Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Poemas e Poesias terça, 09 de dezembro de 2025

A VOLTA DA MULHER MORENA (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)

A VOLTA DA MULHER MORENA

Vinícius de Moraes

Fonte: Google

 

 

 

Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de tuas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a campina matinal
Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem as pernas da mulher morena
Reza para a velhice roer dentro da mulher morena
Que a mulher morena está encurvando os meus ombros
E está trazendo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus últimos cantos
Dai morte cruel à mulher morena!


Poemas e Poesias segunda, 08 de dezembro de 2025

LAMENTO DE UM NORDESTINO (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ) - VÍDEO
 
 

LAMENTO DE UM NORDESTINO - VÍDEO

Patativa do Assaré

Fonte: Google 

 

 


Poemas e Poesias domingo, 07 de dezembro de 2025

PENSÃO FAMILIAR (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

 

PENSÃO FAMILIAR

Manuel Bandeira

Fonte: Google

  (Versão Original)

 

Jardim da pensãozinha burguesa.

Gatos espapaçados ao sol.

A tiririca sitia os canteiros chatos.

O sol acaba de crestar os gosmilhos que murcharam.

Os girassóis

                         amarelo!

                                                      resistem.

E as dálias, rechonchudas, plebeias, dominicais.

Um gatinho faz pipi.

Com gestos de garçom de restaurant-Palace

Encobre cuidadosamente a mijadinha.

Sai vibrando com elegância a patinha direita:

– É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.


Poemas e Poesias sábado, 06 de dezembro de 2025

OS VERSOS QUE TE FIZ (POEMA DA PORTUGESA FLORBELA ESPANCA)
 

 
OS VERSOS QUE TE FIZ 

Florbela Espanca

Fonte: Google

 
 
 
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolências de veludos caros,
São como sedas brancas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei…
E, nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Poemas e Poesias sexta, 05 de dezembro de 2025

GOMES LEAL (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)

GOMES LEAL

Fernando Pessoa

Fonte: Google

 

 

Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.

Seus três anéis irreversíveis são

A desgraça, a tristeza, a solidão.

Oito luas fatais fitam no espaço.

 

Este, poeta, Apolo em seu regaço

A Saturno entregou. A plúmbea mão

Lhe ergueu ao alto o aflito coração,

E, erguido, o apertou, sangrando lasso.

 

Inúteis oito luas da loucura

Quando a cintura tríplice denota

Solidão e desgraça e amargura!

 

Mas da noite sem fim um rastro brota,

Vestígios de maligna formosura:

É a lua além de Deus, álgida e ignota.


Poemas e Poesias quinta, 04 de dezembro de 2025

TROVAS HUMORÍSTICAS - 52 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
  

TROVA HUMORÍSTICA 52

Eno Teodoro Wanke

Fonte: Google

 

 Dentuça, embora com charme

E imaginar ninguém pode

Basta dizer que, ao beijar-me

Já me penteia o bigode


Poemas e Poesias quarta, 03 de dezembro de 2025

SENTIMENTOS CARNAIS (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

SENTIMENTOS CARNAIS

Cruz e Sousa

Fonte: Google

 

 

 

 

Sentimentos carnais, esses que agitam
Todo o teu ser e o tornam convulsivo...
Sentimentos indômitos que gritam
Na febre intensa de um desejo altivo.

Ânsias mortais, angústias que palpitam,
Vãs dilacerações de um sonho esquivo,
Perdido, errante, pelos céus, que fitam
Do alto, nas almas, o tormento vivo.

Vãs dilacerações de um Sonho estranho,
Errante, como ovelhas de um rebanho,
Na noite de hóstias de astros constelada...

Errante, errante, ao turbilhão dos ventos,
Sentimentos carnais, vãos sentimentos
De chama pelos tempos apagada...


Poemas e Poesias terça, 02 de dezembro de 2025

MINH*ALMA É TRISTE (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)

 

 MINH'ALMA É TRISTE

Casimiro de Abreu

Fonte: Google

 

 

Minh’alma é triste como a rola aflita
Que o bosque acorda desde o alvor da aurora,
E em doce arrulo que o soluço imita
O morto esposo gemedora chora.

E, como a rola que perdeu o esposo,
Minh’alma chora as ilusões perdidas,
E no seu livro de fanado gozo
Relê as folhas que já foram lidas.

E como notas de chorosa endeixa
Seu pobre canto com a dor desmaia,
E seus gemidos são iguais à queixa
Que a vaga solta quando beija a praia.

Como a criança que banhada em prantos
Procura o brinco que levou-lhe o rio,
Minha’alma quer ressuscitar nos cantos
Um só dos lírios que murchou o estio.

Dizem que há, gozos nas mundanas galas,
Mas eu não sei em que o prazer consiste.
– Ou só no campo, ou no rumor das salas,
Não sei porque — mas a minh’alma é triste!

 


Poemas e Poesias terça, 02 de dezembro de 2025

MINHALMA É TRISTE (POEMA DO FLU,INENSE CASIMIRO DE ABREU)

 

 

 

Minh’alma é triste como a rola aflita
Que o bosque acorda desde o alvor da aurora,
E em doce arrulo que o soluço imita
O morto esposo gemedora chora.

E, como a rola que perdeu o esposo,
Minh’alma chora as ilusões perdidas,
E no seu livro de fanado gozo
Relê as folhas que já foram lidas.

E como notas de chorosa endeixa
Seu pobre canto com a dor desmaia,
E seus gemidos são iguais à queixa
Que a vaga solta quando beija a praia.

Como a criança que banhada em prantos
Procura o brinco que levou-lhe o rio,
Minha’alma quer ressuscitar nos cantos
Um só dos lírios que murchou o estio.

Dizem que há, gozos nas mundanas galas,
Mas eu não sei em que o prazer consiste.
– Ou só no campo, ou no rumor das salas,
Não sei porque — mas a minh’alma é triste!

Casimiro José Marques de Abreu, Barra de São João-RJ (1839-1860)


Poemas e Poesias segunda, 01 de dezembro de 2025

OITAVA SOMBRA - ÚLTIMO FANTASMA (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)

OITAVA SOMBRA - ÚLTIMO FANTASMA

Castro Alves 

Fonte: Google

 

 

Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada…
Sobre as névoas te libras vaporoso …
Baixas do céu num voo harmonioso!…
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a flor nevada
Cerca-te a fronte, ó ser misterioso! …
Onde nos vimos nós? És doutra esfera ?
És o ser que eu busquei do sul ao norte. . .
Por quem meu peito em sonhos desespera?
Quem és tu? Quem és tu? – És minha sorte!
És talvez o ideal que est’alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!
Castro Alves

Poemas e Poesias domingo, 30 de novembro de 2025

O CRIADOR (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

 

O CRIADOR

Carlos Drummond de Andrade

Fonte: Google

 

 

 

 

A mão de meu irmão desenha um jardim
e ele surge da pedra. Há uma estrela no pátio.
Uma estrela de rosa e de gerânio.
Mas seu perfume não me encanta a mim.
O que respiro é a glória de meu mano.


Poemas e Poesias domingo, 30 de novembro de 2025

O CRIADOR POEMA DO MINRIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

 

 

 

 

A mão de meu irmão desenha um jardim
e ele surge da pedra. Há uma estrela no pátio.
Uma estrela de rosa e de gerânio.
Mas seu perfume não me encanta a mim.
O que respiro é a glória de meu mano.


Poemas e Poesias sábado, 29 de novembro de 2025

SONETO 023 - LINDO E SUBTIL TRANÇADO, QUE FICASTE - (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
  
 
SONETO 023 - LINDO E SUBTIL TRANÇADO, QUE FICASTE
Luís de Camões
(Grafia Original)
Fonte: Google

 

Lindo e subtil trançado, que ficaste
Em penhor do remedio que mereço,
Se só comtigo, vendo-te, endoudeço,
Que fôra co'os cabellos que apertaste?

Aquellas tranças de ouro que ligaste,
Que os raios do sol tẽe em pouco preço,
Não sei se ou para engano do que peço,
Ou para me matar as desataste.

Lindo trançado, em minhas mãos te vejo,
E por satisfação de minhas dores,
Como quem não tẽe outra, hei de tomar-te.

E se não for contente o meu desejo,
Dir-lhe-hei que nesta regra dos amores
Por o todo tambem se toma a parte. 

 


Poemas e Poesias sexta, 28 de novembro de 2025

CEM TROVAS - 043 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)

TROVA 043

Belmiro Braga

Fonte: Google

 

 Amigos... E quanta gente

Não crê na verdade atroz

Que, no mundo, há tão somente

Aquela que existe em nós


Poemas e Poesias quinta, 27 de novembro de 2025

A VOCÊ, COM AMOR (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)

A VOCÊ, COM AMOR

Vinícius de Moraes

Fonte: Google

 

 

 

 

O amor é o murmúrio da terra
quando as estrelas se apagam
e os ventos da aurora vagam
no nascimento do dia...
O ridente abandono,
a rútila alegria
dos lábios, da fonte
e da onda que arremete
do mar...

O amor é a memória
que o tempo não mata,
a canção bem-amada
feliz e absurda...

E a música inaudível...

O silêncio que treme
e parece ocupar
o coração que freme
quando a melodia
do canto de um pássaro
parece ficar...

O amor é Deus em plenitude
a infinita medida
das dádivas que vêm
com o sol e com a chuva
seja na montanha
seja na planura
a chuva que corre
e o tesouro armazenado
no fim do arco-íris.


Poemas e Poesias quarta, 26 de novembro de 2025

MEU CARO JUMENTO (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSArÉ)
 
MEU CARO JUMENTO

Patativa do Assaré

Fonte: Google 

 

MEU CARO AMIGO JUMENTO,
QUE TANTO SOFRE E PADECE
SEU GRANDE MERECIMENTO,
MUNTA GENTE NÃO CONHECE.
É TÃO GRANDE O SEU VALÔ
DE CONHECIMENTO ALÉM
NAS COISA DA FACURDADE,
TARVEZ NÃO DIGA A METADE
DO VALÔ QUE VOCÊ TEM.
 
 
PORÉM, VOCÊ, MEU AMIGO,
PADECE TANTA AFRIÇÃO,
VEVE SEMPRE NO CASTIGO
DEBAXO DA SUJEIÇÃO,
TRABAIANDO TODO DIA,
SÓ MESMO DEUS AVALIA
QUANTO É GRANDE O SEU PENÁ,
AS VEZ CHEIO DE CALOMBO,
COM A CANGAIA NO LOMBO
SEM NINGUÉM LHE RESPEITÁ.
 
 
EU, QUE JÁ VIVO CIENTE,
EU QUE LHE CONHEÇO BEM
E TRAGO NA MINHA MENTE
O VALÔ QUE VOCÊ TEM,
SINTO O CORAÇÃO DOENDO
QUANDO LHE VEJO SOFRENDO
PADECENDO TANTO HORRÔ,
PACIENTE E PENSATIVO,
NESTA VIDA DE CATIVO
SEM NINGUÉM LHE DÁ VALÔ.
 
 
O SEU VALÔ SUBRIMADO,
NÃO É SÓ PRUQUE TRABAIA
LEVANDO OS COSTÁ PESADO
E OS QUATRO PAU DA CANGAIA
POIS VOCÊ NÃO MERECIA
SOFRÊ TÃO GRANDE NARQUIA
VIVENDO COMO UM CRIADO,
COM O SEU VALÔ PROFUNDO,
ERA PRA SÊ NESTE MUNDO
UM ANIMÁ RESPEITADO.
 
 
MERECIA ATÉ MORÁ
NUM JARDIM BELO E PERFEITO
MODE TODOS VISITÁ
COM AMÔ E COM RESPEITO.
BASTA A GENTE MAGINÁ
QUE DE TODOS ANIMÁ
QUE ESTA GRANDE TERRA CRIA
E TEM O NOME DA HISTÓRA,
SÓ VOCÊ TEVE A GULORA
DE CARREGÁ O MISSIA.
 
 
DOS BICHO QUE O MUNDO TEM
VOCÊ FOI O PREFERIDO
DE LEVÁ LÁ DE BELÉM
O MISSIA PROMETIDO
NAQUELE TEMPO PASSADO
QUANDO UM REIS MUNTO MARVADO,
ORGUIOSO E INTERESSÊRO
GOVERNAVA NO PODÊ
E ERA QUEM QUERIA SÊ
O DONO DO MUNDO INTÊRO.
 
 
POIS BEM, ESSE IMPERADÔ,
AQUELE CABRA SAFADO
QUE FELIZMENTE EU NÃO TOU
DO NOME DELE LEMBRADO,
COM O SEU GENO DE COBRA
JUNTO COM OS SEUS BANDIDO,
MAGINANDO ELE QUE DÁ FIM,
AO MISSIA PROMETIDO.
 
 
AQUELE ESPRITO SEM LUZ,
DEVIDO A INVEJA DANADA,
NÃO CONHECENDO JESUS
TRAÇOU AQUELA CILADA
MANDANDO SEUS ASSASSINO
ARRASÁ TODOS MENINO
PRA VÊ SE NA TIRANIA
DA MORTE DA CRIANÇADA,
IA TAMBÉM NA INROLADA
JESUS FIO DE MARIA.
 
 
MAS FOI CASTIGADO O INCRÉU
DO ESPRITO DE LUCIFÉ;
VEIO UM ANJO LÁ DO CÉU
E ORDENOU A SÃO JOSÉ
QUE ELE DE NOITE FUGISSE,
DE BELÉM SE ESCAPOLISSE
COM JESUS E COM MARIA,
PROQUE O MARVADO ASSASSINO
TAVA MATANDO OS MENINO
QUE NAQUELA TERRA HAVIA.


E ASSIM QUE O ANJO AVISOU,
SÃO JOSÉ, NO MESMO ISTANTE,
POR ALI NÃO PROCUROU
CAMELO NEM ELEFANTE
MODE LEVÁ O DEUS MENINO,
E VOCÊ TÃO PEQUENINO
TEVE A HONRA DE LEVÁ,
FOI QUEM A VIAGE FEZ
CARREGANDO O GRANDE REIS
DO CÉO, DA TERRA E DO MÁ.


VOCÊ, MEU CARO JUMENTO.
FOI QUEM TEVE A GRANDE SORTE,
O GRANDE MERECIMENTO
DE SERVI COMO TRANSPORTE
NA NOITE DESTA FUGIDA,
DEFENDENDO A SANTA VIDA
DE CRISTO NOSSO SENHÓ.
ATÉ NOS LIVRO SAGRADO
SEU NOME TÁ CARIMBADO,
MAS NINGUÉM LHE DÁ VALÔ.


PORÉM, SEU VALÔ PROFUNDO
NÃO HÁ NADA QUE DESTRUA,
INQUANTO O MUNDO FÔ MUNDO,
TUA FAMA CONTINUA,
SE VEVE NESTA SENTENÇA
E NINGUÉM LHE RECOMPENSA,
É PROQUE A HUMANIDADE
NÃO CUMPRE COM SEU DEVÊ,
EM VEZ DE LHE AGRADECÊ,
NÃO LIGA Á SUA BONDADE.


MAS NINGUÉM PODE NEGÁ
QUE, NO MUNDO, VOCÊ É
O MIÓ DOS ANIMÁ
MAS O POVO NÃO DÁ FÉ
DO SEU PREVELEJO IMENSO,
EU MUNTAS VEZ ATÉ PENSO,
EU PENSO E SEI QUE É VERDADE,
QUANDO UM BERRO VOCÊ SORTA
É UM SINÁ DE REVORTA
CONTRA A FARSA HUMANIDADE.


NINGUÉM PODE ESCURECÊ
O SEU PRESTIJO SEM FIM,
POIS MERECIA VIVÊ
DENTRO DE UM BELO JARDIM
CERCADO DE PRATA E DE ÔRO;
ACHO SÊ UM DESAFORO,
UM CRIME, UM GRANDE PECADO,
UM SACRILEJO, UM CAPRICHO,
BOTÁ CANGAIA NO BICHO
QUE JESUS ANDOU MONTADO.


E AGORA, CARO JUMENTO,
SE EU ERREI, PEÇO PERDÃO,
MAS, TODO SEU SOFRIMENTO
É FALTA  DE POTREÇÃO,
DE ASSISTENÇA E DE RESPEITO.
VOCÊ É DO MESMO JEITO
DO MATUTO AGRICURTÔ
QUE TRABAIA ATÉ MORRÊ
PRO MUNDO INTÊRO COMÊ
MAS NINGUÉM LHE DÁ VALÔ.

Poemas e Poesias terça, 25 de novembro de 2025

PARDALZINHO (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

PARDALZINHO

Manuel Bandeira

Fonte: Google

 

 

 

O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!


Poemas e Poesias segunda, 24 de novembro de 2025

OS MEUS VERSOS (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

OS MEUS VERSOS

Florbela Espanca

Fonte: Google

 

 

 

Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada dum momento.
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!...

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente...

Rasga os meus versos... Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!...


Poemas e Poesias domingo, 23 de novembro de 2025

GLOSA (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)

GLOSA

Fernando Pessoa

Fonte: Google

 

 

 

Minha alma sabe-me a antiga
Mas sou de minha lembrança,
Como um eco, uma cantiga.

Bem sei que isto não é nada,
Mas quem dera a alma que seja
O que isto é, como uma estrada.

Talvez eu fosse feliz
Se houvesse em mim o perdão
Do que isto quase que diz.

Porque o esforço é vil e vão,
A verdade, quem a quis?
Escuta só, meu coração.


Poemas e Poesias sábado, 22 de novembro de 2025

TROVAS HUMORÍSTICAS - 51 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
  

TROVA HUMORÍSTICA 51

Eno Teodoro Wanke

Fonte: Google

 

 Depois dessa, me revide

A interrogação daqui:

– Quem serviu talidomide

Pra mãezinha do saci?


Poemas e Poesias sexta, 21 de novembro de 2025

REGINA COELI (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

REGINA COELI

Cruz e Sousa

Fonte: Google

 

 

 

Ó Virgem branca, Estrela dos altares,
Ó Rosa pulcra dos Rosais polares!

Branca, do alvor das ambulas sagradas
E das níveas camélias regeladas.

Das brancuras de seda sem desmaios
E da lua de linho em nimbo e raios.

Regina Coeli das sidéreas flores,
Hóstia da Extrema-Unção de tantas dores.

Ave de prata e azul, Ave dos astros...
Santelmo aceso, a cintilar nos mastros...

Gôndola etérea de onde o Sonho emerge...
Água Lustral que o meu Pecado asperge.

Bandolim do luar, Campo de giesta,
Igreja matinal gorjeando em festa.

Aroma, Cor e Som das Ladainhas
De Maio e Vinha verde dentre as vinhas,

Dá-me através de cânticos, de rezas,
O Bem, que almas acerbas torna ilesas.

O Vinho douro, ideal, que purifica
das seivas juvenis a força rica.

Ah! faz surgir, que brote e que floresça
A Vinha douro e o vinho resplandeça.

Pela Graça imortal dos teus Reinados
Que a Vinha os frutos desabroche iriados.

Que frutos, flores essa Vinha brote
Do céu sob o estrelado chamalote.

Que a luxúria poreje de áureos cachos
E eu um vinho de sol beba aos riachos.

Virgem, Regina, Eucaristia, Coeli,
Vinho é o clarão que teu Amor impele.

Que desabrocha ensangüentadas rosas
Dentro das naturezas luminosas.

Ó Regina do Mar! Coeli! Regina!
Ó Lâmpada das naves do Infinito!
Todo o Mistério azul desta Surdina
Vem d'estranhos Missais de um novo Rito!.


Poemas e Poesias quinta, 20 de novembro de 2025

LEMBRANÇA (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)

LEMBRANÇA

Casimiro de Abreu

Fonte: Google

 

 

Como o triste marinheiro
Deixa em terra uma lembrança,
Levando n'alma a esperança
E a saudade que consome,
Assim nas folhas do álbum
Eu deixo meu pobre nome.

E se nas ondas da vida
Minha barca for fendida
E meu corpo espedaçado,
Ao ler o canto sentido
Do pobre nauta perdido
Teus lábios dirão: - coitado!


Poemas e Poesias quinta, 20 de novembro de 2025

SÉTIMA SOMBRA - DULCE (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)

SÉTIMA SOMBRA - DULCE

Castro Alves

Fonte: Google

 

 

Se houvesse ainda talismã bendito

Que desse ao pântano-a corrente pura,
Musgo-ao rochedo, festa-à sepultura,
Das águias negras — harmonia ao grito...
Se alguém pudesse ao infeliz precito
Dar lugar no banquete da ventura...
E trocar-lhe o velar da insônia escura

No poema dos beijos — infinito...
Certo... serias tu, donzela casta
Quem me tomasse em meio do Calvário
A cruz de angústia, que o meu ser arrasta!...
Mas se tudo recusa-me o fadário,
Na hora de expirar, ó Dulce, basta

Morrer beijando a cruz de teu rosário!...
 


Poemas e Poesias quarta, 19 de novembro de 2025

O CHÃO É A CAMA (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

O CHÃO É A CAMA

Carlos Drummond de Andrade

Fonte: Google

 

 

O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.

E, para repousar do amor, vamos à cama


Poemas e Poesias terça, 18 de novembro de 2025

SONETO 113 - LEMBRANÇAS, QUE LEMBRAIS O BEM (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)PASSADO
  
 
SONETO 113 - LEMBRANÇAS, QUE LEMBRAIS O BEM PASSADO 
Luís de Camões
(Grafia Original)
Fonte: Google

 

 

 

Lembranças, que lembrais meu bem passado,
Pera que sinta mais o mal presente,
Deixai-me, se quereis, viver contente,
Não me deixeis morrer em tal estado.

Mas se também de tudo está ordenado
Viver, como se vê, tão descontente,
Venha, se vier, o bem por acidente,
E dê a morte fim a meu cuidado.

Que muito melhor é perder a vida,
Perdendo-se as lembranças da memória,
Pois fazem tanto dano ao pensamento.

Assim que nada perde quem perdida
A esperança traz de sua glória,
Se esta vida há-de ser sempre em tormento.


Poemas e Poesias segunda, 17 de novembro de 2025

CEM TROVAS - 042 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)

TROVA 042

Belmiro Braga

Fonte: Google

 

 O que perdemos na vida

Procuramos sem achar

Exceto a mulher perdida

Que achamos sem procurar


Poemas e Poesias domingo, 16 de novembro de 2025

A VIDA VIVIDA (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)

A VIDA VIVIDA

Vinícius de Moraes

Fonte: Google

 

 

Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura em face da Angústia
Quem sou eu senão a imponderável árvore dentro da noite imóvel
E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?

De que venho senão da eterna caminhada de uma sombra
Que se destrói à presença das fortes claridades
Mas em cujo rastro indelével repousa a face do mistério
E cuja forma é prodigiosa treva informe?

Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino
Rio que sou em busca do mar que me apavora
Alma que sou clamando o desfalecimento
Carne que sou no âmago inútil da prece?

O que é a mulher em mim senão o Túmulo
O branco marco da minha rota peregrina
Aquela em cujos braços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?

O que é o meu amor, ai de mim! senão a luz impassível
Senão a estrela parada num oceano de melancolia
O que me diz ele senão que é vã toda a palavra
Que não repousa no seio trágico do abismo?

O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo
O meu eterno partir da minha vontade enorme de ficar
Peregrino, peregrino de um instante, peregrino de todos os instantes?

A quem respondo senão a ecos, a soluços, a lamentos
De vozes que morrem no fundo do meu prazer ou do meu tédio
A quem falo senão a multidões de símbolos errantes
Cuja tragédia efêmera nenhum espírito imagina?

Qual é o meu ideal senão fazer do céu poderoso a Língua
Da nuvem a Palavra imortal cheia de segredo
E do fundo do inferno delirantemente proclamá-los
Em Poesia que se derrame como sol ou como chuva?

O que é o meu ideal senão o Supremo Impossível
Aquele que é, só ele, o meu cuidado e o meu anelo
O que é ele em mim senão o meu desejo de encontrá-lo
E o encontrando, o meu medo de não o reconhecer?

O que sou eu senão Ele, o Deus em sofrimento
O temor imperceptível na voz portentosa do vento
O bater invisível de um coração no descampado...
O que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim?


Poemas e Poesias sábado, 15 de novembro de 2025

ABC DO NORDESTE FLAGELADO (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ)

ABC DO NORDESTE FLAGELADO

Patativa do Assaré

Fonte: Google

 

 

 

A — Ai, como é duro viver
nos Estados do Nordeste
quando o nosso Pai Celeste
não manda a nuvem chover.
É bem triste a gente ver
findar o mês de janeiro
depois findar fevereiro
e março também passar,
sem o inverno começar

  

B — Berra o gado impaciente
reclamando o verde pasto,
desfigurado e arrasto,
com o olhar de penitente;
o fazendeiro, descrente,
um jeito não pode dar,
o sol ardente a queimar
e o vento forte soprando,
a gente fica pensando
que o mundo vai se acabar.

 

C — Caminhando pelo espaço,
como os trapos de um lençol,
pras bandas do pôr do sol,
as nuvens vão em fracasso:
aqui e ali um pedaço
vagando… sempre vagando,
quem estiver reparando
faz logo a comparação
de umas pastas de algodão
que o vento vai carregando.

 

D — De manhã, bem de manhã,
vem da montanha um agouro
de gargalhada e de choro
da feia e triste cauã:
um bando de ribançã
pelo espaço a se perder,
pra de fome não morrer,
vai atrás de outro lugar,
e ali só há de voltar,
um dia, quando chover.

 

E — Em tudo se vê mudança
quem repara vê até
que o camaleão que é
verde da cor da esperança,
com o flagelo que avança,
muda logo de feição.
O verde camaleão
perde a sua cor bonita
fica de forma esquisita
que causa admiração.

 

F — Foge o prazer da floresta
o bonito sabiá,
quando flagelo não há
cantando se manifesta.
Durante o inverno faz festa
gorjeando por esporte,
mas não chovendo é sem sorte,
fica sem graça e calado
o cantor mais afamado
dos passarinhos do norte.

 

G — Geme de dor, se aquebranta
e dali desaparece,
o sabiá só parece
que com a seca se encanta.
Se outro pássaro canta,
o coitado não responde;
ele vai não sei pra onde,
pois quando o inverno não vem
com o desgosto que tem
o pobrezinho se esconde.

 

H — Horroroso, feio e mau
de lá de dentro das grotas,
manda suas feias notas
o tristonho bacurau.
Canta o João corta-pau
o seu poema funério,
é muito triste o mistério
de uma seca no sertão;
a gente tem impressão
que o mundo é um cemitério.

 

I — Ilusão, prazer, amor,
a gente sente fugir,
tudo parece carpir
tristeza, saudade e dor.
Nas horas de mais calor,
se escuta pra todo lado
o toque desafinado
da gaita da seriema
acompanhando o cinema
no Nordeste flagelado.

 

J — Já falei sobre a desgraça
dos animais do Nordeste;
com a seca vem a peste
e a vida fica sem graça.
Quanto mais dia se passa
mais a dor se multiplica;
a mata que já foi rica,
de tristeza geme e chora.
Preciso dizer agora
o povo como é que fica.

 

L — Lamento desconsolado
o coitado camponês
porque tanto esforço fez,
mas não lucrou seu roçado.
Num banco velho, sentado,
olhando o filho inocente
e a mulher bem paciente,
cozinha lá no fogão
o derradeiro feijão
que ele guardou pra semente.

 

M — Minha boa companheira,
diz ele, vamos embora,
e depressa, sem demora
vende a sua cartucheira.
Vende a faca, a roçadeira,
machado, foice e facão;
vende a pobre habitação,
galinha, cabra e suíno
e viajam sem destino
em cima de um caminhão.

 

N — Naquele duro transporte
sai aquela pobre gente,
agüentando paciente
o rigor da triste sorte.
Levando a saudade forte
de seu povo e seu lugar,
sem um nem outro falar,
vão pensando em sua vida,
deixando a terra querida,
para nunca mais voltar.

 

O — Outro tem opinião
de deixar mãe, deixar pai,
porém para o Sul não vai,
procura outra direção.
Vai bater no Maranhão
onde nunca falta inverno;
outro com grande consterno
deixa o casebre e a mobília
e leva a sua família
pra construção do governo.

 

P – Porém lá na construção,
o seu viver é grosseiro
trabalhando o dia inteiro
de picareta na mão.
Pra sua manutenção
chegando dia marcado
em vez do seu ordenado
dentro da repartição,
recebe triste ração,
farinha e feijão furado.

 

Q — Quem quer ver o sofrimento,
quando há seca no sertão,
procura uma construção
e entra no fornecimento.
Pois, dentro dele o alimento
que o pobre tem a comer,
a barriga pode encher,
porém falta a substância,
e com esta circunstância,
começa o povo a morrer.

 

R — Raquítica, pálida e doente
fica a pobre criatura
e a boca da sepultura
vai engolindo o inocente.
Meu Jesus! Meu Pai Clemente,
que da humanidade é dono,
desça de seu alto trono,
da sua corte celeste
e venha ver seu Nordeste
como ele está no abandono.

 

S — Sofre o casado e o solteiro
sofre o velho, sofre o moço,
não tem janta, nem almoço,
não tem roupa nem dinheiro.
Também sofre o fazendeiro
que de rico perde o nome,
o desgosto lhe consome,
vendo o urubu esfomeado,
puxando a pele do gado
que morreu de sede e fome.

 

T — Tudo sofre e não resiste
este fardo tão pesado,
no Nordeste flagelado
em tudo a tristeza existe.
Mas a tristeza mais triste
que faz tudo entristecer,
é a mãe chorosa, a gemer,
lágrimas dos olhos correndo,
vendo seu filho dizendo:
mamãe, eu quero morrer!

 

U — Um é ver, outro é contar
quem for reparar de perto
aquele mundo deserto,
dá vontade de chorar.
Ali só fica a teimar
o juazeiro copado,
o resto é tudo pelado
da chapada ao tabuleiro
onde o famoso vaqueiro
cantava tangendo o gado.

 

V — Vivendo em grande maltrato,
a abelha zumbindo voa,
sem direção, sempre à toa,
por causa do desacato.
À procura de um regato,
de um jardim ou de um pomar
sem um momento parar,
vagando constantemente,
sem encontrar, a inocente,
uma flor para pousar.

 

X — Xexéu, pássaro que mora
na grande árvore copada,
vendo a floresta arrasada,
bate as asas, vai embora.
Somente o saguim demora,
pulando a fazer careta;
na mata tingida e preta,
tudo é aflição e pranto;
só por milagre de um santo,
se encontra uma borboleta.


 Z — Zangado contra o sertão
dardeja o sol inclemente,
cada dia mais ardente
tostando a face do chão.
E, mostrando compaixão
lá do infinito estrelado,
pura, limpa, sem pecado
de noite a lua derrama
um banho de luz no drama
do Nordeste flagelado.

 

Posso dizer que cantei
aquilo que observei;
tenho certeza que dei
aprovada relação.
Tudo é tristeza e amargura,
indigência e desventura.
— Veja, leitor, quanto é dura
a seca no meu sertão.

 


Poemas e Poesias sexta, 14 de novembro de 2025

PALINÓDIA (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

PALINÓDIA

Manuel Bandeira

Fonte: Google

 

 

Quem te chamara prima
Arruinaria em mim o conceito
De teogonias velhíssimas
Todavia viscerais

Naquele inverno
Tomaste banhos de mar
Visitaste as igrejas
(Como se temesses morrer sem conhecê-las todas)
Tiraste retratos enormes
Telefonavas telefonavas...

Hoje em verdade te digo
Que não és prima só
Senão prima de prima
Prima-dona de prima
— Primeva.


Poemas e Poesias quinta, 13 de novembro de 2025

ÓDIO (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

ÓDIO

Florbela Espanca

Fonte: Google

 

 

 

Ódio por Ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto,

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Com um soturno e enorme Campo Santo!

Nunca mais o amar já é bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda!
Ódio por Ele? Não... não vale a pena...


Poemas e Poesias quarta, 12 de novembro de 2025

FÚRIA NAS TREVAS DO VENTO (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)

FÚRIA NAS TREVAS DO VENTO

Fernando Pessoa

Fonte: Google

 

 

 

Fúria nas trevas o vento
Num grande som de alongar,
Não há no meu pensamento
Senão não poder parar.

Parece que a alma tem
Treva onde sopre a crescer
Uma loucura que vem
De querer compreender.

Raiva nas trevas o vento
Sem se poder libertar.
Estou preso ao meu pensamento
Como o vento preso ao ar.


Poemas e Poesias terça, 11 de novembro de 2025

TROVAS HUMORÍSTICAS - 50 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
  

TROVA HUMORÍSTICA 50

Eno Teodoro Wanke

Fonte: Google

 

 A superstição insana

Prejudica-lhe a carreira:

Nunca trabalha em semana

Que possua sexta-feira!


Poemas e Poesias segunda, 10 de novembro de 2025

REGENERADA (POENA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

REGENERADA

Cruz e Sousa

Fonte: Google

(Grafia original)

 

 

 

 

De mãos póstas, á luz de frouxos cyrios
Rézas para as Estrellas do Infinito,
Para os Ázues dos sideraes Empyreos
Das Orações o doloroso rito.

Todos os mais reconditos martyrios,
As angustias mortaes, teu labio afflicto
Soluça, em préces de luar e lyrios,
N'um trémulo de phrases inaudito.


Olhos, braços e labios, mãos e seios,
Presos d'estranhos, mysticos enleios,
Já nas Magoas estão divinisados.

Mas no teu vulto ideal e penitente
Paréce haver todo o calôr vehemente
Da fébre antiga de gentis Peccados.


Poemas e Poesias domingo, 09 de novembro de 2025

JURITI (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)

JURITI

Casimiro de Abreu

Funte: Google

 

 

 

 

Na minha terra, no bulir do mato,
A juriti suspira;
E como o arrulo dos gentis amores,
São os meus cantos de secretas dores
No chorar da lira.

De tarde a pomba vem gemer sentida
À beira do caminho;
– Talvez perdida na floresta ingente –
A triste geme nessa voz plangente
Saudades do seu ninho.

Sou como a pomba e como as vozes dela
É triste o meu cantar;
– Flor dos trópicos – cá na Europa fria
Eu definho, chorando noite e dia
Saudades do meu lar.

A juriti suspira sobre as folhas secas
Seu canto de saudade;
Hino de angústia, férvido lamento,
Um poema de amor e sentimento,
Um grito d’orfandade!

Depois… o caçador chega cantando,
À pomba faz o tiro…
A bala acerta e ela cai de bruços,
E a voz lhe morre nos gentis soluços,
No final suspiro.

E como o caçador, a morte em breve
Levar-me-á consigo;
E descuidado, no sorrir da vida,
Irei sozinho, a voz desfalecida,
Dormir no meu jazigo.

E – morta – a pomba nunca mais suspira
À beira do caminho;
E como a juriti – longe dos lares –
Nunca mais chorarei nos meus cantares
Saudades do meu ninho!


Poemas e Poesias domingo, 09 de novembro de 2025

STAND-UP COM POESIA - 19.04.2017(POEMA DO COLUNISTA FRANCISCO ITAERÇO)
STAND-UP COM POESIA
Francisco Itaerço
 

 

DEVASTAÇÃO

Os jovens escrevem
Seus nomes nas árvores
Corações entrelaçados
Tornam-se adultos
E por nem um minuto
Ficam parados.
Dilaceram os corações
E destroem as árvores

* * *

EU E VOCÊ

Você:
Exagerou no decote
Eu o olhei de viés
A mim você ignorou
E eu saí de fininho
Triste, segui sozinho
Lamentei o desperdício
E minha falta de sorte

* * *

O VICIADO

Já usei COCA
Fui um viciado
Vivia drogado
Eu estava perdido
Hoje arrependido
Só uso PEPSI

* * *

REALIDADE

Nos caminhos estreitos
Da minha infância
Cabia meus medos
Cabia meus sonhos,
Cabia muito mais…

Nas estradas largas
Do meu mundo adulto
Os medos se acabam
Os sonhos se esvaem
Cabem só as lembranças
Os percalços, nada mais.

* * *

HISTÓRIA DA CRIAÇÃO

No dia da criação
Éramos os últimos da fila
Chegada a nossa vez
Acabou o material
Com a obra incompleta
Descansar Deus não podia
Com infinita sabedoria
Deus amassou argila
De mim Deus fez poeta
De você Deus fez poesia


Poemas e Poesias sábado, 08 de novembro de 2025

QUINTA E SEXTA SOMBRAS - CÂNDIDA E LAURA (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)

QUINTA E SEXTA SOMBRAS - CÂNDIDA E LAURA

Castro Alves

Fonte: Google

 

 

 

5a e 6a SOMBRAS

CÂNDIDA E LAURA

Como no tanque de um palácio mago,
Dous alvos cisnes na bacia lisa,
Como nas águas que o barqueiro frisa,
Dous nenúfares sobre o azul do lago,

Como nas hastes em balouço vago
Dous lírios roxos que acalenta a brisa,
Como um casal de juritis que pisa
O mesmo ramo no amoroso afago....

Quais dous planetas na cerúlea esfera,
Como os primeiros pâmpanos das vinhas,
Como os renovos nos ramais da hera,

Eu vos vejo passar nas noites minhas,
Crianças que trazeis-me a primavera...
Crianças que lembrais-me as andorinhas! ...


Poemas e Poesias quinta, 06 de novembro de 2025

SONETO 045 - LEDA SERENIDADE DELEITOSA (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
  
 
SONETO 045 - LEDA SERENIDADE DELEITOSALuís de Camões
(Grafia Original)
Fonte: Google
 
 
Leda serenidade deleitosa,
Que representa em terra hum paraiso;
Entre rubis e perlas doce riso,
Debaixo de ouro e neve côr de rosa;

Presença moderada e graciosa,
Onde ensinando estão despejo e siso
Que se póde por arte e por aviso,
Como por natureza, ser formosa;

Falla de que ou ja vida, ou morte pende.
Rara e suave, em fim, Senhora, vossa,
Repouso na alegria comedido;

Estas as armas são com que me rende
E me captiva Amor; mas não que possa
Despojar-me da gloria de rendido.

Poemas e Poesias quarta, 05 de novembro de 2025

CEM TROVAS - 041 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)

TROVA 041

Belmiro Braga

Fonte: Google

 

 Como juiz, reto e calmo,

Posso afirmar sem receio:

– Mulher de boca de palmo

Tem boca de palmo e meio

 

 


Poemas e Poesias terça, 04 de novembro de 2025

A VERLAINE (POEMA DO CARIOCA VIVÍCIUS DE MORAES?

A VERLAINE

Vinícius de Moraes

Fonte: Google

 

Em memória de uma poesia
Cuja iluminação maldita
Lembra a da estrela que medita
Sobre a putrefação do dia:

Verlaine, pobre alma sem rumo
Louco, sórdido, grande irmão
Do sangue do meu coração
Que te despreza e te compreende
Humildemente se desprende
Esta rosa para o teu túmulo.


Poemas e Poesias segunda, 03 de novembro de 2025

SER FELIZ (POEMA DO CEARENSE PATATVA DO ASSARÉ)

SER FELIZ

Patativa do Assaré

Fonte: Google

 

 

 

Que tens, rico poderoso,

Que em vez de um supremo gozo

Tu vives tão desgostoso,

Cabisbaixo e triste assim?

Nessa tristeza absorto,

Com o teu coração morto,

Não acharás um conforto

Nos teus tesouros sem fim?

 

Se aí por esse ambiente,

Ante o cofre reluzente

Tua pobre alma não sente

Prazer e consolação,

Abandona o teu tesouro,

O brilhante, a prata e o ouro,

E vem consolar teu choro

Nas cabanas do sertão.

 

Vem matar o teu desejo

Aqui, onde o sertanejo,

Fruindo um prazer sobejo,

Não sente o peso da cruz,

E onde a lua cor de prata,

Linda, majestosa e grata,

Estende por sobre a mata

Sua toalha de luz.

 

Vem consolar os teus prantos,

Ouvir das aves os cantos

E admirar os encantos

Das obras da criação.

Contemplando a natureza

Expulsarás, com certeza,

Esse manto de tristeza

Que vive em teu coração.

 

Eu sei, por experiência,

Pois desde a minha inocência,

Nesta estrada, a Providência

Dirigiu os passos meus.

A vida vivo gozando,

Sorrindo, alegre e cantando,

Sempre amando e admirando

As maravilhas de Deus.

 

Nunca descreve a verdade

Quem diz que a felicidade

Vive lá pela cidade,

Entre as galas do salão.

Ela reina soberana

É dentro de uma choupana,

Ao lado de uma serrana

Que sabe mexer pirão.

 

É ao lado da sertaneja,

Que trabalha, que peleja,

E na vida só deseja

Cumprir o santo dever,

Sempre alegre, a fazer festa,

Boa, carinhosa e honesta,

Forte cabocla modesta,

Que sabe amar e sofrer.

 

Ela reina na palhoça,

Na mais rude e pobre choça

Do pobre bardo da roça,

Que no terreiro do lar,

À noite todo pachola,

Entre os filhos, que o consola,

Dedilha a sua viola,

Cantando à luz do luar.

 

Ser feliz é ser ditoso,

Ser nobre é ser venturoso,

Não é ser um poderoso,

Ser rico é ter posição.

A doce felicidade

É filha da soledade,

Nasceu na simplicidade

Sem ouro, sem lar, sem pão.


Poemas e Poesias domingo, 02 de novembro de 2025

PAISAGEM NOTURNA (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

 

PAISAGEM NOTURNA

Manuel Bandeira

Fonte: Google

 

 

A sombra imensa, a noite infinita enche o vale...
E lá no fundo vem a voz
Humilde e lamentosa
Dos pássaros da treva. Em nós,
— Em noss'alma criminosa,
O pavor se insinua...

Um carneiro bale.
Ouvem-se pios funerais.
Um como grande e doloroso arquejo
Corta a amplidão que a amplidão continua...
E cadentes, metálicos, pontuais,
Os tanoeiros do brejo,
— Os vigias da noite silenciosa,
Malham nos aguaçais.

Pouco a pouco, porém, a muralha de treva
Vai perdendo a espessura, e em breve se adelgaça
Como um diáfano crepe, atrás do qual se eleva
A sombria massa
Das serranias.

O plenilúnio vai romper... Já da penumbra
Lentamente reslumbra
A paisagem de grandes árvores dormentes.
E cambiantes sutis, tonalidades fugidias,
Tintas deliquescentes
Mancham para o levante as nuvens langorosas.

Enfim, cheia, serena, pura,
Como uma hóstia de luz erguida no horizonte,
Fazendo levantar a fronte
Dos poetas e das almas amorosas,
Dissipando o temor nas consciências medrosas
E frustrando a emboscada a espiar na noite escura,
— À Lua
Assoma à crista da montanha.
Em sua luz se banha
A solidão cheia de vozes que segredam...
Em voluptuoso espreguiçar de forma nua
As névoas enveredam
No vale. São como alvas, longas charpas
Suspensas no ar ao longo das escarpas.
Lembram os rebanhos de carneiros
Quando,
Fugindo ao sola pino,
Buscam oitões, adros hospitaleiros
E lá quedam tranquúilos ruminando...
Assim a névoa azul paira sonhando...
As estrelas sorriem de escutar
As baladas atrozes
Dos sapos.
E o luar úmido... fino...
Amávico... tutelar...
Anima e transfigura a solidão cheia de vozes...


Poemas e Poesias sábado, 01 de novembro de 2025

O NOSSO MUNDO (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

O NOSSO MUNDO

Florbela Espanca

Fonte: Google

 

 

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Poisando em ti o meu amor eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos...

O teu olhar em mim, hoje, é mais terno...
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...
O mundo, Amor?... As nossas bocas juntas!...


Poemas e Poesias sexta, 31 de outubro de 2025

FRESTA (POEMA DO ESCRITOR FERNANADO PESSOA)

FRESTA

Fernando Pessoa

Fonte: Google

 

 

 

Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,

Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado

Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.

 


Poemas e Poesias quinta, 30 de outubro de 2025

TROVAS HUMORÍSTICAS - 49 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
  

TROVA HUMORÍSTICA 49

Eno Teodoro Wanke

Fonte: Google

 

 "Bestalhão! Se o senhor fosse

Meu marido, o envenenava!

"Olhe, se a senhora fosse

Minha esposa, eu aceitava!

 

 


Poemas e Poesias quarta, 29 de outubro de 2025

REBELADO (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

REBELADO

 Cruz e Sousa

Fonte: Google

 

 

 

Ri tua face um riso acerbo e doente,
Que fere, ao mesmo tempo que contrista...
Riso de ateu e riso de budista
Gelado no Nirvana impenitente.

Flor de sangue, talvez, e flor dolente
De uma paixão espiritual de artista,
Flor de Pecado sentimentalista
Sangrando em riso desdenhosamente.

Da alma sombria de tranqüilo asceta
Bebeste, entanto, a morbidez secreta
Que a febre das insânias adormece.

Mas no teu lábio convulsivo e mudo
Mesmo até riem, com desdéns de tudo,
As sílabas simbólicas da Prece!


Poemas e Poesias terça, 28 de outubro de 2025

JURAMENTO (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)

JURAMENTO

Casimiro de Abreu 

Fonte: Google

 

 

 

Tu dizes oh Mariquinhas
Que não crês nas juras minhas,
Que nunca cumpridas são!
Mas se eu não te jurei nada,
Como hás de tu, estouvada,
Saber se eu as cumpro ou não?!

Tu dizes que eu sempre minto,
Que protesto o que não sinto,
Que todo o poeta é vário,
Que é borboleta inconstante;
Mas agora, neste instante,
Eu vou provar-te o contrário.

Vem cá, sentada a meu lado
Com esse rosto adorado
Brilhante de sentimento,
Ao colo o braço cingido,
Olhar no meu embebido,
Escuta o meu juramento.

Espera: - inclina essa fronte...
Assim!... - Pareces no monte
Alvo lírio debruçado!
- Agora, se em mim te fias,
Fica séria, não te rias,
O juramento é sagrado.

"- Eu juro sobre estas tranças,
"E pelas chamas que lanças
"Desses teus olhos divinos;
"Eu juro, minha inocente,
"Embalar-te docemente
"Ao som dos mais ternos hinos!

"Pelas ondas, pelas flores,
"Que se estremecem de amores
"Da brisa ao sopro lascivo;
"Eu juro, por minha vida,
"Deitar-me a teus pés, querida,
"Humilde como um cativo!

"Pelos lírios, pelas rosas,
"Pelas estrelas formosas,
"Pelo sol que brilha agora,
"- Eu juro dar-te, Maria,
"Quarenta beijos por dia
"E dez abraços por hora!"

O juramento está feito,
Foi dito co'a mão no peito
Apontando ao coração;
E agora - por vida minha,
Tu verás oh! moreninha,
Tu verás se o cumpro ou não!...


Poemas e Poesias segunda, 27 de outubro de 2025

QUARTA SOMBRA - FABÍOLA (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)

QUARTA SOMBRA - FABÍOLA

Castro Alves

Fonte: Google

 

 

 

 

Como teu riso dói... como na treva
Os lêmures respondem no infinito:
Tens o aspecto do pássaro maldito,
Que em sânie de cadáveres se ceva!

Filha da noite! A ventania leva
Um soluço de amor pungente, aflito...
Fabíola! É teu nome!... Escuta... é um grito,
Que lacerante para os céus s’eleva!...

E tu folgas, Bacante dos amores,
E a orgia, que a mantilha te arregaça,
Enche a noite de horror, de mais horrores...

É sangue, que referve-te na taça!
É sangue, que borrifa-te estas flores!
E este sangue é meu sangue... é meu... Desgraça!


Poemas e Poesias domingo, 26 de outubro de 2025

O ANO PASSADO (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

O ANO PASSADO

Carlos Drummond de Andrade

Fonte: Google

 

 

O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.

As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.

Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.

E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.


Poemas e Poesias sábado, 25 de outubro de 2025

SONETO 105 - JULGA-ME A GENTE TODA POR PERDIDO (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
  
 
SONETO 105 -   JULGA-ME A GENTE TODA POR PERDIDO
Luís de Camões
(Grafia Original)
Fonte: Google
 
 
Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,
Busque riquezas, honras a outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro na alma.

Poemas e Poesias sexta, 24 de outubro de 2025

CEM TROVAS - 040 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)

TROVA 040

Belmiro Braga

Fonte: Google

 

 

Coração bate de leve

Deixa os teus sonhos horríveis

Que um coração nunca deve

Sonhar coisas impossíveis 


Poemas e Poesias quinta, 23 de outubro de 2025

A VÃ PERGUNTA (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)

A VÃ PERGUNTA

Vinícius de Moraes

Fonte: Google

 

 

Esta jovem pensativa, de olhos cor de mel e de longas pestanas penumbrosas

Que está sentada junto àquele jovem triste de largos ombros e rosto magro

É ela a amada dele e é ele o amado dela e é a vida a sombra trágica dos seus gestos?

Este trem veloz cheio de homens indiferentes e mulheres cansadas e crianças dormindo

Que atravessa esta paisagem desolada de árvores esparsas em montes descarnados

É ele o movimento e é ela a fuga e são eles o destino fugitivo das coisas?

Que dizem os lábios murmurantes dele aos olhos desesperados dela?

Que pronunciam os lábios desesperados dela aos olhos lacrimejantes dele?

Que pedem os olhos lacrimejantes dele à paisagem fugindo?

Não são eles apenas uma só mocidade para o tempo e um só tempo para a eternidade?

Não são seus sonhos um só impulso para o amor e os seus suspiros um só anseio para a pureza?

Por que este transtorno de faces e esta consumição de olhares como para nunca mais?

Não é um casto beijo isso que bóia aos lábios dele como um excedimento da sua alma?

Não é uma carícia isso que freme nas mãos dela como um arroubo da sua inocência ?

Por que os sinos plangendo do fundo das consolações como as vozes de aviso dos faróis perdidos?

É bem o amor essa insatisfação das esperanças?


Poemas e Poesias segunda, 20 de outubro de 2025

A ESTRADA DA MINHA VIDA (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ)

A ESTRADA DA MINHA VIDA

Patativa do Assaré 

Fonte Google

 

 

 

Trilhei, na infância querida,
Composta de mil primores,
À estrada de minha vida,
Ornamentada de flores.
E que linda estrada aquela!
Sempre havia ao lado dela
Encanto, paz e beleza;
Desde a terra ao grande espaço,
Em tudo eu notava um traço
Do pincel da Natureza.

Viajei de passo lento,
Pisando rosas e relvas,
Ouvindo a cada momento
Gemer o vento nas selvas;
Colibris e borboletas
Dos ramos das violetas
Vinham render-me homenagem,
E do cajueiro frondoso,
O sabiá sonoroso
Saudava a minha passagem.

O sol, quando despontava,
Convertendo a terra em ouro,
Em seus raios eu notava
0 mais sublime tesouro;
E de noite, a lua bela
Era qual linda donzela,
De uma beleza sem fim;
A sua luz prateada
Tinha a cor imaculada
Das vestes de um querubim.

Se a noite escura chegava
Envolvida em seus negrores,
Uma santa me embalava,
Cantando trovas de amores.
E quando raiava o dia,
Que do bercinho eu descia,
Chegava aos ouvidos meus,
Pelas brisas matutinas,
O som das harpas divinas
Dos santos anjos de Deus.

E eu seguia o meu caminho,
Sempre alegre e sorridente,
Balbuciando baixinho
Minha canção de inocente.
E enquanto, sem embaraço,
Eu transpunha, passo a passo,
Os tapetes da campina,
No centro da espessa mata,
As águas de uma cascata
Cantavam ao pé da colina.

Nessa viagem de amor
Nada me causava tédio,
Tudo vinha em meu favor
Pelo divino intermédio,
Mas a torpe sedução,
Qual fera na escuridão,
Manhosa, sagaz e astuta,
Atirou sem piedade
Sua seta de maldade
Contra minha alma impoluta.

Desde esse dia maldito,
Tudo tornou-se o contrário,
Foi se tornando esquisito
Meu luzente itinerário.
Segui pela minha estrada
Como a folha arrebatada
Na correnteza de um rio;
Entre a grande natureza,
Tudo quanto era beleza
Apresentou-se sombrio.

O sabiá não cantava
Pelos bosques e colinas,
Nem pela brisa chegava
0 som das harpas divinas.
Só me ficou na memória
Aquela quadra de glória
Da minha infância feliz,
Lá onde deixei guardados,
Entre as roseiras dos prados,
Meus brinquedos infantis.

Qual peregrino sem fé
Atrás de um santo socorro,
Um dia cheguei ao pé
Do mais altaneiro morro,
E subi pelos escombros,
Levando sobre meus ombros
Um fardo de paciência,
Sem encontrar obstáculo,
Galguei o alto pináculo
Do monte da decadência.

Na mais horrível peleja,
Vivo hoje em cima do cume,
Onde a brisa não bafeja

E as flores não têm perfume.
A vagar triste e sozinho.
Sem conforto e sem carinho,
Na solidão deste monte,
Não ouço o canto das aves,
Nem os sussurros suaves
Das claras águas da fonte.

No deserto desta crista,.
Ninguém consola meus ais,
Fugiram da minha vista
As belezas naturais.
Tudo, tudo me embaraça,
A lua pelo céu passa
Desmaiada e já sem cor,
E as lanternas das estrelas
Procuro e não posso vê-las,
É triste o meu dissabor!

E aqui o que mais me pasma,
Me faz tremer e chorar,
É ver um negro fantasma
Com as mãos a me acenar;
Sempre, sempre me rodeia,
E com voz horrenda e feia
De quando em quando murmura
Baixinho, nos meus ouvidos,
Para descermos unidos
Os degraus da sepultura.


Poemas e Poesias domingo, 19 de outubro de 2025

OS SAPOS (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

 

OS SAPOS

Manuel Bandeira

Fonte: Google

 

 

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,

Berra o sapo-boi:
— “Meu pai foi à guerra!”
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foil!?.

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: — “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia
Mas há artes poéticas...”

Urra o sapo-boi:
— “Meu pai foi rei” — “Foi!”
— “Não foi!” — “Foi” —*“Não foi!”.

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
— “A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo.”

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
— “Sei!” — “Não sabe!” — “Sabel”.

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo cururu
Da beira do rio...


Poemas e Poesias sábado, 18 de outubro de 2025

O MEU ORGULHO (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

O MEU ORGULHO

Florbela Espanca

Fonte: Google

 

 

 

 

Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
Não me lembrar! Em tardes dolorosas
Lembro-me que fui a Primavera
Que em muros velhos faz nascer as rosas!

As minhas mãos outrora carinhosas
Pairavam como pombas... Quem soubera
Porque tudo passou e foi quimera,
E porque os muros velhos não dão rosas!

O que eu mais amo é que mais me esquece...
E eu sonho: "Quem olvida não merece...
E já não fico tão abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:
Que também é orgulho ser sozinha,
E também é nobreza não ter nada!


Poemas e Poesias sexta, 17 de outubro de 2025

FOSSE EU APENAS, NÁO SEI ONDE OU COMO (POEMA DO OURTEGUÊS FERNANDO PESSOA(

FOSSE EU APENAS, NãO SEI ONDE OU COMO

Fernando Pessoa 

Fonte: Google

(Grafia original)

 

 

 

Fosse eu apenas, não sei onde ou como,

Uma coisa existente sem viver,

Noite de Vida sem amanhecer

Entre as sirtes do meu doirado assomo...

 

Fada maliciosa ou incerto gnomo

Fadado houvesse de não pertencer

Meu intuito gloriola com ter

A árvore do meu uso o único pomo...

 

Fosse eu uma metáfora somente

Escrita nalgum livro insubsistente

Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,

 

Mas doente, e, num crepúsculo de espadas,

Morrendo entre bandeiras desfraldadas

Na última tarde de um império em chamas...

s. d.
 

Poemas e Poesias quinta, 16 de outubro de 2025

PRIMEIRA COMUNHÃO (POEMA DO CATARINENSE CREZ E SOUSA)

PRIMEIRA COMUNHÃO

Cruz e Sousa

Fonte: Google

 

 

 

Grinaldas e véus brancos, véus de neve,
Véuos e grinaldas purificadores,
Vão as Flores carnais, as alvas Flores
Do Sentimento delicado e leve.

Um luar de pudor, sereno e breve,
De ignotos e de pró-nubos pudores,
Erra nos pulcros, virginais brancores
Por onde o Amor parábolas descreve...


Luzes claras e luzes claras
Douram dos templos as sagradas aras,
Na comunhão das níveas hóstias frias...

Quando seios pubentes estremecem,
Silfos de sonhos de volúpia crescem,
Ondulantes, em formas alvadias...

 


Poemas e Poesias quarta, 15 de outubro de 2025

TROVAS HUMORÍSTICAS - 48 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
  

TROVA HUMORÍSTICA 48

Eno Teodoro Wanke

Fonte: Google

 

 "Querido, hoje vamos ter

Minha mãe durante o almoço!

"Mas ótimo! Que prazer!

Vue até chupar-he um osso!

 


Poemas e Poesias terça, 14 de outubro de 2025

ILUSÃO (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)

ILUSÃO

Casimiro de Abreu

Fonte: Google

 

 

 

 

Quando o astro do dia desmaia
Só brilhando com pálido lume,
E que a onda que brinca na praia
No murmúrio soletra um queixume;

Quando a brisa da tarde respira
O perfume das rosas do prado,
E que a fonte do vale suspira
Como o nauta da pátria afastado;

Quando o bronze da torre da aldeia
Seus gemidos aos ecos envia,
E que o peito que em mágoas anseia
Bebe louco essa grave harmonia;

Quando a terra, da vida cansada,
Adormece num leito de flores
Qual donzela formosa embalada
Pelos cantos dos seus trovadores;

Eu de pé sobre as rochas erguidas
Sinto o pranto que manso desliza
E repito essas queixas sentidas
Que murmuram as ondas co'a brisa.

É então que a minha alma dormente
Duma vaga tristeza se inunda,
E que um rosto formoso, inocente,
Me desperta saudade profunda.

Julgo ver sobre o mar sossegado
Um navio nas sombras fugindo,
E na popa esse rosto adorado
Entre prantos p'ra mim se sorrindo!

Compreendo esse amargo sorriso,
Sobre as ondas correr eu quisera...
E de pé sobre a rocha, indeciso,
Eu lhe brado: - não fujas, - espera!

Mas o vento já leva ligeiro
Esse sonho querido dum dia,
Essa virgem de rosto fagueiro,
Esse rosto de tanta poesia!...

E depois... quando a lua ilumina
O horizonte com luz prateada,
Julgo ver essa fronte divina
Sobre as vagas cismando, inclinada!

E depois... vejo uns olhos ardentes
Em delírio nos meus se fitando,
E uma voz em acentos plangentes
Vem de longe um - adeus - soluçando!

........................

 


Ilusão!... que a minha alma, coitada,
De ilusões hoje em dia é que vive;
É chorando uma glória passada,
É carpindo uns amores que eu tive!


Poemas e Poesias segunda, 13 de outubro de 2025

TERCEIRA SOMBRA - ESTER (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)

TERCEIRA SOMBRA - ESTER

Castro Alves

Fonte: Google

 

 

Vem! no teu peito cálido e brilhante

O nardo oriental melhor transpira!...
Enrola-te na longa cachemira,
Como as Judias moles do Levante.
Alva a clâmide aos ventos-roçagante...
Túmido o lábio. onde o saltério gira...
Ó musa de Israel! pega da lira...

Canta os martírios de teu povo errante!
 
Mas não... brisa da pátria além revoa,
E, ao delamber-lhe o braço de alabastro,
Falou-lhe de partir... e parte... e voa...
Qual nas algas marinhas desce um astro...

Linda Ester! teu perfil se esvai... s'escoa...
Só me resta um perfume... um canto... um rastro...


Poemas e Poesias domingo, 12 de outubro de 2025

O AMOR QUE BATE NA AORTA (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

O AMOR QUE BATE NA AORTA

Carlos Drummond de Andrade

Fonte: Google

 

 

Cantiga de amor sem eira
Nem beira
Vira o mundo de cabeça
Para baixo
Suspende a saia das mulheres
Tira os óculos dos homens
O amor, seja como for
É o amor

Meu bem, não chores
Hoje tem filme de Carlito

O amor bate na porta
O amor bate na aorta
Fui abrir e me constipei
Cardíaco e melancólico
O amor ronca na horta
Entre pés de laranjeira
Entre uvas meio verdes
E desejos já maduros

Entre uvas meio verdes
Meu amor, não te atormentes
Certos ácidos adoçam
A boca murcha dos velhos
E quando os dentes não mordem
E quando os braços não prendem
O amor faz uma cócega
O amor desenha uma curva
Propõe uma geometria

Amor é bicho instruído

Olha: O amor pulou o muro
O amor subiu na árvore
Em tempo de se estrepar
Pronto, o amor se estrepou
Daqui estou vendo o sangue
Que corre do corpo andrógino
Essa ferida, meu bem
Às vezes não sara nunca
Às vezes sara amanhã

Daqui estou vendo o amor
Irritado, desapontado
Mas também vejo outras coisas
Vejo corpos, vejo almas
Vejo beijos que se beijam
Ouço mãos que se conversam
E que viajam sem mapa
Vejo muitas outras coisas
Que não ouso compreender

 

Poemas e Poesias sábado, 11 de outubro de 2025

SONETO 127- JÁ NÃO SINTO, SENHORA, OS DESENGANOS (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
  
 
SONETO 127 -  JÁ NÃO SINTO, SENHORA, OS DESENGANOS
Luís de Camões
(Grafia Original)
Fonte: Google
 
 
Já não sinto, Senhora, os desenganos
com que minha afeição sempre tratastes,
nem ver o galardão que me negastes,
merecido por fé, há tantos anos.

A mágoa choro só, só choro os danos
de ver por quem, Senhora, me trocastes;
mas em tal caso vós só me vingastes
de vossa ingratidão, vossos enganos.

Dobrada glória dá qualquer vingança
que o ofendido toma do culpado,
quando se satisfaz com cousa justa;

mas eu, de vossos males e esquivança
— de que agora me vejo bem vingado —
não o quisera eu tanto à vossa custa.

Poemas e Poesias sexta, 10 de outubro de 2025

CEM TROVAS - 039 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)

TROVA 039

Belmiro Braga

Fonte: Google

 

Acima de tudo, acima

Do céu te devemos pôr:

O teu nome não tem rima

Nem limite o teu amor

 


Poemas e Poesias quinta, 09 de outubro de 2025

A UMA MULHER (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)

A UMA MULHER

Vinícius de Moraes

Fonte: Google

 

 

 

Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente foste a serenidade.


Poemas e Poesias quarta, 08 de outubro de 2025

O PEIXE (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ)

O PEIXE

Patativa do Assaré

Fonte: Google

 

 

 

Tendo por berço o lago cristalino,

Folga o peixe, a nadar todo inocente,

Medo ou receio do porvir não sente,

Pois vive incauto do fatal destino.

 

Se na ponta de um fio longo e fino

A isca avista, ferra-a inconsciente,

Ficando o pobre peixe, de repente,

Preso ao anzol do pescador ladino.

 

O camponês também do nosso Estado

Ante a campanha eleitoral, coitado!

Daquele peixe tem a mesma sorte.

 

Antes do pleito, festa riso e gosto,

depois do pleito, imposto e mais imposto

Pobre matuto do sertão do norte!

 


Poemas e Poesias terça, 07 de outubro de 2025

ORAÇÃO PARA AVIADORES (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

ORAÇÃO PARA AVIADORES

Manuel Bandeira

Fonte: Google

 

 

 

 

Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
de feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.

Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.

Santa Clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas,
E penedos, nossas asas
Governai.

Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.

Santa Clara, clareai.


Poemas e Poesias segunda, 06 de outubro de 2025

O MEU IMPOSSÍVEL (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

O MEU IMPOSSÍVEL 

Florbela Espanca

Fonte: Google

 

 

 

Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito! É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!...

Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!... Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto...

Mas se eu pudesse, a mágoa que em mim chora,
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!...


Poemas e Poesias domingo, 05 de outubro de 2025

NUNCA MAIS (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

NUNCA MAIS

Florbela Espanca

Fonte: Google

 

 

 

Ó castos sonhos meus! O mágicas visões!
Quimeras cor de sol de fúlgidos lampejos!
Dolentes devaneios! Cetíneas ilusões!
Bocas que foram minhas florescendo beijos!

Vinde beijar-me a fronte ao menos um instante,
Que eu sinta esse calor, esse perfume terno;
Vivo a chorar à porta aonde outrora o Dante
Deixou toda a esp’rança ao penetrar o inferno!

Vinde sorrir-me ainda! Hei de morrer contente
Cantando uma canção alegre, doidamente,
À luz desse sorriso, ó fugitivos ais!

Vinde beijar-me a boca ungir-me de saudade
Ó sonhos cor de sol da minha mocidade!
Cala-te lá destino!... “Ó Nunca, nunca mais!...”


Poemas e Poesias sábado, 04 de outubro de 2025

FELIZ DIA PARA QUEM É (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)

FELIZ DIA PARA QUEM É

Fernando Pessoa 

Fonte: Google

 

 

"Feliz dia para quem é o igual do dia".
"Saúdo-vos e desejo-lhes sol, e chuva, quando chuva é precisa".
"E olho para as flores e sorrio...".
"Que pensará o meu muro da minha sombra?".
"Que triste não saber florir!".
"Amar é a eterna inocência".
"Sejamos simples e calmo, como os regatos e as árvores".
"A minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer".
"Eu sou do tamanho do que vejo".
"Dá-me uma mão a mim e a outra a tudo que existe, vamos os três pelo caminho que houver".
"Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro da tua casa".
"Sou um guardador de rebanhos. O rebanho é os meus pensamentos".


Poemas e Poesias sexta, 03 de outubro de 2025

TROVAS HUMORÍSTICAS - 47 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
  

TROVA HUMORÍSTICA 47

Eno Teodoro Wanke

Fonte: Google

 

 "Ah, mas que quadro estupendo!

Vale alguns contos de réis!"

"Pode ser, mas eu não vendo

É ali que limpo os pincéis!"

 


Poemas e Poesias quinta, 02 de outubro de 2025

POST MORTEM (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

POST MORTEM

Cruz e Sousa 

Fonte: Google

 

 

Quando do amor das Formas inefáveis
No teu sangue apagar-se a imensa chama,
Quando os brilhos estranhos e variáveis
Esmorecerem nos troféus da Fama.

Quando as níveas Estrelas invioláveis,
Doce velário que um luar derrama,
Nas clareiras azuis ilimitáveis
Clamarem tudo o que o teu Verso clama.

Já terás para os báratros descido,
Nos cilícios da Morte revestido,
Pés e faces e mãos e olhos gelados...

Mas os teus Sonhos e Visões e Poemas
Pelo alto ficarão de eras supremas
Nos relevos do Sol eternizados!


Poemas e Poesias quarta, 01 de outubro de 2025

HORAS TRISTES (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU) VÍDEO

HORAS TRISTES

Casimiro de Abreu

VÍDEO

Fonte Google

 

 


Poemas e Poesias terça, 30 de setembro de 2025

SEGUNDA SOMBRA - BÁRBARA (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)

SEGUNDA SOMBRA - BÁRBARA

Castro Alves

(Grafia original)

 

 

 

Erguendo o cálixe, que o Xerez perfuma,                            

loura a trança alastrando-lhe os joelhos,                             

dentes níveos em lábios tão vermelhos,                             

como boiando em purpurina escuma;                  

 

um dorso de Valquíria... alvo de bruma, 5           

pequenos pés sob infantis artelhos,                      

olhos vivos, tão vivos, como espelhos,                 

mas como eles também sem chama alguma;                     

 

garganta de um palor alabastrino,                          

que harmonias e músicas respira...         10         

No lábio -um beijo... no beijar- um hino;                             

 

harpa eólia a esperar que o vento a fira,                              

-um pedaço de mármore divino...                          

E o retrato de Bárbara -a Hetaira.-


Poemas e Poesias segunda, 29 de setembro de 2025

O AMOR ANTIGO (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

O AMOR ANTIGO

Carlos Drummond de Andrade

Fonte: Google

 

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


Poemas e Poesias domingo, 28 de setembro de 2025

SONETO 078 - JÁ A SAUDOSA AURORA DESTOUCAVA (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
  
 
SONETO 078 -  JÁ A SAUDOSA AURORA DESTOUCAVA
Luís de Camões
(Grafia Original)
Fonte: Google
 
 
 
Já a saudosa Aurora destoucava
os seus cabelos de ouro delicados,
e as flores nos campos esmaltados
do cristalino orvalho borrifava;

quando o fermoso gado se espalhava
de Sílvio e de Laurente pelos prados;
pastores ambos, e ambos apartados
de quem o mesmo Amor não se apartava.

Com verdadeiras lágrimas, Laurente
«Não sei – dezia – ó Ninfa delicada,
porque não morre já quem vive ausente,

pois a vida sem ti não presta nada».
Responde Sílvio: «Amor não o consente,
que ofende as esperanças da tornada».

Poemas e Poesias sábado, 27 de setembro de 2025

CEM TROVAS - 038 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)

TROVA 038

Belmiro Braga

Fonte: Google

 

 Muito mais desenxabido

Que a goiabada com queijo

É te abraçar, bem-querido

E não poder dar-te um beijo


Poemas e Poesias sexta, 26 de setembro de 2025

A UM PASSARINHO (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)

A UM PASSARINHO

Vinícius de Moraes

FONTE: Google

 

 

 

Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.

Deixa-te de histórias
Some-te daqui!


Poemas e Poesias quinta, 25 de setembro de 2025

O BURRO (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARPE)

O BURRO

Patativa de Assaré

Fonte: Google

 

 

 

 

Vai ele a trote, pelo chão da serra,
Com a vista espantada e penetrante,
E ninguém nota em seu marchar volante,
A estupidez que este animal encerra.

Muitas vezes, manhoso, ele se emperra,
Sem dar uma passada para diante,
Outras vezes, pinota, revoltante,
E sacode o seu dono sobre a terra.

Mas contudo! Este bruto sem noção,
Que é capaz de fazer uma traição,
A quem quer que lhe venha na defesa,

É mais manso e tem mais inteligência
Do que o sábio que trata de ciência
E não crê no Senhor da Natureza.


Poemas e Poesias quarta, 24 de setembro de 2025

VOZ DE SIMPATIA (POEMA DO PORTUGUÊS JÚLIO DINIS)

VOZ DE SIMPATIA

Júlio Dinis

Fonte: Google

 

 

 

Ao despontares da amena juventude, De galas e de flores ornaste o seio. E
de mil sonhos de prazer no meio,
Com que o peito se ilude, Aguardaste o alvor do Sol fulgente,
Que a luz e vida ao coração dispensa, De amores ideais, na dita
imensa,
Deleitava a mente.

Ele surgiu! esse astro rutilante! Não;efêmera luz, que instantes
brilha, Porém cujo fulgor cedo se humilha,
Nasce e morre inconstante.
Surgiu! não como a chama das estrelas, Que em multidão infinda
o céu povoam, E pálidas o véu da noite coroam,
Quais lúcidas capelas;

Mas único brilhante, duradouro, Como o astro do dia, que surgindo, E
luminosas vagas difundindo
Raios de fulgente ouro, Dispersa na amplidão a imensa turba
Dos outros astros que no espaço giram, Enquanto eles no céu sua
luz admiram,
E nenhum o perturba.

Volveram anos, risos e fulgores
Da idade juvenil se desvanecem,
Mas não morre a afeição, mas não fenecem
Teus cândidos amores;
Não fenecem, não morrem; crescem antes, O sentimento e a razão
os gera,
Sentimento e a razão, que Deus vertera
No teu ser, abundantes.

Volveram anos… e afinal? Gozaste Essa ventura, esp’rança de teus
dias? Ai, não; em vez do cálix de alegrias,
O do travor provaste.
Traíram-te! e um frio esquecimento
O prêmio foi de teu amor constante I E a luz que te guiava fulgurante
Sumiu-se num momento.

E a dúvida não veio na tua alma
Negar dum Deus supremo a existência, Descrer dessa irrisória
providência,
Que aos maus concede a palma? Oh! não; curvaste a fronte angustiada,
Escondeste tuas lágrimas ardentes,
E mostraste-te aos olhos indiferentes
Vitima resignada.

Eles vêem em teus lábios o sorriso,
E julgam que provém do esquecimento 1
Cegos! vissem-te à luz do sentimento
Como eu te diviso.
Saberiam que angústia ele escondera, Que pungente amargura nele oculta!
Saberiam que a dor que mais avulta
Não é a mais sincera.

Que mundo! Àquele que sua fé trairá, Os prazeres, os
gozos, a riqueza;
A ti saudade, isolação, tristeza!
E não é Deus mentira ?!
E o crime folga, e é vitima a inocência!… Não folga;
o Céu é justo, e o mau condena, Dá-lhe o remorso por
amarga pena,
E a ti a consciência.


Poemas e Poesias terça, 23 de setembro de 2025

O ÚLTIMO POEMA (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

O ÚLTIMO POEMA

Manuel Bandeira 

Fonte: Google

 

 

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.


Poemas e Poesias segunda, 22 de setembro de 2025

ÚLTIMO PEDIDO (POEMA DO ACRIANO J. G. DE ARAÚJO JORGE)

ÚLTIMO PEDIDO

J. G. de Araújo Jorge

Fonte: Google

 

 

 

Vida, que tanto me deste
e que eu, desajeitado ou louco,
por tédio, por orgulho ou por cansaço
quebrei, gastei, perdi...

Bem sei que não tenho direito
a nada esperar de ti,

- entretanto, ouve-me ainda, como se ouvisses
o último pedido de um condenado,
sem te importares se te maldigo:

- arranja-me um outro amor, maior que aquele,
e pior que aquele até, bem pior que aquele!

Seja este o meu castigo!


Poemas e Poesias domingo, 21 de setembro de 2025

NOTURNO (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

NOTURNO

Florbela Espanca

Fonte: Google

 

 

Amor! Anda o luar todo bondade,
Beijando a terra, a desfazer-se em luz...
Amor! São os pés brancos de Jesus
Que andam pisando as ruas da cidade!

E eu ponho-me a pensar... Quanta saudade
Das ilusões e risos que em ti pus!
Traçaste em mim os braços duma cruz,
Neles pregaste a minha mocidade!

Minh’alma, que eu te dei, cheia de mágoas,
E nesta noite o nenúfar dum lago
’Stendendo as asas brancas sobre as águas!

Poisa as mãos nos meus olhos com carinho,
Fecha-os num beijo dolorido e vago...
E deixa-me chorar devagarinho...


Poemas e Poesias sábado, 20 de setembro de 2025

ESTA ESPÉCIE DE LOUCURA (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)
ESTA ESPÉCIE DE LOUCURA

Fernando Pesoa

Fonte: Google

 

 

Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,

Não me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há


Poemas e Poesias sexta, 19 de setembro de 2025

TROVAS HUMORÍSTICAS - 46 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
  

TROVA HUMORÍSTICA 46

Eno Teodoro Wanke

Fonte: Google

 

 

Aquela morena, ué

Olhava tanto pra mim

Agora, parou... "Pois é

Mas minha mulher é assim..." 


Poemas e Poesias quinta, 18 de setembro de 2025

NOIVA DA AGONIA (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

NOIVA DA AGONIA

Cruz e Sousa

Fonte: Google

 

 

 

Tremula e só, de um tumulo surgindo,
Aparição dos ermos desolados,
Trazes na face os frios tons magoados
De quem anda por túmulos dormindo...

A alta cabeça no esplendor, cingindo
Cabelos de reflexos irisados,
Por entre auréolas de clarões prateados,
Lembras o aspecto de um luar diluindo...


Não és, no entanto, a torva Morte horrenda,
Atra, sinistra, gélida, tremenda,
Que as avalanches da Ilusão governa...

Mas ah! és da Agonia a Noiva triste
Que os longos braços lívidos abriste
Para abraçar-me para a Vida eterna.!


Poemas e Poesias quarta, 17 de setembro de 2025

FRAGMENTO (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)

FRAGMENTO

Casimiro de Abreu

Fonte: Google

 

O mundo é uma mentira, a glória - fumo,
A morte - um beijo, e esta vida um sonho
Pesado ou doce, que s'esvai na campa!

O homem nasce, cresce, alegre e crente
Entra no mundo c'o sorrir nos lábios,
Traz os perfumes que lhe dera o berço,
Veste-se belo d'ilusões douradas,
Canta, suspira, crê, sente esperanças,
E um dia o vendaval do desengano
Varre-lhe as flores do jardim da vida
E nu das vestes que lhe dera o berço
Treme de frio ao vento do infortúnio!
Depois - louco sublime - ele se engana,
Tenta enganar-se p'ra curar as mágoas,
Cria fantasmas na cabeça em fogo,
De novo atira o seu batel nas ondas,
Trabalha, luta e se afadiga embalde
Até que a morte lhe desmancha os sonhos.
Pobre insensato - quer achar por força
Pérola fina em lodaçal imundo!
- Menino louro que se cansa e mata
Atrás da borboleta que travessa
Nas moitas do mangal voa e se perde!...


Poemas e Poesias terça, 16 de setembro de 2025

PRIMEIRA SOMBRA - MARIETA (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)

PRIMEIRA  SOMBRA - MARIETA

Castro Alves

Fonte: Google

 

 

 

Come il genio della notte, che disfà
Il velo di merletti sulla spalla nuda,
Lei scioglie i capelli... Batte la luna
Sulle candide pieghe di un lenzuolo d'argento

Il seno verginale, che la mano raccoglie,
Inutilmente lo prende la mano... cresce, fluttua...
Sogna la ragazzina all'aria aperta... a parte la strada
Preludia una chitarra una serenata!...

Furtivi passi muoiono sul pavimento...
Scende le scale del balcone discreta
Uccidono le labbra i baci in segreto...


Poemas e Poesias segunda, 15 de setembro de 2025

NOTA SOCIAL (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

NOTA SOCIAL

Carlos Drummond de Andrade

Fonte: Google

 

 

O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto êle faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos. . .
O poeta está melancólico.

Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.

O poeta entra no elevador
o poeta sobe
o poeta fecha-se no quarto.

O poeta está melancólico


Poemas e Poesias domingo, 14 de setembro de 2025

SONETO 112 - INDO O TRISTE PASTOR TODO EMBEBIDO (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
  
 
SONETO 112 - INDO O TRISTE PASTOR TODO EMBEBIDO
Luís de Camões
(Grafia Original)
Fonte: Google
 
 
 
Indo o triste pastor todo embebido
na sombra de seu doce pensamento,
tais queixas espalhava ao leve vento
cum brando suspirar da alma saído:

«A quem me queixarei, cego, perdido,
pois nas pedras não acho sentimento?
Com quem falo? A quem digo meu tormento
que onde mais chamo, sou menos ouvido?

Oh! bela Ninfa, porque não respondes?
Porque o olhar-me tanto me encareces?
Porque queres que sempre me querele?

Eu quanto mais te vejo, mais te escondes!
Quanto mais mal me vês, mais te endureces!
Assi que co mal cresce a causa dele.» 

Poemas e Poesias sábado, 13 de setembro de 2025

CEM TROVAS - 037 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)

TROVA 037

Belmiro Braga

Fonte: Google

 

 Tu não vês que vivo louco

Por causa desta afeição?

Coração, sossega um pouco,

Coração sem coração!


Poemas e Poesias sexta, 12 de setembro de 2025

A ÚLTIMA VIAGEM DE JAYME OVALLE (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MOTAES)
 
 
A ÚLTIMA VIAGEM DE JAYME OVALLE
Vinícius de Moraes
Fonte: Google

 

 

 

Ovalle não queria a Morte
Mas era dele tão querida
Que o amor da Morte foi mais forte
Que o amor do Ovalle à vida.

E foi assim que a Morte, um dia
Levou-o em bela carruagem
A viajar — ah, que alegria!
Ovalle sempre adora viagem!

Foram por montes e por vales
E tanto a Morte se aprazia
Que fosse o mundo só de Ovalles
E nunca mais ninguém morria.

A cada vez que a Morte, a sério
Com cicerônica prestança
Mostrava a Ovalle um cemitério
Ele apontava uma criança.

A Morte, em Londres e Paris
Levou-o à forca e à guilhotina
Porém em Roma, Ovalle quis
Tomar a sua canjebrina.

Mostrou-lhe a Morte as catacumbas
E suas ósseas prateleiras
Mas riu-se muito, tais zabumbas
Fazia Ovalle nas caveiras.

Mais tarde, Ovalle satisfeito
Declara à Morte, ambos de porre:
— Quero enterrar-me, que é um direito
Inalienável de quem morre!

Custou-lhe esforço sobre-humano
Chegar à última morada
De vez que a Morte, a todo pano
Queria dar uma esticada.

Diz o guardião do campo-santo
Que, noite alta, ainda se ouvia
A voz da Morte, um tanto ou quanto
Que ria, ria, ria, ria.


Poemas e Poesias quinta, 11 de setembro de 2025

O QUE MAIS DÓI (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ)

O QUE MAIS DÓI

Patativa do Assaré

Fonte: Google

 

 

 

O que mais dói não é sofrer saudade
Do amor querido que se encontra ausente
Nem a lembrança que o coração sente
Dos belos sonhos da primeira idade.
Não é também a dura crueldade
Do falso amigo, quando engana a gente,
Nem os martírios de uma dor latente,
Quando a moléstia o nosso corpo invade.
O que mais dói e o peito nos oprime,
E nos revolta mais que o próprio crime,
Não é perder da posição um grau.
É ver os votos de um país inteiro,
Desde o praciano ao camponês roceiro,
Pra eleger um presidente mau.


Poemas e Poesias quarta, 10 de setembro de 2025

VISÃO (POEMA DO PORTUGUÊS JÚLIO DINIS)

VISÃO

Júlio Dinis

Fonte: Google

 

 

 

Não és real. Para o seres Não foras, ó flor, tão bela;

Se à mente Deus te revela, Não te cria o mundo, não.
Vegetas no peito do homem, Mas não há viçoso prado
Onde te beije embriagado
O sopro da viração.

 


Poemas e Poesias terça, 09 de setembro de 2025

O RIO (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

O RIO

Manuel Bandeira

Fonte: Google

 

 

 

“Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.”


Poemas e Poesias segunda, 08 de setembro de 2025

TROVAS DE CIÚME (POEMA DO ACRIANO J. G. DE ARAÚJO JORGE)

TROVAS DE CIÚME

Jorge G. de Araújo Jorge

FONTE: Google

 

"Dosado", o ciúme é tempero
que à afeição da mais sabor...
Mas, levado ao exagero,
é o pior veneno do amor...

Cão de guarda, ameaçador,
a rosnar, furioso e cego
eis afinal, meu amor,
este ciúme que carrego...

Do amor e da desconfiança
infeliz casal sem lar,
nasceu o ciúme, - essa criança
tão difícil de educar...

Perigoso, onipotente,
verdadeiro ditador...
o ciúme é um cego, doente,


Poemas e Poesias domingo, 07 de setembro de 2025

NOITES DE SAUDADE (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

NOITES DE SAUDADE

Florbela Espanca

Fonte: Google

 

 

A Noite vem poisando devagar
Sobre a terra que inunda de amargura...
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura...

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Por que és assim tão ’scura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma Saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu nem sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!


Poemas e Poesias sábado, 06 de setembro de 2025

ESQUEÇO-ME DAS HORAS TRANSVIADAS (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)

ESQUEÇO-ME DAS HORAS TRANSVIADAS

Fernando Pessoa

Fonte: Google

 

 

 

Esqueço-me das horas transviadas
o Outono mora mágoas nos outeiros
E põe um roxo vago nos ribeiros...
Hóstia de assombro a alma, e toda estradas...

Aconteceu-me esta paisagem, fadas
De sepulcros a orgíaco... Trigueiros
Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...

No claustro seqüestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés

No meu cansaço perdido entre os gelos
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...


Poemas e Poesias sexta, 05 de setembro de 2025

TROVAS HUMORÍSTICAS - 45 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
  

TROVA HUMORÍSTICA 45

Eno Teodoro Wanke

Fonte: Google

 

 Disse a lua ao vaga-lume:

– Tua luz é bem fraquinha

E o vaga-lume, sem ciúme:

– É verdade, mas é minha

 


Poemas e Poesias quinta, 04 de setembro de 2025

MÚSICA MISTERIOSA (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

MÚSICA MISTERIOSA

Cruz e Sousa

Fonte: Google

 

 

 

Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,
Que abris a doce luz de alampadários,
As harmonias dos Estradivarius
Erram da Lua nos clarões dormentes...

Pelos raios fluídicos, diluentes
Dos Astros, pelos trêmulos velários,
Cantam Sonhos de místicos templários,
De ermitões e de ascetas reverentes...

Cânticos vagos, infinitos, aéreos
Fluir parecem dos Azuis etéreos,
Dentre os nevoeiros do luar fluindo...

E vai, de Estrela a Estrela, a luz da Lua,
Na láctea claridade que flutua,
A surdina das lágrimas subindo...


Poemas e Poesias quarta, 03 de setembro de 2025

FOLHA NEGRA (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)

Folha Negra

Casimiro de Abreu

Fonte: Google

 

 

 

Sinhá,
Um outro mancebo
Alegre, poeta e crente,
Soltara um canto fervente
De amor talvez! – de alegria,
E aqui nas folhas do livro
Deixara – amor e poesia.

Mas eu que não tenho risos
Nem alegrias tão pouco,
Nem sinto esse fogo louco
Que a mocidade consome,
Nas brancas folhas do livro
Só posso deixar meu nome!

É triste como um gemido,
É vago como um lamento;
– Queixume que solta o vento
Nas pedras de uma ruma
Na hora em que o sol se apaga
E quando o lírio s’inclina!…

Grito de angústia do pobre
Que sobre as águas se afoga,
Cadáver que boia e voga
Longe da praia querida,
Grito de quem n’agonia
– Já morto – se apega à vida!

Vozes de flauta longínqua
Que as nossas mágoas aviva,
Soluço da patativa,
Queixume do mar que rola,
Cantiga em noite de lua
Cantada ao som da viola!…

Saudades do pegureiro
Que chora o seu lar amado,
– Calado e só – recostado
Na pedra dalgum caminho…
Canção de santa doçura
Da mãe que embala o filhinho!…

Meu nome!… É simples e pobre
Mas é sombrio e traz dores,
– Grinalda de murchas flores
Que o sol queima e não consome…
– Sinhá!… das folhas do livro
É bom tirar o meu nome!…


Poemas e Poesias terça, 02 de setembro de 2025

OS ANJOS DA MEIA-NOITE (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES

OS ANJOS DA NEIA-NOITE

Castro Alves

Fonte Google

 

 

 

Quando a insônia, qual lívido vampiro,
Como o arcanjo da guarda do Sepulcro,
Vela à noite por nós,
E banha-se em suor o travesseiro,
E além geme nas franças do pinheiro
Da brisa a longa voz ...

Quando sangrenta a luz no alampadário
Estala, cresce, expira, após ressurge,
Como uma alma a penar;
E canta aos quizos rubros da loucura
A febre - a meretriz da sepultura
A rir e a soluçar ...

Quando tudo vacila e se evapora,
Muda e se anima, vive e se transforma.
Cambaleia e se esvai...
E da sala na mágica penumbra
Um mundo em trevas rápido se obumbra...
E outro das trevas sai. . .

..................................................
..................................................

Então... nos brancos mantos que arregaçam
Da meia-noite os Anjos alvos passam
Em longa procissão!
E eu murmuro ao fitá-los assombrado:
São os Anjos de amor de meu passado
Que desfilando vão ...

Almas, que um dia no meu peito ardente
Derramastes dos sonhos a semente,
Mulheres, que eu amei!
Anjos louros do céu! virgens serenas!
Madonas, Querubins ou Madalenas!
Surgi! aparecei!

Vinde, fantasmas! Eu vos amo ainda;
Acorde-se a harmonia à noite infinda
Ao roto bandolim ...

............................................................
............................................................

E, no éter, que em notas se perfuma,
As visões salteando uma por uma...
Vão desfilando assim!...

1a SOMBRA

MARIETA

Como o gênio da noite, que desata
O véu de , rendas sobre a espádua nua,
Ela solta os cabelos... Bate a lua
Nas alvas dobras de um lençol de prata

O seio virginal que a mão recata,
Embalde o prende a mão... cresce, flu
Sonha a moça ao relento... Além na
Preludia um violão na serenata!...

... Furtivos passos morrem no lajedo...
Resvala a escada do balcão discreta...
Matam lábios os beijos em segredo...

Afoga-me os suspiros, Marieta!
Oh surpresa! oh palor! oh pranto! oh medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta. . .

2a SOMBRA

BÁRBARA

Erguendo o cálix que o Xerez perfuma.
Loura a trança alastrando-lhe os joelhos,
Dentes níveos em lábios tão vermelhos,
Como boiando em purpurina escuma;

Um dorso de Valquíria... alvo de bruma,
Pequenos pés sob infantis artelhos,
Olhos vivos, tão vivos, como espelhos,
Mas como eles também sem chama alguma;

Garganta de um palor alabastrino,
Que harmonias e músicas respira...
No lábio - um beijo... no beijar - um hino;

Harpa eólia a esperar que o vento a fira,
— Um pedaço de mármore divino...
— É o retrato de Bárbara - a Hetaira. —

3a SOMBRA

ESTER

Vem! no teu peito cálido e brilhante
O nardo oriental melhor transpira!
Enrola-te na longa cachemira,
Como as judias moles do Levante,

Alva a clâmide aos ventos - roçagante...
Túmido o lábio, onde o saltério gira...
Ó musa de Israel! pega da lira...
Canta os martírios de teu povo errante!

Mas não... brisa da pátria além revoa,
E ao delamber-lhe o braço de alabastro,
Falou-lhe de partir... e parte... e voa. . .

Qual nas algas marinhas desce um astro...
Linda Ester! teu perfil se esvai... sescoa...
Só me resta um perfume... um canto... um rastro...

4a SOMBRA

FABÍOLA

Como teu riso dói... como na treva
Os lêmures respondem no infinito:
Tens o aspecto do pássaro maldito,
Que em sânie de cadáveres se ceva!

Filha da noite! A ventania leva
Um soluço de amor pungente, aflito...
Fabíola!... É teu nome!... Escuta é um grito,
Que lacerante para os céus seleva!...

E tu folgas, Bacante dos amores,
E a orgia que a mantilha te arregaça,
Enche a noite de horror, de mais horrores...

É sangue, que referve-te na taça!
É sangue, que borrifa-te estas flores!
E este sangue é meu sangue... é meu... Desgraça!

5a e 6a SOMBRAS

CÂNDIDA E LAURA

Como no tanque de um palácio mago,
Dous alvos cisnes na bacia lisa,
Como nas águas que o barqueiro frisa,
Dous nenúfares sobre o azul do lago,

Como nas hastes em balouço vago
Dous lírios roxos que acalenta a brisa,
Como um casal de juritis que pisa
O mesmo ramo no amoroso afago....

Quais dous planetas na cerúlea esfera,
Como os primeiros pâmpanos das vinhas,
Como os renovos nos ramais da hera,

Eu vos vejo passar nas noites minhas,
Crianças que trazeis-me a primavera...
Crianças que lembrais-me as andorinhas! ...

7a SOMBRA

DULCE

Se houvesse ainda talismã bendito
Que desse ao pântano - a corrente pura,
Musgo - ao rochedo, festa - à sepultura,
Das águias negras - harmonia ao grito...,

Se alguém pudesse ao infeliz precito
Dar lugar no banquete da ventura...
E tocar-lhe o velar da insônia escura
No poema dos beijos - infinito...,

Certo. . . serias tu, donzela casta,
Quem me tomasse em meio do Calvário
A cruz de angústias que o meu ser arrasta!. . .

Mas ,se tudo recusa-me o fadário,
Na hora de expirar, ó Dulce, basta
Morrer beijando a cruz de teu rosário!...

8a SOMBRA

ÚLTIMO FANTASMA

Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada...
Sobre as névoas te libras vaporoso ...

Baixas do céu num vôo harmonioso!...
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a flor nevada
Cerca-te a fronte, ó ser misterioso! ...

Onde nos vimos nós? És doutra esfera ?
És o ser que eu busquei do sul ao norte. . .
Por quem meu peito em sonhos desespera?

Quem és tu? Quem és tu? - És minha sorte!
És talvez o ideal que estalma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!


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