Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Poemas e Poesias Sunday, 04 de September de 2022

EVOLUÇÃO (POEMA DO PORTUGUÊS GUERRA JUNQUEIRO)

EVOLUÇÃO

Guerra Junqueiro

 

 

 

Arde o corpo do sol, brotam feixes de luz:
O que é a luz?
Sol que morreu.

Dardeja a luz, dardeja e pulveriza a fraga:
Vai nesse pó, que há-de ser terra,
A luz extinta.

Gerou a terra a seara verde:
Hastes e folhas da seara verde
Comeram terra.

A seara é grada, o trigo é loiro:
Deu trigo loiro,
Morrendo ela.

O trigo é pão, é carne e é sangue:
Sangue vermelho, carne vermelha,
Trigo defunto.

Em carne e em sangue, eis o desejo:
Vive o desejo,
De carne morta.

Arde o desejo, eis o pecado:
Que são pecados?
Desejos mortos.

Queima o pecado o pecador:
Nasceu a dor; findou na dor
Pecado e morte.

A alma branca, iluminada,
Transfigurada pela dor,
Essa não vai à sepultura
Porque é já Deus na criatura,
Porque é o Espírito, é o Amor.

Na vida vã da terra sepulcral
Só o amor é infinito e só ele é imortal.

Morreu a luz, pulverizando a fraga,
Morreu a poeira, alimentando a seara;
Morreu a seara, que gerou o trigo;
Morreu o trigo, que deu vida à carne;
Morreu a carne, que nutriu desejo;
Morreu desejo, que se fez pecado;
Morreu pecado, que floriu em dor;
Morreu a dor, para nascer o Amor!

E só o Amor na vida sepulcral
É infinito e é imortal!


Poemas e Poesias Saturday, 03 de September de 2022

FECNDAÇÃO (POEMA DA CARIOCA GILKA MACHADO)

FECUNDAÇÃO

Gilka Machado

 

Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura

Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a pesuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas


Poemas e Poesias Friday, 02 de September de 2022

VILANCETE (POEMA DO PORTUGUÊS GIL VICENTE)

VILANCETE

Gil Vicente 

 

 

 

Adorai, montanhas,
o Deus das alturas,
também das verduras.

Adorai, desertos
e serras floridas,
o Deus dos secretos,
o Senhor das vidas.
Ribeiras crescidas
louvai nas alturas
o Deus das criaturas.

Louvai arvoredos
de fruto prezado,
digam os penedos:
Deus seja louvado!
E louve meu gado,
nestas verduras,
o Deus das alturas.


Poemas e Poesias Thursday, 01 de September de 2022

ÂNGELUS (POEMA DA PAULISTA FRANCISCA JÚLIA)

ÂNGELUS

Francisca Júlia

 

 

 

A Filinto D'Almeida


Desmaia a tarde. Além, pouco e pouco, no poente,
O sol, rei fatigado, em seu leito adormece:
Uma ave canta, ao longe; o ar pesado estremece
Do Ângelus ao soluço agoniado e plangente.

Salmos cheios de dor, impregnados de prece,
Sobem da terra ao céu numa ascensão ardente.
E enquanto o vento chora e o crepúsculo desce,
A ave-maria vai cantando, tristemente.

Nest'hora, muita vez, em que fala a saudade
Pela boca da noite e pelo som que passa,
Lausperene de amor cuja mágoa me invade,

Quisera ser o som, ser a noite, ébria e douda
De trevas, o silêncio, esta nuvem que esvoaça,
Ou fundir-me na luz e desfazer-me toda.


Poemas e Poesias Wednesday, 31 de August de 2022

ÁRVORES DO ALENTEJO (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

ÁRVORES DO ALENTEJO

Florbela Espanca

 

 

Ao Prof. Guido Battelli

A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

<Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

<Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
– Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!


Poemas e Poesias Tuesday, 30 de August de 2022

MADRUGADA (POEMA DO MARANHENSE FERREIRA GULLAR)

 

MADRUGADA

Ferreira Gullar

 

 

Do fundo do meu quarto, do fundo
do meu corpo
clandestino
eu ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes.


Poemas e Poesias Monday, 29 de August de 2022

COMO INÚTIL TAÇA CHEIA (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)

COMO INÚTIL TAÇA CHEIA

Fernando Pessoa

 

 

 

Como inútil taça cheia
Que ninguém ergue da mesa,
Transborda de dor alheia
Meu coração sem tristeza.
Sonhos de mágoa figura
Só para Ter que sentir
E assim não tem a amargura
Que se temeu a fingir.

Ficção num palco sem tábuas
Vestida de papel seda
Mima uma dança de mágoas
Para que nada suceda.

 


Poemas e Poesias Sunday, 28 de August de 2022

O RELÓGIO DO AMOR (POEMA DO GAÚCHO FABRÍCIO CARPINEJAR)

O RELÓGIO DO AMOR

Fabrício Carpinejar

 

 

 

Até que ponto é possível amar sem ser amado?
Quando amamos platonicamente, o amor pode durar muito tempo. Pois não tem ninguém para estragar nossa idealização. Não há convivência para nos desafiar. É uma paixão estanque, feita de sonho e névoa. É uma vontade desligada da realidade. Temos a expectativa intacta, longe de contratempos. Acordamos e dormimos com o mesmo sentimento, longe de interrupção em nossa fantasia.
Mas quando amamos dentro de um casamento e quem nos acompanha não retribui o amor? Quanto tempo dura? Quanto tempo você suporta a secura, o desaforo, a grosseria? Quantos meses, se cada dia é um ano?
Nem estou falando de falta de sexo, mas a falta de beijo, de abraço, do colo, de perceber seus cabelos sendo penteados pelas mãos, de ver seu rosto encarado de forma única e brilhante.
Nem estou falando da falta de aventura, mas do conforto protetor, da cumplicidade, do afago que é viver com a certeza de que é admirado.
Nem estou falando da falta de viagens, mas do mínimo da rotina apaixonada, ser cuidado mesmo quando está distraído.
Nem estou falando de arroubos e arrebatamentos, mas da vontade de esperar o final de semana para estar junto.
Quanto tempo dura o amor sem retorno, sem reconhecimento?
Pouco, quase nada. Não é problema de carência, é questão de tortura.
É como dançar valsa sozinho, é como dançar tango sozinho, não tem como. É abraçar pateticamente o invisível e não ter o outro corpo para garantir seu equilíbrio.
Você se verá um mendigo em sua própria casa, diminuído, triste, desvalorizado, esmolando ternura e atenção. Todo o corredor torna-se pedágio da hostilidade. Passará a evitar os cômodos para não brigar, passará a evitar certos horários para não se encontrar, passará a prolongar os períodos na rua, passará apenas a passar. Comerá de pé para evitar o silêncio insuportável entre os dois.
Por ausência de gentileza, perdemos romances. O que todos desejam é alguém que diga: não vou desperdiçar essa chance de amar. Alguém que não canse das promessas, que não sucumba ao egoísmo da indiferença.
A gentileza é tão fácil. É fazer uma comida de surpresa, é convidar a um cinema de imprevisto, é pedir uma conversa séria para apenas se declarar, é comprar uma lembrancinha, é chamar para um banho junto, é oferecer massagem nos pés, é perguntar se está bem e se precisa de alguma coisa, é tentar diminuir a preocupação do outro com frases de incentivo.
Quando alguém não dá corda ao relógio do coração, o pêndulo do amor para. Não se vive desprovido de gentileza. A gentileza é o amor em movimento.

Poemas e Poesias Saturday, 27 de August de 2022

MARAT (POEMA DO FLUMINENSE EUCLIDES DA CUNHA)

MARAT

Euclides da Cunha

 

 

 

Foi a alma cruel das barricadas!…
Misto de luz e lama!… se ele ria,
As púrpuras gelavam-se e rangia
Mais de um trono, se dava gargalhadas!…

Fanático da luz… porém seguia
Do crime as torvas, lívidas pisadas.
Armava, à noite, aos corações ciladas,
Batia o despotismo à luz do dia.

No seu cérebro tremente negrejavam
Os planos mais cruéis e cintilavam
As idéias mais bravas e brilhantes.

Há muito que um punhal gelou-lhe o seio.
Passou… deixou na história um rastro cheio
De lágrimas e luzes ofuscantes.


Poemas e Poesias Friday, 26 de August de 2022

TROVAS HUMORÍSTICAS - 15 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)

TROVA HUMORÍSTICA 15

Eno Teodoro Wanke

 

Filhinho, vai dar um beijo

Aqui na moça! Não vai?

Não dou! Se eu der, ela bate

Como fez com o papai


Poemas e Poesias Thursday, 25 de August de 2022

SONETO (POEMA DO CARIOCA DOM PEDRO II)

SONETO

Dom Pedro II

 

 

 

Segredo d'alma, da existência arcano,
Eterno amor num instante concebido,
Mal sem esperança, oculto a ente humano,
E nunca de quem fê-lo conhecido.

Ai! Perto dela desapercebido
Sempre a seu lado, e só, cruel engano,
Na terra gastarei meu ser insano
Nada ousando pedir e havendo tido!

Se Deus a fez tão doce e carinhosa,
Contudo anda inatenta e descuidosa
Do murmúrio de amor que a tem seguido.

Piamente ao cru dever sempre fiel
Dirá lendo a poesia, seu painel:
"Que mulher é?" Sem tê-lo compreendido.

 


Poemas e Poesias Wednesday, 24 de August de 2022

SÃO LUÍS (POEMA DA MARANHENSE DAGMAR DESTÊRRO)

SÃO LUÍS

Dagmar Destêrro

 

 

 

 

São Luís

pequena sala de objetos antigos

do nosso imenso e querido Brasil.

 

São Luís

dos sobradões de azulejos,

do lendário Ribeirão,

do cuxá com peixe frito

e do gostoso camarão.

 

São Luís

da canção dolente

que mexe com o coração da gente

na voz doce de um Romeu.

 

São Luís

é antiga

e tão cheia de ladeiras!

Nestas, as casas inclinadas

parecem moças cansadas,

recurvadas,

fatigadas,

depois de um baile infernal.

São Luís é tão linda!

É minha terra natal!

 

São Luís

de Ana Jansen,

Pai-Avô

e o pobre Maia,

que pela rua, cantando,

deixava a gente pensando,

dava trabalho à memória:

qual será sua história?

 

São Luís

é saudade!

Dantes havia,

bem me lembro,

casinhas pobres,

na porta,

uma luz vermelha,

morta,

era a trombeta silenciosa

anunciando·a existência

da tainha frita, gostosa.

 

Isso foi quando eu era

bem criança.

Essa luz vermelha, morta,

guardei sempre na lembrança.

 

São Luís

é sala antiga

é o retrato da saudade;

desafio da esperança

transformado em realidade.

 

Vibrante, alegre, altaneira,

romântica e cultural.

São Luís é terra linda.

É minha terra-natal! 


Poemas e Poesias Tuesday, 23 de August de 2022

NA TARDE AZUL E TRISTE (POEMA DO PIAUIENSE DA COSTA E SILVA)

NA TARDE AZUL E TRISTE

Da Costa e Silva

 

 

 

O meu jardim amanhecera
Constelado de brancas margaridas,
Que orvalhadas, ao sol, eram estrelas
Desencantadas e pensativas...

Depois, na tarde azul e triste,
A terra abriu-se para receber-te!

Adormeceste para sempre,
Baixando à terra com as margaridas...
E à noite o céu era um jardim do Oriente
Florindo em luzes pela tua vinda!

Anoitecia no meu pensamento...


Poemas e Poesias Monday, 22 de August de 2022

A DOR (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

A DOR

Crua e Sousa

 

 

 

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! reteza os músculos, reteza
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.


Poemas e Poesias Sunday, 21 de August de 2022

ORAÇÃO DO MILHO (POEMA DA GOIANA CORA CORALINA)

ORAÇÃO DO MILHO

Cora Coralina

 

 

 

Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.
Meu grão, perdido por acaso, nasce e cresce na terra descuidada. Ponho folhas e haste e se me ajudares Senhor, mesmo planta de acaso, solitária, dou espigas e devolvo em muitos grãos, o grão perdido inicial, salvo por milagre, que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo. E de mim, não se faz o pão alvo, universal.
O Justo não me consagrou Pão da Vida, nem lugar me foi dado nos altares.
Sou apenas o alimento forte e substancial dos que trabalham a terra, onde não vinga o trigo nobre.
Sou de origem obscura e de ascendência pobre. Alimento de rústicos e animais do jugo.
Fui o angú pesado e constante do escravo na exaustão do eito.
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante. Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.
Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paiois.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o carcarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal, agradecida a Vós, Senhor, que me fizeste necessária e humilde
Sou o milho.


Poemas e Poesias Saturday, 20 de August de 2022

ANTANDRA - ROMANCE II (POEMA DO CARIOCA CLÁUDIO MANUEL DA COSTA)

ANTANDRA - ROMANCE II

Cláudio Manuel da Costa

 

 

 

Pastora do branco arminho,
Não me sejas tão ingrata:
Que quem veste de innocente,
Não se emprega em matar almas.
 
5Deixa o gado, que conduzes;
Não o guies á montanha:
Porque em poder de uma fera,
Não póde haver segurança.
 
Mas ah! Que o teu privilegio,
10É louco, quem não repara:
Pois suavizando o martyrio,
Obrigas mais, do que matas.
 
Eu fugirei; eu, Pastora,
Tomarei sómente as armas;
15E hão de conspirar comigo
Todo o campo, toda a praia.
 
Tenras ovelhas,
Fugi de Antandra;
Que é flor fingida,
20Que aspides cria, que venenos guarda.


Poemas e Poesias Friday, 19 de August de 2022

EU QUE SOU FEIO, SÓLIDO, LEAL (POEMA DO PORTUGUÊS CESÁRIO VERDE)

EU QUE SOU FEIO, SÓLIDO, LEAL

Cesário Verde

 

 

Eu que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa de um café devasso,
Ao avistar-te, há pouco fraca e loura,
Nesta babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorrestes um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, sudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez que não o suspeites! -
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.
...
Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

«Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!»
De repente, parastes embaraçada
Ao pé de um numeroso ajuntamento,

E eu, que urdia estes frágeis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Um pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.


Poemas e Poesias Thursday, 18 de August de 2022

NOÇÕES (POEMA DA CARIOCA CECÍLIA MEIRELES)

NOÇÕES

Cecília Meireles

 

 

 

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e
precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e
inúmera...


Poemas e Poesias Tuesday, 16 de August de 2022

OS TRÊS AMORES (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)

OS TRÊS AMORES

Castro Alves

 

 

 

Minh’alma é como a fronte sonhadora
Do louco bardo, que Ferrara chora...
Sou Tasso!... a primavera de teus risos
De minha vida as solidões enflora...
Longe de ti eu bebo os teus perfumes,
Sigo na terra de teu passo os lumes...
— Tu és Eleonora...

II

Meu coração desmaia pensativo,
Cismando em tua rosa predileta.
Sou teu pálido amante vaporoso,
Sou teu Romeu... teu lânguido poeta!...
Sonho-te às vezes virgem... seminua...
Roubo-te um casto beijo à luz da lua...
- E tu és Julieta...

III

Na volúpia das noites andaluzas
O sangue ardente em minhas veias rola...
Sou D. Juan!... Donzelas amorosas,
Vós conheceis-me os trenos na viola!
Sobre o leito do amor teu seio brilha
Eu morro, se desfaço-te a mantilha
Tu és — Júlia, a Espanhola!...


Poemas e Poesias Monday, 15 de August de 2022

MOCIDADE (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)

MOCIDADE

Casimiro de Abreu

 

 

 

Ninon, Ninon, que fais tu de la vie?
L'heure s'enfuit, le jour succede au jour.
Rose ce soir, demain flétrie,
Comment vis-tu, toi qui n'as pas d'amour?!
MUSSET.


Doce filha da lânguida tristeza,
Ergue a fronte pendida — o sol fulgura!
Quando a terra sorri-se e o mar suspira
Por que te banha o rosto essa amargura?!

Por que chorar quando a natura é risos,
Quando no prado a primavera é flores?
— Não foge a rosa quando o sol a busca,
Antes se abrasa nos gentis fulgores.

Não! — Viver é amar, é ter um dia
Um amigo, uma mão que nos afague;
Uma voz que nos diga os seus queixumes,
Que as nossas mágoas com amor apague.

A vida é um deserto aborrecido
Sem sombra doce, ou viração calmante;
— Amor — é a fonte que nasceu nas pedras
E mata a sede à caravana errante.

Amai-vos! — disse Deus criando o mundo,
Amemos! — disse Adão no paraíso,
Amor! — murmura o mar nos seus queixumes,
Amor! — repete a terra num sorriso!

Doce filha da lânguida tristeza,
Tua alma a suspirar de amor definha...
— Abre os olhos gentis à luz da vida,
Vem ouvir no silêncio a voz da minha!

Amemos! Este mundo é tão tristonho!
A vida, como um sonho — brilha e passa;
Por que não havemos pra acalmar as dores
Chegar aos lábios o licor da taça?

O mundo! o mundo! — E que te importa o mundo?
— Velho invejoso, a resmungar baixinho!
Nada perturba a paz serena e doce
Que as rolas gozam no seu casto ninho.

Amemos! — tudo vive e tudo canta...
Cantemos! seja a vida — hinos e flores;
De azul se veste o céu... vistamos ambos
O manto perfumado dos amores.

..........................................

Doce filha da lânguida tristeza,
Ergue a fronte pendida — o sol fulgura!
— Como a flor indolente da campina
Abre ao sol da paixão tua alma pura!


Poemas e Poesias Sunday, 14 de August de 2022

POEMA DE NATAL (POEMA DO PERNAMBUCANO CARLOS PENA FILHO)

POEMA DE NATAL

Carlos Pena Filho

 

 

 

— Sino, claro sino,

tocas para quem?

— Para o Deus menino

que de longe vem.

 

— Pois se o encontrares

traze-o ao meu amor.

— E que lhe ofereces

velho pecador?

 

— Minha fé cansada,

meu vinho, meu pão,

meu silêncio limpo,

minha solidão.


Poemas e Poesias Saturday, 13 de August de 2022

ASSANHAMENTO (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

ASSANHAMENTO

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Que venha o censo de 70
e com ele venha
a recenseadora mais bacana,
aquela que ao dizer, com voz de acúcar
(a doce voz é a melhor senha):
“Preencha direitinho
este questionário, por favor”,
tenha sempre dos homens a resposta:
“Por você, minha flor,
preencho tudo, sou capaz até
de reclamar duzentos questionários,
passando a vida inteira a preenchê-los,
mesmo os mais complicados e mais vários,
tendo-a ao meu lado, é claro, a me ajudar.”
Ah, por que o Governo
não faz todo ano um censo cem por cento
com uma garota assim, a censear?
Por que não reformula
a engrenagem severa da Fazenda
e bota a coleção dessas meninas
cobrando a domicílio
(pois resistir quem há-de ao seu veneno)
todas as taxas, todos os impostos,
inclusive – terrível – o de renda?


Poemas e Poesias Friday, 12 de August de 2022

SONETO 057 - DE VÓS ME APARTO, Ó VIDA , E EM TAL MUDANÇA(POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)

DE VÓS ME APARTO, Ó VIDA, E EM TAL MUDANÇA

Soneto 057

Luís de Camões

 

 

De vós me parto, ó vida, e em tal mudança
Sinto vivo da morte o sentimento.
Não sei para que he ter contentamento,
Se mais ha de perder quem mais alcança.

Mas dou-vos esta firme segurança:
Que postoque me mate o meu tormento,
Por as aguas do eterno esquecimento
Segura passará minha lembrança

Antes sem vós meus olhos se entristeção,
Que com cousa outra alguma se contentem:
Antes os esqueçais, que vos esqueção.

Antes nesta lembrança se atormentem,
Que com esquecimento desmereção
A gloria que em soffrer tal pena sentem.


Poemas e Poesias Thursday, 11 de August de 2022

SONETO DA PORCARIA (POEMA DO PORTUGUÊS MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE)

SONETO DA PORCARIA

Bocage

 

 

 

Que fio de ouro, que cabello ondado,
piolhos não creou, lendeas não teve?
Que raio de olhos blasonar se attreve,
que não foi de remelas mal tractado?

Que bocca se acha ou que nariz prezado
aonde monco ou escarro nunca esteve?
E de que tal crystal ou branca neve
não se viu seu besbelho visitado?

Que pappo de mais bella galhardia
que um dedo está do cu só dividido,
não mija e regra tem todos os mezes?

Si amor é tudo merda e porcaria,
e por este monturo andaes perdido,
cago no amor e em vós trezentas vezes.

Poemas e Poesias Wednesday, 10 de August de 2022

CEM TROVAS - 005 (POEMA DE BELMIRO BRAGA)

TROVA 005 

Belmiro Braga

 

 

Pobre de mim! Por desgraça
meu coração é um coador:
nele, o riso escorre e passa,
e fica tudo o que é dor.

 


Poemas e Poesias Tuesday, 09 de August de 2022

VENCIDO (POEMA DO CAPIXABA AUGUSTO DOS ANJOS)

VENCIDO

Augusto dos Anjos

 

 

 

 

No auge de atordoadora e ávida sanha

Leu tudo, desde o mais prístino mito,

por exemplo: o do boi Ápis do Egito

Ao velho Niebelungen da Alemanha.

 

Acometido de uma febre estranha

Sem o escândalo fônico de um grito,

mergulhou a cabeça no Infinito,

Arrancou os cabelos na montanha!

 

Desceu depois à gleba mais bastarda,

Pondo a áurea insígnia heráldica da farda

À vontade do vômito plebeu...

 

E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria

O vencido pensava que cuspia

Na célula infeliz de onde nasceu.


Poemas e Poesias Tuesday, 09 de August de 2022

A PÁTRIA (POEMA DO CARIOCA OLAVO BILAC)

A PÁTRIA

Olavo Bilac

 

 

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!

Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
E um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!

Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha …

Quem com o seu suor a fecunda e umedece,
Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!

Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!


Poemas e Poesias Sunday, 07 de August de 2022

FRAGMENTO DE UM CANTO EM CORDAS E BRONZE

FRAGMENTO DE UM CANTO EM CORDAS E BRONZE

Álvares de Azevedo

 

 

Deixai que o pranto esse pallor me queime,
Deixai que as fibras que estalárão dôres
Desse maldito coração me vibrem
A canção dos meus ultimos amores!

Da delirante embriaguez de bardo
Sonhos em que afoguei o ardor da vida,
Ardente orvalho de febris pranteios,
    Que lucro á alma descrida?

 

Deixai quo chore pois. — Nem loucas venhão
Consolações a importunar-me as dòres;
Quero a sós murmural-a á noite escura
A canção dos meus ultimos amores!

Da ventania ás rabidas lufadas
A vida maldirei em meu tormento
— Que é falsa, como em prostitutos labios
    Um osculo visguento.

Escarneo! para essas muitas virgens
Como flòres — românticas e bellas —
Mas que no seio o coração tem arido,
Insensivel e estupido como ellas!

Quero agreste vibrar ruja-me as cordas
Mais selvagens d’est’harpa — quero accentos
D’aspero som como o ranger dos mastros
    Na orchestra dos ventos!

Corre feio o trovão nos céos bramindo;
Vão torvos do relampago os livores —
Quero ás rajadas do tufão gemèl-a
A canção dos meus ultimos amores!

Vem pois, meu fulvo cão! ergue-te asinba,
Meu derradeiro e solitario amigo!
— Quero me ir embrenhar pelos desvios
    Da serra — ao desabrigo...


Poemas e Poesias Saturday, 06 de August de 2022

COM A POLPA DOS DEDOS (POEMA DO PORTUGUÊS ALMEIDA GARRETT)

COM A POLPA DOS DEDOS

Almeida Garrett

 

 

com
a polpa
dos dedos
abro
o teu sorriso
gota
a
gota

até desmoronar
as vigas
dos meus olhos


Poemas e Poesias Friday, 05 de August de 2022

DIVERSO AMOR (POEMA DO GAÚCHO ALCEU WAMOSY)

DIVERSO AMOR

Alceu Wamosy

 

 

 

Não quero o teu amor! O teu amor parece
Que feito deve ser de magnólias e luares!
Amor espiritual, casto como uma prece,
De uma pureza ideal de alvas toalhas de altares!

E o meu amor, mulher, é um amor que estremece
De desejos fatais, vagos, crepusculares...
Amor, ânsia de posse! Amor que vibra e cresce,
Ardente como o fogo e fundo como os mares!

Tu virás para mim, deslumbrada e inocente,
Com teu beijo primeiro a fremir castamente!
Nos teus lábios de flor, virgens de todo mal...

E há de fugir, ó luz, de ambas as nossas bocas
Palpitantes, febris, desvairadas e loucas,
Um arrulho de pomba e um uivo de chacal...


Poemas e Poesias Thursday, 04 de August de 2022

CONFISSÃO DOS OLHOS (POEMA DO FLUMINENSE ALBERTO DE OLIVEIRA)

CONFISSÃO DOS OLHOS

Alberto de Oliveira

 

 

 

Na sala, muita vez, junto aos que estão contigo,
Noto entrando que ao ver-me, entre surpresa e enleio
Ficas, como se acaso um sofrimento antigo
Eu te viesse acordar lá no íntimo do seio.

Por que enleio e surpresa? Olham-te, e empalideces;
Pões a vista no chão, fazes que desconheces
Estar ao pé de ti quem te perturba; acaso
Vais distraída; aqui tocas a flor de um vaso,
Ali de um velho quadro atentas na gravura;
Achegas-te à janela, olhas a tarde pura,
Voltas. De face então vês-me a estremecer. Quase
Disseste o que dizer te anseia há muito; a frase
Íntima, breve e ardente, em teu lábio purpúreo
Aflou num palpitar, fez ouvir um murmúrio,
Mas refluiu... Em torno atentos te encaravam.
Foi quando para mim teus grandes olhos voaram,
Voaram, vieram, assim como do firmamento
Duas estrelas, e a alma unindo a um pensamento
Único, em fluido a escoar dos raios de ouro em molhos,
Somem-se em mudo assombro, abismam-se em meus olhos.

E em minh'alma, lá dentro, eu sinto então, querida,
Que eles deixam cair, no ardor em que me inflamo,
Ah! e com que calor, com que sede de vida!
Letra a letra, a tremer, o teu segredo: Eu te amo!


Poemas e Poesias Wednesday, 03 de August de 2022

DEÇOIMENTO (POEMA DO MINEIRO AFFONSO ROMANO DE SANT*ANNA

DEPOIMENTO

Affonso Romano de Sant'Anna

 

 

 

 

Ano de 1966.
Eu, Affonso Romano de Sant'Anna,
aos moldes de Villon, meu mestre,
resolvo:
sem ter nada que ocultar,
versos que temer
ou desculpas a quem dar;
já no meio da vida, e no mundo
demais no meio para calar,
conhecedor de algumas terras,
de alguns corpos agrimensor,
sem tocar outro instrumento
que seu corpo e seu amor,
hoje longe da pátria
aos dezesseis — pregador,
hoje — profissão definida,
ontem — recados & marmitas,
hoje — sem dívidas e aluguéis,
ontem — aturdido com a festa
e hoje — demais na vida.

(...)

Neste ano de 66,
ano besta, não bissexto,
apocalíptico e fatídico,

em que artefatos amarelos explodem no mar da China
e meu povo curva a cabeça e se aniquila,

em que minha vida interna floresce
e no Vietnã arroz e carne fenecem,

em que em mim, violenta, a poesia sobrevém
e os distúrbios nos subúrbios negros recrudescem,

em que um amor mais belo e novo se acrescenta
tão logo um antigo e escasso se esvanece,

em que eu, de carro novo transito e rejubilo
e alguns amigos nas prisões padecem,

em que nos savings acounts tenho money
e pelos nordestes perdura a mesma fome.

Neste ano de 66,
esperado, implorado, fabricado, suportado,
neste ano
colho as vacas gordas que meu pai
ano após ano pelos cultos de vigília
esperava que viessem.
Me lembro que em tais natais
eu nada tinha, senão muito que aprender
e muito que aceitar;
e nada tendo, eu aprendia com meu pai
de qualquer jeito
— a graças dar.

Sei
que desta safra outros só colhem palha
ou que muitos encolhem os ossos e a morte
dos seus recolhem.
Sei
que dentro da mesma estória
irmãos mais velhos
vendem o mais novo como escória.
Mas sei
que a seca não tarda
e pra cada irmão que vendam
são sete anos de praga.

Não sei por quantos anos
este ano vai durar,
em que época terei que ler meu verso
ao reverso
e do que é lugar dos outros
farei meu ocupar.
Mas sou pronto pro adverso
e do que há por suportar.
Porque um ano de fausto
não apaga os de penar.

(...)


Poemas e Poesias Tuesday, 02 de August de 2022

MOÇA NA CAMA (POEMA DA MINEIRA ADÉLIA PRADO)

MOÇA NA CAMA

Adélia Prado

 

 

 

Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas,
uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça em ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no topor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros tem seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.


Poemas e Poesias Monday, 01 de August de 2022

PENSAMENTOS QUE REÚNEM UM TEMA (POEMA DA CARIOCA ADALGISA NERY)

PENSAMENTOS QUE REÚNEM UM TEMA

Adalgisa Nery

 

 

 

Estou pensando nos que possuem a paz de não pensar,
Na tranqüilidade dos que esqueceram a memória
E nos que fortaleceram o espírito com um motivo de odiar.
Estou pensando nos que vivem a vida
Na previsão do impossível
E nos que esperam o céu
Quando suas almas habitam exiladas o vale intransponível.
Estou pensando nos pintores que já realizaram para as multidões
E nos poetas que correm indefinidamente
Em busca da lucidez dos que possam atingir
A festa dos sentidos nas simples emoções.
Estou pensando num olhar profundo
Que me revelou uma doce e estranha presença,
Estou pensando no pensamento das pedras das estradas sem fim
Pela qual pés de todas as raças, com todas as dores e alegrias
Não sentiram o seu mistério impenetrável,
Meu pensamento está nos corpos apodrecidos durante as batalhas
Sem a companhia de um silêncio e de uma oração,
Nas crianças abandonadas e cegas para a alegria de brincar,
Nas mulheres que correm mundo
Distribuindo o sexo desligadas do pensamento de amor,
Nos homens cujo sentimento de adeus
Se repete em todos os segundos de suas existências,
Nos que a velhice fez brotar em seus sentidos
A impiedade do raciocínio ou a inutilidade dos gestos.
Estou pensando um pensamento constante e doloroso
E uma lágrima de fogo desce pela minha face:
De que nada sou para o que fui criada
E como um número ficarei
Até que minha vida passe.


Poemas e Poesias Sunday, 31 de July de 2022

MÁGOA (POEMA DA PORTUGUESA VIRGÍNIA VICTORINO)

MÁGOA

Virgínia Victorino

 

 

 

Eu que cheguei a ter essa alegria
de junto ao meu possuir teu coração!
Eu que julgava eterna a duração
do voluptuoso amor que nos unia,

sou ‒  apagada a última ilusão,
morto o deslumbramento em que vivia,
‒  um cego que ao lembrar a luz do dia
sente mais negra ainda a escuridão.

Tu me deste a ventura mais perfeita,
perdi-a e dei-te a chama insatisfeita
dessa imensa paixão com que te quis…

Hoje, o que eu sinto, inútil, revoltada,
não é mágoa de ser desgraçada,
‒  é pena de  ter sido tão feliz.


Poemas e Poesias Saturday, 30 de July de 2022

A LENDA DA MALDIÇÃO (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUS DE MORAES)

A LENDA DA MALDIÇÃO

Vinícius de Moraes

 

 

 

A noite viu a criança que subia a escada cheia de risos e de sombras
E pousou como um pássaro ferido sobre as árvores que choravam.
A criança era o príncipe-poeta que a música ardente fizera subir à última torre
E a noite era a camponesa que amava o príncipe e o adormecia no seu canto.
Quando a criança chegou ao ponto mais alto viu que a música era o riso embriagado
E que o riso embriagado era das estátuas mortas que tinham no ventre aberto entranhas murchas.
A criança lembrou-se da noite cheia de entranhas e cujo riso era a poesia eterna
E a angústia cresceu no seu coração como o mar alto nos penhascos.
O olhar cego das estátuas levou o herdeiro do reino ao fosso negro — ó príncipe, onde estás? — a voz dizia
E a água subia, nos braços, no peito, na boca, nos olhos do amado da noite.

Depois saiu do fosso um homem que era o poeta-amaldiçoado
E que possuiu a noite chorando, adormecida.
A noite que nada viu continua chamando o príncipe-poeta
Enquanto o poeta-amaldiçoado chora nos braços das estátuas mortas...


Poemas e Poesias Friday, 29 de July de 2022

O DIA SEGUINTE DO AMOR (POEMA DO PAULISTA VICENTE DE CARVALHO)

O DIA SEGUINTE DO AMOR

Vicente de Carvalho

 

 

 

Aves fugidias que passais em bando

Pelo azul da tarde sobre o azul do mar,

Aves fugidias que passais cantando,

        que fazeis? Passar.

       

De repente surgis. No vasto céu

Um turbilhão de alvura de repente cresce;

Passa, afasta-se, e ao longe, e como apareceu

        Desaparece.



Brancura macia de plumas, rumor leve

        De asas que ruflam devagar,

        Passais como flocos de neve

Que sussurram no vento e se desfazem no ar.



De tudo isso que resta? Um quase nada: apenas

        Em meu olhar distraído

A vaga impressão de uma alvura de penas,

E o eco de um rumor cantando em meu ouvido.


Poemas e Poesias Thursday, 28 de July de 2022

LITERATO CANTABILE (POEM A DO PIAUIENSE TORQUATO NETO)

LIBERATO CANTABILE

Torquato Neto

 

 

 

agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início;

agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.

você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:

só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim do fim de tudo
e o tem do tempo vindo;

não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento


Poemas e Poesias Wednesday, 27 de July de 2022

AINDA NÃO É O FIM (POEMA DO AMAZONENSE THIAGO DE MELLO)

AINDA NÃO É O FIM

Thiago de Mello

 

 

 

Escondo o medo e avanço. Devagar.
Ainda não é o fim. É bom andar,
mesmo de pernas bambas. Entre os álamos,
no vento anoitecido, ouço de novo
(com os mesmos ouvidos que escutaram
“Mata aqui mesmo?”) um riso de menina.
Estou quase canção, não vou morrer
agora, de mim mesmo, mal livrado
de recente e total morte de fogo.
A vida me reclama: a moça nua
me chama da janela, e nunca mais
e lembrarei sequer dos olhos dela.
Posso seguir andando como um homem
entre rosas e pombos e cabelos
que em prazo certo me devolverão
ao sonho que me queima o coração.
Muito perdi, mas amo o que sobrou.
Alguma dor, pungindo cristalina,
alguma estrela, um rosto de campina.
Com o que sobrou, avanço, devagar.
Se avançar é saber, lâmina ardendo
na flor do cerebelo, porque foi
que a alegria, a alegria começando
a se abrir, de repente teve fim.
Mas que avançar no chão ferido seja
também saber o que fazer de mim.


Poemas e Poesias Tuesday, 26 de July de 2022

CANTO TERCEIRO - O GUESA (POEMA DO MARANHENSE SOUSÂNDRADE)

CANTO TERCEIRO - O GUESA

Sousândrade

 

 

 

As balseiras na luz resplandeciam —
oh! que formoso dia de verão!
Dragão dos mares, — na asa lhe rugiam
Vagas, no bojo indômito vulcão!
Sombrio, no convés, o Guesa errante
De um para outro lado passeava
Mudo, inquieto, rápido, inconstante,
E em desalinho o manto que trajava.
A fronte mais que nunca aflita, branca
E pálida, os cabelos em desordem,
Qual o que sonhos alta noite espanca,
"Acordem, olhos meus, dizia, acordem!"
E de través, espavorido olhando
Com olhos chamejantes da loucura,
Propendia pra as bordas, se alegrando
Ante a espuma que rindo-se murmura:
Sorrindo, qual quem da onda cristalina
Pressentia surgirem louras filhas;
Fitando olhos no sol, que já sinclina,
E rindo, rindo ao perpassar das ilhas.
— Está ele assombrado?... Porém, certo
Dentro lhe idéia vária tumultua:
Fala de aparições que há no deserto,
Sobre as lagoas ao clarão da lua.

Imagens do ar, suaves, flutuantes,
Ou deliradas, do alcantil sonoro,
Cria nossa alma; imagens arrogantes,
Ou qual aquela, que há de riso e choro:
Uma imagem fatal (para o ocidente,
Para os campos formosos dáureas gemas,
O sol, cingida a fronte de diademas,
índio e belo atravessa lentamente):
Estrela de carvão, astro apagado
Prende-se mal seguro, vivo e cego,
Na abóbada dos céus, — negro morcego
Estende as asas no ar equilibrado.


Poemas e Poesias Monday, 25 de July de 2022

ESTRELA (POEMA DO BAIANO RICARDO LIMA)

ESTRELA

Ricardo Lima

 

 

 

A estrela que brilha, forte e incandescente;

O desejo, brilha,

A busca cessa,

A realização acontece.


Poemas e Poesias Sunday, 24 de July de 2022

DE UM FANTASMA (POEMA DO FLUMINENSE RAUL DE LEÔNI)

DE UM FANTASMA

Raul de Leôni

 

 

 

Na minha vida fluida de fantasma
Sou tão leve que quase nem me sinto.
Nem há nada mais leve nem tão leve.
Sou mais leve do que a euforia de um anjo,
Mais leve do que a sombra de uma sombra
Refletida no espelho da Ilusão.

Nenhuma brutal lei do Universo sensível
Atua e pesa e nem de longe influi
Sobre o meu ser vago, difuso, esquivo
E no éter sereníssimo flutuo
Com a doce sutileza imponderável
De uma essência ideal que se volatiza...

Passo através das cousas mais sensíveis
E as cousas que atravesso nem se sentem,
Porque na minha plástica sutil
Tenho a delicadeza transcendente
Da luz, que flui través os corpos transparentes.
Sou quase imaterial como uma idéia...

E da matéria cósmica que tem
Tantos e variadíssimos estados
Eu sou o estado-alma, quer dizer
O último estado rarefeito, o estado ideal:
Alma, o estado divino da matéria!...


Poemas e Poesias Saturday, 23 de July de 2022

SONETO A QUATRO MÃOS (POEMA DO MINEIRO PAULO MENDES CAMPOS E OUTROS)

SONETO A QUATRO MÃOS

Paulo Mendes Campos

 

 

Tudo de amor que existe em mim foi dado. 
Tudo que fala em mim de amor foi dito. 
Do nada em mim o amor fez o infinito 
Que por muito tornou-me escravizado. 

Tão pródigo de amor fiquei coitado 
Tão fácil para amar fiquei proscrito. 
Cada voto que fiz ergueu-se em grito 
Contra o meu próprio dar demasiado. 

Tenho dado de amor mais que coubesse 
Nesse meu pobre coração humano 
Desse eterno amor meu antes não desse. 

Pois se por tanto dar me fiz engano 
Melhor fora que desse e recebesse 
Para viver da vida o amor sem dano.

 

 

 


Poemas e Poesias Friday, 22 de July de 2022

MINHA SODADE (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ)

MINHA SODADE

Patativa do Assaré

 

 

 

Minha gente, minha gente
Eu sei ocultar meu pranto
Não pense que estou contente
Quando na viola canto
Pois tá pensando o contrário
Eu canto é como o canário
Preso na sua gaiola
Tô cansado de dizer
Que se viver é sofrer
Eu já passei da bitola

Se no mundo toda gente
O povo mau e o distinto
Cada um conta o que sente
Eu quero contar o que sinto
Meu sofrimento é sem fim
Eu tenho dentro de mim
Uma sodade arranchada
Tão grande, tão desmedida
Que não pode ser medida
Nem pescada, nem julgada

Sodade, esta aguda seta
Que é mãe da recordação
Sabendo que eu sou poeta
Achou que meu coração
Pra se arranchar dava jeito
E foi entrando em meu peito
Como broca em aroeira
Que vai furando, furando
Até que fica morando
No miolo da madeira

Com a mesma ingratidão
Veio a sodade sem dó
Agarrou meu coração
Se enrolou e deu um nó
E foi crescendo, crescendo
Cada vez mais se estendendo
E por dentro enraizando
Tanto ligou e apregou
Que em toda parte que eu tô
Ela tá me aperreando

No verdor da minha idade
Modi acalentar meu choro
Minha vovó de bondade
Falava em grandes tesouros
Eram estórias de reinado
Prencesa e príncipe encantado
Com feiticeira e condão
Essas estórias engraçada
Tá selada e carimbada
Dentro do meu coração

Mas, porém, eu sinto e vejo
Que a grande sodade minha
Não é só de história e beijo
Da querida vovozinha
De manhãzinha bem cedo
Sodade dos meus brinquedo
Meu bodoque e meu fornol
O meu cavalo de pau
Meu pião, meu berimbau
E a minha carça cotó

Sem esperança e sem fé
Vejo o meu mal incurávi
Eu tenho sodade até
Das coisa desagradávi
Pois mesmo aquilo que eu via
Que não me dava alegria
Não ficava satisfeito
E nem me sentia bem
Virou sodade também
E se arranchou no meu peito

Sodade quando eu deitado
Na minha pequena rede
Escutava admirado
Nos buracos da parede
O cri cri cri dos grilos
Sodade de tudo aquilo
Que para mim já morreu
Sodade até das palmada
Corcorote, chinelada
Que minha mã dava n’eu

Nesse tempo eu pissuia
Paz, inocência e saúde
Quando no inverno chovia
Eu ia brincar de açude
Nas levadas do terreiro
Todo alegre e prazenteiro

Mas aquele tempo belo
Que para mim já não torna
Fez do meu peito bigorna
E da sodade martelo
E o velho martelo horrendo
Toda noite e o dia inteiro
No meu coração batendo
Batendo como um ferreiro
Maiando num ferro quente
E assim todo deferente
Do resto da humanidade
Como um pobre vagabundo
Vou arrastando no mundo
O meu fardo de sodade

Já me achei bem rodeado
De amor, beijo e carinho
E hoje triste e abondonado
Vou seguindo meu caminho
Sem alento e sem conforto
Cansado, enjambrado e torto
Com o grande peso da idade
O meu corpo até parece
A formatura de um S
Com que se escreve sodade


Poemas e Poesias Thursday, 21 de July de 2022

ANDORINHA (POEMA DO PERNAMBUCANO OLEGÁRIO MARIANO)

ANDORINHA

Olegário Mariano

 

 

 

A frescura do céu baixou com a tarde calma,

Penetrou pouco a pouco os meus sentidos… Vejo

Em cada boca estuar a volúpia de um beijo,

Arder em cada corpo a chama do desejo

E um frêmito passar vibrando de alma em alma…

 

Voa, chilreando, louca, uma inquieta andorinha.

Cruza o céu, desce  à tona azul da água apressada,

Pousa num fio telegráfico da rua.

— Dá-me um pouco de sol! Eu que não tenho nada,

Preciso de aquecer a minh’alma na tua.

     Andorinha!  Andorinha!

Tens em meu coração tua melhor morada…

Mas és de outro e afinal bem podias ser minha!


Poemas e Poesias Wednesday, 20 de July de 2022

ÚLTIMA PÁGINA (POEMA DO CARIOCA OLAVO BILAC)

ÚLTIMA PÁGINA

Olavo Bilac

 

 

 

Primavera. Um sorriso aberto em tudo. Os ramos
Numa palpitação de flores e de ninhos.
Doirava o sol de outubro a areia dos caminhos
(Lembras-te, Rosa?) e ao sol de outubro nos amamos.
Verão. (Lembras-te Dulce?) À beira-mar, sozinhos,
Tentou-nos o pecado: olhaste-me... e pecamos;
E o outono desfolhava os roseirais vizinhos,
Ó Laura, a vez primeira em que nos abraçamos...
Veio o inverno. Porém, sentada em meus joelhos,
Nua, presos aos meus os teus lábios vermelhos,
(Lembras-te, Branca?) ardia a tua carne em flor...
Carne, que queres mais? Coração, que mais queres?
Passas as estações e passam as mulheres...
E eu tenho amado tanto! e não conheço o Amor!


Poemas e Poesias Tuesday, 19 de July de 2022

RESSURREIÇÃO II (POEMA DO PAULISTA MENOTTI DEL PICCHIA)

RESSURREIÇÃO - II 

Menotti Del Picchia

 

 

 

 

“Ser feliz! Ser feliz estava em mim, Senhora...

Este sonho que ergui, ou poderia pôr

onde quisesse, longe até da minha dor,

em um lugar qualquer, onde a ventura mora;

 

onde, quando o buscasse, o encontrasse a toda hora

tivesse-o em minhas mãos... Mas, louco sonhador,

eu coloquei muito alto o meu sonho de amor...

Guardei-o em vosso olhar e me arrependo agora.

 

O homem foi sempre assim... Em sua ingenuidade

teme levar consigo o próprio sonho, a esmo,

e oculta-o sem saber se depois o achará...

 

E, quando vai buscar sua felicidade,

ele, que poderia encontrá-la em si mesmo,

escondeu-a também, que nem sabe onde está!”


Poemas e Poesias Monday, 18 de July de 2022

EU QUERIA TRAZER-TE UNS VERSOS MUITO LINDOS (POEMA DO GAÚCHO MÁRIO QUINTANA)

EU QUERIA TRAZER-TE UNS VERSOS MUITO LINDOS

Mário Quintana

 

 

 

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

colhidos no mais íntimo de mim…

Suas palavras

seriam as mais simples do mundo,

porém não sei que luz as iluminaria

que terias de fechar teus olhos para as ouvir…

Sim! Uma luz que viria de dentro delas,

como essa que acende inesperadas cores

nas lanternas chinesas de papel!

Trago-te palavras, apenas… e que estão escritas

do lado de fora do papel… Não sei, eu nunca soube o que dizer-te

e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento

da poesia…

como

uma pobre lanterna que incendiou!


Poemas e Poesias Sunday, 17 de July de 2022

SONHO OU VISÃO? (POEMA DA MARANHENSE MARIA FIRMINA DOS REIS)

SONHO OU VISÃO?
Maria Firmina dos Reis

 

 

 

Tu vens rebuçado

Nas sombras da noite

Sentar-te em meu leito;

Eu sinto teus lábios

Roçar minhas faces

Roçar no meu peito.

Não sei bem se durmo,

Se velo ─ se é sonho,

Se é grato visão:

Só sei que arroubada

Deleita a minh’alma

Tão doce ilusão.

Depois, um suspiro

Que cala mais fundo

Que prantos de dor;

Que fala mais alto

Que juras ardentes,

Que votos de amor,

Vem lento ─ pausado

Do imo do peito

Memorial de Maria Firmina dos Reis

Nos lábios ─ morrer…

Eu amo de ouvi-lo,

Pois desses suspiros

Se anima o meu ser.

Mas, ah! não me falas…

Teus lábios, teu rosto

Só tem um sorriso.

Depois vaporoso

Vai todo fugindo

Teu corpo ─ teu riso.

Então eu desperto

Do sonho ─ ou visão,

Começo a cismar;

E ainda acordada

Invoco em delírio.

[Falta o verso final desta estrofe, em todas as fontes]

Oh! Vem no meu sono

Imagem querida

Pousar no meu leito

Com lábios macios

Roçar minhas faces

Pousar no meu peito


Poemas e Poesias Saturday, 16 de July de 2022

CONSOADA (POEM ADO PERNAMBUCANO MANUEL BANDEIRA)

CONSDOADA

Manuel Bandeira

 

 

 

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.


Poemas e Poesias Thursday, 14 de July de 2022

OS DESLIMITES DAS PALAVRAS (POEMA DO MATO-GROSSENSE MANOEL DE BARROS)

OS DESLIMITES DAS PALAVRAS

Manoel de Barros

 

 

 

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.

Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.

Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.

Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas


Poemas e Poesias Wednesday, 13 de July de 2022

ODE (POEMA DO PERNAMBUCANO MACIEL MONTEIRO)

ODE

Maciel Monteiro

 

 

Ao nascerdes, senhora, um astro novo

Vos inundou de luz, que inda hoje ensina,

No fogo desses vossos olhos belos

          Vossa origem divina.

 

O ar que respirastes sobre a terra,

Foi um sopro de Deus embalsamado

Entre as flores gentis que vos ornavam

          O berço abençoado.

Ao ver-vos sua igual, no empíreo os anjos

Hinos de amor cantaram nesse dia;

E o que se escuta, se falais é o eco

          Da angélica harmonia.

 

Gerada para o céu, que o céu somente

Da criação a pompa e o brilho encerra,

Das mãos do criador vos escapastes;

          Caístes cá na terra.

Um anjo vos seguiu para guardar-vos;

E, quais gêmeos, um noutro retratado,

Quem pode distinguir o anjo que guarda

          Do anjo que é guardado?

 

Só um raio do céu arde perene

Sem que o tempo lhe apague o furor santo!

Por isso os vossos dons são sempre os mesmos,

          O mesmo o vosso encanto.

 

Em vós é tudo eterno. E, se na fronte

(Tão bela sempre em tempos tão diversos)

Uma c'roa murchar-vos, é decerto

          A coroa de meus versos,

 

Dos meus versos! Ah! Não! Que inextinguível

É o incenso queimado à divindade:

E ao canto que inspirais, vós dais, senhora,

          Vossa imortalidade.


Poemas e Poesias Tuesday, 12 de July de 2022

NA GIRA DS GIRAFAS (POEM ADO PERNAMBUCANO LUÍS TURIBA)

NA GIRA DAS GIRAFAS

Luís Turiba

 

 

 

Como são gostosas as girafas

olham as estrelas de frente

conversam nos olhos de Deus

penteiam em plenas nuvens

os cílios de Carmem Miranda

& aquelas antenas a ligá-las

aos desfiles das savanas

são gêmeas das senegalesas

na altura na graça & beleza

as pernas mais altas da África

são retilíneas falsas magras

as curvas cheias de carne

quadris de Noami Campbell

o andar de Gisele Bündchen

são afro-pop as top models

sacodem as bundas a valer

tão nuas em seus pijamas

de listras lindas & leopardas

ouvir dizer que elas dormem

dez minutos a cada hora

também pudera, natureza mátria

com aquele pescoço quilométrico

(que um dia ainda vou beijá-lo)

um cochilo (ah!!!) faz descansá-lo.

Assim sendo ofereço-lhes

um espaço de pouca mata

não tão afro como a África

mas confortável  & afável

numa posição de vanguarda

aceitem, pois, minha pauta

um convite um cheque-mate:

Venham cumpridas girafas

(e isso não as desagravam)

dormir em minhas gravatas

O sono de quem lida em altas

nada custa, é puro charme

 


Poemas e Poesias Monday, 11 de July de 2022

RISUM TENEATIS (POEMA DO CARIOCA LUÍS EDMUNDO) N

RISUM TENEATIS

Luís Edmndo

 

 

 

Teus olhos claros me disseram,

Como se fossem tua voz:

Ama-me... Os olhos também falam;

E quando os nossos lábios calam

O gesto e o olhar falam por nós.

 

Quando os teus dedos se encontraram

Nos dedos meus cheios de ardor,

Tua alma cálida fremia;

A tua mão nervosa e fria

Disse-me todo o teu amor.

 

Sorrias tu como uma estátua;

Lívida e cheia de emoção

Tu não falaste... a boca mente,

Tu foste minha inteiramente,

Foi meu teu virgem coração.

 

Passou no entanto aquele dia

Em que com febre e embriaguez

As nossas almas amorosas

Se uniram, trêmulas, ansiosas,

Pela primeira e última vez!

 

A boca mente... tu falaste...

Sem pressentir a minha dor...

Tu me negaste o amor ardente

Que em ti vibrava... a boca mente...

E tu mentiste, meu amor!


Poemas e Poesias Sunday, 10 de July de 2022

CULTO SECRETO (POEMA DO PORTUGUÊS JÚLIO DINIS)

CULTO SECRETO

Júlio Dinis

 

 

 

Ouve, lânguida virgem das cidades,
A paixão que me inspiraste.
Curvada, como a flor em vaso d'ouro,
Tu, bela, me encantaste.

Eu vi-te assim pendida; a estrela d'alva
Ao surgir do oriente
Não nos envia mais saudosos raios
Do seu leito fulgente.

A viração da tarde, mais amena
No bosque, não murmura;
A alva açucena, que o vergel enfeita,
Não tem a cor mais pura.

Eu vi-te, e desde então sempre em meus sonhos
Surges, e magoada
Pareces ver as vagas desta vida
Na margem debruçada

Vejo-te então ainda, e pensativa,
Os lábios entreabertos,
Murmurando em sentida linguagem
Pensamentos incertos.

Vejo-te ainda, as lágrimas ferventes
Dos olhos rebentando,
E, ao correrem nas faces, indiscretas,
Segredos revelando.

Que segredo é o teu, lânguida virgem,
Ideal dos meus amores?
Que imaginas nos sonhos dessas noites
Tão cheias de fulgores?

Que mistério procuras no ocidente
Ao desmaiar do dia?
Ou que visão esperas, quando a aurora
Com rosas se anuncia?

Que oculto sentimento reprimido
Te faz ansiar o seio?
Que íntima dor, que pensamento acerbo?
Que indefinido enleio?

Olha, se o coração te pede amores,
Virgem, não chores, canta,
Para ti é que são as flores da vida
E a luz que nos encanta.

Tu, sim, podes amar; nas sacras aras
Dessa chama inquieta,
Ateia o sacro fogo com que inflamas
O coração do poeta.

Tu sim, podes amar; mas eu... se ao ver-te
Interrogo o futuro,
Uma voz me murmura: «Adora, mártir,
Adora, e morre obscuro».


Poemas e Poesias Saturday, 09 de July de 2022

SONETO DA MANHÃ PRIMEIRA (POEMA DO MARANHENSE JOSÉ CHAGAS)

SONETO DA MANHÃ PRIMEIRA

José Chagas

 

 

 

Quero a manhã exata, a manhã viva,
pois estas luzes e estes vôos na aurora,
são só ensaios de manhãs. E agora
o que eu quero é a manhã definitiva,

a autêntica manhã pura, exclusiva,
manhã nascida de si mesma e fora
desta jubilação falsa e sonora
que só por um momento nos cativa.

Ah, a manhã da última promessa,
manhã de um novo mundo que começa,
mais acessível, mais humano e bom.

Meu Deus, seria como chegasse
a manhã do primeiro sol que nasce,
a cor primeira e do primeiro som.


Poemas e Poesias Friday, 08 de July de 2022

POEMA DA IRMÃ (POEMA DO ALAGOANO JORGE DE LIMA)

POEMA DA IRMÃ

Jorge de Lima

 

 

Ó irmã
agora que as noites vêm cedo
e paira por tudo
uma tristeza enorme
e o silêncio é tão longo
que os cães enlouquecem nas ruas,
irmã, vem me relembrar
que crescemos juntos
quando os dias eram compridos e diferentes.
Irmã, se tu sabes signos
para mudar o tempo, vem.
Vem que eu quero fugir
para outras paragens
onde as gaivotas sejam menos inúteis
e haja um coração em cada porto;
e os pássaros do mar
tão lavados e tão alvos
e tão lentos e tão sabedores de viagens
venham esvoaçar
sobre o meu cachimbo
em que os cometas do céu se apagaram.
Irmã, nos meus ritmos
há colegas que gritam:
Daubler, Ehrenstein, Stramm, suicidas,
vagabundos, crianças,
operários, leprosos e prostitutas que
se lembram ainda de suas orações familiares.

Há não sei onde outros ares e outras serras,
outros limites, adeus irmã.
Ó que noite longa,
Ó que noite tão longa!
Que é que chora lá fora?
— A humanidade ou qualquer fonte?


Poemas e Poesias Thursday, 07 de July de 2022

O SERTANEJO FALANDO (POEMA DO PERNAMBUCANO JOÃO CABRAL DE MELO NETO)

O SERTANEJO FALANDO

João Cabral de Melo Neto

 

 

 

A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.

2.

Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-las na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.


Poemas e Poesias Wednesday, 06 de July de 2022

DUALIDADE (POEMA DO ACRIANO J. G. DE ARAÚJO JORGE)

DUALIDADE

J. G. de Araújo Jorge

 

 

 

 

Sei que é Amor, meu amor...porque o desejo 
o meu próprio desejo tão violento, 
dir-se-ia ter pudor, ter sentimento, 
quando estás junto a mim, quando te vejo. 

É um clarim a vibrar como um harpejo, 
misto de impulso e de deslumbramento. 
Sei que é Amor, meu amor...porque o desejo 
é desejo e ternura a um só momento. 

Beijo-te a boca, as mãos, e hei de beijar-te 
nessa dupla emoção, (violento e terno) 
em que a minha alma inteira se reparte, 

- e a perceber em meu estranho ardor, 
que há uma luta entre o efêmero e o eterno, 
entre um demônio e um anjo em todo Amor! 


Poemas e Poesias Tuesday, 05 de July de 2022

DO AMOR CONTENTE E MUITO DESCONTENTE - 1 (POEMA DA PAULISTA HILDA HILST)

DO AMOR COTENTE E MUITO DESCONTENTE - 1

Hilda Hilst

 

 

 

Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Tenho me fatigado tanto todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor
Infância,
Sóis e sombras.
Vou dizer coisas terríveis à gente que passa.
Dizer que não é mais possível comunicar-me.
(Em todos os lugares o mundo se comprime.)
Não há mais espaço para sorrir ou bocejar de tédio.
As casas estão cheias. As mulheres parindo sem cessar,
Os homens amando sem amar, ah, triste amor desperdiçado
Desesperançado amor… Serei eu só
A revelar o escuro das janelas, eu só
Adivinhando a lágrima em pupilas azuis
Morrendo a cada instante, me perdendo?
 
Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Preparo-me e aceito-me
Carne e pensamento desfeitos. Intentemos,
Meu pai, o poema desigual e torturado.
E abracemo-nos depois em silêncio. Em segredo.

Poemas e Poesias Monday, 04 de July de 2022

DE UM LADO CANTAVA O SOL (POEMA DO SERGIPANO HERMES FONTES)

DE UM LADO CANTAVA O SOL

Hermes Fontes

 

 

De um lado cantava o sol,
do outro, suspirava a lua.
No meio, brilhava a tua
face de ouro, girassol!

Ó montanha da saudade
a que por acaso vim:
outrora, foste um jardim,
e és, agora, eternidade!

De longe, recordo a cor
da grande manhã perdida.
Morrem nos mares da vida
todos os rios do amor?

Ai! celebro-te em meu peito,
em meu coração de sal,
Ó flor sobrenatural,
grande girassol perfeito!

Acabou-se-me o jardim!
Só me resta, do passado,
este relógio dourado
que ainda esperava por mim…


Poemas e Poesias Sunday, 03 de July de 2022

CUIDADO! (POEMA DO PAULISTA GUILHERME DE ALMEIDA)

CUIDADO!

Guilherme de Almeida

 

 

 

 

Ó namorados que passais, sonhando,
quando bóia, no céu, a lua cheia!
Que andais traçando corações na areia
e corações nos peitos apagando!

Desperta os ninhos vosso passo... E quando
pelas bocas em flor o amor chilreia,
nem sei se é o vosso beijo que gorjeia,
se são as aves que se estão beijando...

Mais cuidado! Não vá vossa alegria
afligir tanta gente que seria
feliz sem nunca ouvir nem ver!

Poupai a ingenuidade delicada
dos que amaram sem nunca dizer nada,
dos que foram amados sem saber!


Poemas e Poesias Saturday, 02 de July de 2022

EM VIAGEM (POEMA DO PORTUGUÊS GUERRA JUNQUEIRO)

EM VIAGEM

Guerra Junqueiro

 

 

 

Desde aquela dor tamanha
Do momento em que parti
Um só prazer me acompanha,
Filha, o de pensar em ti:

Por sobre a negra paisagem
Do meu ermo coração
O luar branco da tua imagem
Veste um benigno clarão.

A tarde, no azul celeste,
Há uma estrela esmorecida,
Que é o beijo que tu me deste
Na hora da despedida.

Beijo tão longo e dolente,
Tão longo e cortado de ais,
Que o meu coração pressente
Que não te torno a ver mais.

Conto no céu estrelado
Lágrimas de oiro sem fim:
É o pranto que tens chorado,
De dia e noite, por mim...

Quando me deito na cama
E vou quase adormecido,
Oiço a tua voz que me chama,
Num suplicante gemido.

Num gemido tão suave,
Tão triste na noite escura,
Que é como uma queixa d'ave
Presa numa sepultura!...

Em sonho, às vezes, meu Deus,
Cuido que vou expirar,
Sem levar nos olhos meus
O teu derradeiro olhar.

E sem extremo conforto
Que eu ness'hora quero ter:
Beijar a fronte do morto
Aquela que o fez viver.

E é esta ideia constante,
É esta ideia sombria
Que me eclipsa, a todo o instante
O sol da alma, a alegria.

Partir!... Partir-se a cadeia
Da vida, Senhor, senhor!
Quando o azul doirado arqueia
Bênçãos ao meu sonho em flor!...

Morrer amanhã talvez!
Morrer!... Endoideço, quando
Me lembra a tua viuvez,
Entre dois berços chorando!..

Morrer, entregar à treva,
Aos vermes e às podridões
O meu coração, que leva
Dentro mais três corações!

É duro, é cruel... No entanto,
Antes da hora final,
Eu quero dizer-te o quanto
Te amei, lírio virginal!

Eu vinha de longe, exangue,
A alma despedaçada,
deixando um rastro de sangue
Nas urzes da minha estrada.

Brancas ilusões mimosas,
Vastas quimeras febris,
Abelhas doirando rosas,
Águias c'roando alcantis.

Oh, desse mundo risonho
Havia apenas ficando
A bruma vaga dum sonho
Que a gente sonha acordado...

.......................
.......................

Nessa tremenda ansiedade
É que tu verteste, flor,
A tua imensa piedade
Na minha infinita dor!...

Eu era a sombra funesta
E tu o clarão doirado;
Juntámo-nos, que é que resta?
Um céu de Maio estrelado.

Quando vais serena e calma,
Linda, inefável, como és,
Vou pondo sempre a minha alma
No sítio onde pões os pés.

Corre o mundo, (o mundo é estreito)
Podes mil mundos correr,
Que hás-de calcar o meu peito
sempre por ti a bater.

......................
......................

Meus sofrimentos partilhas
E meus regozijos vãos:
Minhas dores são tuas filhas;
Meus cuidados teus irmãos.

Não Há dif'rença nenhuma
Em nossas almas, eu creio
Que foram feitas só duma
Que Deus dividiu ao meio.

Por isso penso há dois meses,
Desde a hora em que parti,
Que morreria cem vezes
Morrendo longe de ti:

Mas ai! se assim fosse, quando
Me sepultassem, então
Estalariam chorando
As tábuas do meu caixão.

E do meu peito gelado,
Na terra do cemitério,
Brotaria ensanguentado
Um lírio roxo, funéreo.

Um lírio estranho, imprevisto,
Feito pela minha dor
Das cinco chagas de Cristo
Reunidas numa só flor...

E a estrela, d'alva inocente,
Cheia de dó tombaria,
Lagrimosissimamente
Na urna da Flor sombria!..

 


Poemas e Poesias Friday, 01 de July de 2022

ESBOÇO (POEMA DA CARIOCA GILKA MACHADO)

ESBOÇO

Gilka Machado

 

 

 

Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...


Poemas e Poesias Thursday, 30 de June de 2022

TANTO QUE O FRADE FOI EMBARCADO (POEMA DO PORTUGUÊS GIL VICENTE)

TANTO QUE O FRADE FOI EMBARCADO

Gil Vicente

 

 

 

 

Tanto que o Frade foi embarcado, veio üa Alcoviteira, per nome Brízida Vaz, a qual chegando à barca infernal, diz desta maneira:

BRÍZIDA Hou lá da barca, hou lá!
DIABO Quem chama?
BRÍZIDA Brízida Vaz.
DIABO E aguarda-me, rapaz?
Como nom vem ela já?
COMPANHEIRO Diz que nom há-de vir cá
sem Joana#de#Valdês.
DIABO Entrai vós, e remarês.
BRÍZIDA Nom quero eu entrar lá.

DIABO Que sabroso arrecear!
BRÍZIDA No é essa barca que eu cato.
DIABO E trazês vós muito fato?
BRÍZIDA O que me convém levar.
Día. Que é o que havês d'embarcar?
BRÍZIDA Seiscentos virgos postiços
e três arcas de feitiços
que nom podem mais levar.

Três almários de mentir,
e cinco cofres de enlheos,
e alguns furtos alheos,
assi em jóias de vestir,
guarda-roupa d'encobrir,
enfim - casa movediça;
um estrado de cortiça
com dous coxins d'encobrir.

A mor cárrega que é:
essas moças que vendia.
Daquestra mercadoria
trago eu muita, à bofé!
DIABO Ora ponde aqui o pé...
BRÍZIDA Hui! E eu vou pera o Paraíso!
DIABO E quem te dixe a ti isso?
BRÍZIDA Lá hei-de ir desta maré.

Eu sô üa mártela tal!...
Açoutes tenho levados
e tormentos suportados
que ninguém me foi igual.
Se fosse ò fogo infernal,
lá iria todo o mundo!
A estoutra barca, cá fundo,
me vou, que é mais real.

chegando à Barca da Glória diz ao Anjo:

Barqueiro mano, meus olhos,
prancha a Brísida Vaz.
ANJO: Eu não sei quem te cá traz...
BRÍZIDA Peço-vo-lo de giolhos!
Cuidais que trago piolhos,
anjo de Deos, minha rosa?
Eu sô aquela preciosa
que dava as moças a molhos,

a que criava as meninas
pera os cónegos da Sé...
Passai-me, por vossa fé,
meu amor, minhas boninas,
olho de perlinhas finas!
E eu som apostolada,
angelada e martelada,
e fiz cousas mui divinas.

Santa#Úrsula nom converteu
tantas cachopas como eu:
todas salvas polo meu
que nenhüa se perdeu.
E prouve Àquele do Céu
que todas acharam dono.
Cuidais que dormia eu sono?
Nem ponto se me perdeu!

ANJO Ora vai lá embarcar,
não estês importunando.
BRÍZIDA Pois estou-vos eu contando
o porque me haveis de levar.
ANJO Não cures de importunar,
que não podes vir aqui.
BRÍZIDA E que má-hora eu servi,
pois não me há-de aproveitar!...

torna-se Brízida Vaz à Barca do Inferno, dizendo:

BRÍZIDA Hou barqueiros da má-hora,
que é da prancha, que eis me vou?
E já há muito que aqui estou,
e pareço mal cá de fora.
DIABO Ora entrai, minha senhora,
e sereis bem recebida;
se vivestes santa vida,
vós o sentirês agora...

tanto que Brízida Vaz se embarcou, veo um Judeu, com um bode às costas; e, chegando ao batel#dos#danados, diz:

JUDEU Que vai cá? Hou marinheiro!
DIABO Oh! Que má-hora vieste!...
JUDEU Cuj'é esta barca que preste?
DIABO Esta barca é do barqueiro.
JUDEU. Passai-me por meu dinheiro.
DIABO E o bode há cá de vir?
JUDEU Pois também o bode há-de vir.
DIABO Que escusado passageiro!

JUDEU Sem bode, como irei lá?
DIABO Nem eu nom passo cabrões.
JUDEU Eis aqui quatro tostões
e mais se vos pagará.
Por vida do Semifará
que me passeis o cabrão!
Querês mais outro tostão?
DIABO Nem tu nom hás-de vir cá.

JUDEU Porque nom irá o judeu
onde vai Brísida Vaz?
Ao senhor meirinho apraz?
Senhor meirinho, irei eu?
DIABO E o fidalgo, quem lhe deu...
JUDEU O mando, dizês, do batel?
Corregedor, coronel,
castigai este sandeu!

Azará, pedra miúda,
lodo, chanto, fogo, lenha,
caganeira que te venha!
Má corrença que te acuda!
Par el Deu, que te sacuda
coa beca nos focinhos!
Fazes burla dos meirinhos?
Dize, filho da cornuda!

PARVO Furtaste a chiba cabrão?
Parecês-me vós a mim
gafanhoto d'Almeirim
chacinado em um seirão.
DIABO Judeu, lá te passarão,
porque vão mais despejados.
PARVO E ele mijou nos finados
n'ergueja de São#Gião!

E comia a carne da panela
no dia de Nosso Senhor!
E aperta o salvador,
e mija na caravela!
DIABO Sus, sus! Demos à vela!
Vós, Judeu, irês à toa,
que sois mui ruim pessoa.
Levai o cabrão na trela!

vem um Corregedor, carregado de feitos, e, chegando à barca do Inferno, com sua vara na mão, diz:

CORREGEDOR Hou da barca!
DIABO Que quereis?
CORREGEDOR Está aqui o senhor juiz?
DIABO Oh amador de perdiz.
Gentil cárrega trazeis!
CORREGEDOR No meu ar conhecereis
que nom é ela do meu jeito.
DIABO Como vai lá o direito?
CORREGEDOR Nestes feitos o vereis.

DIABO Ora, pois, entrai. Veremos
que diz i nesse papel...
CORREGEDOR E onde vai o batel?
DIABO No Inferno vos poeremos.
CORREGEDOR Como? À terra dos demos
há-de ir um corregedor?
DIABO Santo descorregedor,
embarcai, e remaremos!

Ora, entrai, pois que viestes!
CORREGEDOR Non#est#de#regulae#juris, não!
DIABO Ita, Ita! Dai cá a mão!
Remaremos um remo destes.
Fazei conta que nacestes
pera nosso companheiro.
- Que fazes tu, barzoneiro?
Faze-lhe essa prancha prestes!

CORREGEDOR Oh! Renego da viagem
e de quem me há-de levar!
Há 'qui meirinho do mar?
DIABO Não há tal costumagem.
CORREGEDOR Nom entendo esta barcagem,
nem hoc#non#potest#esse.
DIABO Se ora vos parecesse
que nom sei mais que linguagem...

Entrai, entrai, corregedor!
CORREGEDOR Hou! Videtis#qui#petatis -
Super#jure#magestatis
tem vosso mando vigor?
DIABO Quando éreis ouvidor
nonne#accepistis#rapina?
Pois ireis pela bolina
onde nossa mercê for...

Oh! Que isca esse papel
pera um fogo que eu sei!
CORREGEDOR Domine,#memento#mei!
DIABO Non#est#tempus, bacharel!
Imbarquemini in batel
quia#judicastis#malitia.
CORREGEDOR Semper#ego#justitia
fecit, e bem por nivel.

DIABO E as peitas dos judeus
que a vossa mulher levava?
CORREGEDOR Isso eu não o tomava
eram lá percalços seus.
Nom som peccatus#meus,
peccavit#uxore#mea.
DIABO Et#vobis#quoque#cum#ea,
não temuistis#Deus.

A largo modo adquiristis
sanguinis#laboratorum
ignorantis#peccatorum.
Ut#quid#eos#non#audistis?
CORREGEDOR Vós, arrais, nonne#legistis
que o dar quebra os pinedos?
Os direitos estão quedos,
sed#aliquid#tradidistis...

DIABO Ora entrai, nos negros fados!
Ireis ao lago dos cães
e vereis os escrivães
como estão tão prosperados.
CORREGEDOR E na terra#dos#danados
estão os Evangelistas?Tanto que o Frade foi embarcado, veio üa Alcoviteira, per nome Brízida Vaz, a qual chegando à barca infernal, diz desta maneira:

BRÍZIDA Hou lá da barca, hou lá!
DIABO Quem chama?
BRÍZIDA Brízida Vaz.
DIABO E aguarda-me, rapaz?
Como nom vem ela já?
COMPANHEIRO Diz que nom há-de vir cá
sem Joana#de#Valdês.
DIABO Entrai vós, e remarês.
BRÍZIDA Nom quero eu entrar lá.

DIABO Que sabroso arrecear!
BRÍZIDA No é essa barca que eu cato.
DIABO E trazês vós muito fato?
BRÍZIDA O que me convém levar.
Día. Que é o que havês d'embarcar?
BRÍZIDA Seiscentos virgos postiços
e três arcas de feitiços
que nom podem mais levar.

Três almários de mentir,
e cinco cofres de enlheos,
e alguns furtos alheos,
assi em jóias de vestir,
guarda-roupa d'encobrir,
enfim - casa movediça;
um estrado de cortiça
com dous coxins d'encobrir.

A mor cárrega que é:
essas moças que vendia.
Daquestra mercadoria
trago eu muita, à bofé!
DIABO Ora ponde aqui o pé...
BRÍZIDA Hui! E eu vou pera o Paraíso!
DIABO E quem te dixe a ti isso?
BRÍZIDA Lá hei-de ir desta maré.

Eu sô üa mártela tal!...
Açoutes tenho levados
e tormentos suportados
que ninguém me foi igual.
Se fosse ò fogo infernal,
lá iria todo o mundo!
A estoutra barca, cá fundo,
me vou, que é mais real.

chegando à Barca da Glória diz ao Anjo:

Barqueiro mano, meus olhos,
prancha a Brísida Vaz.
ANJO: Eu não sei quem te cá traz...
BRÍZIDA Peço-vo-lo de giolhos!
Cuidais que trago piolhos,
anjo de Deos, minha rosa?
Eu sô aquela preciosa
que dava as moças a molhos,

a que criava as meninas
pera os cónegos da Sé...
Passai-me, por vossa fé,
meu amor, minhas boninas,
olho de perlinhas finas!
E eu som apostolada,
angelada e martelada,
e fiz cousas mui divinas.

Santa#Úrsula nom converteu
tantas cachopas como eu:
todas salvas polo meu
que nenhüa se perdeu.
E prouve Àquele do Céu
que todas acharam dono.
Cuidais que dormia eu sono?
Nem ponto se me perdeu!

ANJO Ora vai lá embarcar,
não estês importunando.
BRÍZIDA Pois estou-vos eu contando
o porque me haveis de levar.
ANJO Não cures de importunar,
que não podes vir aqui.
BRÍZIDA E que má-hora eu servi,
pois não me há-de aproveitar!...

torna-se Brízida Vaz à Barca do Inferno, dizendo:

BRÍZIDA Hou barqueiros da má-hora,
que é da prancha, que eis me vou?
E já há muito que aqui estou,
e pareço mal cá de fora.
DIABO Ora entrai, minha senhora,
e sereis bem recebida;
se vivestes santa vida,
vós o sentirês agora...

tanto que Brízida Vaz se embarcou, veo um Judeu, com um bode às costas; e, chegando ao batel#dos#danados, diz:

JUDEU Que vai cá? Hou marinheiro!
DIABO Oh! Que má-hora vieste!...
JUDEU Cuj'é esta barca que preste?
DIABO Esta barca é do barqueiro.
JUDEU. Passai-me por meu dinheiro.
DIABO E o bode há cá de vir?
JUDEU Pois também o bode há-de vir.
DIABO Que escusado passageiro!

JUDEU Sem bode, como irei lá?
DIABO Nem eu nom passo cabrões.
JUDEU Eis aqui quatro tostões
e mais se vos pagará.
Por vida do Semifará
que me passeis o cabrão!
Querês mais outro tostão?
DIABO Nem tu nom hás-de vir cá.

JUDEU Porque nom irá o judeu
onde vai Brísida Vaz?
Ao senhor meirinho apraz?
Senhor meirinho, irei eu?
DIABO E o fidalgo, quem lhe deu...
JUDEU O mando, dizês, do batel?
Corregedor, coronel,
castigai este sandeu!

Azará, pedra miúda,
lodo, chanto, fogo, lenha,
caganeira que te venha!
Má corrença que te acuda!
Par el Deu, que te sacuda
coa beca nos focinhos!
Fazes burla dos meirinhos?
Dize, filho da cornuda!

PARVO Furtaste a chiba cabrão?
Parecês-me vós a mim
gafanhoto d'Almeirim
chacinado em um seirão.
DIABO Judeu, lá te passarão,
porque vão mais despejados.
PARVO E ele mijou nos finados
n'ergueja de São#Gião!

E comia a carne da panela
no dia de Nosso Senhor!
E aperta o salvador,
e mija na caravela!
DIABO Sus, sus! Demos à vela!
Vós, Judeu, irês à toa,
que sois mui ruim pessoa.
Levai o cabrão na trela!

vem um Corregedor, carregado de feitos, e, chegando à barca do Inferno, com sua vara na mão, diz:

CORREGEDOR Hou da barca!
DIABO Que quereis?
CORREGEDOR Está aqui o senhor juiz?
DIABO Oh amador de perdiz.
Gentil cárrega trazeis!
CORREGEDOR No meu ar conhecereis
que nom é ela do meu jeito.
DIABO Como vai lá o direito?
CORREGEDOR Nestes feitos o vereis.

DIABO Ora, pois, entrai. Veremos
que diz i nesse papel...
CORREGEDOR E onde vai o batel?
DIABO No Inferno vos poeremos.
CORREGEDOR Como? À terra dos demos
há-de ir um corregedor?
DIABO Santo descorregedor,
embarcai, e remaremos!

Ora, entrai, pois que viestes!
CORREGEDOR Non#est#de#regulae#juris, não!
DIABO Ita, Ita! Dai cá a mão!
Remaremos um remo destes.
Fazei conta que nacestes
pera nosso companheiro.
- Que fazes tu, barzoneiro?
Faze-lhe essa prancha prestes!

CORREGEDOR Oh! Renego da viagem
e de quem me há-de levar!
Há 'qui meirinho do mar?
DIABO Não há tal costumagem.
CORREGEDOR Nom entendo esta barcagem,
nem hoc#non#potest#esse.
DIABO Se ora vos parecesse
que nom sei mais que linguagem...

Entrai, entrai, corregedor!
CORREGEDOR Hou! Videtis#qui#petatis -
Super#jure#magestatis
tem vosso mando vigor?
DIABO Quando éreis ouvidor
nonne#accepistis#rapina?
Pois ireis pela bolina
onde nossa mercê for...

Oh! Que isca esse papel
pera um fogo que eu sei!
CORREGEDOR Domine,#memento#mei!
DIABO Non#est#tempus, bacharel!
Imbarquemini in batel
quia#judicastis#malitia.
CORREGEDOR Semper#ego#justitia
fecit, e bem por nivel.

DIABO E as peitas dos judeus
que a vossa mulher levava?
CORREGEDOR Isso eu não o tomava
eram lá percalços seus.
Nom som peccatus#meus,
peccavit#uxore#mea.
DIABO Et#vobis#quoque#cum#ea,
não temuistis#Deus.

A largo modo adquiristis
sanguinis#laboratorum
ignorantis#peccatorum.
Ut#quid#eos#non#audistis?
CORREGEDOR Vós, arrais, nonne#legistis
que o dar quebra os pinedos?
Os direitos estão quedos,
sed#aliquid#tradidistis...

DIABO Ora entrai, nos negros fados!
Ireis ao lago dos cães
e vereis os escrivães
como estão tão prosperados.
CORREGEDOR E na terra#dos#danados
estão os Evangelistas?


Poemas e Poesias Wednesday, 29 de June de 2022

ANFITRITE (POEMA DA PAULISTA FRANCISCA JÚLIA)

 

ANFITRITE

Francisca Júlia

 

Louco, às doudas, roncando, em látegos, ufano,
O vento o seu furor colérico passeia...
Enruga e torce o manto à prateada areia
Da praia, zune no ar, encarapela o oceano.

A seus uivos, o mar chora o seu pranto insano,
Grita, ulula, revolto, e o largo dorso arqueia;
Perdida ao longe, como um pássaro que anseia,
Alva e esguia, uma nau avança a todo o pano.

Sossega o vento; cala o oceano a sua mágoa;
Surge, esplêndida, e vem, envolta em áurea bruma,
Anfitrite, e, a sorrir, nadando à tona d'água,

Lá vai... mostrando à luz suas formas redondas,
Sua clara nudez salpicada de espuma,
Deslizando no glauco amículo das ondas.


Poemas e Poesias Tuesday, 28 de June de 2022

OLHOS D*ELE (POEMA DA PORTUGUESA FLORBELA ESPANCA)

OLHOS D'ELE

Florbela Espanca

 

 

 

Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa,
Pelo azul do ar. E assim fugiram
As minhas doces crenças de criança.

Eu digo sempre, embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!

Duma luz suavíssima de dor...
E grito então ao ver esses dois céus:

Que criou esse brilho que m’encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!


Poemas e Poesias Monday, 27 de June de 2022

POEMA (POEMA DO MARANHENSE FERREIRA GULLAR)

POEMA

Ferreira Gullar

 

 

Se morro 
universo se apaga como se apagam 
as coisas deste quarto 
se apago a lâmpada: 
os sapatos - da - ásia, as camisas 
e guerras na cadeira, o paletó - 
dos - andes, 
bilhões de quatrilhões de seres 
e de sóis 
morrem comigo. 

Ou não: 
o sol voltará a marcar 
este mesmo ponto do assoalho 
onde esteve meu pé; 
deste quarto 
ouvirás o barulho dos ônibus na rua; 
uma nova cidade 
surgirá de dentro desta 
como a árvore da árvore. 

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens 
a mesma história que eu leio, comovido.  

 

 

 


Poemas e Poesias Sunday, 26 de June de 2022

COMO A NOITE É LONGA (POEMA DO PORTUGUÊS FERNANDO PESSOA)

COMO A NOITE É LONGA

Fernando Pessoa

 

 

 

Como a noite é longa!

Toda a noite é assim...

Senta-te, ama, perto

Do leito onde esperto.

Vem pr'ao pé de mim...

 

Amei tanta coisa...

Hoje nada existe.

Aqui ao pé da cama

Canta-me, minha ama,

Uma canção triste.

 

Era uma princesa

Que amou... Já não sei...

Como estou esquecido!

Canta-me ao ouvido

E adormecerei...

 

Que é feito de tudo?

Que fiz eu de mim?

Deixa-me dormir,

Dormir a sorrir

E seja isto o fim.


Poemas e Poesias Saturday, 25 de June de 2022

PRIMEIRA COLINA (POEMA DO GAÚCHO FABRÍCIO CARPINEJAR)

PRIMEIRA COLINA

Fabrício Carpinejar

 

 

 

Reconheci a antigüidade do rosto
pela fumaça apressada do prado
— ela encorpava,
ardilosa,
uma cobra que endurece
o couro
na estocada da faca


Poemas e Poesias Friday, 24 de June de 2022

HÁ NOS TEUS OLHOS ESCUROS (POEMA DO FLUMINENSE EUCLIDES DA CUNHA)

HÁ NOS TEUS OLHOS ESCUROS

Euclides da Cunha

 

 

Há nos teus olhos escuros
Tantas centelhas, que ao vê-las
Penso na treva e nos brilhos
Das noites cheias de estrelas…
Penso em cousas singulares,
Indagando entre delírios:
Por que é que os céus inda brilham?
Por que não se apaga Sírius?


Poemas e Poesias Thursday, 23 de June de 2022

TROVAS HUMORÍSTICAS - 14 - (POEMA DO PARANAENSE ENO TEODORO WANKE)

TROVA HUMORÍSTICA 14

Eno Teodoro Wanke

 

Informo, com desprazer

Que chato é aquele infeliz

Que, nada tendo a dizer

Insistentemente dia


Poemas e Poesias Wednesday, 22 de June de 2022

O BEIJA-FLOR (POEMA DO CARIOCA DOM PEDRO II)

O BEIJA-FLOR

Dom Pedro II

 

 

O verde beija-flor, rei das colinas,
Vendo o rocio e o sol brilhante
Luzir no ninho, trança d'ervas finas,
Qual fresco raio vai-se pelo ar distante.

Rápido voa ao manancial vizinho,
Onde os bambus sussurram como o mar,
Onde o açoká rubro, em cheiros de carinho,
Abre, e eis no peito úmido a fuzilar.

Desce sobre a áurea flor a repousar,
E em rósea taça amor a inebriar,
E morre não sabendo se a pode esgotar!

Em teus lábios tão puros, minha amada,
Tal minha alma quisera terminar,
Só do primeiro beijo perfumada!


Poemas e Poesias Tuesday, 21 de June de 2022

MEMENTO HOMO... (POEMA DO PIAUIENSE DA COSTA E SILVA)

MEMENTO HOMO...

Da Costa e Silva

 

 

Que somos nós? — Pulvis et umbra sumus. 
Horácio, o teu pentâmetro latino, 
No mais sábio e conciso dos resumos, 
Diz o que é a vida em face do destino. 

O Homem, vindo do pó, da lama, do húmus 
Que se transforma ao hálito divino, 
É sombra errante por incertos rumos, 
À mercê do seu próprio desatino. 

Por mais que à lei da morte se submeta, 
Lute e sofra, nem sempre se persuade 
De que a sua existência no planeta 

Não passa de uma sombra de vaidade, 
De um simples grão de areia na ampulheta 
Em que o tempo derrama a Eternidade.


Poemas e Poesias Monday, 20 de June de 2022

PLANGÊNCIA DA TARDE (POEMA DO CATARINENSE CRUZ E SOUSA)

PLANGÊNCIA DA TARDE

Cruz e Sousa

 

 

 

Quando do campo as prófugas ovelhas
Voltam a tarde, lépidas, balando
Com elas o pastor volta cantando
E fulge o ocaso em convulsões vermelhas.

Nos beirados das casas, sobre as telhas
Das andorinhas esvoaça o bando...
E o mar, tranqüilo, fica cintilando
Do sol que morre as últimas centelhas.

O azul dos montes vago na distância...
No bosque, no ar, a cândida fragrância
Dos aromas vitais que a tarde exala.

Às vezes, longe, solta, na esplanada,
A ovelha errante, tonta e desgarrada,
Perdida e triste pelos ermos bala...


Poemas e Poesias Sunday, 19 de June de 2022

OFERTAS DE ANINHA (POEMA DA GOIANA CORA CORALINA)

OFERTAS DE ANINHA

Cora Coralina

 

 

Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.

Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.

Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências do presente.

Aprendi que mais vale lutar
Do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar


Poemas e Poesias Saturday, 18 de June de 2022

LXXI (SONETOS) EU CANTEI, NÃO NEGO, EU ALGUM DIA (POEMA DO CARIOCA CLÁUDIO MANUEL DA COSTA)

LXXI (SONETOS)

EU CANTEI, NÃO NEgO, EM ALGUM DIA

Cláudio Manuel da Costa

 

 

 

Eu cantei, não o nego, eu algum dia
Cantei do injusto amor o vencimento;
Sem saber, que o veneno mais violento
Nas doces expressões falso encobria.

Que amor era benigno, eu persuadia
A qualquer coração de amor isento;
Inda agora de amor cantara atento,
Se lhe não conhecera a aleivosia.

Ninguém de amor se fie: agora canto
Somente os seus enganos; porque sinto,
Que me tem destinado estrago tanto.

De seu favor hoje as quimeras pinto:
Amor de uma alma é pesaroso encanto;
Amor de um coração é labirinto.


Poemas e Poesias Friday, 17 de June de 2022

EU E ELA (POEMA DO PORTUGUÊS CESÁRIO VERDE)

EU E ELA

Cesário Verde

 

 

 

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más idéias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiro,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavaleiro de Faublas...


Poemas e Poesias Thursday, 16 de June de 2022

NADADOR (POEMA DA CARIOCA CECÍLIA MEIRELES)

NADADOR

Cecília Meireles

 

 

 

O que me encanta é a linha alada
das tuas espáduas, e a curva
que descreves, passáro da água!

É a tua fina, ágil cintura,
e esse adeus da tua garganta
para cemitérios de espuma!

É a despedida, que me encanta,
quando te desprendes ao vento,
fiel à queda, rápida e branda

E apenas por estar prevendo,
longe, na eternidade da água,
sobreviver teu movimento...


Poemas e Poesias Tuesday, 14 de June de 2022

AO DOUS DE JULHO (POEMA DO BAIANO CASTRO ALVES)

AO DOUS DE JULHO

Castro Alves

 

 

 

Era no Dous de julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia...
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
"Neste lençol tão largo, tão extenso,
"Como um pedaço roto do infinito...
O mundo perguntava erguendo um grito:
"Qual dos gigantes morto rolará?!..."

Debruçados do céu... a noite e os astros
Seguiam da peleja o incerto fado...
Era a tocha — o fuzil avermelhado!
Era o Circo de Roma — o vasto chão!
Por palmas — o troar da artilharia
Por feras — os canhões negros rugiam!
Por atletas — dous povos se batiam!
Enorme anfiteatro — era a amplidão!

Não! Não eram dous povos, que abalavam
Naquele instante o solo ensanguentado...
Era o porvir — em frente do passado,
A Liberdade — em frente à Escravidão,
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso — contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva — e do clarão!...

No entanto a luta recrescia indômita...
As bandeiras — como águias eriçadas —
Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha,
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis...
...............................................
...............................................
Mas quando a branca estrela matutina
Surgiu do espaço... e as brisas forasteiras
No verde leque das gentis palmeiras
Foram cantar os hinos do arrebol,
Lá do campo deserto da batalha
Uma voz se elevou clara e divina:
Eras tu — Liberdade peregrina!
Esposa do porvir — noiva do sol!...

Eras tu que, com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra,
Livre sagravas a Colúmbia terra,
Sagravas livre a nova geração!
Tu que erguias, subida na pirâmide,
Formada pelos mortos do Cabrito,
Um pedaço de gládio — no infinito...
Um trapo de bandeira — n'amplidão!...


Poemas e Poesias Monday, 13 de June de 2022

PERDÃO! (POEMA DO FLUMINENSE CASIMIRO DE ABREU)
PERDÃO!
Casimiro de Abreu
 
 
 

I
Choraste?! - E a face mimosa
Perdeu as cores da rosa
E o seio todo tremeu?!
Choraste, pomba adorada?
E a lágrima cristalina
Banhou-te a face divina
E a bela fronte inspirada
Pálida e triste pendeu?!

Choraste?! - E longe não pude
Sorver-te a lágrima pura
Que banhou-te a formosura!
Ouvir-te a voz de alaúde
A lamentar-se sentida!
Humilde cair-te aos pés,
Oferecer-te esta vida
No sacrifício mais santo,
Para poupar esse pranto
Que te rolou sobre a tez!

Choraste?! - De envergonhada,
No teu pudor ofendida,
Porque minh'alma atrevida
No seu palácio de fada,
- No sonhar da fantasia -
Ardeu em loucos desejos,
Ousou cobrir-te de beijos
E quis manchar-te na orgia!

........................


II
Perdão p'r'o pobre demente
Culpado, sim, - inocente -
Que se te amou, foi demais!
Perdão p'ra mim que não pude
Calar a voz do alaúde,
Nem comprimir os meus ais!

Perdão oh! flor dos amores,
Se quis manchar-te os verdores,
Se quis tirar-te do hastil!
- Na voz que a paixão resume
Tentei sorver-te o perfume...
E fui covarde e fui vil!...

........................


III
Eu sei, devera sozinho
Sofrer comigo o tormento
E na dor do pensamento
Devorar essa agonia!
- Devera, sedento algoz,
Em vez de sonhos felizes,
Cortar no peito as raízes
Desse amor, e tão descrido
Dos hinos matar-lhe a voz!
- Devera, pobre fingido,
Tendo n'alma atroz desgosto,
Mostrar sorrisos no rosto,
Em vez de mágoas - prazer,
E mudo e triste e penando,
Como um perdido te amando,
Sentir, calar-me e - morrer!

 .......................


Não pude! - A mente fervia,
O coração trasbordava,
Interna voz me falava,
E louco ouvindo a harmonia
Que a alma continha em si,
Soltei na febre o meu canto
E do delírio no pranto
Morri de amores - por ti!

........................


IV
Perdão! se fui desvairado
Manchar-te a flor d'inocência
E do meu canto n'ardência
Ferir-te no coração!
- Será enorme o pecado,
Mas tremenda a expiação
Se me deres por sentença
Da tua alma a indiferença,
Do teu lábio a maldição!...

 


Poemas e Poesias Sunday, 12 de June de 2022

PARA FAZER UM SONETO (POEMA DO PERNAMBUCANO CARLOS PENA FILHO)

PARA FAZER UM SONETO

Carlos Pena Filho

 

 

 

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,

E espere pelo instante ocasional.

Nesse curto intervalo Deus prepara

e lhe oferta a palavra inicial.

 

Aí, adote uma atitude avara:

se você preferir a cor local,

não use mais que o sol de sua cara

e um pedaço de fundo de quintal.

 

Se não, procure a cinza e essa vagueza

das lembranças da infância , e não se apresse,

antes, deixe levá-lo a correnteza.

 

Mas ao chegar ao ponto em que se tece

dentro da escuridão a vã certeza,

ponha tudo de lado e então comece.

 


Poemas e Poesias Saturday, 11 de June de 2022

AS SEM-RAZÕES DO AMOR (POEMA DO MINEIRO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

AS SEM-RAZÕES DO AMOR

Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Poemas e Poesias Friday, 10 de June de 2022

SONETO 151 - DE UM TÃO FELICE ENGENHO, PRODUZIDO (POEMA DO PORTUGUÊS LUÍS DE CAMÕES)

DE UM TÃO FELICE ENGENHO, PRODUZIDO

Soneto 151

Luís de Camões

 

 

 

De um tão felice engenho, produzido
de outro, que o claro Sol não viu maior,
é trazer cousas altas no sentido,
todas dinas de espanto e de louvor.

Museu foi antiquíssimo escritor,
filósofo e poeta conhecido,
discípulo do Músico amador
que co som teve o Inferno suspendido.

Este pôde abalar o monte mudo,
cantando aquele mal, que eu já passei,
do mancebo de Abido mal sisudo.

Agora contam já (segundo achei),
Passo, e o nosso Boscão, que disse tudo
dos segredos que move o cego Rei.


Poemas e Poesias Thursday, 09 de June de 2022

POEMA À VIRGEM MARIA (POEMA OD ESPANHOL SÃO JOSÉ DE ANCHIETA, O *APÓSTOLO DO bRASIL*

Poema à Virgem Maria

São José de Anchieta

 

 

 comshalom
QUADRO DE BENEDITO CALIXTO RETRATA ANCHIETA ESCREVENDO POEMA (FOTO: DIVULGAÇÃO/MUSEU DE ANCHIETA)
 

São José de Anchieta, considerado o apóstolo do Brasil, canonizado pelo Papa Francisco em 3 de abril 2014. Enviado em missão para o Brasil antes de completar 20 anos, padre Anchieta é o maior expoente do grupo de jesuítas que deram a vida pela catequização dos índios e pela evangelização primordial do país.

Entre muitos episódios da vida dele, tornou-se conhecida sua prisão por cinco meses, quando esteve refém dos índios tamoios, em 1563. Durante esse período, escreveu nas areias da praia de Iperoig (hoje praia do Cruzeiro) um poema dedicado a Maria, com quase 5 mil versos.

Reze conosco o trecho do “Poema à Virgem Maria”, escrito por São José de Anchieta:

Ó doce chaga, que repara os corações feridos,
Abrindo larga estrada para o Coração de CRISTO.
Prova do novo amor que nos conduz a união! (Amai uns aos outros como EU vos amo)
Porto do mar que protege o barco de afundar!
Em TI todos se refugiam dos inimigos que ameaçam:
TU, SENHOR, és medicina presente a todo mal!
Quem se acabrunha em tristeza, em consolo se alegra:
A dor da tristeza coloca um fardo no coração!
Por Ti Mãe, o pecador está firme na esperança,
Caminhar para o Céu, lar da bem-aventurança!
Ó Morada de Paz! Canal de água sempre vivo,
Jorrando água para a vida eterna!
Esta ferida do peito, ó Mãe, é só Tua,
Somente Tu sofres com ela, só Tu a podes dar.
Dá-me acalentar neste peito aberto pela lança,
Para que possa viver no Coração do meu SENHOR!
Entrando no âmago amoroso da piedade Divina,
Este será meu repouso, a minha casa preferida.
No sangue jorrado redimi meus delitos,
E purifique com água a sujeira espiritual!
Embaixo deste teto (Céu) que é morada de todos,
Viver e morrer com prazer, este é o meu grande desejo.


Poemas e Poesias Wednesday, 08 de June de 2022

SONETO ASCOROSO (POEMA DO PORTUGUÊS MANUEL MARIA DU BOCAGE)

SONETO ASCOROSO

Bocage

 

 

 

Piolhos cria o cabelo mais dourado;
Branca remela o olho mais vistoso;
Pelo nariz do rosto mais formoso
O monco se divisa pendurado:
 
Pela boca do rosto mais corado
Hálito sai, às vezes bem ascoroso;
A mais nevada mão sempre é forçoso
Que de sua dona o cu tenha tocado:
 
Ao pé dele a melhor natura mora,
Que deitando no mês podre gordura,
Fétido mijo lança a qualquer hora.
 
Caga o cu mais alvo merda pura:
Pois se é isto o que tanto se namora,
Em ti, mijo, em ti cago, oh formosura!


Poemas e Poesias Tuesday, 07 de June de 2022

CEM TROVAS - 004 (POEMA DE BELMIRO BRAGA)

TROVA 004

Belmiro Braga

 

 

 

Quem, mesmo nas alegrias,
de lastimar não se furta
de ver tão longos os dias,
para uma vida tão curta?


Poemas e Poesias Monday, 06 de June de 2022

A ÁRVORE DA SERRA (POEMA DO CAPIXABA AUGUSTO DOS ANJOS)

 

A ÁRVORE DA SERRA

Augusto dos Anjos

 

 

 

As árvores, meu filho, não tem alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice mais calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma!...

- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:
"Não mate a árvore, pai, para que eu viva!"
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra.

 


Poemas e Poesias Saturday, 04 de June de 2022

FANTASIA (POEMA DO PAULISTA ÁLVARES DE AZEVEDO)

FANTASIA

Álvares de Azevedo

 

 

 

Quanti dolci pensier, quanto disio!
DANTE

C’est alors que ma voix
Murmure un nom tout bas... c’est alors que je vois
M’apparaître à demi, jeune, voluptueuse,
Sur ma couche penchée une femme amoureuse!
...........................................................................
Oh! toi que j’ai rêvée,
Femme à mes longs baisers si souvent enlevée,
Ne viendras-tu jamais? ......................................
CH. DOVALLE


À noite sonhei contigo...
E o sonho cruel maldigo
Que me deu tanta ventura.
Uma estrelinha que vaga
Em céu de inverno e se apaga
Faz a noite mais escura!

Eu sonhava que sentia
Tua voz que estremecia
Nos meus beijos se afogar!
Que teu rosto descorava
E teu seio palpitava
E eu te via a desmaiar!

Que eu te beijava tremendo,
Que teu rosto enfebrecendo
Desmaiava a palidez!
Tanto amor tua alma enchia
E tanto fogo morria
Dos olhos na languidez!

E depois... dos meus abraços,
Tu caíste, abrindo os braços,
Gélida, dos lábios meus...
Tu parecias dormir,
Mas debalde eu quis ouvir
O alento dos seios teus...

E uma voz, uma harmonia
No teu lábio que dormia
Desconhecida acordou,
Falava em tanta ventura,
Tantas notas de ternura
No meu peito derramou!

O soído harmonioso
Falava em noites de gozo
Como nunca eu as senti.
Tinha músicas suaves,
Como no canto das aves,
De manhã eu nunca ouvi!

Parecia que no peito
Nesse quebranto desfeito
Se esvaía o coração...
Que meu olhar se apagava,
Que minhas veias paravam
E eu morria de paixão...

E depois... num santuário
Junto do altar solitário
Perto de ti me senti,
Dormias junto de mim...
E um anjo nos disse assim:
"Pobres amantes, dormi!"

Tu eras inda mais bela...
O teu leito de donzela
Era coberto de flores...
Tua fronte empalecida,
Frouxa a pálpebra descida,
Meu Deus! que frio palor!...

Dei-te um beijo... despertaste,
Teus cabelos afastaste,
Fitando os olhos em mim...
Que doce olhar de ternura!
Eu só queria a ventura
De um olhar suave assim!

Eu dei-te um beijo, sorrindo
Tremeste os lábios abrindo,
Repousaste ao peito meu...
E senti nuvens cheirosas,
Ouvi liras suspirarem,
Rompeu-se a névoa... era o céu!

Caía chuva de flores
E luminosos vapores
Davam azulada luz...
E eu acordei... que delírio!
Eu sonho findo o martírio
E acordo pregado à cruz!


Poemas e Poesias Friday, 03 de June de 2022

BELEZA (POEMA DO PORTUGUÊS ALMEIDA GARRETT)

BELEZA

Almeida Garrett

 

 

 

Vem do amor a Beleza,
Como a luz vem da chama.
É lei da natureza:
Queres ser bela? - ama.

Formas de encantar,
Na tela o pincel
As pode pintar;
No bronze o buril
As sabe gravar;
E estátua gentil
Fazer o cinzel
Da pedra mais dura...
Mas Beleza é isso? - Não; só formosura.

Sorrindo entre dores
Ao filho que adora
Inda antes de o ver
- Qual sorri a aurora
Chorando nas flores
Que estão por nascer –
A mãe é a mais bela das obras de Deus.
Se ela ama! - O mais puro do fogo dos céus
Lhe ateia essa chama de luz cristalina:

É a luz divina
Que nunca mudou,
É luz... é a Beleza
Em toda a pureza
Que Deus a criou.


Poemas e Poesias Thursday, 02 de June de 2022

DESILUDIDO (POEMA DO GAÚCHO ALCEU WAMOSY)

DESILUDIDO

Alceu Wamosy

 

 

 

Por que te hás de aquecer ao sol dessa esperança
nova, que despontou na tua alma ingênua e crente?
Se ela é como sorriso em lábio de criança,
que se há de transformar em pranto, de repente...

A ventura completa, é céu que não se alcança,
mas que a gente vislumbra, além, perpetuamente:
esse céu mentiroso, é um céu que foge e avança,
se é maior ou menor a aspiração da gente.

Sê simples e sê bom, mas não julgues que um dia,
hás de o teu coração, repleto de alegria,
para sempre fechar, como quem fecha um cofre!

Crê que a desilusão é o sonho pelo avesso,
e que só se é feliz, dando-se o mesmo apreço
ao gozo que se goza, e à mágoa que se sofre!


Poemas e Poesias Wednesday, 01 de June de 2022

CINDO SENTIDOS (POEMA DO FLUMINENSE ALBERTO DE OLIVEIRA)

 

CINCO SENTIDOS

Alberto de Oliveira

 

 

Cinco sentidos são os cinco dedos
Com que o homem tacteia a escuridão,
Rodeado de sombras e segredos
De que busca, e não acha, a solução.

Mas decerto haverá mundos mais ledos
Onde outros seres, de maior visão,
Rompendo brumas, dissipando medos,
A treva finalmente vencerão.

E sendo sete as cores, e outros tantos
Os sons da escala, mas com mil matizes
Que prolongam seu eco e seus encantos,

Talvez nos seja um dia transmitido,
Por esses mundos fortes e felizes,
Um novo sexto e sétimo sentido!


Poemas e Poesias Tuesday, 31 de May de 2022

DEFINIÇÃO (POEMA DO MINEIRO AFFONSO ROMANO DE SANT8ANNA)

DEFINIÇÃO

Affonso Romano de Sant'Anna

 

 

 

O corpo é onde
é carne:

o corpo é onde
há carne
e o sangue
é alarme.

O corpo é onde
é chama:

o corpo é onde
há chama
e a brasa
inflama.

O corpo é onde
é luta:

o corpo é onde
há luta
e o sangue
exulta.

O corpo é onde
é cal:

o corpo é onde
há cal
e a dor
é sal.

O corpo
é onde
e a vida
é quando.


Poemas e Poesias Monday, 30 de May de 2022

IMPRESSIONISTA (POEMA DA MINEIRA ADÉLIA PRADO)

IMPRESSIONISTA

Adélia Prado

 

 

 

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.


Poemas e Poesias Sunday, 29 de May de 2022

PATRIMÔIO (POEMA DA CARIOCA ADALGISA NERY)

PATRIMÔNIO

Adalgisa Nery

 

 

 

Pesam nos meus ossos
Os meus pensamentos,
Choram nos meus olhos
As visões neles crescidas,
Soluçam no torpor das minhas carnes
Ancestrais desalentos.

Sangram os meus pés
Na inútil andança
Da imaginação liberta,
Pulveriza o meu espírito
A solidão do suicida ignorado
E cresce assustadoramente dentro de mim
A calmaria que precede o fim.


Poemas e Poesias Saturday, 28 de May de 2022

A LEGIÃO DOS ÚRIAS (POEMA DO CARIOCA VINÍCIUSDE MORAES)

 A LEGIÃO DOS ÚRIAS

Vinícius de Moraes

 

 

 

Quando a meia-noite surge nas estradas vertiginosas das montanhas
Uns após outros, beirando os grotões enluarados sobre cavalos lívidos
Passam olhos brilhantes de rostos invisíveis na noite
Que fixam o vento gelado sem estremecimento.

São os prisioneiros da Lua. Às vezes, se a tempestade
Apaga no céu a languidez imóvel da grande princesa
Dizem os camponeses ouvir os uivos tétricos e distantes
Dos Cavaleiros Úrias que pingam sangue das partes amaldiçoadas.

São os escravos da Lua. Vieram também de ventres brancos e puros
Tiveram também olhos azuis e cachos louros sobre a fronte...
Mas um dia a grande princesa os fez enlouquecidos, e eles foram escurecendo
Em muitos ventres que eram também brancos mas que eram impuros.

E desde então nas noites claras eles aparecem
Sobre cavalos lívidos que conhecem todos os caminhos
E vão pelas fazendas arrancando o sexo das meninas e das mães sozinhas
E das éguas e das vacas que dormem afastadas dos machos fortes.

Aos olhos das velhas paralíticas murchadas que esperam a morte noturna
Eles descobrem solenemente as netas e as filhas deliquescentes
E com garras fortes arrancam do último pano os nervos flácidos e abertos
Que em suas unhas agudas vivem ainda longas palpitações de sangue.

Depois amontoam a presa sangrenta sob a luz pálida da deusa
E acendem fogueiras brancas de onde se erguem chamas desconhecidas e fumos
Que vão ferir as narinas trêmulas dos adolescentes adormecidos
Que acordam inquietos nas cidades sentindo náuseas e convulsões mornas.

E então, após colherem as vibrações de leitos fremindo distantes
E os rinchos de animais seminando no solo endurecido
Eles erguem cantos à grande princesa crispada no alto
E voltam silenciosos para as regiões selvagens onde vagam.

Volta a Legião dos Úrias pelos caminhos enluarados
Uns após outros, somente os olhos, negros sobre cavalos lívidos
Deles foge o abutre que conhece todas as carniças
E a hiena que já provou de todos os cadáveres.

São eles que deixam dentro do espaço emocionado
O estranho fluido todo feito de plácidas lembranças
Que traz às donzelas imagens suaves de outras donzelas
E traz aos meninos figuras formosas de outros meninos.

São eles que fazem penetrar nos lares adormecidos
Onde o novilúnio tomba como um olhar desatinado
O incenso perturbador das rubras vísceras queimadas
Que traz à irmã o corpo mais forte da outra irmã.

São eles que abrem os olhos inexperientes e inquietos
Das crianças apenas lançadas no regaço do mundo
Para o sangue misterioso esquecido em panos amontoados
Onde ainda brilha o rubro olhar implacável da grande princesa.

Não há anátema para a Legião dos Cavaleiros Úrias
Passa o inevitável onde passam os Cavaleiros Úrias
Por que a fatalidade dos Cavaleiros Úrias?
Por que, por que os Cavaleiros Úrias?

Oh, se a tempestade boiasse eternamente no céu trágico
Oh, se fossem apagados os raios da louca estéril
Oh, se o sangue pingado do desespero dos Cavaleiros Úrias
Afogasse toda a região amaldiçoada!

Seria talvez belo — seria apenas o sofrimento do amor puro
Seria o pranto correndo dos olhos de todos os jovens
Mas a Legião dos Úrias está espiando a altura imóvel
Fechai as portas, fechai as janelas, fechai-vos, meninas!

Eles virão, uns após outros, os olhos brilhando no escuro
Fixando a lua gelada sem estremecimento
Chegarão os Úrias, beirando os grotões enluarados sobre cavalos lívidos
Quando a meia-noite surgir nas estradas vertiginosas das montanhas.


Poemas e Poesias Friday, 27 de May de 2022

MARINHA (POEMA DO PAULISTA VICENTE DE CARVALHO)

MARINHA

Vicente de Carvalho

 

 

 

Eis o tempo feliz das pescarias — quando
Maio aponta a sorrir pela boca das flores.
Derramam-se na praia as gaivotas em bando...
Alerta, pescadores!

Crepusculeja ainda a aurora, mas quem pesca
Deve esperar o dia entre as ondas — enquanto
Sopra enfunando a vela a matutina fresca
E o sol não queima tanto.

Mulheres, fazei fogo! Ao alcance do braço,
Mesmo à porta do rancho a maré pôs a lenha.
Aprontai o café! Vibra já pelo espaço
A buzina roufenha.

Peixe na costa! O aviso erra de frágua em frágua,
Chama de rancho em rancho os pescadores. Eia!
As canoas estão ainda fora d'água
Encalhadas na areia:

Prestes, descei-as! Ide apanhar às estacas
A rede. Ide-a colhendo às pressas; colocai-a
Na canoa. Descendo agora nas ressacas,
Isso, fora da praia!

E é remar, é remar para o largo... As crianças
E as mulheres, em terra, esperam aguentando
O cabo que por sobre o azul das ondas mansas
A rede vai largando...


Poemas e Poesias Thursday, 26 de May de 2022

LET*S PLAY THAT (POEMA DO PIAUIENSE TORQUATO NETO)

LET'S PLAY THAT

Torquato Neto

 

 

 

quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião

eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let's play that

 


Poemas e Poesias Wednesday, 25 de May de 2022

A VIDA VERDADEIRA (POEMA DO AMAZONENSE THIAGO DE MELLO)

A VIDA VERDADEIRA

Thiago de Mello

 

 

 

Pois aqui está a minha vida.
Pronta para ser usada.
 
Vida que não se guarda
nem se esquiva, assustada.
Vida sempre a serviço da vida.
Para servir ao que vale
a pena e o preço do amor.
 
Ainda que o gesto me doa,
não encolho a mão: avanço
levando um ramo de sol.
Mesmo enrolada de pó,
dentro da noite mais fria,
a vida que vai comigo é fogo:
está sempre acesa.
 
Vem da terra dos barrancos
o jeito doce e violento
da minha vida: esse gosto
da água negra transparente.
A vida vai no meu peito,
mas é quem vai me levando:
tição ardente velando,
girassol na escuridão.
 
Carrego um grito que cresce
cada vez mais na garganta,
cravando seu travo triste
na verdade do meu canto.
 
Canto molhado e barrento
de menino do Amazonas
que viu a vida crescer
nos centros da terra firme.
Que sabe a vinda da chuva
pelo estremecer dos verdes
e sabe ler os recados
que chegam na asa do vento.
Mas sabe também o tempo
da febre e o gosto da fome.
 
Nas águas da minha infância
perdi o medo entre os rebojos.
Por isso avanço cantando.
 
Estou no centro do rio,
estou no meio da praça.
Piso firme no meu chão,
sei que estou no meu lugar,
como a panela no fogo
e a estrela na escuridão.
 
O que passou não conta?
indagarão as bocas desprovidas.
Não deixa de valer nunca.
O que passou ensina
com sua garra e seu mel.
Por isso é que agora vou assim
no meu caminho.
Publicamente andando.
 
Não, não tenho caminho novo.
O que tenho de novo
é o jeito de caminhar.
Aprendi (o caminho me ensinou)
a caminhar cantando
como convém a mim
e aos que vão comigo.
Pois já não vou mais sozinho.
 
Aqui tenho a minha vida:
feita à imagem do menino
que continua varando
os campos gerais
e que reparte o seu canto
como o seu avô
repartia o cacau
e fazia da colheita
uma ilha de bom socorro.
 
Feita à imagem do menino
mas à semelhança do homem:
com tudo que ele tem de primavera
de valente esperança e rebeldia.
 
Vida, casa encantada,
onde moro e mora em mim,
te quero assim verdadeira
cheirando a manga e jasmim.
Que me sejas deslumbrada
como ternura de moça
rolando sobre o capim.
 
Vida, toalha limpa,
vida posta na mesa,
vida brasa vigilante
vida pedra e espuma,
alçapão de amapolas,
o sol dentro do mar,
estrume e rosa do amor:
a vida.
 
Há que merecê-la.

Poemas e Poesias Tuesday, 24 de May de 2022

CANTO SEGUNDO (POEMA DO MARANHENSE SOUSÂNDRADE)

 

CANTO SEGUNDO

Sousândrade

 

c

 

Opalescem os céus — clarões de prata —
Beatífica luz pelo ar mimoso
Dos nimbos d'alva exala-se, tão grata
Acariciando o coração gostoso!

Oh! doce enlevo! oh! bem-aventurança!
Paradíseas manhãs! riso dos céus!
Inocência do amor e da esperança
Da natureza estremecida em Deus!

Visão celeste! angélica encarnada
Co'a nitente umidez d'ombros de leite,
Onde encontra amor brando, almo deleite,
E da infância do tempo a hora foi nada!

A claridade aumenta, a onda desliza,
Cintila co'o mais puro luzimento;
De púrpura, de ouro, a c'roa se matiza
Do tropical formoso firmamento!

Qual um vaso de fina porcelana
Que de através o sol alumiasse,
Qual os relevos da pintura indiana
É o oriente do dia quando nasce.

Uma por uma todas se apagaram
As estrelas, tamanhas e tão vivas,
Qual os olhos que lânguidas cativas,
Mal nutridas de amores, abaixaram.

Aclaram-se as encostas viridantes,
A espreguiçar-se a palma soberana;
Remonta a Deus a vida, à origem d'antes,
Amiga e matinal, donde dimana.

Acorda a terra; as flores da alegria
Abrem, fazem do leito de seus ramos
Sua glória infantil; alcion em clamos
Passa cantando sobre o cedro ao dia

Lindas loas boiantes; o selvagem
Cala-se, evoca doutro tempo um sonho,
E curva a fronte... Deus, como é tristonho
Seu vulto sem porvir em pé na margem!

Talvez a amante, a filha haja descido,
Qual esse tronco, para sempre o rio —
Ele abana a cabeça co'o sombrio
Riso do íris da noite entristecido.

 


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