Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Poemas e Poesias segunda, 01 de setembro de 2025

NO MEIO DO CAMINHO (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

NO MEIO DO CAMINHO

CARLOS Drummond de Andrade

Fonte: Google

 

 

 

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra

 


Poemas e Poesias domingo, 31 de agosto de 2025

SONETO 162 - GRÃO TEMPO HÁ JÁ QUE SOUBE DA VENTURA (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
SONETO 162 - GRÃO TEMPO HÁ JÁ QUE SOUBE DA VENTURA (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
  
 
SONETO 026 - GRÃO TEMPO HÁ JÁ QUE SOUBE DA VENTURA
Luís de Cazmões
(Grafia original) 
Fonte: Google
 
 
Grão tempo há já que soube da Ventura
A vida que me tinha destinada;
Que a longa experiencia da passada
Me dava claro indicio da futura.

Amor fero e cruel, Fortuna escura,
Bem tendes vossa fôrça exprimentada:
Assolai, destrui, não fique nada;
Vingai-vos desta vida, que inda dura.

Soube Amor da Ventura, que a não tinha,
E porque mais sentisse a falta della,
De imagens impossiveis me mantinha.

Mas vós, Senhora, pois que minha estrella
Não foi melhor, vivei nesta alma minha;
Que não tẽe a Fortuna poder nella.

 


Poemas e Poesias domingo, 31 de agosto de 2025

SONETO 162 -ILUSTRE O DIGNO RAMO DOS MENEZES (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
  
 
SONETO 162 -ILUSTRE O DIGNO RAMO DOS MENEZES
Luís de Camões
(Grafia original) 
Fonte: Google
 
 
llustre e digno ramo dos Menezes,
Aos quaes o providente e largo Ceo
(Que errar não sabe) em dote concedeo,
Rompessem os Maometicos arnezes;

Desprezando a Fortuna e seus revezes,
Ide para onde o Fado vos moveo;
Erguei flammas no mar alto Erythreo,
E sereis nova luz aos Portuguezes.

Opprimi com tão firme e forte peito
O Pirata insolente, que se espante
E trema Taprobana e Gedrosia.

 

 


Poemas e Poesias sábado, 30 de agosto de 2025

CEM TROVAS - 036 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)

TROVA 036

Belmiro Braga

Fonte: Google

 

 Natal. No céu e na terra

Quanta alegria! Natal!

A paz adoçando a guerra

O bem adoçando o mal

 


Poemas e Poesias sexta, 29 de agosto de 2025

A ÚLTIMA PARÁBOLA (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)

A ÚLTIMA PARÁBOLA

Vinícius de Moraes

Fonte: Google

 

No céu um dia eu vi — quando? — era na tarde roxa
As nuvens brancas e ligeiras do levante contarem a história estranha e desconhecida
De um cordeiro de luz que pastava no poente distante num grande espaço aberto.
A visão clara e imóvel fascinava os meus olhos...
Mas eis que um lobo feroz sobe de trás de uma montanha longínqua
E avança sobre o animal sagrado que apavorado se adelgaça em mulher nua
E escraviza o lobo que já agora é um enforcado que balança lentamente ao vento.
A mulher nua baila para um chefe árabe mas este corta-lhe a cabeça com uma espada
E atira-a sobre o colo de Jesus entre os pequeninos.
Eu vejo o olhar de piedade sobre a triste oferenda mas nesse momento saem da cabeça chifres que lhe ferem o rosto
E eis que é a cabeça de Satã cujo corpo são os pequeninos
E que ergue um braço apontando a Jesus uma luta de cavalos enfurecidos
Eu sigo o drama e vejo saírem de todos os lados mulheres e homens
Que eram como faunos e sereias e outros que eram como centauros
Se misturarem numa impossível confusão de braços e de pernas
E se unirem depois num grande gigante descomposto e ébrio de garras abertas.
O outro braço de Satã se ergue e sustém a queda de uma criança
Que se despenhou do seio da mãe e que se fragmenta na sua mão alçada
Eu olho apavorado a luxúria de todo o céu cheio de corpos enlaçados
E que vai desaparecer na noite mais próxima
Mas eis que Jesus abre os braços e se agiganta numa cruz que se abaixa lentamente
E que absorve todos os seres imobilizados no frio da noite.
Eu chorei e caminhei para a grande cruz pousada no céu
Mas a escuridão veio e — ai de mim! — a primeira estrela fecundou os meus olhos de poesia terrena!...


Poemas e Poesias quinta, 28 de agosto de 2025

A MENINA MENDIGA (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ)
 
MENINA MENDIGA

Patativa do Assaré

Fonte Google

 

 

De pés descalços sobre o frio chão.
Roto o vestido, em desalinho a trança.
De porta em porta a mendigar o pão.
Vai pela rua uma infeliz criança.

O seu estado causa compaixão.
Ninguém lhe nota um riso de esperança.
Sempre a estender a sua magra mão.
Canta, pedindo com voz fraca e mansa:

- Ó nobre rico, tende piedade!
Vede como ainda no verdor da idade
são dolorosos os martírios meus!

Olhai a pobre que com fome cai:
Não tenho mãe nem conheci meu pai,
dai-me uma esmola pelo amor de Deus!

 


Poemas e Poesias quarta, 27 de agosto de 2025

O MENINO DOENTE (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

O MENINO DOENTE

Manuel Bandeira

Fonte: Google

 

 

O menino dorme.
Para que o menino
Durma sossegado,
Sentada a seu lado
A mãezinha canta:

— "Dodói, vai-te embora!
"Deixa o meu filhinho.
"Dorme... dorme... meu..."

Morta de fadiga,
Ela adormeceu.
Então, no ombro dela,
Um vulto de santa,
Na mesma cantiga,
Na mesma voz dela,
Se debruça e canta:

— "Dorme, meu amor.
"Dorme, meu benzinho..."

E o menino dorme.A


Poemas e Poesias terça, 19 de agosto de 2025

UMA RECORDAÇÃO (POEMA DO PORTUGUÊS JÚLIO DINIS)

UMA RECORDAÇÃO

Júlio Dinis

Fonte: Google

 

 

 

Lembra-me ver-te inda infante,
Quando nos campos corrias
Em folguedos palpitantes;
Eras bela! E então sorrias.

Depois, na infância, eras inda,
Junto ao cadáver rezavas
De tua mãe, com dor infinda;
Eras bela! E então choravas.

Num baile vi-te valsando
Da juventude nos dias,
Todos de amor fascinando;
Eras bela! E então sorrias.

Dias depois encontrei-te;
Nos céus os olhos fitavas;
Sem me veres contemplei-te;
Eras bela! E então choravas.

Quando ao templo caminhando
Entre flores e alegrias,
De esposa a vida encetando,
Eras bela! E então sorrias.

Quando na campa do esposo
Com teu filho ajoelhavas,
Grupo inocente e saudoso!
Eras bela! e então choravas.

Num ataúde deitada
Eu te vi em breves dias,
Mimosa flor desfolhada!
Eras bela! e então sorrias.

Sorrindo, na vida entraste,
Sorrindo deixaste a vida;
Alguma flor que encontraste
A espinhos a viste unida.

Sim, às vezes tu sorrias,
E os sorrisos o que são?
Quase sempre profecias
Das penas do coração.


Poemas e Poesias terça, 19 de agosto de 2025

UMA RECORDAÇÃO (POEMA DO PORTUGUÊS JÚLIO DINIS)

 

 

 

 

 

Lembra-me ver-te inda infante,
Quando nos campos corrias
Em folguedos palpitantes;
Eras bela! E então sorrias.

Depois, na infância, eras inda,
Junto ao cadáver rezavas
De tua mãe, com dor infinda;
Eras bela! E então choravas.

Num baile vi-te valsando
Da juventude nos dias,
Todos de amor fascinando;
Eras bela! E então sorrias.

Dias depois encontrei-te;
Nos céus os olhos fitavas;
Sem me veres contemplei-te;
Eras bela! E então choravas.

Quando ao templo caminhando
Entre flores e alegrias,
De esposa a vida encetando,
Eras bela! E então sorrias.

Quando na campa do esposo
Com teu filho ajoelhavas,
Grupo inocente e saudoso!
Eras bela! e então choravas.

Num ataúde deitada
Eu te vi em breves dias,
Mimosa flor desfolhada!
Eras bela! e então sorrias.

Sorrindo, na vida entraste,
Sorrindo deixaste a vida;
Alguma flor que encontraste
A espinhos a viste unida.

Sim, às vezes tu sorrias,
E os sorrisos o que são?
Quase sempre profecias
Das penas do coração.


Poemas e Poesias segunda, 18 de agosto de 2025

NÃO SER (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

NÃO SER

Florbela Espanca

Fonte: Google

 

Quem me dera voltar à inocência
Das coisas brutas, sãs, inanimadas,
Despir o vão orgulho, a incoerência:
– Mantos rotos de estátuas mutiladas!

Ah! arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!

Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de oiro duma flor aberta!…

 


Poemas e Poesias domingo, 17 de agosto de 2025

SONETO À TUA VOLTA (POEMA DO ACRIANO J. G, DE ARAÚJO JORGE)

SONETO  À TUA VOLTA

 

J. G. de Araújo Jorge

Fonte: Google

 

 

Voltaste, meu amor... enfim voltaste!
Como fez frio aqui sem teu carinho....
A flor de outrora refloresce na haste
que pendia sem vida em meu caminho.

Obrigado... Eu vivia tão sozinho...
Que infinita alegria, e que contraste!
-Volta a antiga embriaguez porque voltaste
e é doce o amor, porque é mais velho o vinho!

Voltaste... E dou-te logo este poema
simples e humilde repetindo um tema
da alma humana esgotada e envelhecida...

Mil poetas outras voltas celebraram,
mas, que importa? – se tantas já voltaram
só tu voltaste para a minha vida...


Poemas e Poesias quarta, 13 de agosto de 2025

EROS E PSIQUE (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)

EROS E PSIQUE

Fernando Pessoa

Fonte: Google

 

 

 

Conta a lenda que dormia

Uma Princesa encantada

A quem só despertaria

Um Infante, que viria

De além do muro da estrada

 

Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,

Antes que, já libertado,

Deixasse o caminho errado

Por o que à Princesa vem.

 

A Princesa Adormecida,

Se espera, dormindo espera.

Sonha em morte a sua vida,

E orna-lhe a fronte esquecida,

Verde, uma grinalda de hera.

 

Longe o Infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado.

Ele dela é ignorado.

Ela para ele é ninguém.

 

Mas cada um cumpre o Destino —

Ela dormindo encantada,

Ele buscando-a sem tino

Pelo processo divino

Que faz existir a estrada.

 

E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro,

E, vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora.

 

E, inda tonto do que houvera,

À cabeça, em maresia,

Ergue a mão, e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.


Poemas e Poesias terça, 12 de agosto de 2025

TROVAS HUMORÍSTICAS - 44 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
  

TROVA HUMORÍSTICA 44

Eno Teodoro Wanke

Fonte: Google

 

"No Brasil é atropelado

Um sujeito de hora em hora!"

"Quê? Verdade?... Mas, coitado!

Por que ele não embora?...

 

 


Poemas e Poesias domingo, 10 de agosto de 2025

MÚMIA (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

MÚMIA

Cruz e Sousa

Fonte: Google

 

 

Múmia de sangue e lama e terra e treva,
podridão feita deusa de granito,
que surges dos mistérios do Infinito
amamentada na lascívia de Eva.

Tua boca voraz se farta e ceva
na carne e espalhas o terror maldito,
o grito humano, o doloroso grito
que um vento estranho para os limbos leva.

Báratros, criptas, dédalos atrozes
escancaram-se aos tétricos, ferozes
uivos tremendos com luxúria e cio…

Ris a punhais de frígidos sarcasmos
e deve dar congélidos espasmos
o teu beijo de pedra horrendo e frio!…


Poemas e Poesias sábado, 09 de agosto de 2025

AS DUAS ILHAS (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)

AS DUAS ILHAS

Castro Alves

(Grafia Original)

 

 

 

Sobre uma pagina da poesia de v. hugo, com o mesmo titulo

 

Quando á noite — ás horas mortas —
O silencio e a solidão
— Sob o docel do infinito —
Dormem do mar n′amplidão,
Vê-se por cima dos mares,
Rasgando o tecto dos ares
Dous gigantescos perfis...
Olhando por sobre as vagas,
Attentos, longinquas plagas
Ao clarear dos fuzis.

Quem os vê, olha espantado
E a sós murmura; « O que é?

Ai! que atalaias gigantes,
dão essas além de pé?!...
Adamastor de granito
Co′a testa roça o infinito
E a barba molha no mar;
E de pedra a cabelleira
Sacudind′a onda ligeira
Faz de medo recuar...

São — dous marcos milliarios,
Que Deus nas ondas plantou,
Dous rochedos, onde o mundo
Dous Prometheus amarrou!...
— Acolá... (Não tenhas medo!...)
É Santa Helena o — rochedo
Desse Titan que foi rei!...
— Alli... (Não feches os olhos!...)
Alli... aquelles abrolhos
São a ilha de Jersey!...

São elles — os dous gigantes
No seculo de pygmeus.
São elles — que a magestade
Arrancam da mão de Deus.
— Este concentra na fronte
Mais astros — que o horizonte,
Mais luz — do que o sol lançou!..
— Aquelle — na dextra alçada

Traz segura sua espada
— Cometa, que ao cóo roubou!...

E olham os velhos rochedos
O Sena, que dorme além...
E a França, que entre a caligem
Dorme em sudario também...
E o mar pergunta espantado:
— Foi devéras desterrado
Bonaparte — meu irmão?... —
Diz o céo astros chorando:
— E Hugo?... — E o mundo pasmando
Diz: — Hugo... Napoleão!... —

Oomo vasta reticencia
Se estende o silencio após...
És muito pequena, ó França,
P′ra conter estes heróes...
Sim! que estes vultos augustos
Para o leito de Procustos
Muito grandes Deus traçou...
Basta os reis tremam de medo
Se a sombra de algum rochedo
Sobre elles se projectou!...

Dizem que, quando, alta noite,
Dorme a terra — e vela Deus,
As duas ilhas conversam

Sem temor perante os céos,
— Jersey curva sobre os mares
A Santa Helena os pensares
Segreda do velho Hugo...
— E Santa Helena no emtanto
No Salgueiro enxuga o pranto
E conta o que Elle fallou...

E olhando o presente infame
Clamam: — Da turba vulgar
Nós — infinitos de pedra —
Nós havemol-os vingar!...
E do mar sobre as escumas,
E do céo por sobre as brumas.
Um ao outro dando a mão...
Encarara a immensidade
Bradando: — A Posteridade!... —
Deus ri se e diz: — Inda nâo!...


Poemas e Poesias segunda, 21 de julho de 2025

EU NASCI ALÉM DOS MARES (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)

EU NASCI ALÉM DOS MARES

Casimiro de Abreu

Fonte: Google

 

 

Eu nasci além dos mares:
Os meus lares,
Meus amores ficam lá!
— Onde canta nos retiros
Seus suspiros,
Suspiros o sabiá!

Oh que céu, que terra aquela,
Rica e bela
Como o céu de claro anil!
Que seiva, que luz, que galas,
Não exalas
Não exalas, meu Brasil!

Oh! que saudades tamanhas
Das montanhas,
Daqueles campos natais!
Daquele céu de safira
Que se mira,
Que se mira nos cristais!

Não amo a terra do exílio,
Sou bom filho,
Quero a pátria, o meu país,
Quero a terra das mangueiras
E as palmeiras,
E as palmeiras tão gentis!

Como a ave dos palmares
Pelos ares
Fugindo do caçador;
Eu vivo longe do ninho,
Sem carinho;
Sem carinho e sem amor!

Debalde eu olho e procuro...
Tudo escuro
Só vejo em roda de mim!
Falta a luz do lar paterno
Doce e terno,
Doce e terno para mim.

Distante do solo amado
— Desterrado —
A vida não é feliz.
Nessa eterna primavera
Quem me dera,
Quem me dera o meu país!


Poemas e Poesias domingo, 20 de julho de 2025

NO CORPO FEMININO (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

NO CORPO FEMININO

Carlos Drummond de Andrade

Fonte: Google

 

 

 

No corpo feminino, esse retiro
- a doce bunda - é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
Pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo
Em unhas protestantes, a respiro
A brisa dos planetas, no seu giro
Lento, violento... Então, se ponho tiro

A mão em concha - a mão, sábio papiro,
Iluminando o gozo, qual lampiro.
Ou se, dessedentado, já me estiro,

Me penso, me restauro, me confiro,
O sentimento da morte ei que adquiro:
De rola, a bunda torna-se vampiro.


Poemas e Poesias quarta, 09 de julho de 2025

SONETO 026 - GRÃO TEMPO HÁ JÁ QUE SOUBE DA VENTURA (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
  
 
SONETO 026 - GRÃO TEMPO HÁ JÁ QUE SOUBE DA VENTURA
Luís de Cazmões
(Grafia original) 
Fonte: Google
 
 
Grão tempo há já que soube da Ventura
A vida que me tinha destinada;
Que a longa experiencia da passada
Me dava claro indicio da futura.

Amor fero e cruel, Fortuna escura,
Bem tendes vossa fôrça exprimentada:
Assolai, destrui, não fique nada;
Vingai-vos desta vida, que inda dura.

Soube Amor da Ventura, que a não tinha,
E porque mais sentisse a falta della,
De imagens impossiveis me mantinha.

Mas vós, Senhora, pois que minha estrella
Não foi melhor, vivei nesta alma minha;
Que não tẽe a Fortuna poder nella.

 


Poemas e Poesias segunda, 07 de julho de 2025

CEM TROVAS - 035 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)

TROVA 035

Belmiro Braga

Fonte: Google

 

 Natal! E eu sinto em minha alma

Cantando uma ave... Natal!

No dia azul – quanta calma

Parece a noite um rosal!

 


Poemas e Poesias domingo, 06 de julho de 2025

ÚLTIMO SONETO (POEMA DO PAULISTA ÁLVARES DE AZEVEDO)

ÚLTIMO SONETO

Álvares de Azevedo

Fonte: Google

 

 

 

Já da noite o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito, embalde num macio encosto,
Tento o sono reter!… Já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece…
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.

Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos, por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!

 


Poemas e Poesias sábado, 05 de julho de 2025

SILÊNCIO AMOROSO (POEMA DO MINEIRO AFFONSO ROMANO DE SANT*ANNA)

SILÊNCIO AMOROSO

Affonso Romano de Sant'Anna

Fonte: Google

 

 

 

Silêncio Amoroso
Preciso do teu silêncio
cúmplice sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal pode me desamparar.
E se eu abrir a boca minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo, pode construir. É um modo
denso/tenso - de coexistir.
Calar, às vezes, é fina forma de amar.


Poemas e Poesias sexta, 04 de julho de 2025

A ÚLTIMA ELEGIA - V (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)

A ÚLTIMA ELEGIA - V

Vinícius de Moraes

Fonte: Google

 

 

 

  Para Tati


                O                                            L

           O         F                               E          S
      R                  S                     H                     E
O                            O    F    C                                A

Greenish, newish roofs of Chelsea
Onde, merencórios, toutinegram rouxinóis
Forlornando baladas para nunca mais!
Ô imortal landscape
                          no anticlímax da aurora!
                                                  ô joy for ever!
Na hora da nossa morte et nunc et semper
Na minha vida em lágrimas!
                                      uer ar iú
Ô fenesuites, calmo atlas do fog
Impassévido devorador das esterlúridas?
Darling, darkling I listen...
                                     “... it is, my soul, it is
Her gracious self...”
                                      murmura adormecida
É meu nome!...
                                      sou eu, sou eu, Nabucodonosor!
Motionless I climb
                                      the wat
                                                   e
                                                   r
                                                   -
                                      Am I p a Spider?
                                              i
                                      Am I p a Mirror?
                                              e
                                      Am I s an X Ray?

No, I’m the Three Musketeers
                       rolled in a Romeo.
                                                 Virus
Da alta e irreal paixão subindo as veias
Com que chegar ao coração da amiga.
                                                     Alas, celua
Me iluminou, celua me iludiu cantando
The songs of Los; e agora
                          meus passos
                                     são gatos
Comendo o tempo em tuas cornijas
Em lúridas, muito lúridas
Aventuras do amor mediúnico e miaugente...
So I came
                          — from the dark bull-like tower
                                                  fantomática
Que à noite bimbalha bimbalalões de badaladas
Nos bem-bons da morte e ruge menstruosamente sádica
A sua sede de amor; so I came
De Menaipa para Forox, do rio ao mar — e onde
Um dia assassinei um cadáver aceso
Velado pelas seis bocas, pelos doze olhos, pelos centevinte dedos espalmados
Dos primeiros padres do mundo; so I came
For everlong that everlast — e deixa-me cantá-lo
A voz morna da retardosa rosa
Mornful and Beátrix
Obstétrix
Poésia.



Dost thou remember, dark love
Made in London, celua, celua nostra
Mais linda que mare nostrum?
                           quando early morn’
Eu vinha impressentido, like the shadow of a cloud
Crepitante ainda dos aromas emolientes de Christ Church Meadows
Frio como uma coluna dos cloisters de Magdalen
Queimar-me à luz translúcida de Chelsea?
Fear love...
                        ô brisa do Tâmisa, ô ponte de Waterloo, ô
Roofs of Chelsea, ô proctors, ô preposterous
Symbols of my eagerness!
                         — terror no espaço!
                                 — silêncio nos graveyards!
                                             — fome dos braços teus!
Só Deus me escuta andar...
                          — ando sobre o coração de Deus
Em meio à flora gótica... step, step along
Along the High... “I don’t fear anything
But the ghost of Oscar Wilde...” ... ô darlingest
I feared... A ESTAÇÃO DE TRENS... I had to post-pone
All my souvenirs! there was always a bowler-hat
Or a policeman around, a stretched one, a mighty
Goya, looking sort of put upon, cuja passada de cautchu
Era para mim como o bater do coração do silêncio (I used
To eat all the chocolates from the one-penny-machine
Just to look natural; it seemed to me que não era eu
Any more, era Jack the Ripper being hunted) e suddenly
Tudo ficava restful and warm... — o siiiiiiiii
Lvo da Locomotiva — leitmotiv — locomovendo-se
Through the Ballad of reading Gaol até a visão de
PADDINGTON (quem foste tu tão grande
Para alevantares aos amanhecentes céus de amor
Os nervos de aço de Vercingetórix?). Eu olharia risonho
A Rosa dos Ventos. S.W. Loeste! no dédalo
Se acalentaria uma loenda de amigo: “I wish, I wish
I were asleep”. Quoth I: — Ô squire
Please, à Estrada do Rei, na Casa do Pequeno Cisne
Room twenty four! ô squire, quick, before
My heart turns to whatever whatsoever sore!
Há um grande aluamento de microerosíferos
Em mim! ô squire, art thou in love? dost thou
Believe in pregnancy, kindly tell me? ô
Squire, quick, before alva turns to electra
For ever, ever more! give thy horses
Gasoline galore, but do take me to my maid
Minha garota — Lenore!
Quoth the driver: — Right you are, sir.



Ô roofs of Chelsea!
Encantados roofs, multicolores, briques, bridges, brumas
Da aurora em Chelsea! ô melancholy!
“I wish, I wish I were asleep...” but the morning
Rises, o perfume da madrugada em Londres
Makes me fluid... darling, darling, acorda, escuta
Amanheceu, não durmas... o bálsamo do sono
Fechou-te as pálpebras de azul... Victoria & Albert resplende
Para o teu despertar; ô darling, vem amar
À luz de Chelsea! não ouves o rouxinol cantar em Central Park?
Não ouves resvalar no rio, sob os chorões, o leve batel
Que Bilac deitou à correnteza para eu te passear? não sentes
O vento brando e macio nos mahoganies? the leaves of brown
Came thumbling down, remember?
“Escrevi dez canções ...
                           ...escrevi um soneto...
                                                ...escrevi uma elegia...”
Ô darling, acorda, give me thy eyes of brown, vamos fugir
Para a Inglaterra?
                           “...escrevi um soneto...
                                              ... escrevi uma carta...”
Ô darling, vamos fugir para a Inglaterra?
                                               ...“que irão pensar
Os quatro cavaleiros do Apocalipse...”
                                               “...escrevi uma ode...”
Ô darling!
                            ô PAVEMENTS!
                                                Ô roofs of Chelsea!
Encantados roofs, noble pavements, cheerful pubs, delicatessen
Crumpets, a glass of bitter, cap and gown... — don’t cry, don’t cry!
Nothing is lost, I’ll come again, next week, I promise thee...
Be still, don’t cry ...
                        ... don’t cry...
                                   ...don ’t cry...
                                              RESOUND
Ye pavements!
                          — até que a morte nos separe —
                                     ô brisas do Tâmisa, farfalhai!
Ó telhados de Chelsea,
                                     amanhecei!


Poemas e Poesias quinta, 03 de julho de 2025

MINHA SERRA (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ)

 

MINHA SERRA 

Patativa do Assaré

Fonte: Google

 


Poemas e Poesias quarta, 02 de julho de 2025

O INÚTIL LUAR (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

O INÚTIL LUAR

Manuel Bandeira

Fonte: Google

 

 

É noite. A Lua, ardente e terna,
Verte na solidão sombria
À sua imensa, a sua eterna
Melancolia...

Dormem as sombras na alameda
Ao longo do ermo Piabanha.
E dele um ruído vem de seda
Que se amarfanha...

No largo, sob os jambolanos,
Procuro a sombra embalsamada.
(Noite, consolo dos humanos!
Sombra sagrada!)

Um velho senta-se a meu lado.
Medita. Há no seu rosto uma ânsia...
Talvez se lembre aqui, coitado!
De sua infância.

Ei-lo que saca de um papel...
Dobra-o direito, ajusta as pontas,
E pensativo, a olhar o anel,
Faz umas contas...

Com outro moço que se cala.
Fala um de compleição raquítica.
Presto atenção ao que ele fala:
— É de política.

Adiante uma senhora, magra,
Em ampla charpa que a modela,
Lembra uma estátua de Tanagra.
E, junto dela,

Outra a entretém, a conversar:
— "Mamãe não avisou sevinha.
Se ela vier, mando matar
Uma galinha."

E embalde a Lua, ardente e terna,
Verte na solidão sombria
À sua imensa, a sua eterna
Melancolia...


Poemas e Poesias terça, 01 de julho de 2025

UMA CONSULTA (POEMA DO PORTUGUÊS JÚLIO DINIS)

UMA CONSULTA

Júlio Dinis

Fonte: Google

 

 

 

— Dá licença? — Entre quem é.
— Muitos bons dias. — Olé,
Por aqui, minha senhora?
Desculpe vossa excelência
Se a não conhecia agora.
— Sem mais… À sua ciência
Recorrer venho.—Deveras ?
(Senhor me dê paciência!
Nunca tu cá me vieras).
Então que temos ? — Padeço.
— Sim? porém de que doença?
— Essa é boa! acaso pensa
Que eu porventura a conheço?
— Ah! não conhece ? — Quem dera ! Então não
o consultava.
— (E eu que muito estimava).
Mas diga, então? — Eu lhe conto…
Oiça bem. Não perca um ponto.
— Nem um ponto hei-de perder.
— Ai, doutor, doutor, meu peito…
— É do peito que padece ? Quem havia de o dizer!
— E Jesus, doutor, parece Que me quer interromper?! Não era a
isso sujeito.
— Nem o tornarei a ser… Vamos lá. —Or a eu começo…
Atenção é o que lhe peço ;

Diga-me: que lhe pareço ? Não me acha muito abatida?
— Assim, assim; mas às vezes
A vista pode enganar.
— Não, não. Pode acreditar
Que há já um bom par de meses
É um tormento esta vida.
— Então que é o que sente ?
— O que sinto? Ora eu lhe digo :
O doutor é meu amigo?
— Oh ! senhora… — E é prudente ? Oiça, pois: Eu
dantes era
Fera e rija, que era um gosto! Ou em Dezembro ou Agosto Correr o mundo pudera,
Sem no fim me achar cansada.
— E hoje? — Não lhe digo nada, Nem comigo posso já.
— Mau é! — Quer saber, doutor ? Só para vir até
cá,
Que tormentos não passei!
— Diga-me, se faz favor.
Que idade tem? — Eu nem sei… Eu sou mais nova três anos
Que o reitor da freguesia.
— (É grande consolação!)
— Tenho ainda outros dois manos Que mais velhos do que eu são,
Porém, como eu lhe dizia, Doutor…—Qu e mais sente então?
— A vista sinto estragada, Até já me custa a ler,
De mais a mais sou nervosa. Isso não lhe digo nada!
Olhe, estou sempre a tremer.
— Faço idéia. — Andava ansiosa
Por consultar o doutor;
Eu tenho em si muita fé.
— Lisonjeia-me. — Outra queixa… Que eu sofro também…
Qual é?
— É dum forte mal de dentes. Todos me caem. — Bem, bem.
— E os que restam, mal assentes, Qualquer dia vão também.
— É provável. — Ai, doutor! Que cruel enfermidade!

Não acha? — Acho e o pior…
— Há-de curar-me, nao há-de?
— E então nao sente mais nada ?
— Nada… ai, sim, tem-me parecido, Porém, talvez me iludisse…
•— Diga. — A semana passada, Como ao espelho me visse…
Pareceu-me ter percebido…
— O quê ? — Que a pele não era
Como dantes, tão macia.
—• E então ? — Quem visse dissera
Que eram rugas. — (Eu dizia)
E é isso o que padece ?
— Ainda pouco lhe parece, Doutor? — Por certo que não.
— Então que doença tenho ‘
— Em sabê-lo muito empenho Sempre tem ? — Eu ? Pois então
? Para isso o procurei.
— Bem, então sempre lho digo
Mas julgo não ficarei
Por isto, seu inimigo.
— O meu doutor! — O seu mal
É, senhora, de algum perigo.
— Ai Jesus! — E muita gente Dele morre. —Oh santo Deus!
Por quem é não diga tal!
E… morre-se de repente?
— Conforme. — Pecados meus? E então é isso o que
pensa! Porém ainda me não disse
O nome dessa doença
E eu sempre o quero saber…
— O nome?—Sim.—É . . velhice!

— E o remédio? — Morrer.

 


Poemas e Poesias segunda, 30 de junho de 2025

SOLILÓQUIO Nº 4 (POEMA DO ACRIANO J. G. DE ARAÚJO JORGE)

SOLILÓQUIO Nº4

J. G. de Araújo Jorge

Fonte: Google

 

 

 

Aperto a cabeça contra as mãos, e penso que ainda há pouco
tu a apertavas contra o seio.

Ficou em minhas mãos o cheiro de teu corpo
e estás em mim, e no ar que me acompanha

És um halo ao meu redor, que eu sinto e vejo
e quase apalpo com as minhas mãos vazias
que ainda te aguardam...

Aperto a cabeça contra as mãos, como se ainda
pudesse apanhar-te no pensamento.


Poemas e Poesias domingo, 29 de junho de 2025

MULHER (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

MULHER

Florbela Espanca

Fonte: Google

 

 

 

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!


Poemas e Poesias sábado, 28 de junho de 2025

ENTRE O SONO E O SONHO (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)

ENTRE O SONO E O SONHO

Fernando Pessoa

Fonte: Google

 

 

Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim. Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.


Poemas e Poesias sexta, 27 de junho de 2025

TROVAS HUMORÍSTICAS - 43 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
  

TROVA HUMORÍSTICA 43

Eno Teodoro Wanke

Fonte: Google

 

– Você já esqueceu, por certo

Dos Reais que lhe emprestei?

– Oh, não! Mas já estou bem perto

Dê-me um tempo, e esquecerei!


Poemas e Poesias quinta, 26 de junho de 2025

MONJA (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

MONJA

Cruz e Sousa

(Grafia original)

Fonte: Google

 

Ó Lua, Lua triste, amargurada,
fantasma de brancuras vaporosas,
a tua nívea luz ciliciada
faz murchecer e congelar as rosas.

Nas flóridas searas ondulosas,
cuja folhagem brilha fosforeada,
passam sombras angélicas, nivosas,
lua, Monja da cela constelada.

Filtros dormentes dão aos lagos quietos,
ao mar, ao campo, os sonhos mais secretos,
que vão pelo ar, noctâmbulos, pairando...

Então, ó Monja branca dos espaços,
parece que abres para mim os braços,
fria, de joelhos, trêmula, rezando...


Poemas e Poesias quarta, 25 de junho de 2025

DALILA (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)

DALILA

Castro Alves

Fonte: Google

 

 

 

Foi Desgraça meu Deus!... Não!... Foi loucura
Pedir seiba de vida-à sepultura,
Em gelo — me abrasar,

Pedir amores — a Marco sem brio,
E a rebolcar-me em leito imundo e frio
— A ventura buscar.
Errado viajor — sentei-me à alfombra
E adormeci da mancenilha à sombra
Em berço de cetim...

Embalava-me a brisa no meu leito...
Tinha o veneno a lacerar-me o peito
— A morte dentro em mim...
Foi loucura!... No ocaso — tomba o astro;
A estátua branca e pura de alabastro
— Se mancha em lodo vil...

Quem rouba a estrela-à tumba do ocidente?
Que Jordão lava na lustral corrente
O marmóreo perfil?...
Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta
Ela passou sozinha, macilenta,
Tremendo a soluçar...

Chorava — nenhum eco respondia...
Sorria-a tempestade além bramia...
E ela sempre a marchar.
E eu disse-lhe: Tens frio? — arde minha alma.
Tens os pés a sangrar?-podes em calma
Dormir no peito meu.

Pomba errante-é meu peito um ninho vago!
Estrela— tens minha alma-imenso lago—
Reflete o rosto teu! ...

E amamos — Este amor foi um delírio...
Foi ela minha crença, foi meu lírio,
Minha estrela sem véu...

Seu nome era o meu canto de poesia,
 
Que com o sol — pena de ouro — eu escrevia
Nas laminas do céu.
Em seu seio escondi-me... como à noite
Incauto colibri, temendo o açoite

Das iras do tufão,
A cabecinha esconde sob as asas,
Faz seu leito gentil por entre as gazas
Da rosa do Japão.
E depois... embalei-a com meus cantos
Seu passado esqueci... lavei com prantos

Seu lodo e maldição...
...Mas um dia acordei... E mal desperto
Olhei em torno a mim... — Tudo deserto...
Deserto o coração...
Ao vento, que gemia pelas franças
Por ela perguntei... de suas tranças

À flor que ela deixou...
Debalde... Seu lugar era vazio...
E meu lábio queimado e o peito frio,
Foi ela que o queimou...
Minha alma nodoou no ósculo imundo,
Bem como Satanás — beijando o mundo —

Manchou a criação,
Simum — crestou-me da esperança as flores...
Tormenta — ela afogou nos seus negrores
A luz da inspiração...
Vai, Dalila!... É bem longa
tua estrada...
É suave a descida-terminada

Em báratro cruel.
Tua vida-é um banho de ambrósia...
Mais tarde a morte e a lâmpada
sombria
Pendente do bordel.
Hoje flores... A música soando...
As perlas do Champagne gotejando

Em taças de cristal.
A volúpia a escaldar na lonca insônia...
Mas sufoca os festins de Babilônia
A legenda fatal.
Tens o seio de fogo e a alma fria.
O cetro empunhas lúbrico da orgia

Em que reinas tu só!...
Mas que finda o ranger de uma mortalha,
A enxada do coveiro que trabalha
A revolver o pó.
Não te maldigo, não!... Em vasto campo
Julguei-te — estrela, — e eras — pirilampo

Em meio à cerração...
Prometeu — quis dar luz à fria argila...
 
Não pude... Pede a Deus, louca Dalila,
A luz da redenção!!..


Poemas e Poesias terça, 24 de junho de 2025

DORES (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)

DORES

Casimiro de Abreu

Fonte: Google

 

 

 

 

Há dores fundas, agonias lentas,
Dramas pungentes que ninguém consola,
Ou suspeita sequer!
Mágoas maiores do que a dor dum dia,
Do que a morte bebida em taça morna
De lábios de mulher!

Doces falas de amor que o vento espalha,
Juras sentidas de constância eterna
Quebradas ao nascer;
Perfídia e olvido de passados beijos...
São dores essas que o tempo cicatriza
Dos anos no volver.

Se a donzela infiel nos rasga as folhas
Do livro d'alma, magoado e triste
Suspira o coração;
Mas depois outros olhos nos cativam,
E loucos vamos em delírios novos
Arder noutra paixão.

Amor é o rio claro das delícias
Que atravessa o deserto, a veiga, o prado,
E o mundo todo o tem!
Que importa ao viajor que a sede abrasa,
Que quer banhar-se nessas águas claras,
Ser aqui ou além?

A veia corre, a fonte não se estanca,
E as verdes margens não se crestam nunca
Na calma dos verões;
Ou quer na primavera, ou quer no inverno,
No doce anseio do bulir das ondas
Palpitam corações.

Não! a dor sem cura, a dor que mata,
É, moço ainda, e perceber na mente
A dúvida a sorrir!
É a perda dura dum futuro inteiro
E o desfolhar sentido das gentis coroas,
Dos sonhos do porvir!

É ver que nos arrancam uma a uma
Das asas do talento as penas de ouro,
Que voam para Deus!
É ver que nos apagam d'alma as crenças
E que profanam o que santo temos
Co'o riso dos ateus!

É assistir ao desabar tremendo,
Num mesmo dia, d'ilusões douradas,
Tão cândidas de fé!
É ver sem dó a vocação torcida
Por quem devera dar-lhe alento e vida
E respeitá-la até!

É viver, flor nascida nas montanhas,
Para aclimar-se, apertada numa estufa
À falta de ar e luz!
É viver, tendo n'alma o desalento,
Sem um queixume, a disfarçar as dores
Carregando a cruz!

Oh! ninguém sabe como a dor é funda,
Quanto pranto s'engole e quanta angústia
A alma nos desfaz!
Horas há em que a voz quase blasfema...
E o suicídio nos acena ao longe
Nas longas saturnais!

Definha-se a existência a pouco e pouco,
E ao lábio descorado o riso franco
Qual dantes, já não vem;
Um véu nos cobre de mortal tristeza,
E a alma em luto, despida dos encantos,
Amor nem sonhos tem!

Murcha-se o viço do verdor dos anos,
Dorme-se moço e despertamos velho,
Sem fogo para amar!
E a fronte jovem que o pesar sombreia
Vai, reclinada sobre um colo impuro,
Dormir no lupanar!

Ergue-se a taça do festim da orgia,
Gasta-se a vida em noites de luxúria
No leito dos bordéis,
E o veneno se sorve a longos tragos
Nos seios brancos e nos lábios frios
Das lânguidas Frinés!

Esquecimento! — mortalha para as dores —
Aqui na terra é a embriaguez do gozo,
A febre do prazer:
A dor se afoga no fervor dos vinhos,
E no regaço das Marcôs modernas
E' doce então morrer!

Depois o mundo diz: — Que libertino!
A folgar no delírio dos alcouces
As asas empanou! —
Como se ele, algoz das esperanças,
As crenças infantis e a vida d'alma
Não fosse quem matou!...

........................................

Oh! há dores tão fundas como o abismo,
Dramas pungentes que ninguém consola
Ou suspeita sequer!
Dores na sombra, sem carícias d'anjo,
Sem voz de amigo, sem palavras doces,
Sem beijos de mulher!...


Poemas e Poesias segunda, 23 de junho de 2025

NÃO SE MATE (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

NÃO SE MATE

Carlos Drummond de Andrade

Fonte: Google

 

 

 

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.
Não se mate


Poemas e Poesias domingo, 22 de junho de 2025

SONETO 126 - FORTUNA EM MI GUARDANDO SEU DIREITO (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
  
SONETO 126 - FORTUNA EM MI GUARDANDO SEU DIREITO
(Grafia original) 
Fonte: Google
 
 
Fortuna em mi guardando seu direito,
Em verde derrubou minha alegria.
Oh! quanto se acabou naquele dia,
Cuja triste lembrança arde em meu peito!

Quando contemplo tudo, bem suspeito
Que, a tão bem, tal descanso se devia,
Por não dizer o mundo que podia
Achar-se em seu engano bem perfeito.

Mas se a fortuna o fez por descontar-me
Tamanho gosto, em cujo sentimento
A memória não faz senão matar-me,

Que culpas pode dar-me o sofrimento,
Se a causa que ele tem de atormentar-me,
Eu tenho de sofrer o seu tormento?

Poemas e Poesias sábado, 21 de junho de 2025

CEM TROVAS - 034 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)

TROVA 034

Belmiro Braga

Fonte: Google

 

 Quanta vez junto a um jazigo

Alguém murmura de leve:

– Adeus, pra sempre, amigo!

E diz-lhe o morto: – Até breve!

 


Poemas e Poesias sexta, 20 de junho de 2025

SPLEEN E CHARUTOS - VI O POETA MORIBUNDO (POEMA DO PAULISTA ÁLVARES DE AZEVEDO)

SPLEEN E CHARUTOS - VI

O POETA MORIBUNDO

Álvares de Azevedo

Fonte: Google

 

 

 

VI


O poeta moribundo


Poetas! amanhã ao meu cadáver
Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!

Cantem esse verão que me alentava...
O aroma dos currais, o bezerrinho
As aves que na sombra suspiravam
E os sapos que cantavam no caminho!

Coração, por que tremes? Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina,
Enquanto ao cemitério não te levam,
Casa no marimbau a alma divina!

Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia...
Como o cisne de outrora... que gemendo
Entre os hinos de amor se enternecia.

Coração, por que tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?
Se ela ao menos dormisse mascarada!

Que ruínas! que amor petrificado!
Tão antediluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!

Antes mil vezes que dormir com ela,
Que dessa fúria o gozo, amor eterno
Se ali não há também amor de velha
Dêem-me as caldeiras do terceiro Inferno!

No inferno estão suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras...
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!

Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que do Céu sofrer os tolos!

Ora! e forcem um’alma qual a minha,
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça,
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a missa!


Poemas e Poesias quinta, 19 de junho de 2025

SEPARAÇÃO (POEMA DO MINEIRO AFFONSO ROMANO DE SANT*ANNA)

SEPARAÇÃO

Affonso Romano de Sant'Anna

Fonte: Google

 

 

 

Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.


Poemas e Poesias quarta, 18 de junho de 2025

A TORRE ESCURA TEM MELENAS (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)

A TORRE ESCURA TEM MELENAS

Vinícius de Moraes

Fonte: Google

 

 

 

A torre escura tem melenas 

Negras como um sexo à luz  Santa;

mariâmada!... Cenas         

Do meu amémjesus! 

 

A torre gótica tem olhos 

Que me flecham fixos de fé 

Versos, venerandos... broglios         

     Do meu parcedomine! 

 

À meia-noite canta um sino 

Alongo, alento, dormi-vos 

Perversidade e latrocínio         

     Do meu peromnibus! 

 

Mas ninguém diz-me: Surgetambula 

Ao meu decesso extemporário 

E ao ermo vaga a alma sonâmbula       

    Em muito rumo vazio.

 


Poemas e Poesias terça, 17 de junho de 2025

BERTULINO E ZÉ TINGÓ (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ) VÍDEO


BERTULINO E ZÉ TINGÓ

PATATIVA DO ASSARÉ

VÍDEO

Fonte: Google

 


Poemas e Poesias segunda, 16 de junho de 2025

O IMPOSSÍVEL CARINHO (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

O IMPOSSÍVEL CARINHO

Manuel Bandeira

Fonte: Google

 

 

 

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
— Eu soubesse repor —
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!


Poemas e Poesias domingo, 15 de junho de 2025

TRIGUEIRA (POEMA DO PORTUGUÊS JÚLIO DINIS)

TRIGUEIRA

Júlio Dinis

Fonte: Google

 

Trigueira! que tem? Mais feia Com essa cor te imaginas? Feia! tu, que assim
fascinas Com um só olhar dos teus! Que ciúmes tens da alvura
Desses semelhantes de neve ! Ai, pobre cabeça, leve!
Que te nao castigue Deus.

Trigueira! se tu soubesses
O que é ser assim trigueira!
Dessa ardilosa maneira
Porque tu o sabes ser ;
Não virias lamentar-te,
Toda sentida e chorosa,
Tendo inveja à cor da rosa,
Sem motivos para a ter.

Trigueira! Porque és trigueira É que eu assim te quis tanto.
Daí provém todo o encanto
Em que me traz este amor. E suspiras e murmuras;
Que mais desejavas inda? Pois serias tu mais linda, Se tivesses outra cor?

Trigueira! onde mais realça
O brilhar duns olhos pretos,
Sempre húmidos, sempre inquietos,
Do que numa cor assim?
Onde o correr duma lágrima
Mais encantos apresenta?
E um sorriso, um só, nos tenta,
Como me tentou a mim?

Trigueira! E choras por isso! Choras, quando outras te invejam Essa cor,
e em vão forcejam
Por, como tu, fascinar?
Ó louca, nunca mais digas,
Nunca mais, que és desditosa.
Invejar a cor da rosa,
Em ti, é quase pecar.

Trigueira! Vamos, esconde-me
Esse choro de criança.
Ai, que falta de confiança!
Que graciosa timidez!
Enxuga os bonitos olhos,
Então, não chores trigueira,
E nunca dessa maneira
Te lamentes outra vez.


Poemas e Poesias sábado, 14 de junho de 2025

SER MÃE (POEMA DO ACRIANO J. G. DE ARAÚJO JORGE)

SER MÃE

J. G. de Araújo Jorge

Fonte: Google

 

 

Quando todos te condenem
quando ninguém te escutar,
ela te escuta e perdoa,
pois ser mãe é perdoar!

Quando todos te abandonam
e ninguém te queira ver,
ela te segue e procura
pois ser mãe é compreender!

Quando todos te negarem
um pão, um beijo, um olhar,
ela te ampara e acarinha
pois ser mãe sempre é se dar!


Poemas e Poesias sexta, 13 de junho de 2025

MISTÉRIO (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

MISTÉRIO

FLORBELA ESPANCA

Fonte: Google

 

 

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas...

Talvez um dia entenda o teu mistério...
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!


Poemas e Poesias quinta, 12 de junho de 2025

ENTRE O LUAR E A FOLHAGEM (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)

ENTRE O LUAR E A FOLHAGEM

Fernando Pessoa

Fonte: Google

 

 

 

Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade.
Atrai e dói.

Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Nada é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.


Poemas e Poesias quarta, 11 de junho de 2025

TROVAS HUMORÍSTICAS - 42 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
  

TROVA HUMORÍSTICA 42

Eno Teodoro Wanke

Fonte: Google

 

 A mulher me pede, em pranto

Dinheiro, dinheiro... É lei

– E o que faz ela com tanto?

– Não sei, eu nunca lhe dei


Poemas e Poesias terça, 10 de junho de 2025

MAJESTADE CAÍDA (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

MAJESTADE CAÍDA

Cruz e Sousa

(Grafia original

Fonte: Google)

 

 

 

 

Esse cornóide deus funambulesco
Em torno ao qual as Potestades rugem,
Lembra os trovões, que tétricos estrugem,
No riso alvar de truão carnavalesco.

De ironias o momo picaresco
Abre-lhe a boca e uns dentes de ferrugem,
Verdes gengivas de ácida salsugem
Mostra e parece um Sátiro dantesco.

Mas ninguém nota as cóleras horríveis,
Os chascos, os sarcasmos impassíveis
Dessa estranha e tremenda Majestade.

Do torvo deus hediondo, atroz, nefando,
Senil, que embora, rindo, está chorando
Os Noivados em flor da Mocidade!


Poemas e Poesias segunda, 09 de junho de 2025

A LUÍS (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)

A LUÍS

Castro Alves

(Grafia original)

Fonte: Google

 

 

 

(No dia de seu natalício)


A imaginação, com o vôo ousado,
aspira a principio à eternidade...
Depois um pequeno espaço basta em breve
para os destroços de nossas esperanças iludidas! ...

Goethe

Como um perfume de longínquas plagas
Traz o vento da pátria ao peregrino,
Ó meu amigo! que saudade infinda
Tu me trazes dos tempos de menino!

É o ledo enxame de sutis abelhas
Que vem lembrar à flor o mel daurora...
Acres perfumes de uma idade ardente
Quando o lábio sorri... mas nunca chora!

Que tempos idos! que esperanças louras!
Que cismas de poesia e de futuro!
Nas páginas do triste Lamartine
Quanto sonho de amor pousava puro! ...

E tu falavas de um amor celeste,
De um anjo, que depois se fez esposa...
— Moça, que troca os risos de criança
Pelo meigo cismar de mãe formosa.

Oh! meu amigo! neste doce instante
o vento do passado em mim suspira,
E minhalma estremece de alegria,
Como ao beijo da noite geme a lira.

Tu paraste na tenda, ó peregrino!
Eu vou seguindo do deserto a trilha;
Pois bem... que a lira do poeta errante
Seja a bênção do lar e da família.


Poemas e Poesias domingo, 08 de junho de 2025

DEUS! (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)

DEUS!

Casimiro de Abreu

Fonte: Google

 

 

 

Eu me lembro! Eu me lembro! – Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia
E erguendo o dorso altivo, sacudia
A branca escuma para o céu sereno

E eu disse a minha mãe nesse momento:
“Que dura orquestra! Que furor insano!
“Que pode haver maior que o oceano,
“Ou que seja mais forte do que o vento?!”

Minha mãe a sorrir olhou pr’os céus
E respondeu: – Um Ser que nós não vemos
“É maior do que o mar que nós tememos,
“Mais forte que o tufão! Meu filho, é – Deus!”


Poemas e Poesias sábado, 07 de junho de 2025

NÃO QUERO SER O ÚLTIMO A COMER-TE (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

NÃO QUERO SER O ÚLTIMO A COMER-TE

Carlos Drummond de Andrade

Fonte: Google

 

 

 

Não quero ser o último a comer-te.
Se em tempo não ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama antiga nem beber-te
aplacaria sede que não arde

em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,
fome que não sofria padecer-te
assim pasto de tantos, e eu covarde

a esperar que limpasses toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,

para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
um chamejante, universal poema.


Poemas e Poesias sexta, 06 de junho de 2025

SONETO 087 - FOI JÁ NUM TEMPO DOCE COUSA AMAR (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
  
SONETO 087 - FOI JÁ NUM TEMPO DOCE COUSA AMAR
(Grafia original) 
Fonte: Google
 
 
Foi já num tempo doce cousa amar,
enquanto me enganava a esperança;
o coração, com esta confiança,
todo se desfazia em desejar.

Ó vão, caduco e débil esperar!
Como se desengana üa mudança!
Que, quanto é mor a bem-aventurança,
tanto menos se crê que há-de durar.

Quem já se viu contente e prosperado,
vendo-se em breve tempo em pena tanta,
razão tem de viver bem magoado.

Porém quem tem o mundo exprimentado,
não o magoa a pena nem o espanta,
que mal se estranhará o costumado.

Poemas e Poesias quinta, 05 de junho de 2025

CEM TROVAS - 033 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)

TROVA 033

Belmiro Braga

Fonte: Google

 

 

Que grande, triste verdade

Me sussurra o coração:

– A dor é uma realidade

A alegria, uma ilusão 


Poemas e Poesias quarta, 04 de junho de 2025

SPLEEN E CHARUTOS - V - LUAR DE VERÃO (POEMA DO PAULISTA ÁLVARES DE AZEVEDO)

SPLEEN E CHARUTOS - V - LUAR DE VERÃO 

Álvares de Azevedo

Fonte: Google

 

 

 

 

O que vês, trovador? — Eu vejo a lua
Que sem lavor a face ali passeia...
No azul do firmamento inda é mais pálida
Que em cinzas do fogão uma candeia.
 
O que vês, trovador? — No esguio tronco
Vejo erguer-se o chinó de uma nogueira...
Além se entorna a luz sobre um rochedo,
Tão liso como um pau de cabeleira.
 
Nas praias lisas a maré enchente
S'espraia cintilante d'ardentia...
Em vez de aromas as douradas ondas
Respiram efluviosa maresia!
 
O que vês, trovador? — No céu formoso
Ao sopro dos favônios feiticeiros
Eu vejo — e treino de paixão ao vê-las -
As nuvens a dormir, como carneiros.
 
E vejo além, na sombra do horizonte,
Como viúva moça envolta em luto,
Brilhando em nuvem negra estrela viva
Como na treva a ponta de um charuto.
 
Teu romantismo bebo, ó minha lua,
A teus raios divinos me abandono,
Torno-me vaporoso... e só de ver-te
Eu sinto os lábios meus se abrir de sono.


Poemas e Poesias terça, 03 de junho de 2025

REFLEXIVO (POEMA DO MINEIRO AFFONSO ROMANO DE SANT*ANNA)

REFLEXIVO

Affonso Romano de Sant'Anna

Fonte: Google

 

 

 

O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeus-se.


Poemas e Poesias segunda, 02 de junho de 2025

A SANTA DE SABARÁ (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)

A SANTA DE SABARÁ

Vinícius de Moraes

Fonte: Google

 

 

 

À gravadora chilena Graciela Fuenzalida
que trocou o mundo por Sabará

A um grito da Ponte Velha
Existe a “Pensão das Gordas”
(Cantou-as Mário de Andrade!)
Em Sabará. Na alpendrada
Sobre o rio que escorrega
A pensão mira a cidade
Ladeira acima.

Na Páscoa As quaresmeiras da serra
São manchas roxas de mágoa
E de manhã bem cedinho
A névoa pousa na terra
Como uma anágua de linho.

A cidade se espreguiça
Nas cores do casario
Que vive a pular carniça
Nas rampas de beira-rio.


Poemas e Poesias domingo, 01 de junho de 2025

O DOUTOR RAIZ (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ) VÍDEO

O DOUTOR RAIZ

Patativa do Assaré

Vídeo

Fonte: Google

 


Poemas e Poesias sábado, 31 de maio de 2025

O EXEMPLO DAS ROSAS (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

 

O EXEMPLO DAS ROSAS

Manuel Bandeira

Fonte: Google

 

 

Uma mulher queixava-se do silêncio do amante:
— Já não gostas de mim, pois não encontras palavras para me louvar!
Então ele, apontando-lhe a rosa que lhe morria no seio:
— Não será insensato pedir a esta rosa que fale?
Não vês que ela se dá toda no seu perfume?


Poemas e Poesias sexta, 30 de maio de 2025

TERESA (POEMA DO PORTUGUÊS JÚLIO DINIS)

TERESA

(A minha sobrinha Ana C. Gomes Coelho)

Júlio Dinis

Fonte: Google

Era uma criança loura
Quando a conheci pequena;
Mais branca do que a açucena
E pronta sempre a chorar.
Havia naqueles olhos
De um certo azul esvaído,
Não sei que oculto sentido
Que me fazia cismar.

Quantas vezes, ao pé dela, Correndo-lhe a mão nas trancas,
Eu lhe disse : «Tu não danças, Como vês dançar
as mais?»
Ela olhava-me e sorria, Sorria, mas suspirava,
E inda mais triste ficava, Como nem imaginais.

Meu Deus, que criança aquela! Que tão precoce tristeza!
Dizem-lhe um dia: «Teresa Sabes? tua mãe morreu.» Fêz-se
pálida de morte…
E, levando as mãos ao seio, Ia a falar, mas, no meio, Reprimiu-se e
emudeceu

E desde então nunca a viram Mais com as suas companheiras; Ficava-se
horas inteiras
À sombra do laranjal. Surpreendiam-na sozinha
Com os olhos fitos no espaço
E esfolhando no regaço
As rosas do seu rosai.

As brisas, gemendo tristes Por entre a verd e folhagem, Segredavam-lhe a
linguagem Sonora da solidão.
Essas mil vozes do campo, Todas ela compreendia, Que fadado pra poesia
Fora aquele coração.

Ai, que infância tão de gelo! Que madrugada da vida!
Ai, pobr e alma estremecida Pelas saudades da mãe! Quantas vezes, alta
noite,
A triste julgava vê-la
Em cada fúlgida estrela
Que o firmamento contém!

Um dia, ao cair da tarde,
E de uma tarde de Outono,
Acordou de um brando sono
E pôs-se a rir para mim.
«Já sorris? És salva, filha,
Enfim!» E a beijei contente.
Olhando-me ternamente
Ela repetiu: «Enfim!»

Enfim!… mas que triste acento
Nessa palavra vertera!
Foi como que se dissera
A vida um último adeus.
Era como um grito d’alma,
Rompendo a prisão que a encerra,
E partindo-se da Terra
Pra fundir-se nos Céus

Iluminavam-lhe as faces
Os raios de estranho fogo.
Ao vê-la compreendi logo
Tudo o que se ia passar.
«Teresa, que tens? Responde.»
Disse, cingindo-a a meu peito;
E ao levantá-la do leito
Assustou-me aquele olhar.

As faces são-lhe de neve Na frialdade e na alvura. O sorrir que a
transfigura
Dá-lhe um todo divinal.
Por sobre as cândidas roupas
Caem-lhe as trancas douradas,
E nas pálpebras cerradas
Se extingue o alento vital.

Nos lábios já descorados
Que meiga expressão escrita!
O seio já não palpita…
Lânguida a fronte lhe cai…
Uma lágrima saudosa
Pelas faces lhe resvala,
E a vida inteira se exala
Num sumido e extremo ai.

Era uma criança loura Quando a vi na sepultura, Da açucena
tinha a alvura, Teve seu curto durar. Daqueles olhos serenos
De um certo azul esvaído, Ai, fatal era o sentido
Que me fazia cismar

 

 


Poemas e Poesias quinta, 29 de maio de 2025

SABEDORIA (POEMA DO ACRIANO J. G. DE ARAÚJO JORGE) VÍDEO

SABEDORIA

J. G. de Araújo Jorge

Vídeo

Fonte: Google

 


Poemas e Poesias quarta, 28 de maio de 2025

MINHA CULPA (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

MINHA CULPA

Florbela Espanca

Fonte: Google

 

 

 

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém...

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem Sou?! Sei lá! Sou a roupagem
Dum doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro...
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de vaidades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador...


Poemas e Poesias terça, 27 de maio de 2025

TROVAS HUMORÍSTICAS - 41 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
  

TROVA HUMORÍSTICA 41

Eno Teodoro Wanke

Fonte: Google

 

 

"Preciso uns reais... Não sei

A quem recorrer... Assim..."

"Que a alívio! Há pouco pensei

Que vinhas pedir a mim!" 


Poemas e Poesias segunda, 26 de maio de 2025

ENTRE O BATER RASGADO DOS PENDÕES (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)

ENTRE O BATER RASGADO DOS PENDÕES

Fernando Pessoa 

(Grafia original)

Fonte: Google

 

 

Entre o bater rasgado dos pendões
E o cessar dos clarins na tarde alheia,
A derrota ficou: como uma cheia
Do mal cobriu os vagos batalhões.

Foi em vão que o Rei louco os seus varões
Trouxe ao prolixo prélio, sem idéia.
Água que mão infiel verteu na areia —
Tudo morreu, sem rastro e sem razões.

A noite cobre o campo, que o Destino
Com a morte tornou abandonado.
Cessou, com cessar tudo, o desatino.

Só no luar que nasce os pendões rotos
’Strelam no absurdo campo desolado
Uma derrota heráldica de ignotos.


Poemas e Poesias domingo, 25 de maio de 2025

LUZ DOLOROSA (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

LUZ DOLOROSA

Cruz e Sousa

Fonte: Google

 

 

 

Fulgem da Luz os Viáticos serenos,
Brancas Extrema-Unções dos hostiários:
As Estrelas dos límpidos Sacrários
A nívea Lua sobre a paz dos fenos.

Há prelúdios e cânticos e trenos
Tristes, nos ares ermos, solitários...
E nos brilhos da Luz, vagos e vários,
Há dor, há luto, há convulsões, venenos...

Estranhas sensações maravilhosas
Percorrem pelos cálices das rosas,
Sensações sepulcrais de larvas frias...

Como que ocultas áspides flexíveis
Mordem da Luz os germens invisíveis
Com o tóxico das cóleras sombrias...


Poemas e Poesias sábado, 24 de maio de 2025

AS DUAS FLORES (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)

AS DUAS FLORES

Castro Alves

Fonte: Google

 

 

 

São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo,no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!


Poemas e Poesias sexta, 23 de maio de 2025

DE JOELHOS (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)

DE JOELHOS

Casimiro de Abreu

Fonte: Google

 

 

 

Qual reza o irmão pelas irmãs queridas,
Ou a mãe que sofre pela filha bela,
Eu - de joelhos - com as mãos erguidas,
Suplico ao céu a felicidade dela.

- "Senhor meu Deus, que sois clemente e justo,
Que dais voz às brisas e perfume à rosa,
Oh! protegei-a com o manto augusto
A doce virgem que sorri medrosa!

Lançai os olhos sobre a linda filha,
Dai-lhe o sossego no seu casto ninho,
E da vereda que seu pé já trilha
Tirai a pedra e desviai o espinho!

Senhor! livrai-a da rajada dura
A flor mimosa que desponta agora;
Deitai-lhe orvalho na corola pura,
Dai-lhe bafejos, prolongai-lhe a aurora!

A doce virgem como a tenra planta
Nunca floresce sobre terra ingrata;
- Bem como a rola - qualquer folha a espanta,
- Bem como o lírio - qualquer vento a mata.

Ela é a rola que a floresta cria,
Ela é o lírio que a manhã descerra...
Senhor, amai-a! - a sua voz macia
Como a das aves, a inocência encerra!

Sua alma pura na novel vertigem
Pede ao amor o seu futuro inteiro...
- Senhor! ouvi o suspirar da virgem,
Dourai-lhe os sonhos no sonhar primeiro!

A mocidade, como a deusa antiga,
Na fronte virgem lhe derrama flores...
- Abri-lhe as rosas da grinalda amiga,
Na mocidade derramai-lhe amores!

Cercai-a sempre de bondade terna,
Lançai orvalho sobre a flor querida;
Fazei-lhe oh Deus! a primavera eterna,
Dai-lhe bafejos - prolongai-lhe a vida!

Depois - de joelhos - eu direi sois justo,
Senhor! mil graças eu vos rendo agora!
Vós protegestes com o manto augusto
A doce virgem que a minh'alma adora!

 


Poemas e Poesias quinta, 22 de maio de 2025

NÃO PASSOU (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

NÃO PASSOU

Carlos Drummond de Andrade

Fonte: Google

 

 

 

Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
Ressoam na mente cavernosa.

Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão- a tua mão, nossas mãos-
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?

Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.

 


Poemas e Poesias quarta, 21 de maio de 2025

SONETO 066 - FIOU-SE O CORAÇÃO, DE MUITO ISENTO (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)

V

  
SONETO 066 - FIOU-SE O CORAÇÃO DE MUITO ISENTO)
(Grafia original) 
Fonte: Google
 
 
Fiou-se o coração, de muito isento
de si, cuidando mal que tomaria
tão ilícito amor tal ousadia,
tal modo nunca visto de tormento.

Mas os olhos pintaram tão a tento
outros que visto têm, na fantasia,
que a razão, temerosa do que via,
fugiu, deixando o campo ao pensamento.

«Ó Hipólito casto que, de jeito,
de Fedra, tua madrasta, foste amado,
que não sabia ter nenhum respeito!

Em mim vingou o Amor teu casto peito;
mas está desse agravo tão vingado,
que se arrepende já do que tem feito».

 


Poemas e Poesias terça, 20 de maio de 2025

CEM TROVAS - 032 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)

TROVA 032

Belmiro Braga

Fonte: Google

 

A mulher para ser Vênus

Deve ter cintura fina

Olhos grandes, pés pequenos

E língua bem pequenina

 


Poemas e Poesias segunda, 19 de maio de 2025

TERZA RIMA (POEMA DO PAULISTA ÁLVARES DE AZEVEDO)

TERZA RIMA

Álvares de Azevedo

Fonte: Google

 

 

 

É belo dentre a cinza ver ardendo
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas recendendo,

Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até... perdoem... respirar-lhe o sarro!

Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d’honra, és tu, ó meu charuto!


Poemas e Poesias domingo, 18 de maio de 2025

VÓS OUTROS! QUE DIZEIS QUE O AMOR É UM SUPLÍCIO (POEMA DO FLUMINENSE ALBERTO DE OLIVEIRA)

VÓS OUTROS! QUE DIZEIS QUE O AMOR É UM SUPLÍCIO

Alberto de Oliveira

(Grafia original)

Fonte: Google

 

 

 

Vós outros! Que dizeis que o Amor é um suplício,
Que a flor da Decepção se abre em todo o Prazer,
Que aconselhais à Alma o mosteiro, e o cilício,
Pois nada pode consolar-nos de viver:

Ponde os olhos em mim, neste celeste Amor
Que me vai desdobrando e alumiando o caminho,
Mesmo quando o alto Céu, sem frescura e sem cor,
Tem as engelhas de algum velho pergaminho...

Vede como eu quero viver, por merecê-la,
Eu que sou pecador, a ela longínqua Estrela!
No esforço de ser bom, branco como um altar:

De modo que a minha Alma, enfim, fique tão crente,
Que se possa casar à sua estreitamente,
Como um floco de neve a um raio de luar!


Poemas e Poesias sábado, 17 de maio de 2025

QUE PAÍS ESTE? (POEMA DO MINEIRO AFFONSO ROMANO DE SANT*ANNA)

QUE PAÍS É ESTE?

Affonso Romano de Sant'Anna

Fonte: Google

 

 

 

1
Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.

Uma coisa é um país,
outra um regimento.

Uma coisa é um país,
outra o confinamento.

Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno “Avante”
— e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um “berço esplêndido” para um “futuro radioso”
e éramos maiores em tudo
— discursando rios e pretensão.

Uma coisa é um país,
outra um fingimento.

Uma coisa é um país,
outra um monumento.

Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.

Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça
em busca da especiosa raiz? ou deveria
parar de ler jornais
e ler anais
como anal
animal
hiena patética
na merda nacional?
Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo
comendo o que as traças descomem
procurando
o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa visão do paraíso
que nos impeliu a errar aqui?

Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos
nacionais, como qualquer santo barroco
a rebuscar
no mofo dos papiros, no bolor
das pias batismais, no bodum das vestes reais
a ver o que se salvou com o tempo
e ao mesmo tempo
– nos trai

2

Há 500 anos caçamos índios e operários,
há 500 anos queimamos árvores e hereges,
há 500 anos estupramos livros e mulheres,
há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é que é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode.

Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos,
quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama
ou quem tem padrinho vivo
não morre nunca pagão.

Há 500 anos propalamos:
este é o país do futuro,
antes tarde do que nunca,
mais vale quem Deus ajuda
e a Europa ainda se curva.

Há 500 anos
somos raposas verdes
colhendo uvas com os olhos,

semeamos promessa e vento
com tempestades na boca,

sonhamos a paz da Suécia
com suíças militares,

vendemos siris na estrada
e papagaios em Haia,

senzalamos casas-grandes
e sobradamos mocambos,

bebemos cachaça e brahma
joaquim silvério e derrama,

a polícia nos dispersa
e o futebol nos conclama,

cantamos salve-rainhas
e salve-se quem puder,

pois Jesus Cristo nos mata
num carnaval de mulatas.

Este é um país de síndicos em geral
este é um país de cínicos em geral
este é um país de civis e generais.

Este é o país do descontínuo
onde nada congemina

e somos índios perdidos
na eletrônica oficina

Nada nada congemina:
a mão leve do político
com nossa dura rotina,

o salário que nos come e
nossa sede canina,

e a esperança que emparedam
a nossa fé em ruína,

nada nada congemina:
a placidez desses santos
e a nossa dor peregrina,

e nesse mundo às avessas
– a cor da noite é obsclara
e a claridez, vespertina.

 


Poemas e Poesias sexta, 16 de maio de 2025

O BICHO (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

O BICHO

Manuel Bandeira

Fonte: Google

 

 

 

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


Poemas e Poesias quinta, 15 de maio de 2025

A ROSA DESFOLHADA (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)

A ROSA DESFOLHADA

Vinícius de Moraes

(Grafia original)

Fonte: Google

 

 

Tento compor o nosso amor
Dentro da tua ausência
Toda a loucura, todo o martírio
De uma paixão imensa
Teu toca-discos, nosso retrato
Um tempo descuidado

Tudo pisado, tudo partido
Tudo no chão jogado
E em cada canto
Teu desencanto
Tua melancolia
Teu triste vulto desesperado
Ante o que eu te dizia
E logo o espanto e logo o insulto
O amor dilacerado
E logo o pranto ante a agonia
Do fato consumado

Silenciosa
Ficou a rosa
No chão despetalada
Que eu com meus dedos tentei a medo
Reconstruir do nada:
O teu perfume, teus doces pêlos
A tua pele amada
Tudo desfeito, tudo perdido
A rosa desfolhada


Poemas e Poesias quarta, 14 de maio de 2025

AO REI8 DO BAIÃO (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ)

AO REI DO BAIÃO

Patativa do Assaré

Fonte: Google

 

 

 

Cabôco Luiz Gonzaga!
Tu é do céu de Nabuco,
A estrela que não se apaga,
Gulora de Pernambuco.
Tu é o dono da conquista,
O mais fino e grande artista
Que canta o baião pra nós,
De alegria pressiona
Quem ouve a sua sanfona
Ligada na tua voz.

Caboco de geno forte,
Eu nunca vi como tu,
Leva semente do Norte
Promode prantá no Sú.
Tu sempre foi preferido,
Em toda parte querido,
Mas porém tu é mais caro
Na terra pernambucana,
Prazê de dona Santana,
E orgúio de Januário.

Pro capricho do destino
Outrora tu foi sordado,
Mas Deus, nosso Pai Divino,
Te vendo um dia humilhado
Disse: “Luiz, dêxa a farda!
Esta vida de espingarda
Pra tú é um horrô;
Pega a sanfona, Luiz!
Vai de país em país:
Eu serei teu protetô!”

E tudo, pegando a sanfona,
Como bom e obediente,
Foi espiando a zona
Da terra dos penitente,
Com tua rica cachola,
Este baião que consola
Ao namorado e ao réu,
Este baião que não cai,
Este baião que já vai
Da terra inté lá no céu.

Neste requebro gaiato
Do te riso de vaquêro,
Eu vejo o fié retrato
Do Nordeste brasilêro.
Oiço da vaca o gemido,
Do chocaio oiço o tinido
E a gaita do véio tôro,
E vejo a festa comum
Do sertão do Inhamun.
Terra de chapéu de côro.

Tua sanfona sodosa,
Com quem tu veve abraçado,
É a santa milagrosa
Ressuscitando o passado;
Inté mermo a criatura
Sisuda, da cara dura,
E de crué coração,
Fica branda como a cêra
Uvindo a voz prazentêra
Do grande rei do baião.

Quando tu dêxo de sê
Das filêra de sordado,
Não querendo mais sabe
Da luta do pau furado,
Que, com teu geno porfundo,
Foi espaiando no mundo
A tua voz de tenô
De milagre incomparave,
A vida ficou suave,
E o Nordeste miorou.

De prazê ninguém sossega,
Tudo sarta de animado,
Na hora que tu molega
O teu dedo no tecrado;
Nossos caboco daqui
Tudo forga, tudo ri,
Ninguém se lembra de praga,
Nem de fome, nem de peste,
Quando escuta no Nordeste
A voz de Luiz Gonzaga.

Caboco de geno forte,
Contigo ninguém se engana,
Tu é do Su e é do Norte,
Do palhaço e da chupana,
Tu veve provando a raça,
Dêrne o campo inté a praça,
Na vida de sanfonêro
É grane rêis soberano,
Moreno pernambucano,
Que sabe sê brasilêro.


Poemas e Poesias terça, 13 de maio de 2025

TERÇA-FEIRA (POEMA DO PORTUGUÊS JÚLIO DINIS)

TERÇA-FEIRA

Júlio Dinis

Fonte: Google

 

 

I

Rompera a manhã sombria,
Destas que fazem tristeza;
Em perfeita calmaria
Repousava a natureza.

Repousava. As ondas mansas Vinham quebrar-se na areia. Que mar tanto de esperanças!
Que enganadora sereia!

O arrais, correndo os palheiros,
«Ao mar!» grita. «ao mar, aos remos !»
«Para as lanchas, companheiros;
Grande safra hoje teremos.»

E a pobre gente da costa, Essa raça destemida,
Que a morte sem medo arrosta, Num momento é toda erguida.

Ei-los na praia. Cantando
Se dão à tarefa santa,
Que nesse arrojado bando
Quem mais trabalha, mais canta.

Sao todos? Todos não. Falta Da companha o mais valente! Esta nova sobressalta
O peito daquela gente.

«Partir sem ele ! Por Cristo, Que a primeira vez seria.
Em qualquer lance imprevisto
Quem tanto nos valeria?»

Tudo pára, tudo hesita,
Mãos nos remos, mão no leme;
Que o seio a muitos palpita,
Que a muitos a mão já treme

II

Ora, no pobre palheiro
Do pescador que tardava,
Eis que ao alvor primeiro
Desta manhã se passava:

Ele acordara, e na esposa, Que ao lado dorme tranqüila, Repousa a vista
amorosa,
E ao despertá-la, vacila.

Vacila — se é tão suave Aquele dormir ! tão brando!
Mas não sei que idéia grave Lhe está na mente pesando.

Ternamente ao seio a aperta, E lhe diz com gesto ameno:
— «Mulher, teu filho desperta, Acorda-me esse pequeno.»

A jovem mãe estremece
— «Que acorde meu filho, dizes !
Deixa-o dormir. Deus lhe desse
Sempre assim sonos felizes.»

— «Acorda teu filho, acorda, Tal dormir não é para
ele ;
Tempo é que da lancha à borda
Como os outros também vele.»

—«As lanchas! ao mar!… pois queres?… » E a mãe
empalidecia.
— «Nesta vida de mulheres
Não é que um homem se cria.»

— «Mas tão novo!…» — «Inda mais novo
Meu pai me levou consigo.»
— «Mas… —já se fala entre o povo
«Do rapaz». — Mas ouve, amigo…»

E a voz trêmula e chorosa Quase em pranto se afogava. Curvara-se ao mar
a esposa, Mas a mãe, essa, hesitava.

Hesitava, que se lhe ia
A alma toda, dando aos mares
O filho, a sua alegria,
O lume dos seus olhares.

— «Ouve», murmura, chorando
«Por Deus te vou pedir isto!»
E depois, em tom mais brando,
•<Em nome de Jesus Cristo!

«Deixa-mo ficar, marido,
Hoje só, ai! hoje ao menos!…
Fraco auxílio o recebido
Dos braços desses pequenos!

«Bem sabes que tudo os cansa… Sempre sois tão desumanos!
E depois… essa criança
Inda não fez os dez anos.»

— «Agoura-me bem o dia
Para lhe abrir a carreira.»
— «Porém, ó Virgem Maria,
E hoje então que é terça-feira!»

— «Mulher, deixa essas idéias, Iguais são todos os
dias;
Em maus agouros não creias, Se é que no Senhor confias.

«Apronta teu filho, apronta,
Que hoje há-de entrar na partilha,
E olha que o Sol já desponta;
Anda, acorda-o, minha filha.»

III

— «Filho, filho, ergue-te, acorda… Para quê, só
Deus o sabe…»
E em lágrimas lhe trasborda
A dor que n’alma nao cabe.

— «Sonhavas talvez brinquedos, Pois que sorrias dormindo; Verás
brincar nos rochedos
Esse mar que está bramindo.

«Vai inda quente do berço, Inda quente dos meus beijos, Para
um mundo bem diverso Do sonhado em meus desejos.

«Vai, tu que sempre dormiste Ao som de minhas cantigas, Dormitar à
canção triste
Dessas ondas inimigas.

«E sorris, anjo querido,
Ao passo que eu choro tanto,
Pois não sabes o sentido
Deste doloroso pranto?

«Não sabes que se me parte
O meu coração no peito
Ao vir assim acordar-te
Do teu sossegado leito?

«Não sabes que minha vida, Pobre filho, vai contigo,
E que nesta despedida
Trocas pra sempre este abrigo.

«Este abrigo de meu seio, Por perigos e cansaços?! Não sei,
não sei que receio Ao tirar-te de meus braços.

«Choras, filho? Ai, não, não chores, Que me tiras todo o
alento;
Já me bastam minhas dores, Basta-me o meu pensamento.

«Deus é bom. Nem sempre os mares
Se alevantam com tormentas.
Não chores, que se chorares,
O meu pesar acrescentas.

«Sossega. Esta cruz benzida
Leva contigo, e descansa,
Pois quem é tão bom na vida,
Deve em Deus ter confiança.

«Vai, que eu à nossa Senhora, Àquela Virgem das Dores,
Que é a tua protectora, Rezarei logo que fores.

«Limpa essas lágrimas, vamos, Que teu pai tas não conheça.
E a oração que te ensinamos, Ai, vê lá! nunca te
esqueça.»

IV

E viu-os partir. E o pranto
Lhe inunda as faces. Desmaia.
Dos pescadores o canto
Se escuta ao longe na praia.

Oh! que tristeza tamanha! Que pressentimento amargo,
Quando as lanchas da companha
Se fazem, remando, ao largo!

Junto à imagem de Maria Esta outra mãe dolorosa De joelhos todo
o dia
Lhe ergue preces, fervorosa.

«Ó Mãe de Deus, luz divina, Que alumias nossas almas!
Ó estrela matutina,
Que as tempestades acalmas!

«Baixa à Terra esses olhares, Nossa única esperança,
E, voltando-os sobre os mares, Protege aquela criança.

«Compadece-te, Senhora, Destas lágrimas sentidas; Estende a mão
protectora Sobre aquelas pobres vidas.

«Vê que me andam sobre as águas
Todos quantos estremeço.
Mãe, que entendes minhas mágoas,
Diz se essas vidas têm preço !

«Pela angústia que sentiste
Junto da cruz, ó Maria,
Vale-me nesta hora triste,
Vale-me nesta agonia.»

No meio de ardente prec e Ergue-se inquieta, palpita, Fitando o céu,
que escurece, Ouvindo o mar, que se agita.

V

Era ao tempo das Trindades: As aves, que pressagiam
O chegar das tempestades, Amedrontadas gemiam.

A mãe segue na carreira
Uma vaga e outra vaga.
« Terça-feira! terça-feira!»
Lhe diz uma voz pressaga.

Já treme. Os olhos velados, Onde a angústia se revela, Pelos
mares agitados
Não descobrem uma vela.

E as nuvens correm velozes, E o vento revolve a areia.
Já se ouvem confusas vozes
Na praia de gente cheia.

Velhos, mães, tristes esposas, Crianças nuas, em choro,
Altas vozes, lastimosas, Erguem num sinistro coro.

Que cena! e redobra o vento, E condensa-se a neblina,
E o mar rebrame violento, E a noite a cena domina.

E à luz de algumas fogueiras
Escassa, tênue, funesta,
Movem-se sombras ligeiras
Como se em diabólica festa.

E ela, a mãe em desatino, Corre, pára, escuta, chora, Maldiz o
poder divino… Depois seu perdão implora.

Os olhos na sombra fitos, Dessa noite escura, escura, Eleva-os ao Céu
aflitos,
E em vão um astro procura.

E o raio, que as trevas densas
De quando em quando devassa,
Mostra-lhes vagas imensas,
Negros abismos, e passa

VI

Só à luz da madrugada
Se acalma a brava tormenta.
Que noite em ânsias passada,
Tão pavorosa! tão lenta!

O céu reflecte nas águas
A cor azul de bonança.
E vai sanando as mágoas
A branda luz da esperança,

— «Barcas ao longe! nao vedes ! Oh! que alegria tamanha!
Deus abençoou as redes,
São as lanchas da companha.»

Crianças, mulheres, velhos, Ao ouvirem este grito, Todos, todos de joelhos
Cantam piedoso Bendito.

Ei-las vêm! Braços valentes Afeitos àquela guerra, Cortando
os mares frementes As impelem para a terra.

Na turba dos pescadores
A mãe com turbado aspecto,
Inda escuro de terrores,
Procura o filho dilecto.

Tudo exulta de alegria;
Cada qual os seus conhece…
E ela só, muda, sombria,
Sobre a praia permanece.

Ei-los enfim! Que transportes, Que lágrimas os esperam! Vêem-se
chorar os mais fortes
Dos que no mar não tremeram.

Por entre os grupos vagueia
A mãe, trêmula, calada,
De negros agouros cheia,
De vago pavor tomada.

Quase em delírio vê tudo, Como se através dum sonho; De
repente um grito agudo Soa na praia medonho.

É que pálido, abatido,
Junto ao mar o esposo vira;
E que terrível sentido
Naquela dor descobrira.

— «Que negro presságio é este
Que leio nos teus olhares?
Do meu filho o que fizeste?»
— «Pergunta-o a esses mares.»

No grito que a triste solta
Vai-lhe a razão, mais que a vida!
Depois para o mar se volta,
Turba, pálida, perdida…

— «Não! não hás-de assim roubar-me
O filho destas entranhas,
Não podem intimidar-me
As tuas iras tamanhas.

«Não vês que tenho no seio Este amor? Espera, espera, Ruge
! não tenho receio; Ruge, amaldiçoada fera!

«Ruge!» e sem tino, movida Da alucinação que a
agita, Rompendo em veloz corrida, Nas ondas se precipita.

Em vão lhe açodem, que forte
O filho às vagas disputa.
Era um combate de morte!
Era uma tremenda luta!

E na manhã do outro dia Viu-se na praia arrojada A mãe, que,
morta, sorria
Do filho ao corpo abraçada.


Poemas e Poesias segunda, 12 de maio de 2025

ROSA... ESPINHO (POEMA DO ACRIANO J. G. DE ARAÚJO JORGE)

ROSA... ESPINHO

J. G. de Araújo Jorge

Fonte: Google

 

 

 

Pago a impaciência
desta paixão ansiosa
por te querer
em meu caminho...
 
Quis colher a rosa,
Feriu-me o espinho...

Poemas e Poesias domingo, 11 de maio de 2025

MAIS ALTO (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

MAIS ALTO

Florbela Espanca

Fonte: Google

 

 

 

Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem

O mundo não conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível!
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
A rutilante luz dum impossível!

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!


Poemas e Poesias sábado, 10 de maio de 2025

ALÉM-DEUS (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)

ALÉM-DEUS

Fernando Pessoa

(Grafia original)

Fonte: Google

 

 

 

 

I/ ABISMO 

OLHO O TEJO, e de tal arte 
Que me esquece olhar olhando, 
E súbito isto me bate 
De encontro ao devaneando - 
O que é ser-rio, e correr? 
O que é está-lo eu a ver? 

Sinto de repente pouco, 
Vácuo, o momento, o lugar. 
Tudo de repente é oco - 
Mesmo o meu estar a pensar. 
Tudo - eu e o mundo em redor - 
Fica mais que exterior. 

Perde tudo o ser, ficar, 
E do pensar se me some. 
Fico sem poder ligar 
Ser, idéia, alma de nome 
A mim, à terra e aos céus... 

E súbito encontro Deus. 

  II/ PASSOU 

Passou, fora de Quando, 
De Porquê, e de Passando..., 
Turbilhão de Ignorado, 
Sem ter turbilhonado..., 

Vasto por fora do Vasto 
Sem ser, que a si se assombra... 

O Universo é o seu rasto... 
Deus é a sua sombra... 

  III/ A VOZ DE DEUS 

Brilha uma voz na noute... 
De dentro de Fora ouvi-a... 
Ó Universo, eu sou-te... 
Oh, o horror da alegria 
Deste pavor, do archote 
Se apagar, que me guia! 

Cinzas de idéia e de nome 
Em mim, e a voz: Ó mundo, 
Sermente em ti eu sou-me... 
Mero eco de mim, me inundo 
De ondas de negro lume 
Em que para Deus me afundo. 

  IV/ A QUEDA 

Da minha idéia do mundo  
 Caí... 
Vácuo além de profundo, 
Sem ter Eu nem Ali... 

Vácuo sem si-próprio, caos 
De ser pensado como ser... 
Escada absoluta sem degraus... 
Visão que se não pode ver... 

Além-Deus! Além-Deus! Negra calma... 
Clarão de Desconhecido... 
Tudo tem outro sentido, ó alma, 
Mesmo o ter-um-sentido... 

  V/ BRAÇO SEM CORPO BRANDINDO UM GLÁDIO

Entre a árvore e o vê-la )

Entre a árvore e o vê-la 
Onde está o sonho? 
Que arco da ponte mais vela  
Deus?... E eu fico tristonho 
Por não saber se a curva da ponte 
É a curva do horizonte... 

Entre o que vive e a vida 
Pra que lado corre o rio? 
Árvore de folhas vestida - 
Entre isso e Árvore há fio? 
Pombas voando - o pombal 
Está-lhes sempre à direita, ou é real? 

Deus é um grande Intervalo, 
Mas entre quê e quê?... 
Entre o que digo e o que calo 
Existo? Quem é que me vê? 
Erro-me... E o pombal elevado 
Está em torno na pomba, ou de lado? 


Poemas e Poesias sexta, 09 de maio de 2025

TROVAS HUMORÍSTICAS - 40 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
 
 

TROVA HUMORÍSTICA 40

Eno Teodoro Wanke

Fonte: Google

 

 

Ao motorista ela diz

– Não limpas o para-brisa?

– Que adianta? Os óculos, miss

Esqueci na outra camisa 


Poemas e Poesias quinta, 08 de maio de 2025

AGORA VOU SONHAR (POEMA DO PIAUIENSE DA COSTA E SILVA)

AGORA VOU SONHAR

Da Costa e Silva

Fonte: Google

 

 

 

 

A minha vida, sempre inquieta como o mar,
É de renúncia, sacrifício e desencanto:
Enquanto vão e vêm as ondas do meu pranto,
Estende-se o horizonte, além do meu olhar...

Na imensidade azul fico a cismar, enquanto,
A refletir o céu, vai-se acalmando o mar...
Acalma-se também minha dor, por encanto:
— Já cansei de sofrer! Vou agora sonhar...


Poemas e Poesias quarta, 07 de maio de 2025

LUA (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

LUA

Cruz e Sousa

Fonte: Google

 

 

 

Clamydes frescas, de brancuras frias,
Finissimas dalmáticas de neve
Véstem as longas arvores sombrias,
Surgindo a Lua nebulosa e leve...

Névoas e névoas frígidas ondulam...
Alagam lacteos e fulgentes rios
Que na enluarada refracção trémulam
D’entre phosphorescencias, calafrios...

 

E ondulam névoas, setinosas rêndas
De virginaes, de prónubas alvuras...
Vagam balladas e visões e lêndas
No flórido noivado das Alturas...

E fria, fluente, frouxa claridade
Fluctúa como as brumas de um lethargo...
E érra no espaço, em toda a immensidade,
Um sonho doente, cilicioso, amargo...

Da vastidão dos páramos serenos,
Das sideraes abobadas ceruleas
Cae a luz em antiphonas, em thrênos,
Em mysticismos, orações e dúlias...

E entre os marfins e as pratas diluidas
Dos languidos clarões tristes e enfêrmos,
Com grinaldas de rôxas margaridas
Vagam as Virgens de scysmares êrmos...

Cabellos torrenciaes e dolorosos
Bóiam nas ondas dos ethéreos gêlos.
E os corpos passam niveos, luminosos,
Nas ondas do luar e dos cabellos...

 

Vagam sombras gentis de mortas, vagam
Em grandes procissões, em grandes alas,
Dentre as auréolas, os clarões que alagam,
Opulencias de pérolas e opalas.

E a Lua vae chlorótica fulgindo
Nos seus alpérces ethereaes e brancos,
A luz gelada e pallida diluindo
Das serranias pelos largos flancos...

O’ Lua das magnolias e dos lyrios!
Geleira sideral entre as geleiras!
Tens a tristeza mórbida dos cyrios
E a lividez da chamma daa poncheiras!

Quando resúrges, quando brilhas e amas,
Quando de luzes a amplidão constéllas,
Com os fulgôres glaciaes que tu derramas
Dás febre e frio, dás nevrôse, gélas...

A tua dôr crystallisou-se ontr’ora
Na dôr profunda mais dilacerada
E das dôres estranhas, ó Astro, agora,
És a suprema Dôr crystalisada!...


Poemas e Poesias terça, 06 de maio de 2025

ODE AO DOUS DE JULHO (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)

ODE AO DOUS DE JULHO

Castro Alves

(Grafia original)

Fonte: Google

 

Era no Dous de Julho. A pugna imensa
Travara-se nos serros da Bahia...
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
"Neste lençol tão largo, tão extenso,
"Como um pedaço roto do infinito...
O mundo perguntava erguendo um grito:
"Qual dos gigantes morto rolará?!...

Debruçados do céu... a noite e os astros
Seguiam da peleja o incerto fado...
Era a tocha — o fuzil avermelhado!
Era o circo de Roma — o vasto chão!
Por palmas — o troar da artilharia!
Por feras — os canhões negros rugiam!
Por atletas — dous povos se batiam!
Enorme anfiteatro — era a amplidão!

Não! Não eram dous povos, que abalavam
Naquele instante o solo ensangüentado...
Era o porvir — em frente do passado,
A liberdade — em frente à escravidão.
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso — contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva — e do clarão!...

No entanto a luta recrescia indômita...
As bandeiras — como águias eriçadas —
Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis!...


Poemas e Poesias segunda, 05 de maio de 2025

CLARA (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)

CLARA

Casimiro de Abreu

Fonte: Google

 

 

 

Não sabes, Clara, que pena
eu teria se – morena
tu fosses em vez de clara!
Talvez… quem sabe… não digo…
mas refletindo comigo
talvez nem tanto te amara!

A tua cor é mimosa,
brilha mais da face a rosa
tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio…
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
mas a morena é da terra
enquanto a clara é dos anjos!

Mulher morena é ardente:
prende o amante demente
nos fios do seu cabelo;
– A clara é sempre mais fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou arder no teu gelo!

A cor morena é bonita,
mas nada, nada te imita
nem mesmo sequer de leve.
– O teu sorriso é delírio…
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!


Poemas e Poesias domingo, 04 de maio de 2025

MEMÓRIA (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

MEMÓRIA

Carlos Drummond de Andrade

Fonte: Google

 

 

 

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

 


Poemas e Poesias sábado, 03 de maio de 2025

SONETO 091- FERMOSOS OLHOS, QUE NA IDADE NOSSA (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
SONETO 091- FERMOSOS OLHOS, QUE NA IDADE NOSSA (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
  
SONETO 091 - FERMOSOS OLHOS, QUE NA IDADE NOSSA 
Luís de Camões
(Grafia original) 
Fonte: Google
 
 
Fermosos olhos, que na idade nossa
Mostrais do Ceo certissimos signais,
Se quereis conhecer quanto possais,
Olhai-me a mim, que sou feitura vossa.

Vereis que do viver me desapossa
Aquelle riso com que a vida dais:
Vereis como de Amor não quero mais,
Por mais que o tempo corra, o damno possa.

E se ver-vos nesta alma, emfim, quizerdes,
Como em hum claro espelho, alli vereis
Tambem a vossa angelica e serena.

Mas eu cuido que, só por me não verdes,
Ver-vos em mim, Senhora, não quereis:
Tanto gôsto levais de minha pena!

Poemas e Poesias sexta, 02 de maio de 2025

CEM TROVAS - 031 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)
 

TROVA 031

Belmiro Braga

Fonte: Google

 

Muitos supõe a ventura

Ver em meus olhos brilhar.

Quando esse brilho é tortura

De não poder mais chorar.

 


Poemas e Poesias quinta, 01 de maio de 2025

SPLEEN E CHARUTOS - IV - A LAGARTIXA (POEMA DO PAULISTA ÁLVARES DE AZEVEDO)
 


SPLEEN E CHARUTOS - IV - A LAGARTIXA

Álvares de Azevedo

Fonte: Google

 

 

A lagartixa ao sol ardente vive
E fazendo verão o corpo espicha:
O clarão de teus olhos me dá vida,
Tu és o sol e eu sou a lagartixa.

Amo-te como o vinho e como o sono,
Tu és meu copo e amoroso leito...
Mas teu néctar de amor jamais se esgota,
Travesseiro não há como teu peito.

Posso agora viver: para coroas
Não preciso no prado colher flores,
Engrinaldo melhor a minha fronte
Nas rosas mais gentis de teus amores.

Vale todo um harém a minha bela,
Em fazer-me ditoso ela capricha...

Vivo ao sol de seus olhos namorados,
Como ao sol de verão a lagartixa.


Poemas e Poesias quarta, 30 de abril de 2025

VESTÍGIOS DIVINOS (POEMA DO FLUMINENSE ALBERTO DE OLIVEIRA)

VESTÍGIO DIVINOS

Alberto de Oliveira

Fonte: Google

 

 

 

(Na Serra de Marumbi) ***

Houve deuses aqui, se não me engano;
Novo Olimpo talvez aqui fulgia;
Zeus agastava-se, Afrodite ria,
Juno toda era orgulho e ciúme insano.

Nos arredores, na montanha ou plano,
Diana caçava, Actéon a perseguia.
Espalhados na bruta serrania,
Inda há uns restos da forja de Vulcano.

Por toda esta extensíssima campina
Andaram Faunos, Náiades e as Graças,
E em banquete se uniu a grei divina.

Os convivas pagãos ainda hoje os topas
Mudados em pinheiros, como taças,
No hurra festivo erguendo no ar as copas.


Poemas e Poesias terça, 29 de abril de 2025

POEMAS PARA A AMIGA - FRAGMENTO 8 (POEMA DO MINEIRO AFFONSO ROMANO DE SANT*ANNA)

POEMAS PARA A AMIGA - FRAGMENTO 8

Affonso Romano de Sant'Anna

Fonte: Google

 

 

 

Contemplo agora


o leito que vazio


se contempla.


Contemplo agora


o leito que vazio


em mim se estende


e se me aproximo


existe qualquer coisa


trescalando aroma em mim.

 



Onde o teu corpo, amante-amiga,


onde o carinho


que compungido em recebia


e aquela forma que tranquila


ainda ontem descobrias?

 



Agora eu te diria


o quanto te agradeço o corpo teu


se o me dás ou se o me tomas,


e o recolhendo em mim,


em mim me vais colhendo,


como eu que tomo em ti


o que de ti me vais doando.

 



Eu muito te agradeço este teu corpo


quando nos leitos o estendias e o me davas,


às vezes, temerosa,


e, ofegante, às vezes,


e te agradeço ainda aquele instante (o percebeste)


em que extasiado ao contemplá-lo


em mim me conturbei


– (o percebeste) me aguardaste


e nos olhos te guardei.

 



Eu muito te agradeço, amante-amiga,


este teu corpo que com fúria eu possuía,


corpo que eu mais amava


quanto mais o via,


pequeno e manso enigma


que eu decifrei como podia.

 



Agora eu te diria


o que não soubeste


e nunca o saberias:


o que naquele instante eu te ofertava


nunca a mim eu já doara


e nunca o doaria.

 



Nele eu fui pousar


quando cansado e dúbio,


dele eu fui tomar


quando ofegante e rubro,


dele e nele eu revivia


e foi por ele que eu senti


a solidão, e o amor


que em mim havia.

 



Teu corpo quando amava


me excedia,


e me excedendo


com o amor foi me envolvendo,


e nesse amor absorvente


de tal forma absorvendo,


que agora que o não tenho


não sei como permaneço nesta ausência


em que tuas formas se envolveram,


tanto o amor


e a forma do teu corpo


no meu corpo se inscreveram. 

 


Poemas e Poesias segunda, 28 de abril de 2025

DELENDZA CARTHAGO! (POEMA DO CARIOCA OLAVO BILAC)

DELENDA CARTHAGO!

Olavo Bilac

Fonte: Google

 

 

I

Fulge e dardeja o sol nos amplos horizontes
Do céu da África. Ao largo, em plena luz, dos montes
Destacam-se os perfis. Tremulamente ondeia,
Vasto oceano de prata, a requeimada areia.
O ar, pesado, sufoca. E, desfraldando ovantes
Das bandeiras ao vento as pregas ondulantes,
Desfilam as legiões do exército romano
Diante do general Cipião Emiliano.
Tal soldado sopesa a dava de madeira;
Tal, que a custo sofreia a cólera guerreira,
Maneja a bipenata e rude machadinha.
Este, à ilharga pendente, a rútila bainha
Leva do gládio. Aquele a poderosa maça
Carrega, e às largas mãos a ensaia. A custo passa,
Curvado sob o peso e de fadiga aflando,
De guerreiros um grupo, os aríetes levando.
Brilham em confusão cristados capacetes.
Cavaleiros, contendo os ardidos ginetes,
Solta a clâmide ao ombro, ao braço afivelado
O côncavo broquel de cobre cinzelado,
Brandem o pílum no ar. Ressona, a espaços, rouca,

A bélica bucina. A tuba cava à boca
Dos eneatores troa. Hordas de sagitários
Vêem-se, de arco e carcás armados. O ouro e os vários
Ornamentos de prata embutem-se, em tauxias
De um correto lavor, nas armas luzidias
Dos generais. E, ao sol, que, entre nuvens, cintila,
Em torno de Cartago o exército desfila.

Mas, passada a surpresa, às pressas, a cidade
Aos escravos cedera armas e liberdade,
E era toda rumor e agitação. Fundindo
Todo o metal que havia, ou, céleres, brunindo
Espadas e punhais, capacetes e lanças,
Viam-se a trabalhar os homens e as crianças.

Heróicas, abafando os soluços e as queixas,
As mulheres, tecendo os fios das madeixas,
Cortavam-nas.
Cobrindo espáduas deslumbrantes,
Cercando a carnação de seios palpitantes
Como véus de veludo, e provocando beijos,
Excitaram paixões e lúbricos desejos
Essas tranças da cor das noites tormentosas...
Quantos lábios, ardendo em sedes luxuriosas,
As tocaram outrora entre febris abraços!..
Tranças que tanta vez - frágeis e doces laços! -
Foram cadeias de ouro invencíveis, prendendo
Almas e corações, - agora, distendendo
Os arcos, despedindo as setas aguçadas,
Iam levar a morte... - elas, que, perfumadas,
Outrora tanta vez deram a vida e o alento
Aos presos corações!...

Triste, entretanto, lento,
Ao pesado labor do dia sucedera
O silêncio noturno. A treva se estendera:
Adormecera tudo. E, no outro dia, quando
Veio de novo o sol, e a aurora, rutilando,
Encheu o firmamento e iluminou a terra,
A luta começou.

II

As máquinas de guerra
Movem-se. Treme, estala, e parte-se a muralha,
Racha de lado a lado. Ao clamor da batalha
Estremece o arredor. Brandindo o pílum, prontas,
Confundem-se as legiões. Perdido o freio, às tontas,
Desbocam-se os corcéis. Enrijam-se, esticadas
Nos arcos, a ringir, as cordas. Aceradas,
Partem setas, zunindo. Os dardos, sibilando,
Cruzam-se. Éneos broquéis amolgam-se, ressoando,
Aos embates brutais dos piques arrojados.
Loucos, afuzilando os olhos, os soldados,
Presa a respiração, torvo e medonho o aspeito,
Pela férrea squammata abroquelado o peito,
Se escruam no furor, sacudindo os macetes.
Não param, entretanto, os golpes dos aríetes,
Não cansam no trabalho os musculosos braços
Dos guerreiros. Oscila o muro. Os estilhaços
Saltam das pedras. Gira, inda uma vez vibrada
No ar, a máquina bruta... E, súbito, quebrada,
Entre o insano clamor do exército e o fremente
Ruído surdo da queda, - estrepitosamente
Rui, desaba a muralha, e a pétrea mole roda,
Rola, remoinha, e tomba, e se esfacela toda.

Rugem aclamações. Como em cachões, furioso,
Parte os diques o mar, roja-se impetuoso,
As vagas encrespando acapeladas, brutas,
E inunda povoações, enche vales e grutas,
E vai semeando o horror e propagando o estrago,
Tal o exército entrou as portas de Cartago...

O ar os gritos de dor e susto, espaço a espaço,
Cortavam. E, a bramir, atropelado, um passo
O invasor turbilhão não deu vitorioso,
Sem que deixasse atrás um rastro pavoroso
De feridos. No ocaso, o sol morria exangue:
Como que refletia o firmamento o sangue
Que tingia de rubro a lâmina brilhante
Das espadas. Então, houve um supremo instante,
Em que, cravando o olhar no intrépido africano
Asdrúbal, ordenou Cipião Emiliano:
"- Deixa-me executar as ordens do Senado!
Cartago morrerá: perturba o ilimitado
Poder da invicta Roma... Entrega-te! -"
Orgulhoso,
A fronte levantando, ousado e rancoroso,
Disse o cartaginês:
"- Enquanto eu tiver vida,
Juro que não será Cartago demolida!
Quando o incêndio a envolver, o sangue deste povo
Há de apagá-lo. Não! Retira-te! -"
De novo
Falou Cipião:
Atende, Asdrúbal! Por mais forte
Que seja o teu poder, há de prostrá-lo a morte!
Olha! A postos, sem conta, as legiões de Roma,
Que Júpiter protege e que o pavor não doma,
Vão começar em breve a mortandade infrene!
Entrega-te! -"
"- Romano, escuta-me! (solene,
O outro volveu, e a raiva em sua voz rugia)
Asdrúbal é o irmão de Aníbal... Houve um dia
Em que, ante Aníbal, Roma estremeceu vencida
E tonta recuou de súbito ferida.
Ficaram no lugar da pugna, ensangüentados,
Mais de setenta mil romanos, trucidados
Pelo esforço e valor dos púnicos guerreiros;
Seis alqueires de anéis dos mortos cavaleiros
Cartago arrecadou... Verás que, como outrora,
Do eterno Baal-Moloch a proteção agora
Teremos. A vitória há de ser nossa... Escuta:
Manda que recomece a carniceira luta! -"
E horrível, e feroz, durante a noite e o dia,
Recomeçou a luta. Em cada casa havia
Um punhado de heróis. Seis vezes, pela face
Do céu, seguiu seu curso o sol, sem que parasse
O medonho estridor da sanha da batalha...
Quando a noite descia, a treva era a mortalha
Que envolvia, piedosa, os corpos dos feridos.
Rolos de sangue e pó, blasfêmias e gemidos,
Preces e imprecações... As próprias mães, entanto,
Heróicas na aflição, enxuto o olhar de pranto,
Viam cair sem vida os filhos. Combatentes
Houve, que, não querendo aos golpes inclementes
Do inimigo entregar os corpos das crianças,
Matavam-nas, erguendo as suas próprias lanças...

Por fim, quando de todo a vida desertando
Foi a extinta cidade, e, lúgubre, espalmando
As asas negras no ar, pairou sinistra e horrenda
A morte, teve um fim a peleja tremenda,
E o incêndio começou.

III

Fraco e medroso, o fogo
À branda viração tremeu um pouco, e logo,
Inda pálida e tênue, ergueu-se. Mais violento,
Mais rápido soprou por sobre a chama o vento:
E o que era labareda, agora ígnea serpente
Gigantesca, estirando o corpo, de repente
Desenrosca os anéis flamívomos, abraça
Toda a cidade, estala as pedras, cresce, passa,
Rói os muros, estronda, e, solapando o solo,
Os alicerces broca, e estringe tudo. Um rolo
De plúmbeo e denso fumo enegrecido em torno
Se estende, como um véu, do comburente forno.
Na horrorosa eversão, dos templos arrancado,
Vibra o mármore, salta; abre-se, estilhaçado,
Tudo o que o incêndio aperta... E a fumarada cresce
Sobe vertiginosa, espalha-se, escurece
O firmamento... E, sobre os restos da batalha,
Arde, voraz e rubra, a colossal fornalha.

Mudo e triste Cipiáo, longe dos mais, no entanto,
Deixa livre correr pelas faces o pranto...

É que, - vendo rolar, num rápido momento
Para o abismo do olvido e do aniquilamento
Homens e tradições, reveses e vitórias,
Batalhas e troféus, seis séculos de glórias
Num punhado de cinza -, o general previa
Que Roma, a invicta, a forte, a armipotente, havia
De ter o mesmo fim da orgulhosa Cartago.
E, perto, o precipitar estrepitoso e vago
D0 incêndio, que lavrava e inda rugia ativo,
Era como o rumor de um pranto convulsivo...


Poemas e Poesias domingo, 27 de abril de 2025

O ANEL DE VIDRO (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

O ANEL DE VIDRO

Manuel Bandeira

Fonte: Google

 

 

 

Aquele pequenino anel que tu me deste,
— Ai de mim — era vidro e logo se quebrou...
Assim também o eterno amor que prometeste,
— Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou —
Aquele pequenino anel que tu me deste,
— Ai de mim — era vidro e logo se quebrou...

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo na alma a saudade celeste...
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste...


Poemas e Poesias sábado, 26 de abril de 2025

ZONA HERMÉTICA (POEMA DO MATO-GROSSENSE MANOEL DE BARROS)

ZONA HERMÉTICA

Manoel de Barros

Fonte: Google

 

 

 

 

De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos;
Uma remembrança de mil novecentos e onze;
Um rosto de moça cuspindo no capim de borco;
Um cheiro de magnólias secas. O poeta
Procura compor esse inconsútil jorro;
Arrumá-lo num poema; e o faz. E ao cabo
Reluz com sua obra. Que aconteceu? Isto:
O homem não se desvendou, nem foi atingido:
Na zona onde repousa em limos
Aquele rosto cuspido e aquele
Seco perfume de magnólias,
Faz-se um silêncio branco… E aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado. Não será marcado. Nunca será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.


Poemas e Poesias quinta, 24 de abril de 2025

SONHO (POEMA DO PORTUGUÊS JÚLIO DINIS)

SONHO

Júlio Dinis

Fonte: Google

 

 

 

Sonhando, chorei. Sonhava Que morta te estava a ver. Acordei: ardentes lágrimas
Senti nas faces correr.

Sonhando, chorei. Sonhada Que tu me querias deixar. Acordei: amargamente Fiquei
depois a chorar.

Sonhando, chorei, Sonhava
Que esse amor ainda era meu.
Acordei: corre o meu pranto
Como ainda assim não correu.


Poemas e Poesias quarta, 23 de abril de 2025

RAZÕES DE AMOR (POEMA DO ACRIANO J. G. DE ARAÚJO JORGE)

RAZÕES DE AMOR

J. G. de Araújo Jorge

Fonte: Google

 

 

 

I

Gosto desse teu ar tristonho,
desse olhar de melancolia,
mesmo nos momentos de prazer e de sonho,
ou nos instantes de amor e de alegria...

Gosto dessa tua expressão de ternura
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor...

Desse teu ar de menina, desse teu ar
que te faz mais mulher
ao meu olhar...

Gosto de tua voz, tranqüila, do tom manso
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes...

Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...

Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...

II

Gosto de ti
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;

de teu ventre – uma enseada
– porto sem cais e sem mar –
branca areia à espera da onda
que em vaivém vai se espraiar;
de teus quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;

– do teu corpo só de alvuras
– das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente...

Gosto de ti
desesperadamente;

gosto de ti, toda, inteira
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
– gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...

 

 

 


Poemas e Poesias terça, 22 de abril de 2025

LOUCURA (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

LOUCURA

Florbela Espanca

Fonte: Google

 

 

 

Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada
Pavorosa! Não sei onde era dantes.
Meu solar, meus palácios meus mirantes!
Não sei de nada, Deus, não sei de nada!...

Passa em tropel febril a cavalgada
Das paixões e loucuras triunfantes!
Rasgam-se as sedas, quebram-se os diamantes!
Não tenho nada, Deus, não tenho nada!...

Pesadelos de insônia, ébrios de anseio!
Loucura a esboçar-se, a enegrecer
Cada vez mais as trevas do meu seio!

Ó pavoroso mal de ser sozinha!
Ó pavoroso e atroz mal de trazer
Tantas almas a rir dentro da minha!


Poemas e Poesias segunda, 21 de abril de 2025

EM PLENA VIDA E VIOLÊNCIA (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)

EM PLENA VIDA E VIOLÊNCIA

Fernando Pessoa

Fonte: Google

 

 

 

 

Em plena vida e violência
De desejo e ambição,
De repente uma sonolência
Cai sobre a minha ausência.
Desce ao meu próprio coração.

Será que a mente, já desperta
Da noção falsa de viver,
Vê que, pela janela aberta,
Há uma paisagem toda incerta
E um sonho todo a apetecer ?

 


Poemas e Poesias domingo, 20 de abril de 2025

TROVAS HUMORÍSTICAS - 39 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
TROVAS HUMORÍSTICAS - 38 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
 

TROVA HUMORÍSTICA 39

Eno Teodoro Wanke

Fonte: Google

 

Dois canibais conversando:

– Mas quem era aquele moço

Que ontem vi contigo andando?

– Não era moço... era almoço

 


Poemas e Poesias sábado, 19 de abril de 2025

VIVO COMO UM SONÂMBULO (POEMA DO PIAUIENSE DA COSTA E SILVA)

VIVO COMO UM SONÂMBULO

Da Costa e Silva

Fonte: Google

 

 

 

Eu vi o Amor adormecido aos pés da Morte,
Na curva mais suave da minha vida...
Foi quando o coração que sonha, mas não dorme,
Ao perder-te, ficou incontentado e triste.

Desde esse tempo, indiferente ao meu destino,
Vivo como um sonâmbulo que sofre;
Como um fantasma doloroso de mim mesmo,
Seguindo as sombras vacilantes do caminho...

Mas, antes de esquecer-te, espero a morte,
Para o sono de amor de uma noite sem termo.


Poemas e Poesias sexta, 18 de abril de 2025

SETE DE SETEMBRO (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

SETE DE SETEMBRO

Cruz e Sousa

Fonte: Google

 

 

 

Liberdade! Independência!...
 

eis os brados grandiosos
 

que quais raios luminosos
 

fulguraram lá nos céus!...
 

Eis a mágica -Odisséia
 

que duns lábios rebentando,
 

foi o povo transformando,
 

foi rompendo os negros véus!...
 
As colinas, prados, montes,
 

as florestas seculares
 

-os sertões, os próprios mares
 

exultaram com fervor!
 

E os brados retumbaram
 

pela lúcida devesa,
 

pela virgem natureza
 

com homérico clangor!...
 
Qual artista consumado,
 

qual um velho estatuário
 

do Brasil no azul sacrário,
 

essa data vos traçou,
 

-o triunfo mais pujante,
 

a eleita das idéias,
 

a maior das epopéias
 

-q'inda igual não se gerou!...
 
Mas embora, meus senhores
 

se festeje a Liberdade,
 

a gentil Fraternidade
 

não raiou de todo, não!...
 

E a pátria dos Andradas
 

dos -Abreu, Gonçalves Dias
 

inda vê nuvens sombrias,
 

vê no céu fatal bulcão!...
 
Muito embora Rio Branco,
 

esse cérebro profundo
 

que passou por entre o mundo,
 

do Brasil como um Tupá!...
 

Muito embora em catadupas
 

derramasse o verbo augusto,
 

da nação no enorme busto
 

inda a mancha existe, há!...
 
É preciso com esforço,
 

colossal, estranho, ingente,
 

ir o cancro, de repente
 

esmagar que nos corrói!...
 

É preciso que essa Deusa,
 

a excelsa Liberdade,
 

raie enfim na Imensidade
 

mais altiva como sói!...
 
Sai da larva a borboleta
 

com as asas auriazuis
 

e um disco vai -de luz
 

a deixar onde passou!
 

No entanto o grande berço
 

das façanhas de Cabrito
 

inda espera um novo grito
 

como o -Basta- de Waterloo!...
 
Eu bem sei que Guttemberg
 

que esse Fulton primoroso
 

Faust, Kepler grandioso
 

trabalharam té vencer!
 

mas embora tropeçassem
 

acurando os seus eventos,
 

tinham sempre tais portentos
 

a vontade por poder!...
 
Eia! sim! -p'ra Liberdade
 

irrompei qual verbo eterno,
 

como o -Fiat- superno
 

pelos ares a rolar!
 

Eia! sim! -que nossa pátria
 

só precisa -mas de bravos...
 

E em prol desses escravos
 

seu dever é trabalhar!!...
 
Somos filhos dessa gleba
 

majestosa aonde o gênio
 

como o astro do proscênio
 

solta as asas, mui febril!
 

Dos selvagens Tiaraiús
 

e dos brônzeos Guaicurus...
 

Somos filhos do Brasil!...
 
Esperemos, tudo embora!...
 

pois que a sã locomotiva,
 

do progresso imagem viva
 

não se fez a um sopro vão!
 

Aguardemos o momento
 

das mais altas epopéias,
 

quando o gládio das idéias
 

empunhar toda a nação!...
 
Esperemos mais um pouco
 

q'inda há almas brasileiras
 

que se lembrarão, sobranceiras,
 

que é preciso progredir!...
 

Inda há peitos valerosos
 

que combatem descobertos
 

por florestas, por desertos,
 

mas c'os olhos no porvir!...
 
Inda há lúcidas falanges
 

lutadores denodados
 

que se erguem transportados
 

burilando a sã razão!...
 

Inda há quem se recorde
 

do Egrégio Tiradentes
 

que do sangue as gotas quentes
 

derramou pela nação!!...
 
Já nas margens do Ipiranga
 

patrióticos acentos
 

vão alados como os ventos
 

pelos páramos azuis!!...
 

Vamos! Vamos! -eia! exulta,
 

jovem pátria dos renomes...
 

-Vibra a lira, Carlos Gomes!
 

Bocaiúva, espalha luz!!...

Poemas e Poesias quinta, 17 de abril de 2025

MÃOS DADAS (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE()

MÃOS DADAS

Carlos Drummond de Andrade

Fonte: Google

 

 

 

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


Poemas e Poesias quarta, 16 de abril de 2025

SONETO 065 - FERIDO SEM TER CURA PARECIA (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
  
SONETO 065 - FERIDO EM TER CURA PARECIA 
Luís de Camões
(Grafia original) 
Fonte: Google
 
 
Ferido sem ter cura perecia
O forte e duro Télepho temido
Por aquelle que na agua foi metido,
E a quem ferro nenhum cortar podia.

Quando a Apollineo Oraculo pedia
Conselho para ser restituido,
Respondeo-lhe, tornasse a ser ferido
Por quem o ja ferira, e sararia.

Assi, Senhora, quer minha ventura;
Que ferido de ver-vos claramente,
Com tornar-vos a ver Amor me cura.

Mas he tão doce vossa formosura,
Que fico como o hydropico doente,
Que bebendo lhe cresce mór seccura.

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