:

– Isso tudo foi a mão de Deus!

O matuto, muito católico, concordou, sem esquecer o duro que tinha dado para recuperar aquela terra seca.

-Foi com a ajuda de Deus – disse novamente o padre, sem fazer ao homem um só elogio, pelo empenho que tivera na recuperação dessa terra seca. O trabalho do homem não foi valorizado pelo padre, em nenhum momento.

Na sua ignorância, o matuto sabia do esforço que fizera para restaurar a terra que comprara, e em cuja recuperação obtivera êxito. Por isso, não gostou das palavras do vigário, que em nenhum momento reconheceu o seu esforço e a sua dedicação, em recuperar aquela terra e torná-la produtiva. Como era católico, o matuto balançou a cabeça, concordando com o padre. Mas lembrou-se do trabalho que tivera, plantando milho e legumes, e as noites inteiras que, junto com os filhos, passou regando tudo com cuidado. Por isso, a plantação floresceu tanto.

O padre já ia dizer que tudo aquilo fora com a ajuda de Deus, quando o matuto falou:

– Mas, deu uma praga danada de gafanhotos por aqui e destruiu tudo.

O vigário ficou desapontado, e não pôde dizer que ali tivera a mão de Deus. Preferiu se calar. E o matuto continuou, dizendo que adoeceu de aperreio com a praga de gafanhotos, mas, ele e os seis filhos arregaçaram as mangas e conseguiram debelar o problema. Todos foram à luta, empenhando-se no cultivo da terra e recuperando o estrago.

Desapontado por não ter recebido um só elogio do padre, pelo êxito da plantação, o matuto disse:

-Mas seu padre, o trabalho foi grande. Ajudei muito a Deus, para poder recuperar essa terra seca. Mas, é claro que ele me ajudou muito mais, com a sua proteção.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 24 de agosto de 2018

A DECEPÇÃO

 

 
 
A DECEPÇÃO

Anos atrás, um pobre homem, completamente embriagado, pisava torto numa rua de grande movimento em Natal e morreu atropelado por um ônibus. 
Sem documentos, o corpo foi conduzido ao IML, e lá permaneceu à espera de alguém que fizesse sua identificação.

O caso foi noticiado no programa de rádio “Patrulha da Cidade” e logo se espalhou no Bairro de Mãe Luiza.

Enquanto isso, Geraldo, vendedor ambulante, que se dava ao feio vício da embriaguez, saíra para trabalhar e há dois dias não pisava em casa.

Ouvindo a “Patrulha da Cidade,” Antônia, sua mulher, teve um mau pressentimento e saiu em disparada, até o IML, para verificar se o corpo que ali se encontrava era o dele.

O morto ficara com a face desfigurada, mas Antônia o identificou, através de alguns sinais que ele tinha nas costas. Sem dúvida, o defunto era Geraldo, seu trabalhoso marido, cachaceiro contumaz e irresponsável.

Há 15 anos, Geraldo e Antônia eram casados e tinham dois filhos, de 14 e 13 anos.

Foi providenciada a compra do caixão, e o corpo foi velado num salão pertencente à casa funerária “Nossa Senhora da Guia – Sua morte é nossa Alegria”.

Os amigos e parentes choraram muito, lamentando a partida precoce de Geraldo, bom de prosa e de copo. O falecido era ótimo amigo, embora fosse péssimo marido e pai.

Durante o velório, a viúva estava lívida e controlada, contendo as lágrimas. Mantinha sua dignidade ao lado do falecido, sem dar escândalo. Seu olhar era parado, como se a ficha ainda não tivesse caído. Essa reação é comum, nos casos de morte repentina e trágica de alguém.

Ao mesmo tempo em que o velório acontecia, lá na cadeia pública da cidade, um outro cachaceiro, que tinha ido em cana na noite anterior, estava sendo solto. Dirigiu-se para casa, mas, ao descer do ônibus, dois conhecidos o abordaram, avisando que a sua casa estava fechada, e estavam todos no seu velório. Seu sepultamento seria à tarde. Esse homem era Geraldo.

Achando que se tratava de uma brincadeira de mau gosto, Geraldo foi até sua casa, encontrando-a, realmente, fechada. Como sempre perdia a chave nas carraspanas que tomava, a mulher era quem lhe abria a porta, quando chegava em casa.

Revoltado com a falsa notícia de que tinha batido as botas, Geraldo foi depressa ao local do velório, para desfazer o engano. No íntimo, sentia-se gratificado, pois ainda pretendia viver muito e tão cedo não iria prestar contas ao Criador.

Ficou sabendo que quem estava no caixão era um bêbado, que morrera atropelado e o rosto ficara irreconhecível.

Mesmo sem dizer nada, Geraldo assumiu a culpa dessa confusão, pois há dois dias, não pisava em casa. Por isso, sua mulher ficou certa de que o homem atropelado era ele. Ainda por cima, ela identificou o corpo, por causa de alguns sinais, idênticos aos seus.

Furioso, o homem adentrou ao salão, onde o defunto estava sendo velado e chegou a agredir a ex-quase-viúva, fisicamente. Os amigos o contiveram e os parentes levaram Antônia dali, para a casa de seus pais.

Geraldo não se conformava com o fato de ter sido confundido com outro homem, que só podia ser algum “macho” da mulher.

A ex –quase-viúva se refugiou na casa dos pais, temendo se encontrar frente à frente com o ex-quase-defunto, seu violento marido. Jurou que nunca mais voltaria para Geraldo, de quem há 15 anos, juntamente com os filhos, só recebia maus-tratos. Ela sempre manteve a casa, com o dinheiro das costuras que fazia para fora. O dinheiro de Geraldo só servia para ele tomar de cachaça.

Antônia não parava de chorar, lamentando que o defunto que velara não tivesse sido seu marido. O traste continuava vivo.

Depois que o IML levou o defunto de volta, Geraldo e os pinguços, companheiros de copo, foram comemorar com muita cachaça a sua ressurreição.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 17 de agosto de 2018

O EMBAIXADOR

 

O EMBAIXADOR

Luiz entrou para o serviço diplomático brasileiro em 1947, tendo servido em Belgrado, (capital da antiga Iugoslávia), México, Guatemala, Egito, Dinamarca, Japão, Venezuela, Suriname e República Dominicana.

Até então, fora um jovem imaturo, que, por competência pessoal, furara as barreiras tradicionais, que fechavam o acesso à carreira diplomática, a quem não pertencesse às elites dos estados mais influentes na República brasileira, como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Bahia. Uma vez admitido, logo visualizou que poderia realizar seu sonho de conhecer o mundo, para melhor compreender os problemas do seu país.

Fez os primeiros estudos em Natal, seguindo, depois, para Recife (PE), onde se formou em Direito.

Durante todo o tempo em que andou pelo mundo, como Embaixador, Luiz acalentou o sonho de voltar para Natal, na companhia tranquila da esposa Verônica e da filha Graziela, quando chegasse a época da sua aposentadoria. Elas sempre concordaram com as suas escolhas de posto, dentro dos estreitos limites que lhe permitia a fria administração que o comandava de longe. Pensava em Natal todos os dias. Natal representava a paz com que ele sonhava.

Depois de 40 anos fora do Brasil, Luiz foi aposentado pelo Itamaraty, retornando em 1985.

Pouco tempo depois, estava morando em Natal, na Praia do Meio, numa enorme casa que mandara construir.

Imaginava que Natal continuava a mesma cidade branca, cheia de tranquilidade. Sonhava caminhar descalço novamente pela areia da praia e mergulhar na imensidão do mar azul.

Da varanda da sua casa, o Embaixador podia observar, com a família, a interminável e diária partida de futebol de areia, na qual os inúmeros contendores se esforçavam para fazer “gols”, nas balizas dos dois grupos.

Sua mulher, cuja formação acadêmica a tornou uma incansável observadora, disse-lhe subitamente: “É curioso. Os jovens que se batem nessas infindáveis peladas, neste sol causticante, não são negros, embora o pareçam. Na verdade, ou são índios ou mestiços de índios”.

Luiz parou para pensar e retorquiu: “São os mesmos brasileiros que receberam aqui nestas praias, em 1500, os primeiros portugueses e os comeram. Quanto progresso fizemos de 1500 pra cá… Não é?” E todos riram com a sua pertinente observação.

O Embaixador temia sofrer, em breve, um impacto visual, com a construção desenfreada de arranha-céus na Praia do Meio e com a cogitada construção de uma ponte colossal, que cruzaria a barra, ligando a Praia do Meio à Praia da Redinha. Considerava essa ideia um absurdo, fruto da cabeça dos improvisados urbanistas das novas gerações.

De repente, a tranquilidade na casa de Luiz, na Praia do Meio, começou a sofrer as consequências de um tresloucado projeto da autoridade que dirigia a prefeitura de Natal, que visava transformar a praia de Iemanjá em Zona turística, com barracas imitando as da Bahia.

Como todo governante nordestino, a maior autoridade municipal de Natal esqueceu de que o povo nordestino também tem suas necessidades fisiológicas. Resultado: As concentrações de bêbados e farristas, que passaram a utilizar as barracas construídas pela prefeitura, passaram a fazer suas necessidades mal cheirosas, na própria praia ou em torno do aconchegante muro de dois metros, da casa da esquina, em frente à casa do Embaixador. A poluição orgânica dos bêbados e dos farristas, e a poluição sonora dos poderosos aparelhos eletrônicos das tais barracas e mais os dos bêbados automobilistas, passaram a infernizar a vida do Embaixador e de sua família. A zona de concentração dos frequentadores era em frente à sua casa. O barulho não tinha hora para terminar.

O Embaixador tomou as providências necessárias, para solucionar o sério problema junto às autoridades competentes, mas não obteve êxito.

Para completar,a perturbação, os cultos e os alfabetizados de Natal resolveram se divertir, quebrando garrafas a tiros, na beira das praias urbanas, tornando impraticáveis as caminhadas na areia, com os pés descalços.

Num momento de inspiração, Luiz lembrou-se da técnica jesuítica, que ensina com o exemplo. E foi à luta. 
A partir de então, todos os dias via-se um homem com uma camisa vermelha e uma lata a tiracolo, onde estava escrito “GARI VOLUNTÁRIO”, percorrendo as praias do Morcego, dos Artistas, de Iemanjá, e Praia do Forte. Colhia cacos de vidro, sem se importar com o que os outros pensassem dele.

Luiz passou o primeiro mês, fazendo as suas colheitas de cacos de vidro, nos três quilômetros da Praia do Meio, dialogando sempre com os curiosos que o seguiam, as mulheres que o interrogavam e os céticos que o provocavam.

Os velhos pescadores lhe perguntavam por que o doutor estava pescando caco de vidro: “Pra botar em cima do muro?”, “Pra vender?”

Ele sentia que a curiosidade aumentava com o espetáculo diário e com o seu silêncio, que era outra palavra de ordem de um grande líder francês, o General De Gaulle. Nada como o silêncio para acentuar a autoridade. Até um simples pescador compreende a linguagem do silêncio.

Luiz sabia que o que estava fazendo incomodava. Nos altos círculos intelectuais da cidade, pelo telefone da Academia de Letras, um confrade o inquiriu sobre o disparate de um Embaixador, mesmo aposentado, estar colhendo cacos de vidro nas praias da cidade. E não faltava quem lhe dissesse que “uma andorinha só não faz verão.”

Nas suas costas, os “amigos” o ridicularizavam, dizendo que ele voltara do exterior, sueco, e que queria limpar as praias.

O exemplo que Luiz quis dar, apanhando lixo nas praias, logo teve repercussão. Certa manhã, na Praia do Meio, uma moça de ótima aparência aproximou-se dele e perguntou: – O Senhor é Embaixador mesmo? -Não, fui. – respondeu. E a moça continuou: – E está apanhando cacos de vidro, para que? – A ela, Luiz respondeu:

“Para ver se dou uma lição ao Governo, de como se começa a resolver um problema. E a moça continuou: “Eu vou tirar algumas fotografias do Senhor, se não for inconveniente.” E Luiz respondeu:– Não há nenhum inconveniente. Posso lhe assegurar.

Passadas duas semanas, pararam em sua casa enormes caminhões da Globo, com equipamento mirabolante. Vinham se certificar se era tudo verdade.

Duas semanas depois, o programa “Fantástico” abriu às 20:00, com a manchete: “Um embaixador aposentado limpa as praias de Natal, colhendo cacos de vidro”.

Seguiram-se as imagens que haviam feito.

Luiz solucionou sua insatisfação, perante a inércia do poder público municipal de Natal, mudando-se para Brasília, em 1991.

Em 1993, Luiz voltou a Natal. Muita coisa tinha mudado. As barracas imundas, que poluíam as areias e o mar, tinham desaparecido, devido à intervenção da Marinha, solicitada por ele próprio ao Almirante Didier. Permaneceram as barracas horríveis da Prefeitura, sem latrinas para os bêbados e os farristas.

Andando pela praia, um velho pescador aproximou-se de Luiz e perguntou: “Cadê os cacos de vidro, Embaixador? Acabaram, como o senhor queria?”

– Exatamente. – respondeu Luiz.

Em 1999, Luiz foi dar um mergulho, na baía que cerca todo o paredão do rochedo negro do Morcego, onde se situam grandes restaurantes, que antes jogavam esgoto na baiazinha. Notou a água azul, impecável. Indagou, então, aos moleques que o acompanhavam:

“Água limpa, hein? O esgoto não cai mais para este lado?”

O garoto foi franco: -Doutor, agora não há mais “merda” por aqui.

Luiz foi confirmar com o pessoal da Peixada da Comadre, a quem muitas vezes entregara memorando sobre a implantação dos coletores da CAESB. Estavam lá, sim. Os coletores tinham sido implantados e agora os excrementos colhidos são expulsos para longe, pela unidade de compressão dos esgotos da Praia do Meio. Ouviu encantado essa boa notícia, que serve para provar, que nem tudo está perdido, neste Brasil de tantos problemas.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 11 de agosto de 2018

A MADAME

 

A MADAME

Malvino, 65 anos, morava perto de um botequim, que era um verdadeiro canavial. Lá, a cana corria solta e os caneiros enchiam a cara no final da tarde, entrando pela noite. Uns iam curtir a bebedeira em casa e outros ficavam no botequim até de madrugada.

 

 

Malvino fazia parte do grupo que ia curtir a cana em casa. Valdete, sua segunda esposa, uma mulher braba e irreverente, não permitia que ele cometesse excessos com a bebida. Ia buscá-lo no botequim todas as noites e ele a obedecia mansamente.

Muito querido pela turma da boemia, Malvino, contador aposentado, era considerado um intelectual.

Era bom de copo e de prosa. Lia os principais jornais da cidade, diariamente, e assistia aos telejornais.

Sempre que anoitecia, ele avisava aos companheiros de copo:

– Daqui a pouco, a chata da minha patroa vem me buscar para jantar. Não aguento mais essa jararaca. Parece uma bruxa. Só falta uma vassoura, para que saia daqui voando.

As gargalhadas dos boêmios que ali se encontravam eram uníssonas.

Na verdade, a esposa de Malvino parecia um sargento de cavalaria reformado. Mandona e prepotente, não hesitava em agredi-lo fisicamente, se o encontrasse embriagado. Certa vez, nesse botequim, ela tirou o sapato e deu-lhe na cara, por encontrá-lo bêbado. Se ele discordasse de uma opinião sua, a mulher partia logo para o bufete.

Malvino sentia-se injustiçado, perante a sociedade. Sonhava com a Lei “Malvino”, para concorrer com a Lei “Maria da Penha”.

Num final de tarde, quando o papo estava animado, e Malvino tinha enchido a cara, Valdete chegou para buscá-lo. Ao vê-lo embriagado, ficou possessa e gritou:

– Ah, bandido! Eu pedi para você não beber hoje, pois nós vamos ao aniversário do meu irmão! Ande logo, seu irresponsável!!!

Envergonhado perante os amigos, o homem respondeu:

-Tenha calma, querida! Quase não bebi…

De nada adiantaram suas palavras. Parecendo endemoniada, a mulher arrastou o marido pelo braço e deu-lhe um empurrão, que o desequilibrou na calçada.

Os companheiros de copo baixaram a cabeça, fazendo de conta que não estavam vendo nada.

Entretanto, um velho “cachacista”, que estava na calçada e a tudo assistira, ao ver Malvino levar um empurrão da mulher, não se conteve e gritou:

– Mulher dos seiscentos diabos, respeite seu marido!!! Volte para o lugar de onde saiu!!!

Na realidade, há dez anos, Malvino havia se apaixonado por Valdete, num cabaré. De quenga, ela passou a “Madame”. Vinte e cinco anos mais nova do que ele, nunca conseguiu ser “bonita, recatada e do lar.” Era somente “boazuda”. Parecia que tinha escrito no rosto: “Eu sou p….”

E o velho “cachacista”, ainda indignado, continuou falando:

– Essa mulher, Malvino tirou da Zona. Mas ela nunca deixará de ser quenga!!!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 03 de agosto de 2018

O TROCO

 

O TROCO

Idalino e Lenira, ambos com 57 anos, eram casados há 30 anos. e tinham dois filhos, com 25 e 27 anos.

Júlio, o mais novo, muito calmo, casou-se com a primeira namorada e já dera um neto aos pais.

 

 

Tiago, o mais velho, era um “boa vida” e muito inconstante. Apaixonava-se facilmente e logo o fogo de palha se apagava. Era namorador e aventureiro. E tinha a quem puxar.

Lenira era uma esposa exemplar e dedicada à família. Filha de pais ricos, casara com Idalino, quando ele ainda era estudante de Direito. A mulher era proprietária de alguns imóveis herdados dos pais e tinha uma excelente renda.

Depois de formado, Idalino passou a exercer a advocacia, abrindo um escritório com dois colegas de turma.

Idalino vivia “pulando a cerca” e, certa vez, chegou a abandonar a casa, para morar com uma amante. Tempos depois, o relacionamento terminou, e ele conseguiu o perdão de Lenira, retornando ao lar. Jurou à esposa que jamais repetiria a loucura de deixar a família por causa de uma “vagabunda”.

Entretanto, poucos meses depois, voltou a ser o mesmo “conquistador barato” de antes.

Quando Lenira já estava certa de haver reconquistado o marido, apostando na sua fidelidade, Idalino, foi acometido, mais uma vez, de uma paixão violenta.

Através de um amigo, conheceu Cacilda, uma “mulher de programa” e virou a cabeça, como se fosse um adolescente.

Quando se viu, novamente, apaixonado, Idalino montou um apartamento para Cacilda, em um bairro afastado, refúgio para tardes de amor inesquecíveis, onde poderiam dar vazão à atração fatal que os unia. Tudo do jeito que o diabo gosta.

As noites eram livres para os dois. Ele, em casa, pousando de bom marido, ao lado da esposa, e Cacilda solta na noite, para fazer o que bem quisesse.

Tiago, o filho mais velho de Idalino e Lenira, era mulherengo igual ao pai e dava preferência às mulheres mais experientes. Casualmente, conheceu Cacilda em uma boate, e houve entre eles uma atração mútua. Pouco tempo depois, Tiago passou a dormir no apartamento dela. De dia era o pai, à noite era o filho.

O tempo foi passando e um detetive pago por Lenira, para seguir os passos do seu marido, informou-lhe que Idalino tinha uma amante de nome Cacilda, e tinha montado um apartamento para ela.

Dias depois, informou que a referida mulher estava traindo Idalino com um rapaz jovem, chamado Tiago, que subia para o apartamento dela todas as noites, depois das baladas.

Numa noite em que Idalino chegou em casa, dizendo-se exausto do trabalho no escritório, Lenira resolveu desmascará-lo, pois não aguentava mais tanta falsidade.

Cheia de ironia, a mulher falou:

– Idalino, tenha vergonha!!! Já estou cansada de ouvir suas mentiras. Eu sei que você passou o dia no apartamento de uma rameira, chamada Cacilda, como vem fazendo há vários meses. Pois fique sabendo que ela lhe põe chifres, com um rapaz muito jovem.

Idalino reagiu, agressivo:

– Pra “seu governo”, eu e você não temos mais nada em comum! Não adianta essa nossa convivência doentia, cheia de desconfiança.! Por conta dessas insinuações, vou me separar de você e agora é pra valer!!! Sem retorno!!!

Idalino saiu de casa indignado, dizendo que iria dormir no escritório. Entretanto, pela madrugada, usando sua cópia da chave, entrou no apartamento que mobiliara para Cacilda. e deparou-se com uma cena sórdida:

Seu filho Tiago e Cacilda estavam em colóquio amoroso animalesco, do jeito que nasceram.

Idalino tossiu alto, e agrediu o filho com bofetões e impropérios. Entretanto, não tinha moral para se voltar contra ele, que era um rapaz solteiro, livre e desimpedido. O adúltero, ali, era ele próprio, casado e com filhos.

Sem controle emocional, Idalino gritou para Tiago:

– Se você ama esta vagabunda, trate de dar o fora daqui com ela, agora mesmo! Arranje um emprego para sustentá-la, e não conte mais com o meu dinheiro!

Disse isso e saiu, sentindo um misto de raiva e decepção, por ter sido corneado pelo próprio filho.

Quando voltou para casa, o homem ainda encontrou a esposa dormindo. Deitou-se no sofá da sala, e ali permaneceu acordado, até o meio dia.

No íntimo, desejava que Cacilda lhe telefonasse, pedindo perdão.

Três dias depois, um empregado do prédio informou a Idalino que Cacilda havia se mudado dali, deixando a chave e um bilhete na portaria, para lhe serem entregues.

O bilhete dizia: “POR FAVOR, NÃO ME PROCURE NUNCA MAIS.”

Querendo ser agradável a Idalino, o empregado lhe disse baixinho:

– Acho que, agora, Cacilda se arrumou. O rapaz que está com ela parece que é muito rico. Foram morar num apartamento de luxo.

Idalino ficou perplexo. Sabia que o filho não tinha condições de bancar um apartamento luxuoso para ninguém. Ainda morava com ele e Lenira e tinha horror a trabalho.

O homem ficou de orelha em pé e jurou que iria descobrir de onde estava saindo esse dinheiro.

Na mesma semana, descobriu que quem estava bancando todas as despesas do filho e Cacilda era sua própria esposa.

Lenira, ironicamente, confessou tudo.

Revoltada por estar sendo traída novamente, a mulher procurou dar o troco ao marido, prometendo ao filho que assumiria todas as suas despesas com Cacilda, e incentivando-o a “casar” com ela.

A separação dessa vez foi definitiva. Lenira deu o troco a Idalino, pela traição que sofrera, ao longo desses trinta anos de um casamento, que se arrastou aos trancos e barrancos.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 27 de julho de 2018

A TRAIÇÃO

 

A TRAIÇÃO

Jonas, há quinze anos casado com Josefa, e com três filhos adolescentes, era um marido fiel e ótimo chefe de família. Entretanto, a rotina, maior rival dos relacionamentos amorosos, já tinha mandado para o espaço a paixão que uniu o casal.

Josefa respeitava muito o marido e sempre dizia:

– Enquanto você me for fiel, eu também serei. Mas não caia na besteira de me trair, pois você será corno para o resto da vida. E não existe “ex -corno.”

Com essa ameaça na cabeça, Jonas foi sempre sonso. Comportava-se como um marido fiel, mas nunca deixou de pular a cerca. Sabia fingir muito bem que era apaixonado pela esposa. Só pulava a cerca durante o dia, e em dias úteis.

Ocupando um posto elevado dentro de uma instituição financeira em Fortaleza, Jonas recebeu para trabalhar em sua sala uma moça muito bonita, chamada Zênia, com curso de computação, para ser sua secretária.

De tanto conviver com Zênia no ambiente de trabalho, Jonas por ela se apaixonou, sendo correspondido. Foi uma paixão violenta, que fez o homem “bem casado” virar a cabeça completamente. Seguiram-se inúmeras saídas para motéis depois do expediente, e telefonemas de Jonas para Josefa, avisando que estava em “reunião”.

O romance tomou vulto e a moça passou a pressionar Jonas para que se separasse da esposa. Chegou a dar-lhe um ultimato: Se fosse para ele continuar com a esposa, a amante colocaria um ponto final naquele romance. Afinal, ela era jovem e bonita, e desejava ter um lar, marido e filhos.

Por sorte, Jonas foi transferido para um novo escritório da empresa, instalado em Teresina (PI). A Secretária o acompanharia.

Muito satisfeito com a transferência, Jonas recebeu a notícia como uma oportunidade de poder se separar de Josefa. Como não tinha coragem de pedir a separação cara a cara, e dizer que, para ele, ela era apenas a mãe de seus filhos, e muito menos dizer que estava apaixonado por outra mulher, Jonas resolveu lhe enviar uma carta pelo correio, confessando tudo.

Providenciou um apartamento em Teresina (PI), para iniciar, aos 40 anos, uma nova vida a dois. Tinha certeza de que Zênia era o grande amor de sua vida.

Não tinha intenção de voltar para sua família. Entretanto, desde já, continuaria dando total assistência financeira aos filhos e à esposa.

Jonas escreveu à Josefa uma longa carta, onde, entre frases de elogio e gratidão, dizia:

“Josefa:

Sempre lhe fui fiel e jamais tive intenção de me separar de você, uma mulher maravilhosa, que me deu três filhos lindos e que sempre me respeitou. Mas a carne é fraca e de repente me apaixonei perdidamente por outra mulher. Como não quero me sentir um traidor, preferi lhe escrever para dizer que já contratei um advogado para fazer a nossa separação. Estou deixando a nossa casa definitivamente. Estou me mudando para Teresina (PI), para trabalhar no novo escritório da Financeira

Nada faltará a você nem aos nossos filhos. Determinei à empresa uma pensão no valor de 40% do meu salário, que será paga a você todos os meses.”

Jonas pôs essa carta no Correio, poucos minutos antes da viagem.

Os dois amantes pegaram a estrada para Teresina (PI) e algumas horas depois sofreram um acidente fatal, ao tentar ultrapassar um caminhão.

Josefa estava certa de que o marido tinha viajado a negócios e que logo estaria de volta.

Inconsolável, no velório do marido, Josefa esqueceu que tinha filhos e a toda hora pedia a Deus que também a levasse, pois queria morrer junto com o amor da sua vida.

Depois do sepultamento, a viúva e os filhos voltaram para casa. À tarde, um dos rapazes abriu a caixa de correspondência e encontrou a carta endereçada à mãe. Não imaginava que fosse do pai, que acabara de ser enterrado. Josefa abriu a carta e leu a confissão do marido de que estava indo embora de casa para sempre e que estava apaixonado por outra mulher. Josefa sentiu o mundo desabar novamente sobre ela. O marido, que ela considerava um santo, revelava-se agora um grande canalha.

O sangue de Josefa ferveu nas veias e ela desejou estrangular o marido. Ainda bem que ele já estava morto e enterrado!!! E que ficasse por lá mesmo!!!. Nem luto ela usaria, nem mandaria celebrar missa de 7º dia, e muito menos de 30º dia!!!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 20 de julho de 2018

A VISITA

 

A VISITA

Rosa e Bento estavam em casa, numa sexta-feira à tardinha, quando um amigo que estava em Natal, numa excursão, telefonou, dizendo que ele e a esposa queriam aproveitar aquela noite, para visitá-los. se fosse possível. No dia seguinte, teriam que cumprir a programação do pacote turístico, sendo impossível visitá-los depois.

Muito preocupados com a inesperada visita, Rosa e Bento foram ligeiro ao supermercado, para comprar uma pizza e um bom vinho.

Os donos da casa estavam de dieta, e, sob orientação de uma nutricionista, haviam abolido carne vermelha e outras proteínas, gorduras, carboidratos e açúcar. O modismo havia feito com que introduzissem na alimentação alimentos integrais, soja, linhaça, chia, gergelim, semente de girassol e até alpiste, comida de passarinho. Esses cereais eram a coqueluche do momento.

No interior do Estado, espalharam que esses alimentos da moda, além de servirem para emagrecer, curavam todas as doenças, inclusive diabetes, hipertensão, colesterol alto, intestino preso, insuficiência renal, problemas hepáticos, hérnia de disco, cãimbra, unha encravada e bicho-de-pé.

Com a dieta rígida que estavam fazendo há um ano, o casal havia emagrecido quase dez quilos. Os dois estavam pálidos e com aparência doentia.

Naquela noite, a dieta iria ser interrompida. A visita ilustre que iriam receber merecia o sacrifício. Mas no dia seguinte, voltariam à dieta rígida.

Na fila do supermercado, encontraram algumas pessoas conhecidas, por coincidência, todas bem alimentadas, coradas e saudáveis.

A moça do caixa não parava de passar a mão no cabelo, visivelmente esticado por uma escova “progressiva”, também na moda.

Enquanto aguardava sua vez, Bento pediu que a esposa fosse pegar dois refrigerantes “zero”. Quando a mulher se afastou, ele avistou na fila um colega seu do curso Ginasial, que não via há bastante tempo e de quem era intrigado. Hoje, ambos já casados e bem sucedidos, não havia motivo para essa intriga.

Bento sorriu para Herculano e o cumprimentou. Em resposta, ouviu um grosseiro “você deve estar me confundindo com alguém”.

Bento ficou encabulado. Mas, em seguida, o próprio Herculano foi quem falou:

-Como é seu nome? Você é encanador?

Bento respondeu:

-Nunca fui encanador. Eu me chamo Bento. Fui seu colega no Colégio São Luiz.

Com cara de gozação, Herculano, hoje construtor, disse:

-Rapaz, você deve estar com alguma doença grave. Está pálido e com os olhos amarelos. Estou me lembrando da minha tia Marina, que começou assim e quando foi ao médico, foi diagnosticada com câncer de fígado, em estado terminal. Só durou três meses.

Bento ficou apavorado.

E o maldoso rapaz se despediu do antigo colega de classe, dizendo:

-Até qualquer dia. Mas não se impressione. Pode ser que ainda não esteja no estado terminal. Procure se alimentar muito bem, mas não deixe de ir logo ao médico.

Rosa encontrou o marido em pânico, querendo desistir das compras e voltar logo para casa. Esqueceu até de que os dois iriam receber a visita do casal amigo.

A mulher foi quem passou as compras, e Bento, desesperado, chamava para irem logo embora.

Rosa ouviu Bento contar sobre o rápido encontro com Herculano, colega de Ginásio, com quem era intrigado e a quem não via há 20 anos. Contou sobre o susto que Herculano fingiu ter tomado, dizendo que ele estava muito pálido e abatido, com cara de quem estava muito doente. Achando pouca a humilhação de ter fingido não o ter reconhecido, Herculano ainda lhe dera um péssimo prognóstico, comparando o seu estado de saúde com o de uma sua tia falecida há pouco tempo.

Mesmo conhecendo a maldade de Herculano, Bento ficou impressionado e combinou com Rosa que, dessa noite em diante, voltariam a se alimentar como antigamente, com proteínas, massas, manteigas e todas as comidas boas, das quais os dois vinham se privando, em nome do modismo.

Às favas, as folhas, frango grelhado, alimentos integrais, leite desnatado e cereais.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 13 de julho de 2018

O BANQUETE

O BANQUETE

Luiz Gonzaga Pimentel, nascido em Natal (RN), cursou a Escola Naval no Rio de Janeiro, e ingressou na Marinha de Guerra. Fez uma brilhante carreira militar, chegando ao posto de Almirante. Foi comandante do Navio Almirante Barroso e chegou a exercer o cargo de Adido Militar do Brasil, em Londres.

 

 

Numa de suas vindas a Natal, para visitar o pai Celestino Pimentel e demais familiares, na hora do almoço não se serviu da famosa macarronada, feita por sua madrasta Francisca Pimentel, dando preferência a outros pratos que compunham a mesa.Todos estranharam, pois sabiam que o prato preferido dele era macarrão. Sem dar explicação, ele almoçou muito bem, sem sequer olhar para a macarronada. A madrasta ficou sem entender aquela “mudança de hábito.” O militar deixou para se justificar depois. Pediu desculpas à madrasta, mas não houve quem fizesse ele se servir da célebre macarronada, feita exclusivamente em sua homenagem.

Como Adido Militar em Londres, Luiz participava sempre de jantares e almoços com o corpo diplomático, e teve oportunidade de participar até de banquetes em que a Rainha da Inglaterra estava presente.

Nesses banquetes, havia comidas sofisticadas e para ele desconhecidas. Certo dia, num desses banquetes, temendo não gostar da comida, Luiz optou pela mesa de Massas, com molhos variados. Aliás, macarrão sempre foi sua comida preferida. Serviu-se de macarrão com molho de ervas e quando começou a mastigar, sentiu que estava mastigando um cabelo. Luiz ficou paralisado, dominando a vontade de pôr para fora tudo o que tinha na boca. Entretanto, o ambiente era altamente requintado e formal. Num banquete solene, sob holofotes, um Adido Militar não poderia cometer tamanha gafe. Luiz tinha que continuar comendo. Lembrou-se de Natal e sentiu saudade da macarronada feita por sua madrasta, muito mais saborosa do que aquela e sem cabelo dentro.

Por um minuto, Luiz entendeu que a solução seria engolir o cabelo. Sua vontade era devolver ao prato a porção que tinha na boca. Mas seria um gesto grosseiro no ambiente requintado em que se encontrava.

Jamais na sua vida, Luiz tinha passado por uma experiência tão desagradável. Por alguns segundos, conseguiu permanecer sem engolir, mas, finalmente, respirou fundo e, ajudado por um gole d’água, engoliu a porção que tinha na boca, juntamente com o maldito cabelo. Pegou-se com todos os anjos e arcanjos, para não vomitar. Sem saber se o cabelo era preto, branco ou louro, nem de onde tinha saído, Luiz sentiu vontade de sumir para sempre daquele ambiente de luxo e ir direto ao banheiro para vomitar. Passou o resto do dia enjoado. Sentiu-se a pessoa mais infeliz do mundo, como se naquele dia tivesse pagos todos os seus pecados, passados, presentes e futuros.

E o Almirante fez uma jura de nunca mais comer macarrão.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 06 de julho de 2018

O FANATISMO

 

Décadas atrás, havia em Natal dois boêmios e amigos inseparáveis, Plínio e Baltasar, fanáticos por velórios e enterros. Nessa época, os velórios ocorriam em casa, pois ainda não havia Centro de Velórios na cidade.

Diariamente, eles se informavam sobre a ocorrência de algum óbito e o endereço do velório. E para lá se dirigiam, mesmo que não conhecessem o defunto nem a família enlutada.

Abraçavam os parentes do (a) morto (a), choravam, procuravam consolá-los e faziam até discursos, lamentando aquela partida “precoce”, ainda que se tratasse de uma pessoa centenária..

Bem apessoados e educados, eram recebidos com cordialidade e até confundidos com os parentes e amigos.

Entretanto, o que mais os atraía nos velórios era o costume de se oferecer bebida aos presentes, principalmente quando se prolongavam pela madrugada. A cana corria solta e os dois passavam a noite enchendo a cara. Duros na queda, pela manhã conseguiam acompanhar o enterro e ainda faziam discurso no Cemitério.

Os dois tinham o dom da oratória, apesar de não terem formação acadêmica. Nos discursos, exaltavam as virtudes da pessoa morta e às vezes confundiam a identidade, chegando a elogiar as qualidades daquela “admirável esposa e mãe”, quando, na verdade, a pessoa morta era solteirona e virgem como tinha nascido.

Mesmo sendo carismáticos, ambos eram os “timotes” de tradicionais famílias da cidade. Em tudo que era velório ou enterro eles se metiam. Faziam-se tão íntimos da casa, que chegavam a receber pêsames e procurar onde estavam as bebidas.

Quando não tomavam conhecimento de nenhum velório, Plínio e Baltasar costumavam fazer ponto num bar, perto do Cemitério do Alecrim. Mas, se, por acaso, vissem a chegada de algum enterro, entravam no Cemitério e antes do coveiro começar a enterrar, o que estivesse mais “alto” iniciava um discurso bonito e comovente, tirado dos jornais, que eles sabiam decorado. Foi assim no enterro de um simples servidor público, que havia morrido em consequência de um tumor fecal. Plínio, o orador do momento, saiu-se com essas palavras:

“Mataram-te, Presidente, mas serás enterrado em pé. A cabeça acima do coração. O coração acima do estômago!”

E prosseguiu com o discurso feito por um doido, no enterro de João Pessoa.

Certa vez, Baltasar, o outro fanático por enterro, foi convidado por um grupo de teatro amador para ser o Lázaro, na peça “A PAIXÃO DE CRISTO”. Ao lado do teatro havia uma birosca e ele se embriagou bem antes da peça começar. Como Lázaro teria que se deitar num caixão de defunto, Baltasar achou ótimo. Adormeceu profundamente e não houve jeito de obedecer às ordens do artista que representava Jesus Cristo. Cansado de chamá-lo, o artista implorava:

-Levanta-te, Lázaro! Ergue-te, Lázaro! Ressuscita, Lázaro!

O artista que representava Jesus Cristo perdeu a calma e deu um chute no caixão.

O bêbado abriu os olhos, meio confuso, olhou para aquele Cristo de araque e respondeu aos gritos e grosseiramente:

-Vai se lascar, homem! Vai se f….

A cortina do palco foi fechada, e a peça terminou aí.

Também terminou aí a futura carreira artística de Baltasar.

 

 

Violante Pimentel - Cenas do Caminho domingo, 01 de julho de 2018

MAIA BOA, A HONRADA DONA DE CABARÉ POTIGUAR NO TEMPO DA GUERRA

 

Recebi de um amigo e conterrâneo, Tadeu Arruda Câmara, essa música “histórica”.

Achei interessante e resolvi lhe enviar, a título de “ilustração”…rsrs.

Está no google.

 

  

A lendária Maria Boa em foto dos anos 40

 

COMENTÁRIO DE LUIZ BERTO, EDITOR DO JORNAL DA BESTA FUBANA:

Maria Boa era dona de um cabaré que tinha muito mais respeito, honradez e moralidade do que o STF dos dias hoje.

Um cabaré que era frequentado por autoridades, homens do povo, celebridades e pessoas gradas de então.

Tornou-se até nome de uma excelente cachaça, uma das melhores daqui do Nordeste.

Todos os anos, na reunião de fubânicos que promovemos aqui na minha casa, Violante sempre me presenteia com uma caixa deste precioso líquido.

Atualmente, os cachacistas sedentos que frequentam meu terraço é que se deliciam com este maravilhoso presente, eis que a abstinência compulsória imposta pelo meu cardiologista me impede de encher o rabo com esta maravilha.

 

 

Quem quiser saber mais sobre Maria Boa, clique aqui para tomar conhecimentos de quem foi esta figura mitológica da história potiguar.

Um texto muito interessantes, falando daquele tempo em que Natal estava cheia de soldados americanos, no período da 2ª Guerra e Maria Boa teve seu nome pintado na fuselagem de uma caça de guerra dos EUA, uma homenagem dos marinheiros daquele país à dona do maior cabaré do estado.

E vamos ao vídeo que nos foi enviado pela nossa colunista.

 

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 29 de junho de 2018

UMA RUMA DE ZÉ

No interior nordestino, é comum se usar a alcunha de Zé, ou seu Zé, para nominar alguém do sexo masculino, cujo verdadeiro nome se desconhece. É o “nome” mais comum que existe. Zé do Café, Zé de Baixo, Zé de Riba, Zé da Luz; Zé do Cuscuz; Zé da Água; Zé do Algodão Doce; Zé da Cocada; Zé da Pipoca.

É Zé, em banda de lata…

Para se ter o privilégio de ser chamado de Zé, não interessa o nome de batismo ou registro de nascimento.

Já em relação à mulher, da qual não se sabe o nome, costuma-se chamar “Dona Maria”, quando se trata de uma senhora, ou “Maria”, para se chamar as mocinhas. Também se usa chamar “essa menina” ou “esse menino”, para meninas e meninos.

Na feira de Nova-Cruz, era comum se ouvir: “Seu Zé, quanto é um cacho de pitomba?” “ Dona Maria, quanto é o litro da goma? “Esse menino, quanto é um pirulito?” E assim por diante.

 

 

Contam os historiadores norte-riograndenses, que Natal (RN) esteve na rota de viagens de Antoine de Saint-Exupéry, na 1ª fase da 2ª guerra mundial. Esse piloto francês e escritor pisou o solo do Rio Grande do Norte, descansando em Natal dos seus seguidos voos. Chegou a se familiarizar com várias pessoas do povo. Entretanto, diante da dificuldade da pronúncia do seu nome, logo foi apelidado de Zé Perri, ficando assim conhecido e “batizado”. Portanto, nem Exupéry escapou dos costumes da região, passando a ser conhecido como mais um Zé. Estabeleceu-se, então, uma relação afetiva entre ele e a capital potiguar.

Durante esse período, o transporte de malotes do correio, com escalas na África, passava pela capital potiguar, primeiro ponto continental sul-americano, depois de Fernando de Noronha, com escala de pouso para hidroaviões.

Realmente, está evidenciado que Natal esteve na rota de viagens do autor de “O Pequeno Príncipe”.

O Baobá da Rua São José o encantou e lhe serviu de inspiração, ao escrever, depois, a importante obra.

Muitas histórias cercam a sua passagem por Natal, havendo registros incontestáveis da constância dessas visitas.

Exupéry escreveu diversas obras, focalizando sempre elementos de aviação e de guerra, entre elas: “O Aviador” (1926), “Voo Noturno” (1931), “Terra dos Homens” (1939), e “Carta a um Refém” (1944).

Entretanto, sua obra mais importante foi “O Pequeno Príncipe” (1943), livro mais vendido no mundo, depois da Bíblia.

O famoso piloto e escritor foi vitimado por um acidente de avião, durante uma missão de reconhecimento, no dia 31 de julho de 1944. Seu corpo nunca foi encontrado. Em 2004, foram encontrados os destroços do avião que pilotava, a poucos quilômetros da costa de Marselha, na França.

O assunto voltou à tona, com o lançamento dos livros “O Pequeno Príncipe me disse” e “Antoine de Saint-Exupéry – A história da história”, no dia 22 de março de 2009, em São Paulo, pela escritora e pesquisadora Sheila Dryzun. Como convidado, esteve presente ao evento François d’Agay, 84 anos, sobrinho do autor de “O Pequeno Príncipe”. Ele ainda participou de uma conversa, no dia 6 de março de 2009, na Aliança Francesa de Natal (Praça Cívica, Petrópolis), sobre seu tio, e sobre os livros de Dryzun. O sobrinho ratificou a evidência da relação do parente famoso com Natal.

Ainda no dia 6 de maio de 2009, o Baobá da Rua São José, em Natal, hoje chamado “O Baobá do Poeta”, recebeu a visita do sobrinho de Saint-Exupéry, engenheiro François D’Agay, a convite da Prefeitura Municipal.

 

 

No nosso planeta, o Baobá é considerado a árvore mais longeva que existe, podendo atingir milhares de anos. Sua altura pode atingir mais de 25m. O seu tronco pode medir até 20m de diâmetro. São necessários vinte homens abraçados, para abraçar o tronco de um Baobá.

Entre as famosas frases de Exupéry, na sua obra “O Pequeno Príncípe”, estâo:

“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos”.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 22 de junho de 2018

O MAIOR ABANDONADO

 

A festa na casa de Rita e Eudo, em Nova-Cruz (RN), num dia de sábado, começou ao meio dia. Era o aniversário do dono da casa. Vários amigos e familiares foram convidados.

Dona Leide e Seu Vítor, exímio violonista, tinham chegado de Natal, para prestigiar o aniversário do filho.

A família gostava muito de música. Quase todos os membros tocavam algum instrumento e cantavam bem, como amadores.

No alpendre da casa, formou-se uma animada roda de amigos, com violão, cavaquinho, sanfona, pandeiro, afoxé e tantã.

Logo começaram as rodadas de cerveja e tira-gostos, muita música e muita animação.

Depois do almoço, a farra continuou, entrando pela noite. A turma demorou muito a dar sinal de cansaço. Aos poucos, alguns convidados foram se despedindo, mas a música custou a parar. A bebedeira tinha sido pesada e o sono estava chegando.

Altas horas da noite, ainda estavam no alpendre, conversando, o amigo Carlito, o aniversariante e o seu pai. Os três, mesmo exaustos, ainda tomavam cerveja.

Entretanto, pela madrugada, já cansados de beber, os três ficaram sem assunto e o astral baixou.

Antes de se despedir, o amigo Carlito, completamente embriagado, resolveu “fazer uma fala.” Dizendo-se emocionado e feliz, por estar ali ao lado de dois grandes amigos, pai e filho, o “orador” assim se expressou:

– Não tive a felicidade de conhecer meu Pai! Como eu gostaria de ter convivido com ele! Mas nem sequer me lembro do seu rosto, pois eu só tinha três meses quando ele morreu!

Que coisa linda, pai e filho, grandes amigos e bebendo juntos! Como esta cena que estou vendo me comove! Ô coisa do meu agrado! Foi a cena mais bonita, que encontrei no meu caminho! Como eu tenho inveja de quem tem pai vivo!

A emoção também dominou Eudo e o pai, e os três amigos choraram abraçados. Pai e filho abriram as torrentes, em solidariedade à orfandade do amigo Carlito.

Controladas as emoções, o aniversariante também resolveu falar, para consolar o amigo órfão, que, por sinal, já tinha 50 anos de idade:

– Carlito, a partir de agora, quero que você me chame de PAPAI…

O órfão se abraçou com seu novo pai, aceitando a simpática proposta. Em lágrimas e com voz pastosa, de quem passara o dia bebendo, falou:

– A “BENÇA”, PAI!

Por coincidência, Eudo, naquele dia, estava completando 50 anos, a mesma idade do amigo Carlito. Jamais poderiam ser pai e filho.

Enquanto os três amigos choravam de emoção, as três esposas, que haviam escutado a conversa dos bêbados, não paravam de rir.

A cena ficou na história.

 

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 15 de junho de 2018

A DEVOÇÃO A SÃO MURALHAS

 

Antigamente, nas Escolas Públicas, uma vez por semana havia uma “hora cívica”, antes do início das aulas. A Diretora se reunia no pátio da escola, com os professores e todos os alunos. Havia o hasteamento da Bandeira Brasileira e todos cantavam o Hino Nacional, com a mão no coração.

Uma das matérias que faziam parte do currículo escolar era Canto Orfeônico. A professora, geralmente uma musicista, ensinava aos alunos a cantar todos os hinos cívicos brasileiros. Todos eram obrigados a decorar as letras.

 

 

Depois do Hino Nacional, o Hino mais cantado no Colégio era o Hino da Independência, principalmente na Semana da Pátria.

Rosinha, uma aluna do Colégio das Freiras, desde criança aprendeu a cantar os hinos cívicos. Muito religiosa, tornou-se devota de São Muralhas, e o elegeu seu santo protetor. Era com ele que se pegava quando tinha prova de Matemática, o terror das alunas. Entretanto, nunca viu no colégio ou em nenhuma Igreja uma imagem do santo da sua devoção.

A jovem pagava promessas a São Muralhas, acendendo velas para ele ou rezando terços em sua intenção.

Certo dia, Rosinha pediu à Dona Neusa, sua mãe, que lhe comprasse uma imagem de São Muralhas. Apesar de ser católica, a mulher disse à filha que não conhecia esse santo, mas iria à lojinha da Igreja Matriz, para ver se conseguia comprar alguma coisa relacionada com ele. Não encontrou imagem, retrato, nem oração de São Muralhas. Dona Neusa resolveu, então, falar com o Vigário da Paróquia, para obter informações sobre esse santo. Padre José lhe garantiu que esse santo não existia.

Rosinha não se conformou com a notícia e continuou devota de São Muralhas.

Era a Semana da Pátria. No Colégio, houve a “hora cívica”, com o hasteamento da Bandeira Brasileira. Todos os presentes cantaram o Hino Nacional, e em seguida o Hino da Independência.

Foi aí que Rosinha fortaleceu a sua fé em São Muralhas. Ele realmente existia e era um santo forte e poderoso. O povo é que era burro, pois nem ao menos o Padre José sabia da sua existência..

O problema é que a terceira estrofe do Hino da Independência diz:

“Não temais ímpias falanges,
Que apresentam face hostil;
Vossos peitos, vossos braços
“SÃO MURALHAS DO BRASIL”

Depois da solenidade, Rosinha foi perguntar à Madre Superiora por que São Muralhas era tão desprezado, se até no Hino da Independência do Brasil ele era citado. Sabia que ele era poderoso, pois quando ela queria alcançar uma graça era a ele que fazia promessas, e nunca deixou de ser atendida.

A religiosa ficou chocada com a fraca inteligência de Rosinha. Foi difícil fazê-la aceitar que esse santo não existia. Simplesmente, a jovem não conseguia entender o significado da letra do Hino da Independência.

Aliás, os antigos hinos cívicos usavam uma linguagem erudita, que nem todas as pessoas compreendiam. Foi o caso de Rosinha.

As “ímpias falanges” significavam as tropas inimigas, que estavam prestes a enfrentar as forças brasileiras. E o Hino dava força aos brasileiros, dizendo:

“VOSSOS PEITOS, VOSSOS BRAÇOS
“SÃO MURALHAS” DO BRASIL”

Esse hino foi composto em homenagem à Independência do Brasil, do domínio da Coroa Portuguesa (07.09.1822), pelo poeta, jornalista, político e livreiro brasileiro, Evaristo da Veiga. No estilo árcade, o Hino da Independência pretende engrandecer o Brasil e o seu principal produto, o brasileiro.

Na letra, há uma saudação ao povo brasileiro, desejando-se que a servidão à Coroa Portuguesa não mais retorne.

A decepção de Rosinha foi grande, ao saber que São Muralhas do Brasil só existia na cabeça dela.

 

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 08 de junho de 2018

O CAMPEÃO

 

Décadas atrás, em Natal, na descida do Baldo, um pequeno grupo de boêmios gostava de se reunir na calçada de uma bodega muito simples, onde só havia uma mesa velha e algumas cadeiras. No começo, eram poucos frequentadores, mas depois houve outras adesões. Os novatos sentavam-se até em caixotes vazios. Não queriam perder as boas conversas e o bom humor dos frequentadores.

 

O tira-gosto era sardinha, cujas latas ornamentavam as duas prateleiras da bodega. As bebidas disponíveis eram cerveja, cachaça e refrigerantes.

A bodega era humilde, e o próprio dono fazia as vezes de empregado da limpeza e de garçom. Era um senhor alto, forte e careca, muito receptivo e carismático. Zé Coroa, como era chamado, era muito querido pelos boêmios. Eles preferiam passar o dia todo nessa simples calçada, bebendo e batendo papo, a frequentar barzinhos de luxo. Só funcionava durante o dia.

Havia uma hierarquia entre os bebedores, de acordo com a capacidade etílica de cada um. Nilton, o líder dos frequentadores, tinha o apelido de “Campeão”, pois já tinha chegado a beber sozinho, num dia, uma grade de cerveja, ganhando uma aposta. O apelido pegou. Os mais fracos, que não aguentavam o rojão e se embriagavam rapidamente, eram chamados de “sem futuro”. Se atrapalhassem o ambiente, recebiam cartão vermelho do dono da bodega.

Campeão, representante comercial, era o mais falante da turma, simpático e o mais atualizado com as notícias de jornais. Por isso, era muito respeitado, e considerado “intelectual”. Quando falava, sua voz bonita e eloquente fazia com que todos o ouvissem com atenção.

Certa vez, Campeão conheceu Anita, uma jovem muito bonita, novata no bairro. Foi paixão mútua, à primeira vista. Ao vê-lo ser tratado com respeito e ser chamado de Campeão, a moça imaginou que ele fosse lutador de artes marciais.

Pouco tempo depois, conversando com uma conhecida, Anita falou no seu novo namorado, e ficou sabendo que ele era “campeão de bebedeira”. O rapaz era um alcoólico inveterado. Divorciado e com dois filhos, não havia jeito de maneirar a bebida. A cerveja e o cigarro, para ele, eram sagrados. A moça ficou decepcionada, mas preferiu ignorar o que considerou um “boato”. Foi a segunda esposa de Campeão, mas a paixão violenta que os uniu logo se transformou em “fogo de palha”.

O cervejeiro, vencedor de apostas, algum tempo depois estragou sua saúde. Não acreditou nos médicos. Quando resolveu levar o tratamento a sério e parar de beber, já era tarde. Dessa vez, ele perdeu o título de Campeão. Venceu a cirrose.

 

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 01 de junho de 2018

O PALHAÇO

 

O mundo mágico do Circo sempre encantou crianças e adultos.

Rute aprendeu a gostar de Circo desde criança. Sempre que chegava um bom Circo ao Recife, seus pais a levavam, nas tardes de domingo, para assistir aos divertidos espetáculos. Entre todos os Circos que passavam temporadas em Recife, o que mais se destacava, pelo luxo, beleza e talento dos artistas, era o Circo Nerino. Eram números de palco e picadeiro, com acrobatas, trapezistas, palhaços, além dos belos animais.

Mesmo passando temporadas em todos os Estados do Brasil, houve ocasião do Circo Nerino permanecer um ano inteiro no Recife, mudando apenas de bairro. Às vezes, também percorria as melhores cidades do interior de Pernambuco.

Depois de muitos anos, as idas do Circo Nerino ao Recife foram diminuindo, até que cessaram definitivamente.

 

 

As lembranças do Circo Nerino nunca saíram da memória de Rute, mesmo depois de casada. Seu sonho era levar as duas filhas a esse mundo mágico, no dia em que ele retornasse ao Recife. As meninas ouviam a mãe falar desse fantástico espetáculo de beleza e alegria, como se fosse um conto de fadas.

Certa vez, no final de 1969, Rute soube que havia chegado a Olinda um maravilhoso Circo, chamado Circo Garcia. Entretanto, sendo da “torcida organizada” do Circo Nerino, tal qual uma torcedora fanática de um time de futebol, não admitia que nenhum outro Circo pudesse superá-lo. Mesmo assim, entregou os pontos e numa tarde de domingo, foi com as filhas ao Circo Garcia.

Quando passava pela entrada, Rute olhou para o porteiro, enquanto lhe entregava os ingressos, e no mesmo instante reconheceu nele um dos mais famosos acrobatas do Circo Nerino. Sem conter a emoção, falou:

– Seu Gaetan!

E o homem respondeu:

– A senhora me conhece?

– Conheço! O senhor é do Circo Nerino! .

O homem ficou calado. A mulher insistiu:

– Seu Gaetan, onde está o Circo Nerino? Onde estão os outros artistas? Onde está o Roger?

O porteiro nada respondeu.

Gaetan acompanhou Rute e as filhas até as cadeiras, mesmo ela tendo comprado entradas para os poleiros, de onde se podia ver melhor o Picadeiro.

No intervalo, Rute viu Gaetan vendendo pipocas, pirulitos e balas.

Quando o espetáculo acabou, o homem chamou Rute e as filhas e as levou aos camarins. Foi então que a mulher se emocionou, ao ver Roger, o mais bonito galã do Circo Nerino, e filho do dono, com uma toalha na mão, tirando a maquiagem de palhaço. Era ele que, no Circo Nerino, sabia se equilibrar com perfeição nas ancas de um belo cavalo. Agora, era um simples palhaço, do Circo Garcia.

Rute ficou sabendo que as famílias Avanzi e Garcia haviam se unido, com o casamento de Roger e Anita.

Soube também que, há muito tempo, Roger se tornara o Palhaço Picolino, substiuindo o pai, o saudoso Nerino Avanzi. Sua mãe, Armandine Avanzi e seu tio Gaetan Ribolá estavam com ele, há meses, no Circo Garcia.

A permanência do Circo Garcia, em Olinda, passou despercebida pela imprensa, até que no dia 10 de março de 1970, o Diário de Pernambuco noticiou: “Gaetan Ribolá, do Circo Nerino, que se encontrava no Circo Garcia, está morto.” O artista sofrera um enfarte fulminante.

Gaetan Ribolá, irmão de Nerino Avanzini, foi velado no Recife, na Capela do Hospital Santa Maria, no Bairro Cordeiro. Presentes ao velório, um pequeno número de amigos da cidade e alguns artistas do Circo Garcia.

Roger Avazani passou o dia providenciando os documentos, para transportar o corpo do tio para João Pessoa (PB), onde a família tinha um jazigo. Chegou ao velório no final da tarde, e, logo que anoiteceu, precisou ir para o Circo, porque naquela noite teve espetáculo. E o espetáculo não pode parar. O espetáculo continua!

Sendo palhaço há mais de dez anos, Roger já tinha sentido o amargor de ter que fazer rir, com vontade de chorar. Mas, naquela noite, vestido de palhaço, e executando seu número de ciclismo cômico, ele abriu as comportas e chorou copiosamente.

Ainda de madrugada, encerrou-se o velório. O caixão foi fechado e colocado na carroceria da caminhonete do Circo Garcia.

Roger na direção, sua mãe Armandine e uma amiga apertaram-se no banco da caminhonete, e seguiram para João Pessoa (PB).

Inúmeras vezes, desde a década de 1940, Gaetan percorreu aquela estrada. Dirigiu os primeiros caminhões da frota que o Circo Nerino viria a adquirir, até o início de 1950. Comandava uma caravana de carros-moradia, que ele próprio ajudara a construir.

Ao amanhecer, a caminhonete chegou a João Pessoa, e logo depois estacionou na frente do Cemitério. Um grupo de pessoas aproximou-se. Eram os radioamadores que souberam da morte de Gaetan, por meio de uma colega do Recife, que se encarregara de divulgar a notícia e que se chamava Nerina. Por sinal, essa radioamadora era muito amiga de Dr. Ernani Hugo, ex -titular da Delegacia de Ordem Política e Social do Rio Grande do Norte.

Eles estranharam a solidão daquela caminhonete. Esperavam uma grande carreata. O sol já ia alto e os radioamadores precisavam trabalhar. Não puderam ficar até o fim do ato.

E assim, Gaetan Ribolá, que já havia sustentado uma pirâmide de cinco homens, e foi a viga mestra do Circo Nerino, e irmão do dono, foi enterrado sem nenhuma pompa. Não teve grinaldas, salva de tiros, ramalhetes de flores, nem discursos de “autoridades civis, militares ou eclesiásticas”. Não teve, sequer, os aplausos daquele a quem dedicou sua vida: O RESPEITÁVEL PÚBLICO.

“Aplauso não se pede. O povo aplaude quando quer”.

 

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 25 de maio de 2018

A PROMESSA

São Severino do Ramo (ou São Severino dos Ramos) é uma imagem devocional católica, centro de um importante culto religioso, em alguns estados do Nordeste do Brasil, como Pernambuco e estados vizinhos.

A estátua em tamanho natural, cuja origem é incerta, representa São Severino de Nórica, deitado e vestido em trajes de soldado romano. Encontra-se na Igreja de Nossa Senhora da Luz, no município pernambucano de Paudalho, em uma capela ao lado do altar principal.

Os primeiros relatos da realização de milagres por intermédio de São Severino do Ramo datam do século XIX, quando se espalhou o boato de que a estátua seria o próprio cadáver incorrupto de São Severino, de tal maneira preservado, que se fosse furado, verteria sangue.

A notícia se espalhou entre os habitantes das regiões circunvizinhas. Chegou a outros estados do Nordeste, e passou a atrair grande número de romeiros, para visitar a Igreja de Nossa Senhora da Luz, no Engenho Ramos, onde a estátua se encontrava. Logo o São Severino do Engenho Ramos tornou-se São Severino do Ramo, nome pelo qual a devoção é até hoje conhecida.

A devoção a São Severino do Ramo continua sendo uma manifestação religiosa, ainda importante nesses estados, tendo sido mencionada por João Cabral de Melo Neto, no poema “Morte e Vida Severina”.

Essa devoção é fundamentada na Devoção de São Severino, soldado romano, martirizado nos primeiros séculos do cristianismo.

O Martirológio Romano de 1930 acrescenta que São Severino foi martirizado no tempo de Diocleciano, e que as suas relíquias se conservaram em catacumbas romanas.

Pois bem. Décadas atrás, em Nova-Cruz, cidade do interior do Rio Grande do Norte, era comum o deslocamento de devotos até o santuário de São Severino do Ramo, para o pagamento de promessas alcançadas. A viagem de ida e volta era feita no trem que trafegava de Natal para Recife, e de Recife para Natal, com parada na Estação Ferroviária de Nova-Cruz. Os romeiros costumavam regressar no dia seguinte. Levavam objetos de cera, como cabeças, braços, mãos, joelhos ou pernas, para depositar aos pés do altar, conforme o milagre alcançado.

Certa vez, a devota dona Luísa, de Nova-Cruz, viajou até Paudalho, (PE), para pagar uma promessa a São Severino do Ramo. Foi na companhia do marido Dilermano e da filha Rose, de 8 anos. Levava numa bolsa uma cabeça de cera, para depositar aos pés do altar e uma oferta em dinheiro.

A menina passara mais de um ano se tratando de uma impingem na cabeça, doença de pele, cujo nome científico é “Tinha Corporis” (Tinea Corporis), provocada por um fungo altamente contagioso. Em vez de cicatrizar com os unguentos indicados pelo médico consultado, a “Tinha” se alastrava cada vez mais, com forma arredondada e atingindo o tamanho de um pires. Na parte afetada, o cabelo caiu todo, ficando exposto o couro cabeludo. Era uma ferida repugnante, que causava à doente ardores insuportáveis.

Desesperada, vendo a filha piorar cada vez mais, Dona Luísa se pegou com São Severino do Ramo, fazendo uma promessa de viajar até o seu santuário, para dar o seu testemunho, se a menina fosse curada. Levaria também uma cabeça de cera e uma oferta em dinheiro.

Depois de dois meses, Rose estava curada. A ferida sarou completamente. Aos poucos, os cabelos foram nascendo novamente.

A notícia do milagre se espalhou em Nova-Cruz e o número de devotos de São Severino do Ramo aumentou bastante.

Dona Luísa, o marido e a filha foram, de trem, a São Severino do Ramo pagar a promessa. Desembarcaram na Estação Ferroviária de Paudalho, e se hospedaram num pequeno hotel da cidade. Chegaram com antecedência ao santuário, para a Missa que seria celebrada às 10 horas da manhã.

Depois de falar com o celebrante da Missa, entregar sua oferta e depositar a cabeça de cera aos pés do altar de São Severino do Ramo, Dona Luísa, ao lado do marido e da filha curada, deu o seu testemunho, sob um clima de grande emoção. Para os fiéis, estava configurado mais um milagre, com a cura da menina Rose.

Voltaram para o hotel, onde almoçaram e depois foram a uma feirinha de artesanato nas imediações, onde predominavam motivos religiosos.

Nessa feirinha, Dona Luísa notou que sua bolsa estava aberta e dela tinham furtado a “capanga” do seu marido, portando o dinheiro para as despesas, documentos e talão de cheque.

Desesperados, o casal e a filha curada voltaram ao santuário, na intenção de pedir que lhes fosse devolvida uma parte da oferta que tinham feito. Mas o vigário já tinha se retirado, levando consigo todo o dinheiro.
Ajoelhados, os romeiros rezaram muito, e imploraram a São Severino do Ramo que lhes concedesse a graça de recuperar o que lhes fora furtado. A fé que tinham nesse santo milagroso continuava inabalável.

A viagem, de volta para Nova-Cruz, seria às 5 horas da manhã, no trem de Recife.

Um caminhoneiro, hóspede do mesmo hotel, ouviu o casal contar ao gerente o furto ocorrido, e se ofereceu para levá-los à Delegacia de Polícia, para prestar queixa, e registrar o B.O.  (Boletim de Ocorrência). Ao chegarem à Delegacia, viram entrar um casal, preso, conduzido por dois policiais.

Imediatamente, Dona Luísa reconheceu a “capanga” do seu marido, que a mulher trazia na mão, e, sem se controlar, falou para o Delegado, em voz alta:

– Esta “capanga” é a do meu marido!!!

Depois de confrontados o conteúdo da “capanga” e o furto registrado em B.O.  Dilermano recuperou totalmente o que lhe tinha sido furtado. Estava tudo intacto: O dinheiro, os documentos e o talão de cheque.

Mais um testemunho de uma graça alcançada. Outro milagre de São Severino do Ramo.


A fé remove montanhas.

 

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 18 de maio de 2018

O RIRRI

 

A história do zíper, fecho éclair ou simplesmente “fecho”, começou em 1893, na Exposição Mundial de Chicago, nos EUA, onde esse objeto deslizante, para fechar e abrir roupas, foi apresentado pela primeira vez. Tratava-se de uma versão primitiva do dispositivo, com minúsculos ganchos e argolas, desenvolvida pelo engenheiro americano Whitcomb Judson. Cansado de abrir e fechar todos os dias os cordões dos seus sapatos, ele teve a ideia de criar um artefato rústico, composto de ganchos e furos, para facilitar. Porém, esse tipo de zíper não era muito eficiente: não fechava com facilidade e abria em horas impróprias.

O mecanismo atual do zíper, com o uso de dentes que se engancham, surgiu, somente, em 1912, desenvolvido por Gideon Sundback, um engenheiro elétrico sueco, que trabalhava nos Estados Unidos. No mesmo ano, a patente para um sistema semelhante foi concedida na Europa em nome de uma mulher chamada Catharina Kuhn-Moos. A indústria de confecção foi a mais beneficiada com essa invenção, que facilitou, de maneira fantástica, o abrir e fechar de roupas.

Antes do zíper, as roupas tinham fileiras intermináveis de botões.

A palavra “zíper” só surgiu em 1923. Ela foi criada por um funcionário da empresa americana B.F. Goodrich, que usou o termo para dar nome ao fecho deslizante, que acabava de ser lançado numa linha de galochas de borracha, as chamadas Zipper Boots (“Botas Zipper”).

Antigamente, no interior nordestino, os fechos de saias e vestidos eram chamados de “Rirri”. Zíper e Fecho-Eclair não eram palavras conhecidas. Toda saia ou vestido tinha um “Rirri”, costurado numa fenda lateral ou nas costas, que variava de 20 a 35 centímetros. Tinha a finalidade de facilitar o vestimento da peça, na passagem pela cabeça. O nome está ligado ao som, provocado pelo seu fechamento ou abertura, quando as duas carreiras de dentinhos de metal deslizam sobre os trilhos que o compõem.

De acordo com o costume, as barguilhas (ou braguilhas) das calças masculinas eram fechadas com botões. Somente com a moda de calças Jeans (Faroeste, Lee etc), tecido bastante pesado, os botões foram substituídos pelo Rirri.

Convém salientar que, enquanto os botões nunca causaram danos físicos ao homem, o “Rirri” lhe tem causado muitos “acidentes”. Já houve casos do homem ficar preso a ele, pela pele do membro sexual, ao abrir ou fechar a calça ou bermuda, com necessidade de procedimento cirúrgico.

A primeira participação desse utilitário, na indústria do vestuário, aconteceu durante a I Guerra Mundial, quando os uniformes dos soldados norte- americanos foram confeccionados com zíper nas calças.
Na II Guerra, foi usado em sacos de dormir, uniformes, malas e sacolas para transporte de mortos.

Na década de 50, a calça “LEE” fez, a união do z¡per com jeans, quando lançou a calça de jeans feminina.
Na década de 70, o zíper triunfou no setor do vestuário, entrando em contato com a alta costura. Também esteve a serviço do vestuário dos Hippies e dos Astronautas.

No Brasil o maior fabricante do zíper é a YKK, Yoshida Brasileira Indústria e Comércio, com sede no Japão e atuando em 44 países. Os outros fabricantes são: Linhas Correntes e Metalúrgica Ultra.
Há casos hilários, envolvendo o zíper.

Uma certa noite, um jovem casal de “sem carro”, com os hormônios fervendo, estava namorando na calçada da casa da moça. Já era tarde, a rua deserta, e o pai da jovem assobiou, dando sinal de que estava na hora de entrar. Ao ver a filha demorando, o homem foi até a calçada e flagrou o casal abraçado, debaixo de um pé de Castanhola, sem poder se apartar. O rapaz, em pânico, tentava fechar o zíper da calça, que ele mesmo abrira, e não conseguia. O pai da moça deu um escândalo com os dois e marcou a data do casamento na hora.

 

 

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 11 de maio de 2018

O JOGO
 

Cena ocorrida no caminho do século passado, meados da década de 60. Numa cidade do interior nordestino,. Seu Messias, comerciante e religioso fanático, sabia a Bíblia decorada, e gostava de pregar a palavra de Deus a toda hora. Falava difícil e gostava de impressionar os ouvintes, usando sempre palavras desconhecidas, tiradas do dicionário. As pessoas simples, que o escutavam, não entendiam nada.

Era convencido de que o homem mais santo, mais honesto e mais inteligente do mundo era ele mesmo. Acima dele, só havia Jesus Cristo. Gabava-se de respeitar a lei e tinha horror a jogo de azar, principalmente ao jogo do bicho. Sabia que, de acordo com a lei, jogo de azar era contravenção penal. Gostava de dizer que o seu dinheiro era fruto do trabalho honesto. Ficava no balcão da sua mercearia, das 7 horas da manhã às 5 da tarde. Ia em casa almoçar ao meio dia e antes das 2 estava de volta.

Certa manhã, entrou no seu estabelecimento comercial um cambista chamado Chicão, com o talão de apostas na mão, insistindo para que ele jogasse no bicho:

– Seu Messias, faça aqui uma aposta no bicho, pra me ajudar! Meu talão ainda está inteiro… Tenho um palpite pra hoje, e tenho certeza que vai dar Galo, 13. Tive um sonho de ontem pra hoje e quando eu sonho, é “batata”! .

Seu Messias danou-se de raiva e disse uns desaforos ao cambista:

– Rapaz, como é que você tem um atrevimento desse? Adentrar ao meu estabelecimento comercial, propondo-me que cometa uma contravenção penal!! Jogo do bicho é contra a lei e coisa do Satanás! Eu sou um homem temente a Deus e um cidadão íntegro! Tenho princípios morais!!! Você me respeite!!!

O cambista não conseguia entender o motivo de tanta indignação. Afinal, muita gente boa da cidade jogava no bicho, abertamente. E ainda insistiu:

– Estou precisando de dinheiro pra feira, seu Messias. Meu trabalho de cambista é o que me sustenta. Jogue, ao menos pra me ajudar!

O comerciante, para se ver livre do cambista, e também para ajudá-lo, deu-lhe 5 cruzeiros, e pediu que fosse oferecer jogo a outra pessoa.

O cambista saiu encabulado e nem sequer agradeceu os 5 cruzeiros.

No final do expediente, Chicão entrou novamente na mercearia e foi recebido pelo comerciante com “quatro pedras na mão”:

– Não acredito que você voltou aqui para me encher o saco novamente!

E o cambista, sorrindo, respondeu:

– Seu Messias, o bicho foi GALO e o senhor ganhou na milhar!!!

Perplexo, o comerciante perguntou:

– Como ganhei, se nem ao menos joguei?!!!

Chicão respondeu:

– O senhor ganhou na milhar. do Galo. Já trouxe seu prêmio. Com aquele dinheiro que o senhor me deu, fiz uma aposta pequena pro senhor e ainda fiz uma feirinha..

Seu Messias, fingindo indignação, rapidamente, respondeu:

– Para não ser grosseiro com o distinto, vou receber este vil metal, mesmo contra os meus princípios morais!

E, por curiosidade, perguntou:

– Que sonho foi esse que você teve?

Orgulhoso por saber interpretar sonhos, Chicão respondeu:

– Eu sonhei que estava trepado num coqueiro, tirando coco. Um coco, quando a gente parte, vira duas quengas. Quenga é “mulher da vida”. “Mulher da vida” é galinha. E quem gosta de galinha é GALO!!! Foi o meu palpite do dia!

Seu Messias deu uma pequena gratificação a Chicão e nunca mais deixou de jogar no bicho.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 05 de maio de 2018

XEXÉU

Alexino, desde menino, por ser muito briguento, foi apelidado de XEXÉU. Tornou-se um rapaz bonito, boêmio e seresteiro, dono de uma belíssima voz. Por causa disso, continuou sendo chamado de Xexéu, pássaro de canto melodioso, que, facilmente, pode ser confundido com um coral de vozes harmoniosas.
Xexéu era um conquistador nato. As mulheres eram loucas por ele.

Numa época em que não se falava em preservativo, nem em pílula anticoncepcional, Xexéu contribuiu para o aumento da população do Rio Grande do Norte. Casou-se com Luzia, uma jovem de boa família, e muito religiosa.

Muito dedicada ao lar, a moça não queria saber de falatório sobre a vida do seu marido, da porta da sua casa para fora. Chegou a expulsar da sua sala pessoas fofoqueiras, que a visitavam, levando “historinhas” sobre o comportamento de Xexéu fora de casa.

Luzia nunca estragou seu casamento, com ciúme ou desconfiança do marido. Afinal, ele sempre se mostrava apaixonado, e respeitava o lar, como se fosse um templo sagrado. A esposa e filhos eram sua maior ventura.

Quando Xexéu chegava em casa, era sempre muito carinhoso com Luzia, e fazia-lhe um filho atrás do outro. A mulher, literalmente, vivia grávida.

Se cego “é aquele que não quer ver”, Luzia se fazia de cega. Nunca teve uma briga com Xexéu. O casal teve 8 filhos, sendo três meninas e 5 meninos.

Extra-oficialmente, Xexéu teve mais 4 filhos, completando, assim, uma dúzia. Paralelamente, pelos caminhos percorridos como caixeiro-viajante, em cidades distantes, Xexéu deve ter deixado outra porção de filhos, frutos de relações casuais e paixões sem amanhã.

A fama de mulherengo acompanhou Xexéu por toda a sua vida. E, por brincadeira dos amigos, foi rotulado com um jargão:

“Por onde Xexéu passa, nasce um menino”.

Luzia, esposa de Xexéu, pertencia a uma irmandade de 9 irmãos, que, ainda crianças, perderam o pai e alguns anos depois, a mãe. Depois de adultos, apenas uma das irmãs, Ivanilda, ficou no “caritó”. E foi quem mais ajudou a Luzia na criação dos filhos.

Já idosa, Ivanilda ainda era revoltada com um caso, ocorrido em Natal, há muitos anos, envolvendo pessoas conhecidas. Aproveitando a oportunidade para destacar seus valores morais, gostava de contar:

“Décadas atrás, Dorinha, 25 anos, tinha vindo do interior para morar com sua irmã mais velha, Silvina, casada com Zé Vitor, e ajudá-la com as crianças e serviços domésticos. Dois anos depois, Dorinha apareceu grávida, sem sequer ter namorado.

Voltou para o interior, e pariu um menino, que parecia um clone de Zé Vitor, o marido da irmã, no caso, o cunhado que lhe dera guarida em Natal. Foi um escândalo!

Nesse tempo, não se fazia exame para provar a paternidade. Mas, ainda que houvesse, nesse caso, o exame seria plenamente dispensável. O menino era Zé Vítor, “em carrara esculpido”, ou, para ficar mais claro, “cagado e cuspido”, como diz o ditado popular.

Abafaram a história, e Zé Vitor não admitia que se falasse nessa “infâmia”. Jurava que não era o pai da criança. Dorinha também nunca disse que era ele.

E a “Santa” Silvina engoliu com água, como se fosse um comprimido, essa traição do marido e da irmã, até morrer.”

E a idosa continuava o discurso:

“Pois bem. Eu, na minha mocidade, como era solteira, passei muitas temporadas com as minhas irmãs casadas. Ajudei a criar meus sobrinhos e passei muitas noites em claro, balançando rede de menino doente, que chorava inquieto, sem poder dormir. Minhas irmãs, exaustas do trabalho doméstico, deixavam que eu tomasse conta dos seus filhos, durante a noite, enquanto elas dormiam. Convivi com vários cunhados, e nenhum deles nunca me faltou com o respeito, nem tentou me seduzir.

Fui cunhada de Xexéu, o homem mais mulherengo que Natal já teve. Por onde Xexéu passava, ficava um menino. Parecia que tinha nascido para ajudar a povoar o mundo.

Digo e repito: Xexéu sempre me respeitou. Da mesma forma, eu sempre o respeitei, como marido da minha irmã e, por conseguinte, também meu irmão. “

E Ivanilda se orgulhava dessa convivência respeitosa com Xexéu, jogando farpas em Dorinha, a moça que engravidou do cunhado, “nas barbas da irmã”. Para ela, isso foi o cúmulo da traição!

E a idosa continuou soltando seu veneno:

– Essa Dorinha engravidou porque quis. Deve ter se botado para o cunhado. Homem é igual a cachorro. Se alguém lhe oferece um osso, ele não enjeita. A culpa foi exclusivamente dela. Ela devia ter espírito de “Messalina”,- “a mulher que tinha o reino entre as pernas”.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 04 de maio de 2018

MORREU MARIA PREÁ

 

MORREU MARIA PREÁ

História de domínio público, resgatada por

VIOLANTE PIMENTEL

 

Em uma pequena cidade de um Estado nordestino, havia uma paroquiana muito fogosa, conhecida por MARIA PREÁ, do tipo que gosta de adular o Padre, arrumando a igreja, organizando as Missas, a comida, e até suas roupas, inclusive as batinas. Era uma mulher bonitona, com atributos femininos bem salientes (seios e ancas), que provocavam desejo em qualquer homem normal. O Padre José que, antes de tudo, era homem, não escapava dessa tentação. Como a carne é fraca, o voto de castidade do Padre fracassou, e ele se envolveu com a tal paroquiana, numa atração fatal, do jeito que o diabo gosta.

 

Certo dia, numa ocasião em que as portas da igreja ainda estavam fechadas, o Sacristão flagrou o Padre José e Maria Preá em plena conjunção carnal, transando, num sofá que havia na Sacristia, como se fossem Adão e Eva no Paraíso. O susto que o Sacristão levou foi tão grande, que ele não se conteve e deu um grito de espanto. O Padre, envergonhado, não encontrou palavras para justificar o óbvio ululante. A partir de então, nunca mais teve sossego, passando a ser chantageado, constantemente, pelo Sacristão. Sem qualquer escrúpulo, o rapaz sempre relembrava o flagrante, e lhe exigia propinas e regalias, em troca do seu silêncio com relação a Maria Preá. Se o escândalo se espalhasse, o Padre sabia que sua vida sacerdotal sucumbiria.

 

Alguns meses depois, o Padre José, dirigindo sua Rural antiga, deslocou-se até o lugarejo vizinho, para participar de uma reunião que envolvia atividades da igreja. A reunião terminou antes da hora de costume, e ele retornou bem mais cedo do que das outras vezes. A igreja ainda estava fechada.

 

O Padre entrou na Casa Paroquial, que ficava ao lado. O costumeiro silêncio estava sendo quebrado por alguns gemidos e sussurros, que vinham de um dos quartos. O Padre se aproximou e deparou-se com uma cena grotesca e chocante, que ele jamais poderia esperar: O Sacristão que o vivia chantageando, por tê-lo flagrado transando com Maria Preá, encontrava-se, simplesmente, em decúbito dorsal, numa cena de sexo animalesco, servindo de fêmea ao Coroinha. Em suma, o Sacristão foi flagrado pelo Padre José, numa cena de homossexualismo, ocupando a passividade do ato. Dessa vez, quem deu um grito de horror foi o Padre, diante da surpresa e da aberração!

 

O Sacristão se ajoelhou aos seus pés, e implorou para que ele não contasse nada a ninguém, pois também seria um verdadeiro escândalo. O Padre José, sentindo-se vingado, respondeu:

 

– Sacristão, safado e veado! Esta história não vai sair daqui!!! Mas preste bem atenção:

"DE HOJE EM DIANTE, MORREU MARIA PREÁ, ENTENDEU?!!!"

 

E a chantagem do Sacristão terminou aí!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 27 de abril de 2018

O CHAPÉU

Numa noite, demorou mais do que o normal. As crianças já estavam dormindo, quando ele chegou. A esposa, como sempre, ainda estava acordada.Tinha lhe pedido um presente. Logo que viu o marido, perguntou?

– Comprou meu presente?

Nervoso, Genésio respondeu:

– Que presente? É seu aniversário?

– Não é meu aniversário, mas eu lhe pedi um chapéu…

Sem graça, Genésio respondeu:

– Daqui a alguns dias, eu comprarei. Vá se arranjando com o antigo, por enquanto. Ando gastando muito…

Friamente, os dois adormeceram.

Desapontada, Josina acordou cedo e foi cuidar dos afazeres domésticos, inclusive do café da manhã. Usando o chapéu velho, foi levar as filhas à Escola.

Essa rotina se arrastava com muita compreensão. Josina e as filhas sentiam a falta de Genésio na hora do jantar, mas acabaram se acostumando.

Genésio ganhava bem, e há dez anos tinha uma amante, teúda e manteúda, com casa por ele montada, bem melhor e mais moderna do que a casa onde vivia com a esposa e filhas.

Antigamente, na linguagem arcaica, chamava-se “teúda e manteúda”, a amante sustentada pelo companheiro. A expressão sobrevive no “juridiquês”.

Por economia, Josina não tinha empregada. Mas, agora, com 50 anos, sentia-se cansada e resolvera arranjar uma boa cozinheira. Vivia pedindo ao marido que arranjasse uma, nos classificados do jornal onde trabalhava, mas ele lhe devolveu a tarefa.

Por outro lado, Zilda, a teúda e manteúda, tinha uma cozinheira excelente, que também cuidava da casa.

Muito vaidosa, a amante frequentava academia e se cuidava muito. Tinha 45 anos, mas parecia menos.

Pois bem. Num fim de tarde, ao chegar à casa da outra, Genésio a encontrou chorando. Não havia jantar preparado. A empregada pedira as contas, sem mais nem menos.

Genésio, de táxi, chegara com um pacote na mão, para levar para sua casa, e pôs em cima de uma cadeira. Era o presente de Josina, Zilda, sem perguntar nada, abriu o pacote e se deparou com um chapéu muito cafona, cheio de laço de fita. Genésio não teve coragem de dizer que não era para ela, e sim para Josina, a esposa, a quem ele prometera..

Pediram sanduíche pelo telefone e Zilda se acalmou. Às 11 horas em ponto, Genésio pediu um táxi, saindo sutilmente, para não acordar a filial.

Como sempre, chegou em casa, cansado e com sono. A esposa disse que tinha arranjado uma cozinheira, que já viria pela manhã cedo.

“Para variar” , depois de um beijo na testa, adormeceram de costas, um para o outro.

Pela manhã, Genésio tomou um susto, ao ver a cara da empregada que a esposa havia arranjado. Era a ex-empregada da teúda e manteúda, que lhe preparava o jantar todas as noites.

Aproveitando a saída de Josina, para deixar as filhas na escola, ele indagou à empregada o motivo que a fizera sair da casa de Zilda. Muito franca, ela confessou que não aguentava mais, ver a ex-patroa, abrindo a porta para um rapaz, que todas as noites dormia com ela. Esse namorado era antigo e ela o sustentava.

Genésio só acreditou na empregada, após pegar Zilda em flagrante.

Depois dessa decepção, Genésio acabou o relacionamento com Zilda e passou a jantar em casa.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 20 de abril de 2018

O PNEU FURADO

Na década de 60, Tarcilda, uma balzaquiana, foi passar alguns dias na casa de uma tia, no interior do Rio Grande do Norte, incluindo as festas de final de ano.

Dessa vez, já com trinta anos, a moça foi disposta a arranjar um namorado, para fins de “um relacionamento sério”. Era louca para se casar, e, por ser muito conservadora, era virgem como nasceu.

Por sorte, arranjou um namorado viúvo, Patrocínio, comerciante rico, considerado um partidão, mas feio de dar dó e piedade. As informações sobre esse homem eram as melhores possíveis.

Patrocínio, o viúvo, apaixonou-se por Tarcilda e foi correspondido. Logo fez questão de apresentar os filhos, já adultos, à atual candidata a “madrasta”, cuja fama, na filosofia de pára-choque de caminhão, “só o nome basta”.

Feitos os “comerciais”, Tarcilda se esforçou para parecer simpática aos possíveis futuros enteados. Fazendo das tripas coração, num esforço sobre-humano, engoliu a antipatia das duas filhas do namorado, de 13 e 15 anos. O filho, entretanto, era simpático e educado, mostrando-se receptivo ao novo relacionamento amoroso do pai. Afinal, um homem de 75 anos, acostumado a ter uma boa esposa ao seu lado, dificilmente iria permanecer sozinho, em caso de viuvez.

Quem foi bem casado, sempre se arrisca a uma segunda união. E para o homem, é difícil viver sozinho, pois é sempre mal-acostumado a depender da esposa para tudo, como dependia da mãe ou avó. Manhoso, quase sempre conta com a cumplicidade da mulher para tudo, principalmente nas lidas domésticas.

Tarcilda ainda sonhava com a lua de mel e com uma futura vida conjugal. Todo namorado que arranjava, acreditava que fosse o seu príncipe encantado, e que iria fazê-la feliz pelo resto de sua vida. Apaixonava-se facilmente, da mesma forma que se desapaixonava.

Num dia de domingo, Tarcilda aceitou o convite do namorado, para um almoço na fazenda de um amigo, que estava aniversariando. Muito arrumada e perfumada, a futura segunda esposa do viúvo foi com ele e o filho ao tal almoço.

Patrocínio foi dirigindo o seu antigo “Jeep Willys 51”, seu carro de estimação, entre os dois carros modernos que possuía na garagem da sua suntuosa casa.

Era verão e o mormaço pedia roupas leves. Tarcilda vestia uma bonita bermuda e uma blusa decotada. Pai e filho usavam bermudas bem diferentes uma da outra. A do filho era moderna e justa. A do viúvo era muito folgada e parecia antiga. Era “démodé”, como dizem os franceses.

A fazenda ficava a 15 quilômetros da cidade, e a estrada ainda era de barro. O Jeep ia devagar, livrando buracos e dando muitos solavancos.

Num dado momento, Patrocínio parou, ao perceber que um dos pneus havia furado. Todos desceram do Jeep.

Sob um sol causticante, pai e filho cuidaram de resolver o problema, enquanto Tarcilda observava de perto.

O viúvo se acocorou, para colocar o macaco e suspender o Jeep, para retirar o pneu furado. Enquanto isso, o filho tratava de pegar o pneu de suporte.

De repente, Tarcilda mudou de cor, diante de uma “visage” que viu na sua frente, e que parecia ter saído do inferno. Os “possuídos” do namorado, de tão avantajados, haviam escapado completamente pela perna da folgada bermuda e estavam arrastando no chão de barro.

A virgem se controlou para não dar um grito de pavor. Essa coisa descomunal fez com que se sentisse ameaçada de morte.

Sua atração pelo viúvo terminou aí. Nunca imaginou que pudesse existir uma arrumação tão feia como aquela. Para ela, na sua frente estava o próprio personagem do filme “O Homem de Itu”, de que já ouvira falar. Jamais enfrentaria aquele perigo iminente.

Tarcilda, completamente sem graça, afastou-se dali e foi se abrigar à sombra de uma árvore. A tenebrosa “visage” foi “água na fervura”. Ficou sem fala e tomou abuso do homem na hora.

Nisso, ouviu a voz do ex-futuro enteado:

-Pai, se ajeite! Tá tudo de fora!!!

Hoje, sessentona, Tarcilda ainda sonha com um príncipe encantado.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 14 de abril de 2018

O ESTRESSE

O esgotamento nervoso, ou estresse, é uma constante na sociedade atual.

A insegurança em que vivem os servidores públicos e empregados de empresas privadas deixa-os em suspense, vendo a hora o Governo lhes puxar o tapete e jogá-los na rua da amargura, contando seus trocados para sobreviver. Esse drama psicológico atinge também os aposentados. Em cima disso, o Governo suga o que lhes sobra, extorquindo-lhes impostos exorbitantes e absurdos.

Entretanto, ninguém perde por ser honesto. Nada melhor do que poder repousar a cabeça no travesseiro e sentir-se em paz com a sua consciência, sem procurar enriquecer ilicitamente.

O clima de impunidade e violência que assola o País deixa o povo brasileiro cada vez mais estressado, com crises de ansiedade e pânico.

Isso tudo justifica o título do livro de Millôr Fernandes, “Que País é Este?” – publicado em 1978, e ainda atual.

Pois bem. Para falar em estresse, palavra da moda, cujas consequências poderão ter fins trágicos, vai o caso de Jatobá, mais um nordestino, que, décadas atrás, iludido com o que ouvia falar da Cidade Maravilhosa, foi para o Rio de Janeiro, tentar ganhar a vida. Seu maior desejo era arranjar um trabalho, que lhe permitisse mandar um dinheiro certo, mensalmente, para o sustento dos pais e irmãos, que moravam numa pequena cidade do interior nordestino.

No Rio, conseguiu emprego em uma empresa de vigilância. Com o passar dos anos, passou a trabalhar no escritório da empresa. Ganhava uma boa gratificação, além do salário, e era comedido em seus gastos.

Dessa forma, conseguiu seu intento de poder ajudar seu pai no sustento da família. Todos os meses, religiosamente, enviava-lhe uma boa quantia em dinheiro. Isso lhe dava a certeza de que estava cumprindo com o seu dever de filho.

Apesar de gostar muito da cidade grande, depois de alguns anos o nordestino começou a ficar nervoso, com medo de bala perdida e da violência generalizada, mostrada na televisão. Diante disso, resolveu voltar para a sua terra, logo que juntasse um “pé de meia”. Morava no subúrbio, em companhia de dois colegas de trabalho, e só ficava tranquilo quando entrava em casa.

Num dia de muita agitação, começo de mês, Jatobá, ansioso e preocupado com o tempo, sem almoçar, aproveitou o intervalo, para fazer a remessa do dinheiro do pai. O vai-e-vem de transeuntes, na Praça 15, era constante e interminável. Jatobá olhava para o relógio, controlando os minutos que teria para resolver seus problemas. Num dado momento, foi abordado por um rapaz bem parecido, que muito nervoso e agitado lhe falou:

– Corra, Seu José, volte pra Niterói! Sua casa está pegando fogo e sua mulher está dentro, com seu filho, gritando por socorro! Os bombeiros ainda não chegaram!!!

Jatobá entrou em pânico e, desesperado, tomou a barca “Cantareira”, para atravessar a Baía da Guanabara, e chegar a Niterói. Por alguns minutos, esqueceu do depósito que iria fazer. Na sua cabeça, só via a esposa e seu filho prestes a morrerem queimados, no incêndio que estava destruindo sua casa.
Quando a barca alcançou a outra margem, Jatobá teve um momento de lucidez e caiu na realidade:

-Ai, meu Deus! Eu não me chamo José, não tenho mulher nem filho e não moro em Niterói!!! O que foi que eu vim fazer aqui?!!!

E voltou na mesma barca para o Rio.

Muito nervoso e apavorado com a violência da cidade grande, o vigilante deu um jeito de apressar sua volta para o nordeste.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho terça, 03 de abril de 2018

O LENHADOR

 

Antônio era um lenhador muito pobre, que todos os dias ia com a mulher e os quatro filhos cortar lenha na floresta. A lenha se destinava a uso caseiro. Sempre traziam alguma caça para alimentação. A família vivia numa tremenda miséria. . Os filhos eram todos crianças de 7 a 12 anos. Toninho, o mais velho, era o que mais ajudava ao pai.

Levavam a vida “como Deus permitia”. Antônio tinha se acomodado à pobreza e não tinham esperança de melhorar. Para aumentar a miséria em que a família vivia, veio um inverno violento e as coisas se modificaram para pior. Apavorado, ante a perspectiva dos filhos passarem fome, o homem entrou em desespero. Passava horas perdido em seus pensamentos, à espera de uma luz que lhe mostrasse o caminho que deveria seguir. As caças sumiram com o inverno, e a lenha molhada não acendia o fogo. O feijão e a mandioca que tinham em casa, não garantiam a eles o sustento, por mais um mês completo.

Toninho era muito esperto e logo percebeu a preocupação que afligia seus pais.

À noite, inquieto em sua rede, ouviu o pai dizer para sua mãe:

– Não quero ver meus filhos morrerem de fome. Amanhã, vou levar todos para passear na floresta e lá eles irão ficar. Tenho certeza de que vai aparecer gente caridosa que tomará conta deles e eles não irão passar fome.

A mãe se desfez em lágrimas e protestou:

– Como você pode ser tão cruel?- Se eles tiverem de morrer de fome, que morram ao nosso lado. Morreremos todos juntos.

Porém, o marido completamente transtornado, não quis ouvir mais nada. Também amava seus filhos, mas não podia suportar a ideia de vê-los sofrer..

Pela madrugada, antes mesmo das aves começarem a cantar, o menino levantou-se, correu até junto de um regato, e ali encheu os bolsos com pequenas pedras brancas. Voltou, então, para casa e deitou-se outra vez na rede, fingindo dormir. Estava apavorado, diante da certeza de que, no dia seguinte, o pai iria se livrar dele e dos irmãos. Abafou seus soluços e amargou suas lágrimas em silêncio.

Pela manhã, depois do todos comerem um bico de pão duro com água, disse o pai que todos teriam que ir passar o dia na floresta, para buscar lenha e procurar caças.

No trajeto, Toninho atrasou os passos, e, à medida que andava, ia deixando pelo caminho as pedrinhas que tinha nos bolsos. Bem depressa, chegaram a uma parte da floresta muito espessa, onde as árvores se juntavam muito. Aí, o pai parou e começou a cortar uma árvore, dizendo aos meninos que fizessem feixes com as toras de lenha.

Quando estavam muito ocupados e distraídos com esse serviço, o pai desapareceu. Quando viram que ia escurecer e ele não voltava, as crianças se encheram de medo e os menores começaram a chorar. Toninho os tranquilizou, dizendo:

– Não se assustem. Eu sei voltar para casa. Venham atrás de mim, e chegaremos lá.

Ali muito perto, estava a última pedrinha que ele tinha deixado cair, depois outra e outra, e assim seguindo as pedrinhas, Toninho e os três irmãos chegaram ao casebre onde moravam, sãos e salvos.

Enquanto isso se passava, a mãe, muito triste, chorava sem parar, certa de que tinha visto os filhos pela última vez. Imaginava o que estaria acontecendo com eles, naquela hora, todos ainda tão crianças.

Nesse momento, bateram à porta e chegou um guarda da floresta dizendo que vinha da parte do seu amo, trazer-lhes um bom presente de caça, pois ele tinha sabido da miséria em que estavam vivendo. Antes que a mulher pudesse agradecer, ouviu a porta se abrir novamente e por ela entraram os seus quatro filhos, gritando eufóricos:

– Estamos aqui, mãe! Ficamos perdidos na floresta, mas Toninho acertou o caminho de volta! .

Chorando de alegria, a mulher os abraçou e jurou para si mesma, que isso jamais iria acontecer novamente. Quando o pai chegou, depois de ter passado a noite vagando pela estrada, sem coragem de encarar a mulher, a alegria foi grande. Todos pareciam formar uma família feliz.

Mas, a caça recebida não podia durar para sempre. Dias depois, a situação se agravou novamente e para comer, só restava um bocado de pão seco. Toninho percebendo a situação, imaginou logo o que iria novamente acontecer com ele e os irmãos.

Nessa mesma noite, o menino ouviu o lenhador dizer à mulher que levaria, mais uma vez, os quatro filhos para a floresta, na esperança de que pessoas ricas e generosas pudessem encontrá-los e dar-lhes casa e comida.

Mal rompeu a aurora, Toninho saltou da rede e foi abrir a porta para sair, à procura das pedrinha salvadoras. Dessa vez, a porta estava trancada e sem a chave.. Desapontado, voltou para a sua rede, sentindo-se perdido, diante da maldade do pai.

Na hora de tomarem café com pão, Toninho teve outra ideia. Em vez de comer o seu pão, guardou-o no bolso do casaco, para fazer com as migalhas o mesmo que tinha feito com as pedrinhas, marcando o caminho por onde passassem. Logo depois, o pai chamou os filhos e convidou-os a irem com ele, novamente, para a floresta, procurar caça e buscar lenha.

Repetindo a cena, o homem entreteve-se com o seu serviço, e quando viu os meninos distraídos, amarrando os feixes de toras de lenha, fugiu como um ladrão.

Dessa vez, os seus filhos não se assustaram, “Toninho sabe voltar” pensaram os menores. Mas quando o irmão foi procurar as migalhas que tinha cuidadosamente espalhado pelo caminho, não encontrou nenhuma. Os pássaros tinham comido todas. “Estamos perdidos!”. Pensou Toninho, dizendo para os irmãos:

– Venham, meninos! Não podemos ficar aqui!, Daqui a pouco estará escuro”. Disse ele , visivelmente nervoso.

Depressa, o sol se pôs e Toninho, que ia na frente, disse:

– Vejo uma luz! Ali tem uma casa! Vamos pedir para passarmos a noite lá.

Correram todos até a casa e bateram à porta. Uma mulher, com cara de boa pessoa, veio abrir. Mas quando lhe disseram o que queriam, abanou tristemente a cabeça.

“Ai, disse ela, meu marido é um homem mau e não vai gostar de ver vocês aqui. É melhor irem embora..”

Os meninos tremiam de frio e se viram perdidos. A noite já estava totalmente escura, sem lua e sem estrelas.

Cheios de medo, saíram correndo estrada afora, até que, cansados, deitaram-se abraçados debaixo de uma árvore, esperando o dia amanhecer..

Quando viu o dia clarear, Toninho chamou os irmãos, para saírem dali o mais rápido possível. Saíram correndo em disparada, à procura de alguém que os pudesse ajudar.

Vendo o cansaço dos irmãos menores, Toninho resolveu ir sozinho à procura de socorro. Pediu-lhes que ficassem ali sentados, aguardando sua volta.

Muito cansado, chegou a uma enorme casa. Era uma fazenda. Encontrou, no terraço, um senhor muito gordo, risonho e simpático, que lhe perguntou o que fazia por ali. Com muito medo da reação daquele homem que parecia rico, Toninho contou-lhe que ele e seus três irmãos tinham passado a noite na estrada e estavam com muita fome. Tinham sido abandonados pelo pai, que se encontrava sem condições de sustentar a família, na esperança de que pessoas boas os pudessem ajudar. O fazendeiro se compadeceu daquela história e quis ver os outros meninos.

Toninho conquistou logo a simpatia do bom homem, ao dizer que sabia amarrar feixes de toras de lenha, cortadas pelo pai , que era lenhador. Também sabia limpar mato. Disse que ele e os irmãos gostavam de ajudar ao pai, na lida. Obedecendo ao fazendeiro, o menino foi correndo à procura dos irmãos. Em meia hora, estavam os quatro ali, todos tremendo de frio e fome. O homem, imediatamente, conduziu as crianças até uma enorme mesa, onde um lauto café da manhã os esperava. A esposa do fazendeiro, uma boníssima e simpática senhora de 60 anos, também se penalizou com a situação dos garotos. Combinaram, então, de lhes dar abrigo imediato e tomar as providências necessárias, para localizar seus pais.

Ao ficar provado que Antônio, o lenhador, abandonou os filhos, levado pelo desespero, o fazendeiro lhe deu emprego na fazenda.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 23 de março de 2018

O CIRCO

 

No mundo do entretenimento, o circo ocupa uma posição privilegiada entre todas as formas de diversão existentes. Mesmo em tempos de rádio, TV e internet essa antiga arte ainda atrai a atenção de muitos espectadores. Circulando por espaços da cultura erudita e popular, a arte circense impressiona pela grande variabilidade de atrações e o rico campo de referências culturais utilizado.

Antigamente, o espetáculo circense no Brasil era apresentado em duas partes. Na primeira, acrobacia, malabarismo, trapézio, animais como o elefante, o leão, tigre, onça, macacos e cavalos de raça, números musicais, bailados e palhaços. Na segunda parte, era encenada uma peça teatral de autor nacional ou internacional.

Certa vez, chegou a uma capital nordestina, um dos melhores circos do Brasil, o Grande Circo Continental. O espetáculo, além das atrações de praxe, apresentava diversos animais, como o elefante, o leão, o tigre, a onça, macacos e cavalos de raça nobre.

Num domingo à tarde, Maria Pia foi com Zezinho, o filho de oito anos, assistir ao espetáculo para atender ao pedido do filho, ansioso para ver os animais. Antes de entrarem para se sentar nos poleiros, onde o ingresso era mais barato, a mãe deu uma volta com o filho ao redor do circo, para que ele visse de perto os animais enjaulados.

O menino se empolgou com aquele espetáculo à parte e fez muitas perguntas à mãe sobre a vida daqueles animais.

Distraída, respondendo às perguntas do filho, Maria Pia deixou a bolsa cair do seu braço, bem perto da jaula do elefante. Num minuto, o animal estirou a tromba e alcançou a bolsa, engolindo-a completamente.

A mulher pediu socorro aos seguranças do circo, e disse que queria sua bolsa de volta, pois ali estavam a chave da sua casa, o dinheiro da pipoca, carteira de identidade, e outras coisas mais.

Um dos em pregados do circo, que cuidava dos animais, pediu que ela se acalmasse, pois naquele momento estava sem jeito. O elefante tinha comido a bolsa, com tudo o que tinha dentro.

O dono do circo, ao saber do ocorrido, ficou indignado com os empregados, por não terem impedido a mulher de se aproximar das jaulas dos animais. O elefante estava correndo risco de morte, pois sua alimentação não incluía bolsas de nenhuma espécie.

Segundo o biólogo americano Samuel Wasser, professor da Universidade de Washington, em Seattle (EUA), os elefantes expelem, em média, 90 quilos de fezes por dia.

A mulher, muito religiosa, pediu a Deus e a São Francisco de Assis, protetor dos animais, para que o elefante “descomesse” sua bolsa com tudo o que tinha dentro dela, principalmente a chave da casa.

O espetáculo terminou e a dona da bolsa voltou pra casa com o filho Zezinho, arrependida, desde o dia em que nasceu, de ter ido ao circo. O menino também estava sem graça, com o ocorrido.

No dia seguinte, a mulher foi falar com o dono do circo, para saber se o animal tinha “descomido” a bolsa, ou se tinha morrido de indigestão.

Irritado, o dono do circo perguntou à mulher o que havia na bolsa, pois o elefante estava passando mal, gemendo alto e sem poder evacuar. Ao saber do conteúdo da bolsa, o dono do circo ficou mais preocupado ainda, pensando na despesa que iria ter e a burocracia que teria que enfrentar, para enterrar o elefante, em caso de morte.

A dona da bolsa ficou penalizada e imaginou a quantidade de fezes que um elefante devia produzir por dia. Mesmo enojada, precisava ter sua bolsa de volta.

A mulher, vendo a aflição do dono do circo, com medo que o elefante fosse a óbito, avisou-lhe que dentro da sua bolsa havia uma caixa de diazepam, um tranquilizante muito forte, que ela sempre tomava. O remédio, com certeza, teria um efeito benéfico sobre o elefante. Ele iria relaxar, e logo iria “descomer” a sua bolsa, sã e salva.

Ledo engado. O caso complicou e o elefante precisou ser submetido a um procedimento cirúrgico, para retirada de um tumor fecal.

O dono do circo gastou um dinheirão, para salvar a vida do animal empanzinado.. A bolsa de Maria Pia se misturou com as fezes, ficando irreconhecível.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 17 de março de 2018

OS PASSARINHOS

 

Major Enéas, residente em Natal, reformado da Polícia Militar, há três meses, havia recebido de presente de um amigo do interior, uma Graúna e um Sabiá. As gaiolas dos dois passarinhos foram penduradas num pé de Jatobá, que ficava perto da janela do quarto do casal.

O Major e a esposa, Almira, acordavam muito cedo e se deliciavam, ouvindo o belíssimo canto dos pássaros.

O casal tinha o hábito de assistir filmes na televisão, à noite, até o sono chegar. Num sábado, quase de madrugada, enquanto se preparava para dormir, o Major ouviu um barulho no quintal. Muito corajoso, pegou sua arma e foi até lá, verificar o que estava acontecendo. Deparou-se, então, com um rapaz de estatura média e entroncado, que, ao vê-lo empunhando a arma, pôs uma das mãos para trás, e gritou:

– Não me mate não, doutor! Eu sou pai de família!

O Major também gritou:

– Jogue no chão a arma que está escondendo ou eu estouro seu miolos! Mando você pro inferno, agora mesmo, ladrão safado!

O ladrão, tremendo mais do que vara verde, quis entregar ao Major a “arma”, escondida numa das mãos. A surpresa foi grande. Não era arma e sim a Graúna recebida de presente.

Indignado, o Major ordenou:

– Coloque o passarinho de volta na gaiola, seu marginal! Depois se ajoelhe e me peça perdão por ter invadido o meu quintal para roubar!

O ladrão, chorando como criança, colocou a Graúna de volta na gaiola. Obedecendo às ordens do Major, ajoelhou-se, pediu-lhe perdão e jurou que nunca mais passaria por perto daquele bairro, daquela rua e muito menos daquela casa.

Dona Almira, que era muito religiosa, tinha seguido o marido e, penalizada, pediu-lhe que deixasse o rapaz ir embora, sem entregá-lo à polícia.

Ao se convencer de que o ladrão era mesmo “sem futuro” e covarde, o Major resolveu liberá-lo, ameaçando-o, entretanto, de mandar prendê-lo, em caso de reincidência.

O marginal saiu do quintal, empurrado pelo cano da pistola do Major. Pulou o muro por onde tinha entrado e sumiu no meio da noite.

A esposa deu uma garapa ao marido e os dois se recolheram aos aposentos, para tentar dormir.

Quando o dia amanheceu, o casal não ouviu o canto da Graúna nem do Sabiá. O Major abriu a janela do quarto e viu que as duas gaiolas haviam sumido.

E o Major Enéas ficou sem os dois passarinhos.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 09 de março de 2018

OS URUBUS

 

Antigamente, roupa preta era sinal de luto, pela morte de um ente querido.

A rainha Victoria, que governou a Inglaterra de 1837 a 1901, foi quem inventou a “moda” do luto. Quando morreu seu marido, o príncipe consorte do Reino Unido da Grã-Bretanha, e Irlanda, Francisco Alberto Augusto Carlos Emanuel, ela se cobriu de luto permanente. O costume se espalhou por alguns países.

No Brasil, principalmente no Nordeste, o costume do luto fechado, para viúvas, perdurou até há poucas décadas, mas por um período determinado. Os viúvos usavam um fumo (tecido preto) no bolso da camisa ou gravata preta.

Pois bem. Num país que nunca teve prumo e que viveu sempre como um barco à deriva, sob os efeitos da corrupção, uma família burguesa, decadente, comprou um palacete, onde passou a residir. 

 

O enorme telhado do casarão servia de abrigo para centenas de urubus, atraídos pelo odor fétido de um matadouro, localizado nas imediações. O aspecto do palacete era tétrico, lembrando uma casa mal-assombrada. O palacete ficou conhecido como “casa dos urubus”.

Por ordem da viúva Dona Céfora, uma mulher austera e guerreira, muito alta e gorda, todas as pessoas da casa usavam roupa preta, em sinal de luto pela morte do seu marido, o chefe da família. Por coincidência, o luto combinava com a cor dos urubus.

O “de cujus”, senhor Ursulino, um próspero fazendeiro da região norte, era considerado o maior plantador de bananas da região. Por isso, era chamado o “Rei das Bananas”. Era grande colaborador das campanhas políticas do governo, no jogo do “toma lá, dá cá”, comum no País. Com isso, obtinha grandes benefícios fiscais, conforme a antiga praxe.

Dona Céfora, a viúva amantíssima, era conhecida como Madame Banana.

Com a morte do chefe da família, Madame Banana, dependente emocional do marido, entrou em parafuso. O “de-cujus” centralizava todos os negócios da família, sempre em guerra com dois filhos irresponsáveis, que gastavam seu dinheiro em orgias, jogos e cavalos. Mas, agora, ela passara a ser o homem e a mulher da casa. Tinha que botar ordem, ou os filhos acabariam, em pouco tempo, com tudo o que o pai, ao longo de sua vida, lutou para conseguir.

Antes da morte do “Rei das Bananas”, a fazenda parecia uma “terra de ninguém.” Quem mandava e desmandava eram os filhos. O pai se contrariava, mas não tinha força moral sobre eles.

De repente, a viúva decidiu puxar as rédeas da casa. Dona Céfora, ou Madame Banana, transformou-se numa mulher altiva e determinada. Passou a impor condições aos familiares, sob pena de serem expulsos da casa, em caso de desobediência.

Revoltada com a crise política que dominava o País, Madame Banana protestava contra os tubarões da mordomia, que se aproveitavam do dinheiro público. Não se conformava com o festival de desonestidade que reinava no País. Era indignada com os ladrões de colarinho branco, e com o “prende e solta” que dominava os tribunais.

Com medo de desequilibrar as finanças, Madame Banana baixou algumas ordens, a serem cumpridas por todos da família, que viviam às suas expensas.

Da sua fazenda, Urubutinga, entregue ao antigo e fiel capataz, vinham bananas em abundância, sendo as únicas frutas que entravam na casa.

Por economia, só havia no palacete três refeições por dia: café, almoço e jantar. Entretanto, as refeições eram fartas e a comida era simples e gostosa. Todos podiam comer à vontade, com direito à sobremesa, que era sempre à base de bananas.

Para moralizar o andamento da casa, Madame Banana, organizou uma espécie de estatuto particular, que deveria ser obedecido pela família:

1 – Fica proibido tirar o luto, até segunda ordem;

2 – Fica proibido mascar chicletes, para não estragar os dentes;

3 – Fica proibido tomar sucos, para economizar o açúcar;

4 – Fica proibido falar palavrões;

5 – Fica proibido dar gargalhadas;

6 – Fica proibido reclamar da comida;

7 – Fica proibido conversar durante as refeiçoes;

8 – O horário do café da manhã passa a ser 6:30 h, inclusive aos domingos e feriados;

9 – O horário do almoço passa a ser 12;h , inclusive aos domingos e feriados;

10 – O horário do jantar passa a ser 18:30;

11 – Quem perder o horário das refeições, terá que esperar pela próxima;

12 – Fica proibido lanchar no intervalo das refeições.

13 – Fica proibido falar em voz alta;

14 – Fica proibido discussão acirrada, nas dependências da casa

 

RECOMENDAÇÃO PRINCIPAL:

TODOS ESTÃO OBRIGADOS, A SE VACINAR CONTRA A FEBRE AMARELA, A MAIOR INIMIGA DO PAÍS.

Atualizada, através dos noticiários da televisão, Madame Banana chegou a uma conclusão:

O problema principal da Nação, no momento, é a Febre Amarela, que, depois de erradicada há décadas, voltou com “gosto de gás”, abocanhando indispensáveis verbas para dizimá-la novamente. É a Febre Amarela, que precisamos vencer.

Madame Banana não entendia para que havia ministros de Educação, Saúde, e outros, se o povo vivia sem qualquer tipo de assistência.

Perguntava a si própria, que país era esse, em que os políticos não respeitavam a Constituição.

Ela só queria entender…


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 02 de março de 2018

O TIMOTE

 

Apesar de não constar em nenhum dicionário da língua portuguesa, a palavra “timote” faz parte do Dicionário de Gírias Nordestinas de BY MIA, que assim se expressa:

Timote – Diz-se da pessoa que não segue padrões sociais de beleza; sinônimo de horroroso. Variações: atimotado, timotento.

Entretanto, no interior nordestino esse vocábulo tem vários significados. Tanto pode ser a pessoa feia, chata, metida, bajuladora, idiota, como a pessoa desastrada, golpista, desonesta, cuja presença é sempre indesejável. “Timote” é um termo pejorativo. Aplica-se ao homem ou à mulher.

Realmente, em quase todas as famílias, ricas ou pobres, sempre há um membro desastrado ou idiota, que destoa do restante dos parentes, passando a ser apontado, como o “timote” da família. É o parente trabalhoso, que vive nas costas dos outros; é o filho que não trabalha nem quis estudar; o que não ouve conselho e só se acompanha de quem não presta, e também aqueles que se desviam para os vícios.

O “timote” acaba sendo um estorvo para a família, especialmente para os pais.

Às vezes, a família é rica e poderosa e consegue infiltrar o “timote” na política.

Outras vezes, o “timote” arranja um casamento com alguma moça mais velha e rica, e termina se dando muito bem.

Pois bem. Desde menina, Malvina ouvia sua mãe dizer que em toda família havia um “timote” para atanazar.

Já moça feita, passou a ouvir da mãe essa recomendação:

– Quando arranjar um namorado, mesmo que ele seja rico e bem nascido, procure ter certeza de que ele não é o “timote” da família”.

Talvez por isso, Malvina passou a mocidade escolhendo marido, com medo de arranjar um “timote”. O tempo passou e ela se transformou numa balzaquiana muito pudica.

Já beirando os 40 anos, aceitou um pedido de casamento de Virgulino, um rapaz de 35 anos, filho de um fazendeiro rico da cidade, que tinha passado 10 anos no Rio de Janeiro e agora retornara.

O casamento foi por pura conveniência. Malvina queria sair da condição de “encalhada”. Achou Virgulino um grande partido. Mas se enganou redondamente. Virgulino era o “timote” da família. Viveu no Rio de Janeiro uma vida de orgias, recebendo mesada do pai, que preferia vê-lo distante.

Na noite de núpcias, a noiva sofreu uma grande decepção. O noivo comeu e bebeu muito na festa do casamento e adormeceu profundamente, deixando-a no “ora, veja”. Teve de dormir também.

No dia seguinte, a cena se repetiu. Virgulino comeu feito um bicho e bebeu exageradamente. Mostrou que era “bom de cama”, pois dormiu quase 24 horas. Usava a cama somente para dormir. Além disso, roncava feito um porco.

Malvina não sabia se sorrisse ou se chorasse, diante daquela situação ridícula por que estava passando.

Os sonhos fantasiosos que alimentava para a noite de núpcias e para toda a sua vida em comum com Virgulino, desapareceram como por encanto.

E o noivo continuou completamente frio para ela. Passaram a lua de mel, indiferentes um ao outro. A decepção da moça foi grande e logo ela se convenceu de que Virgulino, na verdade, era o “timote” da família dele. Casara com ela, por interesse financeiro.

E lembrou-se das palavras fatídicas da sua saudosa mãe:

” Quando arranjar um namorado, procure saber se ele é o “timote” da família.”

Virgulino nem sequer tentou cumprir a “obrigação do matrimônio”. A “noiva” continuou incólume.

Pouco tempo depois, veio à tona uma inesperada realidade: Virgulino tinha um romance com um rapaz do Rio de Janeiro, que chegara na cidade, para fixar residência.

A chocante descoberta desse lado de Virgulino juntou-se à aversão sexual, que, claramente, ele demonstrava pela esposa.

O fato resultou na anulação do casamento, por erro essencial de pessoa, prevista no artigo 1.557 do Código Civil Brasileiro, postulada por Malvina.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 23 de fevereiro de 2018

O PIRÃO

 

Nos meados do século passado, em Nova-Cruz não havia água, luz, nem hospital.

Certo dia, Seu Silvino, dono de uma mercearia, sofreu uma queda e foi levado para Natal, para ser socorrido. O acidentado quebrou a clavícula e sofreu uma fratura que comprometia o funcionamento da veia Aorta. O diagnóstico, na época, foi feito através de exame clínico.

O acidentado voltou para Nova-Cruz, com um péssimo prognóstico. Devido ao comprometimento da veia Aorta, recebeu recomendação médica, de permanecer em repouso absoluto e manter uma dieta leve, à base de leite, sucos e frutas.

Ao se ver obrigado a permanecer deitado e proibido de comer o que gostava, o homem entrou em depressão. Passou a se sentir muito fraco, chegando a sofrer vertigens esporadicamente. A fraqueza, ele atribuía à dieta exagerada, prescrita pelo médico, a qual estava seguindo religiosamente. Dois meses depois, Seu Silvino começou a definhar. Bem mais magro e triste, sentia suas forças irem embora, e a fraqueza se acentuou.

Num sábado pela manhã, o doente, chorando, chamou a esposa e implorou:

– Régia, eu sinto que estou no fim. Mas não quero morrer de fome! Quero lhe fazer um pedido:

– Manda a empregada preparar uma perua torrada, com muita graxa, pirão e arroz mole bem temperado! É o que eu quero almoçar, nem que seja o meu último almoço.

A esposa, submissa ao marido, mandou que a empregada fizesse o almoço, seguindo sua recomendação. O doente comeu exageradamente, até matar a fome. Como diz o ditado popular, “matou quem estava lhe matando.”

De barriga cheia e bem alimentado, Seu Silvino chegou a suar frio. Em seguida, adormeceu na sua rede no terraço e acordou no começo da noite, sentindo fome novamente. Chamou a esposa e ordenou:

– Mulher, manda esquentar o que sobrou do almoço. Não se esqueça do pirão de perua.

E lá se foi Dona Régia esquentar a comida, com a qual o marido se fartou mais uma vez.

Depois de dois meses, praticamente, de “fome”, nesse sábado, pela primeira vez, Seu Silvino se alimentou com gosto. Literalmente, tirou a barriga da miséria. Comeu até se fartar.

Na sua rede, dormiu como um rei e acordou na manhã seguinte, sentindo-se outro homem. Suas forças voltaram e a disposição para trabalhar também. A fraqueza desapareceu completamente.

O comerciante não quis mais saber da dieta prescrita pelo médico.

Com o tempo, a fratura se consolidou, com remédio do mato: Uma pasta feita de arnica com casca de PAU D’ARCO ralada.

Aos poucos, a vida de Seu Silvino voltou ao normal, sem qualquer sequela do acidente. Voltou a ser um homem corado e saudável, com saúde para dar e vender. Graças à comida caseira a que estava acostumado.

Nessa pisada, Seu Silvino morreu com quase 100 anos.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 16 de fevereiro de 2018

BURGUESIA

 

Burguês, na Idade Média, era o indivíduo que morava nos Burgos, povoados protegidos por muros.

Os Burgos surgiram na época da decadência feudal e crescimento comercial e urbano.

Os burgueses se preocupavam em acumular bens de capital. Eram os vendedores dos burgos, que depois passaram a ser denominados de comerciantes ou mercadores.

Durante a Revolução industrial, eram chamados de burgueses os industriais, possuidores de riqueza e dos meios de produção. Eram ricos, mas não eram nobres. Não tinham requinte nem fidalguia.

Mr. Taylor, um burguês de 45 anos, ficara rico como comerciante de tecidos. Quando se viu nadando em dinheiro, quis mudar de classe social. Além de rico, queria passar a frequentar os salões da Aristocracia. Sua primeira providência foi pedir orientação ao alfaiate mais importante da cidade. De início, o homem lhe sugeriu substituir suas roupas simples por roupas chiques e suntuosas, iguais àquelas usadas pelos fidalgos. Mr. Taylor sentiu-se o homem mais feliz do mundo, quando o alfaiate o tratou com deferência, como se estivesse diante de um nobre.

Em seguida, o profissional o aconselhou a aprender as artes que os aristocratas praticavam, como esgrima, polo, dança e música. Também lhe sugeriu contratar os melhores professores de Etiquetas, Gramática e Literatura, da cidade. Afinal, aquele homem rico e rude tinha a pretensão de se transformar em um nobre.

Durante as aulas, Mr. Taylor demonstrava não assimilar nada. Seu raciocínio era muito lento. Os professores, decepcionados, esforçavam-se para que ele aprendesse alguma coisa, mas de nada adiantava.

Mary, a esposa de Mr. Taylor, que era mais inteligente, percebeu que o marido estava se tornando ridículo. Preferia mil vezes a vida de burgueses que eles levavam. A mulher tentou fazê-lo desistir dessa idiotice, mas seus apelos foram em vão.

Um forasteiro que chegou à cidade, tomando conhecimento de que Mr. Taylor era muito rico e estava prestes a se tornar aristocrata, procurou dele se aproximar, para dar-lhe um golpe. Passando por nobre, conseguiu que o burguês pagasse todas as suas dívidas, sob a promessa de que, em troca, facilitaria sua entrada na Aristocracia. O tolo burguês caiu como um “patinho”. A certeza de que se tornaria aristocrata aumentou ainda mais. Mr. Taylor passou, então, a alimentar o sonho de casar sua filha Lili, de 20 anos, com alguém da nobreza. No entanto, Lili já estava apaixonada por Joselito, um burguês. O pai, então, negou sua permissão para que o casamento se realizasse. Agora, só permitiria o casamento de sua única filha, com um homem que pertencesse à Aristocracia.

Desesperada, a moça procurou um modo de enganar Mr. Taylor, fazendo com que o namorado se disfarçasse de fidalgo, e fosse pedir sua mão em casamento. Com a ajuda de um criado, o plano foi posto em prática. Caracterizado de fidalgo, o amado de Lili se apresentou perante o seu pai, dizendo pertencer à alta nobreza de um país distante. Mr. Taylor acreditou na trapaça e, cheio de alegria, consentiu que sua filha se casasse com esse “príncipe estrangeiro”.

Para completar a alegria de Mr. Taylor, o trapaceiro lhe comunicou que, na qualidade de pai da sua noiva, ele também receberia um título de nobreza, numa festa solene.

E o ingênuo burguês acreditou.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 09 de fevereiro de 2018

O BOBO DA CORTE

 

“Bobo da Corte” era o nome que se dava ao “funcionário” contratado pelas cortes europeias, na Idade Média, com a finalidade de divertir o rei, a rainha e seu séquito.

Como um palhaço, era considerado cômico, mas, muitas vezes, suas brincadeiras eram desagradáveis, pois apontavam de forma grosseira os defeitos da sociedade.

Esse “funcionário” era o único que podia fazer críticas irônicas ao rei, sem correr o risco de ser punido. Também participava dos banquetes do reino. Usava uniformes coloridos, espalhafatosos, e chapéus bizarros, com pontas e alguns chocalhos amarrados.

Além de fazer a corte rir com palhaçadas, o Bobo da Corte também declamava poesias, tocava algum instrumento, dançava, cantava, fazia mímicas e malabarismos. Era o cerimonialista das festas. Sua característica principal era o exibicionismo e o exagero, tanto nos trajes usados, como nos gestos e palavras.

Esses plebeus, pagos para divertir a nobreza e a realeza, não eram loucos nem tinham deformidades físicas. Também não faziam parte do grupo de corcundas e anões, que muitas cortes adotavam como circo particular.

Para alguns estudiosos, o “Bobo da Corte”, de bobo só tinha o nome.

Na opinião do grande filósofo do século XVI, Erasmo de Rotterdan, o Bobo tinha, paralelamente, um papel principal, oculto, na Corte: Era ele quem contava ao rei o que ninguém queria que o rei ficasse sabendo. Era o espelho de todo o grotesco dos hábitos da Corte. Era uma espécie de “dedo duro” ou informante, com livre acesso ao rei.

A figura do Bobo da Corte sempre esteve associada ao divertimento, palhaçadas, e ao prazer que davam ao rei suas piadas e brincadeiras.

Usando-se a caracterização do Bobo da Corte, foi criada a décima terceira carta do baralho, o Curinga, a carta que pode alterar o jogo completamente.

Entre as habilidades do Bobo da Corte, estava ainda a de imitar ou “arremedar” as atitudes e gestos faciais e corporais das pessoas do reino. Também contava histórias por ele criadas, cheias de disparates e indiretas, incitando a reflexão das pessoas para a incoerência do comportamento dos poderosos.

O gênio do teatro inglês, William Shakespeare (1564 – 1616), deu destaque à figura dos bobos, dando a eles papeis de grande importância em sua obra. Nas suas peças “Rei Lear” e “A Noite de Reis”, o autor elevou a posição do bobo junto aos poderosos, com interpretações de papeis de grande importância e destaque. O bobo, nessas peças, é o personagem que se sobressai pela esperteza e inteligência. Pode fazer críticas aos próprios reis, com comentários picantes, mas com os quais o público vai às gargalhadas.

No baralho, o Bobo da Corte é representado pelo Curinga, a carta que pode alterar o jogo completamente.

A figura do Bobo da Corte existiu até o século XVII.

O vocábulo “bobo” consta no MINIDICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA, de Ruth Rocha, como “Palhaço que divertia os nobres”.

Nos tempos atuais, a expressão “bobo da corte” é usada de forma pejorativa. Caracteriza alguém, sem conteúdo ou sem seriedade, uma figura tola e hilária, que não pode ser levada a sério.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 02 de fevereiro de 2018

MEDO DE DENTISTA

 

Antigamente, no interior nordestino, não havia “fobia” . Essa palavra era totalmente desconhecida. Existia mesmo era medo, sinônimo de pantim, cavilação, drama, astúcia e manha. Esses medos de injeção, dentista, barata, rato, cachorro, aranha, morcego, escuro, trovão etc., eram combatidos com exemplos, explicações, “carões”, e, no último caso, com castigos. A criança chorava e esperneava, mas os pantins, gradativamente, desapareciam. Eram medos facilmente tratáveis, em casa mesmo.

O medo maior que havia, entretanto, era o medo de dentista ou de tratamento dentário. Esse medo era acompanhado de crises de ansiedade.

Está provado que a metade da população mundial sofre desse tipo de medo.

Décadas atrás, numa conhecida cidade nordestina, a ida ao dentista apavorava crianças e alguns adultos, independentemente de classe social.

Nessa cidade, havia um médico da capital, que trabalhava numa fundação de saúde e que, por incrível que pareça, também tinha horror a dentista. Por esse motivo, seus dentes eram todos estragados. Na sua boca, só haviam pedaços de dentes, o que chamava a atenção dos colegas de trabalho e até dos pacientes. Esse médico, Dr. Vicenço, anos depois, viu-se obrigado a se submeter a um tratamento odontológico de urgência, para poder viajar ao exterior, onde foi fazer um curso de Especialização. Dizem que teve que tomar uma anestesia geral, para retirada das raízes e cacos de dentes que ainda lhe restavam, para dar tempo de colocar uma prótese.

Por outro lado, o matuto, na sua ignorância e com seu medo exagerado, preferia extrair todos os dentes, mesmo sãos, e colocar uma dentadura postiça. Somente assim, estaria livre de futuras dores de dentes e tratamentos dentários.

Na mesma cidade, residia Regina, uma jovem de 15 anos, cheia de pantim e que também tinha verdadeiro pavor a dentista. Preferia viver sofrendo constantes dores de dentes e tomando analgésicos, a procurar o socorro de um desses profissionais. Fugia do dentista, como o diabo foge da cruz.

Certa vez, depois de muita insistência, Dona Lili, sua madrinha, conseguiu convencê-la a ir ao único dentista da cidade, e se prontificou a custear o tratamento que fosse necessário. Dona Lili marcou um horário com Dr. Gilvandro, e às 15 horas de uma terça-feira, Regina estava no consultório para ser atendida.

Hesitante, a moça demorou a se sentar na cadeira do profissional e também demorou a abrir a boca. Dr. Gilvandro já estava impaciente e quase desistindo de atendê-la.

Finalmente, o dentista conseguiu examinar os dentes de Regina e constatou a necessidade de um tratamento sério.Todos os dentes da jovem estavam bastante estragados e alguns não davam mais para restaurar. Outros precisavam de coroas. Com a paciência de Jó, Dr. Gilvandro convenceu a moça a fazer, naquela ocasião, a primeira extração de um resto de dente, que só tinha a raiz. A paciente concordou, mesmo com os olhos arregalados e o medo estampado no rosto. O dentista chegou a colocar o anestésico na seringa. Quando ia aplicá-lo, Regina, muito nervosa, praticamente pulou da cadeira. Disse-lhe que iria até a calçada, ver se sua mãe já estava vindo ao seu encontro, conforme prometera. Não deu tempo de Dr. Gilvandro dizer nada. Como um furacão, a moça saiu numa carreira só e nunca mais voltou. O dentista ficou com a seringa na mão até o anoitecer. A jovem nunca mais cruzou o seu caminho.

Dona Lili ficou muito contrariada com o comportamento da afilhada e pediu mil desculpas ao dentista.

Anos depois, Regina disse a Dona Lili que passara a ser adepta da Macrobiótica e estava convencida de que os seus dentes iriam “renascer”, com essa dieta. Ninguém sabe de onde ela tirou essa ideia.

Atualmente, já sessentona, Regina ainda continua esperando esse milagre.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 26 de janeiro de 2018

O CASTIGO

 

Obedecendo ao seu instinto predador e carnívoro, a raposa, animal mamífero, apanha suas presas vivas, pulando sobre elas para matá-las. O resultado é imediato. Muito veloz, num minuto é capaz de devorar um galinheiro inteiro, ou outras aves que estejam ao seu alcance.

Certa vez, um pato, imprudente e inquieto, fugiu dos irmãos que tomavam banho na lagoa e se embrenhou no mato, perseguindo insetos. De repente, deparou-se com uma raposa e ficou paralisado. Muito vermelha, de boca aberta e engasgada, a raposa tossia muito e quase não podia respirar. Mesmo apavorado, por saber que a raposa era devoradora de patos e galinhas, procurou ajudá-la. E perguntou:

– Dona raposa, o que é isso? Um osso de galinha ou de pato?

A raposa olhou para ele, sem poder responder, mas com o olhar de quem pedia socorro.

Vendo a raposa quase morta, o pato subiu num tronco na beira da estrada e procurou salvá-la. Com muito esforço, meteu a patinha lá dentro e retirou o enorme osso de galinha que lhe atravessava a garganta. Se não fosse ele, esse engasgo teria sido fatal.

“Muito grata”, a raposa prometeu, daquele dia em diante, ser sua amiga e protegê-lo contra todos os animais. Disse que ele lhe salvara a vida e isso ela jamais esqueceria. Entretanto, mal se refez do engasgo, esqueceu a bondade do pato e se preparou para devorá-lo. Percebendo o perigo, o pato falou:

– Dona raposa, a senhora está com a garganta ferida. Está sangrando. Deixe eu passar uma peninha molhada na sua boca! Um pouco d’água vai lhe fazer bem.
A raposa concordou e escancarou a boca novamente. Rapidamente, o pato molhou uma pena na água do rio. Voltou para o tronco e, tomando ares de médico, antes que ela percebesse, meteu-lhe de volta na garganta o osso que acabara de tirar.

O pato deixou a raposa engasgada e fugiu correndo à procura dos seus irmãos.

A lei da sobrevivência também existe entre os animais. Entre os humanos, é o “estado de necessidade”.

E foi assim que a ingrata raposa sofreu o seu castigo.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 19 de janeiro de 2018

CONFISSÃO

 

Antes do advento da televisão e da Internet, era comum , nas cidades do interior nordestino, o preenchimento da noite, até chegar o sono, com conversas nas calçadas ou nas praças.

A vida calma de antigamente proporcionava às pessoas maior calor humano, amizades consistentes e conversas cheias de humor, que amenizavam as tensões do dia. As rodas nas calçadas ou nas praças serviam de palco para se ouvir histórias engraçadas, verdadeiras ou fictícias, piadas e anedotas. Essa relativa tranquilidade durou até o início da década de 60, quando a televisão chegou ao Nordeste do Brasil.

O progresso tecnológico pôs fim a essas reuniões, que todas as noites aconteciam nas calçadas ou nos bancos de praças.

A televisão, desde o início, interferiu nas relações humanas, passando a influenciar as pessoas, que passaram a dar prioridade às novelas e outros programas. As antigas rodas onde as pessoas amigas conversavam todas as noites foram se dispersando e sendo substituídas pelos programas de televisão. Nas casas, as conversas passaram a se limitar aos intervalos desses programas. As relações humanas ficaram em segundo plano.

Para acabar de vez com o tempo dedicado às conversas “olho no olho”, surgiram o telefone celular e depois a Internet, com suas redes sociais, disponibilizando aos usuários amizades virtuais, com imagens fantasiosas, que diferem das amizades verdadeiras, que tem raízes consolidadas. 
O relacionamento humano perdeu sua prioridade. Acabaram-se os flertes, a alegria das cartas recebidas pelo correio e as fotografias com oferecimento. Em suma, o romantismo de antigamente foi substituído por relacionamentos, às vezes iniciados através da Internet, que, dificilmente, correspondem à realidade. Os personagens reais do cotidiano tornaram-se virtuais e passageiros.

A televisão e a informática puseram fim às conversas pessoais, “ao vivo e a cores”. A criatividade das pessoas foi mutilada, pois a televisão já entrega o “prato feito”, castrando o raciocínio.

Os costumes mudaram com o progresso tecnológico, o romantismo acabou e o amor tornou-se “genitalizado”.

Até as cartas anônimas, meio de agressão muito usado antigamente, no interior nordestino, desapareceram. Na época em que eram usadas, essas cartas tornavam-se folclóricas e, através delas, muitos “pecados” eram descobertos.

Certa vez, numa cidade do interior, um conhecido cidadão, cuja mulher não era confiável, recebeu uma carta anônima, avisando-lhe que ele estava levando chifres. Isso, a cidade toda sabia. Mas, muito apaixonado, o homem preferiu acreditar que se tratava de uma infâmia. Guardou a carta e fez de conta que não a tinha recebido. Não comentou nada com ninguém, principalmente com a mulher. Dias depois, o autor da carta, que era alcoólatra, encheu a cara de cachaça e, ao se encontrar com o destinatário, não se conteve e perguntou, na frente de várias pessoas da cidade:

-E aí, Seu Jordão! É verdade que o senhor recebeu uma carta anônima, dizendo que o senhor é corno?

Indignado com o atrevimento do conhecido, o homem respondeu:

– Você me respeite, canalha! Não recebi carta anônima nenhuma!!!

Inconformado, o bêbado insistiu:

-Deixe de mentira, homem! Eu sei que o senhor recebeu, mas não quer dizer! Pois, fique sabendo que quem lhe mandou aquela carta fui eu!!!

Com essa confissão, foi inevitável que o corno reagisse, trocando murros com o autor da carta anônima e prestando queixa contra ele à Polícia.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 12 de janeiro de 2018

AVE DE RAPINA

 

Os urubus fazem parte do grupo de aves de rapina, que a mãe natureza criou para manter a limpeza da terra. São aves que se alimentam da carcaça de animais mortos.

Existem muitas espécies de urubus. No Brasil, podemos encontrar o urubu-rei, o urubu-da-mata, o urubu-preto, o urubu-de-cabeça-vermelha e o urubu-de-cabeça-amarela.

Um cavalo morto estava sendo devorado por urubus, quando passou o mendigo Josias e notou que uma das aves estava com uma das asas quebradas. O homem se apiedou do urubu mutilado e o levou consigo, estrada afora. Depois de algum tempo, a fome chegou e Josias bateu palmas numa casa, cujo cheiro de comida de longe se sentia. Uma senhora abriu a porta e disse que não iria dar comida a um vagabundo, com um urubu nas costas. Deu tempo do pedinte ver um leitão assado, em cima do fogão e ficar com a boca cheia de saliva. Viu também a mesa repleta de bolos, doces e outras iguarias.

A mulher, praticamente, bateu a porta na cara do mendigo. Mas, pelas frestas, Josias a viu guardar no forno o leitão assado.

Muito desanimado e com fome, o mendigo sentou-se numa pedra ao lado da casa, para refazer as forças, com o seu amigo urubu. 

De repente, o dono da casa chegou e avistou Josias ali sentado. Aproximou-se e lhe perguntou o que desejava, com aquele urubu nas costas. O bom homem se compadeceu do mendigo, que lhe confessou estar com muita fome dormida.

A dona da casa abriu a porta para o marido entrar, reclamando por ele ter antecipado sua volta. Disse que não tinha preparado nada para o jantar. Iriam comer feijão de corda com jabá e mandioca.

Seu Josué, o dono da casa, convidou o maltrapilho para matar a fome à sua mesa. Mesmo temeroso, Josias entrou e sentou-se, tendo o cuidado de acomodar o urubu doente aos seus pés, com as pernas amarradas com um pedaço de corda. Indignada com a presença do maltrapilho, a mulher fechou a cara.

Os dois homens estavam conversando, quando, de repente, o urubu começou a gritar. O dono da casa se assustou, mas o mendigo lhe disse que a ave estava se comunicando com ele. Estava dizendo que a dona da casa tinha preparado uma grande surpresa para o marido. No forno havia um leitão assado e na cozinha uma variedade de iguarias, como doces, bolos e bebidas.

O marido, então, exigiu que a esposa trouxesse tudo para a mesa. O homem estranhou que ela houvesse escondido dele aquele banquete.

O destinatário, entretanto, não era o marido e sim um amante da infiel mulher. Questionada, a dona da casa, falsamente, respondeu:

-Quis lhe fazer uma surpresa no fim do jantar, senhor meu marido!

A resposta da mulher não convenceu.

Acreditando na magia daquela ave de rapina, o dono da casa propôs a Josias, o mendigo, pagar um bom preço por aquele urubu. Afinal, nunca tivera notícia de que um urubu fosse capaz de falar com alguém. E aquele banquete que sua mulher preparara e lhe escondera, só lhe tinha sido servido porque o urubu avisara. Aquele urubu era um gênio!

Mas a proposta foi recusada e o mendigo seguiu sua caminhada, levando às costas o seu mais novo amigo, o urubu.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 05 de janeiro de 2018

O BICHO HOMEM

 

Não tem bicho mais valente do que o bicho-homem. Ele, sim, é o rei dos animais.”

Essa foi uma conversa ouvida entre uma onça e um lobo. A onça estava descansando, quando recebeu a visita do lobo, para lhe contar a novidade. Maldoso e falso, chegou com o intuito de perturbar a onça. Começou dizendo que ela e o leão só tinham fama de ferozes, mas o verdadeiro rei dos animais era o bicho- homem. Com uns espirros de fogo, ele matava qualquer animal feroz, que aparecesse em sua frente.

A onça ficou furiosa e quis conhecer esse tal “bicho-homem”, para acabar com a sua raça. Os animais da floresta não podiam ser desmoralizados por espirros de fogo. Mereciam respeito, e o leão jamais deixaria de ser o rei dos animais.

Ao ver a onça furiosa, o lobo quis se desculpar:

– Comadre, eu lhe peço perdão. Já estou arrependido de ter dito essa asneira. Eu quis apenas lhe prevenir da maldade do bicho-homem. Vi de longe esse bicho matar um leão, com dois espirros de fogo. Sem fazer qualquer força.

O lobo e a onça fizeram uma parceria, para destruir o bicho- homem. Como o lobo era mais veloz do que a onça, amarrou uma ponta de um cipó muito forte no pescoço da comadre e a outra ponta na sua cintura, para irem à luta. Se precisassem correr, a onça seria puxada por ele.

Feito o acordo, os parceiros saíram à procura do perigo ameaçador. A onça, inicialmente, acompanhou o lobo na sua velocidade, com muita resistência.

Ao avistar os dois animais, o bicho-homem tirou da cintura sua arma de fogo e disparou vários tiros na direção deles, sem conseguir atingi-los. Assustado, o lobo desabou numa corrida desenfreada, arrastando a onça pelo cipó atado aos dois. De repente, começou a sentir dificuldade de correr, pois o peso da onça havia aumentado. Com esforço, correu até se sentir seguro. Então, parou e viu que a onça estava sem respirar e mostrando todos os dentes. Sem entender que a comadre estava morta, o lobo a repreendeu:

– Comadre onça, não ria desse jeito! Estou cansado de puxar a senhora!

O lobo foi, literalmente, “amigo da Onça.” Agiu com leviandade, provocando a morte da comadre.

A expressão amigo da onça, usada como sinônimo de amigo falso ou pessoa em quem não se deve confiar, teve origem na década de 40.

Inspirado em uma piada que fazia muito sucesso na época, o cartunista Péricles de Andrade Maranhão batizou seu novo personagem como Amigo da Onça, que foi publicado em uma charge, pela primeira vez, na revista O Cruzeiro, em 23 de outubro de 1943. A página de Péricles foi a mais lida da revista de 1943 até 1961, ano de sua morte.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 29 de dezembro de 2017

A FELICIDADE

 

Josimar, um marceneiro pobre, de uma cidade do interior nordestino, trabalhava o dia todo, para sustentar a mulher e os seis filhos. Conformado com a pobreza em que vivia, o casal era muito feliz e a família harmoniosa.

À noite, todos se sentavam na calçada, e Josimar dedilhava a viola, herdada do pai, cantando repentes e improvisos. Exaltava a mulher e os filhos e lamentava a pobreza em que viviam. Mas, agradecia a Deus por ter filhos saudáveis e bonitos e uma mulher dedicada à família. 

Na rua principal, morava Seu Santino, um fazendeiro muito rico, casado e pai de dois filhos, que sempre chamava Josimar para consertar e envernizar os móveis antigos de sua suntuosa casa. Com o tempo, o velho passou a admirar a honestidade do marceneiro e a observar a pobreza em que ele e sua família viviam. Josimar nunca o explorara e nunca lhe pedira dinheiro emprestado.

 

Era a época do Natal e Seu Santino resolveu dar um bom presente em dinheiro a Josimar, para ajudá-lo na educação dos filhos. Costumava fazer isso, esporadicamente, quando encontrava na sua frente uma pessoa honesta e trabalhadora. Na semana do Natal, mandou seu motorista entregar a Josimar uma maleta, embrulhada com papel de presente. Ao abrir a encomenda, o marceneiro ficou assustado com a quantidade de dinheiro que viu na sua frente. Esperava que fossem roupas usadas. Chamou a mulher para ver e ela ficou ainda mais assustada. Os dois se entreolharam, sem coragem de tocar no dinheiro. Puseram a maleta debaixo da cama, para depois resolver o que iriam fazer com aquele dinheiro fácil, para eles sem qualquer sabor.

Anoiteceu e a casa continuou em profundo silêncio. Naquela noite, as crianças sentiram falta do pai na calçada, tocando viola e fazendo repentes. Ninguém riu nem conversou. Josimar e Luzia estavam calados, sem assunto. No dia seguinte, a casa continuou em silêncio. As crianças foram brincar no terreiro, mas quando começaram a falar alto e correr, levaram gritos do pai que ameaçou lhes bater, se continuassem fazendo barulho. Nunca tinha acontecido isso antes. O filho mais velho, de 9 anos, percebeu a cara de choro da mãe e os olhos inchados. Houve um silêncio sepulcral e a família se entreolhou com olhos de pavor.

O marceneiro não teve coragem de contar o dinheiro. Sentiu dor de cabeça e medo de ser acusado de roubo. Também teve medo que um ladrão invadisse sua casa e levasse a maleta. Não sentiu mais vontade de admirar o céu, a lua e as estrelas, como sempre fazia. Não dedilhou mais a viola, nem versejou, como costumava fazer todas as noites.

Josimar estava vivendo as noites mais tristes da sua vida. Ele, a mulher e os filhos formavam um ninho de amor, e nada perturbava a paz que reinava naquela simples casa. Josimar ficou nervoso e ameaçou de bater nos filhos, porque estavam rindo alto e brincando. A mulher se voltou contra ele. O choro das crianças encheu a casa de tristeza.

Os pensamentos confusos do marceneiro, sobre o que poderia fazer com aquele dinheiro, não combinavam com os pensamentos da mulher. Os ânimos se acirraram e houve uma grande briga entre o casal, provocando grande choradeira entre os filhos.

Depois da terceira noite em claro, Josimar disse à mulher:

– O dinheiro tirou a alegria que havia aqui na nossa casa! Tirou a nossa paz! A melhor coisa que eu posso fazer é devolver esse presente. Vamos continuar com a nossa pobreza, mas com a nossa alegria!

Prefiro continuar caminhando com as minhas próprias pernas! Deus proverá!

A mulher foi com o marido devolver o presente ao fazendeiro, com mil pedidos de desculpas e agradecimentos. O casal voltou para casa, e a alegria da família voltou a reinar.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 22 de dezembro de 2017

O MISTÉRIO

 

Na noite de Natal, os pobres se sentem mais pobres e mais tristes, do que em qualquer outra data. Aqueles que não tem um teto para morar ou um pão para comer, esperam sempre um milagre. Sonham com mesa farta e moradia, onde possam se abrigar contra a chuva, o sol e o sereno.

Josué e Mariana, sem teto, tinham certeza de que a melhor coisa do mundo era a pessoa ter quatro paredes para morar. Sem moradia, as pessoas não passam de animais errantes.

 

 

Chegou a noite de Natal. O casal ia caminhando na escuridão da noite, amargando a miséria e a falta de esperança. De repente, Mariana tropeçou em um pequeno cachorro, que dormia numa calçada. Muito magro, o animal se assustou olhando para o casal, como quem pedia proteção. Parecia ser um cachorro tão pobre quanto eles próprios, pois não tinha mais do que a pele em cima dos ossos, e quase não tinha pelo.

Os pobres são bons para os pobres. O espírito de solidariedade reina entre eles. Por isso, ajudam-se mutuamente.

Os dois pobres se compadeceram do cachorro. Apesar de ainda não terem comido nada, deram ao animal um pouco do pão com manteiga que haviam recebido de esmola, quando vagavam pela cidade. O cachorro comeu e saiu andando à frente deles, sempre olhando para trás, como se os estivesse chamando para acompanhá-lo. Eles seguiram o animal até um casebre abandonado. Com o clarão da lua, viram dentro dele dois bancos e um fogão apagado. Um raio de luz aparecia e desaparecia, iluminando o ambiente. Fazia muito frio e os mendigos desejaram que aquele fogão fosse uma lareira. De repente, viram nele duas brasas acesas, brilhando como ouro.

Contente e esfregando as mãos, o homem aconchegou a companheira ao seu corpo, para que, deitados no chão e abraçados, pudessem desfrutar melhor daquele calor. O casal já não se sentiu tão pobre e triste. As brasas arderam, misteriosamente, aquecendo o casebre.

Os mendigos sentiram-se abençoados, pois, naquela noite de Natal, puderam se aquecer até amanhecer o dia. O Menino Jesus lhes dera aquele presente. Pela manhã, viram os olhos amarelos do cachorro os observando, do outro lado do fogão apagado.

Tudo não passara de um delírio. Talvez, o delírio provocado pela fome e pelo desalento. O reflexo dos olhos do cachorro parecia duas brasas vivas. Essa ilusão fez com que os pobres adormecessem, sentindo-se abrigados. Ao amanhecer o dia, voltaram à triste realidade: Não tinham teto para morar, nem comida para comer.

Saíram caminhando, seguidos pelo cachorro, que a eles se apegou, completando a família.

Na realidade, o que se passou com os mendigos, naquela Noite de Natal, foi um mistério. E mistério não tem explicação.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 15 de dezembro de 2017

A ARMA

 

Seu Lúcio, trabalhador rural, era aposentado pelo INSS e residia num bairro simples de uma pequena cidade do interior nordestino. Todo começo de mês, ia à agência bancária pagadora, receber o dinheiro do seu “aposento”, como ele costumava chamar. Mal sabia ler e escrever, mas acompanhava os noticiários da televisão. Por isso, estava sempre por dentro da onda de violência que assola o País e dos escândalos praticados pela banda podre dos nossos políticos. Era revoltado com a insegurança que vitimava pessoas inocentes, todos os dias, nas grandes cidades. Entretanto, sentia-se seguro na localidade onde morava, pois ali a violência ainda não havia chegado.

Por via das dúvidas, tinha em casa uma espingarda pendurada na parede da sala, sempre carregada de chumbo, que usava para caçar. Essa arma, em caso de necessidade, seria usada por ele, na defesa da sua vida e da sua família. Mas, com fé em Deus, isso nunca iria ser preciso.

Seu Lúcio morava numa rua muito calma, onde ainda se usava colocar cadeiras nas calçadas para se prosear, até o sono chegar.

Certo dia, como fazia todo mês, foi à Agência bancária, enfrentar uma grande fila, para receber seus proventos. Recebeu o dinheiro, contou e guardou no bolso da calça, voltando para casa, em seguida.

Logo que chegou, pegou a vassoura e começou a varrer a calçada, para apanhar as folhas de um pé de Castanhola, que ali havia. Mal começou o serviço, viu parar uma moto, de onde desceram dois malandros, usando boné, um deles com um revólver na mão. Anunciaram que era um assalto e exigiram o dinheiro da aposentadoria, que o homem recebera há poucos minutos, na Agência bancária. Disfarçadamente, eles haviam acompanhado a entrada do idoso no banco e viram quando ele guardou no bolso da calça o dinheiro recebido.

Na mira do revólver, Seu Lúcio ficou paralisado e lhe faltou a voz. Mas, de repente, uma força superior o dominou, e ele usou a vassoura para se defender. Inesperadamente, com uma vassourada, derrubou o revólver de um dos assaltantes e distribuiu outras grandes vassouradas, atingindo os dois.

A força de sertanejo se apossou de Seu Lúcio, e os malandros, sumiram na moto, em disparada.

Um vizinho telefonou para a Polícia, que compareceu ao local do frustrado assalto. Foi constatado que o revólver usado pelos assaltantes, e que estava jogado ao pé da calçada, era de brinquedo.

Seu Lúcio foi levado à Delegacia de Polícia, para registrar a queixa, empunhando sua extraordinária arma: A “bassoura”, como ele chamava.

O dinheiro da aposentadoria continuava no bolso de sua calça.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 08 de dezembro de 2017

OS GATOS

 

José Alpiniano, professor aposentado e escritor, era viúvo e tinha como companhia dois gatos de estimação, a quem muito mimava. Um deles era da raça Angorá, preto retinto, porte elegante e pelo longo e sedoso. Chamava-se Koruga. Tinha ares de soberano e passeava por todos os lugares da casa, dormindo nas poltronas ou nos melhores tapetes.

O outro, chamado Kontik, era um gatinho “vira-lata”, ainda “bichano”, bonitinho e brincalhão, Os dois gatos pulavam sobre o birô do seu dono e por cima dos seus escritos, revirando tudo.

José Alpiniano era muito intolerante com as pessoas, mas se divertia com as peripécias dos dois gatos. Tinha prazer de alimentá-los com boa comida.

A companhia dos dois gatos supria a sua solidão. Eram considerados filhos, uma vez que seus dois filhos verdadeiros moravam em outro Estado.

Os gatos eram dóceis, amigos entre si e obedientes às ordens do seu dono. Tinham o lugar certo para satisfazer suas necessidades fisiológicas.

Maria, a antiga criada, cuidava da casa, e também da roupa e alimentação do patrão.

José Alpiniano gostava que os dois gatos estivessem sempre ao seu lado. Isso, para ele, era uma terapia. Entretanto, às vezes, fechava-se no escritório, para se concentrar melhor nos seus escritos. Os dois gatos, quando notavam que a porta estava fechada, miavam desesperadamente. Arranhavam a porta com as unhas, até que fosse aberta.

Desejando evitar estresse nos queridos gatinhos, José Alpiniano mandou chamar um conhecido marceneiro e lhe deu a seguinte ordem:

– Jocildo, quero que abra duas passagens, na parte inferior desta porta. Uma, grande, para o gato maior, e outra, pequena, para o gato menor. Quero que os dois possam entrar e sair livremente do meu escritório.

O marceneiro, admirado, respondeu:

-Mas, Seu Alpiniano, basta fazer uma passagem grande! Servirá para os dois gatos! Não há necessidade de duas.

Contrariado, o homem retrucou, grosseiramente:

-Não precisa? E por onde o gatinho pequeno passará? Faça o que eu estou mandando! Quero duas passagens!

O marceneiro nunca tinha se deparado com uma pessoa tão opiniosa.

E obedeceu à ordem recebida.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 01 de dezembro de 2017

ZÉ BESTA

 

Jonas era um homem muito bom, que residia numa cidade do interior nordestino. Ele e Nalva, sua esposa, mal sabiam ler e escrever. Entretanto, faziam questão de que os três filhos estudassem no melhor colégio da cidade.Tinham uma pequena propriedade rural, onde cultivavam, entre outros produtos, feijão, milho, mandioca, macaxeira, inhame e bata-doce. A família era religiosa e tinha o sentimento da caridade inserido no coração. Mesmo não sendo ricos, não negavam um prato de comida a ninguém. Jonas gostava de dizer que a porta da sua casa estava sempre aberta para os amigos e para os necessitados. Era comum, ao amanhecer o dia, encontrar à sua porta pessoas famintas, pedindo para tomar o café da manhã. Sua esposa oferecia aos pedintes café com pão, cuscuz e batata doce. O fogão à lenha estava sempre aceso, com alguma coisa cozinhando.

 

 

Na hora do almoço, a cena se repetia. Os pobres ficavam na sua calçada, à espera de comida. Não lhes faltava o prato de feijão com farinha e um pedaço de mistura. Era comida simples, mas que saciava a fome dos mais pobres.Com a hospitalidade típica do nordestino, no tempo das “vacas gordas”, o casal também tinha o maior prazer em receber pessoas amigas e parentes em sua casa, hospedar e compartilhar as refeições. Jonas fazia isso gratuitamente, sem qualquer interesse. Não era político nem cabo eleitoral, o que justificaria a receptividade.

A casa de Jonas e Nalva parecia um albergue. Com o passar do tempo, forasteiros e oportunistas passaram a se aproveitar da bondade do casal. Na hora das refeições, sempre chegavam alguns desconhecidos, com conversa mole, praticamente se convidando para almoçar ou jantar. Pediam até dormida.

Certo dia, ele caminhava pela cidade e, casualmente, ouviu três malandros conversando à sua frente e fazendo planos de não gastar um centavo naquele dia. Iriam fazer as refeições na casa de Zé Besta. Curioso, ele perguntou a alguém que também ouvira a conversa, quem era esse tal de Zé Besta, a quem eles se referiam. E o homem respondeu:

-Zé besta é um velho muito caridoso, chamado Jonas, que dá comida e abrigo aos necessitados. Mas, as pessoas que costumam comer na casa dele saem de lá fazendo chacota, e lhe apelidaram de Zé Besta. O povo é mal agradecido. Ninguém reconhece a bondade de ninguém.

Decepcionado com a humanidade, Jonas limitou-se a ajudar, apenas, às pessoas muito pobres, que já conhecia. O apelido de Zé Besta lhe serviu de lição. Para ele, a partir de então, qualquer estranho passou a ser um inimigo em potencial.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 24 de novembro de 2017

A FAMA

Jerson sempre foi uma criança tímida. Apanhava dos coleguinhas e, mesmo instigado pelos pais, não tinha coragem de reagir. Não levava jeito para esportes, que exigissem esforço físico. Gostava de futebol, mas se fosse jogo de botão ou totó.

Os pais eram católicos e o acostumaram a frequentar a Igreja aos domingos. No colégio, seus colegas o disputavam nos trabalhos de grupo, por ser bastante inteligente e um aluno exemplar.

 

Tornou-se adolescente, com a mesma timidez. Não paquerava, não namorava nem gostava de dançar. Já rapaz, beirando os 18 anos, era sempre assediado por amigas, mas não se envolvia com nenhuma.

Os colegas achavam estranho o seu comportamento e a rejeição que demonstrava pelas moças. Começaram a achar que ele tinha outras preferências. Entretanto, nunca o viram investir em rapazes, como também não apresentava trejeitos efeminados.

Todos os seus amigos eram pegadores e não podiam ver um rabo de saia. Todos tinham namorada fixa e pensavam em casar.

Os rapazes combinavam com as amigas, para se insinuarem para Jerson, mas as tentativas eram em vão. Jerson fugia de namoro, como o diabo foge da cruz.

Certo dia, Josué, seu melhor amigo, criou coragem e conversou com ele sobre o seu estranho comportamento. Disse-lhe que ele estava dando margens a comentários maldosos no que se referia à sua masculinidade. Indignado, Jerson reagiu e disse que era um homem normal. Era romântico e sonhador. Apenas, ainda não havia encontrado a parceira ideal. Ainda não tinha sentido atração sexual por nenhuma moça. Mas tinha certeza de que a sua alma gêmea estava a caminho. Lembrava as palavras da sua avó materna:

“Casamento e mortalha, no céu se talha”.

Pretendia se casar, futuramente, em vez de ficar de galho em galho, como a maioria dos rapazes.

Disse ao amigo que, em todas as moças que se insinuavam para ele, faltava o brilho no olhar, que ele tanto procurava. Antes de qualquer atributo físico, admirava nas pessoas a beleza interior.

Afinal, como já disse o poeta, os olhos são o espelho da alma.

Certo dia, os amigos convidaram Jerson para o aniversário de 19 anos de um deles. Por influência, ele também tomou algumas cervejas. De repente, chegaram ao restaurante algumas moças conhecidas, acompanhadas de amigas bastante atraentes. Uma delas passou a se insinuar para Jerson e, no final, amanheceu o dia com ele num motel. Foi a primeira experiência sexual de Jerson. Rápida e sem graça.

Logo depois, Jerson alegou estar com dor de cabeça e os dois foram para suas respectivas casas, sem trocar uma só palavra.

Jerson se sentiu um babaca, por ter cedido às pressões dos amigos, ainda mais com uma moça de programa. Isso lhe provocou uma certa revolta. Resolveu que, pelo menos por uns tempos, iria se afastar de todos e se dedicar apenas aos estudos.

Os amigos estavam curiosos, para saber como tinha sido a noitada de Jerson com a garota. Também estavam certos de que, depois daquele encontro, o querido amigo despertaria para as alegrias do sexo e passaria a se interessar pelas mulheres.

Depois de dois dias sem se encontrar com a turma, nem atender telefone, Jerson resolveu procurá-los. Todos queriam saber, ao mesmo tempo, como tinha sido aquela famosa noite. E a pergunta era a mesma:

– E então, Jerson, valeu a pena? Mulher é bicho bom ou não é?

Demonstrando muita irritação, o rapaz respondeu:

– Querem saber a verdade?

Cheguei à seguinte conclusão:

– “XIRANHA” só tem mesmo é FAMA!!!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 17 de novembro de 2017

O SONO

Durante a Segunda Guerra Mundial (1942 a 1945), Natal abrigou tropas norte-americanas. Para esse apoio, na capital potiguar foi instalada uma base militar dos Estados Unidos.

A escolha de Natal se deu em decorrência da sua posição geográfica privilegiada, facilitando deslocamentos para os continentes africano e europeu.

No auge da II Guerra, Parnamirim era o aeroporto mais congestionado do Brasil, com inúmeros pousos e decolagens diárias.

Criado para proteger o continente americano das investidas do Eixo – composto pela Alemanha, Itália e Japão -, o Parnamirim Field era, na década de 1940, a maior base aérea estadunidense em território estrangeiro. Ao fim da guerra, o fato rendeu à capital potiguar o apelido de “Trampolim da Vitória”.

Antes do conflito armado internacional, Natal tinha 55 mil habitantes e era uma cidade tranquila. Com a instalação da base norte-americana, houve um aumento populacional de mais de 10 mil novos habitantes.

A presença de soldados americanos modificou a vida social da cidade. Surgiram namoros, noivados e até casamentos de moças de famílias natalenses com os americanos. As jovens se libertaram do controle paterno, que até então ia muito além da maioridade. Aumentou o consumo de álcool e cigarro. Natal conheceu produtos como a Coca-cola e o Chiclete. As moças passaram a fumar e a beber, principalmente, “Cuba Libre”, bebida feita à base de rum, refrigerante coca-cola e limão.

Atribui-se a invenção dessa bebida aos soldados norte-americanos, que ajudaram nas guerras da independência cubana, em 1898. Seria a explicação do seu nome.

Também aumentou, em Natal, a prostituição.

O dólar tornou-se quase a moeda-corrente da capital. A economia cresceu bastante.

Logo que chegaram os primeiros norte-americanos a Natal, o Consulado criou os “Clubes 50”, visando a integração das tropas militares com as famílias norte-rio-grandenses. Surgiram associações recreativas, e tanto o Aero Clube como o Clube Hípico, alternadamente, foram alugados para a realização de bailes. Dizem os historiadores que, nesses bailes, a disputa de pares para dançar era na proporção de 200 americanos para 30 ou 40 moças. Entrava um par no salão e logo vinha um colega, batia nas costas do outro e tomava a “dama”, sem problemas. Esse gesto era chamado de “tag”, uma invenção americana, para que todos tivessem par para dançar.

Houve uma invasão de novos ritmos musicais, como o “jazz”, “conga”, “rumba” e outros.

Também havia bailes na Base Aérea de Parnamirim. No sábado, os bailes eram somente para os americanos. Mas no domingo, eram para todos (For Hall).

Há quem diga que vem daí a palavra “forró”, o famoso ritmo nordestino. Mas, segundo o historiador Luis da Câmara Cascudo, a palavra “forró” é derivada do termo africano “forrobodó”, festa transformada em gênero musical.

Os americanos disponibilizavam ônibus para levar e trazer as moças natalenses, para participar dos bailes. Entretanto, exigiam que estivessem sempre acompanhadas por um rapaz parente ou amigo, ou então por uma “chaperone” (acompanhante). A “chaperone” podia ser a mãe ou uma mulher mais velha. Depois, essa exigência foi abrandada, podendo as moças se fazerem acompanhar de irmãs.

A invasão da cidade por americanos despertou a ira dos rapazes natalenses, pois todas as moças só queriam namorar ou dançar com os gringos. Rejeitados, os rapazes da terra se uniram para se vingar do sexo feminino, passando a chamar os ônibus da Base Aérea, que levavam e traziam as moças que participavam dos bailes, pejorativamente, de “Marmita”. Vaiavam os ônibus, e diziam que eles estavam levando “comida” para os soldados americanos.

Esses ônibus saíam da Praça Augusto Severo, na Ribeira. Era lá que os rapazes se concentravam para fazer algazarra.

Minha saudosa tia Carmen Pimentel, sua irmã Gilka e diversas amigas, eram jovens nessa época, e participaram ativamente dos bailes oferecidos pelos americanos. Falavam Inglês fluentemente e eram muito disputadas.

Carmen e Gilka levavam como “chaperone” Dona Francisquinha, a 2ª esposa do Professor Celestino Pimentel, madrasta de Carmen e mãe de Gilka. Aliás, a mulher fazia questão de acompanhá-las, para que não ficassem faladas.

A filha Gilka, quando tinha um namorado, ficava na sala, à noite, sozinha com ele, até que o relógio da catedral tocasse nove badaladas. A partir de então, a mãe se sentava na sala, esperando que o namorado da filha se despedisse. Na cabeça de Dona Francisquinha, antes das nove horas da noite, não poderia acontecer nenhum agarrado.Mas depois das nove da noite, para ela, o cenário mudava.

Já beirando os 60 anos, Dona Francisquinha tinha o maior zelo pela virgindade da filha e da enteada, e fazia questão de acompanhá-las nos “ônibus/marmita”.

Pois bem. Numa dessas festas da Base Aérea, quando Dona Francisquinha servia de “chaperone” da filha, enteada e algumas amigas, mesmo cansada de um exaustivo dia de trabalho doméstico, foi dominada pelo sono. Para ver se despertava, foi ao toalete. A sua ausência foi notada com naturalidade pelas moças. Entretanto, depois da festa terminar, com os dois ônibus lotados de jovens para o retorno a Natal, Gilka, que ia em um ônibus com amigas, sentiu falta da mãe. Então, desceu do ônibus e foi ao outro onde estava Carmen com outras amigas e perguntou?

– Carmen, mamãe está aí com você?

A irmã respondeu:

– Não, Gilka! Francisquinha não está aqui!!!

Gilka pediu ao motorista para esperar um pouco, enquanto iria ao toalete, ver se a mãe estava lá.

Não deu outra. Dona Francisquinha estava dormindo profundamente, num sofá que havia no toalete. Se Gilka, sua filha, não tivesse sentido sua falta, a mulher teria amanhecido o dia dormindo no toalete, do salão de festa da Base Aérea.

O sono é uma coisa incontrolável!!!

Carmen Pimentel e as amigas, na idade madura e na velhice, quando conversavam, relembravam o tempo da Guerra, com saudade. Todas eram unânimes em dizer:

– A Guerra foi formidável!!

Gilka, depois da Guerra, foi para os Estados Unidos, trabalhar no Consulado Brasileiro. Casou-se com um americano, teve um casal de filhos, e lá viveu até o fim dos seus dias.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sábado, 11 de novembro de 2017

A TINTA

Seu João Bento vendia madeira (caibros e linhas) e residia no mesmo local onde trabalhava. Todos os dias, ia à bodega de Dona Luíza, vizinha à sua casa, e tomava algumas bicadas de cachaça.

 

 

Certo dia, comprou um galão de tinta, para pintar a frente da pequena casa onde morava. Quando começou a pintura, viu que a tinta não correspondia à cor escolhida na loja. Já tinha pintado a parede quase toda e não tinha mais como trocar a lata de tinta. Contrariado, ficou esbravejando, achando a cor da parede horrorosa. Realmente, o amarelo marfim que ele comprara tinha sido trocado, por um amarelo-ferrugem, avermelhado. Como já estava usando a tinta, estava sem jeito. Sua vontade era voltar à loja e quebrar a cara do vendedor irresponsável, que lhe entregou a tinta errada. Muito triste, ele começou a desabafar com todas as pessoas que por sua casa passavam. Elas foram unânimes em concordar com ele, dizendo que, de fato, a tinta era muito feia.

Seu João Bento, antes de começar a pintura da frente da casa, já tinha tomado a primeira chamada de cachaça do dia. Quando percebeu a troca da tinta, já tinha usado uma boa parte do galão. Ficou contrariado, até a medula óssea.

De repente, mudou o cenário. Pela frente da sua casa, vinha passando a professora Dona Elisa, que era incapaz de um comentário depreciativo, que contrariasse alguém. E a bondosa senhora cumprimentou o homem, delicadamente:

– Bom dia, Seu João Bento! Como está ficando linda sua casa! Que cor bonita e diferente! Está formidável!

Contrariado, Seu João Bento respondeu:

-Bom dia, Dona Elisa! Veja que moleza a minha: Comprei uma tinta amarela, linda, e me mandaram esta cor horrível! Estou com vontade de voltar na loja e quebrar a cara do vendedor!

Muito inteligente, Dona Elisa, vendo o estado de nervos do homem, procurou acalmá-lo:

-Seu João Bento, a cor da tinta está linda! Um amarelo diferente! Está formidável! Pode acreditar! Da próxima vez que eu mandar pintar minha casa, vai ser da cor da sua!

Seu João Bento ficou mais calmo e Dona Elisa seguiu para a escola onde lecionava.

O homem entrou novamente na bodega de dona Luíza e tomou mais três chamadas de cachaça, uma atrás da outra. Embriagado, fez um verdadeiro discurso. Mesmo revoltado com a cor da tinta, teceu grandes elogios à Dona Elisa:

-Dona Elisa é uma santa! Não faz mal a ninguém. Achou linda a tinta que veio trocada. Disse até que vai mandar pintar a casa dela da mesma cor da minha!

Também, mesmo que eu estivesse pintando a casa com tinta cor de “bosta” ela teria dito a mesma coisa:

“Está FORMIDÁVEL, Seu João Bento!”


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 03 de novembro de 2017

A CASA E O BOTÃO

Matilde, 23 anos, vitalidade de 16 e juízo de um pinto com um dia de nascido, era alta, bonita, exuberante, seios e quadris avantajados. Depois de passar dois anos no Rio de Janeiro, voltou para Natal muito traquejada. Leviana e coquete, todo namorado que arranjava, só queria mesmo se aproveitar dos seus dotes físicos.

Estava no auge, a marchinha de carnaval que dizia:

“Ei, como é que é? É pra casar, ou pra que é?”
Matilde só arranjava namorados do tipo “pra que é”.

Conheceu Joanildo, contador, 23 anos, noivo da sua amiga Soninha. Na mesma hora, lançou sobre o rapaz um olhar “pidão”, e a atração foi mútua. Surgiu entre os dois uma paixão violenta. Nas “entrelinhas” do dia, Joanildo investiu em telefonemas e galanteios, marcando encontros para “bater papo” com a amiga de sua noiva. Como grande caçador que era, sua intenção era apenas levar a rês ao “matadouro”. Afinal, era noivo de Soninha e a data do casamento estava próxima.

Entretanto, conseguido o seu intento, Joanildo sentiu-se perdidamente apaixonado por Matilde, sendo por ela correspondido. Sem que a noiva suspeitasse, passaram a se encontrar diariamente, e os encontros eram cada vez mais quentes. A paixão entre os dois  tornou-se avassaladora e já não dava para controlar.

 

Joanildo e Soninha estavam noivos há mais de um ano e já de casamento marcado. A casa onde iriam residir já estava mobiliada. Diariamente, Soninha ia até lá, levando coisas do enxoval para guardar. Às vezes, a amiga Matilde a acompanhava e a ajudava a guardar peças do enxoval, na cômoda e no guarda-roupa. Sem escrúpulos, Matilde dava risadas, vendo a pureza de Soninha, preocupada com a noite de núpcias, que estava próxima.

O noivo passou a viver um dilema. Chegara à conclusão de que o amor de sua vida era Matilde. Entretanto, não tinha coragem de acabar o noivado com Soninha. Estava envolvido com os sogros, que lhe confiaram a mão de sua filha. A festa já estava organizada, convites distribuídos e a casa onde iriam morar estava pronta para recebê-los.

Na hora em que Joanildo trocava juras de amor com Matilde, confessava que não sabia o que fazer para acabar o noivado com Soninha. Seria uma grande desfeita, dar um fora na noiva, quase na porta da Igreja e sem motivo aparente.

Todos da família de Soninha acreditavam que ela e Joanildo eram perdidamente apaixonados. A virgem cheia de candura, inocente como um anjo, não imaginava a falsidade da “amiga”.

Soninha tinha o firme propósito de se conservar virgem, até a noite de núpcias. Essa lição de castidade temporária, havia recebido da avó paterna, Dona Luíza, que procurava lhe transmitir preceitos do “tempo do ronca.” Segundo ela, a virgindade, era um atributo moral que deveria ser levado até o leito conjugal. Soninha não admitia qualquer investida do noivo, antes do casamento.

À medida que a data do enlace de Joanildo e Soninha se aproximava, aumentava o envolvimento do noivo com Matilde. Ele entrou em “parafuso”. A paixão desenfreada e uma atração física, que nunca sentira por Soninha, deram-lhe coragem de tomar uma decisão brusca e inesperada. Os dois se sentiam como se fossem “a casa e o botão”. Não podiam mais recuar.

Na véspera do casamento com Soninha, Joanildo e Matilde fugiram. Foram viver seu grande amor bem longe de Natal.

Foi um escândalo.

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 27 de outubro de 2017

O CARIDOSO

Dois mendigos pediram uma esmola a um empresário rico, que ia entrando na sua camionete “cabine dupla”.

O homem os surpreendeu, ao convidá-los para entrar no carro e ir com ele até sua casa. Lá, eles almoçariam e receberiam uma ajuda, inclusive com roupas usadas. Perguntou se os dois estavam com fome e eles responderam que, até aquela hora do dia, não tinha comido nada, por falta de dinheiro.

Um dos rapazes respondeu:

– Muito agradecido, senhor, mas não me sinto bem em ir me alimentar na sua casa, sabendo que minha esposa e nosso filho pequeno também estão com fome, naquela calçada, esperando por mim.

– O homem rico falou:

– Chame-os e eles irão também almoçar na minha casa.

Olhando para o outro rapaz, o empresário falou:

– Você também pode vir.

Encabulado, o rapaz se justificou:

– Senhor, eu também tenho esposa e dois filhos, com fome, esperando por mim!

O empresário respondeu:

– Pois podem vir todos. Vão ver o que é fartura e encher a barriga do bom e do melhor. Não irão se arrepender.

Os dois mendigos se emocionaram, com o gesto caridoso daquele homem, que, de repente, apareceu na vida deles para ajudá-los, sem qualquer interesse. Acharam que tinham recebido uma bênção do Céu!

Todos se acomodaram nas duas boleias da caminhonete, e um dos rapazes se acomodou na carroceria.

No caminho, o rapaz que ia ao lado do empresário falou, humildemente:

– Só Deus paga essa caridade que o senhor está fazendo com todos nós. Vai matar a nossa fome e isso é o que nós estamos precisando…

O homem rico respondeu:

“Não precisa me agradecer tanto. Estou fazendo isto de coração. Gosto muito de fazer caridade. Eu sou um homem muito bom… amo o meu próximo. Fico feliz, quando mato a fome de alguém necessitado. Minha casa é muito grande e tem um enorme quintal. Vocês vão gostar muito. “

Ao chegarem à mansão onde o empresário morava, os mendigos se assustaram, com as palavras austeras daquele homem rico:

– Depois que almoçarem, quero que vocês façam uma boa limpeza no quintal: Arranquem todo o mato, apanhem as folhas caídas das fruteiras, juntem tudo e toquem fogo. Tenho enxada, ciscador e pá.

Os dois rapazes passaram o resto do dia, limpando o mato do enorme quintal.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 20 de outubro de 2017

UM SANTO REMÉDIO

Rosilda, do lar, e Mário, funcionário público municipal, estavam vivendo a crise dos dez anos de casamento. Influenciada pelas novelas da televisão, a mulher se impressionou com a onda de adultério que reinava no mundo, e botou na cabeça que o marido lhe era infiel. Achava que os homens eram caçadores e viviam em busca de aventuras. Eram infiéis pela própria natureza.

Por isso, Rosilda tornou-se agressiva e desconfiada. Amanhecia o dia “dando coice no vento”, sentindo-se traída, sem razão aparente. Farejava chifres, não acreditava no que o marido dizia, e procurava motivos para demonstrar sua insatisfação na vida conjugal.

Na verdade, o maior defeito de Mário era, uma vez por outra, depois do trabalho, encontrar-se com alguns amigos e tomar uma cervejinha, no bar localizado nas imediações de sua casa. Esse papo ia somente, até se aproximar a hora do jantar.

Apesar de não ser santo, sua média, como chefe de família e pai, era dez. Entretanto, bastava entrar em casa, para que a esposa o “espinhasse” com mil perguntas maliciosas, à procura de indícios de sua infidelidade.

Rosilda, com sua voz gasguita e insinuações irritantes, foi tirando a paciência de Mário. Aos poucos, o inferno se instalou dentro de casa, sob o olhar aflito dos três filhos pequenos.

Católica por tradição, aos domingos à noite Rosilda ia à Missa com o marido e os filhos. Também mantinha o habito de comungar toda 1ª sexta-feira do mês.

Numa quinta-feira à tarde, Rosilda foi à Igreja se confessar e contou ao padre que estava prestes a se separar do marido. Disse-lhe que suspeitava de estar sendo traída; que o marido chegava tarde em casa e sempre com hálito de bebida; também não lhe dava mais o carinho e atenção dos primeiros meses de casamento. Falou das brigas constantes, provocadas por ela.

O padre lhe deu conselhos para que não agisse precipitadamente e pensasse na falta que o pai iria fazer aos filhos, se houvesse a separação.

Pensando em preservar a instituição da família, o vigário teve uma ideia “bem bolada”. Avisou, durante a Missa, que iria distribuir às mulheres com problemas conjugais, um remédio eficaz para a reconciliação. Na manhã seguinte, na Sacristia da Igreja, formou-se uma fila para a entrega do remédio. A primeira da fila era Rosilda.

O nome do “medicamento” era “Água Santa”, distribuído em garrafas de 500 ml, com rótulo.

Chegando em casa, Rosilda, sozinha no quarto, leu o prospecto, onde estava escrito: “Colocar na boca 5 colheres de “Água Santa” e se ajoelhar durante 30 minutos, de boca fechada, sem engolir. O procedimento deve ser feito à noite, na hora exata em que o marido entrar em casa. Com 15 dias de tratamento, o resultado será surpreendente. Caso seja necessário, o tratamento pode ser prorrogado, até que a paz volte a reinar, no ”lar, doce lar”.

E a água potável fez efeito…


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 13 de outubro de 2017

A CACHAÇA

 

A cachaça, ou aguardente de cana de açúcar, está integrada à cultura brasileira, assim como o futebol, o samba, o café e o fumo.

Aparece em músicas, anedotas, textos literários e literatura de cordel.

No começo da colonização do Brasil, a partir de 1530, a produção açucareira apareceu como primeiro grande empreendimento de exploração. Afinal, os portugueses já dominavam o processo de plantio e processamento da cana de açúcar.

A cachaça originou-se da cultura do açúcar. Segundo alguns historiadores, os escravos, no Recôncavo baiano, aproveitavam as sobras da garapa da fabricação do açúcar, e guardavam em potes, até azedar. Era a bebida preferida deles.

O tráfico de escravos impôs a valorização do produto. A cachaça, ou aguardente da terra, era indispensável na compra do negro africano. Uma verdadeira moeda de circulação. Figurava como alimento complementar dos escravos, durante a travessia do Atlântico. Diariamente, eles eram forçados a ingerir doses de aguardente, para suportar a tristeza.

Devido à sua origem, a cachaça, durante anos, foi considerada bebida das camadas simples da sociedade. Não era servida em restaurantes ou bares requintados. Com o progresso tecnológico, surgiram cachaças finas e de alto custo, desaparecendo o tabu de que somente o pobre seria bebedor de cachaça.

A cachaça está para o Brasil, como o Rum está para Cuba.

Em 1996, o então presidente Fernando Henrique Cardoso legitimou a cachaça como produto tipicamente brasileiro, estabelecendo critérios de fabricação e comercialização. Em 2012, uma lei transformou a cachaça em Patrimônio Histórico Cultural do estado do Rio de Janeiro.

Atualmente, essa bebida destilada é exportada para vários lugares do mundo.

A cachaça está presente em histórias e anedotas hilárias.

Antigamente, durante as serenatas ao luar, os seresteiros tomavam uma bebidinha. Um conhecido cantor, de uma cidade do interior, depois de interpretar músicas de Orlando Silva, acompanhado por um violão plangente, ingeriu muita cachaça e acabou adormecendo na calçada. Os amigos se sentaram ao seu lado, esperando que despertasse. Minutos depois, desorientado, o seresteiro chamou pelo pai:

– Pai, ô pai!!!

Um dos amigos perguntou:

– O que é, Adolfo?

E o cantor espondeu:

– A “bença” !!!

E os rapazes conseguiram acordá-lo, com a marchinha que diz: “Você pensa que cachaça é água…”


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 06 de outubro de 2017

A CAIXA D,ÁGUA

 

A CAIXA D´ÁGUA

Anos atrás, em Serrana, cidade do interior nordestino, o prefeito João Tanajura se celebrizou pelas gafes constantemente cometidas. O homem mal sabia ler e escrever. Os vereadores, conhecidos por apelidos como Zé do Toucinho, Antônio do Carvão, José da Telha e outros, não ficavam atrás. A situação era de fazer vergonha.

O prefeito, que era chamado de “Coronel”, costumava se reunir com o vice-prefeito, um pouco mais letrado, e assessores, para “redigir” mensagens, que seriam submetidas à apreciação da Câmara Municipal, tomando decisões políticas importantes. Quando algum companheiro duvidava do êxito das suas pretensões, ele insistia no seu ponto de vista e encerrava as reuniões assim:

– Vocês acham que não vai dar certo?

– Achamos, “Coronel”.

E ele respondia, em cima da bucha:

– Pois bem! Se não der certo, não tem “poblema”. Nós mesmo “faz”, nós mesmo “desmancha”.

Certa vez, chegou à Prefeitura, atendendo a um requerimento do Prefeito, uma comissão técnica especial, oriunda do órgão estadual competente, a fim de vistoriar a antiga caixa d’água, que armazenava água potável para abastecimento da população. Pessoas leigas haviam espalhado o boato de que a caixa d’água estava inclinando e iria desabar a qualquer momento. A população entrou em polvorosa.

Depois de rigorosa perícia técnica, o grupo se reuniu com o prefeito e assessores, apresentando um laudo e um relatório, onde estava registrada a total ausência de perigo de desabamento da referida caixa d’água. Segundo os peritos, a ligeira inclinação notada era efeito da clássica lei da gravidade ou gravitação universal, formulada pelo físico Isaac Newton, que diz:

“A força da gravidade é diretamente proporcional às massas dos corpos em interação e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles”.

Como é óbvio, o prefeito, que tinha pouco estudo, não entendeu patavina dessa explicação. Bastante irritado, levantou a voz e falou:

– Eu quero saber se essa lei é “federá”,”estaduá” ou “municipá”! Quero resolver isso logo!!!

Os engenheiros se controlaram para não sorrir. Tranquilizaram o “Coronel” de que o problema não tinha nada a ver com a legislação federal, estadual ou municipal. E O prefeito fez de conta que estava entendendo tudo.

Numa das visitas do Governador do Estado a essa mesma cidade, para inauguração de uma obra, houve um banquete em sua homenagem, no único clube social ali existente. Na hora do cafezinho, o prefeito pôs na sua xícara umas gotinhas de “Suíta”, o adoçante dietético da época. O Governador , sentado ao seu lado, delicadamente, perguntou:

– Prefeito, o senhor é diabético?

A resposta foi rápida:

– Não, Governador! Eu sou o Prefeito de Serrana!!!

 


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 29 de setembro de 2017

O CAIXA

Josildo era escriturário do Banco do Brasil, em Natal, e exercia a atividade de caixa executivo. Década de 60/70. Nesse tempo, ainda não havia caixa eletrônico. Os caixas eram sobrecarregados, e o trabalho requeria muita atenção.

Ali, na “boca do caixa”, concentravam-se os serviços bancários mais comuns. Informavam-se saldos e extratos, recebiam-se depósitos, e pagamentos, faziam-se transferências, entregavam-se talões de cheques etc.

No final do expediente, se houvesse diferença de valores, o caixa seria obrigado a repor.

Num dia de grande movimento, enquanto Josildo atendia a uma fila interminável de clientes, um senhor, aparentando um pouco mais de 50 anos e de aparência simples, aguardava sua vez. Ao ser atendido, disse que morava no interior e era dono de uma pequena propriedade rural. Pediu o saldo, o extrato e um talão de cheques.

De posse dos comprovantes solicitados, o cliente preencheu um cheque, no valor total do dinheiro que havia em sua conta corrente, até o último centavo. Fez o saque e se afastou um pouco. Ali mesmo, contou todas as cédulas e moedas recebidas. Em seguida, sem entrar na fila, pediu ao caixa para depositar novamente todo o dinheiro sacado. Admirado e curioso diante desse fato inusitado, Josildo recebeu o depósito, contou o dinheiro, mas não se conteve e falou:

-Amigo, não entendi o que aconteceu. O senhor sacou todo o seu dinheiro que estava depositado no Banco. Contou tudo, e agora está depositando novamente. O que foi que houve?

O homem respondeu:

– Eu queria somente conferir se o dinheiro estava certo. Contei tudo e vi que esse Banco é bom mesmo. O dinheiro está completo. Por isso, estou depositando aqui novamente.

Josildo prendeu o riso. Mas em casa, riu demais, comentando a ocorrência com a esposa. Era caixa do Banco do Brasil há 18 anos e nunca havia se deparado com um cliente tão desconfiado dos serviços bancários.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 22 de setembro de 2017

A BEBEDEIRA

Há boêmios que só tomam cerveja e teimam em dizer que “não bebem nada”. Justificam seu gosto acentuado pelo álcool, dizendo-se apenas “cervejeiros”.

A cerveja, uma das bebidas alcoólicas mais consumidas no mundo, sempre foi homenageada em músicas, como nos seguintes casos: “Barril de Chopp” (Altamiro Carrilho) “Louras Geladas” (RPM), “Chuva, Suor e Cerveja” (Caetano Veloso), “Um Chopp pra distrair (Paulo Diniz), “Feijoada Completa” (Chico Buarque de Holanda) e outras.

 

Pois bem. Toninho, um boêmio, poeta e seresteiro de Natal, era frequentador assíduo do Bar da Brisa, cujo proprietário era seu amigo de longas datas. Orgulhoso por ser cervejeiro, não se considerava alcoólatra. Mesmo assim, seria capaz de tomar, sozinho, uma grade de cerveja num dia. Andava sempre com o seu violão debaixo do braço. Muito conhecido na cidade, onde chegava, encontrava amigos e bons papos. Bom de copo, voz e violão, alegrava qualquer ambiente.

Ponto de encontro de boêmios e seresteiros, no Bar da Brisa, aos sábados, podiam-se ouvir músicas da melhor qualidade, interpretadas por cantores amadores. O repertório abrangia composições gravadas por Evaldo Gouveia, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra e outros, verdadeiras pérolas da MPB.

Num certo sábado, como sempre fazia, Toninho passou o dia de bar em bar. À tardinha, já melado, chegou ao Bar da Brisa. Continuou bebendo e participou da roda de seresta, soltando seu vozeirão e encantando a todos.

Cumprindo o horário de costume, à meia noite, o proprietário deu sinal de que o bar iria encerrar suas atividades e os fregueses foram saindo. O homem fechou o bar e foi para casa. Por volta das 4 horas da manhã, foi acordado pelo telefone, que chamava insistentemente. Era um vizinho do bar lhe avisando que alguma coisa estranha estava ali acontecendo. Dava para ouvir gritos e pedidos de socorro.

Acompanhado pela Polícia, o proprietário abriu o bar e tomou um susto. Toninho havia ficado ali trancado. Adormecera no banheiro, sem que ninguém percebesse. Quando despertou, o bar estava às escuras e fechado. Tomado pelo pânico, o boêmio deu um escândalo, gritando por socorro e quebrando o que encontrou pela frente. O estrago de garrafas e copos quebrados foi grande.

Ao ver o proprietário chegar, Toninho se insurgiu contra ele. Indignado, acusou-o de negligência, por tê-lo deixado ali trancado. Muito sentido, passou vários dias afastado do Bar da Brisa, revoltado com o que aconteceu. Não admitiu ter havido culpa concorrente.

"


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 15 de setembro de 2017

O RETORNO

Nailde era servidora pública de nível médio, em um órgão estadual. Já com mais de vinte anos de serviço, ganhava o suficiente para se sustentar. Era solteira e morava só. Muito organizada, não contraía dívidas e juntava sempre algum dinheiro num mealheiro. Depois, abriu uma caderneta de poupança e passou a economizar mais um pouco, sem mexer nos rendimentos. Anualmente, ia ao dentista e certa vez precisou fazer uma coroa, tendo optado por um dente de ouro. Isso, na época, estava na moda.

Dois meses depois, foi passar o domingo na casa de uma irmã e, após o almoço, sentiu falta do dente de ouro. Procurou por toda a casa e nada do dente aparecer. Muito triste, Nailde teve uma intuição: Só podia ter engolido o dente, que tinha lhe custado tão caro! Era fruto de suas economias!

Não pensou duas vezes. Fez um chá de maná com sena e tomou um purgante. Rezou o resto do dia, pedindo a Deus para que tivesse de volta o seu dente de ouro, são e salvo.

Nessas alturas, as sobrinhas de 7, 9 e 11 anos, já estavam estranhando o nervosismo da tia, que, sentada em uma cadeira, no quarto, mantinha a postos, ao seu lado, um penico. Sem largar o terço, Nailde aguardava o resultado do purgante e a volta triunfante do dente.

Ao primeiro sinal de uma cólica intestinal, a moça pediu aos anjos e arcanjos, que também a ajudassem a recuperar sua joia de ouro, 18 quilates. As crianças torciam na porta do quarto, acompanhando os acontecimentos. De vez em quando, perguntavam:

– O dente já saiu, tia Nailde?

E, com voz de choro, a tia respondia:

– Ainda não!

E a alegria foi grande, quando ouviram a tia gritar:

– Graças a Deus!!! Meu dente de ouro está aqui!!!

Sob os protestos da irmã, do cunhado e das sobrinhas, Nailde, com a mão enfiada em um saco plástico, tirou o dente de ouro do penico, lavou muito bem lavado, com água e sabão, e também com álcool.

Passados alguns dias, estava ela novamente sorrindo de felicidade e exibindo o dente de ouro, que o dentista havia reposto.

Nailde pagou todas as promessas, que havia feito para que o dente retornasse às suas mãos. Entretanto, nunca mais as crianças lhe deram sossego. Quando ela se aproximava para falar com as sobrinhas, todas se afastavam, dizendo em tom de brincadeira:

– Vá pra lá, tia! Sua boca está podre!!!


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 08 de setembro de 2017

ESQUINA DOS AMIGOS

 

Venâncio e Zélia começaram a vida de casados em Natal, abrindo uma pequena cantina, na parte inferior do sobrado de esquina, onde passaram a residir. A rua era calma e o bairro, um dos melhores da cidade. O casal teve dois filhos.

Na cantina, eram vendidos produtos simples, como manteiga, óleo, biscoitos, chocolates, refrigerante e cerveja. Os fregueses bebiam em pé.

Após algum tempo, um amigo de Venâncio, que morava perto e frequentava a cantina diariamente, deu-lhe de presente duas mesinhas de quatro cadeiras. Uma delas o amigo mesmo ocupava, logo pela manhã. Ali sentado, lia os jornais do dia e iniciava o bate-papo. Venâncio gostou do presente e com o tempo, comprou mais duas mesinhas iguais. Foi um “chama”, e os cervejeiros se tornaram frequentadores habituais. Quase todos eram seus colegas de juventude. O movimento aumentava nos finais de semana.

Dois anos depois, Venâncio se viu dono de um misto de cantina e bar. Ali, diariamente, os amigos se reuniam para molhar a palavra e bater papo.

Ele mesmo servia às mesas e tomava conta do caixa. Entre um atendimento e outro, também tomava sua cervejinha.

Os tira-gostos eram preparados por uma ajudante, e se resumiam a queijo de coalho assado e caldo de feijão ou peixe.

Na cantina, Venâncio era adepto da lei do silêncio. Detestava som, por melhor que fosse. Gostava de conversar e ouvir boas conversas. Tinha cultura geral e estava sempre atualizado com os acontecimentos locais, como também do País e do mundo.
Para não atrapalhar as conversas, Venâncio colocou na parede um aviso “sui generis”:

‘É PROIBIDO SOM DE QUALQUER TIPO, INCLUSIVE DE CARRO.”

Outro aviso que havia na parede:

“NÃO ATENDEMOS A PESSOAS JÁ EMBRIAGADAS.”

Venâncio mantinha, dentro da gaveta do balcão, um “cartão vermelho”, para expulsar quem procurasse fazer confusão.

Como de grão em grão, a galinha enche o papo, às vezes, por volta das 20 horas, ele estava “triscado” e, sob protestos dos frequentadores, avisava que ia fechar a cantina. Assobiando, descia as portas de ferro, forçando a saída de todos. E se justificava:

– É ordem da “federal”…

A “federal” a que Venâncio se referia era a esposa, com a qual entrava em choque, quando se embriagava. Os clientes saiam contrariados, mas no dia seguinte, estavam todos lá novamente.

Fora a expectativa do inesperado “toque de recolher”, dado pela “federal”, o bar de Venâncio era um reduto de antigas amizades, fortalecidas através do tempo. Era um ponto de encontro de homens inteligentes e cultos, boêmios ou não, que iam ali para bater papo e colocar os assuntos em dia.


Violante Pimentel - Cenas do Caminho sexta, 01 de setembro de 2017

A ASSOMBRAÇÃO

Anos atrás, Mariana, uma moça que fazia serviços domésticos na casa de Dona Lia, em Nova-Cruz, era muito medrosa. Cheia de pantim, tinha medo do escuro e de almas penadas.

Nessa época, na cidade não havia luz elétrica. A casa era iluminada com candeeiros e lamparinas, a querosene. Ainda não havia fogão a gás, e a comida era feita em fogões a carvão ou à lenha. O carvão também era utilizado para o engomado das roupas, com os tradicionais ferros à brasa, das marcas “Estrela” ou “Itacolomy”. Para atiçar o fogo e esquentar o ferro, eram utilizados os antigos abanos de palha, feitos artesanalmente.

Como o consumo de carvão era grande, dona Lia comprava o produto em saca, que era guardada em um quartinho, construído para esse fim.

Certa noite, ao apanhar uma roupa estendida no quintal, Mariana deu um grito de pavor e teve uma crise histérica, dizendo que tinha visto uma assombração. Jurou de mãos postas que vira uma senhora gorda e com um grande totó na cabeça, ao passar pelo “quarto do carvão.” No seu delírio, identificou a alma como sendo a imagem fiel de uma senhora que morara na mesma rua, e que havia falecido há alguns dias. O escândalo foi grande. A patroa, que não acreditava em alma e dizia sempre que os mortos estavam dormindo, à espera da ressurreição, tentou conversar com a moça, mas foi em vão. Deu-lhe um copo com água e açúcar para beber e em seguida, mandou que ela rezasse o “Credo” e a “Salve Rainha” na intenção daquela alma penada, para que ela fosse para longe.

Depois que Mariana se acalmou, a patroa, segurando uma lamparina acesa, foi até o tal “quarto do carvão”, para ver se ainda encontrava ali a alma da mulher gorda, de totó na cabeça. A empregada, tremendo de medo, atendeu à ordem da patroa e a acompanhou. No quarto, havia uma enorme trouxa de roupa, pronta para ser levada para lavar no rio “Curimataú”. Em cima da trouxa, dormindo “em berço esplêndido”, estava uma enorme galinha, que tinha fugido do galinheiro e se refugiado no “quarto do carvão.” Na penumbra, a trouxa de roupa, com a galinha fujona dormindo em cima, parecia mesmo uma mulher gorda, de totó na cabeça.

Dona Lia deu ótimas risadas, e a empregada perdeu o medo de assombração.


Busca


Leitores on-line

Carregando

Arquivos


Colunistas e assuntos


Parceiros