VOU VORTÁ (POEMA DO CEARENSE PATATIVA DO ASSARÉ)

VOU VORTÁ
Patativa do Assaré
VOU VORTÁ PRO MEU SERTÃO
NÃO POSSO ME ACOSTUMÁ
COM O GRANDE REBOLIÇO
DAS RUA DA CAPITÁ.
VEM UM CARRO EM MINHA FRENTE
E DEPRESSA, DE REPENTE,
JÁ VEM OUTRO POR DETRÁS.
É UMA COISA SEM SOMA,
O FÔRGO QUE A GENTE TOMA
É SÓ CATINGA DE GÁS.
VOU VORTÁ PRO MEU SERTÃO,
EU NÃO ME ACOSTUMO AQUI.
VOU VIVÊ NO MEU CANTINHO,
LÁ PERTO DO CARIRI.
VOU VÊ A MINHA PALOÇA,
MINHA MUIÉ, MINHA ROÇA,
QUE EU VIVO É DO MEU TRABAIO,
É DA MINHA PRANTAÇÃO,
E DIZ UM VÉIO RIFRÃO:
- CADA MACACO EM SEU GAIO.
JÁ TOU COM MUNTA SODADE
LÁ DAS MINHA CAPOÊRA,
DO MEU CAVALO PEITICA
E DA VACA LAVADÊRA
DE ZEFA, MINHA MUIÉ,
DE JOÃO, DE CHICO E JOSÉ,
E DE TUDO, FINALMENTE.
VOSSIMINCÉIS NÃO CONHECE
O TANTO QUE SE PADECE
LONGE DE CASA DA GENTE.
DÊRNE QUE EU SAÍ DE CASA
NUNCA MAIS COMI PIRÃO
MEXIDO EM PRATO DE BARRO,
COMO SE FAZ NO SERTÃO.
EU POR AQUI NÃO ME APRUMO,
EU MORRO E NÃO ME ACOSTUMO
COM COMIDA DE PENSÃO,
QUE POR MAIS QUE EU FAÇA A ESCÔIA,
SÓ VEJO É FÔIA E MAIS FÔIA,
E EU NÃO SOU LAGARTA, NÃO!
EU NÃO GOSTEI DO REJUME
DA VIDA DA CAPITÁ,
EU AQUI SÓ GOSTEI MUNTO
DO MÁ, DESTE GRANDE MÁ.
QUE POÇO D'ÁGUA, PAI D'ÉGUA!
ELE TEM LÉGUA E MAIS LÉGUA,
A GENTE SÓ SABE É VENDO,
VEVE A RONCÁ COM ORGÚIO,
DE LONGE SE OICE O BARÚIO
DAS ÁGUA SE ARREMEXENDO.
AQUILO É QUE SÊ BONITO,
EITA, MAZÃO COLOSSÁ!
NÃO GOZA NADA DA VIDA
QUEM MORRE SEM VÊ O MÁ.
EU ATARENTADO FICO
DE VÊ AQUELE FUXICO,
A ZOADA DA MARÉ,
AQUELA GRANDE PELEJA
O MÁ TEM UM QUÉ QUE SEJA
QUE SÓ DEUS SABE O QUE É.
VI O MÁ, VORTO CONTENTE,
A VIAGEM NÃO PERDI,
ELE FAZ EU ME ALEMBRÁ
LÁ DOS CAMPO ONDE NASCI
VENDO AS VERDURA DAS ÁGUA,
UMA SODADE, UMA MÁGUA
DENTRO DO MEU CORAÇÃO
COMO PREACA FUROU.
ESSA ÁGUA TEM A CÔ
DAS MATA DO MEU SERTÃO.
EU GOSTEI MUNTO DO MÁ,
VOU VORTÁ MUNTO SODOSO,
E TOU CERTO QUE ELE É GRANDE,
É BONITO E É PERIGOSO
E MAIS PERIGOSO FICA
QUANDO SE ENCÓI E SE ESTICA
NAQUELE CONSTANTE JOGO,
TODO INQUIETO E RENITENTE
PARECE UM CABRA VALENTE
QUANDO TÁ PUXANDO FOGO.
EU INTÉ PEÇO DESCURPA
DA MINHA COMPARAÇÃO.
MAS ELE TEM AS LEVADA
DE UM CABOCO VALENTÃO,
APOIS TEM ARGUMAS HORA
QUE O MÁ SE JOGA PRA FORA,
ESCUMA, PINOTA E BERRA,
TODO RAIVOSO E AFOBADO,
RONCANDO DESESPERADO,
QUERENDO ENGULI A TERRA.
É O GRANDE AÇUDE DE DEUS,
TÃO GRANDE QUE FAZ ESPANTO,
QUE MÊRMO SEM TÊ PAREDE,
NUNCA SAI DAQUELE CANTO.
É ALI FIRME E SEGURO.
EU INTÉ GARANTO E JURO
COMO A TÁ DE INSPETORIA
NÃO FAZ UM DAQUELE JEITO,
E DEUS TARVEZ TENHA FEITO
EM MENO DE MEIO DIA.
DEUS É GRANDE, É PODEROSO,
É O MESTRE DA SANTA PAZ,
FEZ TANTAS COISA NO MUNDO
QUE OS HOME MORRE E NÃO FAZ,
PELEJA, MAS NEM IMITA,
E O MÁ É DAS MAIS BONITA,
DAS BELEZA QUE DEUS FEZ,
SE EU NÃO MORRÊ BREVEMENTE,
EU VORTO CÁ NOVAMENTE
PRA VÊ O MÁ ÔTA VEZ...