Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)
Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.
Poemas e Poesias quinta, 06 de julho de 2023
FASCÍNIO (POMA DO MINEIRO AFFONSO ROMANO DE SANT*ANNA
FASCÍNIO
Affonso Romano de Sant'Anna
Casado, continuo a achar as mulheres irresistíveis. Não deveria, dizem. Me esforço. Aliás, já nem me esforço. Abertamente me ponho a admirá-las. Não estou traindo ninguém, advirto. Como pode o amor trair o amor? Amar o amor num outro amor é um ritual que, amante, me permito.
Poemas e Poesias quarta, 05 de julho de 2023
PAIXÃO (POEMA DA MINEIRA ADÉLIA PRADO)
PAIXÃO
Adélia Prado
De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo. O mundo, cheio de departamentos, não é a bola bonita caminhando solta no espaço.
Poemas e Poesias segunda, 03 de julho de 2023
REPOUSO (POEMA DA CARIOCA ADALGISA NERY)
REPOUSO
Adalgicsa Nery
Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito amada.
Poemas e Poesias domingo, 02 de julho de 2023
A MORTE DE MADRUGADA (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)
A MORTE DE MADRUGADA
Vinícius de Moraes
Muerto cayó Federico. Antonio Machado
Uma certa madrugada Eu por um caminho andava Não sei bem se estava bêbado Ou se tinha a morte n'alma Não sei também se o caminho Me perdia ou encaminhava Só sei que a sede queimava-me A boca desidratada. Era uma terra estrangeira Que me recordava algo Com sua argila cor de sangue E seu ar desesperado. Lembro que havia uma estrela Morrendo no céu vazio De uma outra coisa me lembro: ... Un horizonte de perros Ladra muy lejos del río...
De repente reconheço: Eram campos de Granada! Estava em terras de Espanha Em sua terra ensangüentada Por que estranha providência Não sei... não sabia nada... Só sei da nuvem de pó Caminhando sobre a estrada E um duro passo de marcha Que em meu sentido avançava.
Como uma mancha de sangue Abria-se a madrugada Enquanto a estrela morria Numa tremura de lágrima Sobre as colinas vermelhas Os galhos também choravam Aumentando a fria angústia Que de mim transverberava.
Era um grupo de soldados Que pela estrada marchava Trazendo fuzis ao ombro E impiedade na cara Entre eles andava um moço De face morena e cálida Cabelos soltos ao vento Camisa desabotoada. Diante de um velho muro O tenente gritou: Alto! E à frente conduz o moço De fisionomia pálida. Sem ser visto me aproximo Daquela cena macabra Ao tempo em que o pelotão Se dispunha horizontal.
Súbito um raio de sol Ao moço ilumina a face E eu à boca levo as mãos Para evitar que gritasse. Era ele, era Federico O poeta meu muito amado A um muro de pedra seca Colado, como um fantasma. Chamei-o: Garcia Lorca! Mas já não ouvia nada O horror da morte imatura Sobre a expressão estampada... Mas que me via, me via Porque em seus olhos havia Uma luz mal-disfarçada. Com o peito de dor rompido Me quedei, paralisado Enquanto os soldados miram A cabeça delicada.
Assim vi a Federico Entre dois canos de arma A fitar-me estranhamente Como querendo falar-me. Hoje sei que teve medo Diante do inesperado E foi maior seu martírio Do que a tortura da carne. Hoje sei que teve medo Mas sei que não foi covarde Pela curiosa maneira Com que de longe me olhava Como quem me diz: a morte É sempre desagradável Mas antes morrer ciente Do que viver enganado.
Atiraram-lhe na cara Os vendilhões de sua pátria Nos seus olhos andaluzes Em sua boca de palavras. Muerto cayó Federico Sobre a terra de Granada La tierra del inocente No la tierra del culpable. Nos olhos que tinha abertos Numa infinita mirada Em meio a flores de sangue A expressão se conservava Como a segredar-me: - A morte É simples, de madrugada...
Poemas e Poesias sábado, 01 de julho de 2023
SERENATA (POEMA DO PAULISTA VICENTE DE CARVALHO)
SERENATA
Vicente de Carvalho
Pela vasta noite indolente Voga um perfume estranho. Eu sonho... E aspiro o vago aroma ausente Do teu cabello castanho.
Pela vasta noite tranquilla Pairam, longe, as estrellas. Eu sonho... O teu olhar tambem scintilla Assim, tão longe como ellas.
Pela vasta noite povoada De rumores e arquejos Eu sonho... E’ tua voz, entrecortada De suspiros e de beijos.
Pela vasta noite sem termo, Que deserto sombrio! Eu sonho... Inda é mais triste, inda é mais ermo O nosso leito vasio.
Pela vasta noite que finda Sóbe o dia risonho... E eu cerro os olhos para ver-te ainda, Ainda e sempre, em meu sonho.
Poemas e Poesias sexta, 30 de junho de 2023
QUANDO O SANTO GUERREIRO ENTREGA AS PONTAS (POEMA DO PIAUIENSE TORQUATO NETO)
QUANDO O SANTO GUERREIRO ENTGREGA AS PONTAS
Torquato Neto
nada de mais: o muro pintado de verde e ninguém que precise dizer-me que esse verde que não quero verde lírico mais planos e mais planos se desfaz: nada demais: aqui de dentro eu pego e furo a fogo e luz (é movimento) vosso sistema protetor de incêndios e pinto a tela o muro diferente porque uso como quero minhas lentes e filmo o verde, que eu não temo o verde, de outra cor: diariamente encaro bem de perto e escarro sobre o muro: nada demais
a fruta não está verde nem madura é dura e dura e dura o tempo contratempo de escolher o enquadramento melhor — ver do outro lado com olhos livres (nem deus nem diabo), projetar lado de dentro — a luz mais pura embora a sala do cinema seja escura: nada demais: planos gerais sobre a paisagem sobre o muro da passagem proibida enquanto procuramos (encontramos) infinitas brechas escondidas. cuidado madame. nada de mais: cadê o câncer daquela tarde alucinante? ai de mim, copacabana, desvairada, mon amour. nada de mais na tela do cinema oficial: já não estamos nos formando com o tal, o general da banda do cinema que deserta: a arqueologia é na cinemateca. esquece. e tudo começou de novo e já acontece (sentença de deus) e o resto aconteceu: the end. fim. não falem mais dessa mulher perto de mim. depois da fruta podreverde que apodrece — a tela livre de quem só tem memória a aí só conta história, o muro iluminado de outra cor e outra glória pois quem não morre não deserta nem se entrega desprega o comovido verde lírico e apronta e inventa e acontece com o perigo (poesia) a imagem nova — o arco tenso os nove fora (tema: cinema: lema) a prova.
Poemas e Poesias quinta, 29 de junho de 2023
FIO DE VIDA (POEMA DO AMAZONENSE THIAGO DE MELLO)
FIO DE VIDA
Thiago de Mello
Já fiz mais do que podia Nem sei como foi que fiz. Muita vez nem quis a vida a vida foi quem me quis.
Para me ter como servo? Para acender um tição na frágua da indiferença? Para abrir um coração
no fosso da inteligência? Não sei, nunca vou saber. Sei que de tanto me ter, acabei amando a vida.
Vida que anda por um fio, diz quem sabe. Pode andar, contanto (vida é milagre) que bem cumprido o meu fio.
Poemas e Poesias quarta, 28 de junho de 2023
FRAGMENTOS DO MAR (POEMA DO MARANHENSE SOUSÂNDRADE)
FRAGMENTOS DO MAR
Sousândrade
Meneia a larga cauda e as barbatanas Limoso leviatã cheio de conchas Com dorso de rochedo que ondas cercam; Cristalinos pendões planta nas ventas, De brilhantes vapores, que em bandeiras Íris enrolam de formosa sombra. Negra fragata lá circula as asas Sobre a nuvem dos peixes voadores. Agora rompe a nau lençóis infindos Que o mar tépido choca, e vindo a aurora Já salta a criação d'escamas belas.
Poemas e Poesias terça, 27 de junho de 2023
COMPLETUDE (POEMA DO BAIANO RICARDO LIMA)
COMPLETUDE
Ricardo Lima
A profundidade humana que lamenta, adentra
Sensatez insensata, imediata
Nó e pauta, desata, ata.
A completude humana, emana, insensata, mata.
Poemas e Poesias segunda, 26 de junho de 2023
LEGENDA DOS DIAS (POEMA DO FLUMINENSE RAUL DE LEÔNI)
LEGENDA DOS DIAS
Rau de Leôni
O Homem desperta e sai cada alvorada Para o acaso das cousas... e à saída, Leva uma crença vaga, indefinida, De achar o ideal nalguma encruzilhada...
As horas morrem sobre as horas... Nada! E ao Poente, o Homem, com a sombra recolhida, Volta pensando: "Se o Ideal da Vida Não veio hoje, virá na outra jornada “...
Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim, Mais ele avança, mais distante é o fim, Mais se afasta o horizonte pela esfera...
E a Vida passa... efêmera e vazia; Um adiamento eterno que se espera, Numa eterna esperança que se adia...
Poemas e Poesias domingo, 25 de junho de 2023
SOU CABRA DA PESTE (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ)
SOU CABRA DA PESTE
Patativa do Assaré
Eu sou de uma terra que o povo padece Mas nunca esmorece, procura vencê, Da terra adorada, que a bela caboca De riso na boca zomba no sofrê.
Não nego meu sangue, não nego meu nome, Olho para fome e pergunto: o que há? Eu sou brasilêro fio do Nordeste, Sou cabra da peste, sou do Ceará.
Tem munta beleza minha boa terra, Derne o vale à serra, da serra ao sertão. Por ela eu me acabo, dou a própria vida, É terra querida do meu coração.
Meu berço adorado tem bravo vaquêro E tem jangadêro que domina o má. Eu sou brasilêro fio do Nordeste, Sou cabra da peste, sou do Ceará.
Ceará valente que foi munto franco Ao guerrêro branco Soare Moreno, Terra estremecida, terra predileta Do grande poeta Juvená Galeno.
Sou dos verde mare da cô da esperança, Que as água balança pra lá e pra cá. Eu sou brasilêro fio do Nordeste, Sou cabra da peste, sou do Ceará.
Ninguém me desmente, pois, é com certeza, Quem qué vê beleza vem ao Cariri, Minha terra amada pissui mais ainda, A muié mais linda que tem o Brasí.
Terra da jandaia, berço de Iracema, Dona do poema de Zé de Alencá. Eu sou brasilêro fio do Nordeste, Sou cabra da peste, sou do Ceará.
Poemas e Poesias sábado, 24 de junho de 2023
DE PAPO PRO AR (POEMA DO PERNAMBUCANO OLEGÁRIO MARIANO)
DE PAPO PRO AR
Olegário Mariano
Eu não quero outra vida
Pescando no rio de Jereré
Tenho peixe bom
Tem siri patola
Que dá com o pé
Quando no terreiro
Faz noite de luar
E vem a saudade me atormentar
Eu me vingo dela
Tocando viola de papo pro ar
Se compro na feira
Feijão, rapadura
Pra que trabalhar
Sou filho do homem
E o homem não deve
Se apoquentar
Poemas e Poesias sexta, 23 de junho de 2023
CÉSAR (POEMA DO CARIOCA OLAVO BILAC)
CÉSAR
Olavo Bilac
Na ilha de Seine. O mar brame na costa bruta.
Gemem os bardos. Triste, o olhar por céus em fora
Uma druidisa alonga, e os astros mira, e chora
De pé, no limiar de tenebrosa gruta.
Abandonou-te o deus que a tua raça adora,
Pobre filha de Teut! César aí vem! Escuta
O passo das legiões! ouve o fragor da luta
E o alto e crebro clangor da bucina sonora!
Dos Alpes, sacudindo as asas de ouro ao vento,
As grandes águias sobre os domínios gauleses
Descem, escurecendo o azul do firmamento...
E já, do Interno mar ao mar Armoricano,
Retumba o entrechocar dos rútilos paveses
Que carregam a glória o imperador romano.
Poemas e Poesias quinta, 22 de junho de 2023
O MAPA (POEMA DO GAÚCHO MÁRIO QUINTANA)
O MAPA
Mário Quintana
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…
(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso…
Poemas e Poesias quarta, 21 de junho de 2023
ENQUANTO A CHUVA CAI (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)
ENQUANTO A CHUVA CAI
Manuel Bandeira
A chuva cai. O ar fica mole . . . Indistinto . . . ambarino . . . gris . . . E no monótono matiz Da névoa enovelada bole A folhagem como o bailar.
Torvelinhai, torrentes do ar!
Cantai, ó bátega chorosa, As velhas árias funerais. Minh’alma sofre e sonha e goza À cantilena dos beirais.
Meu coração está sedento De tão ardido pelo pranto. Dai um brando acompanhamento À canção do meu desencanto.
Volúpia dos abandonados . . . Dos sós . . . — ouvir a água escorrer, Lavando o tédio dos telhados Que se sentem envelhecer . . .
Ó caro ruído embalador, Terno como a canção das amas! Canta as baladas que mais amas, Para embalar a minha dor!
A chuva cai. A chuva aumenta. Cai, benfazeja, a bom cair! Contenta as árvores! Contenta As sementes que vão abrir!
Eu te bendigo, água que inundas! Ó água amiga das raízes, Que na mudez das terras fundas Às vezes são tão infelizes!
E eu te amo! Quer quando fustigas Ao sopro mau dos vendavais As grandes árvores antigas, Quer quando mansamente cais.
É que na tua voz selvagem, Voz de cortante, álgida mágoa, Aprendi na cidade a ouvir Como um eco que vem na aragem A estrugir, rugir e mugir, O lamento das quedas-d’água!
Poemas e Poesias terça, 20 de junho de 2023
O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA (POEMA DO MATO-GROSSENSE MANOEL DE BARROS)
O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA
Manoel de Barros
Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água. O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio, do que do cheio. Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito, porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O menino fazia prodígios. Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura. A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta! Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens, e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Poemas e Poesias segunda, 19 de junho de 2023
HISTÓRIA DE UNS BEIJOS (POEMA DO PORTUGUÊS JÚLIO DINIS)
HISTÓRIA DE UNS BEIJOS
Júlio Dinis
Ouvi gabar os beijosDizer deles tanto bemQue me nasceram desejosDe provar alguns também.Esta fruta não é raraMas nem toda tem valorA melhor é muito caraE a barata é sem sabor.Colhi-os dos mais mimososProvei três; mas por meu mal,Ao princípio saborososAmargaram-me afinal.Um colhi eu de uma belaQue era Rosa, sem ser flor,Se tinha espinhos como ela,Dela também tinha a cor.Vi-a a dormir e furtei-lheUm beijo que a acordou.Eu gostei, porém causei-lheTal susto que desmaiou.Logo que a vi sem sentidosFugi sem outro lhe dar,Dois beijos sem ser pedidosNão são coisa para brincar.Porém deste beijo aindaPouco tive que dizer,Pois a tal Rosa, era lindaE tornou a reviver.
Poemas e Poesias domingo, 18 de junho de 2023
VELHO TEMA - A SAUDADE (POEMA DO ALAGOANO JORGE DE LIMA)
VELHO TEMA - A SAUDADE
Jorge de Lima
Quem não a canta? Quem? Quem não a canta e sente?
— Chama que já passou mas que assim mesmo é chama...
A Saudade, eu a sinto infinda, confidente.
Que de longe me acena e me fascina e chama...
Mágoa de todo o mundo e que tem toda gente:
Uns sorrisos de mãe... uns sorrisos de dama...
..Um segredo de amor que se desfaz e mente...
Quem não os teve? Quem? Quem não os teve e os ama?
Olhos postos ao léu, altívagos, à toa,
Quantas vezes tu mesmo, a cismar, de repente
Te ficaste gozando uma saudade boa?
Se vês que em teu passado uma saudade adeja,
— Faze que uma saudade a ti seja o presente!
— Faze que tua morte uma saudade seja!
Poemas e Poesias sábado, 17 de junho de 2023
SEVILHA EM CASA (POEMA DO PERNAMBUCANO JOÃO CABRAL DE MELO NETO)
SEVILHA EM CASA
João Cabral de Melo Neto
Tenho Sevilha em minha casa. Não sou eu que está chez Sevilha. É Sevilha em mim, minha sala. Sevilha e tudo o que ela afia.
Sevilha veio a Pernambuco porque Aloísio lhe dizia que o Capibaribe e o Guadalquivir são de uma só maçonaria.
Eis que agora Sevilha cobra onde a irmandade que haveria: faço vir as pressas ao Porto Sevilhana além de Sevilha.
Sevilhana que além do Atlântico vivia o trópico na sombra fugindo os sóis Copacabana traz grossas cortinas de lona.
Poemas e Poesias sexta, 16 de junho de 2023
FALTA DE AR (POEMA DO ACRIANO J. G. DE ARAÚJO JORGE)
FALTA DE AR
J. G. de Araújo Jorge
Há dias que posso passar sem sol, sem luz, sem pão, sem tudo enfim...
( Tenho até a impressão de que não preciso de nada... ... nem mesmo de mim...)
Mas há dias, amor... ( e parece mentira) - nem eu sei explicar o porquê de tão grande aflição -
em que não posso passar sem Você um segundo que seja! - de repente preciso encontrá-la, é preciso que a veja -
- Você é o ar com que respira meu coração !
Poemas e Poesias quinta, 15 de junho de 2023
PASSEIO (POEMA DA PAULISTA HILDA HILST
PASSEIO
Hilda Hilst
De um exílio passado entre a montanha e a ilha Vendo o não ser da rocha e a extensão da praia. De um esperar contínuo de navios e quilhas Revendo a morte e o nascimento de umas vagas. De assim tocar as coisas minuciosa e lenta E nem mesmo na dor chegar a compreendê-las. De saber o cavalo na montanha. E reclusa Traduzir a dimensão aérea do seu flanco. De amar como quem morre o que se fez poeta E entender tão pouco seu corpo sob a pedra. E de ter visto um dia uma criança velha Cantando uma canção, desesperando, É que não sei de mim. Corpo de terra.
Poemas e Poesias quarta, 14 de junho de 2023
LUAR DE PAQUETÁ (POEMA DO SERGIPANO HERMES FONTES)
LUAR DE PAQUETÁ
Hermes Fontes
Nessas noites olorosas, quando o mar, desfeito em rosas se desfolha a lua cheia, lembra a Ilha um ninho oculto, onde o Amor celebra, em culto, todo encanto que a rodeia. Nos canteiros ondulantes, as Nereidas, incessantes, abrem lírios ao luar… A água, em prece, burburinha, e, em redor da capelinha, vai rezando o verbo amar. . Pensamento de quem ama, hóstia azul, fervendo em chama, entre lábios separados… Pensamento de quem ama, leva o meu radiograma ao jardim dos namorados! Onde é esse paraíso, o caminho que idealizo, na ascensão para esse altar? Paquetá é um céu profundo que começa nesse mundo, mas não sabe onde acabar… . Sobre o mar de azul rendado, que é toalha de um noivado, surge a Ilha-taça erguida: E o luar-vinho doirado – enche a taça do Passado que embriaga a nossa vida! Ai! que filtro milagroso, para a mágoa e para o gozo, para a eterna Inspiração: o Luar, na mocidade, abre as rosas da saudade dentro em nosso coração.
Estribilho: Jardim de afetos, pombal de amores Humildes tetos de pescadores… Se a lua brilha, que bem nos dá Amar na Ilha de Paquetá
Poemas e Poesias terça, 13 de junho de 2023
HAICAIS DO PAULISTA GUILHERME DE ALMEIDA
HAICAIS
Guilherme de Almeida
O PENSAMENTO
O ar. A folha. A fuga. No lago, um círculo vago. No rosto, uma ruga.
HORA DE TER SAUDADE
Houve aquele tempo... (E agora, que a chuva chora, ouve aquele tempo!)
INFÂNCIA
Um gosto de amora comida com sol. A vida chamava-se "Agora".
CIGARRA
Diamante. Vidraça. Arisca, áspera asa risca o ar. E brilha. E passa.
CONSOLO
A noite chorou a bolha em que, sobre a folha, o sol despertou.
CHUVA DE PRIMAVERA
Vê como se atraem nos fios os pingos frios! E juntam-se. E caem.
NOTURNO
Na cidade, a lua: a jóia branca que bóia na lama da rua.
OS ANDAIMES
Na gaiola cheia (pedreiros e carpinteiros) o dia gorjeia.
TRISTEZA
Por que estás assim, violeta? Que borboleta morreu no jardim?
PESCARIA
Cochilo. Na linha eu ponho a isca de um sonho. Pesco uma estrelinha.
JANEIRO
Jasmineiro em flor. Ciranda o luar na varanda. Cheiro de calor.
DE NOITE
Uma árvore nua aponta o céu. Numa ponta brota um fruto. A lua?
FRIO
Neblina? ou vidraça que o quente alento da gente, que olha a rua, embaça?
FESTA MÓVEL
Nós dois? - Não me lembro. Quando era que a primavera caía em setembro?
ROMANCE
E cruzam-se as linhas no fino tear do destino. Tuas mãos nas minhas.
Poemas e Poesias segunda, 12 de junho de 2023
O PRIMEIRO FILHO (POEMA DO PORTUGUÊS GUERRA JUNQUEIRO)
O PRIMEIRO FILHO
Guerra Junqueiro
(Carta ao amigo Bernardo Pindela)
Entre tanta miséria e tantas coisas vis Deste vil grão de areia, Ainda tenho o condão de me sentir feliz Com a ventura alheia.
À minha noite triste, à noite tormentosa, Onde busco a verdade, Chegou com asas d'oiro a canção cor-de-rosa Da tua felicidade.
És pai, viste nascer um fragmento d'aurora Da tua alma, de ti... Oh, momento divino em que o sorriso chora, E em que o pranto sorri!
Que ventura radiante! oh que ventura infinda! Olímpicos amores Ter frutos em Abril com o vergel ainda Carregado de flores!
Deslumbramento!... ver num berço o teu futuro Sorrindo ao teu presente!... Ter a mulher e a mãe: juntar o beijo puro Com o beijo inocente!...
Eu que vou, javali de flanco ensanguentado, Pelos rudes caminhos Ajoelho quando escuto à beira dum valado Os murmúrios dos ninhos!
Em tudo que alvorece há um sorriso d'esperança, Candura imaculada!... E quer seja na flor, quer seja na criança Sente-se a madrugada.
Quando, como um aroma, o hálito da infância Passa nos lábios meus Vejo distintamente encurtar-se a distância Entre a minh'alma e Deus.
A mão para apontar o azul, mão cor-de-rosa Que aconselha e domina, Será tanto mais forte e tanto mais bondosa Quanto mais pequenina.
Poemas e Poesias domingo, 11 de junho de 2023
DESEJO INÚTIL (POEMA DA PAULISTA FRANCISCA JÚLIA)
DESEJO INÚTIL
Francisca Júlia
[Ao querido mestre e amigo
Vicente de Carvalho]
Qualquer cousa afinal de belo escolher devo
Para em verso plasmar no esforço da obra prima:
Flor que viceja á sombra, aza que paira em cima,
Aroma de um pomar ou de um campo de trevo.
Aroma, ou asa, ou flor... Tudo o que diga e exprima
Perde, ao moldar-se em verso, o seu próprio relevo,
Porque sinto, mau grado a gloria com que escrevo,
Presa a imaginação no limite da rima.
Não vai pois provocar, e sem que isto te praza,
Minh′ alma, e por amor d′ arte que se não doma,
A mágoa que te dói e a febre que te abrasa:
O aroma, sente! Est’asa, admira! esta flor, toma!
Mas deixa continuar inexprimidas a asa,
A beleza da flor e a frescura do aroma.
Poemas e Poesias sábado, 10 de junho de 2023
NESTA AUSÊNCIA (POEMA DA CARIOCA GILKA MACHADO)
NESTA AUSÊNCIA
Gilka Machado
Nesta ausência que me excita, tenho-te, à minha vontade, numa vontade infinita... Distância, sejas bendita! Bendita sejas, saudade!
Teu nome lindo...Ao dizê-lo queimo os lábios, meu amor! - O teu nome é um setestrelo na noite da minha dor.
Nunca digas com firmeza que a mágoa apenas crucia: a saudade é uma tristeza, que nos dá tanta alegria!
Passo horas calada e queda, a rever, a relembrar as duas asas de seda do teu langoroso olhar.
Se a mágoa nos não conforta, por que é que a felicidade tem mais sabor quando morta, depois que se faz saudade?
Poemas e Poesias sexta, 09 de junho de 2023
CASTELÃ DA TRISTEZA (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)
CASTELÃ DA TRISTEZA
Florbela Espanca
Altiva e couraçada de desdém, Vivo sozinha em meu castelo: a Dor! Passa por ele a luz de todo o amor ... E nunca em meu castelo entrou alguém!
Castelã da Tristeza, vês? ... A quem? ... – E o meu olhar é interrogador – Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr ... Chora o silêncio ... nada ... ninguém vem ...
Castelã da Tristeza, porque choras Lendo, toda de branco, um livro de horas, À sombra rendilhada dos vitrais? ...
À noite, debruçada, plas ameias, Porque rezas baixinho? ... Porque anseias? ... Que sonho afagam tuas mãos reais? ...
Poemas e Poesias quinta, 08 de junho de 2023
A ALEGRIA (POEMA DO MARANHENSE FERREIRA GULLAR)
A ALEGRIA
Ferreira Gullar
O sofrimento não tem nenhum valor Não acende um halo em volta de tua cabeça, não ilumina trecho algum de tua carne escura (nem mesmo o que iluminaria a lembrança ou a ilusão de uma alegria).
Sofres tu, sofre um cachorro ferido, um inseto que o inseticida envenena. Será maior a tua dor que a daquele gato que viste a espinha quebrada a pau arrastando-se a berrar pela sarjeta sem ao menos poder morrer?
A justiça é moral, a injustiça não. A dor te iguala a ratos e baratas que também de dentro dos esgotos
espiam o sol e no seu corpo nojento de entre fezes querem estar contentes.
Poemas e Poesias quarta, 07 de junho de 2023
DÁ A SURPRESA DE SER (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)
DÁ A SURPRESA DE SER
Fernando Pessoa
Dá a surpresa de ser
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.
Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.
E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.
Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?
Poemas e Poesias terça, 06 de junho de 2023
OS LÊMURES (POEMA DO FLUMINENSE EUCLIDES DA CUNHA)
OS LÊMURES
Euclides da Cunha
Ó minha musa — imaculada e santa! Deixa um momento os sonhos teus benditos Despe os teus véus de noiva do ideal Deixa-os, despe-os e canta Sobre as ruínas trágicas do mal As almas arruinadas dos malditos!…
Poemas e Poesias segunda, 05 de junho de 2023
TROVAS HUMORÍSTICAS - 20 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
TROVA HUMORÍSTICA 20
Eno Teodoro Wanke
O mesmo vento que agita
As saias e expõe, trocista
Alguma perna bonita
Nos joga areia na vista
Poemas e Poesias domingo, 04 de junho de 2023
O BEATA SOLITUDO (POEMA DO PIAUIENSE DA COSTA E SILVA)
O BEATA SOLITUDO
Da Costa e Silva
Amada solidão, silêncio amigo, Vosso convívio me é tão grato e ameno Que, voluntariamente, me condeno A viver só, para vos ter comigo.
Alheio ao mundo, como um poeta antigo, Noto, isolado, que ao mais leve aceno, Me vêm, em ronda, ao espírito sereno As idéias e imagens que persigo...
Solidão! vem de ti o êxtase infindo Em que sinto, em constantes primaveras, Meu ser a natureza refletindo...
Silêncio! enchendo o espaço onde me esperas, Sonho, como Pitágoras, ouvindo A harmonia divina das esferas.
Poemas e Poesias sábado, 03 de junho de 2023
ANTÍFONA (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)
ANTÍFONA
Cruz e Sousa
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras De luares, de neves, de neblinas!... Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas... Incensos dos turíbulos das aras...
5Formas do Amor, constelarmente puras, De Virgens e de Santas vaporosas... Brilhos errantes, mádidas frescuras E dolências de lírios e de rosas...
Indefiníveis músicas supremas, 10Harmonias da Cor e do Perfume... Horas do Ocaso, trêmulas, extremas, Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...
Visões, salmos e cânticos serenos, Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes... 15Dormências de volúpicos venenos Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...
Infinitos espíritos dispersos, Inefáveis, edênicos, aéreos, Fecundai o Mistério destes versos 20Com a chama ideal de todos os mistérios.
Do Sonho as mais azuis diafaneidades Que fuljam, que na Estrofe se levantem E as emoções, todas as castidades Da alma do Verso, pelos versos cantem.
25Que o pólen de ouro dos mais finos astros Fecunde e inflame a rima clara e ardente... Que brilhe a correção dos alabastros Sonoramente, luminosamente.
Forças originais, essência, graça 30De carnes de mulher, delicadezas... Todo esse eflúvio que por ondas passa Do Éter nas róseas e áureas correntezas...
Cristais diluídos de clarões álacres, Desejos, vibrações, ânsias, alentos, 35Fulvas vitórias, triunfamentos acres, Os mais estranhos estremecimentos...
Flores negras do tédio e flores vagas De amores vãos, tantálicos, doentios... Fundas vermelhidões de velhas chagas 40Em sangue, abertas, escorrendo em rios...
Tudo! vivo e nervoso e quente e forte, Nos turbilhões quiméricos do Sonho, Passe, cantando, ante o perfil medonho E o tropel cabalístico da Morte...
Poemas e Poesias sexta, 02 de junho de 2023
SONETO IV (POEMA DO CARIOCA CLÁUDIO MANOEL DA COSTA)
SONETO IV
Cláudio Manuel da Costa
Sou pastor; não te nego; os meus montados São esses, que aí vês; vivo contente Ao trazer entre a relva florescente A doce companhia dos meus gados;
Ali me ouvem os troncos namorados, Em que se transformou a antiga gente; Qualquer deles o seu estrago sente; Como eu sinto também os meus cuidados.
Vós, ó troncos, (lhes digo) que algum dia Firmes vos contemplastes, e seguros Nos braços de uma bela companhia;
Consolai-vos comigo, ó troncos duros; Que eu alegre algum tempo assim me via; E hoje os tratos de Amor choro perjuros.
Poemas e Poesias quinta, 01 de junho de 2023
MANIAS! (POEMA DO PORTUGUÊS CESÁRIO VERDE)
MANIAS!
Cesário Verde
O mundo é velha cena ensanguentada, Coberta de remendos, picaresca; A vida é chula farsa assobiada, Ou selvagem tragédia romanesca.
Eu sei um bom rapaz, -- hoje uma ossada, -- Que amava certa dama pedantesca, Perversíssima, esquálida e chagada, Mas cheia de jactância quixotesca.
Aos domingos a deia já rugosa, Concedia-lhe o braço, com preguiça, E o dengue, em atitude receosa,
Na sujeição canina mais submissa, Levava na tremente mão nervosa, O livro com que a amante ia ouvir missa!
Poemas e Poesias quarta, 31 de maio de 2023
PARA IR À LUA (POEMA DA CARIOCA CECÍLIA MEIRELES)
PARA IR À LUA
Cecília Meireles
Enquanto não têm foguetes para ir à Lua os meninos deslizam de patinete pelas calçadas da rua.
Vão cegos de velocidade: mesmo que quebrem o nariz, que grande felicidade! Ser veloz é ser feliz.
Ah! se pudessem ser anjos de longas asas! Mas são apenas marmanjos.
Poemas e Poesias segunda, 29 de maio de 2023
O VOO DO GÊNIO (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)
O VOO DO GÊNIO
Castro Alves
À ATRIZ EUGÊNIA CÂMARA
Um dia, em que na terra a sós vagava Pela estrada sombria da existência, Sem rosas — nos vergéis da adolescência, Sem luz destrela — pelo céu do amor; Senti as asas de um arcanjo errante Roçar-me brandamente pela fronte, Como o cisne, que adeja sobre a fonte, As vezes toca a solitária flor.
E disse então: "Quem és, pálido arcanjo! Tu, que o poeta vens erguer do pego? Eras acaso tu, que Milton cego Ouvia em sua noite erma de sol? Quem és tu? Quem és tu?" — "Eu sou o gênio", Disse-me o anjo "vem seguir-me o passo, Quero contigo me arrojar no espaço, Onde tenho por croas o arrebol".
"Onde me levas, pois?.. . " — "Longe te levo Ao país do ideal, terra das flores, Onde a brisa do céu tem mais amores E a fantasia — lagos mais azuis. . . " E fui... e fui... ergui-me no infinito, Lá onde o vôo dáguia não se eleva... Abaixo — via a terra — abismo em treva! Acima — o firmamento — abismo em luz!
"Arcanjo! arcanjo! que ridente sonho!" — "Não, poeta, é o vedado paraíso, Onde os lírios mimosos do sorriso Eu abro em todo o seio, que chorou, Onde a loura comédia canta alegre, Onde eu tenho o condão de um gênio infindo, Que a sombra de Molière vem sorrindo Beijar na fronte, que o Senhor beijou. . . "
"Onde me levas mais, anjo divino?" — "Vem ouvir, sobre as harpas inspiradas, O canto das esferas namoradas, Quando eu encho de amor o azul dos céus. Quero levar-te das paixões nos mares. Quero levar-te a dédalos profundos, Onde refervem sóis... e céus... e mundos... Mais sóis... mais mundos, e onde tudo é rneu...
"Mulher! mulher! Aqui tudo é volúpia: A brisa morna, a sombra do arvoredo, A linfa clara, que murmura a medo, A luz que abraça a flor e o céu ao mar. Ó princesa, a razão já se me perde, És a sereia da encantada Sila. Anjo, que transformaste-te em Dalila, Sansão de novo te quisera amar!
"Porém não paras neste vôo errante! A que outros mundos elevar-me tentas? Já não sinto o soprar de auras sedentas, Nem bebo a taça de um fogoso amor. Sinto que rolo em báratros profundos... Já não tens asas, águia da Tessália, Maldições sobre ti... tu és Onfália, Ninguém te ergue das trevas e do horror.
"Porém silêncio! No maldito abismo, Onde caí contigo criminosa, Canta uma voz, sentida e maviosa, Que arrependida sobe a Jeová! Perdão! Perdão! Senhor, pra quem soluça, Talvez seja algum anjo peregrino... ... Mas não! inda eras tu, gênio divino, Também sabes chorar, como Eloá!
"Não mais, ó serafim! suspende as asas! Que, através das estrelas arrastado, Meu ser arqueja louco, deslumbrado, Sobre as constelações e os céus azuis. Arcanjo! Arcanjo! basta... já contigo Mergulhei das paixões nas vagas cérulas... Mas nos meus dedos — já não cabem — pérolas — Mas na minhalma — já não cabe — luz!...
Poemas e Poesias domingo, 28 de maio de 2023
SONHANDO (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)
SONHANDO
Casimiro de Abreu
Um dia, oh linda, embalada Ao canto do gondoleiro, Adormeceste inocente No teu delírio primeiro, - Por leito o berço das ondas, Meu colo por travesseiro!
Eu, pensativo, cismava Nalgum remoto desgosto, Avivado na tristeza Que a tarde tem, ao sol-posto, E ora mirava as nuvens, Ora fitava teu rosto.
Sonhavas então, querida, E presa de vago anseio Debaixo das roupas brancas Senti bater o teu seio, E meu nome num soluço À flor dos lábios te veio!
Tremeste como a tulipa Batida do vento frio... Suspiraste como a folha Da brisa ao doce cicio... E abriste os olhos sorrindo Às águas quietas do rio!
Depois - uma vez - sentados Sob a copa do arvoredo, Falei-te desse soluço Que os lábios abriu-te a medo... - Mas tu, fugindo, guardaste Daquele sonho o segredo!...
Poemas e Poesias sábado, 27 de maio de 2023
SONETO (POEMA DO PENRAMBUCANO CARLOS PENA FILHO)
SONETO
Carlos Pena Filho
O quanto perco em luz conquisto em sombra. E é de recusa ao sol que me sustento. Às estrelas, prefiro o que se esconde Nos crepúsculos graves dos conventos.
Humildemente envolvo-me na sombra que veste, à noite, os cegos monumentos isolados nas praças esquecidas e vazios de luz e movimento.
Não sei se entendes: em teus olhos nasce a noite côncava e profunda, enquanto clara manhã revive em tua face.
Daí amar teus olhos mais que o corpo com esse escuro e amargo desespero com que haverei de amar depois de morto.
Poemas e Poesias sexta, 26 de maio de 2023
CANÇÃO AMIGA (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)
CANÇÃO AMIGA
Carlos Drummond de Andrade
Eu preparo uma canção Em que minha mãe se reconheça Todas as mães se reconheçam E que fale como dois olhos
Caminho por uma rua Que passa em muitos países Se não me veem, eu vejo E saúdo velhos amigos
Eu distribuo um segredo Como quem ama ou sorri No jeito mais natural Dois carinhos se procuram
Minha vida, nossas vidas Formam um só diamante Aprendi novas palavras E tornei outras mais belas
Eu preparo uma canção Que faça acordar os homens E adormecer as crianças
Poemas e Poesias quinta, 25 de maio de 2023
SONETO 22 - DOCE CONTENTAMENTO JÁ PASSADO (POEMA DO PORTUGUÈS LUÍS DE CAMÕES)
DOCE CONTENTAMENTO JÁ PASSASO
Soneto 122
Luís de Camões
Doce contentamento já passado, em que todo o meu bem já consistia, quem vos levou de minha companhia e me deixou de vós tão apartado?
Quem cuidou que se visse neste estado naquelas breves horas de alegria, quando minha ventura consentia que de enganos vivesse meu cuidado?
Fortuna minha foi cruel e dura aquela, que causou meu perdimento, com a qual ninguém pode ter cautela.
Nem se engane nenhüa criatura, que não pode nenhum impedimento fugir do que ordena sua estrela.
Poemas e Poesias quarta, 24 de maio de 2023
SONETO DAS GLÓRIAS CARNAIS (POEMA DO PORTUGUÊS MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE)
SONETO DAS GLÓRIAS CARNAIS
Bocage
Soneto localizado em um caderno onde poemas de Bocage e de Pedro José Constâncio
estavam misturados, não tendo se chegado em nenhuma conclusão definitiva sobre a
autoria do mesmo.
Cante a guerra quem for arrenegado,
Que eu nem palavra gastarei com ele;
Minha Musa será sem par canela
Co'um felpudo coninho abraseado:
Aqui descreverei com arreitado
N'um mar de bimbas navegando à vela,
Cheguei, propício o vento, à doce, àquela
Enseada d'Amor, rei coroado:
Direi também os beijos sussurrantes,
Os intrincados nós das línguas ternas,
E o aturado fungar de dois amantes :
Estas glórias serão na fama eternas;
Às minhas cinzas me farão descantes
Fêmeos vindouros, alargando as pernas.
Poemas e Poesias terça, 23 de maio de 2023
CEM TROVAS - 010 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)
TROVA 010
Belmiro Braga
Muitas vezes imagino Nos meus dias desolados Que o meu coração é um sino Dobrando sempre a finados
Poemas e Poesias segunda, 22 de maio de 2023
VENCEDOR (POEMA DO PARAIBANO AUGUSTO DOS ANJOS)
V
V
VENCEDOR
Augusto dos Anjos
Toma as espadas rútilas, guerreiro, E à rutilância das espadas, toma A adaga de aço, o gládio de aço, e doma Meu coração – estranho carniceiro!
Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. E qual mais pronto, e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro.
Meu coração triunfava nas arenas. Veio depois um domador de hienas E outro mais, e, por fim, veio um atleta,
Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem… E não pôde domá-lo, enfim, ninguém, Que ninguém doma um coração de poeta!
Poemas e Poesias domingo, 21 de maio de 2023
LEMBRANÇAS DE MORRER (POEMA DO PAULISTA ÁLVARES DE AZEVEDO)
LEMBRANÇAS DE MORRER
Álvares de Azevedo
No more! O never more! SHELLEY
Quando em meu peito rebentar-se a fibra, Que o espírito enlaça à dor vivente, Não derramem por mim nem uma lágrima Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura A flor do vale que adormece ao vento: Não quero que uma nota de alegria Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tédio Do deserto o poento caminheiro… Como as horas de um longo pesadelo Que se desfaz ao dobre de um sineiro…
Como o desterro de minh’alma errante, Onde fogo insensato a consumia, Só levo uma saudade — é desses tempos Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade — e dessas sombras Que eu sentia velar nas noites minhas… E de ti, ó minha mãe! pobre coitada Que por minhas tristezas te definhas!
De meu pai… de meus únicos amigos, Poucos, — bem poucos! e que não zombavam Quando, em noites de febre endoidecido, Minhas pálidas crenças duvidavam.
Se uma lágrima as pálpebras me inunda, Se um suspiro nos seios treme ainda, É pela virgem que sonhei!… que nunca Aos lábios me encostou a face linda!
Ó tu, que à mocidade sonhadora Do pálido poeta deste flores… Se vivi… foi por ti! e de esperança De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e nua, Verei cristalizar-se o sonho amigo… Ó minha virgem dos errantes sonhos, Filha do céu! eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida, À sombra de uma cruz! e escrevam nela: — Foi poeta, sonhou e amou na vida. —
Sombras do vale, noites da montanha, Que minh’alma cantou e amava tanto, Protejei o meu corpo abandonado, E no silêncio derramai-lhe um canto!
Mas quando preludia ave d’aurora E quando, à meia-noite, o céu repousa, Arvoredos do bosque, abri as ramas… Deixai a lua pratear-me a lousa!
Poemas e Poesias sábado, 20 de maio de 2023
NÃO TE AMO (POEMA DO PORTUGUÊS ALMEIDA GARRETT)
NÃO TE AMO
Almeida Garrett
Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma. E eu n’alma - tenho a calma, A calma - do jazigo. Ai! não te amo, não. Não te amo, quero-te: o amor é vida. E a vida - nem sentida A trago eu já comigo. Ai, não te amo, não! Ai! não te amo, não; e só te quero De um querer bruto e fero Que o sangue me devora, Não chega ao coração. Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela. Quem ama a aziaga estrela Que lhe luz na má hora Da sua perdição? E quero-te, e não te amo, que é forçado, De mau, feitiço azado Este indigno furor. Mas oh! não te amo, não. E infame sou, porque te quero; e tanto Que de mim tenho espanto, De ti medo e terror... Mas amar!... não te amo, não.
Poemas e Poesias sexta, 19 de maio de 2023
NOTURNO (POEMA DO GAÚCHO ALCEU WAMOSY)
NOTURNO
Alceu Wamosy
Tu pensarás em mim, por esta noite imensa e erma, em que tudo é um frio e um silêncio profundo? Tu pensarás em mim? Por esta noite, enfermo, tendo os olhos em febre e a voz cheia de sustos, eu penso em ti, no teu amor e na promessa muda que o teu olhar me fez e que eu espero.
(Que dor de não saber se tu pensas em mim!)
Sob a tenda da noite estrelada de outono, que eu contemplo através os cristais da janela, junto ao manso tepor da lâmpada que escuta — antiga confidente — os meus sonhos e as minhas vigílias de tormento, eu penso em ti, divina.
(E tu talvez nem te recordes deste ausente!)
Penso em ti. Penso e evoco o teu vulto adorado. Penso nas tuas mãos — um lis de cinco pétalas — que, em vez de sangue, têm luar dentro das veias; nos teus olhos, que são Noturnos de Chopin agonizando à luz de uma tarde de sonho; na tua voz, que lembra um beijo que se esfolha. Penso.
(E nem sei se tu também pensas em mim!)
Talvez não. No tranquilo altar da tua alcova, onde se extingue a luz de um velho candelabro como uma lâmpada votiva, tu adormeces sorrindo ao Anjo fiel que as tuas pálpebras fecha para que tu não tenhas sonhos maus.
E eu penso em ti, sem sono, a sós, angustiado e febril, em ti, que nem eu sei se te lembras de mim...
Poemas e Poesias quinta, 18 de maio de 2023
FLOR DE CAVERNA (POEMA DO FLUMINENSE ALBERTO DE OLIVEIRA)
FLOR DE CAVERNA
Alberto de Oliveira
Fica às vezes em nós um verso a que a ventura Não é dada jamais de ver a luz do dia; Fragmento de expressão de idéia fugidia, Do pélago interior bóia na vaga escura.
Sós o ouvimos conosco; à meia voz murmura, Vindo-nos da consciência a flux, lá da sombria Profundeza da mente, onde erra e se enfastia, Cantando, a distrair os ócios da clausura.
Da alma, qual por janela aberta par e par, Outros livre se vão, voejando cento e cento Ao sol, à vida, à glória e aplausos. Este não.
Este aí jaz entaipado, este aí jaz a esperar Morra, volvendo ao nada, — embrião de pensamento Abafado em si mesmo e em sua escuridão.
Poemas e Poesias quarta, 17 de maio de 2023
ESTÃO SE ADIANTANDO (POEMA DO MINEIRO AFFONSO ROMANO DE SANT*ANNA)
De tal ordem é e tão precioso o que devo dizer-lhes que não posso guardá-lo sem que me oprima a sensação de um roubo: cu é lindo! Fazei o que puderdes com esta dádiva. Quanto a mim dou graças pelo que agora sei e, mais que perdoo, eu amo.
Poemas e Poesias segunda, 15 de maio de 2023
POEMA SIMPLES (POEMA DA CARIOCA ADALGISA NERY)
POEMA SIMPLES
Adalgisa Nery
Deixa-me recolher as rosas que estão morrendo nos jardins da noite, Deixa-me recolher o fruto antes que este volva as raízes da terra, Deixa-me recolher a estrela úmida Antes que sua luz desapareça na madrugada, Deixa-me recolher a tristeza da alma Antes que a lágrima banhe a pálpebra Do órfão abandonado e faminto, Deixa-me recolher a ternura parada No coração da mulher que desejou ser mãe. Deixa-me recolher a esperança dos que acreditam, Recolher o que ainda não passou E mais do que tudo dá-me a recolher A palavra de amor e de doçura para que reparta Com os ouvidos que esperam como uma gota de mel Caindo na alma e no coração, Como a única luz dentro de tanta escuridão.
Poemas e Poesias domingo, 14 de maio de 2023
RENÚNCIA (POEMA DA PORTUGUESA VIRGÍNIA VICTORINO)
RENÚNCIA
Virgínia Victorino
Fui nova, mas fui triste; só eu sei como passou por mim a mocidade! Cantar era o dever da minha idade… Devia ter cantado, e não cantei!
Fui bela. Fui amada. E desprezei… Não quis beber o filtro da ansiedade. Amar era o destino, a claridade… Devia ter amado, e não amei!
Ai de mim! Nem saudades, nem desejos; nem cinzas mortas, nem calor de beijos… — Eu nada soube, nada quis prender!
E o que me resta? Uma amargura infinda: ver que é, para morrer, tão cedo ainda, e que é tão tarde já para viver!
Poemas e Poesias sábado, 13 de maio de 2023
A MORTE (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)
A MORTE
Vinícius de Moraes
A morte vem de longe Do fundo dos céus Vem para os meus olhos Virá para os teus Desce das estrelas Das brancas estrelas As loucas estrelas Trânsfugas de Deus Chega impressentida Nunca inesperada Ela que é na vida A grande esperada! A desesperada Do amor fratricida Dos homens, ai! dos homens Que matam a morte Por medo da vida.
Poemas e Poesias sexta, 12 de maio de 2023
SAUDADE (POEMA DO PAULISTA VICENTE DE CARVALHO)
SAUDADE
Vicente de Carvalho
Belos amores perdidos, Muito fiz eu com perder-vos; Deixar-vos, sim: esquecer-vos Fora demais, não o fiz.
Tudo se arranca do seio, – Amor, desejo, esperança… Só não se arranca a lembrança De quando se foi feliz.
Roseira cheia de rosas, Roseira cheia de espinhos, Que eu deixei pelos caminhos, Aberta em flor, e parti:
Por me não perder, perdi-te: Mas mal posso assegurar-me, – Com te perder e ganhar-me, Se ganhei, ou se perdi…
Poemas e Poesias quinta, 11 de maio de 2023
PRA DIZER ADEUS (POEMA DO PIAUIENSE TORQUATO NETO)
PRA DIZER ADEUS
Torquato Neto
adeus vou pra não voltar e onde quer que eu vá sei que vou sozinho tão sozinho amor nem é bom pensar que eu não volto mais desse meu caminho
ah, pena eu não saber como te contar que o amor foi tanto e no entanto eu queria dizer vem eu só sei dizer vem nem que seja só pra dizer adeus.
Poemas e Poesias quarta, 10 de maio de 2023
OS ESTATUTOS DO HOMEM (POEMA DO AMAZONENSE THIAGO DE MELLO)
OS ESTATUTOS DO HOMEM
Thiago de Mello
Artigo I Fica decretado que agora vale a verdade. agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.
Artigo V Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
Artigo VI Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.
Artigo XI Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.
Artigo XIII Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.
Artigo Final. Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.
Poemas e Poesias terça, 09 de maio de 2023
FLORES LUXEMBURGUESAS (POEMA DO MARANHENSE SOUSÂNDRADE)
FLORES LUXEMBURGUESAS
Sousândrade
Não é, não é alegria,
Nem é tristeza sombria
Que sinto me atravessar.
Grato, grato sentimento
De um passado encantamento –
Por toda parte a lembrar!
Eram as roxas florestas,
As sagradas sombras mestas
Nossos berços da soidão:
Se deles tendes as flores, –
A saudade dos amores
Em vós reconheço estão.
Poemas e Poesias segunda, 08 de maio de 2023
AS LETRAS (POEM ADO BAIANO RICARDO LIMA)
AS LETRAS
Ricardo Lima
Juntas, poeiras.
Soltas, certezas.
Abraços, certos de palavras...
As letras...
Poemas e Poesias domingo, 07 de maio de 2023
IRONIA! (OEMA DO FLUMINENSE RAUL DE LEÔNI)
IRONIA!
Raul de Leôni
Ironia! Ironia! Minha consolação! Minha filosofia! Imponderável máscara discreta Dessa infinita dúvida secreta, Que é a tragédia recôndita do ser! Muita gente não te há de compreender E dirá que és renúncia e covardia! Ironia! Ironia! És a minha atitude comovida: O amor-próprio do Espírito, sorrindo! O pudor da Razão diante da Vida!
Poemas e Poesias sábado, 06 de maio de 2023
O QUE É FOLCLORE? (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ)
O QUE É O FOLCLORE?
Patativa do Assaré
Posso lhe afirmá também: Folclore é superstição, O medo que você tem Do canto do corujão. Folclore é aquele instrumento Para o seu divertimento Que chamamos berimbau; E também a brincadeira Ritmada e prazenteira Chamada Maneiro-Pau.
Folclore, meu camarada, Ouvimos a toda hora, É históra de alma penada, De lobisome e caipora. Preste atenção e decore, Pois, com certeza, folclore Ainda posso dizer Que é aquele búzio de osso Que você põe no pescoço Do filho pra não morrer.
É o aboio magoado Do vaqueiro na amplidão. É o festejo animado Da debulha do feijão, Carro de boi e gaiola E desafio, à viola, Do cantador popular E também a toadinha Da Ciranda-Cirandinha Vamos todos cirandar.
Eu e você que vivemos No nosso pobre sertão Muitas coisas inda temos Da popular tradição: Além de outras, o girau E a carrocinha de pau, Em vez de bonito carro. Que prazer, satisfação, A gente comer pirão Mexido em prato de barro!
E agora, prezado irmão, Estes versos lhe dedico. Lhe dei alguma noção Do nosso folclore rico. Não posso continuar, Pois nada pude estudar, De dentro do tema saio. O resto lhe dirá tudo Romão Filgueira Sampaio, Mainá e Câmara Cascudo.
De conservar o folclore Todos têm obrigação, Para que nunca descore A popular tradição. Os homens de grande estudo, Como Mainá e Cascudo, Guardam sempre nos arquivo Populares tradições, Cantigas, superstições E costumes primitivos.
Você, caboclo, que cresce, Sem instrução nem saber, Escuta, mas não conhece Folclore o que quer dizer: O folclore é um pilão, É um bodoque, um pião, Garanto que também é Uma grosseira cangalha, Aparelhada de palha De palmeira ou catolé.
Poemas e Poesias quinta, 04 de maio de 2023
CONSELHO DE AMIGO (POEMA DO PERNAMBUCANO OLEGÁRIO MARIANO)
CONSELHO DE AMIGO
Olegário Mariano
Cigarra! Levo a ouvir-te o dia inteiro, Gosto da tua frívola cantiga, Mas vou dar-te um conselho, rapariga: Trata de abastecer o teu celeiro.
Trabalha, segue o exemplo da formiga, Aí vem o inverno, as chuvas, o nevoeiro, E tu, não tendo um pouso hospitaleiro, Pedirás… e é bem triste ser mendiga!
E ela, ouvindo os conselhos que eu lhe dava (Quem dá conselhos sempre se consome…) Continuava cantando… continuava…
Parece que no canto ela dizia: – Se eu deixar de cantar morro de fome… Que a cantiga é o meu pão de cada dia.
Poemas e Poesias quarta, 03 de maio de 2023
ALEXANDRE (POEMA DO CARIOCA OLAVO BILAC)
ALEXANDRE
Olavo Bilac
Quem te cantara um dia a ambição desmarcada,
Filho da heráclia estirpe! e o clamor infinito
Com que o povo da Emátia acorreu ao teu grito,
Voando, como um tufão, sobre a terra abrasada!
Do Adriático mar ao Índus, e do Egito
Ao Cáucaso, o fulgor do aceiro dessa espada
Prosternava, a tremer, sobre a lama da estrada,
Ídolos de ouro e bronze, e esfinges de granito.
Mar que regouga e estronda, espedaçando diques,
- Aos confins da Ásia rica as falanges corriam,
Encrespadas de fúria e erriçadas de piques.
E do sangue, do pó, dos destroços da guerra,
Aos teus pés, palpitando, as cidades nasciam,
E a Alma Grega, contigo, avassalava a Terra!
Poemas e Poesias terça, 02 de maio de 2023
O BATALHÃO DAS LETRAS (POEMA DO GAÚCHO MÁRIO QUINTANA) VÍDEO
Poemas e Poesias segunda, 01 de maio de 2023
DESESPERANÇA (POEMA DO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)
DESESPERANÇA
Manuel Bandeira
Esta manhã tem a tristeza de um crepúsculo. Como dói um pesar em cada pensamento! Ah, que penosa lassidão em cada músculo...
O silêncio é tão largo, é tão longo, é tão lento Que dá medo... O ar, parado, incomoda, angustia... Dir-se-ia que anda no ar um mau pressentimento.
Assim deverá ser a natureza um dia, Quando a vida acabar e, astro apagado, a Terra Rodar sobre si mesma estéril e vazia.
O demônio sutil das nevroses enterra A sua agulha de aço em meu crânio doído. Ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra...
Minha respiração se faz como um gemido. Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo, Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.
Por onde alongue o meu olhar de moribundo, Tudo a meus olhos toma um doloroso aspecto: E erro assim repelido e estrangeiro no mundo.
Vejo nele a feição fria de um desafeto. Temo a monotonia e apreendo a mudança. Sinto que a minha vida é sem fim, sem objeto... — Ah, como dói viver quando falta a esperança!
Poemas e Poesias domingo, 30 de abril de 2023
O MENINO E O CÓRREGO (POEMA DO MATO-GROSSENSE MANOEL DE BARROS)
O MENINO E O CÓRREGO
Manoel de Barros
I
A água é madura.
Com penas de garça.
Na areia tem raiz
de peixes e de árvores.
Meu córrego é de sofrer
pedras Mas quem beijar seu corpo
é brisas…
II
O córrego tinha um cheiro
de estrelas
nos sarãs anoitecidos
O córrego tinha
suas frondes
distribuídas
aos pássaros
O córrego ficava à beira
de um menino…
III
No chão da água
luava um pássaro
por sobre espumas
de haver estrelas
A água escorria
por entre as pedras
um chão sabendo
a aroma de ninhos.
IV
Ai
que transparente
aos voos
está o córrego!
E usado
de murmúrios…
V
Com a boca escorrendo chão
o menino despetalava o córrego
de manhã todo no seu corpo.
A água do lábio relvou entre pedras…
Árvores com o rosto arreiado
de seus frutos
ainda cheiravam a verão
Durante borboletas com abril
esse córrego escorreu só pássaros…
Poemas e Poesias sábado, 29 de abril de 2023
VERSO MÍSSIL (POEMA DO PERNAMBUCANO LUÍS TURIBA)
VERSO MÍSSIL
Luís Turiba
Quisera fazer um verso com a sublime arritmia do amor um verso míssil neurastênico e febril ar do dia anterior à criação do universo
Um verso instantâneo e uno momento raro como em Let It Be (um órgão clássico bachiano entrelaça-se ao solo rock da guitarra de Harrison) perfeita harmonia, divino encaixe
Ficam as lembranças das perfeições carnais como notas musicais
Ah, meu grande amor! erguerei um dia tamanho verso nanico faminto camundongo e sábio como um menino de rua brasileiro
Um verso de trivela transverso e subversivo acorde de uma nuvem cor-de-rosa cheiro da cor da maçã o gosto do suor e dos raios de vida que transitam por nossos corpos
Um verso de fogo e batom histórico histérico e erudito alexandrino perfeito tão alexandrino como teu nome de solteira tão perfeito e feroz como as garras de um tigre faminto rasgando a alma de sua presa
Poemas e Poesias sexta, 28 de abril de 2023
HINO AO TABACO (POEMA DO PORTUGUÊS JÚLIO DINIS)
HINO AO TABACO
Júlio Dinis
No centro dos círculos De nuvens de fumo, Um deus me presumo, Um deus sobre o altar! Nem doutros turíbulos Me apraz tanto o incenso Como o deste imenso Cachimbo exemplar!
Em divas esplêndidos, Cruzadas as pernas, Fuma, horas eternas. O ardente sultão Subindo-lhe ao cérebro O mágico aroma, Esquece Mafoma, Houris e Alcorão.
Longe, oh! longe o ópio, Que os sonhos deleita Da mísera seita Dos Theriakis! Horror ao narcótico Que vem das papoulas! E ao que arde em caçoulas No altar de Caciz!
Que a raça gentílica Das zonas ardentes Consuma as sementes Do arábio café. Despejem-se as chávenas Da atroz beberagem Da cor do selvagem Da adusta Guiné.
E a tal folha exótica, Delícias da China, Por nossa má sina Trazida de lá, Servida em família Num morno hidro-infuso?... Anátema ao uso Das folhas do chá!
Nem tu, ó alcoólico Humor dos lagares, Terás meus cantares, Meus hinos terás, Embora das ânforas, Vazado nas taças, Aos outros tu faças, A língua loquaz.
Cerveja britânica, De furor espuma? De coisa nenhuma Me podes servir. Quando oiço do lúpulo Gabarem proezas Às boas inglesas, Desato-me a rir.
Nem venha da cânfora Pregar maravilhas O das cigarrilhas Famoso inventor. Raspail é cismático E eu sou ortodoxo O seu paradoxo Não me há-de ele impor.
Meu canto é da América, País do tabaco, Perante o qual Baco Seu ceptro partiu. A Europa, Ásia e África E a Terra hoje toda Este herói da moda De fumo cobriu.
Até na Lapónia Da gente pequena, Se fuma; e no Sena, No Tibre e no Pó, No Volga e no Vístula, No Tejo e no Douro; Que imenso tesouro Se deve a Nicot!
Meus áridos lábios Mais fumo inda aspirem; Que os parvos suspirem Por beijos aos mil. Não quero outros ósculos, Não quero outra amante.. Qual mais doudejante Que o fumo subtil?
Tornadas Vesúvios, As bocas fumegam De nuvens que cegam Vomitam montões. Fumar! Oh delícias! Prazer de nababo! E leve o Diabo Do mundo as paixões.
Poemas e Poesias quinta, 27 de abril de 2023
UM MONSTRO FLUI NESSE POEMA (POEMA DO ALAGOANO JORE DE LIMA)
UM MONSTRO FLUI DESSE POEMA
Jorge de Lima
Um monstro flui nesse poema feito de úmido sal-gema.
A abóbada estreita mana a loucura cotidiana.
Pra me salvar da loucura como sal-gema. Eis a cura.
O ar imenso amadurece, a água nasce, a pedra cresce.
Mas desde quando esse rio corre no leito vazio?
Vede que arrasta cabeças, frontes sumidas, espessas.
E são minhas as medusas, cabeças de estranhas musas.
Mas nem tristeza e alegria cindem a noite, do dia.
Se vós não tendes sal-gema, não entreis nesse poema.
Poemas e Poesias quarta, 26 de abril de 2023
RIOS SEM DISCURSO (POEMA DO PERNAMBUCANO JOÃO CABRAL DE MELO NETO)
RIOS SEM DISCURSO
João Cabral de Melo Neto
Quando um rio corta, corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia; cortado, a água se quebra em pedaços, em poços de água, em água paralítica. Em situação de poço, a água equivale a uma palavra em situação dicionária: isolada, estanque no poço dela mesma, e porque assim estanque, estancada; e mais: porque assim estancada, muda, e muda porque com nenhuma comunica, porque cortou-se a sintaxe desse rio, o fio de água por que ele discorria.
Poemas e Poesias terça, 25 de abril de 2023
EXALTAÇÃO DO AMOR (POEMA DO ACRIANO J. G. DE ARAÚJO JORGE)
EXALTAÇÃO DO AMOR
J. G. de Araújo Jorge
Sofro, bem sei... Mas se preciso fôr sofrer mais, mal maior, extraordinário, sofrerei tudo o quanto necessário para a estrêla alcançar... colher a flor...
Que seja imenso o sofrimento, e vário! Que eu tenha que lutar com força e ardor! Como um louco talvez, ou um visionário hei de alcançar o amor... com o meu Amor!
Nada me impedirá que seja meu se é fogo que em meu peito se acendeu e lavra, e cresce, e me consome o Ser...
Deus o pôs... Ninguém mais há de dispor! Se esse amor não puder ser meu viver há de ser meu para eu morrer de amor!
Poemas e Poesias segunda, 24 de abril de 2023
PÁSSAROS (POEMA DA PAULISTA HILDA HILST) - VÍDEO
PÁSSAROS
Hilda Hilst
Poemas e Poesias domingo, 23 de abril de 2023
JOGOS E SOMBRAS (POEMA DO SERGIPANO HERMES FONTES)
JOGOS E SOMBRAS
Hermes Fontes
Sempre que me procuro e não me encontro em mim, pois há pedaços do meu ser que andam dispersos nas sombras do jardim, nos silêncios da noite, nas músicas do mar, e sinto os olhos, sob as pálpebras, imersos nesta serena unção crepuscular que lhes prolonga o trágico tresnoite da vigília sem fim, abro meu coração, como um jardim, e desfolho a corola dos meus versos, faz-me lembrar a alma que esteve em mim, e que, um dia, perdi e vivo a procurar nos silêncios da noite, nas sombras do jardim, na música do mar...
Poemas e Poesias sábado, 22 de abril de 2023
FLOR DO SAFALDO (POEMA DO PAULISTA GUILHERME DE ALMEIDA)
FLOR DO ASFALTO
Guilherme de Almeida
Flor do asfalto, encantada flor de seda, sugestão de um crepúsculo de outono, de uma folha que cai, tonta de sono, riscando a solidão de uma alameda...
Trazes nos olhos a melancolia das longas perspectivas paralelas, das avenidas outonais, daquelas ruas cheias de folhas amarelas sob um silêncio de tapeçaria...
Em tua voz nervosa tumultua essa voz de folhagens desbotadas, quando choram ao longo das calçadas, simétricas, iguais e abandonadas, as árvores tristíssimas da rua!
Flor da cidade, em teu perfume existe Qualquer coisa que lembra folhas mortas, sombras de pôr de sol, árvores tortas, pela rua calada em que recortas tua silhueta extravagante e triste...
Flor de volúpia, flor de mocidade, teu vulto, penetrante como um gume, passa e, passando, como que resume no olhar, na voz, no gesto e no perfume, a vida singular desta cidade!
Poemas e Poesias sexta, 21 de abril de 2023
O AMOR (POEMA DO PORTUGUÊS GUERRA JUNQUEIRO)
O AMOR
Guerra Junqueiro
I
Eu nunca naveguei, pieguíssimo argonauta Dans les fleuves du tendre, onde há naufrágios bons, Conduzindo Florian na tolda a tocar frauta, E cupidinhos d'oiro a tasquinhar bombons. Nunca ninguém me viu de capa à trovador, Às horas em que está já Menelau deitado, A tanger o arrabil sob os balcões em flor Dos castelos feudais de papelão doirado. Não canto de Anfitrite as vaporosas fraldas, (Eu não quero com isto, ó Vénus, descompor-te) Nem costumo almoçar c'roado de grinaldas, Nem nunca pastoreei enfim, vestido à corte, De bordão de cristal e punhos de Alençon, Borreguinhos de neve a tosar esmeraldas Num lameiro qualquer de qualquer Trianon. Eu não bebo ambrósia em taças cristalinas, Bebo um vinho qualquer do Douro ou de Bucelas, Nem vou interrogar as folhas das boninas, Para saber o amor, o tal amor das Elas. Não visto da poesia a túnica inconsútil, Pela simples razão, sob o pretexto fútil De ter visto passar na rua uns pés bonitos; Nem do meu coração eu fiz um paliteiro, Onde venha o amor cravar os seus palitos. Sou selvagem talvez, e sou talvez grosseiro, Mas as cousas que sinto eu digo-as francamente: Não quebro da friura a água de Castália, Nem a bebo panada assim como um doente. Detesto o lamurear dum realejo de Itália, Detesto um maçador, detesto uma maçada, Um discurso comprido, uma bota apertada, E uma unha raspando a cal duma parede; Detesto o pedantismo, a hidrofobia, e crede Que detesto também com infinita zanga As paisagens, horror! bordadas a missanga, Que a província fabrica, e que Lisboa admira; Detesto duma letra o prazo, quando expira,
Detesto intimamente a carta de conselho, Detesto o calembour, como um toiro o vermelho, E detesto da morte os pálidos umbrais; Detesto os folhetins que escrevo nos jornais, Detesto Tito Lívio e detesto os venenos, Mas detesto tudo isso ainda muito menos Do que a sensiblerie, a doce musa antiga, Que passou de ser musa a ser uma lombriga. Eu não subo, é verdade, a calçada do Combro, De bengala na mão e de madeiro ao ombro, Como um Cristo-Romeu, como um Jesus-Manfredo; Não me chamo Lindor, nem Artur, nem Alfredo, E nem recito ao piano, o que parece incrível; Mas enfim eu não sou um cofre incombustível, Eu sou um homem também, eu também sinto e vivo, Tenho o meu coração no lugar respectivo, Admiro um corpo airoso e fino e delicado, Sou como toda a gente um bacharel formado, E posso dar por isso a minha opinião Sobre o amor — essa eterna, essa imortal canção.
II
O amor feito petisco e brisa e filomela, Ao próprio coração pondo uma manivela De realejo, e passando uma existência falsa A traduzir em polca, em hino, em guincho, em valsa As guerras do alecrim e mais da manjerona, Moídas como café nessa imortal sanfona; O amor sem a paixão fremente, esplendorosa, O amor literatice, o amor licor de rosa, Lacoonte de biscuit, torcendo-se aos corcovos Nas doces espirais duma lampreia d'ovos; O amor açucarado, o amor amor-perfeito, De tristeza na fronte e de vulcão ao peito, A rouxinolizar um berimbau d'alquime; O amor de barba intensa, o velho amor sublime Dos precitos, aos quais a desventura alquebra, Mussets de botequim que vão beber genebra Sobre o cairel do abismo às horas do sol pôr; O amor que se derrete, o florianesco amor, De conceitos gentis, subtis, que eu não destrinço, — Um amor sustentado a beijos e a painço, Que suspira e soluça e chora e gargareja À noite na varanda e de manhã na igreja; O amor que passa a vida a celebrar as bodas Co'a Ela que contém em si as elas todas; O amor com a tristeza aérea dum arcanjo, Mas arrastando sempre, insípido marmanjo, Das asas de flanela a franja inocentíssima; O amor bijutaria, o amor pomada alvíssima, Enfim, o terno amor, o puro amor ideal, O amor sem sentimento — o amor sentimental,— Oh, esse amor detesto-o, e entrego-o com delícia Às bengalas dos pais e às unhas da polícia.
III
Mas quando o amor se torna em paixão verdadeira, Puro como uma hóstia erguida sobre o altar, Quando um amor domina uma existência inteira Como a Lua domina os vagalhões do mar; Quando é o amor radiante, esplêndido, que arvora Em nossos corações um pavilhão d'aurora Desdobrado no azul, quando é o amor profundo, Um amor que nos veste uma rija armadura Para se atravessar a batalha do mundo, Como um leão atravessa uma floresta escura; Então adoro o amor, de joelhos, como adora No topo da montanha um índio o Sol doirado, Porque um amor candente é uma hóstia d'aurora, E o peito que o encerra é um sacrário estrelado!
Poemas e Poesias quinta, 20 de abril de 2023
GUERRA DE CENTAURAS (POEMA DA PAULISTA FRANCISCA JÚLIA)
GUERRA DE CENTAURAS
Francisca Júlia
Patas dianteiras no ar, bocas livres dos freios,
Nuas, em grita, em ludo, entrecruzando as lanças,
Ei-las, garbosas vêm, na evolução das danças
Rudes, pompeando à luz a brancura dos seios.
A noite escuta, fulge o luar, gemem as franças;
Mil centauras a rir, em lutas e torneios,
Galopam livres, vão e vêm, os peitos cheios
De ar, o cabelo solto ao léu das auras mansas.
Empalidece o luar, a noite cai, madruga...
A dança hípica pára e logo atroa o espaço
O galope infernal das centauras em fuga:
É que, longe, ao clarão do luar que empalidece,
Enorme, aceso o olhar, bravo, do heróico braço
Pendente a clava argiva, Hércules aparece...
Poemas e Poesias quarta, 19 de abril de 2023
LÉPIDA E LEVE (POEMA DA CARIOCA GILKA MACHADO)
LÉPIDA E LEVE
Gilka Machado
Lépida e leve em teu labor que, de expressões à míngua, o verso não descreve... Lépida e leve, guardas, ó língua, em teu labor, gostos de afago e afagos de sabor.
És tão mansa e macia, que teu nome a ti mesma acaricia, que teu nome por ti roça, flexuosamente, como rítmica serpente, e se faz menos rudo, o vocábulo, ao teu contacto de veludo.
Dominadora do desejo humano, estatuária da palavra, ódio, paixão, mentira, desengano, por ti que incêndio no Universo lavra!... és o réptil que voa, o divino pecado que as asas musicais, às vezes, solta, à toa. e que a Terra povoa e despovoa, quando é de seu agrado.
Sol dos ouvidos, sabiá do tato, ó língua-idéia, ó língua-sensação, em que olvido insensato, em que tolo recato, te hão deixado o louvor, a exaltação!
– Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas! – Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas! Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de alucinação, és o elatério da alma... Ó minha louca língua, do meu Amor penetra a boca, passa-lhe em todo senso tua mão, enche-o de mim, deixa-me oca... – Tenho certeza, minha louca, de lhe dar a morder em ti meu coração!...
Língua do meu Amor velosa e doce, que me convences de que sou frase, que me contornas, que me vestes quase, como se o corpo meu de ti vindo me fosse. Língua que me cativas, que me enleias ou surtos de ave estranha, em linhas longas de invisíveis teias, de que és, há tanto, habilidosa aranha...
Língua-lâmina, língua-labareda, língua-linfa, coleando, em deslizes de seda... Força inferia e divina faz com que o bem e o mal resumas, língua-cáustica, língua-cocaína, língua de mel, língua de plumas?...
Amo-te as sugestões gloriosas e funestas, amo-te como todas as mulheres te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor, pela carne de som que à idéia emprestas e pelas frases mudas que proferes nos silêncios de Amor!...
Poemas e Poesias terça, 18 de abril de 2023
CANTIGAS LEVA-AS O VENTO (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)
CANTIGAS LEVA-AS O VENTO
Florbela Espanca
A lembrança dos teus beijos Inda na minh’alma existe, Como um perfume perdido, Nas folhas dum livro triste.
Perfume tão esquisito E de tal suavidade, Que mesmo desapar’cido Revive numa saudade!
Poemas e Poesias segunda, 17 de abril de 2023
DOIS POEMAS CHILENOS (POEMAS DO MARANHENSE FERREIRA GULLAR)
DOIS POEMAS CHILENOS
Ferreira Gullar
I
Cuando llegué a Santiago
el otoño arrancaba por las alamedas
como un ladrón
Latifundios con nombres de personas, familias
con nombres de empresas
también arrancaban
con dólares y dolores
en el corazón
Cuando llegué a Santiago en mayo
en plena revolución
II
Allende, en tu ciudad
oigo cantar esta mañana a los pájaros
de la primavera que llega.
Pero tu, amigo, ya puedes escucharlos
En mi puerta los fascistas
pintaron una cruz de advertencia
Pero tú, amigo, ya no la puedes borrar
En el horizonte repican
esta mañana las metralletas
de la tiranía que llega
para matarnos
Y tu, amigo,
ya ni siquiera las puedes escuchar.
Poemas e Poesias domingo, 16 de abril de 2023
CONTEMPLO O QUE NÃO VEJO (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)
CONTEMPLO O QUE NÃO VEJO
Fernando Pessoa
Contemplo o que não vejo.
É tarde, é quase escuro,
E quanto em mim desejo
Está parado ante o muro.
Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.
Tudo é do outro lado,
No que há e no que penso.
Nem há ramo agitado
Que o céu não seja imenso.
Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou
Não sinto, não sou triste,
Mas triste é o que estou.
Poemas e Poesias sábado, 15 de abril de 2023
ONDAS (POEMA DO FLUMINENSE EUCLIDES DA CUNHA)
ONDAS
Euclides da Cunha
Correi, rolai, correi _ ondas sonoras
Que à luz primeira, dum futuro incerto,
Erguestes-vos assim _ trêmulas, canoras,
Sobre o meu peito, um pélago deserto!
Correi... rolai _ que, audaz, por entre a treva
Do desânimo atroz _ enorme e densa _
Minh'alma um raio arroja e altiva eleva
Uma senda de luz que diz-se _ Crença!
Ide pois _ não importa que ilusória
Seja a esp'rança que em vós vejo fulgir...
_ Escalai o penhasco ásp'ro da Glória...
Rolai, rolai _ às plagas do Porvir!
Poemas e Poesias sexta, 14 de abril de 2023
TROVAS HUMORÍSTICAS - 19 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)
TROVA HUMORÍSTICA 19
Eno Teodoro Wanke
Meu caro Poeta: o Universo
Espero atenda meu rogo:
Ou pões mais fogo no verso
Ou pões os versos no fogo.
Poemas e Poesias quinta, 13 de abril de 2023
NOTURNO (POEMA DO PIAUIENSE DA COSTA E SILVA)
NOTURNO
Da Costa e Silva
Estava a sonhar contigo, Mas acordo de repente... Ouço bater ao postigo Lentamente...longamente...
Penso que és tu, morta ausente, Que voltas ao teu abrigo.
Corro, impaciente, à janela. Olho a noite. Ermo profundo... O vento frio e iracundo As árvores arrepela...
E eu pergunto às sombras: — E Ela? Não voltará mais ao mundo?
O chão de folhas se junca Ao vento que as solta e leva... E ouço, em silêncio, na treva: — Quem morre não vem mais nunca.
O CORVO de Poe se ceva, Cravando-me a garra adunca.
— Ai! que saudade! — Maldigo A vida, triste e descrente: — Se eu dormisse eternamente... E volto a sonhar contigo.
Bate o vento no postigo... Cai a chuva lentamente...
Poemas e Poesias quarta, 12 de abril de 2023
ANGELUS (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)
ANGELUS
Cruz e Sousa
Ah! lilazes de Ângelus harmoniosos, Neblinas vesperais, crepusculares, Guslas gementes, bandolins saudosos, Plangências magoadíssimas dos ares...
Serenidades etereais d'incensos, De salmos evangélicos, sagrados, Saltérios, harpas dos Azuis imensos, Névoas de céus espiritualizados.
Ângelus fluidos, de luar dormente, Diafaneidades e melancolias... Silêncio vago, bíblico, pungente De todas as profundas liturgias.
É nas horas dos Ângelus, nas horas Do claro-escuro emocional aéreo, Que surges, Flor do Sol, entre as sonoras Ondulações e brumas do Mistério.
Surges, talvez, do fundo de umas eras De doloroso e turvo labirinto, Quando se esgota o vinho das Quimeras E os venenos românticos do absinto.
Apareces por sonhos neblinantes Com requintes de graça e nervosismos, Fulgores flavos de festins flamantes, Como a Estrela Polar dos Simbolismos.
Num enlevo supremo eu sinto, absorto, Os teus maravilhosos e esquisitos Tons siderais de um astro rubro e morto, Apagado nos brilhos infinitos.
O teu perfil todo o meu ser esmalta Numa auréola imortal de formosuras E parece que rútilo ressalta De góticos missais de iluminuras.
Ressalta com a dolência das Imagens, Sem a forma vital, a forma viva, Com os segredos da Lua nas paisagens E a mesma palidez meditativa.
Nos êxtases dos místicos os braços Abro, tentado de carnal beleza... E cuido ver, na bruma dos espaços, De mãos postas, a orar, Santa Teresa!...
Poemas e Poesias terça, 11 de abril de 2023
SONETO III (POEMA DO CARIOCA CLÁUDIO MANOEL DA DOSTA)
SONETO III
Cláudio Manoel da Costa
Pastores, que levais ao monte o gado, Vêde lá como andais por essa serra; Que para dar contágio a toda a terra, Basta ver se o meu rosto magoado:
Eu ando (vós me vêdes) tão pesado; E a pastora infiel, que me faz guerra, É a mesma, que em seu semblante encerra A causa de um martírio tão cansado.
Se a quereis conhecer, vinde comigo, Vereis a formosura, que eu adoro; Mas não; tanto não sou vosso inimigo:
Deixai, não a vejais; eu vo-lo imploro; Que se seguir quiserdes, o que eu sigo, Chorareis, ó pastores, o que eu choro.
Poemas e Poesias segunda, 10 de abril de 2023
LÚBRICA (POEMA DO PORTUGUÊS CESÁRIO VERDE)
LÚBRICA
Cesário Verde
Mandaste-me dizer, No teu bilhete ardente, Que hás de por mim morrer, Morrer muito contente.
Lançastes, no papel As mais lascivas frases; A carta era um painel De cenas de rapazes!
Ó cálida mulher, Teus dedos delicados Traçaram do prazer Os quadros depravados!
Contudo, um teu olhar É muito mais fogoso, Que a febre epistolar Do teu bilhete ansioso:
Do teu rostinho oval Os olhos tão nefandos Traduzem menos mal Os vícios execrandos.
Teus olhos sensuais, Libidinosa Marta, Teus olhos dizem mais Que a tua própria carta.
As grandes comoções Tu neles, sempre, espelhas; São lúbricas paixões As vívidas centelhas...
Teus olhos imorais, Mulher, que me dissecas, Teus olhos dizem mais Que muitas bibliotecas!
Poemas e Poesias domingo, 09 de abril de 2023
OU ISTO OU AQUILO (POEMA DA CARIOCA CECÍLIA MEIRELES)
OU ISTO OU AQUILO
Cecília Meireles
Ou se tem chuva e não se tem sol, ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Poemas e Poesias sexta, 07 de abril de 2023
AS TRÊS IRMÃS DO POETA (POEMA DO BAIANO GONÇALVES DIAS)
AS TRÊS IRMÃS DO POETA
Castro Alves
É Noite! as sombras correm nebulosas. Vão três pálidas virgens silenciosas Através da procela irrequieta. Vão três pálidas virgens... vão sombrias Rindo colar num beijo as bocas frias...
Na fronte cismadora do Poeta: "Saúde, irmão! Eu sou a Indiferença. Sou eu quem te sepulta a idéia imensa, Quem no teu nome a escuridão projeta... Fui eu que te vesti do meu sudário... Que vais fazer tão triste e solitário?..."
- "Eu lutarei!" - responde-lhe o Poeta. "Saúde, meu irmão! Eu sou a Fome. Sou eu quem o teu negro pão consome... O teu mísero pão, mísero atleta! Hoje, amanhã, depois... depois (qu'importa?) Virei sempre sentar-me à tua porta..."
-"Eu sofrerei"-responde-lhe o Poeta. "Saúde, meu irmão! Eu sou a Morte. Suspende em meio o hino augusto e forte. Marquei-te a fronte, mísero profeta! Volve ao nada! Não sentes neste enleio Teu cântico gelar-se no meu seio?!" -"Eu cantarei no céu" - diz-lhe o Poeta!
Poemas e Poesias quinta, 06 de abril de 2023
ILUSÃO (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)
ILUSÃO
Casimiro de Abreu
Quando o astro do dia desmaia Só brilhando com pálido lume, E que a onda que brinca na praia No murmúrio soletra um queixume;
Quando a brisa da tarde respira O perfume das rosas do prado, E que a fonte do vale suspira Como o nauta da pátria afastado;
Quando o bronze da torre da aldeia Seus gemidos aos ecos envia, E que o peito que em mágoas anseia Bebe louco essa grave harmonia;
Quando a terra, da vida cansada, Adormece num leito de flores Qual donzela formosa embalada Pelos cantos dos seus trovadores;
Eu de pé sobre as rochas erguidas Sinto o pranto que manso desliza E repito essas queixas sentidas Que murmuram as ondas co'a brisa.
É então que a minha alma dormente Duma vaga tristeza se inunda, E que um rosto formoso, inocente, Me desperta saudade profunda.
Julgo ver sobre o mar sossegado Um navio nas sombras fugindo, E na popa esse rosto adorado Entre prantos p'ra mim se sorrindo!
Compreendo esse amargo sorriso, Sobre as ondas correr eu quisera... E de pé sobre a rocha, indeciso, Eu lhe brado: - não fujas, - espera!
Mas o vento já leva ligeiro Esse sonho querido dum dia, Essa virgem de rosto fagueiro, Esse rosto de tanta poesia!...
E depois... quando a lua ilumina O horizonte com luz prateada, Julgo ver essa fronte divina Sobre as vagas cismando, inclinada!
E depois... vejo uns olhos ardentes Em delírio nos meus se fitando, E uma voz em acentos plangentes Vem de longe um - adeus - soluçando!
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Ilusão!... que a minha alma, coitada, De ilusões hoje em dia é que vive; É chorando uma gloria passada, É carpindo uns amores que eu tive!
Poemas e Poesias quarta, 05 de abril de 2023
SEGUNDO POEMA VAZIO (POEMA DO PERNAMBUCANO CARLOS PENA FILHO)
SEGUNDO POEMA VAZIO
Carlos Pena Filho
Este vento que chegou talvez da costa irlandesa e entrando pela janela debruçou-se em minha mesa, e fez agora esse gesto da entre alegria e surpresa, é o mesmo que há muitos anos lavou teu rosto, Teresa, e te deixou sob a pele essa invisível tristeza de quem descobre o que existe de mágoa, atrás da beleza e por isso se aremessa, água solta da represa, e embora deixando os olhos nos objetos da mesa perde o pensamento e a sombra na fria costa irlandesa.
Poemas e Poesias terça, 04 de abril de 2023
CAMPO DE FLORES (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)
CAMPO DE FLORES
Carlos Drummond de Andrade
Deus me deu um amor no tempo de madureza Quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro E a um e outro agradeço, pois que tenho um amor
Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos E outros acrescento aos que amor já criou Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso E talhado em penumbra sou e não sou, mas sou
Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia E cansado de mim julgava que era o mundo Um vácuo atormentado, um sistema de erros Amanhecem de novo as antigas manhãs Que não vivi jamais, pois jamais me sorriram
Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra Imensa e contraída como letra no muro E só hoje presente Deus me deu um amor porque o mereci De tantos que já tive ou tiveram em mim O sumo se espremeu para fazer vinho Ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo
E o tempo que levou uma rosa indecisa A tirar sua cor dessas chamas extintas Era o tempo mais justo. Era tempo de terra Onde não há jardim, as flores nascem de um Secreto investimento em formas improváveis
Hoje tenho um amor e me faço espaçoso Para arrecadar as alfaias de muitos Amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes E ao vê-los amorosos e transidos em torno O sagrado terror converto em jubilação
Seu grão de angústia amor já me oferece Na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia Os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura E o mistério que além faz os seres preciosos À visão extasiada
Mas, porque me tocou um amor crepuscular Há que amar diferente. De uma grave paciência Ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia Tenha dilacerado a melhor doação Há que amar e calar Para fora do tempo arrasto meus despojos E estou vivo na luz que baixa e me confunde
Poemas e Poesias segunda, 03 de abril de 2023
SONETO 122 - DIZEI, SENHORA, DA BELEZA IDEIA (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)
DIZEI-ME, SENHORA, DA BELEZA IDEIA
Soneto 122
Luís de Camões
(Grafia original)
Dizei, Senhora, da Beleza ideia: Para fazerdes esse áureo crino, Onde fostes buscar esse ouro fino? De que escondida mina ou de que veia?
Dos vossos olhos essa luz febeia, Esse respeito, de um império dino? Se o alcançastes com saber divino, Se com encantamentos de Medeia?
De que escondidas conchas escolhestes As perlas preciosas orientais Que, falando, mostrais no doce riso?
Pois vos formastes tal como quisestes, Vigiai-vos de vós, não vos vejais; Fugi das fontes: lembre-vos Narciso.
Poemas e Poesias domingo, 02 de abril de 2023
SONETO DA SUPOSTA SANTA (POEMA DO PORTUGUÊS MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE)
SONETO DA SUPOSTA SANTA
Bocage
Já Bocage não sou!... À cova escura Meu estro vai parar desfeito em vento... Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento Leve me torne sempre a terra dura;
Conheço agora já quão vã figura, Em prosa e verso fez meu louco intento: Musa!... Tivera algum merecimento Se um raio da razão seguisse pura.
Eu me arrependo; a língua quasi fria Brade em alto pregão à mocidade, Que atrás do som fantástico corria:
Outro Aretino fui... a santidade Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia, Rasga meus versos, crê na eternidade!.
Poemas e Poesias sábado, 01 de abril de 2023
CEM TROVAS - 009 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)
CEM TROVAS - 009 (POEMA DO MINEIRO BELMIRO BRAGA)
TROVA 009
Belmiro Braga
Só mesmo Nossa Senhora pode dar paz e conforto à desgraçada que chora a ausência de um filho morto.
Poemas e Poesias sexta, 31 de março de 2023
VANDALISMO (POEMA DO PARAIBANO AUGUSTO DOS ANJOS)
VANDALISMO
Augusto dos Anjos
Meu coração tem catedrais imensas, Templos de priscas e longínquas datas, Onde um nume de amor, em serenatas, Canta a aleluia virginal das crenças.
Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas, Cintilações de lâmpadas suspensas, E as ametistas e os florões e as pratas.
Como os velhos Templários medievais, Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos...
E erguendo os gládios e brandindo as hastas, No desespero dos iconoclastas Quebrei a Imagem dos meus próprios sonhos!
Poemas e Poesias quinta, 30 de março de 2023
LÉLIA (POEMA DO PAULISTA ÁLVARES DE AZEVEDO)
LÉLIA
Álvares de Azevedo
Passou talvez ao alvejar da lua, Como incerta visão na praia fria... Mas o vento do mar não escutou-lhe Uma voz a seu Deus!...ela não cria!
Uma noite, aos murmúrios do piano Pálida misturou um canto aéreo... Parecia de amor tremer-lhe a vida Revelando nos lábios um mistério!
Porém, quando expirou a voz nos lábios, Ergueu sem pranto a fronte descorada, Pousou a fria mão no seio imóvel, Sentou-se no divã... sempre gelada!
Passou talvez do cemitério à sombra Mas nunca numa cruz deixou seu ramo, Ninguém se lembra de lhe ter ouvido Numa febre de amor dizer: "eu amo!"
Não chora por ninguém... e quando, à noite, Lhe beija o sono as pálpebras sombrias Não procura seu anjo à cabeceira E não tem orações, mas ironias!
Nunca na terra uma alma de poeta, Chorosa, palpitante e gemebunda Achou nessa mulher um hino d’alma E uma flor para a fronte moribunda.
Lira sem cordas não vibrou d’enlevo, As notas puras da paixão ignora, Não teve nunca n’alma adormecida O fogo que inebria e que devora!
Descrê. Derrama fel em cada riso, Alma estéril não sonha uma utopia... Anjo maldito salpicou veneno Nos lábios que tressuam de ironia.
É formosa contudo. Há dessa imagem No silêncio da estátua alabastrina Como um anjo perdido que ressumbra Nos olhos negros da mulher divina.
Há nesse ardente olhar que gela e vibra, Na voz que faz tremer e que apaixona O gênio de Satã que transverbera, E o langor pensativo da Madona!
É formosa, meu Deus! Desde que a vi Na minh’alma suspira a sombra dela... E sinto que podia nesta vida Num seu lânguido olhar morrer por ela.
Poemas e Poesias quarta, 29 de março de 2023
GOZO E DOR (POEMA DO PORTUGUÊS ALMEIDA GARRETT)
GOZO E DOR
Almeida Garrett
Se estou contente, querida, Com esta imensa ternura De que me enche o teu amor? - Não. Ai!, não; falta-me a vida, Sucumbe-me a alma à ventura: O excesso de gozo é dor.
Dói-me alma, sim; e a tristeza Vaga, inerte e sem motivo, No coração me poisou, Absorto em tua beleza, Não sei se morro ou se vivo, Porque a vida me parou.
É que não há ser bastante Para este gozar sem fim Que me inunda o coração. Tremo dele, e delirante Sinto que se exaure em mim Ou a vida - ou a razão.
Poemas e Poesias terça, 28 de março de 2023
IDEALIZANDO A MORTE (POEMA DO GAÚCHO ALECEU WAMOSY)
IDEALIZANDO A MORTE
Alceu Wamosy
Morrer por uma tarde assim como esta tarde, fim de dia outonal, tristonho e doloroso, quando o lago adormece e o vento está em repouso, e a lâmpada do sol no altar do céu não arde.
Morrer ouvindo a voz de minha mãe e a tua rezando a mesma prece, ao pé do mesmo santo, vós ambas tendo o olhar estrelado de pranto, e no rosto e nas mãos palidezes de lua.
Morrer com a placidez de uma flor que se corte, com a mansidão de um sol que desce no horizonte, sentindo a unção do vosso beijo ungir-me a fronte — beijo de noiva e mãe, irmanados na morte.
E morrer... e levar com a vida que se trunca, tudo que de doçura e amargor teve a vida: o sonho enfermo, a glória obscura, a fé perdida, e o segredo de amor, que não te disse, nunca!
Poemas e Poesias segunda, 27 de março de 2023
FETICHISMO (POEMA DO FLUMINENSE ALBERTO DE OLIVEIRA)
FETICHISMO
Alberto de Oiveira
Homem, da vida as sombras inclementes
Interrogas em vão: — Que céus habita
Deus? Onde essa região de luz bendita,
Paraíso dos justos e dos crentes?...
Em vão tateiam tuas mãos trementes
As entranhas da noite erma, infinita,
Onde a dúvida atroz blasfema e grita,
E onde há só queixas e ranger de dentes...
A essa abóbada escura, em vão elevas
Os braços para o Deus sonhado, e lutas
Por abarcá-lo; é tudo em torno trevas...
Somente o vácuo estreitas em teus braços;
E apenas, pávido, um ruído escutas
Que é o ruído dos teus próprios passos!...
Poemas e Poesias domingo, 26 de março de 2023
ERRANDO NO MUSEU PICASSO (POEMA DO MINEIRO AFFONSO ROMANO DE SANT*ANNA)
ERRANDO NO MUSEU PICASSO
Affonso Romano de Sant'Anna
Picasso erra quando pinta e erra quando ama.
Mas quando erra erra violenta e generosamente, erra com exuberante arrogância, erra como o touro erra seu papel de vítima, sangrando quem, por muito amar, fere e sai ovacionado com banderilhas na carne.
Pintor do excesso e exuberância, Picasso é extravagância. Ele erra, mas nele, o erro mais que erro - é errância.
Poemas e Poesias sábado, 25 de março de 2023
O VESTIDO (POEMA DA MINEIRA ADÉLIA PRADO)
O VESTIDO
Adélia Prado
No armário do meu quarto escondo de tempo e traça meu vestido estampado em fundo preto. É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas à ponta de longas hastes delicadas. Eu o quis com paixão e o vesti como um rito, meu vestido de amante. Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido. É só tocá-lo, e volatiliza-se a memória guardada: eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão. De tempo e traça meu vestido me guarda.