Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)
Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.
Poemas e Poesias terça, 30 de janeiro de 2024
LONGE DA VISTA (POEMA DO PAULISTA GUILHERME DE ALMEIDA)
LONGE DA VISTA
Guilherme de Almeida
Vou partir, vais ficar. “Longe da vista, Longe do coração” – diz o ditado. Basta, porém, que o nosso amor exista, Para que eu parta e fiques sem cuidado.
Dentro em mim mesmo, o coração egoísta, Quanto mais longe, mais te quer ao lado; Tanto mais te ama, quanto mais te avista E, antes de ver-te, já te havia amado.
Vou partir. Para longe? Para perto? – Não sei: longe de ti tudo é deserto E todas as distâncias são iguais.
Como eu quisera que, na despedida, Quando se unissem nossas mãos, querida, Nunca pudessem desunir-se mais!
Poemas e Poesias segunda, 29 de janeiro de 2024
NATUREZA (POEMA DA PAULISTA FRANCISCA JÚLIA)
NATUREZA
Francisca Júlia
Um contínuo voejar de moscas e de abelhas
Agita os ares de um rumor de asas medrosas;
A Natureza ri pelas bocas vermelhas
Tanto das flores más como das boas rosas.
Por contraste, hás de ouvir em noites tenebrosas
O grito dos chacais e o pranto das ovelhas,
Brados de desespero e frases amorosas
Pronunciadas, a medo, à concha das orelhas...
Ó Natureza, ó Mãe pérfida! tu, que crias,
Na longa sucessão das noites e dos dias,
Tanto aborto, que se transforma e se renova,
Quando meu pobre corpo estiver sepultado,
Mãe! transforma-o também num chorão recurvado
Para dar sombra fresca à minha própria cova.
Poemas e Poesias domingo, 28 de janeiro de 2024
PARTICULARIDADES - 1 (POEMA DA CARIOCA GILKA MACHADO)
PARTICULARIDADES - 1
Gilka Machado
Na plena solidão de um amplo descampado, penso em ti e que tu pensas em mim suponho; tenho toda afeição de um arbusto isolado, abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.
O Vento, sob o céu de brumas carregado, passa, ora langoroso, ora forte, medonho! e tanto penso em ti, ó meu ausente amado! que te sinto no Vento e a ele, feliz, me exponho.
Com carícias brutais e com carícias mansas, cuido que tu me vens, julgo-me toda nua... – sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças...
E não podes saber do meu gozo violento, quando me fico assim, neste ermo, toda nua, completa-te exposta à Volúpia do Vento!
Poemas e Poesias sábado, 27 de janeiro de 2024
ESCREVE-ME (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)
ESCREVE-ME
Florbela Espanca
Escreve-me! Ainda que seja só Uma palavra, uma palavra apenas, Suave como o teu nome e casta Como um perfume casto d'açucenas!
Escreve-me!Há tanto,há tanto tempo Que te não vejo, amor!Meu coração Morreu já,e no mundo aos pobres mortos Ninguém nega uma frase d'oração!
"Amo-te!"Cinco letras pequeninas, Folhas leves e tenras de boninas, Um poema d'amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas? Olha, manda então...brandas...serenas... Cinco pétalas roxas de saudade...
Poemas e Poesias sexta, 26 de janeiro de 2024
HOMEM SENTADO (POEMA DO MARANHENSE FERREIRA GULLAR)
HOMEM SENTADO
Ferreira Gullar
Neste divã recostado à tarde num canto do sistema solar em Buenos Aires (os intestinos dobrados dentro da barriga, as pernas sob o corpo) vejo pelo janelão da sala parte da cidade: estou aqui apoiado apenas em mim mesmo neste meu corpo magro mistura de nervos e ossos vivendo à temperatura de 36 graus e meio lembrando plantas verdes que já morreram
Poemas e Poesias quinta, 25 de janeiro de 2024
DIZEM QUE FINJO OU MINTO (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PES9OA)
DIZEM QUE FINJO OU MINTO
Fernando Pessoa
Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sou ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê!
Poemas e Poesias quarta, 24 de janeiro de 2024
SAINT-JUST (POEMA DO FLUMINENSE EUCLIDES DA CUNHA)
SAINT-JUST
Euclides da Cunha
Quando à tribuna ele se ergueu, rugindo, – Ao forte impulso das paixões audazes Ardente o lábio de terríveis frases E a luz do gênio em seu olhar fulgindo,
A tirania estremeceu nas bases, De um rei na fronte ressumou, pungindo, Um suor de morte e um terror infindo Gelou o seio aos cortesãos sequazes –
Uma alma nova ergueu-se em cada peito, Brotou em cada peito uma esperança, De um sono acordou, firme, o Direito –
E a Europa – o mundo – mais que o mundo, a França – Sentiu numa hora sob o verbo seu As comoções que em séculos não sofreu!
Poemas e Poesias terça, 23 de janeiro de 2024
TROVAS HUMORÍSTICAS - 25 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
TROVA HUMORÍSTICA 25
Eno Teodoro Wanke
Só porque está resfriada
Me recusa meu beijinho?...
Vá, não seja tão malvada
Me transmita um microbinho.
Poemas e Poesias segunda, 22 de janeiro de 2024
SELVA SELVAGGIA (POEMA DO PIAUIENSE DA COSTA E SILVA)
SELVA SELVAGGIA
Da Costa e Silva
... Vi-me, sem o saber, perdido e errante Por uma selva escura e misteriosa, Como aquela floresta fabulosa, Por onde errava o espírito do Dante.
Atônito e indeciso eu fiquei, diante Do dédalo de sombras, de alma ansiosa Como se dentro de uma nebulosa Visse a livre amplidão do azul distante...
Andei às tontas, como que à procura, Pelo instinto profético e divino, De incerta luz na pávida espessura...
E, só conjeturava em desatino: Que seria esta selva estranha e escura? — Eu pensei que era a Vida... — Era o Destino.
Poemas e Poesias domingo, 21 de janeiro de 2024
CARNAL E MÍSTICO (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)
CARNAL E MÍSTICO
Cruz e Sousa
Pelas regiões tenuíssimas da bruma vagam as Virgens e as Estrelas raras... Como que o leve aroma das searas todo o horizonte em derredor perfuma.
Numa evaporação de branca espuma vão diluindo as perspectivas claras... Com brilhos crus e fúlgidos de tiaras as Estrelas apagam-se uma a uma.
E então, na treva, em místicas dormências, desfila, com sidéreas latescências, das Virgens o sonâmbulo cortejo...
Ó Formas vagas, nebulosidades! Essência das eternas virgindades! Ó intensas quimeras do Desejo...
Poemas e Poesias sábado, 20 de janeiro de 2024
O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL - II - NOITE FECHADA (POEMA DO PORTUGTUÊS CESÁRIO VERDE)
O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL - II - NOITE FECHADA
Cesário Verde
Toca-se às grades, nas cadeias. Som Que mortifica e deixa umas loucuras mansas! O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças, Bem raramente encerra uma mulher de <<dom>>!
E eu desconfio, até, de um aneurisma Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes; À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes, Chora-me o coração que se enche e que se abisma.
A espaços, iluminam-se os andares, E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos Alastram em lençol os seus reflexos brancos; E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.
Duas igrejas, num saudoso largo, Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero: Nelas esfumo um ermo inquisidor severo, Assim que pela História eu me aventuro e alargo.
Na parte que abateu no terremoto, Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas; Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas, E os sinos dum tanger monástico e devoto.
Mas, num recinto público e vulgar, Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras, Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras, Um épico doutrora ascende, num pilar!
E eu sonho o Cólera, imagino a Febre, Nesta acumulação de corpos enfezados; Sombrios e espectrais recolhem os soldados; Inflama-se um palácio em face de um casebre.
Partem patrulhas de cavalaria Dos arcos dos quartéis que foram já conventos: Idade Média! A pé, outras, a passos lentos, Derramam-se por toda a capital, que esfria.
Triste cidade! Eu temo que me avives Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes, Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes, Curvadas a sorrir às montras dos ourives.
E mais: as costureiras, as floristas Descem dos magasins, causam-me sobressaltos; Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos E muitas delas são comparsas ou coristas.
E eu, de luneta de uma lente só, Eu acho sempre assunto a quadros revoltados: Entro na brasserie; às mesas de emigrados, Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.
Poemas e Poesias sexta, 19 de janeiro de 2024
RETRATO (POEMA DA CARIOCA CECÍLIA MEIRELES)
RETRATO
Cecília Meireles
Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio tão amargo.
Eu não tinha estas mãos tão sem força, Tão paradas e frias e mortas; Eu não tinha este coração Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança, Tão simples, tão certa, tão fácil: – Em que espelho ficou retida a minha face?
Poemas e Poesias quarta, 17 de janeiro de 2024
BOA NOITE (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)
BOA NOITE
Castro Alves
Boa noite, Maria! Eu vou-me embora. A lua nas janelas bate em cheio... Boa noite, Maria! É tarde... é tarde... Não me apertes assim contra teu seio.
Boa noite!... E tu dizes – Boa noite. Mas não digas assim por entre beijos... Mas não me digas descobrindo o peito, – Mar de amor onde vagam meus desejos.
Julieta do céu! Ouve.. a calhandra já rumoreja o canto da matina. Tu dizes que eu menti?... pois foi mentira... ...Quem cantou foi teu hálito, divina!
Se a estrela-d'alva os derradeiros raios Derrama nos jardins do Capuleto, Eu direi, me esquecendo d'alvorada: "É noite ainda em teu cabelo preto..."
É noite ainda! Brilha na cambraia – Desmanchado o roupão, a espádua nua – o globo de teu peito entre os arminhos Como entre as névoas se balouça a lua...
É noite, pois! Durmamos, Julieta! Recende a alcova ao trescalar das flores, Fechemos sobre nós estas cortinas... – São as asas do arcanjo dos amores.
A frouxa luz da alabastrina lâmpada Lambe voluptuosa os teus contornos... Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos Ao doudo afago de meus lábios mornos.
Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos Treme tua alma, como a lira ao vento, Das teclas de teu seio que harmonias, Que escalas de suspiros, bebo atento!
Ai! Canta a cavatina do delírio, Ri, suspira, soluça, anseia e chora... Marion! Marion!... É noite ainda. Que importa os raios de uma nova aurora?!...
Como um negro e sombrio firmamento, Sobre mim desenrola teu cabelo... E deixa-me dormir balbuciando: – Boa noite! –, formosa Consuelo...
Poemas e Poesias segunda, 15 de janeiro de 2024
PALAVRAS A ALGUÉM (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)
PALAVRAS A ALGUÉM
Casimiro de Abreu
Tu folgas travessa e louca
Sem ouvires meu lamento,
Sonhas jardins d’esmeralda
Nesse virgem pensamento,
Mas olha que essa grinalda
Bem pode murchá-la o vento!
Ai que louca! abriste o livro
Da minh’alma, livro santo,
Escrito em noites d’angústia,
Regado com muito pranto,
E... quase rasgaste as folhas
Sem entenderes o canto!
Agora corres nos charcos
Em vez das alvas areias!...
Deleita-te a voz fingida
Dessas formosas sereias...
Mas eu te falo e te aviso:
- “olha que tu te enlameias!” -
Tu és a pomba inocente,
Eu sou teu anjo-da-guarda,
Devo dizer-te baixinho:
- “Olha que a morte não tarda!
“Mariposa dos amores,
“Deixa a luz, embora arda.
“A chama seduz e brilha
- “Qual diamante entre gazas -
“E tu no fogo maldito
“Tão descuidosa te abrasas!
“Mariposa, mariposa,
“Tu vais queimar tuas asas!”
Conchinha das lisas praias,
Nasceste em alvas areias,
Não corras tu para os charcos
Arrebatada nas cheias!...
- Os teus vestidos são brancos...
Olha que tu te enlameias!...
Poemas e Poesias domingo, 14 de janeiro de 2024
SONETO DO DESMANTELO AZUL (POEMA DO PERNAMBUCANO CARLOS PENA FILHIO)
SONETO DO DESMANTELO AZUL
Carlos Pena Filho
Então, pintei de azul os meus sapatos por não poder de azul pintar as ruas, depois, vesti meus gestos insensatos e colori as minhas mãos e as tuas,
Para extinguir em nós o azul ausente e aprisionar no azul as coisas gratas, enfim, nós derramamos simplesmente azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos que no excesso que havia em nosso espaço pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos e vimos que entre nós nascia um sul vertiginosamente azul. Azul.
Poemas e Poesias sábado, 13 de janeiro de 2024
CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)
CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO
Carlos Drummond de Andrade
Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes. E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil; este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval; este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas; este orgulho, esta cabeça baixa…
Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!
Poemas e Poesias sexta, 12 de janeiro de 2024
SONETO 1668 - EL VASO RELUCIENTE Y CRISTALINO (POEMA DO PORTUGUÈS LUÍS DE CAMÕES)
EL VASO RELUCIENTE Y CRISTALINO
Soneto 1668
Luís de Camões
El vaso reluciente y cristalino, de Ángeles agua clara y olorosa, de blanca seda ornado y fresca rosa, ligado con cabellos de oro fino,
bien claro parecía el don divino labrado por la mano artificiosa de aquella blanca Ninfa, graciosa más que el rubio lucero matutino.
Nel vaso vuestro cuerpo se afigura, raxado de los blancos miembros bellos, y en el agua vuestra ánima pura.
La seda es la blancura, y los cabellos son las prisiones y la ligadura con que mi libertad fue asida dellos.
Poemas e Poesias quinta, 11 de janeiro de 2024
CEM TROVAS - 015 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)
)
TROVA 015
Belmiro Braga
Eu morro por Filomena, Filomena por Joaquim, o Joaquim por Madalena e Madalena por mim.
Poemas e Poesias quarta, 10 de janeiro de 2024
QUEIXAS NOTURNAS (POEMA DO PARAIBANO AUGUSTO DOS ANJOS)
QUEIXAS NOTURNAS
Augusto dos Anjos
Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. Minh'alma sai agoniada. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada, entre estes monstros, ando!
Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida.
O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta... Para pintá-lo, era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem!
Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém, armado de arcabuz, Na ânsia incoercível de roubar a luz, Estou à espera de que o Sol desponte!
Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde.
As minhas roupas, quero até rompê-las! Quero, arrancado das prisões carnais, Viver na luz dos astros imortais, Abraçado com todas as estrelas!
A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito, no combate, A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante!
E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta, é o prélio enorme, é a rebelião Da criatura contra a natureza!
Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem; Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra, em coalhos, pela boca.
E muitas vezes a agonia é tanta Que, rolando dos últimos degraus, O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta!
É natural que esse Hércules se estorça, E tombe para sempre nessas lutas, Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força.
Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã, Igual à luta dos cristãos e mouros!
Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão, é inútil, é improfícuo, em suma; Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me.
O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem, faz mal; O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes.
Hoje é amargo tudo quanto eu gosto; A bênção matutina que recebo... E é tudo: o pão que como, a água que bebo, O velho tamarindo a que me encosto!
Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia!
Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração - esta arca, Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana!
Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu; Seja este, enfim, o último canto meu Por esta grande noite brasileira!
Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me... Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa!Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. Minh'alma sai agoniada. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada, entre estes monstros, ando!
Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida.
O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta... Para pintá-lo, era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem!
Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém, armado de arcabuz, Na ânsia incoercível de roubar a luz, Estou à espera de que o Sol desponte!
Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde.
As minhas roupas, quero até rompê-las! Quero, arrancado das prisões carnais, Viver na luz dos astros imortais, Abraçado com todas as estrelas!
A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito, no combate, A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante!
E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta, é o prélio enorme, é a rebelião Da criatura contra a natureza!
Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem; Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra, em coalhos, pela boca.
E muitas vezes a agonia é tanta Que, rolando dos últimos degraus, O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta!
É natural que esse Hércules se estorça, E tombe para sempre nessas lutas, Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força.
Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã, Igual à luta dos cristãos e mouros!
Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão, é inútil, é improfícuo, em suma; Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me.
O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem, faz mal; O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes.
Hoje é amargo tudo quanto eu gosto; A bênção matutina que recebo... E é tudo: o pão que como, a água que bebo, O velho tamarindo a que me encosto!
Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia!
Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração - esta arca, Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana!
Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu; Seja este, enfim, o último canto meu Por esta grande noite brasileira!
Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me... Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa!
Poemas e Poesias segunda, 08 de janeiro de 2024
MINHA DESGRAÇA (POEMA DO PAULISTA ÁLVARES DE AZEVEDO)
MINHA DESGRAÇA
Álvares de Azevedo
Minha desgraça não é ser poeta, Nem na terra de amor não ter um eco... E, meu anjo de Deus, o meu planeta Tratar-me como trata-se um boneco...
Não é andar de cotovelos rotos, Ter duro como pedra o travesseiro... Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido cujo sol (quem mo dera) é o dinheiro...
Minha desgraça, ó cândida donzela, O que faz que meu peito assim blasfema, É ter por escrever todo um poema E não ter um vintém para uma vela.
Poemas e Poesias domingo, 07 de janeiro de 2024
QUANDO EU SONHAVA (POEMA DO PORTUGUÊS ALMEIDA GARRETT)
QUANDO EU SONHAVA
Almeida Garrett
Quando eu sonhava, era assim Que nos meus sonhos a via; E era assim que me fugia, Apenas eu despertava, Essa imagem fugidia Que nunca pude alcançar. Agora, que estou desperto, Agora a vejo fixar... Para quê? – Quando era vaga, Uma ideia, um pensamento, Um raio de estrela incerto No imenso firmamento, Uma quimera, um vão sonho, Eu sonhava – mas vivia: Prazer não sabia o que era, Mas dor, não na conhecia ...
Poemas e Poesias sábado, 06 de janeiro de 2024
LUVA ABANDONADA (POEMA DO FLUMINENSE ALBERTO DE OLIVEIRA)
LUVA ABANDONADA
Alberto de Oliveira
Uma só vez calçar-vos me foi dado, Dedos claros! A escura sorte minha, O meu destino, como um vento irado, Levou-vos longe e me deixou sozinha!
Sobre este cofre, desta cama ao lado, Murcho, como uma flor, triste e mesquinha, Bebendo ávida o cheiro delicado Que aquela mão de dedos claros tinha.
Cálix que a alma de um lírio teve um dia Em si guardada, antes que ao chão pendesse, Breve me hei de esfazer em poeira, em nada…
Oh! em que chaga viva tocaria Quem nesta vida compreender pudesse A saudade da luva abandonada!
Poemas e Poesias sexta, 05 de janeiro de 2024
LIMITES DO AMOR (POEMA DO MINEIRO AFFONSO ROMANO DE SANT*ANNA)
LIMITES DO AMOR
Affonso Romano de Sant'Anna
Condenado estou a te amar nos meus limites até que exausta e mais querendo um amor total, livre das cercas, te despeça de mim, sofrida, na direção de outro amor que pensas ser total e total será nos seus limites da vida.
O amor não se mede pela liberdade de se expor nas praças e bares, sem empecilho. É claro que isto é bom e, às vezes, sublime. Mas se ama também de outra forma, incerta, e este o mistério:
Poemas e Poesias quinta, 04 de janeiro de 2024
PRANTIO PARA COMOVER JONATHAN (POEMA DA MINEIRA ADÉLIA PRADO)
PRANTO PARA COMOVER JONATHAN
Adélia Prado
Os diamantes são indestrutíveis? Mais é meu amor. O mar é imenso? Meu amor é maior, mais belo sem ornamentos do que um campo de flores. Mais triste do que a morte, mais desesperançado do que a onda batendo no rochedo, mais tenaz que o rochedo. Ama e nem sabe mais o que ama.
Poemas e Poesias quarta, 03 de janeiro de 2024
A MULHER DA NOITE (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)
A MULHER DA NOITE
Vinícius de Moraes
Eu fiquei imóvel e no escuro tu vieste. A chuva batia nas vidraças e escorria nas calhas — vinhas andando e eu não te via Contudo a volúpia entrou em mim e ulcerou a treva nos meus olhos. Eu estava imóvel — tu caminhavas para mim como um pinheiro erguido E de repente, não sei, me vi acorrentado no descampado, no meio de insetos E as formigas me passeavam pelo corpo úmido. Do teu corpo balouçante saíam cobras que se eriçavam sobre o meu peito E muito ao longe me parecia ouvir uivos de lobas. E então a aragem começou a descer e me arrepiou os nervos E os insetos se ocultavam nos meus ouvidos e zunzunavam sobre os meus lábios. Eu queria me levantar porque grandes reses me lambiam o rosto E cabras cheirando forte urinavam sobre as minhas pernas. Uma angústia de morte começou a se apossar do meu ser As formigas iam e vinham, os insetos procriavam e zumbiam do meu desespero E eu comecei a sufocar sob a rês que me lambia. Nesse momento as cobras apertaram o meu pescoço E a chuva despejou sobre mim torrentes amargas.
Eu me levantei e comecei a chegar, me parecia vir de longe E não havia mais vida na minha frente.
Poemas e Poesias terça, 02 de janeiro de 2024
ÚLTIMA CONFIDÊNCIA (POEMA DO PAULISTA VICENTE DE CARVALHO)
ÚLTIMA CONFIDÊNCIA
Vicente de Carvalho
- E se acaso voltar? Que hei de dizer-lhe quando Me perguntar por ti? - Dize-lhe que me viste uma tarde chorando... Nessa tarde parti.
- Se arrependido e ansioso ele indagar: Para onde? Por onde a buscarei? - Dize-lhe: "Para além... Para longe..." Responde Como eu mesma: "Não sei".
Ai, é tão vasta a noite! A meia luz do ocaso Desmaia... anoiteceu... Onde vou? Nem eu sei... Irei seguindo o acaso Até achar o céu...
Eu cheguei a supor que possível me fosse Ser amada - e viver. É tão fácil a morte... Ai, seria tão doce Ser amada... e morrer!...
Ouve: conta-lhe tu que eu chorava, partindo, As lágrimas que vês... Só conheci do amor, que imaginei tão lindo, O mal que ele me fez.
Narra-lhe transe a transe a dor que me consome... Nem houve nunca igual! Conta-lhe que eu morri murmurando o seu nome No soluço final!
Dize-lhe que o seu nome ensangüentava a boca Que o seu beijo não quis: Golfa-me em sangue vês? E eu murmurando-o, louca! Sinto-me tão feliz!
Nada lhe contes, não... Poupa-o... Eu quase o odeio, Oculta-lho! Senhor, Eu morro!... Amava-o tanto... Amei-o sempre... Amei-o Até morrer... de amor.
Poemas e Poesias segunda, 01 de janeiro de 2024
NINGUÉM ME HABITA (POE3MA DO AMAZONENSE THIAGO DE MELLO)
NINGUÉM ME HABITA
Thiago de Mello
Ninguém me habita. A não ser o milagre da matéria que me faz capaz de amor, e o mistério da memória que urde o tempo em meus neurônios, para que eu, vivendo agora, possa me rever no outrora. Ninguém me habita. Sozinho resvalo pelos declives onde me esperam, me chamam (meu ser me diz se as atendo) feiúras que me fascinam, belezas que me endoidecem.
Poemas e Poesias domingo, 31 de dezembro de 2023
RECORDAÇÕES (POEMA DO MARANHENSE SOUSÂNDRADE)
RECORDAÇÕES
Sousândrade
Astros gentis da bela mocidade,
Vésper meiga, crescente feiticeiro,
Que lembranças trazeis e que saudade
Dos tempos da concórdia e o verde oiteiro!
Vos adorei dos campos e à cheirosa
Brisa que das estrelas recendia,
Vos adorei à luz de santa-rosa
Quando aos nove anos Beatriz sorria:
Mas, para que volver às doces eras,
Do coração aos cândidos martírios,
Se onde eternal renascem primaveras
Não finda amor porque não findam lírios?
Depois, que importa essa ilusão fagueira
Dos mentirosos céus, quando o tormento,
Quando a dor d'alma, a sempre-verdadeira
Aí fica? – astros gentis do firmamento,
Que importa, se das flores que se amaram,
Que redolentes foram, novas flores
Cada dia o bom Deus manda aos amores,
Porque s'esqueçam tristes que murcharam!
Poemas e Poesias sábado, 30 de dezembro de 2023
PRUDÊNCIA (POEMA DO FLUMINENSE RAUL DE LEÔNI)
PRUDÊNCIA
Raul de Leôni
Não aprofundes nunca, nem pesquises O segredo das almas que procuras: Elas guardam surpresas infelizes A quem lhes desce às convulsões obscuras.
Contenta-te com amá-las, se as bendizes, Se te parecem límpidas e puras, Pois se, às vezes, nos frutos há doçuras, Há sempre um gosto amargo nas raízes…
Trata-se assim, como se fossem rosas, Mas não despertes o sabor selvagem Que lhes dorme nas pétalas tranquilas,
Lembra-te dessas flores venenosas! As abelhas cortejam de passagem, Mas não ousam prová-las nem feri-las…
Poemas e Poesias sexta, 29 de dezembro de 2023
O PUXADÔ DE RODA (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ, COM O AUTOR) VÍDEO
Poemas e Poesias quinta, 28 de dezembro de 2023
A MELANCOLIA DAS RUAS (POEMA DO PERNAMBUCANO OLEGÁRIOMARIANO)
A MELANCOLIA DAS RUAS
Olegário Mariano
Choveu o dia todo… Era chuva de vento.
O dínamo da Vida amiudando os instantes,
Acelerava em continuado movimento,
Os automóveis, as carroças, os viandantes.
–
As casas de comércio, portas largas,
Fechadas, sonolentas e pesadas…
Os caminhões deitando cargas
Sobre a chapa polida das calçadas…
–
Tudo a rua sentiu embriagada e felina.
De quando em quando, no alto, lá bem no alto,
Um pássaro sonoro esgarçava a neblina
E o rumor do motor vinha morrer no asfalto…
–
Depois a rua adormeceu… Veio descendo
A noite… Foram desaparecendo
As vozes todas… Para que retê-las?
–
Agora as poças d’água estão sorrindo,
Monótonas, humildes, refletindo
O céu… Tão longe o céu cheio de estrelas!
Poemas e Poesias quarta, 27 de dezembro de 2023
O VOADOR (POEMA DO CARIOCA OLAVO BILAC)
O VOADOR
Olavo Bilac
"Padre Bartolomeu Lourenço de
Gusmão, inventor do aeróstato,
morreu miseravelmente num
convento, em Toledo, sem
ter quem lhe velasse a agonia."
Em Toledo. Lá fora, a vida tumultua
E canta. A multidão em festa se atropela...
E o pobre, que o suor da agonia enregela,
Cuida o seu nome ouvir na aclamação da rua.
Agoniza o Voador. Piedosamente, a lua
Vem velar-lhe a agonia, através da janela.
A Febre, o Sonho, a Glória enchem a escura cela,
E entre as névoas da morte uma visão flutua:
"Voar! varrer o céu com as asas poderosas,
Sobre as nuvens! correr o mar das nebulosas,
Os continentes de ouro e fogo da amplidão!..."
E o pranto do luar cai sobre o catre imundo...
E em farrapos, sozinho, arqueja moribundo
Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão...
Poemas e Poesias terça, 26 de dezembro de 2023
OS DEGRAUS (POEMA DO GAÚCHO MÁRIO QUINTANA)
OS DEGRAUS
Mário Quintana
Não desças os degraus do sonho Para não despertar os monstros. Não subas aos sótãos - onde Os deuses, por trás das suas máscaras, Ocultam o próprio enigma. Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! E é um sonho louco este nosso mundo...
Poemas e Poesias segunda, 25 de dezembro de 2023
O SOLITÁRIO (POEMA DO MATO-GROSSENSE MANOEL DE BARROS)
O SOLITÁRIO
Manoel de Barros
Os muros enflorados caminhavam ao lado de um homem solitário Que olhava fixo para certa música estranha Que um menino extraía do coração de um sapo.
Naquela manhã dominical eu tinha vontade de sofrer Mas sob as árvores as crianças eram tão comunicativas
Que me faziam esquecer de tudo Olhando os barcos sobre as ondas…
No entanto o homem passava ladeado de muros! E eu não pude descobrir em seu olhar de morto O mais pequeno sinal de que estivesse esperando alguma dádiva!
Seu corpo fazia uma curva diante das flores.
Poemas e Poesias domingo, 24 de dezembro de 2023
EU VI UMA ROSA (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)
EU VI UMA ROSA
Manuel Bandeira
- Uma rosa branca - Sozinha no galho. No galho? Sozinha No jardim, na rua.
Sozinha no mundo.
Em torno, no entanto, Ao sol de meio-dia, Toda a natureza Em formas e cores E sons esplendia.
Tudo isso era excesso.A graça essencial, Mistério inefável - Sobrenatural - Da vida e do mundo, Estava ali na rosa Sozinha no galho.
Sozinha no tempo.
Tão pura e modesta, Tão perto do chão, Tão longe na glória, Da mística altura, Dir-se-ia que ouvisse Do arcanjo invisível As palavras santas De outra Anunciação.
Poemas e Poesias sábado, 23 de dezembro de 2023
A VOZ DE MOEMA (POEMA DO CARIOCA LUÍS GUIMARÃES JUNIOR)
A VOZ DE MOEMA
Luís Guimarães Júnior
"Ah Diogo cruel!" disse com mágoa, E sem mais vista ser sorveu-se n'água. DURÃO — Caramuru.
Gemem as ondas mansamente; — a quilha Do barco ondeia, ao som da vaga clara; Cai do farol a luz longínqua e rara, E a Lua cheia sobre as ondas brilha...
Do mar na ardente e luminosa trilha Nem um batel por estas horas pára: Sonha a Bahia, ao longe, — a altiva e cara Filha dos deuses, de Colombo filha.
Tudo silente dorme. O bardo, entanto, Que tudo vê e em tudo colhe o tema Que amor produz no flácido quebranto,
Ouve pairar nos ares sons d'um Poema... Ai! é a voz, — a voz, rouca de pranto, A triste voz da pálida Moema!
Poemas e Poesias sexta, 22 de dezembro de 2023
O ANJO DA GUARDA DA INFÂNCIA (POEMA DO PORTUGUÊS JÚLIO DINIS)
O ANJO DA GUARDA DA INFÂNCIA
Júlio Dinis
Desci dor celestes coros, Por Deus mandada escutar Da infância as queixas e os choros, Para lhos ir confiar.
Desci. Na terra, nos mares Tanta miséria encontrei, Que os meus magoados olhares De terra e mar desviei.
Desci. E tantos gemidos, Tão dolorosos ouvil Que, turbados os sentidos, Quis recuar… mas desci.
Nesta colheita de dores Pelo mundo todo andei, No pranto dos pecadores As minhas vestes molhei.
Vagueando dias e dias Chegara à Judeia enfim, Quando um clamor de agonias Veio de longe até mim.
O Sol, o Sol inflamado Destas terras orientais Tinha no disco afogueado Não sei que estranhos sinais.
Soavam menos distantes Sinistros brados de dor Choros de mães e de infantes Cantos de morte e terror.
Vi anjos de asas nevadas Em bandos subir ao Céu, Quais pombas amedrontadas Fugindo à voz de escarcéu.
«Onde ides? Quem vos persegue ? A que tormentos fugis?» Um que triste o bando segue, Estas palavras me diz:
Somos as almas de infantes Mortos em guerra feroz; Inda das mães delirantes Nos chama a sentida voz.
« Só a materna saudade Nossa carreira detém, Embora no Céu, quem há-de Esquecer o amor de mãe?»
Disse e o semblante formoso Com as asas encobriu, E ao bando silencioso Silencioso se uniu.
Eu segui. Na ampla cidade Aterrada penetrei… Ai, da fera humanidade Os meus olhos desviei!
Que cena! Corre nas praças Sanguinária multidão Como nuvem de desgraças Semeando a desolação.
Caem por terra, sem vida, Tenras crianças às mil, E uma turba enfurecida Corre à matança, febril.
As mães pálidas, chorosas, Suplicam, pedem em vão! Nessas feras sanguinosas Não palpita um coração.
Outros tentam, em delírio, Os seus filhos disputar E com eles no martírio Gostosas se vão juntar.
Sobre a terra ensangüentada Eu soluçando, ajoelhei, E de intensa dor magoada, A Deus piedade implorei.
Findava a prece, e uma estrela No horizonte despontou, Pura, cintilante, ela O caminho me traçou.
À humilde e escondida estância Da venturosa Belém Cheguei; vi um Deus na infância Nos ternos braços da mãe.
Minha colheita de dores Naquele berço depus, Da humanidade aos rigores Pedi remédio a Jesus.
No olhar do divino infante Raiou luz e fulgor, Foi a aurora radiante Que anuncia um redentor
Poemas e Poesias quinta, 21 de dezembro de 2023
LIBERDADE (POEMA DO ACRIANO J. G. DE ARAÚJO JORGE)
LIBERDADE
J. G. de Araújo Jorge
A liberdade é o meu clarim de guerra e eu sou, no meu viver amplo e sem véus, como os caminhos soltos pela terra, como os pássaros livres pelos céus.
Ela é o sol dos caminhos ! Ela é o ar que os enche os pulmões, é o movimento, traz num corpo irrequieto como o mar uma alma errante e boêmia como o vento.
Minha crença, meu Deus, minha bandeira, razão mesma de ser do meu destino, há de ser a palavra derradeira que há de aflorar-me aos lábios como um hino.
Liberdade: Alavanca de montanhas! Aureolada de louros ou de espinhos há de cingir-me a fronte nas campanhas, há de ferir-me os pés pelos caminhos.
Sinto-a viva em meu sangue palpitando seja utopia ou seja ideal, - que importa? Quero viver por esse ideal lutando, quero morrer se essa utopia é morta!
Poemas e Poesias quarta, 20 de dezembro de 2023
QUE ESTE AMOR NÃO ME CEGUE (POEMA DA PAULISTA HILDA HILST)
QUE ESTE AMOR NÃO ME CEGUE
Hilda Hilst
Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua do estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o meu Senhor habita o rutilante escuro De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente E farta de fadigas. E de fragilidades tantas Eu me faça pequena. E diminuta e tenra Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.
Poemas e Poesias terça, 19 de dezembro de 2023
PERFEIÇÃO (POEMA DO SERGIPANO HERMES FONTES)
PERFEIÇÃO
Hemes Fontes
Tanto esforço perdido em ser perfeito! Em ser superno, tanto esforço vão! Sonho efêmero; acordo e, junto ao leito, a mesma inércia, a mesma escuridão.
Vejo, através das sombras, um defeito em cada cousa, e as cousas todas são, para os meus olhos rútilos de eleito, prodígios de impureza e imperfeição!
Fico-me, noite a dentro, insone e mudo, pensando em ti, que dormes, esquecida do teu amargurado sonhador...
Ah, Mas, se ao menos, imperfeito é tudo salve-se, às mil imperfeições da vida, a humilde perfeição do meu amor!
Poemas e Poesias segunda, 18 de dezembro de 2023
INFÂNCIA (POEMA DO PAULISTA GILHERME DE AMEIDA)
INFÂNCIA
Guilherme de Almeida
Um gosto de amora comida com sol. A vida chamava-se "Agora".
Poemas e Poesias domingo, 17 de dezembro de 2023
VENDO-A SORRIR (POEMA DO PORTUGUÊS GUERRA JUNQUEIRO
VENDO-A SORRIR
Guerra Junqueiro
A minha filha
Filha, quando sorris, iluminas a casa Dum celeste esplendor. A alegria é na infância o que na ave é asa E perfume na flor.
Ó doirada alegria, ó virgindade santa Do sorriso infantil! Quando o teu lábio ri, filha, a minha alma canta Todo o poema de Abril.
Ao ver esse sorriso, ó filha, se concentro Em ti o meu olhar, Engolfa-se-me o céu azul pela alma dentro Com pombas a voar.
Sou o Sol que agoniza, e tu, meu anjo loiro, És o Sol que se eleva. Inunda-me de luz, sorri, polvilha de oiro O meu manto de treva!
Poemas e Poesias sábado, 16 de dezembro de 2023
MUSA IMPASSÍVEL (POEMA DA PAULISTA FRANCISCA JÚLIA)
MUSA IMPASSÍVEL
Francisca Júlia
I
Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero Luto jamais te afeie o cândido semblante! Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.
Em teus olhos não quero a lágrima; não quero Em tua boca o suave e idílico descante. Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante, Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.
Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa; A rima, cujo som, de uma harmonia crebra, Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;
Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos, Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra, Ora o surdo rumor de mármores partidos.
II
Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora, Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca! Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca, Por esse grande espaço onde o impassível mora.
Leva-me longe, ó Musa impassível e branca! Longe, acima do mundo, imensidade em fora, Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora, O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.
Transporta-me de vez, numa ascensão ardente, À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares Onde os deuses pagãos vivem eternamente,
E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo Passarem, através das brumas seculares, Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.
Poemas e Poesias sexta, 15 de dezembro de 2023
PARTOCULARIDADES (POEMA DA CARIOCA GILKA MACHADO)
PARTICULARIDADES
Gilka Machado
Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo, os meus gostos crimino e busco, em vão torcê-los; é incrível a paixão que me absorve por tudo quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... Os pêlos...
Amo as noites de luar porque são de veludo, delicio-me quando, acaso, sinto, pelos meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.
Pela fria estação, que aos mais seres eriça, andam-me pelo corpo espasmos repetidos, às luvas de camurça, às boas, à pelica...
O meu tato se estende a todos os sentidos;
Poemas e Poesias quinta, 14 de dezembro de 2023
DESEJOS VÃOS (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)
DESEJOS VÃOS
Florbela Espanca
Eu q’ria ser o mar d’altivo porte Que ri e canta, a vastidão imensa! Eu q’ria ser a pedra que não pensa, A pedra do caminho, rude e forte!
Eu q’ria ser o sol, a luz intensa, O bem do que é humilde e não tem sorte! Eu q’ria ser a árvore tosca e densa Que ri do mundo vão e até da morte!
Mas o Mar também chora de tristeza... As Árvores também, como quem reza, Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!
E o Sol altivo e forte, ao fim dum dia, Tem lágrimas de sangue na agonia! E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...
Poemas e Poesias quarta, 13 de dezembro de 2023
LIÇÕES DE ARQUITETURA (POEMA DO MARANHENSE FERREIRA GULLAR)
LIÇÕES DE ARQUITETURA
Ferreira Gullar
Para Oscar Niemeyer
No ombro do planeta (em Caracas) Oscar depositou para sempre uma ave uma flor
(ele não faz de pedra nossas casas: faz de asa)
No coração de Argel sofrida fez aterrizar uma tarde uma nave estelar e linda como ainda há de ser a vida
(com seu traço futuro Oscar nos ensina que o sonho é popular)
Nos ensina a sonhar mesmo se lidamos com matéria dura: o ferro o cimento a fome da humana arquitetura
nos ensina a viver no que ele transfigura: no açúcar da pedra no sonho do ovo na argila da aurora na pluma da neve na alvura do novo Oscar nos ensina que a beleza é leve
Poemas e Poesias terça, 12 de dezembro de 2023
DITOSOS A QUEM ACENA (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)
DITOSOS A QUEM ACENA
Fernando Pessoa
MARINHA
Ditosos a quem acena Um lenço de despedida! São felizes : têm pena… Eu sofro sem pena a vida.
Dôo-me até onde penso, E a dor é já de pensar, Órfão de um sonho suspenso Pela maré a vazar…
E sobe até mim, já farto De improfícuas agonias, No cais de onde nunca parto, A maresia dos dias.
Poemas e Poesias segunda, 11 de dezembro de 2023
ROBESPIERRE (POEMA DO FLUMINENSE EUCLIDES DA CUNHA)
ROBESPIERRE
Eulides da Cunha
Alma inquebrável – bravo sonhador De um fim brilhante, de um poder ingente, De seu cérebro audaz, a luz ardente É que gerava a treva do Terror!
Embuçado num lívido fulgor Su’alma colossal, cruel, potente, Rompe as idades, lúgubre, fremente, Cheia de glórias, maldições e dor!
Há muito que, soberba, essa’alma ardida Afogou-se cruenta e destemida Num dilúvio de luz: Noventa e três...
Há muito já que emudeceu na história Mas ainda hoje a sua atroz memória É o pesadelo mais cruel dos reis!...
Poemas e Poesias domingo, 10 de dezembro de 2023
TROVAS HUMORÍSTICAS - 24 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
TROVA HUMORÍSTICA 24
Eno Teodoro Wanke
Eva: a primeira poesia
Escrita do prório punho
Por Deus, no sétimo dia,
Adão serviu de rascunho
Poemas e Poesias sábado, 09 de dezembro de 2023
SAUDADE (POEMA DO PIAUIENSE DA COSTA E SILVA)
SAUDADE
Da Costa e Silva
Saudade! Olhar de minha mãe rezando, E o pranto lento deslizando em fio… Saudade! Amor da minha terra… O rio Cantigas de águas claras soluçando.
Noites de junho… O caburé com frio, Ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando… E, ao vento, as folhas lívidas cantando A saudade imortal de um sol de estio.
Saudade! Asa de dor do Pensamento! Gemidos vãos de canaviais ao vento… As mortalhas de névoa sobre a serra…
Saudade! O Parnaíba – velho monge As barbas brancas alongando… E, ao longe, O mugido dos bois da minha terra…
Poemas e Poesias sábado, 09 de dezembro de 2023
CANÇÃO DA FORMOSURA (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)
CANÇÃO DA FORMOSURA
Cruz e Sousa
Vinho de sol ideal canta e cintila Nos teus olhos, cintila e aos lábios desce, Desce a boca cheirosa e a empurpurece, Cintila e canta após dentre a pupila.
Sobe, cantando, a limpidez tranqüila Da tu'alma estrelada e resplandece, Canta de novo e na doirada messe Do teu amor, se perpetua e trila...
Canta e te alaga e se derrama e alaga... Num rio de ouro, iriante, se propaga Na tua carne alabastrina e pura.
Cintila e canta na canção das cores, Na harmonia dos astros sonhadores, A Canção imortal da Formosura!
Poemas e Poesias sexta, 08 de dezembro de 2023
SENTIMENTO DUM OCIDENTAL - HORAS MORTAS (POEMA DO PORTUGUÊS CESÁRIO VERDE)
SENTIMENTO DUM OCIDENTAL - HORAS MORTAS
Cesário Verde
O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.
Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.
E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.
Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!
Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.
Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!
Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.
E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.
Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.
E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.
E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!
Poemas e Poesias quinta, 07 de dezembro de 2023
REINVENTANDO (POEMA DA CARIOCA CECÍLIA MEIRELES)
REINVENÇÃO
Cecília Meireles
A vida só é possível reinventada.
Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas, pelas folhas… Ah! tudo bolhas que vem de fundas piscinas de ilusionismo… — mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços. Projeto-me por espaços cheios da tua Figura. Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço… Só — no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva. Só — na treva, fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.
Poemas e Poesias terça, 05 de dezembro de 2023
OITAVAS A NAPOLEÃO (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)
OITAVAS A NAPOLEÃO
Castro Alves
Águia das solidões!... Ninho atrevido Foram-te as borrascosas tempestades, Flamígero cometa suspendido Sobre o céu infinito das idades. Tu que, no lago intérmino do olvido, Lançaste tuas régias claridades... Deus caído do trono dos mais deuses Quem recebeu teus últimos adeuses?
Não foram as Pirâmides, que ouviram De teus passos o som e se inclinaram... Nem as águas do Nilo, que te viram, E coas ondas teu nome murmuraram... Não foram as cidades, que brandiram As torres como facho... te aclararam... Quem foi? Silêncio!.. trêmulo de medo Vejo apenas — um mar... vejo — um rochedo...
A terra, o mar, os céus... espaço estreito Eram pra tua planta de gigante, Para tecto dos paços teus foi feito O firmamento colossal, flutuante Como diadema — os sóis... E como leito O antártico pólo de diamante... Teu féretro qual foi?... Titão do Sena, O penhasco fatal de Santa Helena...
Assassina do Encélado da guerra Só tu foste, Albion... do mar senhora... Por quê? Porque um pedaço aí de terra Foi pedir-te o gigante em negra hora... E lhe deste um penhasco... Oh! Lá sencerra Tua lenda mais hórrida... Traidora! Lá seu espectro envolto, na mortalha Aos quatro céus a maldição espalha...
Ao leão, que temias, enjaulaste; E de longe escutando seu rugido, Tu, senhora do mar... tu desmaiaste! Pelo punhal traidor ele ferido Caiu-te aos pés... Então tu respiraste, Cobarde vencedora do vencido... Nem mesmo todo o oceano poderia Lavar este padrão de covardia...
Tu não és tão culpada!... Aonde estava A França tão potente e tão temida?... Oh! por que o não salvou?... se o contemplava Lá dos gelos dos Alpes — soerguida!?... E ele que a fez tão grande?... Ela folgava!... Enquanto ao longe do colosso a vida, Como um vulcão antigo e moribundo Lento expirava nesse mar profundo.
Poemas e Poesias segunda, 04 de dezembro de 2023
ASSIM! (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)
ASSIM!
Casimiro de Abreu
Viste o lírio da campina? Lá s'inclina E murcho no hastil pendeu! - Viste o lírio da campina? Pois, divina, Como o lírio assim sou eu!
Nunca ouviste a voz da flauta, A dor do nauta Suspirando no alto mar? - Nunca ouviste a voz da flauta? Como o nauta É tão triste o meu cantar!
Não viste a rola sem ninho No caminho Gemendo, se a noite vem? - Não viste a rola sem ninho? Pois, anjinho, Assim eu gemo, também!
Não viste a barca perdida, Sacudida Nas asas dalgum tufão? - Não viste a barca fendida? Pois querida Assim vai meu coração!
Poemas e Poesias domingo, 03 de dezembro de 2023
SONETO DAS METAMORFOSES (POEMA DO PERNAMBUCANO CARLOS PENA FILHO)
SONETO DAS METAMORFOSES
Carlos Pena Filho
A Edmundo Morais
Carolina, a cansada, fez-se espera e nunca se entregou ao mar antigo. Não por temor ao mar, mas ao perigo de com ela incendiar-se a primavera.
Carolina, a cansada que então era, despiu, humildemente, as vestes pretas e incendiou navios e corvetas já cansada, por fim, de tanta espera.
E cinza fez-se. E teve o corpo implume escandalosamente penetrado de imprevistos azuis e claro lume.
Foi quando se lembrou de ser esquife: abandonou seu corpo incendiado e adormeceu nas brumas do Recife.
Poemas e Poesias sábado, 02 de dezembro de 2023
CERTAS PALAVRAS (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMOND DE ANDRADE)
CERTAS PALAVRAS
Carlos Drummond de Andrade
Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar e hora qualquer. Estritamente reservadas para companheiros de confiança, devem ser sacralmente pronunciadas em tom muito especial lá onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança.
Entretanto são palavras simples: definem partes do corpo, movimentos, atos do viver que só os grandes se permitem e a nós é defendido por sentença dos séculos.
E tudo é proibido. Então, falamos.
Poemas e Poesias sexta, 01 de dezembro de 2023
SONETO 154 - DOS ILUSTRES ANTIGOS QUE DEIXARAM (POEMA DO PORTUGUÈS LUÍS DE CAMÕES)
SONETO 154 - DOS ILUSTRES ANTIGOS QUE DEIXARAM (POEMA DO PORTUGUÈS LUÍS DE CAMÕES)
DOS ILUSTRES ANTIGOS QUE DEXARAM
Soneto 154
Luís de Camões
Dos antigos Illustres, que deixárão Hum nome digno de immortal memoria, Ficou por luz do tempo a larga historia Dos feitos em que mais se avantajárão.
Se com suas acções se cotejárão Mil vossas, cada huma tão notoria, Vencêra a menor dellas a mor gloria Que elles em tantos annos alcançárão.
A gloria sua foi: ninguem lha tome: Seguindo cada qual varios caminhos Estatuas mereceo no heroico Templo.
Vós honra Portugueza e dos Coutinhos, Clarissimo Dom João, com melhor nome A vós encheis de gloria, a nós de exemplo.
Poemas e Poesias quinta, 30 de novembro de 2023
CEM TROVAS - 014 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)
)
TROVA 014
Belmiro Braga
Não devo guardar ressábios da nossa extinta afeição: morto me trazes nos lábios e, vivo, no coração
Poemas e Poesias quarta, 29 de novembro de 2023
ETERNA MÁGOA (POEMA DO PARAIBANO AUGUSTO DOS ANJOS)
ETERNA MÁGOA
Augusto dos Anjos
O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo, o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga!
Não crê em nada, pois, nada há que traga Consolo à Mágoa, a que só ele assiste. Quer resistir, e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.
Sabe que sofre, mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida, é que essa mágoa infinda
Transpõe a vida do seu corpo inerme; E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda!
Poemas e Poesias terça, 28 de novembro de 2023
MEUSONHO (POEMA DO PAULISTA ÁLVARES DE AZEVEDO)
MEU SONHO
Álvares de Azevedo
EU
Cavaleiro das armas escuras, Onde vais pelas trevas impuras Com a espada sanguenta na mão? Por que brilham teus olhos ardentes E gemidos nos lábios frementes Vertem fogo do teu coração?
Cavaleiro, quem és? — O remorso? Do corcel te debruças no dorso...
E galopas do vale através... Oh! da estrada acordando as poeiras Não escutas gritar as caveiras E morder-te o fantasma nos pés?
Onde vais pelas trevas impuras, Cavaleiro das armas escuras, Macilento qual morto na tumba?... Tu escutas... Na longa montanha Um tropel teu galope acompanha? E um clamor de vingança retumba?
Cavaleiro, quem és? que mistério... Quem te força da morte no império Pela noite assombrada a vagar?
O FANTASMA
Sou o sonho de tua esperança, Tua febre que nunca descansa, O delírio que te há de matar!...
Poemas e Poesias segunda, 27 de novembro de 2023
PERFUME DA ROSA (POEMA DO ORTUGUÊS ALMEIDA GARRETT)
PERFUME DA ROSA
Almeida Garrett
Quem bebe, rosa, o perfume Que de teu seio respira? Um anjo, um silfo? Ou que nume Com esse aroma delira?
Qual é o deus que, namorado, De seu trono te ajoelha, E esse néctar encantado Bebe oculto, humilde abelha?
— Ninguém? — Mentiste: essa frente Em languidez inclinada, Quem ta pôs assim pendente? Dize, rosa namorada.
E a cor de púrpura viva Como assim te desmaiou? E essa palidez lasciva Nas folhas quem ta pintou?
Os espinhos que tão duros Tinhas na rama lustrosa, Com que magos esconjuros Tos desarmaram, ó rosa?
E porquê, na hástia sentida Tremes tanto ao pôr do sol? Porque escutas tão rendida O canto do rouxinol?
Que eu não ouvi um suspiro Sussurrar-te na folhagem? Nas águas desse retiro Não espreitei a tua imagem?
Não a vi aflita, ansiada… — Era de prazer ou dor? — Mentiste, rosa, és amada, E tu também tu amas, flor.
Mas ai! se não for um nume O que em teu seio delira, Há-de matá-lo o perfume Que nesse aroma respira.
Poemas e Poesias domingo, 26 de novembro de 2023
VIA CRUCIS (POEMA DO GAÚCHO ALCEU WAMOSY)
VIA CRUCIS
Alceu Wamosy
Ó calvário do Verso! Ó Gólgota da Rima! Como eu já trago as mãos e os tristes pés sangrentos, De te escalar, assim, nesta ânsia que me anima, Neste ardor que me impele aos grandes sofrimentos…
Esta mágoa, esta dor, nada existe que exprima! Sinto curvar-me o joelho a todos os momentos! E quanto falta, Deus, para chegar lá em cima, Onde o pranto termina e cessam os tormentos…
Mas é preciso! Sim! É preciso que eu carpa, Que eu soluce, que eu gema e que ensanguente a escarpa, Para esse fim chegar, onde meus olhos ponho!
Hei de ascender, subir, levando sobre os ombros, Entre pragas, blasfêmias, gemidos e assombros, A eterna Cruz pesada e negra do meu Sonho!
Poemas e Poesias sábado, 25 de novembro de 2023
LISBOA (POEMA DO FLUMINENSE ALBERTO DE OLIVEIRA)
LISBOA
Alberto de Oliveira
Ó Cidade da Luz! Perpétua fonte De tão nítida e virgem claridade, Que parece ilusão, sendo verdade, Que o sol aqui feneça e não desponte...
Embandeira-se em chamas o horizonte: Um fulgor áureo e róseo tudo invade: São mil os panoramas da Cidade, Surge um novo mirante em cada monte.
Ó Luz ocidental, mais que a do Oriente Leve, esmaltada, pura e transparente, Claro azulejo, madrugada infinda!
E és, ao sol que te exalta e te coroa, — Loira, morena, multicor Lisboa! — Tão pagã, tão cristã, tão moira ainda...
Poemas e Poesias sexta, 24 de novembro de 2023
LETRA: FERIDA EXPOSTA AO TEMPO (POEMA DO MINEIRO AFFONSO ROMANO DE SANT*ANNA)
LETRA: FERIDA EXPOSTA AO TEMPO
Affonso Romano de Sant'Anna
É forçoso dizer que me faz falta o poema que existe e nunca li, como se alhures brotassem coisas que não vi e que distantes, carentes, dependessem de mim. Algo como se o intocado fosse a sinfonia inacabada, mais:rasgada como o quadro nunca esboçado, perdido na abatida mão do artista.
O ausente é uma planta que na distância se arvora e é tão presente quando o passado que aflora.
E a literatura, mais que avenida ou praça por onde cavalga a glória, é um monumento, sim, de dúbia estória: granito e rima, alegoria ao vento, lugar onde carentes e arrogantes cravamos nosso nome de turista: -estive aqui, desamado, riscando a pedra e o tempo expondo meu sangue e nome com o coração trespassado.
Poemas e Poesias quinta, 23 de novembro de 2023
POEMA COMEÇADO DO FIM (POEMA DA MINEIRA ADÉLIA PRADO)
POEMA COMEÇADO DO FIM
Adélia Prado
Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.
Poemas e Poesias quarta, 22 de novembro de 2023
A MORTE EM MIM (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)
A MORTE EM MIM
Vinícius de Moraes
A morte em mim. Alguém (o medo) desce Uma rua noturna, e de repente Vê, soturna, no céu, a Lua, e sente O horror da Lua, e súbito enlouquece.
A morte em cada ser. E alguém (a mágoa) Que por insone chega-se à janela Possui a mesma Lua dentro dela Que em sua carne se transforma em água.
A Poesia em tudo. E a doçura de não ser mais. Ficará Sentado, na vertente, junto ao rio Vendo umas nuvens brancas, vendo o rio.
Poemas e Poesias terça, 21 de novembro de 2023
SUGESTÕES DO CREPÚSCULO (POEMA DO PAULISTA VICENTE DE CARVALHO)
SUGESTÕES DO CREPÚSCULO
Vicente de Carvalho
Ao pôr do sol, pela tristeza Da meia-luz crepuscular, Tem a toada de uma reza A voz do mar.
Aumenta, alastra e desce pelas Rampas dos morros, pouco a pouco, O ermo de sombra, vago e oco, Do céu sem sol e sem estrelas.
Tudo amortece; a tudo invade Uma fadiga, um desconforto... Como a infeliz serenidade Do embaciado olhar de um morto.
Domada então por um instante Da singular melancolia De em torno- apenas balbucia A voz piedosa do gigante.
Toda se abranda a vaga hirsuta, Toda se humilha, a murmurar... Que pede ao céu que não a escuta A voz do mar?
-II-
Estranha voz, estranha prece Aquela prece e aquela voz, Cuja humildade nem parece Provir do mar bruto e feroz;
Do mar, pagão criado às soltas Na solidão, e cuja vida Corre, agitada e desabrida, Em turbilhões de ondas revoltas;
Cuja ternura assustadora Agride a tudo que ama e quer, E vai, nas praias onde estoura, Tanto beijar como morder...
Torvo gigante repelido Numa paixão lasciva e louca, É todo fúria: em sua boca Blasfema a dor, mora o rugido.
Sonha a nudez: brutal e impuro, Branco de espuma, ébrio de amor, Tenta despir o seio duro E virginal da terra em flor.
Debalde a terra em flor, com o fito De lhe escapar, se esconde — e anseia Atrás de cômoros de areia E de penhascos de granito:
No encalço dessa esquiva amante Que se lhe furta, segue o mar; Segue, e as maretas solta adiante Como matilha, a farejar.
E, achado o rastro, vai com as suas Ondas e a sua espumarada Lamber, na terra devastada, Barrancos nus e rochas nuas...
-III-
Mais formidável se revela, E mais ameaça, e mais assombra A uivar, a uivar, dentro da sombra Nas fundas noites de procela.
Tremendo e próximo se escuta Varrendo a noite, enchendo o ar, Como o fragor de uma disputa Entreo tufão, o céu e o mar.
Em cada ríspida rajada O vento agride o mar sanhudo: Roça-lhe a face, com o agudo Sibilo de uma chicotada.
De entre a celeuma, um estampido Avulta e estoura, alto e maior, Quando, tirano enfurecido, Troveja o céu ameaçador.
De quando em quando, um tênue risco De chama vem, da sombra em meio... E o mar recebe em pleno seio A cutilada de um corisco.
Mas a batalha é sua, vence-a: Cansa-se o vento, afrouxa... e assim Como uma vaga sonolência O luar invade o céu sem fim...
Donas do campo, as ondas rugem; E o monstro impando de ousadia, Pragueja, insulta, desafia O céu, cuspindo-lhe a salsugem.
-IV-
A alma raivosa e libertina Desse tenaz batalhador Que faz do escombro e da ruína Como os troféus do seu amor;
A alma rebelde e mal composta Desse pagão e desse ateu Que retalia e dá respostas À mesma cólera do céu;
A alma arrogante, a alma bravia Do mar, que vive a combater, Comove-se à melancolia Conventual do entardecer...
No seu clamor esmorecido Vibra, indistinta e espiritual, Alguma coisa do gemido De um órgão numa catedral.
E pelas praias aonde descem Do firmamento - a sombra e a paz; E pelas várzeas que emudecem Com os derradeiros sabiás;
Ouvem os ermos espantados Do mar contrito no clamor A confidência dos pecados Daquele eterno pecador.
Escutem bem... Quando entardece, Na meia-luz crepuscular Tem a toada de uma prece A voz tristíssima do mar...
Poemas e Poesias segunda, 20 de novembro de 2023
NARCISO CEGO (POEMA DO AMAZONENSE THIAGO DE MELLO)
NARCISO CEGO
Thiago de Mello
Tudo o que de mim se perde acrescenta-se ao que sou. Contudo, me desconheço. Pelas minhas cercanias passeio — não me frequento.
Por sobre fonte erma e esquiva flutua-me, íntegra, a face. Mas nunca me vejo: e sigo com face mal disfarçada. Oh que amargo é o não poder rosto a rosto contemplar aquilo que ignoto sou; distiguir até que ponto sou eu mesmo que me levo ou se um nume irrevelável que (para ser) vem morar comigo, dentro de mim, mas me abandona se rolo pelos declives do mundo.
Desfaço-me do que sonho: faço-me sonho de alguém oculto. Talvez um Deus sonhe comigo, cobice o que eu guardo e nunca usei.
Cego assim, não me decifro. E o imaginar-me sonhado não me completa: a ganância de ser-me inteiro prossegue. E pairo — pânico mudo — entre o sonho e o sonhador.
Poemas e Poesias domingo, 19 de novembro de 2023
HARPA XXXIV - VSÕES (POEMA DO MARANHENSE SOUSÂNDRADE)
HARPA XXXIV - VISÕES
Sousândrade
(...) Eu despertava em meu delírio Ante a realidade! a virgem morta, Pálida e fria a reconheço, eu rujo! E de homem ver-me, comecei chorar. — Quis seu corpo aquecer sobre o meu corpo; Uni sua boca à minha, a voz lhe dando, Que o túmulo não guarda. Em verdes folhas Nua deitei-a, as mãos postas, e as tranças Escorreram-lhe em torno. Dias, dias Preso a seus pés levei a contemplá-la! Grandes e abertos sobre mim ficaram Seus olhos fixos e vidrados, longos Como a meditação de uma sentença!
(...) Eu vi! — seu corpo transparente inchando; Perderem-se os seus olhos nas suas faces; Humor fétido escoa-se da carne, Tão pura e fresca, tão cheirosa inda ontem, Que ela amou apertar em mim, d'insonte Frenética de amor, nervosa e trêmula! Formosa ondulação das castas ancas, Dos seios virginais, da alva cintura Bela voluptuosa... disformou-se Em repugnante, (quem a vira e amara!) Em nojenta, esverdeada, monstruosa Onda de podridão! Zumbiam moscas, Famintos corvos sobre mim se atiram, Recurvas unhas regaçando e abrindo Negras asas e o bico, triunfantes Soltando agouros! Eu a defendia Da ave e do inseto, que irritados vêem-me.
(...)
(...) Eu quis limpá-la Desses monstros horríveis, que a comiam Diante mim! porém, tudo era imundícia, Oh! quantas vezes me lancei sobre ela, Julgando tudo amores, tudo encantos Dela emanando em límpidos arroios! Fujo de nojo... de piedade eu volto... Depois, como as enchentes pluviais Escoando, que os troncos já se amostram, Seus ossos vão ficando descobertos. Oh! mirrado eu fiquei do sofrimento, De tanta dor curtir! E tu, ó Deus, Que tudo acabas, sofrerás também? Porque tão miseráveis nos fizeste, Deus d'escárnio? teus filhos nós não somos... Que sorte de alimento ou de deleite Encontras na desgraça desumana?
Belo horror da existência — formosura, Filha da natureza engrandecida No seu pecado e morte, meteoro Enganoso da noite, flor vermelha Em veneno banhada, mulher bela! — Tudo ali 'stá! — ó mundo! mundo... mundo...
(...) Embalde interroguei mudo cadáver, E os ossos amarelos nem respondem! Mas, aqui a mulher não é perjura: Só lembrança de amor santo evapora — A beleza se forma ao pensamento, À saudade suas véstias se derramam.
(...)
Poemas e Poesias sábado, 18 de novembro de 2023
O AGREGADO (POEMA DE PATATIVA DO ASSARÉ, COM O AUTOR) VÍDEO
Poemas e Poesias sexta, 17 de novembro de 2023
CERTEZA (POEMA DO BAIANO RICARDO LIMA)
CERTEZA
Ricardo Lima
Firmeza, certeza.
Certeza, firmeza.
Abalo, badalo, ralo.
Certeza, deseja, firmeza.
Poemas e Poesias quinta, 16 de novembro de 2023
PÓRTICO (POEMA DO FLUMINENSE RAUL DE LEÔNI)
PÓRTICO
Raul de Leôni
Alma de origem ática, pagã, Nascida sob aquele firmamento Que azulou as divinas epopéias, Sou irmão de Epicuro e de Renan, Tenho o prazer sutil do pensamento E a serena elegância das idéias...
Há no meu ser crepúsculos e auroras, Todas as seleções do gênio ariano, E a minha sombra amável e macia Passa na fuga universal das horas, Colhendo as flores do destino humano Nos jardins atenienses da Ironia...
(...)
Meu pensamento livre, que se achega De ideologias claras e espontâneas, É uma suavíssima cidade grega, Cuja memória É uma visão esplêndida na história Das civilizações mediterrâneas.
Cidade da Ironia e da Beleza, Fica na dobra azul de um golfo pensativo, Entre cintas de praias cristalinas, Rasgando iluminuras de colinas, Com a graça ornamental de um cromo vivo: Banham-na antigas águas delirantes, Azuis, caleidoscópicas, amenas, Onde se espelha, em refrações distantes, O vulto panorâmico de Atenas...
Entre os deuses e Sócrates assoma E envolve na amplitude do seu gênio Toda a grandeza grega a que remonto; Da Hélade dos heróis ao fim de Roma, Das cidades ilustres do Tirreno Ao mistério das ilhas do Helesponto...
Cidade de virtudes indulgentes, Filha da Natureza e da Razão, — Já eivada da luxúria oriental, — Ela sorri ao Bem, não crê no Mal, Confia na verdade da Ilusão E vive na volúpia e na sabedoria, Brincando com as idéias e com as formas...
(...)
Revendo-se num século submerso. Meu pensamento, sempre muito humano, É uma cidade grega decadente, Do tempo de Luciano, Que, gloriosa e serena, Sorrindo da palavra nazarena, Foi desaparecendo lentamente, No mais suave crepúsculo das coisas...
Poemas e Poesias quarta, 15 de novembro de 2023
KREMME (POEMA DO PERNAMBUCANO OLEGÁRIO MARIANO)
KREMME
Olegário Mariano
Foi um dia de kremesse. Depois de rezá três prece Pra que os santo me ajudasse, Deus quis que nós se encontrasse Pra que nós dois se queresse, Pra que nós dois se gostasse.
Inté os sinos dizia Na matriz da freguezia Que embora o tempo corresse, Que embora o tempo passasse, Que nós sempre se queresse, Que nós sempre se gostasse.
Um dia, na feira, eu disse Com a voz cheia de meiguice Nos teus ouvido, bem doce: Rosinha si eu te falasse... Si eu te beijasse na face... Tu me dás-se um beijo? — Dou-se.
E toda a vez que nos vemo, A um só tempo perguntemo Tu a mim, eu a vancê: Quando é que nós se casemo, Nós que tanto se queremo, Pro que esperamos pro quê?
Vancê não falou comigo E eu com vancê, pro castigo, Deixei de falá também, Mas, no decorrê dos dia, Vancê mais bem me queria E eu mais te queria bem.
— Cabôco, vancê não presta, Vancê tem ruga na testa, Veneno no coração. — Rosinha, vancê me xinga, Morde a surucucutinga, Mas fica o rasto no chão.
E de uma vez, (bem me lembro!) Resto de safra... Dezembro... Os carro afundando o chão. Veio um home da cidade E ao curuné Zé Trindade Foi pedi a sua mão.
Peguei no meu cravinote Dei quatro ou cinco pinote Burricido como o quê, Jurgando, antes não jurgasse, Que tu de mim não gostasse, Quando eu só amo a vancê.
Esperei outra kremesse Que o seu vigário viesse Pra que nós dois se casasse. Mas Deus não quis que assim sesse Pro mais que nós se queresse Pro mais que nós se gostasse.
Poemas e Poesias terça, 14 de novembro de 2023
AS ÍNDIAS (POEMA DO CARIOCA OLAVO BILAC)
AS ÍNDIAS
Olavo Bilac
Se a atração da ventura os sonhos te arrebata,
Conquistador, ao largo! A tua alma sedenta
Quer a glória, a conquista, o perigo, a tormenta?
Ao largo! saciarás a ambição que te mata!
Bela, verás surgir, da água azul que a retrata,
Catai, a cujos pés o mar em flor rebenta;
E Cipango verás, fabulosa e opulenta,
Apunhalando o céu com as torres de ouro e prata.
Pisarás com desprezo as pérolas mais belas!
De mirra, de marfim, de incenso carregadas,
Se arrastarão, arfando, as tuas caravelas.
E, a aclamar-te Senhor das Terras e dos Mares,
Os régulos e os reis das ilhas conquistadas
Se humilharão, beijando o solo que pisares...
Poemas e Poesias segunda, 13 de novembro de 2023
OS ARROIOS (POEMA DO GAÚCHO MÁRIO QUINTANA)
OS ARROIOS
Mário Quintana
Os arroios são rios guris… Vão pulando e cantando dentre as pedras. Fazem borbulhas d’água no caminho: bonito! Dão vau aos burricos, às belas morenas, curiosos das pernas das belas morenas. E às vezes vão tão devagar que conhecem o cheiro e a cor das flores que se debruçam sobre eles nos matos que atravessam e onde parece quererem sestear. Às vezes uma asa branca roça-os, súbita emoção como a nossa se recebêssemos o miraculoso encontrão de um Anjo… Mas nem nós nem os rios sabemos nada disso. Os rios tresandam óleo e alcatrão e refletem, em vez de estrelas, os letreiros das firmas que transportam utilidades. Que pena me dão os arroios, os inocentes arroios…
Poemas e Poesias domingo, 12 de novembro de 2023
O PERSONAGEM - RETRATO DE IRMÃO (POEMA DO MATO-GROSSENSE MANOEL DE BARROS)
O PERSONAGEM RETRATO DE IRMÃO
Manoel de Barros
Era um ente irresolvido entre vergôntea e lagarto. Tordos que externam desterro sentavam nele. Sua voz era curva pela forma escura da boca. (Voz de sótão com baratas luminosas.) Dava sempre a impressão que estivesse saindo de um bueiro cheio de estátuas. — Conforme o viver de um homem, seu ermo cede — ensinava. Era a cara de um lepidóptero de pedra. E tinha um modo de lua entrar em casa. Deixou-nos um TRATADO DE METAMORFOSES cuja Parte XIX, Livro de pré-coisas, transcrevemos.
Poemas e Poesias sábado, 11 de novembro de 2023
ESTRELA DA MANHÃ (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)
ESTRELA DA MANHÃ
Manuel Bandeira
Eu queria a estrela da manhã Onde está a estrela da manhã? Meus amigos meus inimigos Procurem a estrela da manhã
Ela desapareceu ia nua Desapareceu com quem? Procurem por toda à parte
Digam que sou um homem sem orgulho Um homem que aceita tudo Que me importa? Eu quero a estrela da manhã
Três dias e três noite Fui assassino e suicida Ladrão, pulha, falsário
Virgem mal-sexuada Atribuladora dos aflitos Girafa de duas cabeças Pecai por todos pecai com todos
Pecai com malandros Pecai com sargentos Pecai com fuzileiros navais Pecai de todas as maneiras Com os gregos e com os troianos Com o padre e o sacristão Com o leproso de Pouso Alto Depois comigo
Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas [comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples Que tu desfalecerás
Procurem por toda à parte Pura ou degradada até a última baixeza Eu quero a estrela da manhã.
Poemas e Poesias sexta, 10 de novembro de 2023
A SERTANEJA (POEMA DO CARIOCA LUÍS GUIMARÃES JÚNIOR)
A SERTANEJA
Luís Guimarães Júnior
Eu sou a virgem morena, Robusta, lesta, pequena, Como a cabrita montês; Vivo cercada de amores, E Aquele que fez as flores, Irmã das flores me fez.
Vinde ver, oh boiadeiros, Meus vestidos domingueiros, Meus braços limpos e nus: Ah! vinde ver-me enfeitada Com minha saia engomada, Com meus tamancos azuis.
Sertanejos, sertanejos, Pedis debalde os meus beijos, Em vão pedis meu amor! Eu sou a agreste cotia, Que se expõe à pontaria, E ri-se do caçador!
A sertaneja morena Bonita, forte, pequena, Não cai na armadilha, não; A jaçanã corre e voa Quando vê sobre a lagoa A sombra do gavião.
Sou órfã, donzela e pobre, Vistosa telha não cobre O lar que herdei de meus pais; Que importa? Vivo contente; Ser moça, bela e inocente É ter fortuna demais!
Quem tece e protege o ninho, Quem defende o passarinho, Quem das mãos espalha o bem, Quem fez o sol e as estrelas, Dando a virtude às donzelas Deu-lhes a força também.
A Virgem nunca se esquece Da mais tosca e simples prece Que voa ao seio de Deus: Por cada infeliz que chora Abre na terra uma aurora, Crava uma estrela nos céus.
Sertanejos, sertanejos, Podeis morrer de desejos Que eu não me temo de vós! A sertaneja faceira É mais que a paca ligeira Mais que a andorinha veloz.
Sou viva, arisca, medrosa,,, Bem como a onça raivosa Pronta ao mais leve rumor! No meu cabelo selvagem Sente-se a morna bafagem Das matas virgens em flor.
No samba quem puxa a fieira Melhor, melhor que a trigueira Maravilha dos sertões? Que peito mais brando anseia, Quem mais gentil sapateia, Quem pisa mais corações?
Ai gentes! Ai boiadeiros! Não sois decerto os primeiros Que o meu olhar cativou: Desta morena a doçura É como frecha segura: Peito que encontra — rasgou!
Minha rede é perfumada Como a folha machucada De verde malva maçã; Nela me embalo sonhando, E dela salto cantando Quando vem rindo a manhã.
Sonho com jambos e rosas, Co´as madrugadas formosas Deste formoso sertão; Meu sonho é como a canoa, Que voa, que voa e voa Nas águas do ribeirão.
Trago no seio guardado O rosário abençoado Que minha mãe me deixou; Ai! gentes! ai! pastorinhas! Foi que meu pranto as lavou.
Quem é mais feliz na terra? Quem mais delícias encerra, Quem mais feitiço contém? Vem, moreno boiadeiro, Desafiar meu pandeiro Com tua guitarra, — vem!
Raiou domingo! Que festa! Que barulho na floresta! Quanto rumor no sertão! Que céu! que matas cheirosas! Quanto perfume nas rosas, E quantas rosas no chão!
Vinde ouvir-me na guitarra; Não há nas brenhas cigarra Que me acompanhe, — não há! Trazei, trazei, boiadeiros, As violas, os pandeiros, Os búzios, o maracá.
Eu sou a virgem morena Robusta, lesta, pequena, Como a cabrita montês; Vivo cercada de amores, E Aquele que fez as flores Irmã das flores me fez.
Poemas e Poesias quinta, 09 de novembro de 2023
NOVA VÊNUS (POEMA DO PORTUGUÊS JÚLIO DINIS)
NOVA VÊNUS
Júlio Dinis
Salta aos ventos as tranças douradas, Meiga filha das bordas do mar, E no meio das vagas iradas Solta aos ventos o alegre cantar.
Não, não temas as nuvens sombrias, Que uma a uma se elevam d´além, Qe rodeado d´amor e alegrias, O teu céu dessas nuvens não tem.
Canta sempre, de noite as estrelas, De manhã ao luzir do arrebol, Ao passarem no mar as procelas, Ao sorrir nos outeiros o sol.
Canta sempre, ó alcione d´estas vagas Nova filha da espuma do mar, Canta sempre, e eu sentado nas fragas, Voltarei para ouvir-te cantar.
Poemas e Poesias quarta, 08 de novembro de 2023
IDEAL DE AMOR (POEMA DO ACRIANO J. G. DE ARAÚJO JORGE)
IDEAL DE AMOR
J. G. de Araújo Jorge
Odeio aquelas almas onde encontro escrita uma história que um outro antes de mim viveu... Dentro de um grande amor, o amor-próprio se irrita encontrando um romance que não seja o seu ... Quero uma alma que seja inteiramente pura, simples, e onde não haja escrita uma só linha, onde possa ir deixar um poema de ventura aquela que procuro e que há de ser só minha... Quero um amor de egoísta todo meu, inteiro, que não traga um vestígio de afeição sequer... - se para ele eu não for o seu sonho primeiro desde já renuncio a outro lugar qualquer... Somente assim desejo e quero ser amado e um grande amor somente assim posso sentir... - hei de ser seu presente... hei de ser seu passado e a esperança feliz que doure o seu porvir... Para um perfeito ideal... para encher a minha vida ser toda a minha crença em meu viver de ateu, não quero a alma que foi por outro amor possuída nem quero aquele amor que um dia não foi meu! Quero o amor em botão... fechado, pequenino, e ao calor do meu beijo há de florir então, - para ser a razão do meu próprio destino e a grandeza imortal da minha inspiração!...
Poemas e Poesias terça, 07 de novembro de 2023
PRELÚDIOS INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR
PRELÚDIOS INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR
Hilda Hilst
I
Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca Austera. Toma-me AGORA, ANTES Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes Da morte, amor, da minha morte, toma-me Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute Em cadência minha escura agonia.
Tempo do corpo este tempo, da fome Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento, Um sol de diamante alimentando o ventre, O leite da tua carne, a minha Fugidia. E sobre nós este tempo futuro urdindo Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.
Te descobres vivo sob um jogo novo. Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor, Antes do muro, antes da terra, devo Devo gritar a minha palavra, uma encantada Ilharga Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.
II
Tateio. A fronte. O braço. O ombro. O fundo sortilégio da omoplata. Matéria-menina a tua fronte e eu Madurez, ausência nos teus claros Guardados.
Ai, ai de mim. Enquanto caminhas Em lúcida altivez, eu já sou o passado. Esta fronte que é minha, prodigiosa De núpcias e caminho É tão diversa da tua fronte descuidada.
Tateio. E a um só tempo vivo E vou morrendo. Entre terra e água Meu existir anfíbio. Passeia Sobre mim, amor, e colhe o que me resta: Noturno girassol. Rama secreta.
Poemas e Poesias segunda, 06 de novembro de 2023
MOEMA (POEMA DO SERGIPANO HERMES FONTES)
MOEMA
Hermes Fontes
Rosa rubra dos Trópicos... Moema! Alma-virgem das lendas brasileiras! Irmã — pela constância — de Iracema...
Romântica-selvagem! flor de idílio, antes havido só nas verdadeiras Amorosas de Homero e de Virgílio!
Predestinada, passional Moema! Amor sacrificado! dor vivida nos sete espinhos de amoroso poema!
Virginal Dido-Elissa das florestas, mais do que abandonada — incompreendida no amor de sacrifício, a que te aprestas!
Caramuru partiu... E, como Enéas, foi para sempre! Mas, não foi sozinho, arrebatado a novas epopéias.
Foi entre os braços de outra — amante e amado — abrindo sobre as ondas o caminho à galera feliz do seu noivado.
Vendo esbater-se, no horizonte, a nave, tentou-te o Mar. E, entregue à tua sorte, foste boiando à correnteza suave...
Oh! que desgraça! e que beleza, a tua! — "Tanto era bela, no seu rosto, a Morte", e, no seu corpo, a virgindade nua!
Poemas e Poesias domingo, 05 de novembro de 2023
INDFERENÇA (POEMA DO PAULISTA GUILHERME DE ALMEIDA)
INDIFERENÇA
Guilherme de Almeida
Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado passo.
E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.
Passo esquecido de teu olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado.
Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança,
se meus olhos te alcançam quando vais
Ah! Só Deus sabe! Só nós sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança
Daqueles tempos que não voltam mais!
Poemas e Poesias sábado, 04 de novembro de 2023
RUÍNAS (POEMA DO PORTUGUÊS GUERRA JUNQUEIRO)
RUÍNAS
Guerra Junqueiro
«E é triste ver assim ir desfolhando, Vê-las levadas na amplidão do ar, As ilusões que andámos levantando Sobre o peito das mães, o eterno altar.
Nem sabe a gente já como, nem quando, Há-de a nossa alma um dia descansar! Que as almas vão perdidas, vão boiando Nesta corrente eléctrica do mar!...
Ó ciência, minha amante, é sonho belo! És fria como a folha dum cutelo... Nunca o teu lábio conheceu piedade!
Mas caia embora o velho paraíso, Caia a fé, caia Deus! sendo preciso, Em nome do Direito e da Verdade.
II
Morreu-me a luz da crença - alva cecém,
Pálida virgem de luzentas tranças
Dorme agora na campa das crianças,
Onde eu quisera repousar também.
A graça, as ilusões, o amor, a unção,
Doiradas catedrais do meu passado,
Tudo caiu desfeito, escalavrado
Nos tremendos combates da razão.
Perdida a fé, esse imortal abrigo,
Fiquei sozinho como herói antigo
Batalhando sem elmo e sem escudo.
A implacável, a rígida ciência
Deixou-me unicamente a Providência,
Mas, deixando-me Deus, deixou-me tudo».
Poemas e Poesias sexta, 03 de novembro de 2023
INVERNO (POEMA DA PAULISTA FRANCISCA JÚLIA)
INVERNO
Francisca Júlia
Outrora, quanta vida e amor nestas formosas Ribas! Quão verde e fresca esta planície, quando, Debatendo-se no ar, os pássaros, em bando, O ar enchiam de sons e queixas misteriosas.
Tudo era queixa e amor. As árvores copiosas Mexiam-se, de manso, ao resfôlego brando Da brisa que passava em tudo derramando O perfume sutil dos cravos e das rosas…
Mas veio o inverno; e vida e amor foram-se em breve… O ar se encheu de rumor e de uivos desolados… As árvores do campo, enroupadas de neve,
Sob o látego atroz da invernia que corta, São esqueletos que, de braços levantados, Vão pedindo socorro à primavera morta.
Poemas e Poesias quinta, 02 de novembro de 2023
OLHANDO O MAR (POEMA DA CARIOCA GILKA MACHADO)
OLHANDO O MAR
Gilka Machado
Sempre que fito o mar tenho a ilusão de achar-me diante de um silêncio amplo, ondulante, de um silêncio profundo, onde vozes lutassem por gritar, por lhe fugirem do invisível fundo.
Diante do mar eu fico triste, nessa mudez de quem assiste reproduções do próprio dissabor; diante do mar eu sou um mar, a outro de apor e a se indeterminar.
O mar é sempre monotonia, na calmaria ou na tempestade. Fujo de ti, ó mar que estrondas! porque a tristeza que me invade tem a continuidade das tuas ondas…
Mas te amo, ó mar, porque minha alma e a tua são bem iguais: ambas profundamente sensíveis, e amplas, e espelhantes; nelas o ambiente atua apenas superficialmente…
Calma de cismas, de êxtases, de sonhos, desesperos medonhos, ânsias de azul, de alturas… – Longos ou rápidos instantes em que me transfiguro, em que te transfiguras… Nos nossos sentimentos sem represa, nas nossas almas, quanta afinidade! – Tu sentindo por toda a natureza! – Eu sentindo por toda a humanidade!
Nos dias muito azuis, o meu olhar, atento, a descer e a se elevar, supõe o mar um espreguiçamento do céu e o céu um êxtase do mar.
Há nos ritmos da água marinha uma poesia, a mais completa, essa poesia universal da mágoa.
O mar é um cérebro em laboração, um cérebro de poeta; nas suas ondas, vêm e vão pensamentos, de roldão.
O mar, imperturbavelmente, a rolar, a rolar… O mar… – Concluo sempre que metido em sua profundeza e em sua vastidão: – o mar é o corpo, é a objetivação do espaço, do infinito.
Poemas e Poesias quarta, 01 de novembro de 2023
DE JOELHOS (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)
DE JOELHOS
Florbela Espanca
“Bendita seja a Mãe que te gerou.” Bendito o leite que te fez crescer. Bendito o berço aonde te embalou A tua ama, pra te adormecer!
Bendita essa canção que acalentou Da tua vida o doce alvorecer… Bendita seja a lua que inundou De luz, a terra, só para te ver…
Benditos sejam todos que te amarem, As que em volta de ti ajoelharem, Numa grande paixão fervente e louca!
E se mais que eu, um dia, te quiser Alguém, bendita seja essa Mulher, Bendito seja o beijo dessa boca!!
Poemas e Poesias segunda, 30 de outubro de 2023
DIGO SIM (POEMA DO MARANHENSE FERREIRA GULLAR)
DIGO SIM
Ferreira Gullar
Poderia dizer que a vida é bela, e muito, e que a revolução caminha com pés de flor nos campos de meu país, com pés de borracha nas grandes cidades brasileiras e que meu coração é um sol de esperança entre pulmões e nuvens
Poderia dizer que meu povo é uma festa só na voz de Clara Nunes no rodar das cabrochas no Carnaval da Avenida. Mas não. O poeta mente.
A vida nós a amassamos em sangue e samba enquanto gira inteira a noite sobre a pátria desigual. A vida nós a fazemos nossa alegre e triste, cantando em meio à fome e dizendo sim – em meio à violência e a solidão dizendo sim – pelo espanto da beleza pela flama de Thereza pelo meu filho perdido neste vasto continente por Vianinha ferido pelo nosso irmão caído pelo amor e o que ele nega pelo que dá e que cega pelo que virá enfim, não digo que a vida é bela tampouco me nego a ela: – digo sim
Poemas e Poesias domingo, 29 de outubro de 2023
DE QUEM É O OLHAR (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)
DE QUEM É O OLHAR
Feranndo Pessoa
De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo?
Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Para mim próprio mesmo
Em alma mal existo,
Toma um outro sentido
Em mim o Universo —
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha ideia das coisas.
Se acenderem as velas
E não houver apenas
A vaga luz de fora —
Não sei que candeeiro
Aceso onde na rua —
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora.
Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.
Poemas e Poesias sábado, 28 de outubro de 2023
RIMAS (POEMA DO FLUMINENSE EUCLIDES DA CUNHA)
RIMAS
Euclides da Cunha
Ontem – quando, soberba, escarnecias Dessa minha paixão – louca – suprema E no teu lábio, essa rósea algema, A minha vida – gélida – prendias…
Eu meditava em loucas utopias, Tentava resolver grave problema… Como engastar tua alma num poema? E eu não chorava quando tu te rias…
Hoje, que vivo desse amor ansioso E és minha – és minha, extraordinária sorte, Hoje eu sou triste sendo tão ditoso!
E tremo e choro – pressentindo – forte, Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso, Esse excesso de vida – que é a morte…
Poemas e Poesias sexta, 27 de outubro de 2023
TROVAS HUMORÍSTICAS - 23 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
TROVA HUMORÍSTICA 23
Eno Teodoro Wanke
Na casa número tanto
Na rua que sempre esqueço
Se vende não sei por quanto
Alguma coisa sem preço
Poemas e Poesias quinta, 26 de outubro de 2023
O SINAL DA CRUZ (POEMA DO PIAUIENSE DA COSTA E SILVA)
O SINAL DA CRUZ
Da Costa e Silva
Se é preciso lutar para ser forte, Se é preciso sofrer para ser puro, Em luta e sofrimento a vida apuro, Para tranqüilo merecer a morte.
Hei lutado e sofrido de tal sorte Que, a tantas provações, meu ser impuro Sonha atingir a perfeição que auguro Em resignado e místico transporte.
A existência de lutas e de penas, Como um cardo florindo entre os abrolhos, Vou bendizendo pelo bem que faço.
E quando a morte vier, resta-me apenas Juntar as mãos e levantar os olhos Para o que exista em luz além do espaço.
Poemas e Poesias terça, 24 de outubro de 2023
O SENTIMENTO OCIDENTAL - HORAS MORTAS (POEMA DO PORTUGUÊS CESÁRIO VERDE)
O SENTIMENTO OCIDENTAL - HORAS MORTAS
Cesário Verde
O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.
Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.
E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.
Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!
Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.
Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!
Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.
Poemas e Poesias segunda, 23 de outubro de 2023
RECADO AOS AMIGOS DISTANTES (POEMA DA CARIOCA CECÍLIA MEIRELES)
RECADO AOS AMIGOS DISTANTES
Cecília Meireles
Meus companheiros amados, não vos espero nem chamo: porque vou para outros lados. Mas é certo que vos amo.
Nem sempre os que estão mais perto fazem melhor companhia. Mesmo com sol encoberto, todos sabem quando é dia.
Pelo vosso campo imenso, vou cortando meus atalhos. Por vosso amor é que penso e me dou tantos trabalhos.
Não condeneis, por enquanto, minha rebelde maneira. Para libertar-me tanto, fico vossa prisioneira.
Por mais que longe pareça, ides na minha lembrança, ides na minha cabeça, valeis a minha Esperança.
Poemas e Poesias sábado, 21 de outubro de 2023
PEDRO IVO (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)
PEDRO IVO
Castro Alves
(Grafia original)
Sonhava nesta geração bastarda, Glorias e liberdade!... ....................................... Era um leão sangrento que rugia, Da gloria nos clarins se embriagava, E vossa gente pallida recuava, Quando ele apparecia. (Alvares de Azevedo)
I
Rebramam os ventos... Da negra tormenta Nos montes de nuvens galopa o corsel... Relincha... troveja... galgando no espaço Mil raios desperta co′as patas revel.
É noite de horrores... nas grunas celestes, Nas naves ethereas o vento gemeu... E os astros fugiram, qual bando de garças Das aguas revoltas do lago do céo.
E a terra é medonha... As arvores núas Espectros semelham fincados de pé, Com os braços de mumias, que os ventos retorcem, Tremendo a esse grito, que estranho lhes é.
Desperta o infinito... Co′a boca entreaberta Respira a borrasca do largo pulmão. Ao longe o oceano sacode as espaduas — Encélado novo calcado no chão.
É noite de horrores... Por invio caminho Um vulto sombrio sósinho passou, Co′a noite no peito, co′a noite no busto Subiu pelo monte... nas cimas parou.
Cabellos esparsos ao sopro dos ventos, Olhar desvairado, sinistro, fatal. Dirieis estatua roçando nas nuvens, P′ra qual a montanha se fez pedestal.
Rugia a procella — nem elle escutava!... Mil raios choviam — nem elle os fitou! Com a dextra apontando bem longe a cidade. Após largo tempo sombrio fallou!
..........
II
Dorme, cidade maldicta, Teu somno de escravidão!... Dorme, vestal da pureza, Sobre os cochins do Sultão!... Dorme, filha da Georgia. Prostituta em negra orgia, Sê hoje Lucrecia Borgia Da deshonra no balcão!...
Dormir?!... Não! Que a infame grita Lá se alevanta fatal... Corre o champagne e a deshonra Na orgia descommunal... Na fronte já tens um laço... Cadêas de ouro no braço, De perolas um baraço, — Adornos da satural!
Louca!... Nem sabe que as luzes, Que accendeu p′ra as saturnaes, São do enterro de seus brios Tristes cirios funeraes... Que o seu grito de alegria É o estertor da agonia, A que responde a ironia. Do riso de Satanaz!...
Morreste... E ao teu sahimento Dobra a procella no céo, E os astros — olhar dos mortos — A mão da noite escondeu. Vê!... Do raio mostra a lampa Mão de espectro, que destampa Com dedos de ossos a campa, Onde a gloria adormeceu.
E erguem-se as lapidas frias, Saltam bradando os heróes: «Quem ousa da eternidade Roubar-nos o somno a nós?» Responde o espectro; — A desgraça! Que a realeza que passa, Com o sangue de vossa raça, Cospe lodo sobre vós!...»
Fugi, fantasmas augustos! Caveiras que coram mais Do que essas faces vermelhas Dos infames pariás!... Fugi do solo maldicto!... Embuçai-vos no infinito!... E eu por detrás do granito Dos montes occidentaes.
Eu tambem fujo... Eu... fugindo!... Mentira desses vilões!
Não foge a nuvem trevosa Quando em azas de tufões Sobe dos céos á esplanada, Para tomar emprestada De raios uma outra espada, A luz das constellações...
Como o tigre na caverna Afia as garras no chão, Como em Elba amola a espada Nas pedras — Napoleão, Tal eu — vaga encapellada, Recúo de uma passada, P′ra levar de derribada Rochedos, reis, multidão...!
III
«Pernambuco! Um dia eu vi-te Dormido immenso ao luar, Com os olhos quasi cerrados, Com os labios — quasi a fallar... Do braço o clarim suspenso, — O punho no sabre extenso De pedra — recife immenso. Que rasga o peito do mar...
E eu disse: — Silencio, ventos! Cala a boca, furacão!
No sonho daquelle somno Perpassa a Revolução! Este olhar que não se move Stá fito em — Oitenta e Nove Lê Homero — escuta Jove... Robespierre — Dantão.
Naquelle craneo entra em ondas O verbo de Mirabeau... Pernambuco sonha a escada, Que tambem sonhou Jacob; Scisma a Republica alçada, E pega os copos da espada, Emquanto em su′alma brada: «Somos irmãos, Vergniaud!»
Então repeti ao povo: — Desperta do somno teu! Samsão! derroca as columnas! Quebra os ferros, Prometheu! Vesuvio curvo — não pares, Ignea coma solta aos ares, Em lavas inunda os mares, Mergulha o gladio no céo.
Republica!... Vòo ousado Do homem feito condor!
Raio de aurora inda occulta. Que beija a fronte ao Thabor Deus! Porqu′emquanto que o monte Bebe a luz desse horizonte, Deixas vagar tanta fronte, No valle envolto em negror?!...
Inda me lembro... Era ha pouco A lucta!... horror!... confusão!... A morte vôa rugindo Da garganta do canhão!... O bravo a fileira cerra!... Em sangue ensopa-se a terra!... E o fumo — o corvo da guerra — Com as azas cobre a amplidão...
Cheguei!... Como nuvens tontas, Ao bater no monte... além, Topam, rasgam-se, recuam... Taes a meus pés vi tambem Hostes mil na lucta ingloria... Da pyramide da gloria São degráos... Marcha a victoria, Porque este braço a sustem.
Foi uma lucta de bravos, Como a lucta do jaguar,
De sangue enrubesce a terra, De fogo enrubesce o ar!... Oh!... mas quem faz que eu não vença? — O acaso... — avalanche immensa. Da mão do Eterno suspensa, Que a idéa esmaga ao tombar!...
Não importa! A liberdade É como a hydra, o Antheu. Se no chão rola sem forças, Mais forte do chão se ergueu... São os seus ossos sangrentos Gladios terriveis, sedentos... E da cinza solta aos ventos Mais um Graccho appareceu!...
..........
Dorme, cidade maldicta, Teu somno de escravidão! Porém no vasto sacrario Do templo do coração, Atêa o lume das lampas, Talvez que um dia dos pampas Eu, surgindo, quebre as campas, Onde te colam no chão.
Adeus! Vou por ti, maldicto, Vagar nos ermos paúes.
Tu ficas morta, na sombra, Sem vida, sem fé, sem luz!... Mas quando o povo acordado Te erguer do tredo vallado, Virá livre, grande, ousado, De pranto banhar-me a cruz!...
IV
Assim fallara o vulto errante e negro, Como a estatua sombria do revez. Uiva o tufão nas dobras de seu manto, Como um cão do senhor ulula aos pés...
Inda um momento esteve solitario Da tempestade semelhante ao deus, Trocando phrases com os trovões no espaço, Raios com os astros nos sombrios céos...
Depois sumiu-se dentre as brumas densas Da negra noite — de su′alma irmã... E longe... longe... no horizonte immenso Resonava a cidade cortezã!...
Vai!... Do sertão esperam-te as Thermopylas; A liberdade inda pulula ali... Lá não vão vermes perseguir as aguias, Não vão escravos perseguir a ti!
Vai!... Que o teu manto de mil balas roto É uma bandeira que não tem rival. — Desse suor é que Deus faz os astros. Tens uma espada, que não foi punhal.
Vai, tu que vestes do bandido as roupas Mas nâo te cobres de uma vil libré. Se te renega teu paiz ingrato, O mundo, a gloria tua pátria é!...
..........
V
E foi-se... E inda hoje nas horas errantes, Que os cedros farfalham, que ruge o tufão, E os labios da noite murmuram nas selvas E a onça vaguêa no vasto sertão.
Se passa o tropeiro nas ermas devezas, Caminha medroso, figura-lhe ouvir O infrene galope d′Espectro soberbo. Com um grito de gloria na boca a rugir.
Que importa se o tum′lo ninguem lhe conhece? Nem tem epitaphio, nem leito, nem cruz!... Seu tumulo é o peito do vasto universo, Do espaço — por cupola — as conchas azues!...
Mas contam que um dia rolara o oceano Seu corpo na praia, que a vida lhe deu... Emquanto que a gloria rolava sua alma Nas margens da historia, na arêa do céo!...
Recife, Maio de 1865.
Poemas e Poesias sexta, 20 de outubro de 2023
MINH*ALMA É TRISTE (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)
MINH'ALMA É TRISTE
Casimiro de Abreu
(Grafia original)
Minh'alma é triste como a rola aflita Que o bosque acorda desde o alvor da aurora, E em doce arrulo que o soluço imita O morto esposo gemedora chora.
E, como a rôla que perdeu o esposo, Minhalma chora as ilusões perdidas, E no seu livro de fanado gozo Relê as folhas que já foram lidas.
E como notas de chorosa endeixa Seu pobre canto com a dor desmaia, E seus gemidos são iguais à queixa Que a vaga solta quando beija a praia.
Como a criança que banhada em prantos Procura o brinco que levou-lhe o rio, Minhaalma quer ressuscitar nos cantos Um só dos lírios que murchou o estio.
Dizem que há, gozos nas mundanas galas, Mas eu não sei em que o prazer consiste. — Ou só no campo, ou no rumor das salas, Não sei porque — mas a minh'alma é triste!
Poemas e Poesias quinta, 19 de outubro de 2023
SONETO DAS DEFNIÇÕES (POEMA DO PERNAMBUCANO CARLOS PENA FILHO)
SONETO DAS DEFINIÇÕES
Carlos Pena Filho
Não falarei de coisas, mas de inventos e de pacientes buscas no esquisito. Em breve, chegarei à cor do grito, à música das cores e do vento.
Multiplicar-me-ei em mil cinzentos (desta maneira, lúcido, me evito) e a estes pés cansados de granito saberei transformar em cataventos.
Daí, o meu desprezo a jogos claros e nunca comparados ou medidos como estes meus, ilógicos, mas raros.
Daí também, a enorme divergência entre os dias e os jogos, divertidos e feitos de beleza e improcedência.
Poemas e Poesias quarta, 18 de outubro de 2023
CARTA (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)
CARTA
Carlos Drummond de Andrade
Há muito tempo, sim, não te escrevo. Ficaram velhas todas as notícias. Eu mesmo envelhecí: olha em relevo estes sinais em mim, não das carícias (tão leves) que fazias no meu rosto: são golpes, são espinhos, são lembranças da vida a teu menino, que a sol-posto perde a sabedoria das crianças.
A falta que me fazes não é tanto à hora de dormir, quando dizias "Deus te abençoe", e a noite abria em sonho.
É quando, ao despertar, revejo a um canto a noite acumulada de meus dias, e sinto que estou vivo, e que não sonho.
Poemas e Poesias terça, 17 de outubro de 2023
SONETO 082 - DOCES LEMBRANÇAS DA PASSADA GLÓRIA (POEMA DO PORTUGUÈS LUÍS DE CAMÕES)
DOCES LEMBRANÇAS DA PASSADA GLÓRIA
Soneto 082
Luís de Camões
Doces lembranças da passada glória, Que me tirou fortuna roubadora, Deixai-me descansar em paz hum'hora, Que comigo ganhais pouca victoria.
Impressa tenho na alma larga historia Deste passado bem, que nunca fôra; Ou fôra, e não passára: mas ja agora Em mi não póde haver mais que a memoria.
Vivo em lembranças, morro de esquecido De quem sempre devêra ser lembrado, Se lhe lembrára estado tão contente.
Oh quem tornar pudéra a ser nascido! Soubera-me lograr do bem passado, Se conhecer soubera o mal presente.