Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 19 de outubro de 2019

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS - 19.10.19

 

 

GRANDE MOTES, GRANDES GLOSAS

Moacir Laurentino e Sebastião da Silva glosando o mote:

Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Sebastião da Silva:

Outro mote bonito aqui está,
Vem falando de crise e sequidão
E nessa seca que há no meu sertão,
Piauí, Pernambuco, Ceará,
Não se ouve o cantar do sabiá,
Do canário de crista da campina,
E a cigarra também não faz buzina,
Não tem ave do campo mais cantando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Moacir Laurentino:

Essa dura e cruel situação,
Da maneira que muita gente está
Paraíba, Sergipe e Ceará,
Rio Grande, Alagoas, Maranhão,
Tá despida toda vegetação,
Não tem mais folha verde na campina,
Essa seca cruel e assassina,
Com sol quente que vêm lhe sapecando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Sebastião da Silva:

Na fogueira tremenda do verão,
No sertão está tudo esturricado,
Está magra a criação de gado,
Está morta a nossa plantação,
Acabou-se a nossa produção,
Que a seca pra nós é assassina,
Eu espero uma luz da mão divina,
Que só DEUS é quem pode estar ajudando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Moacir Laurentino:

No sertão é um grande desafio,
Não tem pássaro mais cantando na mata,
Não tem água descendo na cascata,
Está seco do jeito de um pavio,
Falta água em represa lá do rio,
Não tem água de fonte cristalina,
O problema da seca contamina,
E o fantasma da fome rodeando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Sebastião da Silva:

Paraíba que é tão rica e boa
Tá passando a maior dificuldade,
Está seco em Mari e Soledade,
Cajazeiras, Pombal e João Pessoa,
Não caiu mais no chão uma garoa,
Nem em Patos, Teixeira nem Campina,
Só no vale da linda Petrolina
É que a água ainda está passando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Moacir Laurentino:

O sertão vive hoje nu e cru,
Sertanejo não tem mais vez nem voz,
Está seco demais o nosso Orós,
Onde passa tristonho o boi zebu,
Vi a seca perversa em Iguatu,
Aveloz, Castanhal, Araripina,
Até mesmo o espaço de Campina
Não tem nuvem pesada desfiando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Sebastião da Silva:

Nosso povo padece, sofre tanto,
E pra que venha uma chuva pra o sertão,
Muita gente inda faz uma oração,
Inda reza uma prece no recanto,
Inda faz a promessa e rouba santo,
Para ver se essa seca se termina,
Mas a seca é cruel e assassina,
Cada dia, ela vai contagiando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Moacir Laurentino:

No sertão só tem nuvem de poeira,
“redemoinho” por toda tardezinha,
Não tem porco, guiné e nem galinha,
Pelo mato só tem muita caveira,
Vejo o povo matuto lá na feira,
Em cidade maior ou pequenina,
Um matuto se escora na esquina,
Com o outro tristonho lastimando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Sebastião da Silva:

É devido essa seca tão ruim,
Fica o povo enfrentando sofrimento,
Falta pasto pra o bode e pra o jumento,
Nosso gado não come mais capim,
Todo verde que tinha levou fim,
O saguim já não come mais resina,
Tem somente uma ave de rapina
E a fome no campo se alastrando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

* * *

Cícero Moraes glosando o mote

Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.

A suprema divindade
Caprichou no seu trabalho
Não deixou serviço falho
Fez com grandiosidade
Construiu com qualidade
Retocou com perfeição
Quem quiser diga que não
Mas afirmo com certeza
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.

Se a seca nos traz penar
Por vermos mata cinzenta
O sertanejo se aguenta
Sabe como se virar
Come o que tava a guardar
Derradeira produção
E o seu silo de feijão
É sua maior riqueza
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.

Quando chove em minha terra
A natureza se agita
Cria uma imagem bonita
Matuto o feijão enterra
Planta lá no pé da serra
Porque é de barro o chão
E ali, a produção
Será maior na grandeza
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.

Cobra, sapo e caçote
Aparecem na invernia
Eles não têm simpatia
Porque a cobra dá bote
Se correr ou der pinote
Ela pega à traição
Faz de sua refeição
O pequeno sem defesa
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.

Um céu bonito estrelado
Que não há noutro lugar
Quem observa o luar
Fica logo encantado
Um vaga-lume amostrado
Completa a orquestração
Da bela composição
Do quadro da natureza
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas segunda, 14 de outubro de 2019

A GENIALIDADE DE PINTO DO MONTEIRO

 

 

A GENIALIDADE DE PINTO DO MONTEIRO

O paraibano Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990)

* * *

 

A resposta de Pinto de Monteiro numa cantoria com João Furiba

João Furiba:

Cruzei o velho Saara
montado numa bicicleta.
Matei leão de tabefe,
Crivei serpente de seta.
Fiz das penas d’uma hiena
Um blusão pra minha neta.

Pinto do Monteiro:

João até que é bom poeta
Mas sabe ler bem pouquinho.
Vou fazer-lhe uma pergunta,
responda meu amiguinho :
– Quem diabo foi que te disse
que hiena é passarinho ?

* * *

O meu cavalo é dum jeito
Que nem o diabo aguenta,
Entra no mato fechado,
Toda madeira arrebenta,
Dá tapa em bunda de boi
Que a merda sai pela venta.

* * *

Lá no meio da caatinga,
Sem moradia vizinha
Bem na beira de um riacho
Um pé de palmeira tinha.
Meu avô, nesse lugar,
Começou a trabalhar
E chamar de Carnaubinha.
Parece que estou vendo
Um homem cortando cana;
Uma engenhoca moendo
Os três dias da semana.
Fazer cerca, queimar broca,
Raspar milho e mandioca,
Da massa, fazer farinha;
Comer com mel de engenho,
Ai, que saudades que eu tenho
Da minha Carnaubinha.

* * *

Ovo de pato e marreca
Quebrar na beira do poço,
Abrir milho, na boneca,
Pra ver se tinha caroço;
Ir pra beira da estrada
Jogar pedra e dar pancada
Em cabra, bode e suíno;
Em cachorro, pontapé,
Que isso tudo foi e é
Brincadeira de menino.

* * *

Mas essa estória de dente,
Para mim, nada adianta;
Eu não preciso de dente;
Eu quero é peito e garganta:
Pois sabiá não tem dente,
É quem mais bonito canta!

* * *

Eu sou Severino Pinto
Da Paraíba do Norte
Sou feio, porém sou bom
Sou magro, mas muito forte
Depois d’eu tomar destino
Temo a Deus não temo à morte.

* * *

Há vários dias que ando,
Com o satanás na corcunda:
Pois, hoje, almocei na casa
Duma negra tão imunda,
Que a prensa de espremer queijo
Era as bochechas da bunda!

* * *

Eu admiro o tatu
Com desenho no espinhaço
Que a natureza fez
Sem ter régua nem compasso
E eu com compasso e régua
Tenho planejado e não faço.

* * *

Esta palavra saudade
conheço desde criança
saudade de amor ausente
não é saudade, é lembrança
saudade só é saudade
quando morre a esperança.

* * *

Gostei muito de mulher
No meu tempo de rapaz
Mas depois que fiquei velho
A trouxa envergou pra trás
Sentou-se em cima dos ovos
Que a ponta encostou no ás.

* * *

Admiro o vagalume
Enxergando de mato a dentro
Com sua lanterna acesa
Sem se importar com o vento
Apaga de vez em quando
Poupando seus elementos.

(“elemento” no linguajar nordestino é pilha)

* * *

No tempo da mocidade
Eu também já fui vaqueiro.
Não tinha jurema grossa,
Mororó nem marmeleiro.
Fui cabra de vista boa,
Negro de corpo maneiro.

* * *

SEVERINO PINTO E LOURIVAL BATISTA

Uma cantoria improvisada de Meia-Quadra nos anos 70

Constante da coleção Música Popular do Nordeste, organizada por Marcus Pereira

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 05 de outubro de 2019

A GENIALIDADE DE JOÃO PARAIBANO

 

 

A GENIALIDADE DE JOÃO PARAIBANO

O grande poeta cantador João Pereira da Luz, o João Paraibano (1952-2014)

* * *

Muitas cenas são revistas
Na hora crepuscular
O bico de um peito cheio
Proíbe um pagão chorar
A casca do fruto racha
A voz do silêncio é baixa
Mas dá pra Deus escutar.

* * *

É bonito o matuto se firmar
Num galão carregando duas latas
Um cachorro sentar nas duas patas
Convidando o seu dono pra caçar
Uma gata na boca carregar
Um filhote que nasceu sem a visão
Quando a boca se cansa põe no chão
Mas o dente não fere a sua cria
Deus pintou o sertão de poesia
Meu orgulho é ser filho do sertão.

* * *

Branca, preta, pobre e rica,
toda mãe pra Deus é bela;
acho que a mãe merecia
dois corações dentro dela:
um pra sofrer pelos filhos;
outro pra bater por ela.

* * *

Ao passar em Afogados
diga a minha esposa bela
que derramei duas lágrimas
sentindo saudades dela
tive sede, bebi uma
e a outra guardei pra ela.

* * *

O sol diminui os raios
Depois que a tarde se fecha
O vento carrega a folha
Da galha de um pé de ameixa
Sai dando tabefe nela
Depois se aborrece e deixa.

* * *

Toda noite quando deito
um pesadelo me abraça
meu cabelo que era preto
está da cor da fumaça
ficou branco após os trinta
eu não quis gastar com tinta
o tempo pintou de graça.

* * *

Fiz capitão na bacia
de feijão verde e farinha
quando o angu tava feito
mãe saía da cozinha
subia em cima da cerca
dava um grito e papai vinha.

* * *

Ainda lembro do cheiro
que minha mãe dava n’eu
da cor da primeira nota
que meu padrinho me deu
eu não peguei com vergonha
papai foi quem recebeu.

* * *

Quem vive numa prisão
leva a vida no desprezo
pede uma esmola a quem passa
nas mãos um cigarro aceso
pernas do lado de fora
e o resto do corpo preso.

* * *

Meu passado foi assim
comendo juá banido
o vento dando empurrão
no lençol velho estendido
com tanta velocidade
que mudava a qualidade
que a tinta dava ao tecido.

* * *

Vou pro meu sertão antigo
pra ver tapera sem centro
ver minha mãe na cozinha
cortando cebola e coentro
botando um prato no pote
pra não cair mosca dentro.

* * *

MINHA INFÂNCIA

Minha infância foi na casa
De três janelas da frente
A cruz de palha na porta
Lata de flor no batente
Um jumento dando as horas
E um galo acordando a gente

Catei algodão de ganho
Matei preá na coivara
Levei queda de jumento
Derrubei enxu de vara
De vez enquanto uma abelha
Deixava um ferrão na cara

Rodei mais de um cata-vento
Feito de lata amassada
Pegava mosca na mão
Depois matava afogada
Presa num lençol de nata
De um caldeirão de coalhada

Até rolinha eu criava
Em gaiola de palito
Piei mocotó de cabra
Quebrei perna de cabrito
O meu passado na roça
Foi pobre mais foi bonito

Fiz capitão na bacia
De feijão verde e farinha
Quando o angu estava feito
Mãe saía da cozinha
Subia em cima da cerca
Dava um grito papai vinha

Vi em oco de cortiço
Abelha entrando e saindo
Me escondi por trás de cerca
Para ver vaca parindo
E roubei açúcar da lata
Quando mãe estava dormindo

Um cinto de couro cru
Pai nunca deixou de ter
Mais educou cinco filhos
Sem precisar de bater
Bastava um rabo de olho
Para a gente lhe obedecer.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas quinta, 03 de outubro de 2019

BALÉ RUSSO DE IGOR MOISEYEV, EXECUTANDO A DANÇA DE ZORBA

 

 

PEDRO MALTA – RIO DE JANEIRO-RJ

O balé russo, de Igor Moiseyev, executando a Dança de Zorba

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 28 de setembro de 2019

A GENIALIDADE DE MANOEL XUDU

 

 

A GENIALIDADE DE MANOEL XUDU

O paraibano Manoel Lourenço da Silva, o Manoel Xudu (1932-1985)

* * *

Analise o caju e a castanha,
São os dois pendurados num só cacho,
Bem unidos, um em cima, outro embaixo,
Porém tendo um do outro a forma estranha,
Dela, extrai o azeite, o sumo, a banha,
Dele, o suco pro vinho e o licor,
Quando ambos maduros mudam a cor
Ele fica amarelo e ela escura,
Mas o gosto dos dois não se mistura,
Quanto é grande o poder do Criador.

* * *

Dia 13 de março terça-feira
Ano mil novecentos trinta e dois
Pouco tempo depois que o sol se pôs
Mamãe dava gemidos na esteira
Numa casa de barro e de madeira
Muito humilde coberta de capim
Eu nasci pra viver sofrendo assim
Minha dor vem dos tempos de menino
Vivo triste por causa do destino
E a saudade correndo atrás de mim.

* * *

O mar se orgulha por ser vigoroso,
Forte, gigantesco que nada lhe imita
Se ergue, se abaixa, se move, se agita,
Parece um dragão feroz e raivoso.
É verde, azulado, sereno, espumoso;
Se espalha na terra, quer subir pro ar,
Se sacode todo, querendo voar,
Retumba, ribomba, peneira, balança,
Nem sangra, nem seca, nem para, nem cansa,
São esses fenômenos da beira do mar.

* * *

Não há tempestades e nem furacões,
Chuvada de pedra no bosque esquisito
Quedas de coriscos e meteorito
Tiros de granadas, obuses, canhões,
Juntando os ribombos de muitos trovões
Que tem pipocado na massa do ar
Cascata rugindo, serra a desabar,
Estrondo, ribombos, rumores de guerra,
Nuvens mareantes, tremores de terra
Que imitem a zoada na beira do mar.

* * *

Voei célere aos campos da certeza
E com os fluidos da paz banhei a mente
Pra falar do Senhor Onipotente
Criador da Suprema Natureza
Fez do céu reino vasto, onde a beleza
Edifica seu magno pedestal
Infinita mansão celestial
Onde Deus empunhou saber profundo
Pra sabermos nas curvas deste mundo
Que ele impera no trono divinal.

* * *

Os astros louros do céu encantador
Quando um nasce brilhando, outro se some
E cada astro brilhante tem um nome
Um tamanho, uma forma, brilho e cor
Lacrimosos vertendo resplendor
Como corpos de pérolas enfeitados
Entre tronos de plumas bem sentados
Vigiando as fortunas majestosas
Que Deus guarda nas torres luminosas
Que flutuam nos paramos azulados.

* * *

Quando eu segurei a tua mão
Foi achando que ela estava fria
Ela tava tão quente e tão macia
Igualmente um capucho de algodão
Vou mandar repartir meu coração
Pra fazer-te presente da metade
Pra gente ficar de igualdade
Tu me dá teu retrato eu dou o meu
O retrato me serve de museu
Pra eu guardar meu romance de saudade.

* * *

O nome da minha amada
Escrevi com emoção
Na palma da minha mão,
No cabo da minha enxada
No batente da calçada
E no fundo da bacia
Na casca de melancia
Mais grossa do meu roçado
Pode ir lá que tá gravado
O nome Ana Maria.

* * *

Eu admiro um caixão
Comprido como um navio
Em cima uma cruz de prata
No meio um defunto frio
E um cordão de São Francisco
Torcido como um pavio.

* * *

O homem que bem pensar
Não tira a vida de um grilo
A mata fica calada
O bosque fica intranquilo
A lua fica chorosa
Por não poder mais ouvi-lo.

* * *

Sou igualmente a pião
saindo de uma ponteira
que quando bate no chão
chega levanta a poeira
com tanta velocidade
que muda a cor da madeira.

* * *

Tristeza é a do peruzinho
Beliscando essa maniva
Correndo atrás da galinha
A sua mãe adotiva
Como quem está dizendo
Ah se mamãe fosse viva !

* * *

A mulher que eu casei
Além de linda é brejeira
Daquelas que vai à missa
No domingo e terça-feira
Das que faz uma sombrinha
Com um pé de carrapateira.

* * *

Estou como um penitente
Que não possui um barraco,
Dorme à-toa pela rua,
Um guabiru fura o saco,
Quando recebe uma esmola
Ela cai pelo buraco.

* * *

Judas pegou uma corda,
Morreu com ela enforcado,
Não estava arrependido,
Estava desesperado,
E o desespero da culpa
Nunca redime o pecado.

* * *

Com você canto apertado
Que só cobra de cipó.
Que, com três dias de fome,
Tenta engolir um mocó,
De tanto forçar a boca,
Finda estourando o gogó.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 21 de setembro de 2019

UM MOTE BEM ATUAL E UM POEMA DE PATATIVA DO ASSARÉ

 

 

UM MOTE BEM ATUAL E UM POEMA DE PATATIVA DO ASSARÉ

Poetas repentistas Sebastião da Silva e Valdir Teles glosando o mote:

Comparado aos bandidos de hoje em dia,
Lampião foi honesto até demais.

 

 

  • * **

Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré (1909-2002)

* * *

A MULHER QUE MAIS AMEI – Patativa do Assaré

Era um modelo perfeito
A mulher que mais amei,
Linda e simpática de um jeito
Que eu mesmo dizer não sei.
Era bela, muito bela;
Para comparar com ela,
Outra coisa eu não arranjo
E por isso tenho dito
Que se anjo é mesmo bonito,
Era o retrato dum anjo.

Sei que alguém não me acredita,
Mas eu digo com razão,
Foi a mulher mais bonita
De cima de nosso chão;
Era mesmo de encomenda
E do amor daquela prenda
Eu fui o merecedor,
Eu era mesmo sozinho
Dono de todo carinho
Daquele anjo encantador.

Era bem firme a donzela,
Só em mim vivia pensando.
Quando eu olhava ela,
Ela já estava me olhando.
Para a gente conversar
Quando eu não ia, ela vinha,
Um do outro sempre bem perto
Nosso amor dava tão certo
Quem nem faca na bainha.

E por sorte ou por capricho,
Eu tinha prata, ouro e cobre.
Dinheiro em mim era lixo
Em casa de gente pobre.
Nós nunca perdíamos ato
De cinema e de teatro
De drama e mais diversão,
Não faltava coisa alguma,
As notas eu tinha de ruma
Para nós andar de avião.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 14 de setembro de 2019

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS - 14.09.19

 

 

GRANDES MOTES, GRANDE GLOSAS

Anastácio e Zé Limeira, O Poeta do Absurdo, glosando dois motes.

Primeiro mote:

É lindo queimar-se as flores
No santo mês de Maria.

Anastácio

No mês de maio a novena
Tem grande veneração,
No Brejo, Agreste e Sertão
É muito honrada esta cena,
Rosedal, rosa e verbena
Se vê brotar todo dia…
O aroma que a rosa cria
Nos faz esquecer as dores…
É lindo queimar-se as flores
No santo mês de Maria.

Zé Limeira

Você pra mim é menino,
Queimo flor uma porção,
Boto fogo em barbatão
Cercado de arame fino.
No pagode do suíno,
Quando a poica grita e chia,
Corre Mané e Sufia
E até os agricultores…
É lindo queimar-se as flores
No santo mês de Maria.

* * *

Segundo mote:

Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.

Anastácio

Zé Limeira, você cuide em rezar
Que é preciso hoje aqui dar-lhe um surrote
Apresento as virtudes do meu dote
Para você aprender a me honrar:
Se você resolver me acompanhar,
Diga logo a esse povo que perdeu,
Um fantasma chegou, lhe interrompeu,
Atraiu sua voz, o verso e o peito…
Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.

Zé Limeira

Sou um nêgo um bocado esbagaçado ,
Sou o vatis das glória desta terra,
Sou a febre que chama berra-berra,
Mastigando eu sou cobra de veado,
Sou jumento pru fora do cercado,
Sou tabefe que dero em seu Lameu…
Se tivé bom guardado bote neu,
Seu caminho de bonde ruim, estreito…
Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.

Anastácio

Cantador sem origem, sem ciência,
Miserável, lebrento , pé de peia,
És miséria da guerra da Coréia,
Seu corrupto, ladrão da consciência.
Castigado da santa Providência,
Que não honra o que Cristo santo deu,
Foste tu, imbecil, o fariseu,
Quem é bom dizes tu que tem defeito…
Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.

Zé Limeira

Zé Limeira onde canta, todo mundo
Vai olhá bem de perto a sua orige,
Já cantei no sertão, no Céu da Virge
Sou doutô de meisinha , furibundo.
Viva o Reis, o Juiz, Pedro Segundo.
Sou a cobra que o boi nunca lambeu,
Sou tijolo da casa de Pompeu,
Peripécia da filha do Prefeito..
Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.

* * *

Zé Limeira e José Alves Sobrinho glosando o mote

Canta, canta, cantador,
Que teu destino é cantar.

Zé Limeira

Quando o carão tá cantando
É sinal que vem inverno,
Eu sou um nego moderno,
Foi não foi eu tô pensando.
Amanhã tô viajando
Pru sertão de Bogotá
Tico-tico no fubá,
Padre, juiz e doutor,
Canta, canta, cantador,
Que teu destino é cantar.

José Alves Sobrinho

Minha vida é esta cantiga,
Meu amor é esta viola…
Deus me botou nesta escola
Egrégia, sublime e antiga.
Se minha viola amiga,
Quiser um dia parar,
A dor não vou suportar
Porque ordena Nestor:
Canta, canta, cantador,
Que teu destino é cantar.

Zé Limeira

Numa berada de serra
Dom Pedro ficou de coca,
Começou tirá taboca
Do cabeceira da terra,
Veio a febre berra-berra
Pru dentro dum caçuá,
Comendo o tamanduá
Da filha do Promotor,
Canta, canta, cantador,
Que teu destino é cantar.

José Alves Sobrinho

Este tema deslumbrante
Que nos deu Nestor Rolim,
Despertou dentro de mim
Um sentimento gigante!
Por isso eu canto perante
O povo deste lugar,
Já fazendo despertar
A musa do sonhador..
Canta, canta, cantador,
Que teu destino é cantar.

Zé Limeira

Se apagou-se a lamparina
Prumode o vento assoprou,
Me adiscurpe, seu Nestor,
Caboco da Palestina.
Joguei minha lazarina
No tronco do jatobá,
Fiz Lampião avuá
Na baixa do corredor,
Canta, canta, cantador,
Que teu destino é cantar.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 07 de setembro de 2019

SEIS MESTRES DO IMPROVISO - 07.09.19

 

 

SEIS MESTRES DO IMPROVISO

UM GALOPE PARA O UMBUZEIRO – Júnior Guedes

Frondoso e bonito, o velho umbuzeiro
Que brotou das fendas abertas da terra.
Cresceu num aceiro do pé de uma serra
Passando agruras o tempo inteiro.
Foi ficando forte a cada janeiro,
Mudando a paisagem que tem no lugar.
Felizes daqueles que vem contemplar,
Seu verde, a sombra e sua doçura
O doce da fruta na forma mais pura
Que o puro da brisa que sobra do mar.

* * *

Arnaldo Pessoa

As flores do Pajeú
Eram os improvisadores
Muitos desapareceram
Mas deixaram sucessores
Eu sou o fruto mais novo
Da árvore dos cantadores.

* * *

Miro Pereira

O meu pai não tem estudo
Mamãe é analfabeta
Eu pouco fui à escola
Somente Deus me completa
Com esse sublime dom
De repentista e poeta.

* * *

Zé Fernandes

A seca seca primeiro
Os depósitos cristalinos
Depois seca as esperanças
De milhões de peregrinos
Mas bota enchente de lágrimas
Nos olhos dos nordestinos.

* * *
Adauto Ferreira Lima

Quando o sujeito envelhece
Quase tudo lhe embaraça
Convida a mulher pra cama
Agarra, beija e abraça
Porém só faz duas coisas:
Solta peido e acha graça.

* * *

Pedro Tenório de Lima
(Poeta analfabeto do sertão do Pajeú)

Me criei abraçando a agricultura
Já tô véi, a cabeça tá cinzenta
Pra onde vou é levando a ferramenta
E uma faca de doze na cintura
Minha boca lambendo rapadura
E meu almoço, um punhado de farinha
A merenda é um ovo de galinha
Namorei abraçando as raparigas
Me deitando por cima das formigas
Que uma cama bonita eu não tinha.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 31 de agosto de 2019

DUAS CANTORIAS DE EMBOLADA

 

 

DUAS CANTORIAS DE EMBOLADA

TEREZINHA E LINDALVA

 

 

* * *

LINDALVA E LAVANDEIRA DO NORTE NUM DESAFIO MALCRIADO

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 24 de agosto de 2019

MESTRES DO IMPROVISO

 

 

MESTRES DO IMPROVISO

Miro Pereira

O meu pai não tem estudo
Mamãe é analfabeta
Eu pouco fui à escola
Somente Deus me completa
Com esse sublime dom
De repentista e poeta.

Manoel Bentevi

Na vida ninguém confia
Em nada sem ter certeza
São obras da natureza
Tudo que a terra cria:
Gente, ave, bicharia,
Tudo começou assim.
O homem é quem é ruim
Nada bom ele planeja
Por muito forte que seja
A morte pega e dá fim.

Pinto do Monteiro

Pode entrar, seu Severino,
e me pagar, se puder.
Rico na casa do pobre
alguma coisa ele quer:
ou a sela, ou o cavalo,
ou a filha, ou a mulher.

Zé Galdino

Infância foi ilusão
Por quem por ela passou
A velhice é um museu
Que o tempo fabricou
Pra guardar as fantasias
Que a juventude deixou.

Paulo Robério

No Império D. Pedro prometeu
Vender todas as joias da Coroa
Socorrer no Nordeste a gente boa
Que na seca inclemente esmoreceu
Viajou pra Europa e esqueceu
De cumprir a promessa feita cá
Com banquete e luxúria gastou lá
Não mandou pro Nordeste um só “vintém”
Entra ano , sai ano e nada vem
E o Sertão continua ao Deus dará.

Moacir Laurentino

Acho bonito o inverno
Quando o rio está de nado
Que o sapo faz oi aqui
Outro oi do outro lado
Parece dois cantadores
Cantando mourão voltado.

Jacó Passarinho

Nossa Senhora, é Mãe Nossa,
Jesus Cristo é Nosso Pai!
Repente na minha boca
É tanto que sobra e cai.

Manoel Filó

No sertão tem uma aranha
De uma qualidade escassa
Que tapa a sua morada
Com lã da cor de fumaça
O tecido é tão perfeito
Que a chuva bate e não passa.

Gustavo Dourado

A educação é tudo:
Amplia o conhecimento
Faz do homem passarinho
No imenso firmamento
Nos conduz ao infinito…
Nas asas do pensamento…

Francisco Caetano

Meu dom é dado por Deus
Quando eu morrer ele fica
Eu sou pobre igual a Jó
Mas a minha rima é rica
Possui o gosto da fonte
Do olho d`água da bica

* * *

CEGO OLIVEIRA – NA PORTA DOS CABARÉS

 

 

CEGO OLIVEIRA – MINHA RABEQUINHA

 

 

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 17 de agosto de 2019

TRÊS MOTES E GLOSAS

 

 

TRÊS MOTES E GLOSAS

O grande poeta cantador paraibano Nonato Costa

* * *

Nonato Costa glosando o mote:

Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

Pra quem vai prestar contas a Jesus
Tem pra sempre gratuita uma morada
E como símbolo na porta de entrada
Tem o nome do dono numa cruz
Não tem conta de água nem de luz
Não precisa avalista ou corretor
E Deus perdoa seu saldo devedor
Quando o banco da vida abre falência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

Não existe desvio no caminho
Quando o cerco da morte está armado
Pelos súditos o rei vive cercado
Mas no dia que morre vai sozinho
Dos dois lados do túmulo tem vizinho
Mas não há um diálogo a se propor
E a caveira jamais vai recompor
A beleza que tinha a aparência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

O local é salgado pelo pranto
Dos que perdem seus entes mais queridos
Os irmãos, as esposas, os maridos
E os amigos que vão praquele canto
Condomínio fechado, campo santo
É pra lá que vai todo pecador
E ao entrar a balança do Senhor
Tira um peso da nossa consciência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

Empresário, princesa, vagabundo
Evangélico e ateu, homem ou mulher
Apesar de ser grátis ninguém quer
Nesta casa morar nenhum segundo
O portal que nos leva a outro mundo
Não exige função superior
E nem precisa RG que o emissor
Quando chama já sabe a referência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

Com chibanca ou enxada o homem faz
Esta casa sem planta e sem dinâmica
Onde o piso é sem pedra de cerâmica
E o seu teto sem lustres de cristais
Sem textura as paredes laterais
Sem contato com o mundo exterior
E uma hora qualquer seu construtor
Vai pra lá encerrar sua existência
Sepultura é a única residência
Que não cobra aluguel do morador.

* * *

Dedé Monteiro glosando o mote:

São os sons que ninguém pode esquecer
Se já foi residente no sertão.

O latido amistoso de um “jupi”,
Vira-lata raçudo sem ter raça,
Uma banda de pífanos na praça,
O penoso cartar da juriti,
Um boaito saindo do jequi
E um vaqueiro a pegá-lo pela mão,
O estrondo redondo do trovão
Avisando que em breve vai chover,
São os sons que ninguém pode esquecer
Se já foi residente no sertão.

* * *

Zé Silva glosando o mote

Mocidade é um vento passageiro
Beija a face da gente e vai embora.

Como é bom ser menino, ser criança,
Ter um mundo de sonhos, de ilusões,
Caminhar num caminho de emoções,
Aquecido no sol da esperança.
No entanto, esse tempo de bonança,
Como tudo que é bom, pouco demora.
Como a marcha dos anos me apavora
E a tudo transforma tão ligeiro!
Mocidade é um vento passageiro
Beija a face da gente e vai embora.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 10 de agosto de 2019

QUATRO MESTRES DO IMPROVISO E UM DOCUMENTÁRIO

 

 

QUATRO MESTRES DO IMPROVISO E UM DOCUMENTÁRIO

Sebastião Dias:

Das quatro e meia em diante,
Sinto de Deus o poder,
Um sopro espatifa as nuvens
Para o dia amanhecer,
Deus enfeita o firmamento
E a vassoura do vento
Varre o céu pra o sol nascer.

Otacílio Batista:

Nas brancas areias formosas da praia
Um homem com trinta e seis anos de idade
Chorava com pena dessa humanidade
Que tomba, desmaia, delira e fracassa
Usava um túnica da cor de cambraia
Seus olhos brilhavam sem pestanejar
Nenhuma sereia podia imitar
Sua voz de veludo a Deus dirigida
Eu sou o caminho, a verdade e a vida
Palavras de Cristo na beira do mar.

José Monte:

É bonito se olhar numa represa
A marreca puxando uma ninhada
Com um gesto de mãe tão dedicada
No encontro das águas da represa
Quanto é lindo o arrolho da burguesa
Num conserto de notas musicais
A lagarta com letras naturais
Numa folha escrever fazendo um cheque
E palmeira selvagem abrindo o leque
Espantando o calor que a tarde faz.

Manoel Xudu:

O mar se orgulha por ser vigoroso
Forte e gigantesco que nada lhe imita
Se ergue, se abaixa, se move se agita
Parece um dragão feroz e raivoso
É verde, azulado, sereno, espumoso
Se espalha na terra, quer subir pra o ar
Se sacode todo querendo voar
Retumba, ribomba, peneira e balança
Não sangra, não seca, não para e nem cansa
São esses os fenômenos da beira do mar.

O próprio coqueiro se sente orgulhoso
Porque nasce e cresce na beira da praia
No tronco a areia da cor de cambraia
Seu caule enrugado, nervudo e fibroso
Se o vento não sopra é silencioso
Nem sequer a fronde se vê balançar
Porém se o vento com força soprar
A fronde estremece perde toda calma
As folhas se agitam, tremem e batem palma
Pedindo silêncio na beira do mar

Não há tempestades e nem furacões
Chuvadas de pedras num bosque esquisito
Quedas coriscos ou aerólito
Tiros de granadas de obuses canhões
Juntando os ribombos de muitos trovões
Que tem pipocado na massa do ar
Cascata rugindo serra a desabar
Nuvens mareantes, tremores de terra
Estrondo de bombas, rumores de guerra
Que imite a zoada das águas do mar.

* * *

DESAFIOS – UM DOCUMENTÁRIO DA TV SENADO

O universo em torno dos cantadores e dos repentistas e a riqueza contida em suas memórias. O documentário reúne uma coletânea de histórias sobre os cantadores de viola nordestinos, homens de raciocínio rápido e língua afiada, que deixaram um rastro de poesia mundo afora.

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas domingo, 04 de agosto de 2019

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS E UM FOLHETO DE MENTIRAS

 

GRANDES MOTES, GRANDE GLOSAS E UM FOLHETO DE MENTIRAS

 

O cearense Geraldo Amâncio e o paraibano Severino Feitosa, dois dos maiores nomes da cantoria nordestina na atualidade

Geraldo Amâncio e Severino Feitosa glosando o mote:

Se eu fosse Jesus, o Nazareno,
não matava o poeta cantador.

Geraldo Amâncio

Vem Geraldo que eu tenho muita fé, 
me pediu que eu fizesse esses arranjos, 
conterrâneo de Augusto dos Anjos, 
que é nascido na terra de Sapé, 
vem dizer o poeta como é, 
é pra ele um eterno sonhador, 
um artista de invejável valor, 
comunica seu dom nesse terreno. 
Se eu fosse Jesus, o Nazareno, 
não matava o poeta cantador.

Severino Feitosa

Se eu tivesse o poder do soberano, 
não tirava da terra um Oliveira, 
um Geraldo, um Valdir e um Bandeira, 
Moacir, nem Raimundo Caetano, 
Sebastião nem João Paraibano, 
e muitos outros que têm tanto valor, 
não tirava a garganta de tenor 
de quem tem esse seu direito pleno. 
Se eu fosse Jesus, o Nazareno, 
não matava o poeta cantador.

Geraldo Amâncio

Sei que um carro virou numa ladeira, 
já passei para o mundo essa mensagem, 
pois eu ia também nessa viagem 
que a morte levou nosso Ferreira, 
eu me vi na viagem derradeira, 
eu gritei por sentir a grande dor, 
foi a morte que fez esse terror, 
de levar nosso astro, esse moreno. 
Se eu fosse Jesus, o Nazareno, 
não matava o poeta cantador.

Severino Feitosa

Se Xudu decantou o santo hino, 
da maneira que foi Zezé Lulu, 
não esqueço Louro do Pajeú, 
Rio Grande, recorda Severino, 
Pernambuco, também, José Faustino, 
que foi um repentista de valor, 
Paraíba não esquece Serrador 
e Santa Cruz não esquece de Heleno. 
Se eu fosse Jesus, o Nazareno, 
não matava o poeta cantador.

Geraldo Amâncio

Quem já foi Juvenal Evangelista, 
um encanto pra o nosso Ceará, 
mas morreu encostado ao Amapá 
e se encontra com os irmãos Batista, 
desse povo que tem na minha lista, 
Pinto velho pra mim foi um terror, 
eu não posso esquecer um Beija-Flor, 
e Pajeú inda lembra Zé Pequeno. 
Se eu fosse Jesus, o Nazareno, 
não matava o poeta cantador.

* * *

Roberto Macena e Zé Vicente glosando o mote:

Velhice, um prêmio divino
Que Deus oferece à gente

Roberto Macena

Eu perdi minha beleza,
Mas não vou fugir da ética.
Que eu mudei a minha estética
Por conta da natureza.
Mesmo assim, não há tristeza,
Que eu não fico decadente:
Tô mais é experiente
Que com isso, não amofino.
Velhice, um prêmio divino
Que Deus oferece à gente.

Zé Vicente

Vovô muito me encanta,
É meu verdadeiro mestre.
Morando em área silvestre,
Mas sempre me acalanta.
Se eu sofrer da garganta,
Ainda canto repente.
Meu avô estando presente,
Ele é meu otorrino.
Velhice, um prêmio divino
Que Deus oferece à gente.

Roberto Macena

Não adianta fazer prece
Nem usar agilidade,
Que, quando passa a idade,
Tudo de ruim acontece
O que é de nervo amolece,
Fica tudo diferente:
Dói a perna, dói o dente
E o cabra fica mofino.
Velhice é um prêmio divino
Que Deus oferece à gente.

* * *

Sebastião Dias e Zé Viola glosando o mote:

Existe um dicionário
Na mente do cantador

Sebastião Dias

Existe um Deus que controla
A mente de um repentista
Que nasceu pra ser artista
Do oitão da fazendola
É o homem da viola
Nascido no interior
Nem precisa professor
Pra ser extraordinário
Existe um dicionário
Na mente do cantador

Zé Viola

Acumulo cada ano
Cantando mares e terra
Paz, conflito, briga e guerra
Peixe, céu e oceano
A viola é o piano
O povo é meu instrutor
O palco me traz calor
E o cachê é meu salário
Existe um dicionário
Na mente do cantador

* * *

UM FOLHETO DE CORDEL DE EDMILSON GARCIA

UM CONTADOR DE MENTIRAS

Foi lá nos anos oitenta
Que conheci um senhor
Nas terras da Paraíba
Araruna, interior…..
Ele era conhecido
Como seu “Zé Nicanor”

Homem de vários ofícios
Foi vaqueiro, agricultor,
Político e viajante,
Palestrante e pescador
Arrancador de botija
E grande “conversador”

Nasceu, cresceu por ali
E ali se fez conhecido
Pra todos contava histórias
E todos lhe davam ouvido
Difícil era acreditar
Ou aguentar seu “muído”

Pois tinha um “defeitinho”
Que pretendo descrever
Tudo ele aumentava
Talvez pra se aparecer
Decorava tudo em mente
Pois não sabia escrever

Dizia ser viajado
Conhecia o Brasil inteiro
De Porto Alegre à Natal
Do Acre ao Rio de Janeiro
Morou em Serra Pelada
Mas não quis ser garimpeiro

Deitava na preguiçosa
Todo dia à tardesinha
Pra conversar com os amigos
E contar uma “mentirinha”
Loroteiro igual à ele
Em Araruna não tinha

 

Era gente muito boa
Dizendo à bem da verdade
Mas mentia por costume
Era uma barbaridade
Cada uma que contava
Estremecia a cidade

Me falou de uma brigada
Que uma vez ele deu
Na serra de dona Inês
Com um tal de Zebedeu
Bateu tanto no sujeito
Que o cabra quase morreu

Falou que em Guarabira
Num sábado dia de feira
Três cabras lhe ameaçaram
Cada um com uma peixeira
Tomou as facas dos cabras
Só na base da rasteira
1
Quando se empolgava mesmo,
Só falava em valentia
Não tinha medo de nada
Fazia e acontecia
Se tivesse quem escutasse
Aí é que ele mentia

Falava de Lampião
Que por sinal era “amigo”
Muitas vezes ao cangaceiro
Chegou a lhe dar abrigo
Contava e ainda dizia
Pode crer no que lhe digo

Viajou o Brasil todo
Representando o nordeste
Rasgava de norte a sul
Depois de leste à oeste
Dizia que era o autor
De “Tieta do Agreste”

Falava de pescaria
De caçada e de forró
Inventando e aumentando
Chega engrossava o gogó
Sequer ficava vermelho
E “sério” como ele só

Só pescava peixe grande
Com anzol feito de pau
Pegava boi sem cavalo
No meio do matagal
Ganhou primeiro lugar
Numa vaquejada em Natal

Na política de Araruna
Nunca perdeu eleição
Foi prefeito sete vezes
E louvado em cada gestão
Depois dele, é que vieram
Os Targino e Maranhão

Disse que na mocidade
Chegou à ser senador
Ganhou com um bilhão de votos
Foi aclamado em louvor
Dizia que era primo
De Dom Pedro “o imperador”

Ainda naquela época
Já usava um computador
Fabricado em Mata Velha
Por um tal de Agenor
O mesmo que fez a máquina
Pra fabricar isopor

Uma vez pegou um peixe
Que tinha fugido de um rio
Achou-o em cima da serra
Todo tremendo de frio
Falou que o peixe era “fêmea”
E que estava no cio

Contou que numa caçada
Atirou num gavião
Mas o chumbo se espalhou
E correu rasteiro no chão
Com o tiro matou um peba,
Um macaco e um carão

Ele, como pescador
Disse ser profissional
Uma vez fez pescaria
No açude do coqueiral
Pois lá, tem muita traíra
Tilápia e também pial

Jogou a tarrafa n’água
Escutou um barulhão
Quando ele puxou pra fora
Arrastou um tubarão
Pra levar o peixe pra casa
Precisou d’um caminhão

Mandou tirar um retrato
Bem de perto, “tela cheia”
Pra mostrar pra todo mundo
Que a história não era feia
Disse que somente a foto
Pesou uma arroba e meia

Teve a coragem de dizer
Uma vez sentado na praça
Que trocou cinco galinhas
Por um cachorro de caça
Depois deu o “vira lata”
Por dez garrotes de raça.

Me confessou que uma vez
Deu de cara com um leão
Ao lado da sua casa
Bem na beira do oitão
Quando o bicho lhe avistou
Já partiu pra agressão

Quando o felino avançou
Ele gritou: é agora!!!!!!
O bicho já quis fugir
Mas não deu pra ir embora
Deu-lhe um “tabefe” tão grande
Matou a fera na hora

Quando ia caçar onça
Nunca errava a “butada”
Quando pegava no tiro
Já trazia esquartejada
E quando pegava à laço
Trazia viva, amarrada

Amansava burro brabo
Montava e nunca caía
Pegava touro na mata
Ou qualquer rês que fugia
Capava jumento “à unha”
Tudo isso ele fazia

Acabou com os lobisomens
Que tinha na região
Só d’uma vez foram sete
Tudo sangrado à facão
Tirava o couro e vendia
Na feira de Riachão

E da vez que ele disse
Que saiu pra uma “farrada”
Namorou quatorze vezes
Isso, n’uma madrugada
Ali, eu me segurei
Pra não ter que dar rizada

Era amigo de Pelé
Desde a década de cinquenta
Jogaram juntos no México
Ganharam o tri em setenta,
Foi presidente da FIFA
La nos idos de quarenta

Uma vez fez um relato
Que fez esquentar o clima
Dizendo ter sido amigo
De um tal de Zé Fukushima
O fabricante da bomba
Que arrasou Hyroshima

Quando bebia uma caninha
Ficava meio arrojado
Falava que era rico
Tinha muita terra e gado
Comprava até capim seco
Só na base do fiado

Disse ter uma bicicleta
Que era movida à gás
Com farol, luz alta e baixa
E que corria demais
Uma noite, deu cem por hora
Que o clarão ficou pra traz

Andava muito de noite
Sem medo de assombração
Só procurando botija
Pra ajudar no ganha-pão
Uma vez arrancou uma
Que rendeu mais de um milhão

Uma vez numa conversa
Nessa eu estava presente
Na casa de Zé do Leite
Na frente de muita gente
Teve a coragem de dizer
Que o Papa era seu parente

Disse que a pedra da boca
Foi ele que descobriu
E a boca que tem na pedra
Ele mesmo esculpiu
Filmou e botou na “net”
E mostrou parao Brasil

Ainda dizia que nele,
Três coisas que dava ira
Era um bisaco furado,
Uma espingarda sem mira,
E um cabra velho barbado
Viver contando mentira

Mesmo sabendo que ali
Ninguém lhe acreditava
Todo dia e toda hora
Mentia porque gostava
Já eu, garanto e sustento
Que isso é só um por cento
Das coisas que ele contava.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 27 de julho de 2019

POEMAS DE PATATIVA DO ASSARÉ

 

 

POEMAS DE PATATIVA DO ASSARÉ

MINHA VIOLA

Minha viola querida,
Certa vez, na minha vida,
De alma triste e dolorida
Resolvi te abandonar.
Porém, sem as notas belas
De tuas cordas singelas,
Vi meu fardo de mazelas
Cada vez mais aumentar.

Vaguei sem achar encosto,
Correu-me o pranto no rosto,
O pesadelo, o desgosto,
E outros martírios sem fim
Me faziam, com surpresa,
Ingratidão, aspereza,
E o fantasma da tristeza
Chorava junto de mim.

Voltei desapercebido,
Sem ilusão, sem sentido,
Humilhado e arrependido,
Para te pedir perdão,
Pois tu és a joia santa
Que me prende, que me encanta
E aplaca a dor que quebranta
O trovador do sertão.

Sei que, com tua harmonia,
Não componho a fantasia
Da profunda poesia
Do poeta literato,
Porém, o verso na mente
Me brota constantemente,
Como as águas da nascente
Do pé da serra do Crato.

Viola, minha viola,
Minha verdadeira escola,
Que me ensina e me consola,
Neste mundo de meu Deus.
Se és a estrela do meu norte,
E o prazer da minha sorte,
Na hora da minha morte,
Como será nosso adeus?

Meu predileto instrumento,
Será grande o sofrimento,
Quando chegar o momento
De tudo se esvaecer,
Inspiração, verso e rima.
Irei viver lá em cima,
Tu ficas com tua prima,
Cá na terra, a padecer.

Porém, se na eternidade,
A gente tem liberdade
De também sentir saudade,
Será grande a minha dor,
Por saber que, nesta vida,
Minha viola querida
Há de passar constrangida
Às mãos de outro cantor.

***

MINHA SERRA

Quando o sol nascente se levanta
Espalhando os seus raios sobre a terra,
Entre a mata gentil da minha serra
Em cada galho um passarinho canta.

Que bela festa! Que alegria tanta!
E que poesia o verde campo encerra!
O novilho gaiteia a cabra berra
Tudo saudando a natureza santa.

Ante o concerto desta orquestra infinda
Que o Deus dos pobres ao serrano brinda,
Acompanhada da suave aragem.

Beijando a choça do feliz caipira,
Sinto brotar da minha rude lira
O tosco verso do cantor selvagem.

***

ARTE MATUTA

Eu nasci ouvindo os cantos
das aves de minha serra
e vendo os belos encantos
que a mata bonita encerra
foi ali que eu fui crescendo
fui vendo e fui aprendendo
no livro da natureza
onde Deus é mais visível
o coração mais sensível
e a vida tem mais pureza.

Sem poder fazer escolhas
de livro artificial
estudei nas lindas folhas
do meu livro natural
e, assim, longe da cidade
lendo nessa faculdade
que tem todos os sinais
com esses estudos meus
aprendi amar a Deus
na vida dos animais.

Quando canta o sabiá
Sem nunca ter tido estudo
eu vejo que Deus está
por dentro daquilo tudo
aquele pássaro amado
no seu gorjeio sagrado
nunca uma nota falhou
na sua canção amena
só canta o que Deus ordena
só diz o que Deus mandou.

* * *

O POETA DA ROÇA

Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chôpana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mío.

Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.

Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.

Meu verso rastêro, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.

Só canto o buliço da vida apertada,
Da lida pesada, das roça e dos eito.
E às vez, recordando a feliz mocidade,
Canto uma sodade que mora em meu peito.

Eu canto o cabôco com sua caçada,
Nas noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage
Topando as visage chamada caipora.

Eu canto o vaquêro vestido de côro,
Brigando com o tôro no mato fechado
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhando lugio do dono do gado.

Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão.

E assim, sem cobiça dos cofre luzente,
Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morando no campo, sem vê a cidade,
Cantando as verdade das coisa do Norte.

* * *


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 20 de julho de 2019

UM MOTE BEM GLOSADO E UMA CANTORIA

 

 

UM MOTE BEM GLOSADO E UMA CANTORIA

O cearense Geraldo Amâncio e o paraibano Severino Feitosa, dois dos maiores nomes da cantoria nordestina na atualidade

* * *

Geraldo Amâncio e Severino Feitosa glosando o mote:

Comigo o rojão é quente, 
canta quem souber cantar.

Geraldo Amâncio

Eu sei que você reclama, 
que é um repentista antigo, 
porém pra cantar comigo, 
acho pouco a sua fama, 
é muito bom pra o programa, 
pra todo mundo acordar, 
pra falar, pra conversar, 
mas é fraco pra o repente. 
Comigo o rojão é quente, 
canta quem souber cantar.

Severino Feitosa

Seus erros ninguém perdoa, 
porque você é pequeno, 
sua dose de veneno 
está pronta em João Pessoa, 
lhe afogo na lagoa, 
lhe jogo dentro do mar, 
e você morre sem voltar 
pra o Ceará novamente.
Comigo o rojão é quente, 
canta quem souber cantar.

Geraldo Amâncio

No gramado eu sou atleta, 
hoje aqui em João Pessoa, 
não faço cantiga à toa, 
a minha idéia é completa, 
eu prefiro outro poeta, 
com quem possa me ocupar, 
é perdido eu trabalhar 
com certo tipo de gente. 
Comigo o rojão é quente, 
canta quem souber cantar.

Severino Feitosa

Geraldo, você recita 
para a platéia achar graça, 
em todo canto que passa, 
tem a cantiga bonita, 
mas aqui onde visita, 
é meu reino, é meu lugar, 
você tem que respeitar, 
para ser independente. 
Comigo o rojão é quente, 
canta quem souber cantar.

Geraldo Amâncio

Muita coisa eu estou vendo 
e a platéia está notando, 
é Severino apanhando, 
pensando que está batendo, 
é um coitado sofrendo, 
eu sem querer judiar, 
quem se acostuma apanhar, 
morre na peia e não sente. 
Comigo o rojão é quente, 
canta quem souber cantar.

Severino Feitosa

Lhe falta a inspiração 
para seguir os meus passos, 
estou vendo os seus fracassos, 
se afracou nesse rojão, 
se eu lhe der um empurrão, 
a cabeça vai rodar, 
esse nariz vai parar 
da caixa prego pra frente. 
Comigo o rojão é quente, 
canta quem souber cantar.

Geraldo Amâncio

Não tem vez esse rapaz, 
quando está no meu caminho, 
ele é bem devagarinho, 
já não sabe o que é que faz, 
cinqüenta léguas pra trás, 
doido pra me acompanhar, 
se acaso você cansar, 
procure um toco e se sente. 
Comigo o rojão é quente, 
canta quem souber cantar.

Severino Feitosa

Sei nadar em qualquer rio, 
me criei nessa escola, 
no braço dessa viola, 
não aprendo cantar frio, 
me pediram o desafio, 
e eu quero lhe açoitar, 
já ouvi alguém gritar, 
Feitosa a cantiga esquente ! 
Comigo o rojão é quente, 
canta quem souber cantar.

Geraldo Amâncio

Nossa cantiga é assim, 
faz tempo que eu lhe conheço, 
eu sou manso no começo, 
que é para bater no fim, 
você diz que dá em mim, 
eu começo a duvidar, 
sabe o povo do lugar, 
tanto apanha como mente. 
Comigo o rojão é quente, 
canta quem souber cantar.

Severino Feitosa

Conheço o interior, 
que o colega foi nascido, 
se mete a ser atrevido, 
não passa de agitador, 
é pequeno cantador, 
a sua fama é vulgar 
quem de você apanhar, 
não sabe o que é repente. 
Comigo o rojão é quente, 
canta quem souber cantar.

Geraldo Amâncio

Eu uso a matéria prima, 
que nunca saiu à toa, 
agrada a qualquer pessoa, 
que de mim se aproxima, 
Sou a cascavel da rima,
quem vier me acompanhar, 
vou morder seu calcanhar 
e arranchar em seu batente. 
Comigo o rojão é quente, 
canta quem souber cantar.

* * *

A dupla Edmilson Ferreira e Antonio Lisboa improvisando com o mote:

Sou vaqueiro criado no sertão,
meu perfume é de casca de madeira

 

 

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 13 de julho de 2019

SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UMA CANTORIA

 

 

SEIS MESTRES DO IMPROVISO E UMA GRANDE CANTORIA

Diniz Vitorino

Qualquer dia do ano se eu puder
para o céu eu farei uma jornada
como a lua já está desvirginada
até posso tomá-la por mulher;
e se acaso São Jorge não quiser
eu tomo-lhe o cavalo que ele tem
e se a lua quiser me amar também
dou-lhe um beijo nas tranças do cabelo
deixo o santo com dor de cotovelo
sem cavalo, sem lua e sem ninguém.

* * *

Expedito de Mocinha

Eu nasci e me criei
Aqui nesse pé de serra
Sou filho nato da terra
Daqui nunca me ausentei
Estudei não me formei
Porque meu pai não podia
Jesus filho de Maria
De mim se compadeceu
E como presente me deu
Um crânio com poesia.

* * *

Firmo Batista

Um dia eu estava olhando
a serra Jabitacá
conheci que nela está
a natureza sonhando
o vento passa embalando
o corpo robusto dela
a nuvem cobrindo ela
pingos de orvalho descendo
e o Paraíba dizendo
a minha mãe é aquela.

* * *

Zé Limeira

Eu briguei com um cabra macho
Mas não sei o que se deu:
Eu entrei por dentro dele,
Ele entrou por dentro deu,
E num zuadão daquele
Não sei se eu era ele
Nem sei se ele era eu.

* * *

Marcos Passos

Aos primeiros sinais da invernada,
Logo após longo tempo de estiagem,
Lá da serra, do vale e da barragem
Escutamos os sons da trovoada.
Vislumbrando a campina esverdeada,
Sertanejo se anima igual criança.
Logo mais, quando o mato se balança
E um corisco atravessa o céu nublado,
Cai a chuva no colo do roçado,
Germinando o pendão da esperança.

* * *

Jó Patriota

Na madrugada esquisita
O pescador se aproveita
Vendo a praia como se enfeita
Vendo o mar como se agita
Hora calmo, hora se irrita
Como panteras ou pumas
Depois se desfaz em brumas
Por sobre as duras quebranças
Frágeis, fragílimas danças
De leves flocos de espumas.

* * *

A ARTE DA CANTORIA

Dois ícones da poesia nordestina, os cantadores Otacílio Batista e Oliveira de Panelas improvisam em vários estilos.

Sextilhas, Gemedeira, Mourão-de-sete-pés (trocado), Mourão-de-você-cai, Oito-pés-a-quadrão, Dez-pés-a-quadrão, Martelo-alagoano e Galope-à-beira-mar.

 

 

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 06 de julho de 2019

SEIS MESTRES DO IMPROVISO - 06.07.19

 

 

SEIS MESTRES DO IMPROVISO

Otacílio Batista

Um caboclo na cabana
Deitado em sua palhoça
Olhando o verde da roça
Diz sorrindo prá serrana:
Bote um traguinho de cana
Bebe, tempera a garganta
Almoça , pensa na janta
Faz um cigarro de fumo
Abre a porta e sai no rumo
Da sombra de qualquer planta.

*

O poeta e o passarinho
São ricos de inteligência
Simples como a natureza
Eternos como a ciência
Estrelas da liberdade
Peregrinos da inocência.

* * *

Diniz Vitorino

Nós temos por certa a morte,
mas ninguém deseja tê-la…
Quando morre uma criança,
o pai lamenta em perdê-la,
mas Jesus, todo de branco,
abre o céu pra recebê-la.

*

Meu colega, você vive
da fama que teve outrora,
e esses versos bem bolados
que o povo escuta e decora,
você faz de ano em ano
e eu faço de hora em hora!

* * *

Joaquim Vitorino

Tenho enorme inteligência
Poeta não me dá vaia
Sou vento rumorejando
Nos coqueiros de uma praia
Sou mesmo, que Rui Barbosa
Na conferência de Haia.

* * *

Zé de Vidal

O coveiro é um vivente
De pequena autoridade;
De baixo nível e salário,
Porém na realidade,
Preso que coveiro prende
Nunca mais tem liberdade!

* * *

José Lucas de Barros

Quando menino, eu queria
Ser homem com rapidez,
Depois, contabilizando
Tudo que o tempo me fez,
Hoje morro de vontade
De ser menino outra vez.

* * *

João Paraibano

Quando esbalda o nevoeiro,
rasga-se a nuvem, a água rola,
um sapo vomita espuma;
onde o boi passa se atola,
e a fartura esconde o saco
que a fome pedia esmola.

*

O menino e o rapaz,
estando juntos na sala,
um fala porém não ri,
o outro ri mas não fala;
um tem na mão um brinquedo,
tem o outro uma bengala.

*

Linda é a baixa de arroz
quando está amarelando;
uma vara em pé no meio
com um molambo balançando,
pros passarinhos pensarem
que tem gente tocaiando.

*

A cabra abana as orelhas
para espantar o mosquito,
e se acocora lambendo
os cabelos do cabrito,
depois vai olhar de longe
pra ver se ficou bonito!

*

Não fale mal de Zefinha,
Que nunca foi amor seu,
A mulher que fez da sua
Honra um presente e me deu.
Sonhou beijando um poeta,
Quando acordou era eu.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 29 de junho de 2019

DUPLAS EM CANTORIA - 29.06.19

 

DUAS DUPLAS EM CANTORIA

 

Poetas cantadores Zé Luiz e Zé Ferreira num Mourão de Pé Quebrado

 

 

* * *

Poetas cantadores Zé Ferreira e Januário cantando um Oito a Quadrão.

Tema:

Vamos ver quem sabe mais?

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 22 de junho de 2019

ROMANCE DO PAVÃO MISTERIOSO, UM CLÁSSICO DA LITERATURA DE CORDEL - VÍDEO

 

 

UM CLÁSSICO DE LITERATURA DE CORDEL

 

Esta coluna oferece hoje aos seus leitores o folheto O Romance do Pavão Misterioso, um clássico da literatura de cordel nordestina.

O Pavão Misterioso está no noticiário dos últimos dias, por conta da ação de piratas, corruptos e canalhas que querem acabar com a Lava Jato, a maior operação contra a bandidagem de colarinho branco que já foi feita no Brasil.

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 15 de junho de 2019

GRANDES MESTRES DO REPENTE - 15.06.19

 

GRANDES MESTRES DO REPENTE

 

O grande cantador pernambucano Oliveira de Panelas, um dos maiores nomes da poesia popular nordestina da atualidade

* * *

Oliveira de Panelas

No silente teclado universal
Deus pôs som nas sutis constelações,
e na batida dos nossos corações
colocou a pancada musical,
quando a harpa da brisa matinal
vai fazendo concerto pra aurora,
nessas lindas paisagens que Deus mora
em tecidos de nuvens está escrito:
é a música o poema mais bonito
que se fez do princípio até agora.

Quando as pétalas viçosas das roseiras
dançam juntas com o sol se levantando,
vem a brisa suave carregando
pólen vivo das grávidas cerejeiras,
verdejantes, frondosas laranjeiras,
soltam hálito cheiroso à atmosfera,
toda mãe natureza se aglomera:
de perfume, verdume, que beleza!…
É o canto da própria natureza,
festejando o nascer da primavera!

* * *

Dimas Batista

Alguém já me perguntou:
o que são mesmo os poetas?
Eu respondi: são crianças
dessas rebeldes, inquietas,
que juntam as dores do mundo
às suas dores secretas.

Nossa vida é como um rio
no declive da descida,
as águas são a saudade
duma esperança perdida,
e a vaidade é a espuma
que fica à margem da vida.

* * *

Diniz Vitorino Ferreira

Qualquer dia do ano se eu puder
para o céu eu farei uma jornada
como a lua já está desvirginada
até posso tomá-la por mulher;
e se acaso São Jorge não quiser
eu tomo-lhe o cavalo que ele tem
e se a lua quiser me amar também
dou-lhe um beijo nas tranças do cabelo
deixo o santo com dor de cotovelo
sem cavalo, sem lua e sem ninguém.

* * *

Canhotinho

Acho tarde demais para voltar
estou cansado demais para seguir,
os meus lábios se ocultam de sorrir,
sinto lágrimas, não posso mais chorar;
eu não posso partir e nem ficar
e assim nem pra frente nem pra trás,
pra ficar sacrifico a própria paz,
pra seguir a viagem é perigosa,
a vereda da vida é tão penosa
que me assombro com as curvas que ela faz.

Te prepara, ladrão da consciência,
Que tuas dívidas de monstro já estão prontas,
Quando o Justo cobrar as tuas contas,
Quantas vezes pagarás à inocência?
Teu período banal de existência
Se compõe de miséria, dor e pragas;
Em teu corpo, se abrem vivas chagas,
Que tu’alma de monstro não suporta…
Se o remorso bater à tua porta,
Como pagas? Com que? E quanto pagas?

* * *

Antonio Marinho

Quem quiser plantar saudade
Escalde bem a semente
Plante num lugar bem seco
Quando o sol tiver bem quente
Pois se plantar no molhado
Ela cresce a mata a gente.

* * *

Toinho da Mulatinha

Em Sodoma tão falada
Passei uma hora só
Lá vi a mulher de Ló
Numa pedra transformada
Dei uma talagada
Com caldo de mocotó
E saí batendo o pó
Adiante vi Simeão
Tomando café com pão
Na barraca de Jacó.

* * *

Pinto do Monteiro

Admiro um formigão
Que é danado de feio
Andando ao redor da praça
Como quem dá um passeio
Grosso atrás, grosso na frente
E quase torado no meio.

* * *

Odilon Nunes de Sá

Admiro a mocidade
Não querer envelhecer
Velho ninguém quer ficar
Moço ninguém quer morrer
Quem morre moço não vive
Bom é ser velho e viver.

* * *

Léo Medeiros

Ensinei Ronaldinho a jogar bola
Fui o mestre de Zico e Maradona
Seu Luiz aprendeu tocar sanfona
Bem depois que saiu da minha escola
Caboré no pescoço eu botei mola
Também fiz beija-flor voar pra trás
Conquistei cinco copas mundiais
Defendendo a nossa seleção
Inventei em Paris o avião
O que é que me falta fazer mais?


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 08 de junho de 2019

POESIA NORDESTINA

 

 

POESIA NORDESTINA

 

CORDEL DO FOGO ENCANTADO – CORDEL ESTRADEIRO

 

 

* * *

UMA DUPLA EM CANTORIA

Hipolito Moura e Jonas Bezerra glosando o mote:

“Sepultei as lembranças do passado
Não vou mais padecer por causa dela

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 01 de junho de 2019

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS - 01.06.19

 

 

GRANDES MOTES, GRANDE GLOSAS

 

Cantador Valdir Teles, um dos maiores nomes da poesia nordestina na atualidade

* * *

Valdir Teles glosando o mote:

Quando chega o inverno Deus coloca
Mais fartura na mesa do roceiro.

A matuta faz fogo de graveto
Ferve o leite que tem no caldeirão
Bota sal na panela do feijão
E assa um taco de bode num espeto
Onde a música do sapo é um soneto
Mais bonito da beira de um barreiro
Não precisa zabumba nem pandeiro
Que o compasso da música é Deus que toca.
Quando chega o inverno Deus coloca
Mais fartura na mesa do roceiro.

* * *

Júnior Adelino glosando o mote:

Sobre os trabalhos da obra
Tudo eu sei ninguém me ensina.

No ramo da construção
Faço ponte, creche e praça
Com tijolo, cal e massa
Eu ergo qualquer mansão
Levanto em cima do chão
Parede bem grossa ou fina
Torre que não se inclina
Que não se quebra nem dobra
Sobre os trabalhos da obra
Tudo eu sei ninguém me ensina.

Com o prumo e a colher
Lápis ,régua, espátula e rolo
Cimento, areia e tijolo
Faço o que o dono quiser
Sobrado, muro ou chalé
Do tamanho de uma colina
Ser pedreiro é minha sina
Tenho talento de sobra
Sobre os trabalhos da obra
Tudo eu sei ninguém me ensina.

Nasci com a vocação
E aprendi de longa data
Que o alicerce e a sapata
São partes da fundação
Numa grande construção
As ferragens predomina
Que a faculdade divina
Me dá aula e nada cobra
Sobre os trabalhos da obra
Tudo eu sei ninguém me ensina.

Eu sei dizer que o concreto
É quem garante o sustento
Com pedra, areia e cimento
Começo qualquer projeto
Nunca fui um arquiteto
Nada disso me domina
Construo com disciplina
Qualquer coisa com manobra
Sobre os trabalhos da obra
Tudo eu sei ninguém me ensina.

* * *

Pedro Ernesto Filho glosando o mote:

Cada um tem seu valor,
Precisa é ser descoberto.

O pequeno sanfoneiro
Com arte desafinada
Que de calçada em calçada
Vive a ganhar seu dinheiro,
Não é Alcimar Monteiro
Nem Gonzagão, nem Roberto,
Porém deixou boquiaberto
O povo do interior.
Cada um tem seu valor,
Precisa é ser descoberto.

O sertanejo frustrado
Vítima da sociedade,
Somente vai à cidade
Quando se vê obrigado,
Falando pouco e errado
Porque vive no deserto,
Mas se houvesse escola perto
Talvez que fosse um doutor.
Cada um tem seu valor,
Precisa é ser descoberto.

A prostituta de bar
Tem na consciência um farne,
Negocia a própria carne
A fim de se alimentar,
O bom conceito de um lar
Foi pela sorte encoberto,
Talvez que até desse certo
Se tivesse havido amor.
Cada um tem seu valor,
Precisa é ser descoberto.

O bom vaqueiro voraz
No mato faz reboliço,
Desenvolvendo um serviço
Que acadêmico não faz;
Coveiro é útil demais
Quando um túmulo está aberto
Rico não se torna esperto
Para fazer o favor.
Cada um tem seu valor,
Precisa é ser descoberto.

* * *

Louro Branco e Zé Cardoso glosando o mote

Não existe mais respeito
Nos namoros de hoje em dia.

Louro Branco

Rapaz que tem companheira
Não leva Salve Rainha
Mas leva uma camisinha
Escondida na carteira
Tira a roupa da parceira
Mama chega o peito esfria
Chupa na língua macia
Como quem chupa confeito
Não existe mais respeito
Nos namoros de hoje em dia.

Zé Cardoso

Vi um casal na calçada
Ela com ele abraçado
Ele na boca colado
Ela na língua enganchada
Uma velha admirada
Dizia: “Vixe Maria!”
E com tristeza dizia:
“Eu nunca fiz desse jeito”
Não existe mais respeito
Nos namoros de hoje em dia.

* * *

Mariana Teles glosando o mote:

Um café com pão quente às cinco e meia
Deixa a casa cheirando a poesia.

Quando o sol se despede da campina
E a textura da nuvem muda a cor
O alpendre recebe o morador
Regressando da luta campesina
Entre os ecos da casa sem cortina
Corre um grito chamando por Maria…
E da cozinha pra sala a boca esfria
O mormaço da xícara quase cheia
Um café com pão quente às cinco e meia
Deixa a casa cheirando a poesia.

Meia hora antecede a hora santa
Às seis horas da virgem concebida
E o cálice que serve de bebida
Desce quente nas veias da garganta
Já o trigo depois que sai da planta
Faz o pão quando a massa fica fria
E o tempero da cor do fim do dia
Tem mistura de terço, fé e ceia
Um café com pão quente às cinco e meia
Deixa a casa cheirando a poesia.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 25 de maio de 2019

GRANDES MESTRES DO REPENTE - CEGO ADERALDO E OUTROS

 

 

GRANDES MESTRES DO REPENTE

 

Aderaldo Ferreira de Araújo, mais conhecido como “Cego Aderaldo” um dos maiores cantadores da poesia popular nordestina (1878-1967)

* * *

Cego Aderaldo

(atendendo a um pedido do Padre Cícero)

À ordem do meu padrinho
Vou colher algumas flores…
Fazer minhas poesias
Cheias de grandes louvores
Saudando, primeiramente,
A Santa Virgem das Dores.

O nome do santo Padre
Anda pelo mundo inteiro,
A cidade está crescendo
Com este povo romeiro,
Devido às grandes virtudes
Do santo de Juazeiro.

Nossa Senhora das Dores
É que nos dá proteção,
Ordena ao nosso bom Padre,
E ele cumpre a Missão,
Ensinando a todo mundo
O ponto da salvação.

Deixo aqui no Juazeiro
Todos os sentidos meus
Juntamente ao meu Padrinho
Que me limpou com os seus,
Vou correr por este mundo
Levando a bênção de Deus.

* * *

João Paraibano

Vê-se a serra cachimbando…
Na teia, a aranha borda;
O xexéu canta um poema;
Depois que o dia se acorda,
Deus coloca um batom roxo
Na flor do feijão de corda.

*

Do nevoeiro pra o chão
a nuvem faz passarela;
o sapo pinota n’água,
entra na lama e se mela;
faz uma cama de espuma
pra cantar em cima dela.

*

Sempre vejo a mão divina
no botão de flor se abrindo,
no berço em que uma criança
sonha com Jesus sorrindo;
a mão caçando a chupeta
que a boca perdeu dormindo.

* * *

Roberto Queiroz

Admiro o Zé Ferreira
Um cantador estupendo
Se a roupa se suja, lava
Se rasga, bota remendo
Gasta menos do que ganha
Que é pra não ficar devendo.

* * *

Luciano Carneiro

Eu não tive vocação
Pra diácono nem vigário
Tornei-me então um poeta
Não muito extraordinário
Mas sou com muita alegria
No campo da poesia
Um verdadeiro operário.

* * *

Leonardo Bastião

Ontem vi uma coruja,
Sentada numa cancela,
Demorei trinta segundos,
Olhando a feiura dela,
Quando me vi no espelho,
Tava mais feio do que ela.

*

Admiro o juazeiro,
Nascido na terra enxuta,
A fruta é pequena e ruim,
A madeira é torta e bruta,
Mas a bondade da sombra,
Cobra a ruindade da fruta.

*

Eu não vou plantar saudade,
Que não estou mais precisando,
A caçamba da saudade,
Toda vez que vai passando,
Ao invés de levar a minha,
Derrama a que vai levando.

* * *

Josué Romano

Eu já suspendi um raio
E já fiz o tempo parar.
Já fiz estrela correr,
Já fiz sol quente esfriar.
Já segurei uma onça
Para um moleque mamar!


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 18 de maio de 2019

UM MOTE E UM FOLHETO FEMININO

 

UM MOTE E UM FOLHETO FEMININO

 

Poeta João Paraibano, um dos gênios da cantoria nordestina (1952 /  2014)

* * *

João Paraibano glosando o mote

Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três dias de chuva no Sertão.

O bezerro mamando a cauda abana;
A espuma do leite cobre o peito;
Cada estaca de cerca tem direito
A um rosário de flor da jitirana.
No impulso do vento a chuva espana
A poeira do palco do verão;
A semente engravida e racha o chão,
Descansando dos frutos que germina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três dias de chuva no Sertão.

Quando Deus leva em conta a nossa prece
O relâmpago clareia, o trovão geme,
Uma nuvem se forma, o vento espreme,
Pelos furos do véu, a água desce;
A campina se enfeita, a rama tece
Um tapete de folhas sobre o chão;
Cada flor tem formato de um botão
No tecido da roupa da campina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

No véu negro da barra, o sol se esconde;
Um caniço amolece e cai no rio;
Nos tapetes de grana do baixio,
Um tetéu dá um grito, outro responde;
A frieza da terra faz por onde
Pé de milho dar nó no esporão
E a boneca, na sombra do pendão,
Lava as tranças com gotas de neblina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

A presença do Sol é por enquanto.
Onde vinga uma fruta, a flor desprende;
Cada nuvem que a mão de Deus estende
Cobre os ombros do céu, de canto a canto.
Camponês não precisa roubar santo,
Nem lavar mucunã pra fazer pão;
Faz cacimba na areia com a mão
Onde o pé deixa um rastro, a água mina.
Jesus salva a pobreza nordestina,

Com três meses de chuva no Sertão.
A cabocla mulher do camponês
Caça ninho nas moitas quando chove
Quando acha dez ovos, tira nove,
Deixa o outro servindo de indez;
As formigas de roça fazem vez
De beatas seguindo procissão;
As que vêm se desviam das que vão,
Sem mão dupla, farol e nem buzina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

Sertanejo apelida dois garrotes,
Bota a canga nos dois e desce a serra;
Passa o dia no campo arando terra,
Espantando mocó pelos serrotes;
Sabiá, pra o conforto dos filhotes,
Forra o ninho com pasto de algodão;
Bebe o suco da polpa do melão,
Limpa o bico nas varas da faxina
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

Treme o gado na lama do curral,
Sopra o vento, cheirando a chão molhado;
Cada pingo de chuva, congelado,
Brilha mais do que pedra de cristal.
Uma velha, durante o temporal,
Se ajoelha, rezando uma oração,
Fecha os lhos com medo do trovão
E abre a porta, depois que a chuva afina
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

Cresce a planta, viçosa, e frutifica
Com um cacho de flor em cada galha;
Vê-se o milho mudando a cor da palha
E o telhado chorando pela bica;
A cigarra emudece, a acauã fica
Sem direito a fazer lamentação;
Deus afina a corneta do carão,
Só depois de três meses, desafina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.

* * *

MULHER TAMBÉM FAZ CORDEL – Salete Maria da Silva

O folheto de cordel
Que o povo tanto aprecia
Do singelo menestrel
À mais nobre academia
Do macho foi monopólio
Do europeu foi espólio
Do nordestino alforria

Desde que chegou da França
Espanha e Portugal
(Recebido como herança)
De caravela ou nau
O homem o escrevia
Fazia a venda e lia
Em feira, porto e quintal

Só agora a gente vê
Mulher costurando rima
É necessário dizer
Que de limão se faz lima
Hoje o que é limonada
Foi águas podre, parada
Salobra com lama em cima

A mulher não se atrevia
Nesse campo transitar
Por isso não produzia
Vivia para seu lar
Era o homem maioral
Vivia ele, afinal
Para o mundo desbravar

 

Tempo de patriarcado
Também de ortodoxia
À mulher não era dado
Sair pela cercania
Exibindo algum talento
Pois iria a julgamento
Quem não a condenaria?

Era um tempo obscuro
Para o sexo feminino
O castigo era seguro
Para qualquer desatino
Como não sabia ler
Como podia escrever
E mudar o seu destino?

Sem ter a cidadania
Vivendo vida privada
Pouco ou nada entendia
Não era emancipada
Só na cultura oral
Na forma original
Se via ela entrosada

Nas cantigas de ninar
Na contação de história
Tava a negra a rezar
A velha sua memória
Porém disso não passava
Nada ela registrava
Para sua fama e glória

Muitas vezes era tida
Como musa inspiradora
Aquela de cuja vida
Tinha que ser sofredora
Era mãe zelosa e pura
Qual sublime criatura
Porém não era escritora

Sempre a versão do homem
Impressa nalgum papel
Espero que não me tomem
Por feminista cruel
Mas o fato é que a mulher
Disto temos que dar fé
Tinha na vista um véu

O homem que a desejava
Queria-a qual princesa
Sempre que a venerava
Era por sua beleza
Só isto tinha virtude
Para macho bravo e rude
Mulher com delicadeza

De sua cria cuidando
Cosendo calça e camisa
Para o homem cozinhando
Como vir ser poetisa?
Isto era coisa para macho
Até hoje ainda acho
Gente que assim profetiza.

Até porque o folheto
Era vendido na feira
E era um grande defeito
Mulher sem eira nem beira
Era preciso viagens
Contatos e hospedagens
Pra fazer venda ligeira

E durante muitos anos
Assim a coisa se deu
Em muitos cordéis tiranos
A mulher emudeceu
O homem falava dela
Mas não falava com ela
Nem ela lhe respondeu

Ocorre que em trinta e oito
No ano mil e novecentos
Um fato dito afoito
Veio soprar outros ventos
Uma mulher escreveu
No cordel se intrometeu
Mostrando novos talentos

Talvez seja o primeiro
Cordel de uma mulher
Neste solo brasileiro
Nenhum registro sequer
Confere a este fato
Que seja o dito exato
Mas não é coisa qualquer

Filha de um editor
Família de trovadores
Se esta mulher ousou
A ela nossos louvores
Mas temos a lamentar
Porque não pode assinar
O verso como os autores

Não era uma desvalida
Que escrevia um cordel
Mas uma moça entendida
Parente de menestrel
Mesmo assim se escondia
Pois a vida requeria
Não assumir tal papel

A Batista Pimentel
Com prenome de Maria
Não assinou o cordel
Como a história merecia
Mas que o destino tirano
Um Altino Alagoano
Era quem subscrevia

Pseudônimo usou
Para a obra ser aceita
O marido orientou:
“Assim tudo se ajeita”
Tava pronto pra vender
Quem poderia dizer
Ser o autor a sujeita?

Neste tempo já havia
Escola, educação
Alguma mulher já lia
Tinha certa instrução
Tinha delas que votavam
Outras até trabalhavam
Nalguma repartição

Outro tempo aparecendo
Reclamando outra postura
A população crescendo
Emprego e certa fartura
Indústria se instalando
O povo se empregando
Buscando alguma leitura

Mas foi muito gradual
No campo do popular
Tinha aqui um bom sinal
E um retrocesso acolá
No nordeste nada é reto
Até hoje analfabeto
Não conhece o bê-á-bá

Somente em setenta e dois
Vicência Macedo Maia
Viria escrever depois:
Nascia o verso de saia!
No estado da Bahia
Deu-se a tal rebeldia
Que hoje não leva vaia

Depois disso, alagoana
Potiguar e cearense
Também tem a sergipana
Paraíba e maranhense
Tem delas no Piauí
Também estão a surgir
Paulista e macapaense

Em todo o nosso Brasil
Mulheres versejam bem
Muito verso se pariu
Não se excluiu ninguém
Tem rima a dar com pau
— acho que me expressei mal —
Pois com a vagina também

Mas a grande maioria
Se concentra no nordeste
Onde um dia a poesia
Era do cabra da peste
Hoje as mulheres estão
Rimando e não é em vão
Do litoral ao agreste

Talvez seja sintomático
Que o cordel no sertão
Ainda seja simpático
E noutros lugares não
O tal cordel já foi tido
Como jornal e foi lido
Em muita ocasião

Serviu para ensinar
Muita gente aprender a ler
Serve para recitar
E muita gente entreter
Cordel é sempre estudado
Em tese de doutorado
Mas tem gente que não vê

Alguns pensam hoje em dia
Que cordel é só tolice
Que não tem categoria
Que é mera invencionice
Feito por homem, não presta
Por mulher então, detesta
Veja quanta idiotice

Mesmo assim elas versejam
E muito bem por sinal
Algumas até desejam
Ir para uma bienal
Mostrar a nossa cultura
A nossa literatura
Etecétera e coisa e tal

Versos de todos matizes
De toda forma e cor
Algumas são infelizes
Reproduzindo o horror
Do machismo autoritário
Consumismo perdulário
Que tanto as dominou

Mas são as contradições
Presentes neste sistema
Onde mulheres padrões
Vivem também nos esquemas
Eu só quero é celebrar
Da mulher o versejar
Longe dos velhos dilemas

Nosso tempo nos permite
Botar o verso na rua
Quem vai colocar limite
Quem ousa sentar a pua?
Cordel também é cultura
Quem nunca fez a leitura
Iletrado continua

O cordel é centenário
Nesse Brasil de mistura
É recente no cenário
Da fêmea a literatura
Só estamos começando
Devagar, engatinhando
Quem agora nos segura?

Trinta cordéis eu já tenho
Publicados pelo mundo
Mais uma vez me empenho
Me emocionando no fundo
Metade é sobre mulher
Para mostrar como é
Amor e verso profundo

Aqui encerro meu verso
Cumprindo o meu papel
Se ele foi controverso
Deselegante ou pinel
Só quis dizer para o povo
O que para alguém é novo:
Mulher também faz cordel!


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 11 de maio de 2019

MANOEL XUDU, UM MESTRE DO REPENTE

 

 

MANOEL XUDU, UM MESTRE DO REPENTE

 

O grande poeta paraibano Manoel Xudu (1932-1985)

O meu verso é como a foice
De um brejeiro cortar cana.
Sendo de cima pra baixo,
Tanto corta, como abana,
Sendo de baixo pra cima,
Voa do cabo e se dana.

***

O homem que bem pensar
Não tira a vida de um grilo
A mata fica calada
O bosque fica intranquilo
E a lua chora com pena
Por não poder mais ouvi-lo

***

Eu admiro um caixão
Comprido como um navio
Em cima uma cruz de prata
No meio um defunto frio
E um cordão de São Francisco
Torcido como um pavio.

***

Nessa vida de amargura
O camponês se flagela
Chega em casa à meia-noite
Tira a tampa da panela
Vê o poema da fome
Escrito no fundo dela.

***

Uma novilha amojada
Ao se apartar do rebanho,
Quando volta, é com uma cria
Que é quase do seu tamanho;
Ela é quem lambe o bezerro,
Por não saber lhe dar banho.

***

Carneiro do meu sertão,
Na hora em que a orelha esquenta,
Dá marrada em baraúna
Que a casca fica cinzenta
E sente um gosto de sangue
Chegar à ponta da venta.

***

Uma galinha pequena
Faz coisa que eu me comovo:
Fica na ponta das asas,
Para beliscar o ovo,
Quando vê que vem, sem força,
O bico do pinto novo.

***

Tem coisa na natureza
Que olho e fico surpreso:
Uma nuvem carregada,
Se sustentar com o peso,
De dentro de um bolo d’água,
Saltar um corisco aceso.

***

O ligeiro mangangá
Passa, nos ares, zumbindo;
As abelhas do cortiço
Estão entrando e saindo,
Que, de perto, a gente pensa
Que o pau está se bulindo.

***

A raposa arrepiada
Se aproxima do poleiro,
Espera que as galinhas
Pulem no meio do terreiro;
A que primeiro descer,
É a que morre primeiro.

***

Eu tava na precisão
Quando me casei com Nita
Nada tinha pra lhe dar
Dei-lhe um vestido chita
Ela olhou sorrindo e disse
Oh! Que fazenda bonita!

***

É uma bola de ouro
Pra todo humilde vaqueiro,
Que ganha do fazendeiro,
Um belo chapéu de couro.
Conduz aquele tesouro
À noite, para o colchão;
Para, na escuridão,
Não ser roído do rato.
Chapéu de couro, o retrato
Do vaqueiro do sertão.

***

Vê-se o sertanejo moço
Com três meses de casado;
Antes de ir pro roçado,
Da mulher, beija o pescoço.
Ela lhe traz, no almoço,
Uma bandeja de angu,
A titela de um nhambu,
Depois lhe abraça e suspira.
O sertanejo admira
As manhãs do Pajeú.

***

Mamãe que me dava papa
Me dava pão e consolo
Dava café, dava bolo
Leite fervido e garapa
Mas uma vez deu-me um tapa
E depois se arrependeu
Beijou aonde bateu
Desmanchou a inchação
“quem perdeu mãe tem razão
De chorar porque perdeu”.

***

Dia 13 de março terça-feira
Ano mil novecentos trinta e dois
Pouco tempo depois que o sol se pôs
Mamãe dava gemidos na esteira
Numa casa de barro e de madeira
Muito humilde coberta de capim
Eu nasci pra viver sofrendo assim
Minha dor vem dos tempos de menino
Vivo triste por causa do destino
E a saudade correndo atrás de mim.

***

Quando Deus, que é juiz pra todo jugo,
Molha as terras sedentas e vermelhas,
O corisco por cima abala as telhas,
Cai a água, me molho e me enxugo.
Vê-se um sapo escanchado num sabugo,
Como um cabra remando uma canoa…
Sai cortando as maretas da lagoa,
Chega os braços parecem um cata-vento.
Salta fogo das nuvens de momento,
Cai a chuva na terra, o trovão zoa.

***

No sertão, todo dia, bem cedinho
Vê-se um galo descendo do poleiro,
Um cabrito berrando no chiqueiro,
No terreiro, fuçando, um bacorinho.
Um preá sai torcendo o seu focinho,
Como um cego tocando realejo;
Na cozinha, uma velha espreme o queijo,
Um bezerro berrando no curral.
O retrato do corpo natural
É a veste do homem sertanejo.

***

Um ferreiro suado numa tenda,
Agarrado no cabo da marreta,
Consertando algum dente da carreta
Que quebrou e precisa duma emenda;
Um crioulo no pé duma moenda,
Já um pouco queimado de aguardente;
O bagaço espirrando pela frente
E uma bica de caldo derramando,
Um bueiro, mal feito, fumegando,
Representa o sertão de antigamente.

***

O mar se orgulha por ser vigoroso,
Forte, gigantesco que nada lhe imita
Se ergue, se abaixa, se move, se agita,
Parece um dragão feroz e raivoso.
É verde, azulado, sereno, espumoso;
Se espalha na terra, quer subir pro ar,
Se sacode todo, querendo voar,
Retumba, ribomba, peneira, balança,
Nem sangra, nem seca, nem para, nem cansa,
São esses fenômenos da beira do mar.

***

O próprio coqueiro se sente orgulhoso
Porque nasce e cresce na beira da praia
No tronco, a areia da cor de cambraia
O caule enrugado, nervudo e fibroso
Se o vento não sopra silencioso
Nem sequer a fronde se vê balançar
Porém, se o vento com força soprar
A fronde estremece, perde toda a calma
As folhas se agitam, tremem, batem palma
Pedindo silencio na beira do mar.

***

Não há tempestades e nem furacões,
Chuvada de pedra no bosque esquisito
Quedas de coriscos e meteorito
Tiros de granadas, obuses, canhões,
Juntando os ribombos de muitos trovões
Que tem pipocado na massa do ar
Cascata rugindo, serra a desabar,
Estrondo, ribombos, rumores de guerra,
Nuvens mareantes, tremores de terra
Que imitem a zoada na beira do mar.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 04 de maio de 2019

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS - 04.05.19

 

 

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

 

Ocione Poeta glosando o mote:

Satanás quando não vem
Ele manda o secretário.

Gás sarin na estação
Atentado às torres gêmeas
Casamento entre fêmeas
De Dalila a traição
Caim que matou o irmão
Hitler vil e sanguinário
Propina em judiciário
Fuzilamento de alguém
Satanás quando não vem
Ele manda o secretário.

* * *

Zé Limeira glosando o mote

Escrevi o nome dela
Com o leve do azul do céu.

A minha poica maluca
Brigou com setenta burro,
Deu cento e noventa murro
Na cara de Zé de Duca.
Dei-lhe um bufete na nuca
Que derrubei seu chapéu…
Vai chegando São Miguel
Montado numa cadela…
Escrevi o nome dela
Com o leve do azul do céu.

Me chamo José Limeira,
Cantador do meu sertão,
O Sino de Salamão
Tocando na laranjeira,
Crepusco de fim-de-feira,
Museu de São Rafael,
O Juiz prendeu o réu,
Dispois fechou a cancela…
Escrevi o nome dela
Com o leve do azul do céu.

Quando Abel matou Caim
No Rio Grande do Sul,
Deu-lhe um quilo de beiju
Com as berada de capim.
Nisso chegou São Joaquim
Que já vinha do quartel
Cumode prendê Abel,
Dois pedaço de costela…
Escrevi o nome dela
Com o leve do azul do céu.

* * *

Severino Feitosa glosando o mote:

Eu querendo também faço
Igualzinho a Zé Limeira

Confúcio foi na Bahia
Pai-de-Santo e curandeiro
Anchieta era pedreiro
No farol de Alexandria
Hitler nasceu na Turquia
Vendia manga na feira
A Revolução Praieira
Degolou Torquato Tasso
Eu querendo também faço
Igualzinho a Zé Limeira.

* * *

Carlos Severiano Cavalcanti glosando o mote:

Devagar, como fogo de monturo,
a saudade invadiu meu coração.

Na fazenda, nasci e me criei,
peraltava e fazia escaramuça,
morcegava, no campo, a besta ruça,
jararaca até mesmo já matei.
Não me lembro da vez em que acordei
assombrado com tiros de trovão,
pinotava da rede para o chão
e saía correndo pelo escuro.
Devagar, como fogo de monturo,
a saudade invadiu meu coração.

* * *

Louro Branco e Zé Cardoso glosando o mote:

Não existe mais respeito
Nos namoros de hoje em dia.

Louro Branco:

Não existe mais respeito
Nos namoros de hoje em dia
Rapaz que tem companheira
Não leva Salve Rainha
Mas leva uma camisinha
Escondida na carteira
Tira a roupa da parceira
Mama chega o peito esfria
Chupa na língua macia
Como quem chupa confeito
Não existe mais respeito
Nos namoros de hoje em dia.

Zé Cardoso:

Vi um casal na calçada
Ela com ele abraçado
Ele na boca colado
Ela na língua enganchada
Uma velha admirada
Dizia: “Vixe Maria!”
E com tristeza dizia:
“Eu nunca fiz desse jeito”
Não existe mais respeito
Nos namoros de hoje em dia.

* * *

Davi Calisto Neto glosando o mote

Pra que tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui para ficar?

Se o final é normal pra que correr
E se morrer é ruim mais é comum
Se o caixão vai leva de um em um
Se o dinheiro não pode socorrer…
Eu só quero o bastante para comer
Para viver para vesti e pra calçar
Mesmo sendo pouquim se não faltar
Eu só quero esse tanto todo dia
Pra que tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui para ficar?

Todo homem podendo tem que ter
Moradia, saúde e alimento
Um pouquinho também de investimento
Que um dia ele pode adoecer
Necessita também de algum lazer
Para o corpo cansado descansar
Mais tem gente que pensa em enricar
Não descansa de noite nem de dia
Pra que tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui para ficar?

Pra que tanta ganância por poder
Exibir a fortuna adquirida
Se o que a gente ganhar durante a vida
É preciso deixa quando morrer
Se na cova não tem como caber
E no caixão ninguém tem como levar
Lá no céu não tem banco para guardar
O que o morto juntou quando vivia
Pra que tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui para ficar?

Sei que a vida da gente se encerra
E muita gente se esquece com certeza
E é por isso pensando na riqueza
Que alguns loucos estão fazendo guerra
O pior é que brigam pela terra
Para depois nela mesma se enterrar
Toda essa riqueza vai ficar
E só o corpo que vai para a terra fria
Pra que tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui para ficar?

Pra que tanta ganância e ambição
Se essa vida é bastante passageira
Tudo finda num monte de poeira
Na mortalha, na cova e no caixão
Ninguém pode pedir prorrogação
Quando o jogo da vida terminar
A não ser uma vela pra queimar
O destino é partir de mãos vazia
Pra que tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui para ficar?

A ganância infeliz desenfreada
Deixa o mundo sem paz e sem sossego
Pois tem gente com mais de um emprego
E muita gente morrendo sem ter nada
Mais a vida da gente é emprestada
E qualquer dia o seu dono vem buscar
Qualquer vida que a morte carregar
Ninguém pode tirar segunda via
Pra que tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui para ficar?


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 27 de abril de 2019

UMA PELEJA DE PEDRO BANDEIRA E MANOEL XUDU

 

 

UMA PELEJA DE PEDRO BANDEIRA E MANOEL XUDU

 

Pedro Bandeira e Manoel Xudu: dois grandes cantadores nordestinos

Pedro Bandeira

Colega Manoel Xudu
Abra o palco da cortina,
Se firme bem na cadeira
Erga o peito e se previna,
E diga como deixou
A cidade de Carpina.

Manoel Xudu

Vai bem minha Planaltina
De poetas um viveiro,
Situada entre Paudalho
Nazaré e Limoeiro,
E agora mandou seu vate
Vir visitar Juazeiro.

Pedro Bandeira

Mas você não é romeiro
Nem comprador de pequi,
Nem carola nem turista
Ninguém lhe esperava aqui,
Sem eu lhe dar carta branca
Pra entrar no Cariri.

Manoel Xudu

Eu vim porque conheci
Que havia necessidade,
De conhecer os colegas
Que moram nessa cidade,
E saber se o novo príncipe
Tem ou não autoridade.

Pedro Bandeira

Saiba que sou majestade
No reinado poesia,
Você pra cantar comigo
Precisa ter fidalguia,
Nobreza, brio e respeito
Honra e aristocracia.

Manoel Xudu

Há tempo que conhecia
A fama do meu amigo,
Porém eu sou dos poetas
Que nunca teme perigo,
Só digo que um cabra canta
Depois que cantar comigo.

Pedro Bandeira

Você está no meu abrigo
Se não quiser passar fome,
Respeite meu auditório
Meu cetro e meu cognome,
Minha esposa e minha filha
Minha plateia e meu nome.

Manoel Xudu

Acho bom que você tome
O conselho que lhe dou,
Estou no seu auditório
Mas seu escravo não sou,
Penetre em qualquer terreno
Que se eu puder também vou.

Pedro Bandeira

O sangue do meu avô
No meu sangue inda evapora,
Me dando ideia e talento
Entusiasmo e sonora,
Pra rebater desaforo
De repentista de fora.

Manoel Xudu

Com sua proposta agora,
Sei que o jeito que tem,
É eu lhe dar um acocho
Dos ossos virar xerém,
Que canto a vinte e dois anos
E nunca perdi pra ninguém.

Pedro Bandeira

Eu nunca perdi também
E agora vou lhe provar,
Que daqui a meia hora
Você começa a chorar,
Troca a viola em cachaça
E nunca mais fala em cantar.

Manoel Xudu

É mais fácil se esgotar
O mar com uma peneira,
Bala de aço esmagar-se
Em tronco de bananeira,
Do que Manoel Xudu
Temer a Pedro Bandeira.

Pedro Bandeira

É mais fácil uma caveira
Ter nojo dum urubu,
Uma cobra de veado
Se assombrar com um cururu,
Do que o príncipe dos versos
Respeitar Manoel Xudu.

Manoel Xudu

É mais fácil um canguçu
Correr com medo dum bode,
Menino enjeitar bolacha
Moleque enjeitar pagode
Do que eu correr com medo
Dum cantador sem bigode.

Pedro Bandeira

Nós sabemos que Deus pode
Manobrar tudo que é seu,
Transformar o gelo em fogo
Ressuscitar quem morreu,
Não pode é criar poeta
Pra cantar mais do que eu.

Manoel Xudu

Mas agora apareceu
Miguel Alencar Furtado,
Que é Juiz e deu um tema
Muito bem metrificado,
E vamos saber do tema
Quem canta mais inspirado.

* * *

Mote:

Vi a noite enlutando o horizonte,
Com saudade do dia que morreu.

Pedro Bandeira

Cinco e meio da tarde mais ou menos
Resolvi vê de Deus os espetáculos,
Transportei-me das baixas aos pináculos
Pra poder me inspirar olhando Vênus,
Comecei vislumbrar astros pequenos
O Cruzeiro do Sul resplandeceu,
Quando o rosto da lua apareceu
Eu estava na crista de um monte,
Vi à noite enlutando o horizonte
Com saudade do dia que morreu.

Manoel Xudu

Quando o sino tocava Ave–Maria
E o sol se escondia no ocaso,
De um voo transportei-me ao Parnaso
Num balão que eu fiz de poesia,
Uma estrela brilhava o sol morria
E a natura chegava ao apogeu,
Tive sede e um querubim me deu
Água pura tirada duma fonte,
Vi à noite enlutando o horizonte
Com saudade do dia que morreu.

Pedro Bandeira

Contemplei azul além do mar
Vi a treva envolvendo as ondas pardas,
As libélulas pousaram nas mostardas
E agripinas saíram do pomar,
Escutei uma musa solfejar
Uma musica crida por Orfeu,
Estendi-me nos braços de Morfeu
Reclinei no seu busto a minha fronte,
Vi à noite enlutando o horizonte
Com saudade do dia que morreu.

Manoel Xudu

Eu também me achava esmorecido
Numa tarde perdido no deserto,
Sem achar um amigo ali por perto
Que indicasse por onde eu tinha ido,
Quando o bravo leão deu um rugido
Que o bosque da serra estremeceu,
Mas o manto de Deus se estendeu
Parecendo a varanda de uma ponte,
Vi à noite enlutando o horizonte
Com saudade do dia que morreu.

* * *

Pedro Bandeira

Atendi ao pedido do Juiz
Mas a nossa polêmica continua,
Pra você minha volta vai ser crua
Encomende-se a Deus pra ser feliz,
Se é mesmo um poeta como diz
Mostre aqui sua personalidade,
Se vier com mentira e vaidade
Entra grande na luta e sai pequeno,
Nunca mais quer entrar no meu terreno
Sem primeiro pedir-me a liberdade.

Manoel Xudu

Eu não vim procurar inimizade
Com você seus irmãos e outros mais,
Mas se quer destruir o meu cartaz
É perdida de vez sua vontade,
Com poeta de toda qualidade
No Nordeste eu tenho combatido,
No Brasil o meu nome é conhecido
Desde o Norte ao Sul Leste e Oeste,
Quem meter-se comigo a fazer teste
Leva pau perde o jeito e sai vencido.

Pedro Bandeira

Vou coser sua boca e um ouvido
Dou-lhe um murro na cara estoura os pés,
Cantador do seu jeito eu dou em dez
Só enquanto mamãe troca um vestido,
Fuxiqueiro insultante e desconhecido
Atrasado sem luz e sem valor,
Decoreba perverso e traidor
Beberrão de latada e pé de serra,
Volte e digas chorando em sua terra
Que agora encontrou superior.

Manoel Xudu

Repentista se enche de pavor
Quando ouve meu verso e meu baião,
Sente logo tremer o coração
Gela o sangue, o rosto muda a cor,
Em martelo eu sou raio abrasador
Cantador sendo fraco eu dou em cem,
A pancada que dou é como o trem
Um gigante pra mim inda é pequeno,
Cascavel que eu pegar perde o veneno
Só me curvo a Deus e a mais ninguém.

Pedro Bandeira

Otacílio Batista canta bem
Lourival é o rei do trocadilho,
Zé Faustino morreu deixou seu filho
Clodomiro não perde pra ninguém,
Dr. Dimas um título também tem
Pinto velho é o rei do Pajeú,
Louro Branco e Moacir no Iguatu
Os Irmãos Bernardino se deleitam,
Todos esses poetas me respeitam
Quanto mais uma égua como tu.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 13 de abril de 2019

UMA CANTORIA E UM POEMA

 

 

UMA CANTORIA E UM POEMA

 

Cantoria de improviso com os poetas repentistas Moacir Laurentino e Sebastião da Silva

* * *

O CASAMENTO DOS VELHOS – Louro Branco

Tem certas coisas no mundo
Que eu morro e num acredito
Mas essa eu conto de certo
Dum casamento bonito
De um viúvo e uma viúva
Bodoquinha Papaúva
E Tributino Sibito.

O véio de oitenta ano
Virado num estopô
A véia setenta e nove
Maluca por um amor
Os dois atrás de esquentar
Começaram a namorar
Porque um doido ajeitou.

Um dia o véio comprou
Um corpete pra Bodoquinha
Quando a véia foi vestir
Nem deu certo, coitadinha
De raiva quase se lasca
Que o corpete tinha as casca
Mas os miolo num tinha.

No dia três de abril
Vêi o tocador Zé Bento
Mataram trinta preá
Selaram oitenta jumento
Tributino e Bodoquinha
Sairam de manhazinha
Pra cuidar do casamento.

O veião saiu vexado
Foi se arranchar na cidade
Mandaram chamar depressa
Naquela oportunidade
O veião chegou de choto
Inda deu catorze arroto
Que quase embebeda o padre.

O padre ai perguntô:
Seu Tributino, o que pensa,
Quer receber Bodoquinha
Sua esposa, pela crença?
O veião dixe: eu aceito
Tô tão vexado dum jeito
Chega tô sem paciência.

E perguntô a Bodoquinha:
Se aceitar esclareça
A véia lhe arrespondeu
Dando um jeitim na cabeça
Aceito de coração
Tô cum tanta precisão
Tô doida que já anoiteça.

Casaram, foram pra casa
Comeram de fazer medo
Conversaram duas horas
Uns assuntos duns segredo
E Bodoquinha dixe: agora,
Meu pessoá, vão embora
Que eu quero drumi mais cedo.

O véi vestiu um pijama
Ficou vê uma raposa
A véia de camisola
Dixe: óia aqui sua esposa
Cuma é, vai ou num vai?
O veião dixe: ai, ai, ai
Já tá me dando umas coisa.

A véia dixe me arroche
Cuma se novo nóis fosse
O véio dixe: ê minha véia
Acabou-se o que era doce
A véia dixe: é assim?
Então se vai dar certim
Que aqui também apagou-se.

Inda tomaram uns remédio
Mas num deu jeito ao enguiço
De noite a véia dizia:
Mas meu véi, que diabo é isso?
Vamo vendê essa cama
Nóis sempre demo na lama
Ninguém precisa mais disso.

A véia dixe: isso é triste
Mas esse assunto eu esbarro
Eu já bati o motor
Meu véi estrompou o carro
Ê, meu veião Tributino
Nóis dois só tem um menino
Se a gente fizer de barro.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 06 de abril de 2019

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS - 06.04.19

 

 

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

 

Oliveira de Panelas, grande poeta cantador pernambucano da atualidade

* * *

Oliveira de Panelas glosando o mote:

Na porta do cu do dono

Essa rôla antigamente
Vivia caçando briga
Furando pé de barriga
Doidinha pra fazer gente
Mas hoje tá diferente
No mais profundo abandono
Dormindo um eterno sono
Não quer mais saber de nada
Com a cabeça encostada
Na porta do cu do dono.

Já fez muita estripulia
Firme que só bambu
Mais parecia um tatu
Fuçava depois cuspia
Reinava na putaria
O priquito era seu trono
Trepava sem sentir sono
E sem precisar de escada
Mas hoje vive enfadada
Na porta do cu do dono.

Nunca mais desvirginou
Uma mata vaginosa
Há muito tempo não goza
A noite de gala passou
Vive cheia de pudor
Sonolenta e sem abono
Faz da ceroula um quimono
E da cueca uma estufa
Vive hoje à cheirar bufa
Na porta do cu do dono.

* * *

Carlos Severiano Cavalcanti glosando o mote:

Eu plantei em janeiro o meu roçado,
mas a chuva faltou, fiquei sem nada.

Fui ao silo e tirei toda a semente
que restava guardada há mais de um ano
e saí a plantar em solo plano
na esperança de inverno consistente.
O trovão ribombou e de repente
envolvi-me no som da trovoada.
O riacho rosnando na enxurrada,
o meu milho pouquinho semeado.
Eu plantei em janeiro o meu roçado,
mas a chuva faltou, fiquei sem nada.

Trinta dias depois da plantação
eu gostava de ver meu milharal
verdejante, brilhando, colossal,
alegrando meu frágil coração.
Fiz a limpa primeira na intenção
de arrancar todo o mato usando a enxada,
começava a limpar de madrugada
sem contudo sentir-me mais cansado.
Eu plantei em janeiro o meu roçado,
mas a chuva faltou, fiquei sem nada.

O pendão começou a tremular,
quando o sol assumiu a dianteira,
a trocar chão molhado por poeira,
a neblina deixou de borrifar,
a lavoura teimava em não murchar,
mas a haste do milho, já envergada
pendurava a boneca atrofiada
enquanto eu contemplava amargurado.
Eu plantei em janeiro o meu roçado,
mas a chuva faltou, fiquei sem nada.

Perdi tudo o que tinha de semente,
não deixei transformá-la no cuscuz,
carreguei cabisbaixo a minha cruz,
enfrentei a dureza do sol quente,
vejo agora o sofrer da minha gente
sem destino na terra desolada,
transeunte nas margens de uma estrada
indo à toa, sem rumo, em qualquer lado.
Eu plantei em janeiro o meu roçado,
mas a chuva faltou, fiquei sem nada.

Vejo a barra ao quebrar e fico atento,
para ver se a invernada inda retorna,
entretanto, a manhã já nasce morna,
o que traz para mim um desalento,
desespero ante a dor desse momento,
minha casa sem luz, vive apagada,
o sertão vendo a flora incinerada,
o seu povo sem rumo e flagelado.
Eu plantei em janeiro o meu roçado,
mas a chuva faltou, fiquei sem nada.

Já não ouço o cantar dos rouxinóis,
não escuto o arrulhar das juritis,
raramente ouço poucos bem-te-vis,
saltitantes nos galhos do cipós.
No horizonte tem mais pores de sóis
inundando de luz toda a chapada,
a paisagem cinérea iluminada
quando a lua esparrama o seu dourado.
Eu plantei em janeiro o meu roçado,
mas a chuva faltou, fiquei sem nada.

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 30 de março de 2019

GRANDES MESTRES DO REPENTE

 

 

GRANDES MESTRES DO REPENTE

 

Dimas Batista:

João de Barro bem alto faz seu ninho
Preparando de argila uma argamassa
Com as asas e os pés o barro amassa
E a colher de pedreiro é seu biquinho
Quem teria ensinado ao passarinho
Construção de tão sólida firmeza?
Que lhe serve de abrigo e de defesa
Contra o sol, contra a chuva e contra tudo
Pequenino arquiteto sem estudo
Quanto é grande e formosa a natureza!

Beija-Flor:

O homem fez um motor
Um rádio e televisão
Fabricou um avião
Obra de tanto valor
O homem fez um motor
Pra correr nas profundezas
Fez uma cama e um mesa
Um revólver e um faca
Morre e não faz uma jaca
Que é fruto da natureza.

Sebastião Dias:

Se a gente for corrigir
A vida de outro alguém
Até dentro da família
Muita diferença tem
Porque a mãe de um padre
É mãe de um ladrão também .

Lourival Batista, o Louro do Pajeú (1915-1992)

Lourival Batista:

Mulher até trinta anos 
é fogo que queima e rende; 
de trinta até os cinqüenta, 
o fogo ainda se estende; 
e dos sessenta pra frente, 
ai-ai, ui-ui, 
tem fogão, mas não acende.

Louro Branco:

Acho bonito o inverno
Quando o rio está de nado
Que um sapo faz oi aqui
Outro,oi do outro lado
Parece dois cantadores
Cantando mourão voltado.

Eliseu Ventania:

Pelo inverno, quando é de madrugada
A passarada dá sinal que o dia vem
Rio correndo, mato verde, açude cheio,
Naquele meio, todo mundo vive bem.
O sertanejo trabalhando em seu roçado
Muito animado com o ronco do trovão.
A meninada toma banho na lagoa,
Oh! Quanto é boa nossa vida no sertão.

João Paraibano:

Faço da minha esperança 
Arma pra sobreviver
Até desengano eu planto
Pensando que vai nascer
E rego com as próprias lágrimas
Pra ilusão não morrer.

*

Coruja dá gargalhada
Na casa que não tem dono
A borboleta azulada 
Da cor de um papel carbono
Faz ventilador das asas
Pra rosa pegar no sono.

*

A juventude não dá 
Direito a segunda via
Jesus pintou meus cabelos
No final da boemia
Mas na hora de pintar
Esqueceu de perguntar
Qual era a cor que eu queria.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas domingo, 24 de março de 2019

UM MOTE BEM GLOSADO E UM DOCUMENTÁRIO

 

 

UM MOTE BEM GLOSADO E UM DOCUMENTÁRIO

 

Não conheço político que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

João Paraibano:

Vem um tema do nosso José Costa,
seu pedido está mais do que bem feito,
disse a mim que o político quando eleito,
vai fazer só as coisas que ele gosta,
quem escreve pra ele, é sem resposta,
que ao invés de ajudar, faz esquecer,
no começo foi tanto prometer,
mas depois vai faltando a virtude.
Não conheço político que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Severino Feitosa:

O político que ganha a preferência,
se elege com o voto do povão,
o transporte que usa é avião,
e o espaço é a sua residência,
esquecendo até da presidência,
nem ligando se o povo vai sofrer,
inda manda um ministro esconder
todas as verbas pra área de saúde.
Não conheço político que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

João Paraibano:

Se viu Lula pregando pelas ruas,
prometendo enricar trabalhador,
falou tanto do seu antecessor,
garantindo impedir as falcatruas,
para 20 viagens, faltam duas,
e a pobreza é quem paga sem querer,
tanta gente sem ter o que comer,
precisando que o mesmo lhe ajude.
Não conheço político que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Severino Feitosa:

No início ele é muito valente,
não tolera receita e desacato,
vai na frente demais do sindicato,
pra poder defender a nossa gente,
veja aí esse nosso presidente,
que lutou muitas vezes pra vencer,
mas agora só pensa em esquecer
que já foi um torneiro “chei” de grude.
Não conheço político que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

João Paraibano:

Quem não lembra de Lula em Caetés,
um torneiro mecânico em São Bernardo,
convidava a ajudar levar o fardo
desse povo que está andando a pés,
Lula fez de viagem mais de dez,
num jatinho a subir e a descer
e a pobreza deixando a padecer,
sem poder residir na terra rude.
Não conheço político que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

* * *

DOCUMENTÁRIO: LITERATURA DE CORDEL

 


 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 16 de março de 2019

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS - 16.03.19

 

 

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

 

Mote:

Quem quiser ter saudade do meu tanto
Sofra e ame do tanto que eu amei.

Moacir Laurentino:

Numa noite de insônia e de saudade
a angustia invadiu meu coração.
Eu senti a maior recordação
dos amores da minha mocidade
lamentei suspirei senti vontade
de beijar a mulher com quem sonhei
mas sem esse direito eu já fiquei
e nem ela possui o mesmo encanto
quem quiser ter saudade do meu tanto
sofra e ame do tanto que eu amei.

Sebastião da Silva:

Quem me fez padecer tanta ilusão
deixou todos meus sonhos destruídos
o murmúrio do adeus nos meus ouvidos
e a tristeza rasgando o coração.
Já tentei esquecer mais foi em vão
só eu sei quantas vezes já chorei
já gastei todos lenços que comprei
ensopados das gotas dos meus prantos
quem quiser ter saudade do meu tanto
sofra e ame do tanto que eu amei.

* * *

Mote:

Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Ivanildo Vilanova:

Nobel foi o inventor da dinamite
Criador de um prêmio especifico
Deu progresso ao projeto cientifico
Onde a nossa ciência tem limite
Hoje em dia se atende o seu convite
Sem os louros da sua academia
Mas se o Deus que inspirou barra do dia
Não conhece liceu nem faculdade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Severino Ferreira:

Vamos ver quem conhece aonde é
O país dos Assírios e Caldeus
Jafetanis, Fenícios, Cananeus
Descendentes da raça de Noé
E qual foi o motivo que José
Se tornou o esposo de Maria
Ela teve Jesus na estrebaria
E não perdeu o valor da virgindade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Ivanildo Vilanova:

Pra ganhar o Nobel só é preciso
Conhecer de sentido e odalinfa
Ser parente da paz, irmão da ninfa
Ser parente do amor, irmão do riso
É tirar oito e meio em improviso
Tirar nove em métrica e harmonia
Nove e meio em repente e teoria
Tirar dez na escola da saudade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Severino Ferreira:

Vamos ver quem possui inteligência
Pra lembrar Tiradentes, o mineiro
Que foi preso no Rio de Janeiro
Por um povo de pouca consciência
Que D. Pedro gritou: “Independência”
Que o mundo esperava e pretendia
Qual o mês, a semana, hora e o dia
Que a princesa assinou a liberdade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.

Ivanildo Vilanova:

Vamos ver quem possui perspectiva
Pra falar sobre monte, terra e gleba
Pra falar sobre a vida de algum peba
Arrancando as raízes da maniva
E a gata que está receptiva
Quer um gato pra sua companhia
Quanto mais ela arranha, morde e mia
Mas o gato ansioso tem vontade
Vamos ver quem possui capacidade
Pra ganhar o Nobel da Cantoria.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 09 de março de 2019

JOÃO PARAIBANO, UM MESTRE DA CANTORIA

 

UM MESTRE DA CANTORIA

 

João Paraibano (1952-2014)

A noite parindo o dia
Não tem parto mais bonito
Parece que a mão de Deus
Sem provocar dor nem grito
Arranca o sol todo dia
Do ventre do infinito

Quando o sol aquece a terra
Pendura o seu agasalho
O pranto da noite seca
A última gota de orvalho
Parece um pingo de prata
Preso na ponta de um galho

A música maravilhosa
Se ouve da passarada
A lua tão meiga e pura
Se esconde encabulada
Com beijo ardente do sol
Ruborizando a alvorada

A noite negra recua
Sabendo que o dia veio
O pagão chora no berço
A mãe coloca no seio
Jesus pinta o céu de azul
Pra o sol passar pelo meio

A abelha traz mais flores
Néctar na ponta da asa
A cabôca acende o fogo
E bota a chaleira na brasa
E a fumaça espalha o cheiro
De café torrado em casa.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas quarta, 06 de março de 2019

SONETO PRINCIPALMENTE DO CARNAVAL (POEMA DO PERNAMBUCANO CARLOS PENA FILHO)

 

 

SONETO PRINCIPALMENTE DO CARNAVAL – Carlos Pena Filho

 

Do fogo à cinza fui por três escadas
e chegando aos limites dos desertos,
entre furnas e leões marquei incertos
encontros com mulheres mascaradas.

De pirata da Espanha disfarçado
adormeci panteras e medusas.
Mas, quando me lembrei das andaluzas,
pulei do azul, sentei-me no encarnado.

Respirei as ciganas inconstantes
e as profundas ausências do passado,
porém, retido fui pelos infantes

que me trouxeram vidros do estrangeiro
e me deixaram só, dependurado
nos cabelos azuis de fevereiro.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas segunda, 04 de março de 2019

FANATISMO (POEMA DE FLORBELA ESPANCA)

 

FANATISMO – Florbela Espanca

 

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver, 
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça 
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros, 
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…”


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 02 de março de 2019

PINTO DO MONTEIRO, UM GÊNIO DO REPENTE

 

 

PINTO DO MONTEIRO, UM GÊNIO DO REPENTE

 

Severino Lourenço da Silva Pinto, o Pinto do Monteiro (1895-1990)

Improvisos de Pinto do Monteiro, a Cascaval do Repente, em cantorias diversas

Ninguém deve ignorar
Porque Pinto do Monteiro
Largou de mão a viola
E passou a usar pandeiro
O volume é mais menor
E o pacote mais maneiro.

Eu admiro o tatu
Com desenho no espinhaço,
Que a natureza fez
Sem ter régua, nem compasso
Eu tenho compasso e régua,
Pelejo, porém, não faço.

Sua terra é muito ruim
Só dá quipá e urtiga
Planta milho, o milho nasce
Não cresce nem bota espiga
De legume de caroço
Só dá sarampo e bexiga.

Homem deixe de história
Que se eu for ao Pajeú,
Dou em Jó e dou em Louro,
Em Zé Catota e em tu,
E fico no meio da rua,
Cantando e dançando nu.

Em dezembro, começa a trovoada,
Em janeiro, o inverno principia,
Dão início a pegar a vacaria:
Haja leite, haja queijo, haja coalhada!
Em setembro, começa a vaquejada:
É aboio, é carreira, é queda, é grito!
Berra o bode, a cabra e o cabrito;
A galinha ciscando no quintal,
O vaqueiro aboiando no curral;
Nunca vi um cinema tão bonito!

Esta palavra saudade
Conheço desde criança
Saudade de amor ausente
Não é saudade, é lembrança
Saudade só é saudade
Quando morre a esperança.

Saudade é tudo e é nada
Saudade é como o perfume
Eu só comparo a saudade
Com o peso do ciúme
Que a gente carrega o fardo
Mas não conhece o volume.

* * *

No vídeo abaixo, Severino Pinto e Lourival Batista cantando de improviso o gênero Meia Quadra.

Constante da Coleção Música Popular do Nordeste, com 4 discos, lançada em 1972.

A abertura da cantoria é feita por Lourival.

 

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 23 de fevereiro de 2019

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS - 23.02.19

 

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS

Pedro Malta, pesquisador da cultura popular nordestina

A grande dupla Ivanildo Vilanova e Valdir Teles numa cantoria em Fortaleza-CE

* * *

Valdir Teles e Ivanildo Vilanova glosando o mote:

Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Valdir Teles

Logo após ser eleito está mudado,
cada um tem direito a secretária,
segurança, assessor, estagiária,
gabinete com ar condicionado,
vai lembrar-se do proletariado,
com favela e cortiço pra viver,
ou será que não vai se aborrecer,
com esgoto, favela, lodo e grude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Ivanildo Vilanova

Pode ser um sujeito agitador,
boia-fria, sem terra, piqueteiro,
camarada, comuna, companheiro,
se um dia tornar-se senador,
vindo até se eleger governador,
qual será o seu novo proceder,
vai mudar, vai mentir ou vai manter
as promessas que fez de forma rude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Valdir Teles

No período que um adolescente,
quer mudar o planeta e o país,
através dos arroubos juvenis,
vira líder, orador e dirigente,
mas se um dia ele sair presidente,
o que foi nunca mais poderá ser,
aí diz que o remédio é esquecer
as loucuras que fez na juventude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Ivanildo Vilanova

Todo jovem, a princípio é sectário,
atuante, grevista, condutor,
antagônico, exaltado, pregador,
um perfeito revolucionário,
cresce, casa e se torna secretário,
veja aí o que trata de fazer,
leva logo a família a conhecer
Disneylândia, Washington e Hollywood.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.

Valdir Teles

Quem vivia de luta e de vigília,
invasão, pichamento e barricada,
através disso aí fez a escada,
pra chegar aos tapetes de Brasília,
vai pensar no progresso da família,
no que faz pra do posto não descer,
nunca falta quem queira se vender,
sempre acha covarde que lhe ajude.
Não conheço esquerdista que não mude,
quando pega nas rédeas do poder.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 16 de fevereiro de 2019

QUATRO MESTRES DO IMPROVISO

 

QUATRO MESTRES DO IMPROVISO

Pedro Malta, pesquisador da cultura popular nordestina

De um lado a dor e a fome
Percorrendo na artéria.
Um guri sem sobrenome,
No apogeu da miséria.
Do outro lado, os verdugos,
Tratando como refugos
Quem vive na letargia…
É triste ver meu pais
Gratificando juiz
Com auxilio moradia.

Hélio Crisanto

O Nordeste tem sido a grande escola
Dos maiores poetas cantadores
Sustentáculos e eternos defensores
Da origem maior que nos consola
Inspirados no ritmo da viola
Nos acordes de arame na madeira
Cantam de improviso a vida inteira
E o que cantam somente Deus ensina
Venham ver a viola nordestina
Defendendo a cultura brasileira.

Sebastião da Silva

Eu não estava dormindo
Apenas dei um cochilo
Sonhei que estava pescando
Nas águas do rio Nilo
Pescando cada traíra
Que a cabeça dava um quilo.

Zé Bernardino do Pajeú

Doutor de cara fechada
Sem conhecer o caminho
Pergunta pra um garotinho
Descalço, roupa rasgada
Me responda se esta estrada
É a que vai pra Orós?
Raciocínio veloz
Diz a criança ao doutor
Num sei não, mas se ela for
Vai fazer falta pra nós.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 09 de fevereiro de 2019

A SABEDORIA DO CANTADOR REPENTISTA

 

A SABEDORIA DO CANTADOR REPENTISTA

Mote:

Pra quê tanta ganância e correria
Se ninguém veio aqui pra ficar

 

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 02 de fevereiro de 2019

UM MOTE BEM GLOSADO (GLOSA DE JOSÉ DE SOUZA DANTAS)

 

UM MOTE BEM GLOSADO

Colaboração de Pedro Malta

José de Souza Dantas glosando o mote:

Todo dia me sento meia hora
No batente da casa da saudade.

No lugar que nasci e fui criado,
Todo dia a saudade me aperta,
Bate forte em meu peito e me alerta
Pra lembrar bons momentos do passado,
Tiro um tempo para ficar sentado
Meditando com mais profundidade,
Confiante sentindo-me à vontade
Vendo o mundo, a paisagem, fauna e flora.
Todo dia me sento meia hora
No batente da casa da saudade.

Toda vez que visito o meu sertão,
Passo uns dias na casa dos meus pais,
A saudade que sinto dói demais
Que não cabe dentro do coração,
Tenho viva toda recordação
De papai na nossa propriedade,
Que partiu para outra eternidade,
Não está entre nós e foi-se embora.
Todo dia me sento meia hora
No batente da casa da saudade.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 05 de janeiro de 2019

QUATRO MOTES NORDESTINADOS

 

 
QUATRO MOTES NORDESTINADOS

 

José de Sousa Dantas glosando o mote:

Vejo o corpo da terra se queimando
na fogueira da seca nordestina

O barreiro tá seco esturricado
não tem água no açude e na barragem
só tem nuvem cinzenta de estiagem
todo eito do campo está pelado
não existe alimento para o gado
o cinzeiro no espaço faz cortina
foram embora meus galos de campina
e os que ficam não estão cantarolando
Vejo o corpo da terra se queimando
na fogueira da seca nordestina.

Falta rama no pé de juazeiro
não tem pasto na roça e no baixio
na vazante do açude e nem do rio
não tem sombra de angico e de pereiro
já morreram mofumbo e marmeleiro
é preciso a intercessão divina
para a chuva molhar toda campina
ninguém sabe, só Deus quem sabe quando!
Vejo o corpo da terra se queimando
na fogueira da seca nordestina.

* * *

Carlos Aires glosando o mote:

Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

As cidades são belas, e eu não nego
Lindas praças com ruas e avenidas
Clubes festas e coisas divertidas
Mas, aqui vivo triste e não sossego
Essa dor que no peito hoje carrego
Bate forte e machuca o coração
Traficante, bandido e ladrão
Vive solto e eu preso atrás da grade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

Sempre lembro das coisas lá da roça
A casinha singela que eu morava
Tinha portas, porém não precisava
De fechá-las porque a gente nossa
Mesmo pobre abrigada numa choça
Enfrentando a pobreza e a sequidão
É incapaz de fazer uma invasão
Pois respeita a nossa privacidade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

Eu aqui tenho a casa arrumada
Com estante, sofá, televisor
Quando escrevo é num computador
Confortável é cama arrumada
Não me esqueço do cabo da enxada
Do machado, da foice, do facão
Nem da vida na minha região
Que eu vivia em plena liberdade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

O conforto é bom e necessário
E a cidade isso tudo oferece
Quem viveu lá na roça não esquece
O lugar que nasceu mesmo precário
Empregado eu virei um operário
Vivo sempre às ordens do patrão
Recordando do gado e do alazão
E assim vou vivendo de saudade
Se hoje vivo morando na cidade
Não me esqueço da vida no sertão

* * *

Alexandre Morais glosando o mote:

O caçote lambe o chão
Da cacimba que secou.

Quando a seca se espalha
Na paisagem sertaneja
Um bode triste bodeja
Pois o berro é sua fala
Quem pudesse transformá-la
Nos dizia: – ele berrou
Dizendo a vida mostrou
Que quando as águas se vão
O caçote lambe o chão
Da cacimba que secou

A campesina serena
Volta cedo do roçado
Expondo o corpo suado
Que o sol ressecou sem pena
Nasceu branca, tá morena
E com jeito que gostou
Diz o que alguém ensinou
Aqui no nosso torrão
O caçote lambe o chão
Da cacimba que secou.

Uma abelha voa perdida
Em busca de água e flor
Toda folha perde a cor
Gafanhoto perde a vida
Uma vaca recém parida
Do vivente que gerou
Lambe o beiço, diz eu dou
Com saliva a salvação
E o caçote lambe o chão
Da cacimba que secou.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 29 de dezembro de 2018

CANTADORES POPULARES - 12

 

CANTADORES E POETAS POPULARES (12)

Respeitada a ortografia da época

Germano da Lagôa

DO CÉO TERÁS O CASTIGO

Agora ficou provado
Que procedes de Caim;
Nunca vi um tronco ruim
Dar um fructo apreciado.
Tens um instincto malvado.
Do direito és inimigo 
Eu em verdade te digo
Que o diabo é teu socio;
Tú com Deus não tens negocio;
Do Céo terás o castigo!

Alma que o diabo engeitou,
Lingua que a terra não come;
Maldicto seja o teu nome;
Na terra que te criou,
O diabo te atentou,
Tomaste elle por amigo;
Eu te renego e maldigo!
Coração vil e tyranno,
Se permaneces no engano,
Do Céo terás o castigo!

***

O VIGÁRIO DO TEIXEIRA

Não deve ser maltratado
Quem tem bom procedimento,
Quem desde o seu nascimento
E’ do povo apreciado;
Só tú o tens aggravado
Com tua lingua grosseira;
Abandona essa carreira
Que tú mesmo comprehendes
Que és malvado se offendes
Ao vigário do Teixeira.

Raça de animal amphibio.
Conhecido cangaceiro,
Assassino e desordeiro,
Coração perverso e tibio,
Falla de um de teu calibio;
Que tenha a tua maneira;
Tua lingua traiçoeira
Até aos santos maltrata,
Somente tu achas falta
No vigário do Teixeira.

Caçando nos quatro ventos
Que comprehendem o Brasil,
Não ha animal tão vil
Que tenha os teus pensamentos,
Que são mais sanguinolentos
Do que a cobra mordedeira.
Aranha caranguejeira,
Coração de iniquidade,
Abusaste da bondade
Do vigário do Teixeira.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 22 de dezembro de 2018

DEZ MESTRES DO IMPROVISO

 

DEZ MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE GRACEJO

O grande cantador repentista João Paraibanno (1952-2014)

João Paraibano

Toda noite quando deito
um pesadelo me abraça
meu cabelo que era preto
está da cor da fumaça
ficou branco após os trinta
eu não quis gastar com tinta
o tempo pintou de graça.

Quando o dia começa a clarear
Um cigano se benze e deixa o rancho
A rolinha se coça num garrancho
Convidando um parceiro pra voar
Um bezerro cansado de mamar
Deita o queixo por cima de uma mão
A toalha do vento enxuga o chão
Vagalume desliga a bateria
Das carícias da noite nasce o dia
Aquecendo os mocambos do sertão.

Me lembro da minha mãe
Dentro do quarto inquieta
Passando o dedo com papa
Nessa boca analfabeta
Sem saber que um dedo rude
Tava criando um poeta.

* * *

Rogaciano Leite

Eu nasci lá num recanto
Do sertão que amo tanto
Onde o céu desdobra o manto
Feitos de rendas de anil
Onde o firmamento extenso
É um grande espelho suspenso
Refletindo o rosto imenso
Da minha pátria o Brasil.

* * *

Rena Bezerra

Lembro bem do meus banhos no riacho
De fazer arapuca lá na mata
Tomar banho escondido na cascata
E descer ribanceira mundo abaixo.
De subir no coqueiro e tirar cacho
No curral tomar leite sem ter nata
Ver os pássaros conduzindo uma cantata
E eu ficar lhes ouvindo bem contente,
Se o passado voltasse pro presente
Mataria a saudade que nos mata.

* * *

Henrique Brandão

Um aboio penoso do vaqueiro
Um cavalo relincha no roçado
A cancela, por onde passa o gado
A cafofa do pé de umbuzeiro
Um boi “brabo” cair no formigueiro
A cacimba na foz do ribeirão
O cuscuz, carne assada e o pirão
Um menino dizendo poesia
Uma porca fuçando a lama fria
Tudo isso são coisas do sertão.

Vaquejada, reisado e cantoria
Uma roça com milho pendoando
Um cigarro de palha, vez em quando
No programa de rádio, cantoria
A cigarra tocando a melodia
Um jumento deitado no oitão
Um sela, perneira e um gibão
Às seis horas louvar Nossa Senhora
Logo a lua se “amostra” sem demora
Tudo isso são coisa do sertão.

* * *

Otacílio Batista

Minha mãe me criou dentro do mar
Com o leite do peito de baleia
Me casei no oceano com a sereia
Que me fez repentista popular
Canto as noites famosas de luar
E linguagem das brisas tropicais
Entre abraços e beijos sensuais
Nos embalos das ondas seculares
Conquistei a rainha mãe dos mares
E o que é que me falta fazer mais?

* * *

Zé de Cazuza

O pobre do retirante
Viaja sem rumo certo
Quando está fatigado
Acha um juazeiro perto
Parecendo um guarda-chuva
Que Deus armou no deserto.

* * *

Guaipuan Vieira

É bem feliz quem escreve
E vê sua obra estudada
É imortal quem tem vida
Vida diversificada
Já conquistou sua glória
Prá no céu fazer morada.

* * *

Joaquim Venceslau Jaqueira

Eu andei de déo em déo
E desci de gáio em gáio
Jota a-já, queira ou não queira.
Eu não gosto é de trabaio,
Por três coisa eu sou perdido:
Muiê, cavalo e baraio!…

* * *

Inacio da Catingueira

Há dez coisas neste mundo
Que toda gente procura:
É dinheiro e é bondade,
Água fria e formosura,
Cavalo bom e mulé,
Requeijão com rapadura,
Morá sem sê agregado,
Comê carne com gordura.

* * *

Bob Motta

Nem ostra, nem catuaba,
nem caldo de tubarão,
culhão de touro ou pirão,
nem mesmo, uma caldeirada;
vai levantar a “finada”,
que vive olhando p’ro chão.
Nem pentelho de barrão,
lhe digo, na minha verve;
isso de nada lhe serve,
quando se acaba o tesão


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 08 de dezembro de 2018

UM MOTE FEMEEIRO

 



Silva Filho glosando o mote:

Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar

Quatro grandes maravilhas
Que se resumem em três
Mulher, Cachaça (na vez)
Valem por quatro partilhas;
Sem auxílio de planilhas
Quem quiser vai comprovar
Como quem sabe pescar
E tem domínio de proa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.

Quando entra no forró
Pra ficar bem abraçado
Quer o homem um rachado
Que desata qualquer nó;
Nos confins dum cafundó
Onde se queira sondar
Ninguém fica sem um par
Ninguém espera à toa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.

Num jogo de futebol
Mesmo sendo só pelada
Os olhos da mulherada
Brilham como luz do sol;
Como que um arrebol
Ou um campo estelar
Vale a pena contemplar
Qualquer moça ou coroa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.

Melhor ainda na praia
Com ela quase despida
Quase que toda lambida
Por um sol que se espraia;
Sem obstrução de saia
Tem poupança pra mostrar
Todos querem degustar
Todos querem fazer loa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.

Se o momento é de samba
Como quer o carnaval
Logo vem um vendaval
Que arranca a mutamba;
Não confunda com muamba
Pra não dar o que falar
É melhor se preparar
Pra entrar nessa canoa
Pensou numa coisa boa
Mulher não pode faltar.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 01 de dezembro de 2018

CANTADORES E POETAS POPULARES - 10

 

 

Uma histórica e magnífica obra da cultura popular nordestina, da autoria de Francisco das Chagas Batista

Respeitada a ortografia da época

Célebre peleja de Manoel Cabeceira com Manoel Caetano

Manoel Caetano

– Deus vos guarde, meus senhores,
Que estou cantando bem ;
Quem é o Manoel Cabeceira,
Dos cavalleiros que vêm ?
Pode ser cantor de fama, –
Mas, p’ra mim não é ninguém .

Manoel Cabeceira

– Negro Manoel Caetano,
Focinho de Papavento,
Tanto eu tenho de vermelho
Como tú tens de cinzento :
Porque entraste em Moreno
Sem o meu consentimento ?

Manoel Caetano

– Não preciso de licença,
Para cantar no Moreno :
Eu para dar em cantor
Occupo qualquer terreno;
Homem que rouba cavallo
Passa a noite no sereno.

Manoel Cabeceira

– Negro, trate com respeito,
Não seja tão atrevido ;
Passo a noite no sereno
Atraz de negro fugido;
Você pode ser captive
E andar aqui escondido.

Manoel Caetano

Senhor Manoel Cabeceira,
Pode inchar o seu «gogó».
Quanto mais estremecer
Mais eu lhe dou de cipó ;
Hoje eu lhe trago apertado
Como rato no quixó.

Manoel Cabeceira

– De onde veio esse negro
Do cabello pixaim ?
Que está parecendo ser
Da familia de Caim ?
Nunca gostei de mulato
Porque é gente ruim !

 

Manoel Caetano

– Voce me chama de negro
Do cabello pixaim ?
Meu cabello leva banha
E o seu leva toicim ;
Me diga “seu” sarará.
Quanto você deu por mim ?

Manoel Cabeceira

– Negro, encurta essa lingua,
Vae conhecer teu logar;
Olha que eu sou homem branco
Que nasci para mandar ;
Eu não sou da tua igualha,
Muleque pé de “xambar”.

Manoel Caetano

– Me comparou com a cabra
Sem eu ser do seu chiqueiro ?
Está me chamando negro 
Sem eu custar seu dinheiro ?
Se quizer ser respeitado,
Respeite o negro, primeiro.

Manoel Cabeceira

– Negro, podes ir embora,
Porque de ti não preciso ;
Tú não podes cantar mais
No terreno em que eu piso ;
Aqui, na Chã do Moreno
Caso, confesso e baptiso.

Manoel Caetano

– Você a mim não baptisa,
Porque já sou baptisado,
Não confessa e nem me casa,
Porque eu já sou casado;
Quedê a tua batina
Vigário descoroado !…

Manoel Cabeceira

– Senhor Manoel Caetano,
Eu sou Manoel Cabeceira,
Tenho montes elevados
Que ninguém sobe a ladeira;
Hoje aqui você verá
Isso, quer queira ou não queira.

Manoel Caetano

– Senhor Manoel Cabeceira,
Mais alta é a Borborema,
Mas eu subo em qualquer canto
Sem temer que o peito gema;
Quanto mais você que é baixo
E que já tomei-lhe a extrema.

Manoel Cabeceira

Manoel Caetano, eu agora.
Preciso te declarar
Que no assumpto cantoria
Nunca achei, tomára achar
Um cantador de viola
Que me fizesse calar.

Manoel Caetano

– Então eu vou dar um páo
Para você se atrepá,
No tronco, eu boto : uma onça,
No meio um maracajá.
Em cada galho um inxú
E no olho um arapuá.

Manoel Cabeceira

– Eu passo fogo na onça
E derrubo o maracajá,
Chamusco os inxús a faixo,
E queimo o arapuá ;
Deixo o páo limpo indefeso
P’ra você nelle trepá.

Manoel Caetano

Saiba, senhor Cabeceira
Que eu vinha em sua batida
Como caetetú por lóca,
E mosquito por ferida ;
Você caiu-me nas unhas, ‘
Vae encontrar grande lida.

Manoel Cabeceira

– Saiba, senhor Caetano,
Que eu andava em sua fama
Como macaco por côco,
Como trahira por lama ;
E o “peixe aonde se mata
No mesmo lugar se escama.

Manoel Caetano

– Hoje aqui ha de vê
Como Caetano dá nó,
Como Cabeceira cai
Como peixe no anzó;
 que não podes commigo,
Vai caximbá que é mió.

Manoel Cabeceira

– A ponte de Caxangá,
Foi feita por giringonça ;
Peia é comer de negro,
Negro é comer de onça;
Te prepara p’ra apanhar
Negro da cabeça sonsa.

Manoel Caetano

– A ponte de S. Antonio
Foi feita por certa escala;
Bacalhau comer de cabra,
E cabra comer de bala;
Você pensa que me dá
Mas você arrasta a mala.

Manoel Cabeceira

– Manoel, vi tua familia
Em Punaré de Bondó;
Tua mãe vendia tripas,
E o teu pae mocotó;
Teu avô vendia azeite
Lambuzava tua avó.

Manoel Caetano

Tambem vi tua familia
Lá no porto de Macáu:
Teu pae era um cabra velho
Tocador de birimbáu:
Tua mãe uma curuja
Morava em ôco de páu.

Manoel Cabeceira

– Hontem eu vi tua mãe
Deitada dentro de um ninho;
Mais tarde foçando a lama,
Com uma argola no focinho,
Mastigando nó de canna
Com um bando de bacorinho.

Manoel Caetano

– Eu tambem vi tua mãe
Na capoeira amarrada,
Comendo capim de planta
Se espojando encabrestada ;
Parece muito contigo,
Tem até a cor rudada.

Manoel Cabeceira

-“Seu” Capitão João de Mello
Dê licença, sem demora,
E veja eu rasgar um negro
No cachorro da espora!

Manoel Caetano

– Senhores que estão na casa
Do capitão João de Mello
Venham ver como é que um negro
Estraçalha um amarello!

O dono da casa, vendo que os cantadores queriam brigar, mandou suspender a cantoria e procurou evitar o conflicto.

Os dois contendores olharam-se, comprehenderam que ambos eram bons repentistas e tinham coragem igual. Então, apertaram-se as mãos e se tornaram bons camaradas.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 24 de novembro de 2018

CANTADORES E POETAS POPULARES - 9

 

 

Uma histórica e magnífica obra da cultura popular nordestina, da autoria de Francisco das Chagas Batista

 

Respeitada a ortografia da época

Francisco Romano (Romano do Teixeira)

MARTELLO DE ROMANO COM IGNACIO

Romano

Ignacio, vieste a Patos
Procurando quem te forre,
Volta p’ra traz meu negrinho
Que aqui ninguém te soccorre;
E quem cáe nas minhas unhas
Apanha, deserta ou morre.

Ignacio

-“Seu” Romano, eu vim a Patos
Pela fama do senhor,
Que me disseram que era
Mestre e rei de cantador ;
E que dentro de um salão
Tem discursos de um doutor.

Romano

– Ignacio, meu pae foi pobre.
Por isso eu não estudei.
Porem, as primeiras letras ‘
Na escola as decorei ;
Mas, á falta de recursos,
Meu negro, eu não me formei.

Ignacio

– Eu bem sei que “seu” Romano
Sabe ler , sabe contar.
E não é como o Ignacio
Que não sabe assoletrar ;
Mas nasceu com dote e sina
No mundo para cantar.

Romano

– Ignacio, o meu martello,
Por bom ferreiro é forjado ;
Tanto elle é bom de aço,
Como está bem temperado ;
A forja onde elle foi feito
E’ toda de aço blindado.

Ignacio

-“Seu” Romano, eu lhe garanto
Que resisto ao seu martello ;
Ao talho do seu facão.
Ao corte de seu cutello ;
Se eu não morrer na peleja.
Lhe vencerei no duelo.

Romano

– Ignacio, eu quando me zango
Tenho a força do zebú ;
P ’ra gente de tua côr,
Sou peor que canguçú ;
Rasgo, estraçalho, devoro.
Mato negro e como crú.

Ignacio

“Seu” Romano, eu me zangando,
Devoro, sem compaixão.
Corto mais do que navalha.
Furo mais do que ferrão.
Queimo mais que fogo em braza,
Faço tremer coração.

 

Romano

– Ignacio, se tu pretendes
Contra mim te armar em guerra,
Verás eu tirar-te a vida
Deixar-te inerme, na terra,
E botar no teu cadáver,
Serra por cima de serra.

Ignacio

-‘‘Seu” Romano, eu tenho visto
Cantor que diz que é sabido,
Vir pelejar contra mim,
Mas, quando se ver perdido,
Chora pedindo desculpas
Dizendo: – Eu estava illudido.

Romano

– Ignacio as tuas façanhas,
Eu dellas não faço conta,
Tú te oppondo contra mim
Dás murro em faca de ponta ;
Eu monto no teu cangote
Mas no meu ninguém se monta.

Ignacio

-“Seu” Romano não faz conta
Porem eu hoje desmancho
Tudo o que o senhor fizer:
Toco-lhe fogo no rancho.
Cuide em si que o negro velho
Dá-lhe um serviço de gancho.

Romano

– Ignacio, eu estando irado,
Faço estremecer o sul!
Solto bomba envenenada
Com raios de fogo azul;
Tenho a força de Samsão
E a coragem de Saul.

Ignacio

– E se Ignacio se zangar
Se abala o sol, o mar geme ;
Estremece a athmosphera,
Cae estrella, a terra trem e;
Pega fogo o mundo em roda
E nada disso o negro teme…

Romano

– Hoje aqui tem de se ver
Relampos de caracol,
Os nevoeiros pararem
E eclypsar-se o sol;
Seccarem as aguas do mar
E eu pescar baleia de anzol.

Ignacio

– Hoje aqui tem de se ver
Como o ferreiro trabalha,
Como se caldeia o ferro,
Como o aço se esbandalha ;
Como se broqueia a pedra
Como se estoura a metralha.

Romano

– Ignacio, olha que eu tenho
Força e intelligencia,
Não me falta no meu estro
A veloz reminiscência ;
Muitas vezes tenho dado
Em cantor de alta sciencia.

Ignacio

– Seu” Romano eu só garanto
E’ que sciencia não tenho,
Mas para desenganal-o
Cantar consigo hoje venho;
Abra o olho, cuide em si,
Pra não perder seu desenho.

Romano

– Meu Deus, o que tem Ignacio
Que no cantar se atrapalha ?
Sustenta o ferro na mão,
Que estou na primeira entalha,
Teu ferro está se virando
E o meu não mostra falha.

Ignacio

– Meu Deus, que tem “seu” Romano
Parece que está doente ?
Está temendo a desfeita,
Ou o bote da serpente,
Ou está com medo de Ignacio
Ou com vergonha da gente.

Romano

– Ignacio, eu tenho cantado
Com muito homem de tino;
No sul, com Manoel Carneiro,
No Sabugy, com Ugolino,
Como não canto comtigo
Que és fraco e pequenino ?

Ignacio

-“Seu” Romano, abra os olhos
Com esse preto moreno
Tenha medo da botada
Da serpente e do veneno ;
Eu já tenho visto grande
Apanhar d’um fraco e pequeno.

Romano

– Ignacio, a tua fama
E’ só lá na Catingueira,
Para o sacco da mãe d’agua,
Tú não sobes a ladeira;
Juro com todos dez dedos
Que tú não vaes ao Teixeira.

Ignacio

– Meu branco não diga isso
Que o senhor não me conhece,
Veja quando o sol sair
Com a luz resplandece
Olhe para os quatro lados
Que o negro velho apparece.

Romano

– Ignacio eu inda me aballo
Lá da serra do Teixeira,
Levo meu mano Virissimo
Vamos dar-te uma carreira.
Dar-te uma surra em martello
E tomar-te Catingueira.

Ignacio

– Meu branco, eu dou-lhe um conselho.
Se voimincê me attende;
Se for para nós brincarmos
Pode ir que não me offende,
Mas p’ra tomar a Catingueira
Não vá não que se arrepende.

Romano

– Ignacio, tú nunca viste
Eu mais meu mano em serviço.
Somos como dois machados
No tronco de um páo macisso;
Um é raio abrasador,
Outro é truvão inteiriço.

Ignacio

– Eu bem sei que ‘‘seu” Veríssimo
No martello é rei c’roado;
Mas, leve elle á Catingueira
Muito bem apadrinhado,
E verá como é que apanha
0 padrinho e o afilhado.

Romano

– Eu já tenho dado em touro
Que quando ronca estremece.
Tenho domado leão
Até que elle me obedece;
Já dei em muitos cantores,
Mas nunca achei quem me desse !

Ignacio

– Com touros e com leões,
“Seu” Romano já brigou,
Mas se o povo se acalmar
Eu hei de mostrar quem sou;
Quero dar em “seu“ Romano
Que diz que nunca apanhou.

Romano

– Meu Deus, que tem este negro
Que no cantar se maltrata !
Agora, Romano velho
Canta um anno e não se mata;
Quanto mais canta mais sabe
E nó que dá ninguém desata.

Ignacio

– Eu bem sei que “seu“ Romano
Está na fama dos aneis;
Canta um anno, canta dois,
Canta seis, sete, oito e dez;
Mas o nó que der com as mãos
Eu desato com os pés.

Romano

– Latona, Cybele, Rhéa,
Ires, Vulcano, Neptuno,
Minerva, Diana, Juno,
Amphithrite, Androchéa,
Venus, Climene, Amaltéa,
Plutão, Mercúrio, Theseu,
Jupiter, Zoilo, Perseu.
Apollo, Céres, Pandora;
Ignacio desata agora
O nó que Romano deu!

Ignacio

-‘”Seu“ Romano, deste geito
Eu não posso acompanhal-o;
Se desse um dó em martello
Viria eu desatal-o;
Mas como foi em sciencia
Cante só que eu me calo.

Romano

– Ignacio, eu reconheço
Que és bom martellador,
Mas, agora que apanhastes
Dirás que tenho valor;
Porque eu em cantoria
Não temo nem a doutor.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 17 de novembro de 2018

CANTADORES E POETAS POPULARES - 8

CANTADORES E POETAS POPULARES (8)

 

 

Uma histórica e magnífica obra da cultura popular nordestina, da autoria de Francisco das Chagas Batista

Respeitada a ortografia da época

 PELEJA DE ROMANO COM CARNEIRO

Carneiro

– Romano ha muito tempo
Que eu estou bem informado
Que você é bom cantor,
Eu vivia preparado
Para ouvil-o, felizmente
Nosso dia foi chegado.

Romano

– Carneiro eu não sou tanto
0 quanto o povo lhe diz
Mas, queira Deus que você
Commigo seja feliz;
Desde ja faça seu plano
Porque o meu eu já fiz.

Carneiro

– Romano eu desejava
Saber qual foi a razão,
Que obrigou a você
Descer lá do seu sertão:
Se vem á matta cantar
Ou traz outra precisão?

Romano

– Carneiro eu vim á matta
Pela precisão que tinha
De comprar para negocio
Umas cargas de farinha,
Se não fosse o interesse
De passeio eu cá não vinha.

Carneiro

– Porem, porque o senhor
Não procurou um lugar
Mais perto de seu sertão
Onde podesse comprar;
Suas cargas de farinha
E de lá mesmo voltar.

Romano

– Carneiro a minha resposta
É curta porem exata,
Eu quiz vir até Pindoba
Por ser mais dentro da matta;
Ha abundancia de roça
E a farinha é mais barata.

 

Carneiro

– Romano você me diga.
De Pindoba quando sahe;
Se volta quero saber
Se segue p’ra onde vae,
Não é feliz o cantor
Que nas minhas unhas cae.

Romano

– O que eu pretendo fazer
Nunca gostei de contar.
Mesmo o senhor não é padre
Nem eu vim me confessar.
E eu não sou réo de policia
P’ra o senhor me interrogar.

Carneiro

– Romano chegou o dia
Que eu hei de ficar sciente
Se você é bom, cantor
Como me diz muita gente,
Eu hoje sei se o povo
Me falla a verdade ou mente.

Romano

– Carneiro você mais tarde
Tem disso provas sobradas,
Não se esqueça do rifão
Que onde ha campo e espadas
Para quem quer combater
As razões são escusadas.

Carneiro

– Romano eu em cantoria
Possuo fama e valor,
O meu nome é respeitado
Por todo e qualquer cantor;
Este lugar me pertence
Delle só eu sou senhor.

Romano

– Francisco Solano Lopes
Teve a fatal illusão.
De propor guerra ao Brasil
Perdeu a vida e a acção
E deixou o Paraguay
Sujeito á nossa nação.

Carneiro

– Romano se este é seu plano,
Eu lhe juro que elle erra,
Pois tenho força e coragem
P’ra deffender minha terra;
Sou um desses marechaes
Que se destrae com a guerra.

Romano

– Napoleão Bonaparte
Foi sem par como guerreiro,
Mas pelo exercito inglez
Foi feito prisioneiro
Isto que se deu com elle
Hoje se dá com Carneiro.

Carneiro

– Romano eu para cantar
Tenho bastante estudado,
E hoje então já me acho
Em Pindoba entrincheirado;
Aqui nunca entrou cantor
Que não sahisse apanhado.

Romano

– Tudo depende da sorte
A fortuna é lisongeira,
Tem se visto general
Abandonar a trincheira !
Eu de apanhar não me lembro
Minha victoria é certeira.

Carneiro

– Romano este terreno
Onde eu moro é circulado
Por um muro muito forte
Que nunca foi abalado.
Eu quero lhe prevenir
Que você veio enganado.

Romano

– O forte de Humaytá
Causava a todos, terror
Mesmo assim não inpedio
Que alli passase vapor ;
Eu enganado não venho
Quem se engana é o senhor.

Carneiro

– Romano a minha casa
É dentro de um grande forte,
Que quem se atrever tomal-o
Diga que nasceu sem sorte;
Cantador que eu prendo nelle
Só se liberta por morte.

Romano

– Já tem se visto paredes
De pedra e cal aluirem,
Por força superior
Tombar, pender e cahirem !
Abrir-se fortes prizões
E os presos dellas sahirem.

Carneiro

– Romano eu nunca encontrei
Quem me puzesse embaraço,
O meu martello é de bronze,
O cabo delle é de aço…
Nunca aqui veio cantor
Que fizesse o que eu faço.

Romano

– Carneiro eu não conheço
Quem com prozas me admire,
Não ha bronze que eu não tore,
Nem aço que eu não vire,
Nem cantador de seu geito
Que numa hora eu não tire.

Carneiro

– Romano não resta duvida
Que você está illudido,
Garanto que seu orgulho
Desta vez é abatido.
Nove mezes me abarraco
Mas não me dou por vencido.

Romano

– Carneiro eu não tenho orgulho,
Sou manso como um cordeiro,
Porem ninguém com parolas,
Não me convence ligeiro.
Me abarraco nove mezes
Até vencer o Carneiro.

Carneiro

– Romano você não sabe
Quem eu sou quando me assanho,
Não deixo na minha terra
Prosar cantador extranho;
Eu sou um Carneiro velho
Que morre pelo rebanho.

Romano

– Carneiro e eu custumo
Em qualquer parte que chego
Obrigar cantor valente
Se humilhar, chegar-se a rego.
Você é Carneiro velho
Mas hoje fica borrego.

Carneiro

– Romano você perdeu-se
Nesta viagem que fez,
Fatalmente o meu collega
Tem de deixar desta vez:
Os filhos na orphandade
E a mulher na viuvez.

Romano

– Do dizer para fazer
Vai muita coisa , Carneiro.
Você pretende vencer-me
Mais eu o venço primeiro;
É quando vira o feitiço,
Por cima do feiticeiro.

Carneiro

– Romano você me diga
Por quaes terras tem andado,
Quantos livros já tem lido
Que tempo tem estudado.
Quantos annos tem de idade,
Que cantores tem tirado ?

Romano

– Tenho trinta e cinco annos,
Sou muito pouco corrido.
Quasi nada estudei
Poucos livros tenho lido,
Vinte cinco cantadores
De fama tenho vencido.

Carneiro

– Romano, eu até aqui
Não achei competidor,
Sou um Carneiro orelhudo,
Meu chifre causa terror;
Minha lã é uma couraça
Que assombra cantador.

Romano

– Minha vinda nesta terra
Só foi pegar-lhe, Carneiro,
Cortar-lhe a lã e o chifre
Deixal-o prisioneiro,
Assignal-o para sempre
Desterral-o do chiqueiro.

Carneiro

– Romano eu não desconheço
No cantar sua eloquência,
Porém não é em martello
Que o cantor mostra sciencia;
Nas letras é que se sabe
Quem é que tem competência.

Romano

– Carneiro vamos então
Em um A B C completo :
Com o A escrevo Anacleto
André, Augusto, Abrahão,
Amaro, Athanasio, Antão,
Apollinario, Adelino,
Agostinho, Alexandrino,
Aprigio Anthero, Adriano,
Anastacio, Aureliano,
Aleixo, Ambrosio, Avelino.

Carneiro

– Romano, eu devo ser franco
Pois, não sou absoluto;
Confesso que desse geito
Não lhe acompanho um minuto;
Me considero vencido;
Cante só que eu o escuto.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 10 de novembro de 2018

CANTADORES E POETAS POPULARES - 7

 

 
CANTADORES E POETAS POPULARES (7)

Uma histórica e magnífica obra da cultura popular nordestina, da autoria de Francisco das Chagas Batista

Respeitada a ortografia da época 

Leandro Gomes de Barros – O CASAMENTO

Quem é que casa-se agora
Vendo o mundo como está?
Tudo ficou as avessas,
De dez annos para cá;
Farinha de mil e quinhentos,
Feijão de mil e duzentos,
E carne a dez tostões o kilo ;
Pois não ha quem não se vêxe
No rio não ha mais peixe.
Caça no matto ? nem grillo!

Case-se num tempo desse,
Vá constituir família,
Logo o que primeiro compra
É a roupa e a mobilia;
Ha de preparar a casa
Que é onde o pobre se arrasa:
É preciso fingir-se nobre;
Dizem, e eu certifico,
Que não ha defunto rico,
Nem pode haver noivo pobre;

Casar-se, fazer-se chefe
De um exercito incorrigivel !
Fazer cruz cravar-se nella
Lutar com genio impossível !
Trabalhar lutar com a sorte,
Captivar-se até a morte;
Isso é o que acho cascudo,
Acho bom que o povo diga :
Não és mestre de bexiga,
Como aguentas o canudo ?

Casamento é um acto serio
Que tem o que analisar.
Sustentar uma mulher
Do que ella precisar;
Fazer compras no mercado
Comprar-lhe roupa e calçado
Leque, chapéos, extractos
E agora ninguém falle
Em festa de igreja e baile
Reuniões e theatros.

Vamos agora na casa
Ver o que tem precisão,
Vamos entrar na cosinha
Principiar do fogão,
Precisa comprar chaleira,
Uma grelha, uma assadeira,
Caçarola p’ra guisar,
Compra isso já a força.
Diz a mulher : compre louça,
Não tenho em que cosinhar.

Compra apparelho de louça
Para a mesa de jantar,
Compra enfeite para a sala
Para ninguem censurar,
Conserva jarro enfeitado
Copo que não seja usado
Sustenta a maldicta pompa
Ella os mais velhos dá fim,
Diz sorrindo: só assim
Um novo agora se compra.

Antes de haver este mundo
Tudo do nada constava,
Nem terra, nem luz, nem ar,
Nesta epocha fluctuava;
Deus sem precisar de estudo
Em seis dias formou tudo
Que hoje vemos existir
De cada bicho um casal.
A Adão não deu igual
Para elle não se affligir.

Adão se vendo criado
A tudo superior,
Mas, não tinha companhia
Fazia queixa ao Senhor,
Deus o fez adormecido
Sem que lhe fosse sentido,
Tirou delle uma costella
E della fez a mulher.
Dizendo está o que quer,
Se arrume agora com ella.

Adão julgou-se tão rico
Que não soube calcular,
Eva era gorda e formosa
Digna de Adão a amar,
Depois qual o resultado ?
Eva com pouco cuidado
Comeu da fructa privada,
Por causa dessa comida
Acabou Adão a vida
No condurú da enxada.

Se Deus o tem feito agora
Elle não casava assim,
Embora elle amasse a Eva
Mas via o tempo ruim,
Havia de imaginar
Primeiro ia se arrumar,
Por outra qualquer maneira.
Ou talvez esmorecia;
Que em tempo de carestia,
Mulher não é brincadeira.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 03 de novembro de 2018

CANTADORES E POETAS POPULARES - 6

 

CANTADORES E POETAS POPULARES - 6

Uma histórica e magnífica obra da cultura popular nordestina, da autoria de Francisco das Chagas Batista

Respeitada a ortografia da época

 Manoel Leopoldino Nogueira e Bernardo Serrador

Serrador

-Vou pintar a desventura
Do infeliz sertanejo.
Segundo o que sei e vejo,
Essa infeliz creatura
Pode ter boa figura.
Porem tem a maldição;
Quer no inverno ou no verão.
Seja o anno bom ou máo,
Só come raiz de páo,
Sertanejo no sertão.

Nogueira

Este poéta, por certo,
E’ um matuto infeliz
Que nem sabe o que é que diz;
Pôe-se a fallar no dezerto
Porem agora de perto,
Queira prestar-me attenção;
Matuto soffra o carão.
Aguente eu reprehendel-o;
Não vive desse modélo,
Sertanejo no sertão.

Serrador

– Se por infelicidade
Não chove logo em Janeiro,
0 sertanejo é o primeiro
Que soffre necessidade;
Bem contra sua vontade,
Recorre logo ao pilão;
E tal seja a precisão
Que come crú o cherem;
E’ esse o prazer que tem.
Sertanejo no sertão.

Nogueira

– Por isso não, que na matta
Chove quasi o anno inteiro.
Porem se encontra brejeiro
Com precisão bem ingrata
Só se sustenta em batata.
Couve, bredo e fructa-pao,
Carangueijo e camarão,
Beijù molle, angù de massa,
E não é assim que passa
Sertanejo no sertão.

Serrador

Sertanejo, está provado
Que não tem nem um prazer;
Não possúe o que comer
E só vive flagellado;
De tudo é necessitado,
Isso quer queira, quer não;
Quasi sempre a precisão
Que o vêxa é muito seria;
Sempre vive na miséria.
Sertanejo no sertão.

Nogueira

– O pessoal sertanejo
Sempre vive na fartura;
Come carne e rapadura,
Leite, coalhada e queijo;
Come, a matar o desejo,
Perú, gallinha e capão;
Lombo, arroz , bife e leitão
Peixe, linguiça e toucinho,
Come dôce e bebe vinho,
Sertanejo no sertão.

 

Serrador

Sertanejo, com certesa
Começa desde a infancia
A viver na circumstancia.
De soffrer fome e nuesa;
Não sabe o que é grandesa
De dinheiro em sua mão;
Só vive em revolução
Quando a secca se approxima;
Eu não sei porque intima,
Sertanejo no sertão.

Nogueira

Sertanejo quando nasce
Tem rêde para dormir,
Cobertor p’ra se cobrir,
E cama para deitar-se;
Tem recurso com que passe;
Gado, animal, criação;
E, conforme a posição,
Que até engenho tem;
Anda lorde e passa bem
Sertanejo no sertão.

Serrador

Quando a secca se apresenta,
0 sertanejo atrazado,
Na madeira do lastrado
E’ só em que se sustenta;
Dessa comida nojenta,
Faz um safado pirão,
Come sentado no chão,
Com colher de chifre de boi
Assim é e sempre foi
Sertanejo no sertão.

Nogueira

– Foi muito usada essa alfaia
Pelo pessoal caduco;
No tempo em que Pernambuco
Era de casa de paia,
Olinda era uma praia,
Caxangá um lamerão
0 Brejo uma solidão
Habitado por cabôcos
Nesse tempo havia poucos
Sertanejos no sertão.

Serrador

O sertanejo pabula,
Porém tem a sorte peca,
Porque quando chega a secca
Do sertão sem geito pula;
Soffrem sem ter escapula
Todos quanto lá estão;
Nas estradas ha porção
De gente descendo a pé ;
Pôr essa forma é que é
Sertanejo no sertão.

Nogueira

– Desce aquelle que não tem
0 recurso com que passe;
De gente de certa classe,
Não se vê descer ninguém
Passa a secca muito bem;
Sem a menor afflicção
Com os que têm precisão;
Reparte o seu possuido,
Porque é muito bem unido
Sertanejo no sertão.

Serrador

No sertão, o pessoal
Luxa com pouca decencia ;
Não ha homem de sciencia.
O povo é material ;
E neste estado brutal
Vive a população,
Ha muito pouca instrucção,
Não se vê civilidade;
Vive na brutalidade
Sertanejo no sertão.

Nogueira

– Poéta é seu engano:
Lá ha luxo e magnifico,
E tem homem scientifico
Como qualquer praciano;
O pessoal é humano.
Chegado á religião,
E ha civilisação.
Respeito e moralidade,
Tem muita capacidade
Sertanejo no sertão.

Serrador

– O sertanejo não pode
Pabular que passa bem ;
No corpo catinga tem
De comer carne de bode,
E nenhum não se incommode
Com essa declaração;
Angú de milho e feijão
Que macassa é seu nome;
E’ justamente o que come
Sertanejo no sertão.

Nogueira

– Bode mais valia tem
E’ da praça no mercado ;
Custa um kilo mal pesado
Dez tostões e mil e cem,
E não chega p’ra ninguém ;
Ha grande procuração;
Angú de milho, um tostão.
E’ sempre a preço de um pires;
Portanto não se admires
De Sertanejo no sertão.

Serrador

Eu acho muito custoso
No sertão se encontrar
Um só pequeno lugar
Que não seja desditoso ;
Por um direito forçoso,
Vive o povo em sujeição;
Em qualquer um rebentão
De secca que possa haver;
Só vive nesse soffrer
Sertanejo no sertão.

Nogueira

– Poéta não diga assim
Porque está fallando errado ;
No sertão está provado
Que não ha lugar ruim;
No anno de secca emfim
Sempre ha pertubação,
Mas passado o rebentão
Da secca, vem o inverno,
Tem auxilio do Eterno
Sertanejo no sertão.

Serrador

– O sertanejo é criado
Vestindo fazenda grossa,
Ainda que elle possa
Só sabe andar mal trajado ;
Emfim só é bem usado
Chapéo de couro e gibão ;
Tendo essa arrumação
Julga que está direito,
Só anda assim desse geito
Sertanejo no sertão.

Nogueira

– No sertão qualquer pessoa
Que pode, só traja bem ;
Raro é o que não tem
Sua fatiota bôa ;
Poéta não falle atôa,
Que falla contra a razão ;
O trajar com perfeição
No sertão é praxe antiga;
Passa bem e anda na liga,
Sertanejo no sertão.

Manoel Serrador, confundido com as respostas
do poéta sertanejo, deu-se por vencido. Então
Bernardo Nogueira continuou glosando sob o thema :

“Matuto no lameirão”.

Serrador, porque te agastas
E fallas do sertanejo ? _
Eu bem claramente vêjo
Que da verdade te afastas ;
Noto também que arrastas
Um pouco de presumpção ;
Presta-me agora attenção
Que no meu verso rimado
Vou mostrar como é criado
Matuto no lameirão.

Matuto nasce no escuro
E põe-se logo o chorar
Dão-lhe antes de mamar,
Garapa de mel de furo ;
O pirão que tem seguro
E’ timbú e camaleão.
Caranguejo e camarão
Cosinhados com pimenta
E’ só em que se sustenta
Matuto no lameirão.

Matuto, é pelo commum;
Sentiu pejada a muié,
Vae tirar cipó de imbé
P’ra fazer seu panicum ;
Não tem mesa e estende um
Sacco de estopa no chão ;
Faz alli, a refeição,
E á noite estando cançado
Dorme sobre o encerado
Matuto no lameirão.

Se o Matuto é arranjado,
Possúe um magro quartáu,
Se sustenta em bacalháu,
Com pirão d’agua salgado :
Come em cima do encerado,
Com catinga de alcatrão;
Bicho de pé como um cão.
Cada dedo mais de cem ;
E’ esse o gosto que tem
Matuto no lameirão.

A sella é uma cangalha
Com cordas inquirideiras.
Coberta com uma esteira
Onde o matuto se espalha ;
Usa um chapéo de palha,
Um chicote, um cinturão,
Sacco ao hombro e pé no chão,
Julgando que está composto,
Leva a vida nesse gosto
Matuto no lameirão.

Não fallo em senhor de engenho,
E negociantes honrados
Espalha em lugar de escancha
Porque esses são respeitados,
Delles nada a dizer tenho ;
Apenas me queixar venho,
E me queixo com razão ;
E’ no matuto vilão
Que assenta essa carapuça ;
Como porco a lama fuça,
Matuto no lameirão.

Da terra eu não digo nada
A respeito a fallar mal,
Pois é até um bom lugar
Que tem agua refinada
Isto porem não me agrada
Lá no sertão também tenho
Fallarei com grande empenho,
Collega não me contestes
Que no sul tem duas pestes
Saúva e Senhor de engenho.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 27 de outubro de 2018

CANTADORES E POETAS POPULARES - 5

 

 
CANTADORES E POETAS POPULARES (5)

Uma histórica e magnífica obra da cultura popular nordestina, da autoria de Francisco das Chagas Batista

Respeitada a ortografia da época

Nicandro Nunes da Costa – DEUS APRESENTE A VERDADE

Quem tem compaixão de nós
Nas terríveis afflições?
Quem os nossos corações
Vê e escuta senão Vós?
Sabeis que eu não fui atroz
Oh! Suprema Divindade!
Já que sois Juiz de Bondade,
Minha causa vos entrego;
A quem julgar como cégo;
Deus apresente a verdade.

Não queiras, homem negar
A verdade a Deus acceita.
Nem te vae bem a suspeita
Por verdade acreditar.
Nada se pode affirmar,
Sem ter a realidade;
Portanto, ó Deus de Bondade,
Não queiraes na terra ver
Eu ir pagar sem dever;
Deus apresente a verdade.

A Vós nada é obscuro,
Tudo vêdes, claramente:
Se a Vós é claro o presente,
Mais claro inda é o futuro!
Não vive o homem seguro
Da calumnia e falsidade…
De mim, por humanidade,
Tende dó, ó Bom Jesus,
Aonde ha falta de luz,
Deus apresente a verdade.

Padre Eterno—Deus clemente—
Em pessoas trez distinctas,
Justo és, Senhor; não consintas
Eu ir pagar innocente,
Um fóco claro e luzente.
Lá da Vossa magestade,
Enviae, por piedade:
Vêde quanto o genero humano
Está sujeito ao engano!
Deus apresente a verdade.

Deu, Thomé ao morto vida:
O qual diz publicamente
Que Thomé éra innocente
E qual foi o homicida:
O mesmo Santo decida
Desse acto á realidade;
Se ha falta de claridade
Nalguns factos duvidosos,
Como esses enganosos;
Deus apresente a verdade.

Se eu paguei, se eu fiz ensaio,
Se eu soube ou fui avisado
Que esse homem éra tomado,
Cáia sobre mim um raio !
De aqui não fujo e nem sàio.
Deus me vê em toda parte;
Venenoso bacamarte
Se despare e me espedace.
Uma espada me traspasse,
Se nisso eu tomei parte!


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 20 de outubro de 2018

CANTADORES E POETAS POPULARES - 4

 

 
CANTADORES E POETAS POPULARES (4)

Uma histórica e magnífica obra da cultura popular nordestina, da autoria de Francisco das Chagas Batista

Respeitada a ortografia da época

No Sertão do Sabugy
E’ a minha residência,
Porem quiz a Providencia
Que eu hoje viésse aqui,
Na casa de Pirangi,
Meu amigo dedicado;
E, uma vez que sou chegado,
Hoje aqui na Barra Lisa,
Eu venho dar uma pisa
Em Elesbão Cunha Machado.

Ugolino Nunes da Costa

No Sertão do Sabúgi
Encontrei mestre Ugolino;
Embiquei o meu chapéo,
E fui logo me escapulino
Antes que ele me dissesse
Espera, vem cá Firino.

Firino de Goes Jurema

Tua presença, Ugolino,
Faz temer e faz terror;
Faz mais mêdo a cantador
Do que boi faz a menino;
Fez ficar mudo Firino
A tua veia composta;
Do teu cantar tudo gosta;
E’s um forte es um dunga,
E’s um deus de Ariapunga
Ugolino Nunes da Costa.

Germano da Lagôa


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 13 de outubro de 2018

CANTADORES E POETAS POPULARES - 3

 



Uma histórica e magnífica obra da cultura popular nordestina, da autoria de Francisco das Chagas Batista

 

Respeitada a ortografia da época

AS OBRAS DA NATUREZA – Ugolino Nunes da Costa

As Obras da Natureza
São de tanta perfeição
Que a nossa imaginação
Não pinta tanta grandeza !
Para imitar a belleza
Das nuvens com suas cores
Se desmanchando em lavores
De um manto adamascado,
Os artistas com cuidado
Da arte applicam os primores.

Brilham nos prados verdumes
De um tapete avelludado,
Brilha o rochedo escarpado
Das penhas seus altos cumes;
Os montes formam taes gumes
Que a gente os observando
Vê como que alongando
Perder-se na immensidade,
A nossa visibilidade
Os perde se está olhando.

Correndo as aguas se arrastam
Tornando-se brancalhetes
E mui lindos ramalhetes
De espumas que as aguas gastam.
Fugindo logo se affastam
Esses mantos de brilhantes:
São pérolas lindas galantes
Que a cachoeira as atrai,
E esta, murmurando vae
Nos chamando ignorantes.

Grandes cousas se dizia
Só de um bosque se fallando,
Mas apenas vou tocando
No que tem mais poesia ;
Como a sombra que allivia
A natureza agitada 
Como a relva avelludada
Que posta em duas fileiras
Se estende nas ribanceiras
Da fonte cristallisada.

Um prado em seu verdume
Semeado de mil flores,
Com suas variadas cores,
Exalando seu perfume.
Qual o homem que presume
Pintar a tanta belleza.
Porem toda essa grandeza
E’ de Deus um privativo.
Que como sabio e activo
Confiou-a á natureza.

Impera sobre um penedo
A aguia que alli habita
De natureza esquesita,
Dominando o alto rochedo
E’ ave que não tem medo ;
Por sua coragem impera !
Desdenha de qualquer féra
Com arroubo desmedido.
Atordoa e faz temido
Tudo quanto ali prospera.

 

De um bosque a solidão
E’ tocante e faz pasmar,
Vê-se o sabiá cantar
Retumbar como um trovão,
Alli o filho de Adão
Conhece o Deus verdadeiro.
Por ver correr o ribeiro
Entre as penhas murmurando
E como prata espelhando
A’ luz do sol o aguaceiro.

Equilibrada se vê
A penha sobre outra penha
Sem que qualquer homem tenha
Aprumado-a sem pender;’
0 seu estado faz crer
E obriga o curioso
Adorar o poderoso
Autor desta maravilha,
Que por toda parte brilha
Seu poder tão glorioso;

O homem fica absorto
Dentro de um bosque embebido.
Vendo trancado o tecido
De um pau direito outro torto,
Olha e vê sobre um páo morto
Alturas admiráveis.
Brincando, saltando as aves
De galho em galho voando,
Ao mesmo tempo cantando
Melodias agradaveis.

Uma lagarta, vejamos
Que a pouco foi borboleta,
Obra pequena e perfeita
Que muito a admiramos.
Só na natureza achamos
Tanto esmero e perfeição.
Prende a mais sabia attenção
A sua delicadeza.
Sem ter pezo nem grandeza
Nos causa admiração.

0 kagado tem sobre as costas
Linhas de geometria,
E curvas em symetria
Que applicam em certas mostras,
Paralellas e oppostas
Faz um quadro debuxado.
Portanto, está demonstrado
Ser artista a natureza,
Pois seus feitos de grandeza
Ninguém os tem igualado.

Minha alma fica abysmada
Sob o solo contemplando
Em ver os mattos furando
A terra tão apertada !
A planta mais delicada
Tem força para a romper !
E a terra obedecer
A tão pequena senhora,
Que offerta sem mais demora
Glorias ao Autor do ser!…

Das nuvens com suas cores,
Variadas pelo sol,
Da neve no seu lençol
Se conhece os primores,
Com que Deus com seus lavores
Quiz dotar a natureza,
Para a encher de belleza
E o dia vivificar.
Mais o homem por pecar
Perde da alma a nobreza.

Que quadro encantador
Vemos ao romper da aurora
Desde o irracional á flora
Tudo louva ao Creador,
Ao primeiro resplendor
Do dia vivificante!…
Para fazer mais galante
O Deus que tudo creou.
Sobre a relva espalhou
Do orvalho a gotta brilhante.

Pulam aves de alegria
De galho em galho voando.
Ao mesmo tempo cantando
Ao clarão da luz do dia…
Da noite a percondia
O seu denso e negro manto,
Parece que com espanto,
Vendo o sol põe-se em fugida
Deixando as portas da vida
Abertas com todo encanto.

Quanto goso e alegria
A luz do sol traz á terra.
Ha luz da mais alta serra
A’ densa matta sombria;
Nas horas, que tem o dia.
Observa-se a belleza,
Da artista natureza,
Inexgotavel portento,
Que até no macio vento
Nos mostra sua grandeza.

Vejamos os animaes,
Que bello quadro offerecem,
Como que a Deus conhecem
Sendo irracionaes;
Criam seus filhos iguaes
Como a mãe que raciocina !
Acho ser ainda mais fina
A sua delicadeza.
Só por ter a natureza
Que activamente os ensina.

Sopra o vento tremulando
Do bosque as arvores frondosas,
E as aguas ruidosas
Entre as penhas murmurando…
A nuvem se desmanchando,
Jorra agua cristallina
Que rega valle e campina,
Nos dando real certeza
De crermos que a natureza
E’ mais que artista é divina !

Tenho um pouco fallado;
Em alguma maravilha
E não fallei na que mais brilha
Nas ondas do mar salgado,
Naquelle espelho azulado
Que ve-se ao clarão do sol;
Da neve o branco lençol
Torna-se alli tão galante
Que as vezes é semelhante
A’s nuvens no arrebol.

Vive sempre enfurecida
Essa obra da natureza.
Lutando com a fortaleza…
Da terra bem defendida
Alli a onda atrevida
Perde todo seu furor;
Do encapellado rigor
Perde toda gravidade
Obedecendo à vontade
Daquelle immenso Senhor.

Variam de instante a instante
As obras da natureza,
Com toda esta presteza
Que me faz tão delirante;
Mas, ella sempre constante
Sempre sem mostrar enfado
Desde que o mundo é criado
Até a hora presente
Sempre mostra differente
Os dias que tem ornado.

Provoco a ser contestado
Sem ter medo de censura
Qual o feito da natura
Que não seja admirado 
0 que o homem tem fabricado
Merece ser applaudido
Porem estou convencido
Que por seu pouco saber,
De Deus pode o homem ser
Filho e discipulo querido.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 06 de outubro de 2018

CANTADORES E POETAS POPULARES - 2

 

 

Uma histórica e magnífica obra da cultura popular nordestina, da autoria de Francisco das Chagas Batista

 

 

A ULTIMA PELEJA DE NICANDRO NUNES DA COSTA COM BERNARDO NOGUEIRA

Respeitada a ortografia da época

Nicandro

— Eu sahi da minha casa
Fui visitar o Nogueira
Me disseram qu’elle s’tava,
Na sua hora derradeira
Foi certo, pois o achei
C’o a vela na cabeceira.

—Meu collega, estás doente
Pois eu vim te visitar,
Se teu mal fôr muito grave
Não o posso remediar.
Porem, amigo sincéro
Eu venho te consolar.

Nogueira

—Collega Nicandro, adeus
Eu fico muito obrigado
Em te abalares a vir
Visitar o teu creado.
E’ chegada a minha hora.
Porem estou consolado.

Nicandro

—Nogueira qual o teu mal
Eu quero muito saber,
Se não te trago remedio
Mas desejo o conhecer,
Quem não tem pena do proximo
Não se lembra de morrer,

Noqueira

—É muito grande o meu mal;
Eu me acho esmorecido,
Parece que o meu corpo
Por dentro é todo moido.
Doe-me a cabeça e o rosto.
Pés, mãos, olhos e ouvido.

Nicandro

—Quem era como Nogueira
Que quando elle falava
0 povo todo em silencio
Admirado ficava:
Qual o ronco do trovão
A sua voz echoava !

Nogueira

—Meu collega, o homem são
Não é igual ao doente.
Fala 0 doente sem força,
O são arrogadamente.
Vive 0 doente gemendo
E o são vive contente.

 

Nicandro

—Isto é certo, meu collega.
Chegou afinal teu dia.
Porem ainda tens vivo
0 estro da poesia,
Conheces o paganismo !
E entendes mytologia !

Nogueira

– Da vida, a doença tira
Todo o goso e prazer,
Mas com o poeta fica
Arte de versos fazer
O estro da poesia
Com elle ha de morrer.

Nicandro

—Baccho também era Deus
Vulcano, Apollo, Neptuno,
Saturno, Marte, Plutão,
Venus, Minerva e Juno,
Haver tanto Deus na fabula.
Isso é o que eu repuno.

Nogueira

—Ora isso não é nada;
Houve mais Jupter e Rhéa
Que teve o filho alimentado
Pelo leite d’Amalthéa;
O sol éra o Deus Phebo
A quem adorou Neméa.

Nicandro

—Minos, Rhadamanto e Acho,
Cada um juiz superno
Segundo a idolatria
E seu fabuloso inferno;
Não tinham veneração
Ao supremo Deus Eterno.

Nogueira

—Bucolion desposou
As nymphas e as Naiades.
E nos bosques habitava
Diana com as Driades,
E muitas honras tiveram
Os heroes Abatiades.

Nicandro

—Neptuno era Deus dos mares
E dos infernos Plutão,
Vulcano côxo da perna
Forjava raio e grilhão,
Com o pomo da discórdia
Minerva fez confusão.

Nogueira

—Meu collega eu sou christão
Tive a agua do baptismo,
Tenho fé que essa agua
Me livrará do abysmo,
Não sigo a lei de Luthéro
Nem também a do atheismo.

Nicandro

—Eu sei que tu és christão
E segues a lei catholica.
Segues a Santa Doutrina
Da nossa crença apostólica.
Foges do mahometismo
E da crença diabólica.

Nogueira

-No tempo que eu podia
Sempre busquei confissão,
Mas logo vi-me em trabalho
E fugi de reunião,
Tenho medo de cahir
Dentro de uma prisão.

Nicandro

Tenho fé, meu bom collega,
Que Deus, senhor de bondade,
Conhece mais do que nós,
Da sorte a diversidade,
Elle te dará perdão
Na suprema Eternidade.

Acho boa esta doutrina,
—E’ lição de nossos paes,
O homem que é christão,
E crê em Christo, assim faz,
Seguindo este caminho.
De errar, ninguém é capaz.

Nogueira

—Sò não ia em toda igreja
Temendo uma traição,
Porque se fosse cercado
Não me entregava a prisão.
Desobedecia á força
E também ao capitão…

Nicandro

—Não estás errado, Nogueira,
No teu modo de pensar;
Preso, nem p’ra comer doce,
—Quem quiser vá esp’rimentar,
Se 0 doce fôr de assucar
Na bocca ha de amargar.

Nogueira

—Já bebi desse xarope
Quando cahi na prisão;
Boi solto se lambe todo,
Preso, de algema e grilhão,
Não bebe ás vezes que quer
Nem sempre encontra ração.

Nicandro

—De perigos e trabalhos
O homem deve fugir.
Fecham-se as portas da paz,
Vê as do cárcere se abrir
E o tronco já aberto
0 grilhão pesado tenir.

Nogueira

-Se é casado não se deita
Em os braços da consorte,
Não gosa mais seu agrado,
Terrivel é sua sorte
Entre a forca e a guilhotina
Deus lhe dê uma bôa morte.

Nicandro

—Nogueira, uma bôa morte,
Vinda pelo Creador,
Havendo arrependimento
Em falta do confessor,
Morre alegre o moribundo
Consolado com a dôr.

Nogueira

-0 meu mal provem da lucta
Que eu tive com o Vicente :
Que raptou minha parenta
E ficou ali contente ;
Pensando que eu tinha medo
Porque elle era valente.

“Aonde elle, stava eu fui
Buscar a depositada,
Disse-me o dono da casa :
Não lh’a entrego nem por nada.
Só depois de muita luta.
Tiro, talho e cutilada.

“Nisto saltou o Vicente
E 0 noivo seu irmão;
Eu só com elle lutei
E os outros com o João,
Quando a lucta se acabou
O noivo estava no chão.

“Eu só, lutei com o Vicente
Fóra dos meus camaradas,
Vicente com uma faca
Deu em mim duas furadas,
Eu com meu espadagão
Lhe dei muitas cutiladas.

“Nisto eu 0’uvi dizer:
Matamos o valentão !
O Vicente bem ferido
Ficou estirado no chão,
Levamos a moça em paz
Feita estava a obrigação.

“0 Vicente no barulho,
Duas facadas me deu,
0 que pude fazer fiz.
Porem nada me valeu,
Custaram muito a sarar
E é dellas que morro eu.

“Os 12 apostolos de Christo
Me toquem no coração,
Os soffrimentos da Virgem
Maria da Conceição,
No desamparo em que estou
Me ouçam em confissão.

“Salvaram-se Magdalena,
E Dimas o bom ladrão :
Foi concedido ao Longuinho
A sua vista e perdão ;
O anjo de minha guarda
Me ouça de confissão.

“Meu Jesus, meu Redemptor
Me dê firme contrição,
E o sangue que cahiu
Da Cruz, ensopando o chão
Perante as tres potências
Me ouçam de confissão.

“Quero a imagem do Senhor
Meu Jesus cruxificado,
Porque na hora da morte
Quero tel-o a meu lado
Para pedir-lhe perdão
De tudo quanto é peccado”.

Nicandro

—E alli fechou os olhos,
Abriu a bocca e expirou,
Entregou sua alma a Deus,
Na terra o corpo deixou,
Deus o fez sahir da terra
E em terra elle se tornou.

•Nicandro com o Nogueira
Eram mesmo que irmão,
0 parentesco que tinham
Era o de Eva e Adão;
Como Castor e Polux
Viviam em reunião.

•Adeus, adeus, Pagehú
Meu extremado sertão,
Nunca mais verás Nogueira
Glozar em uma funcção,
Nem também verás Nicandro
Glozar com o copo na mão.

“Padre Nosso Ave Maria
Reze todo o fiel christão.
Pela alma de Bernardo
Que morreu sem confissão,
E offereça-os a Deus
P’ra dar-lhe a santa mansão.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 29 de setembro de 2018

CANTADORES E POETAS POPULARES - 1

 

 
CANTADORES E POETAS POPULARES (1)

Uma histórica e magnífica obra da cultura popular nordestina, da autoria de Francisco das Chagas Batista

Nicandro Nunes da Costa e Bernardo Nogueira

Respeitada a ortografia da época

Nogueira

—Acho-me hoje, criminoso,
Porque em lucta corporal
Me furaram com um punhal,
Fiquei com o corpo reimoso ;
Sou um homem perigoso,
Que se escondeu numa brenha :
Procurar-me ninguém venha,
Porque perderá o giro ;
Dou de passo em passo um tiro,
Ronca páo, troveja lenha.

Nicandro

—Quem contra nós se oppor,
Não escolho qualidade.
Solto fogo sem piedade
Perco da vida o amor,
Faça o mesmo se homem for;
Quem contra Nogueira venha.
Por seu inimigo me tenha,
Porque se eu passar a mão
No cabo do espadagão,
Ronca páo, troveja lenha.

Nogueira

—Se qualquer um delegado,
Que passar por valentão,
Vier fallar-me em prisão,
Fica desmoralisado,
Seja paisano, ou soldado :
Ninguém me caçar não venha,
Porque eu farei resenha
Daquelles que me enfrentarem
E emquanto não me matarem,
Ronca páo, troveja lenha.

Nicandro

Não faz inveja Roldão,
Ao meu collega Nogueira;
Nem Joaquim Pinto Madeira,
Nem Achilles, nem Sansão,
Nem Lopez com vil acção,
Que a ganhar fama se empenha ;
De Nogueira a mão ferrenha
E’ mais cruel é mais forte,
Pois não tem medo da morte,
Ronca páo, troveja lenha.

Nogueira

—Terá perigo na vista
Quem persistir na contenda ;
Faço uma guerra tremenda,
Se achar quem me resista ;
E perderá a conquista
J Quem contra Nogueira venha,
Porque a Virgem da Penha
é Me proteje e me defende ;
P Quem me enfrentar se arrepende,
Ronca páo, troveja lenha.

Nicandro

E’ bem triste é ‘temeroso
Andar sem seguro norte,
Até mesmo á noite a sorte
Não lhe concede repouso;
Vive o homem desgostoso,
Occulto em deserta brenha,
Como uma féra que tenha
Odio ao civilisado!
Nogueira se for cercado,
«Ronca páo, troveja lenha».

Nogueira

—Confio-me no valor
De minha espada-navalha,
Que cortando na batalha.
Ninguém não lhe sente a dor;
Sou um gigante Adamastor
Que em luctar se empenha ;
Mato sem fazer «resenha»,
E pegando a granadeira
Tomo conta da trincheira,
«Ronca páo, troveja lenha.

Nicandro

— Ouve os tiros dos canhões
E debaixo das metralhas,
Nogueira sobe muralhas,
Passando entre os esquadrões,
Vem se internar nos sertões,
Se occultando em uma penha
Onde não ha quem detenha
0 seu resistente braço ;
No páo, na bala, ou no aço,
Ronca páo, troveja lenha.

Nogueira

Collega, sustento a frente
E lhe entrego a retaguarda;
Se faltar-lhe a espingarda,
Com páo, com pedra, sustente:
Eu estando de sangue quente.
Sou peor que Mascarenha;
Quem for imigo não venha,
Porque eu ’stando agastado,
Na cabêça e no costado,
«Ronca páo, troveja lenha».

Nicandro

O Brum pipoca a explosão.
Disparando peças de aço;
Caiam corpos em pedaço.
Rebente a revolução
Na frente do esquadrão;
Faça o general resenha,
Mas, para o sertão não venha,
Porque inda que a terra trema,
E o mar de Neptuno gema,
Ronca páo, troveja lenha.

Nogueira

Estando em uma trincheira
Seja ruim ou seja boa,
Força alguma desacôa
De alli, Bernardo Nogueira;
Em quanto da granadeira
Eu ouvir a voz roufenha,
Perto de mim ninguém venha
Porque estou enfurnado;
Atiro p’ra todo lado,
Ronca páo, troveja lenha.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 22 de setembro de 2018

GLOSAS DE MANOEL BENTEVI

 

 
GLOSAS DE MANOEL BENTEVI

Avenida Guararapes, centro do Recife, anos 70

Mote:

Paro todo movimento do estado,
Só funciona o Recife se eu quiser

Glosas:

Se eu chegar no Recife aperriado
Eu acabo com todas as fortalezas
Vou no Palácio do Campo das Princesas
Paro todo movimento do Estado.
Na Assembléia não deixo um deputado
Na zona não fica uma mulher
Acabo as forças armadas que houver
Tranco banco, instituto, inspetoria,
Fecho hospitais, detenções, secretarias
Só funciona o Recife se eu quiser.

Prendo guarda civil, cabo, soldado,
Comandante chefe do Estado Maior
Prendo tenente, capitão, prendo major
Paro todo movimento do estado.
Prendo telegrafo, imprensa, consulado,
Emissora não deixo uma sequer,
Prendo a Lloyd, a costeira e a Panair
Paro o transito, não passa mais ninguém
Da estação central não sai um trem
Só funciona o Recife se eu quiser.

Prendo médico, doutor, advogado,
Prendo juiz de direito e promotor
Prendo prefeito e prendo vereador
Paro todo movimento do estado.
Prendo o governo, prendo secretariado
Só Deus resolve na terra o que eu fizer
Prendo moça, menino, homem e mulher
Tapo as águas do rio Beberibe
Corto o curso do rio Capibaribe
Só funciona o Recife se eu quiser.

Paulo Afonso eu deixo desmantelado
Vou quebrar as barragens e as turbinas
Quebro os quadros e depois quebro as bobinas
Paro todo movimento do Estado.
Transformador um por um deixo quebrado
Rebento toda as torres que houver
A linha de transmissão se ainda tiver
Eu rebento toda ela em meio dia
De Paulo Afonso não sai mais energia
Só funciona o Recife se eu quiser.

Lá na boca da barra eu dou um brado
Nos armazéns não atraca mais navio
Do Capibaribe acabo o delta aterro o rio
Paro todo movimento do estado.
Beberibe e Gurjau deixo aterrado
Não deixo um litro d´áqua sequer
Pra ninguém não dou chá nem dou colher
Homem mais brabo eu tranco na enxovia
Por enquanto só deixo a reitoria
Só funciona o Recife se eu quiser.

Dois Irmãos dessa vez deixo trancado
Nos domingos jamais ninguém visita
Em Mourão Filho não deixo uma guarita
Paro todo movimento do estado.
Vou acabar com faculdade e juizado
O aeroporto e o Ibura e outro qualquer
E algum aeroporto que ainda houver
Acabo o Náutico, o Esporte e o Santa Cruz
Acabo até a procissão do Bom Jesus
Só funciona o Recife se eu quiser.

Eu derrubo arranha-céu, casa, sobrado
Fecho o comercio, acabo as padarias
Laboratórios, farmácias e drogarias
Paro todo movimento do estado.
Carro-tanque canhão carro blindado
Porta-avião, baleeira se tiver
Todo carro de praça que houver
Arranco a pista isolo toda a entrada
No Recife não entra nem sai nada
Só funciona o Recife se eu quiser.

Mas isso foi um sonho muito pesado
Que eu sonhei certa vez quando dormi
Uma voz no ouvido me dizia
Paro todo movimento do estado.
Acordei tristemente atribulado
Vi que era uma coisa sem mister
Não encontrei uma pessoa sequer
Que me dissesse o que tinha acontecido
E uma voz me dizendo no ouvido
Só funciona o Recife seu eu quiser.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 15 de setembro de 2018

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS - 15.09.18

 

 
GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS


João de Lima de Alagoas glosando o mote:

Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

Meu pai olhava sorrindo
A roça de algodão
E no varal de feijão
As bages secas se abrindo
Meu Deus como era lindo
Ver o milho pendoando
E as borboletas pousando
Em um tapete de flor
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

Não é pecado trabalhar
Preguiça, só atrapalha
Até formiga trabalha
Dia e noite sem parar
Faz buraco pra morar,
Fica saindo e entrando
Cavando a terra e tirando
Sem precisar cavador
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

Nos galhos das juremeiras
Toda hora que chovia,
Cantavam com alegria
Milhares de lavandeiras
Canários e tecedeiras
Os garranchinhos levando,
Faziam ninho cantando
Sem ter frio e sem calor
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

Calo na mão é a prova
Do trabalho do roceiro
Meu pai cavava canteiro
E minha mãe ainda nova,
Com um pé cavando cova
Com outro pé aterrando
Muita semente plantando
Sem precisar de trator
Meu pai era lavrador 
Eu me criei trabalhando.

Nosso sítio Cariri
Craíbas e Boa Vista,
Orgulho de repentista
Nascido e criado ali
Poço-verde: estou aqui
A nossa história contando
Hoje recordo chorando
Como quem sente uma dor
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

Me criei com tapioca,
Com farinha e com beiju
Com castanha e com caju
Amendoim e paçoca
Plantei muita mandioca
Vi o milho bonecando
E os camaleões andando
Como quem muda de cor
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

Na hora do meio dia
Quando o almoço chegava,
Todo mundo descansava
Numa mangueira sombria
Lá no sítio ninguém via
Menino vagabundando
Nem pedindo, nem roubando,
Nem matando professor
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

No meu tempo de menino
Cantava pelas estradas
Vendo flores perfumadas
Naquele campo divino
Vi beija-flor pequenino
De uma em uma beijando
Vi as flores desbotando
Embriagadas d’amor
Meu pai era lavrador
Eu me criei trabalhando.

* * *

Hélio Crisanto glosando o mote:

No cabresto da saudade
Amarrei minha ilusão.

Me sinto prisioneiro
Nas rédeas do teu destino,
Me tornei um peregrino
Por esse amor bandoleiro;
A ausência do teu cheiro
Maltrata o meu coração,
Por não sentir mais paixão
Fiz voto de castidade;
No cabresto da saudade
Amarrei minha ilusão.

* * *

Ademar Macedo glosando o mote:

Perdoar não pesa nada,
Pesado é pedir perdão!

Errar, é do ser humano
E todos podem errar;
Mas, saiba que perdoar
É divino, é soberano.
Não deixe que um ato insano
Lhe amargure o coração,
Perdoe-me, e me estenda a mão
Pra ser, por mim, apertada;
Perdoar não pesa nada,
Pesado é pedir perdão!

* * *

Manoel Filó glosando o mote:

A morte está enganada,
Eu vou viver depois dela.

Quando eu partir deste abrigo
Seguir à mansão sagrada,
A morte está perdoada
Do que quis fazer comigo,
Quis que eu fosse igual ao trigo
Que ao vendaval se esfarela,
Mas eu vou passar por ela
De cabeça levantada
A morte está enganada,
Eu vou viver depois dela.

* * *

Dedé Monteiro glosando o mote:

Quando a dor é dividida
Qualquer comprimido cura.

Uma doença que humilha
Uma mãe – joia sagrada,
É bem melhor suportada
Depois que se compartilha.
Esposo, irmãos, filho, filha…
Um no outro se segura
E a morte – dama obscura,
Vai atrás de outra guarida.
Quando a dor é dividida
Qualquer comprimido cura.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 08 de setembro de 2018

SEIS MESTRES DO IMPROVISO - 08.09.18

 



  

Renda de bilros

Ademar Macedo

Um forró numa latada
numa plena sexta-feira,
um bebum no meio da feira
topando em toda calçada;
uma velha na almofada
com um bilro em cada mão,
prestando muita atenção
naquilo que vai fazendo;
isso é mesmo que estar vendo
paisagens do meu sertão.

* * *

Chico Monteiro

O nome dessa cidade
É São Francisco do Oeste
Faz 45 anos
Que eu conheço essa peste
Tem nome de São Francisco,
Mas num tem nada que preste.

* * *

João Alves de Souza (João Pereira)

Eu nunca gostei da morte
que a morte é um cabra ruim
levou papai muito cedo
pegou mamãe deu um fim
já carregou minha esposa
e anda feito uma raposa
farejando atrás de mim…

* * *

Manoel Xudu

Quando Deus me fez poeta
Me colocou no paraíso
Abriu a minha cabeça
Colocou tanto improviso
Que quase faltou lugar
Pra colocar o juízo.

* * *

Odilon Nunes de Sá

O homem quando é poeta
Só faz o verso medido
Nunca faz curto demais
Nem também muito comprido,
Pois, sendo de menos não presta
Sendo de mais é perdido.

* * *

João Paraibano

Ao passar em Afogados
diga a minha esposa bela
que derramei duas lágrimas
sentindo saudades dela
tive sede, bebi uma
e a outra guardei pra ela.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 01 de setembro de 2018

CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (VI)

 

 
 
CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (VI)

 

 

Ivanildo Vila Nova, “O Príncipe dos Cantadores” e Oliveira de Panelas, “O Pavarotti das Cantorias”

Uma das maiores duplas de poetas cantadores da atualidade, Ivanildo Vila Nova e Oliveira de Panelas, interpreta uma composição do disco Cantorias de Pé de Parede.

Os versos são da autoria do colunista fubânico José Paulo Cavalcanti Filho.

 

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 25 de agosto de 2018

CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (V)

 

 
CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (V)

Ivanildo Vila Nova, “O Príncipe dos Cantadores” e Oliveira de Panelas, “O Pavarotti das Cantorias”

Uma das maiores duplas de poetas cantadores da atualidade, Ivanildo Vila Nova e Oliveira de Panelas, interpretam duas composições do disco Cantorias de Pé de Parede.

 

 

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 18 de agosto de 2018

CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (IV)

 

 
CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (IV)

 

 

Ivanildo Vila Nova, “O Príncipe dos Cantadores” e Oliveira de Panelas, “O Pavarotti das Cantorias”

Uma das maiores duplas de poetas cantadores da atualidade, Ivanildo Vila Nova e Oliveira de Panelas, interpretam duas composições do disco Cantorias de Pé de Parede

Os versos são da autoria do colunista fubânico José Paulo Cavalcanti Filho.

 
 

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 11 de agosto de 2018

CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (III)

 

CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (III)

 

Ivanildo Vila Nova, “O Príncipe dos Cantadores” e Oliveira de Panelas, “O Pavarotti das Cantorias”

Uma das maiores duplas de poetas cantadores da atualidade, Ivanildo Vila Nova e Oliveira de Panelas, interpretam duas composições do disco Cantorias de Pé de Parede

Os versos são da autoria do colunista fubânico José Paulo Cavalcanti Filho.

 

Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 04 de agosto de 2018

CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (II)

 

CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (II)

 

 

Ivanildo Vila Nova, “O Príncipe dos Cantadores” e Oliveira de Panelas, “O Pavarotti das Cantorias”

Uma das maiores duplas de poetas cantadores da atualidade, Ivanildo Vila Nova e Oliveira de Panelas, interpretam duas composições do disco Cantorias de Pé de Parede

Os versos são da autoria do colunista fubânico José Paulo Cavalcanti Filho.

 

Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 28 de julho de 2018

CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (I)

 

CANTORIAS DE PÉ DE PAREDE (I)

Ivanildo Vila Nova, “O Príncipe dos Cantadores” e Oliveira de Panelas, “O Pavarotti das Cantorias”

Uma das maiores duplas de poetas cantadores da atualidade, Ivanildo Vila Nova e Oliveira de Panelas, interpretam duas composições do disco Cantorias de Pé de Parede

Os versos são da autoria do colunista fubânico José Paulo Cavalcanti Filho.

 

 

Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 21 de julho de 2018

DEZ IMPROVISOS DO POETA CANTADOR MANOEL XUDU

 

DEZ IMPROVISOS DO POETA CANTADOR MANOEL XUDU

Manoel Xudu Sobrinho, natural de São José de Pilar–PB (1932-1985)

* * *

Dia 13 de março terça-feira
Ano mil novecentos trinta e dois
Pouco tempo depois que o sol se pôs
Mamãe dava gemidos na esteira
Numa casa de barro e de madeira
Muito humilde coberta de capim
Eu nasci pra viver sofrendo assim
Minha dor vem dos tempos de menino
Vivo triste por causa do destino
E a saudade correndo atrás de mim.

* * *

O homem que bem pensar
Não tira a vida de um grilo
A mata fica calada
O bosque fica intranquilo
A lua fica chorosa
Por não poder mais ouvi-lo.

* * *

Quanto é bonito a vaca
Se destacar do rebanho,
Dando de mamar ao filho
Quase do mesmo tamanho,
Lambendo as costas do bicho
Porque não sabe dar banho.

* * *

Minha mãe que me deu papa
Me deu doce, me deu bolo
Mamãe que me deu consolo
Leite fervido e garapa
Minha mãe me deu um tapa
E depois se arrependeu
Beijou aonde bateu
acabou a inchação
Quem perde mãe tem razão
De chorar o que perdeu

* * *

Voei célere aos campos da certeza
E com os fluidos da paz banhei a mente
Pra falar do Senhor Onipotente
Criador da Suprema Natureza
Fez do céu reino vasto, onde a beleza
Edifica seu magno pedestal
Infinita mansão celestial
Onde Deus empunhou saber profundo
Pra sabermos nas curvas deste mundo
Que Ele impera no trono divinal.

* * *

O meu amor pelo campo,
Cada vez mais, continua.
Eu não troco a claridade
Embaraçada da lua
Pelas lâmpadas de mercúrio
Que clareiam aquela rua.

* * *

A arte do passarinho
Nos causa admiração:
Prepara o ninho no feno,
No meio, bota algodão
Para os filhotes implumes
Não levarem um arranhão.

* * *

Uma galinha pequena
Faz coisa que eu me comovo:
Fica na ponta das asas,
Para beliscar o ovo,
Quando vê que vem, sem força,
O bico do pinto novo.

* * *

A vaca que quer dar cria
Se desgarra do rebanho
Tem, às vezes, um bezerro
Que é quase do seu tamanho,
Depois do parto inda o lambe
Por não poder dar-lhe o banho.

* * *

O mar se orgulha por ser vigoroso,
Forte, gigantesco, que nada lhe imita,
Se ergue, se abaixa, se move, se agita,
Parece um dragão, feroz e raivoso,
É verde, azulado, sereno, espumoso,
Se espalha na terra , quer subir pra o ar,
Se sacode todo querendo voar,
Retumba, ribomba, penera e balança,
Nem sangra, sem seca, nem pára, nem cansa,
Nos dez de galope na beira do mar.

 

 

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 14 de julho de 2018

O TEMA É SAUDADE

 

O TEMA É SAUDADE

Esta palavra saudade 
Conheço desde criança
Saudade de amor ausente 
Não é saudade, é lembrança
Saudade só é saudade
Quando morre a esperança

Pinto do Monteiro

A saudade é um parafuso
que quando a rosca cai
só entra se for torcendo
porque batendo não vai.
Mas quando enferruja dentro
nem distorcendo não sai.

Antônio Pereira

Saudade mata é verdade,
Mas dessa morte eu me esquivo.
Como morrer de saudade
Se é de saudade que eu vivo.

Antonio Pereira

Procuro uma explicação
Para a saudade viver
E ver tanto amor morrer
Como uma reles paixão
Nas brechas do coração
Existe um adjetivo
Onde meu mundo é nocivo
E uma pergunta me invade:
Como morrer de saudade
Se é de saudade que vivo?

Renato Santos

Não esqueço um só segundo
Dos dias da mocidade
Mas o tempo me roubou
Da vida mais da metade
Restando só amargura
Tristeza, dor e saudade.

Biu de Crisanto

* * *

SAUDADE SERTANEJA – Biu de Crisanto

A saudade que mais maltrata a gente,
Quando a gente se acha em terra alheia,
É ouvir um trovão para o nascente
Numa tarde de março, às quatro e meia.

A zoada do rio, a orla da corrente
Fazer lindos castelos de areia;
Uma nuvem cobrindo o sol poente
E uma serra pra cá da lua cheia.

Um vaqueiro aboiando sem maldade,
Com saudade do gado, e com saudade,
O gado urrando ao eco do vaqueiro;

O cantar estridente da seriema
E o cachimbo da velha Borborema
Nas manhãs invernosas de janeiro.

* * *

SAUDADE – Lamartine Passos

Nunca pensei que te amasse tanto,
Pois só depois que me perdi de ti
Que a solidão me assombra em cada canto
E grita, em silêncio, “estou morando aqui”.

Olho a palmeira, sem sentido, enquanto
Vejo o sanhaçu pousar sempre ali.
Mas sem ter força pra soltar seu canto,
Cala sentindo tudo que perdi.

É tanta dor que me envelhece a alma
E um tédio louco me adultera a calma
De tanta lágrima que já verti.

Já não me sinto em mim, não sou verdade.
E após beber mil goles de saudade
Não sei se ainda estou vivo ou se morri.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 07 de julho de 2018

CINCO MESTRES DO IMPROVISO E UMA DUPLA EM CANTORIA

CINCO MESTRES DO IMPROVISO E UMA DUPLA EM CANTORIA

O grande cantador pernambucano Ivanildo Vilanova, um mestre do improviso

Ivanildo Vilanova

Pelo vaqueiro que vaga
Por Pinto e sua viola
Por Zumbi, o Quilombola
Conselheiro e sua saga
Pelo baião de Gonzaga
E a luta de Virgolino
O barro de Vitalino
Pelo menino de engenho
Por isso tudo é que tenho
Orgulho de ser nordestino.

* * *

Lourival Batista

Amanhã, cedo do dia
vou à casa de Tatá.
Eu ficarei muito triste
se Tatá não tiver lá
mas a mãe de Tatá tando
é o mesmo que Tatá tá.

* * *

Bráulio Tavares

Entre as aves, eu lembro do pavão
de pés feios e penas coloridas
e se as aves são todas bem vestidas
o seu manto parece o de um sultão.
Sua cauda a se abrir com lentidão
ofuscante de cores e beleza
forma um leque que nem uma princesa
nem rainha nem rei já possuiu;
e esse leque, quem fez e coloriu?
Foi o grande poder da Natureza.

* * *

Manoel Xudu

A arte do passarinho
Nos causa admiração:
Prepara o ninho no feno,
No meio, bota algodão
Para os filhotes implumes
Não levarem um arranhão.

* * *

Zé Bezerra trabalhando o tema “Lá no sertão é assim”

O caboclo sertanejo
Convive em seu lugarejo
Do campo entende o manejo
Sabe encarar tempo ruim
Trabalhando no pesado
Cortando ração pra gado
O seu palco é o roçado
Lá no sertão é assim.

Esse homem de mão grossa
Sai cedo de sua choça
Para cultivar a roça
E a vazante de capim
Planta cana e bananeira
Dá duro a semana inteira
No domingo vai pra feira
Lá no sertão é assim.

Seu cardápio tem mistura
De feijão com rapadura
Às vezes é fava pura
E espécie de gergelim
Traíra assada e preá
Carne de peba ou jabá
Toucinho com mungunzá
Lá no sertão é assim.

A cabocla nordestina
Passeia pela campina
Não gosta de ser granfina
Nunca usa trancelim
Desde os tempos infantis
Ela só quer ser feliz
E com muito orgulho diz
Lá no sertão é assim.

* * *

MOACIR LAURENTINO E SEBASTIÃO DA SILVA IMPROVISANDO UM QUADRÃO PERGUNTADO

 

 

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 30 de junho de 2018

UM MOTE BEM GLOSADO - 30.06.18

 

João Paraibano e Severino Feitosa glosando o mote

A vida pior do mundo 
é melhor do que morrer

João Paraibano

Embora eu fique ancião, 
vivendo em lugar incerto, 
não quero caixão aberto, 
nem vela acessa na mão, 
nem que eu viva na prisão, 
a polícia a me bater, 
sem olhar o sol nascer 
no meu torrão rude, imundo. 
A vida pior do mundo 
é melhor do que morrer.

Severino Feitosa

Eu peço ao onipotente, 
não mude a minha vontade, 
não tenho medo da idade, 
eu quero é chegar na frente, 
se um dia eu ficar doente, 
sem poder locomover, 
sem vontade de comer, 
oiça curta e olho fundo. 
A vida pior do mundo 
é melhor do que morrer.

João Paraibano

A morte tem lance ingrato, 
da cova ninguém arranca, 
ao invés da meia branca, 
eu quero meia e sapato 
eu tendo que bater, bato, 
pra o rival não me bater, 
que é melhor envelhecer 
do que morrer num segundo. 
A vida pior do mundo 
é melhor do que morrer.

Severino Feitosa

Mais alto do que os Andes 
estou em todos terrenos, 
não acompanho os pequenos, 
fico do lado dos grandes, 
disse assim José Fernandes, 
que não vai se aborrecer, 
não faltando o que comer, 
outra coisa em não confundo. 
A vida pior do mundo 
é melhor do que morrer.

João Paraibano

Na casa que eu estou morando, 
quero escutar sem complô, 
um neto olhando, vovô, 
e eu perto lhe abençoando, 
minha mulher implorando, 
pra meu corpo não morrer, 
e ouvir meu filho dizer, 
papai já tá moribundo. 
A vida pior do mundo 
é melhor do que morrer.

Severino Feitosa

Se eu tiver esse pecado, 
não vou lamentar da vida, 
se eu gostar de bebida, 
um amigo é meu prezado, 
eu posso comprar fiado, 
se achar quem me vender, 
e quando eu quiser beber, 
passar um cheque sem fundo. 
A vida pior do mundo 
é melhor do que morrer.

* * *


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas segunda, 25 de junho de 2018

SÃO JOÃO

 

FESTA DE SÃO JOÃO – Anilda Figueiredo

Quanta saudade eu sinto
do São João de antigamente
que a gente brincava muito
e dançava bem contente
era tudo engraçado
com um matutinho de lado,
era tudo diferente.

O São João de antigamente
tinha q-suco e aluá,
canjica, pamonha, paçoca,
chapéu-de-couro e fubá
pé-de-muleque e sequilho,
bolo de puba e de milho,
arroz doce e mungunzá.

E pra gente se alegrar
uma caninha brejeira,
a famosinha fubuia,
velha cana brigadeira,
uns bebiam caipirinha
esperta, porém docinha,
na derruba era ligeira.

Com a faca na bananeira
no outro dia sabia
com quem ia se casar
a gente se divertia
todo mundo se alegrava
um dançava, outro dançava
até amanhecer o dia.

Improvisava a quadria
e saía de par em par
viva a noiva! viva o noivo!
a festa vai começar!
chamava um bom sanfoneiro
e nós no mei do terreiro
dançava até se cansar.

Cuidado pra não errar
preste atenção, minha gente!
camim da roça, olha a chuva…
hoje é tudo diferente…
faria tudo de novo
pra ver, outra vez, meu povo
no São João de antigamente.

* * *

MEU VESTIDO DE SÃO JOÃO – Dalinha Catunda

Foi mexendo em meus guardados
E fazendo arrumação
Que encontrei embrulhado
Meu vestido de São João
Um vestidinho singelo.
Mas eu considero belo
E logo voltei ao sertão.

Eu sinto tanta saudade,
Das velhas festas juninas
Onde eu era bem feliz
Junto com outras meninas
Ensaiando nossas danças
Organizando as festanças
Tipicamente nordestinas.

Vestia-me de matuta,
Com meu vestido de chita
Nos cabelos duas tranças
Nas tranças laço de fita.
De palha era meu chapéu
E eu me sentia no céu,
Não conhecia desdita.

O fogo unia famílias
Fogueira era tradição
O casamento matuto
Não faltava no São João
E o bom forró que rolava
Quando a gente rebolava
Era do rei do baião.

Hoje tudo esta mudado
Veio a modernização,
Acabando com os costumes
Do nosso agreste sertão.
Acabando com a folia,
E com a nossa alegria
Enterrando a tradição.

* * *

SÃO JOÃO NA ROÇA – Luiz Gonzaga

 

 

* * *

SÃO JOÃO SÓ PRESTA NA ROÇA – Zé Bezerra

Festa tradicional
De maior empolgação
É a festa de São João
Feita na zona rural
Se reúne o pessoal
Ali ninguém se alvoroça
Todos dizem: – A festa é nossa
E a alegria é completa
Por isso, afirma o poeta
São João só presta na roça.

É um São João diferente
Dos que fazem na cidade
Tem brincadeira à vontade
Alegrando a toda gente
O sertanejo contente
Logo depois que almoça
Corta lenha fina e grossa
Bem animado e feliz
Acende a fogueira e diz
São João só presta na roça.

No santo o povo tem fé
Festejando a noite inteira
Em toda casa há fogueira
Foguetão e buscapé
Mais tarde há arrasta-pé
No pavilhão da palhoça
Sanfoneiro da mão grossa
Toca um repertório novo
Para a alegria do povo
São João só presta na roça.

Na noite, a cada minuto
A lua no alto brilha
Logo antes da quadrilha
Tem casamento matuto
O noivo se faz de bruto
A noiva se alvoroça
De cima duma carroça
A mãe da noiva gasguita
Estufando o peito grita
São João só presta na roça.

A moça faz simpatia
Para saber com quem casa
Tem milho assado na brasa
Tem canjica quente e fria
Milho cozido em bacia
Pamonha na palha grossa
Se chover, a água empoça
Mas não para o forrozão
Para o povo do sertão
São João só presta na roça.

A festança é animada
Sem ritmo modernizado
Sem guitarra, sem teclado
Sem quadrilha estilizada
É mantida, é conservada
A pura cultura nossa
Pra que o sertanejo possa
Se orgulhar de sua festa
Em outro canto não presta
São João só presta na roça.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 16 de junho de 2018

HOMENAGEM A DOMINGUINHOS

 

Duas glosas do poeta Andrade Lima em homenagem a Dominguinhos:

Sente o mundo uma perda no forró
Sentimentos o povo todo sente
Foi chamado por Deus onipotente,
Pra morar com certeza em outro pó
Suas músicas: lembra meu xodó
Num salão de reboco da cidade
Desses gênios só nos resta a saudade
Se tocarem no céu vamos dançar.
Dominguinhos partiu pra encontrar
Gonzagão no salão da eternidade.

Partindo pro céu o Gonzagão,
Sua saga deixou pra Dominguinhos
Que cantou e espalhou em vários caminhos
Seu forró com xaxado, xote e baião
Fez a gente arrastar pé no salão
“Olha por céu meu amor”, sente vontade!
O balão subiu pra festividade
Deus quer ver esses dois no céu tocar
Dominguinhos partiu pra encontrar
Gonzagão no salão da eternidade.

* * *

Um Sonhador Maginando, composição do Poeta Jessier Quirino, colunista do JBF.

Interpretação de Dominguinhos e Jessier Quirino:

 

 

 

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 09 de junho de 2018

QUATRO MESTRES DO REPENTE - 09.06.18

  

O grande poeta cantador pernambucano Dimas Batista Patriota (1921-1986)

Dimas Batista

Nasci no sertão, desfrutando as virtudes
Do tempo de inverno, fartura e bonança.
Depois veio a seca, fugiu-me a esperança
Deixando-me assim, de tristeza tão rude.
Vi secos os rios, fontes e açudes. 
E eu que gostava tanto de pescar,
Saí pelo mundo tristonho a vagar,
Fui ter numa praia de areias branquinhas
E vendo a beleza das águas marinhas,
Cantei meu galope na beira do mar.

Ali na cabana de alguns pescadores,
Fitando a beleza do mar, do arrebol,
Bonitas morenas queimadas de sol,
Alegres ouviram cantar meus amores.
O vento soprava com leves rumores,
O pinho a gemer, depois de chorar.
Aquelas morenas à luz do luar
Me davam impressão que fossem sereias,
Alegres, risonhas, sentadas nas areias, 
Ouvindo os meus versos na beira do mar.

Eu sempre que via, lá no meu sertão,
Caboclo vaqueiro de grande bravura,
Vestido de couro, na mata mais dura,
Entrar pelo mato e pegar o barbatão,
Ficava pensando, na minha impressão:
Não há quem o possa, em bravura igualar;
Mas depois que vi o praiano pescar
Numa frágil jangada, ou barco veleiro,
Achei-o tão bravo, tal qual o vaqueiro,
Merece uma estátua na beira do mar.

* * *

Manoel Xudu

Tem coisa na natureza
Que olho e fico surpreso:
Uma nuvem carregada,
Se sustentar com o peso,
De dentro de um bolo d’água,
Saltar um corisco aceso.

* * *

Sebastião Dias

O cemitério é a casa
Dos nossos restos mortais.
Ambição, ódio e vingança,
Ficam do portão pra trás,
Porque do portão pra frente
Todos nós somos iguais.

* * *

José Gomes do Amaral (Zezé Lulu)

A noite estava dormindo,
Canta o galo dando hora
Me levantei saí fora,
A lua vinha saindo.
Aquele clarão tão lindo
Fiquei prestando atenção
Pensei em forrar o chão,
E me deitar na calçada,
Vendo a lua debruçada,
Na janela do sertão.

* * *

Bandeira Sobrinho

A minha felicidade
perdeu-se como a fumaça,
foi uma sombra que passa
com o surgir da claridade;
fugiu-me contra a vontade,
fugiu sem eu nem dar fé;
minh’alma hoje é a ré
e o destino seu juiz.
A gente só é feliz
quando não sabe que é.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 02 de junho de 2018

DOIS MOTES BEM GLOSADOS - 02.06.2018

 

Poetas repentistas Jomaci Dantas e Zé Carlos do Pajeú glosando o mote

“A velhice sorriu acompanhando
o enterro da minha mocidade”.

 

 

* * *

O genial poeta cantador Zé Vicente da Paraíba (1922-2008)

Zé Vicente da Paraíba, pai do colunista fubânico Wellington Vicente, glosando o mote

“Fiz do choro das cordas viola
O maior ganha-pão da minha vida”

Fiz o que desejava em minha infância:
Correr prado de um ponto a outro ponto;
Lá chegando cansado e meio tonto,
Boca aberta, tremendo e tendo ânsia.
Sem pensar ser por causa da distância,
Sem usar nem metragem, nem medida,
Muitas horas esquecia da comida
E trocava a merenda pela bola,
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Fiz cachimbo de barro e matricó,
Conhecido também por “pai de fogo”,
Onde havia castanha, havia um jogo,
Que eu era o atleta do bozó,
O porreta no fojo e no quixó,
Só não era viciado na bebida,
Mas já tinha a ideia evoluída
Fabricando o alçapão e a gaiola
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

Fiz um plano de vida pra viver
Com amor, com o riso e a saudade,
Como Deus é amor e é Trindade
Sabe e pode sustar o meu sofrer,
Muitas vezes cantando sem poder
Nem tocar na viola sustenida,
Agradeço à Maria Concebida,
Solitário na minha casinhola
Fiz do choro das cordas da viola
O maior ganha-pão da minha vida.

 

 

Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 26 de maio de 2018

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS - 26.05.18

 

Valdir Teles, grande poeta cantador pernambucano, glosando o mote

Meu passado infantil não foi bonito
Mas eu tenho prazer em recordar.

Lá em casa não tinha geladeira
Guarda roupa ,sofá nem energia
Tinha um pote revendo água fria
Enfiado em um gancho de madeira
O chapéu de papai andar pra feira
E as roupas da gente passear
Por não ter um cabide pra botar
Pendurava em um gancho de cambito
Meu passado infantil não foi bonito
Mas eu tenho prazer em recordar.

* * *

Moyses Lopes Sesyom glosando o mote:

Se Celina me matar, 
Ninguém tenha dó de mim.

Não posso mais suportar,
É grande a minha paixão,
Perdoo de antemão
Se Celina me matar.
Se dela me aproximar
Terei um prazer sem fim;
Se alguém me vir assim
Chupando o beicinho dela,
Se eu morrer fodendo nela,
Ninguém tenha dó de mim.

* * *

Marcos Rangel glosando o mote:

Mocidade é um vento passageiro
Beija a face do homem e vai embora.

Mocidade foi ontem que passou
E hoje vivo sentindo falta dela
Já mandei mil recados para ela
Mais nem mesmo um só me respostou
Muita gente viu e perguntou
Por que ela passava tão ligeiro
Respondi sem pensar e sem exagero
Ela veio, me usou e jogou fora
Mocidade é um vento passageiro
Beija a face do homem e vai embora.

Aprendi descrever essa passagem
Que vivi como ontem em minha vida
Sem dizer que a época foi perdida
Descrevendo somente, igual miragem
Que chorar o passado é bobagem
E saudade é flagelo que devora
Esse homem que em tua frente chora
Dos perfumes da vida sabe o cheiro
Mocidade é um vento passageiro
Beija a face do homem e vai embora.

* * *

Ademar Macedo glosanto o mote:

O sertão é um poema
Que a natureza escreveu.

Deus na sua magnitude,
Fez do sertão um palácio,
Deixou escrito um prefácio
Na parede do açude;
Disse da vicissitude
Da flor e do gineceu,
De um concriz que se escondeu
Nos garranchos da jurema,
O sertão é um poema
Que a natureza escreveu.

* * *

Geraldo Amâncio glosando o mote

O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

Numa tarde de inverno o céu se agita
Uma nuvem pesada esconde o sol
Aparece relâmpago, caracol
A cascata do rio enche e vomita
Desce raio de fogo o trovão grita
Na cabeça de um grande torreão
Passa o vento entoando uma canção
Que o porão do açude se arrepia
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

Na esperança o campônio se agarra
Do fantasma da seca sente medo
Quando chega o natal, acorda cedo
Para ver se aurora trás a barra
Inimiga da seca é a cigarra
Que só canta no tempo do verão
O profeta do inverno é o carão
Quando está pra chover ele anuncia
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

Quando chove na entrada de janeiro
O riacho transborda e solta roncos
Lambe os galhos do mato, arrasta troncos
De raízes que encontra em todo aceiro
Passam sapos montados no balseiro
Parecendo um chofer de caminhão
Não dirige, mas dá a impressão
Onde tem um perigo ele desvia
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

No inverno o vaqueiro tange bois
O roceiro na luta mete a cara
Queima a broca o que sobra faz coivara
Deixa arranca de touco pra depois
Corta a terra na baixa de arroz
Faz remonte de cerca aduba o chão
Abre cova semeia e enterra o grão
Tudo quanto plantar a terra cria
O nordeste se enche de alegria
Na chegada da chuva no sertão.

 

 

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 19 de maio de 2018

DOIS POEMAS DE ZÉ DA LUZ

 

Severino de Andrade Silva (Itabaiana/PB, 1904 – Rio de Janeiro/RJ, 1965),

mais conhecido como Zé da Luz, foi um alfaiate de profissão e poeta popular brasileiro

* * *

A TERRA CAIU NO CHÃO

Visitando o meu sertão
que tanta grandeza encerra,
trouxe um punhado de terra
com a maior satisfação.

Fiz isso na intenção, 
Como fez Pedro Segundo,
de quando eu deixasse o mundo
levá-lo no meu caixão.

Chegando ao Rio, pensei
guardá-lo só para mim
e num saquinho de brim
essa relíquia encerrei!

Com carinho e com cuidado
numa ripa do telhado,
o saquinho pendurei…

Uma doença apanhei
e vendo bem próxima a morte
lembrando as terras do norte
do saquinho me lembrei.

Que cruel desilusão!
As traças, sem coração
meteram os dentes no saco,
fizeram um grande buraco
e a terra caiu no chão.

* * *

CANTADÔ E VIOLÊRO

Eu nunca aprendí a lê.
Eu nunca tive im iscóla.
Mas, Deus mi deu o sabê,
De sê impruvisadô
E tocadô de viola.

Eu não invejo a sabênça
De nenhum hôme letrado.
Deus mi deu intiligênça,
Qui tem feito diferença
A munto doutô formado.

De que serve os anelão
Qui êsses doutô tem nos dêdo,
Se de uma impruvização
Êles não sabe o segrêdo?

As iscóla, a Acadimía,
Faz doutô de todo jeito:
– Faz doutô de inginharía;
Doutô Juiz de Dereito;
Doutô prá curá duênça;
Faz inté doutô dentista.
Mas, nunca há de fazê,
Um doutô saí de lá,
Formado na puisía,
Num puéta repentista!

Quando eu pego na vióla
Qui óiço o gemê das prima,
Os verso sái da cachóla
Im cachuêras de rima!

Praquê maió aligría,
Prá um cabra impruvisadô,
De que numa canturía
Êle lová u’a moça,
Pra dispôis dela lováda,
Fica tôda derrengáda
Agradicendo o lovô?

E a vióla, contente,
Ficá tocando um baião,
Inquanto o cabôco sente,
Outra vióla tocando
Cá dentro do coração?…

Se os versos q’eu impruviso
Não tem graça nem belêza,
Piçuí um grande valô:
– Êsses verso, eu aprendí
No livro da Naturêza
Tendo Deus pru professô!

O cantadô de repente
Tem tudo qui êle quizé:
– Tem os rio, as cachuêra,
Tem as noite inluaráda,
O rompê das arvoráda
E a graça das muié!

E tem o céu brasilêro
Qui cobre as terra Norte!
E tem o cabôco forte,
Tem o valente vaquêro,
As “Festa de Apartação”,
Tem o calô das fuguêra
Das noites de São João!

Tem os cabôco valente
Flô da alma do sertão!
Êsses cabôco ribusto,
Qui vinga a honra ultrajada,
Sem tê mêdo, sem tê susto,
Cum um “Bacamarte” na mão!

Praquê livro ou iscóla,
Praquê ané de doutô?
Se eu piçúo uma vióla,
Tenho livro e prufessô;
Tenho Deus e a Naturêza
Aonde tá a grandêza
De tudo qui Êle criou!?

Eu sou feliz, meu patrão.

Eu vivo nesse mundão
Bem satisfeito e contente.

E peço à Deus das artura,
(Ao meu grande prufessô)
Qui não mi farte o repente,
Esse dom qui Êle mi deu
Cum Seu pudê verdadêro
De eu sê impruvisadô,
Cantadô e violêro

 

 

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 12 de maio de 2018

A CORRUPÇÃO NA POESIA POPULAR

 

GRITO DO POVO – Manoel do Côco

Essa tal corrução 
Está comendo um pedaço
Transmitindo um fracasso 
Da saúde e da nação
Falta de condição, 
Falta de medicamento
O tamanho do sofrimento 
Dos filhos e também dos pais
Nas portas dos hospitais
Um morre a cada momento.

Corrupção é doença,
Um câncer nacional
O Supremo Tribunal 
Quer tomar as providências
Mas a nossa paciência 
Há tempos se esgotou
Nosso povo se juntou,
Estamos indo pra rua
E se ninguém der um jeito,
Essa luta continua !

* * *

CORRUPTO SÓ É ELEITO POR QUEM SE CORROMPE TAMBÉM – Cleber Sardinha

Brasil meu Brasil tão bonito
Vai vivendo assim aflito
Do luxo ao lixo maldito
Que fede e nos faz refém
A corrupção tem jeito
Corrupto só é eleito
Por quem se corrompe também.

Povo, gente e pátria amada
Uma história manchada
Por delitos federais
Deputados , senadores
Sem moral e sem valores
Não se movem nada faz.

Como pode nossa gente
Ir as urnas novamente
Votar errado assim?
Apoiando vagabundo
Ferrando com todo mundo
Decretando o nosso fim.

Pra votar está difícil
Chega a ser um sacrifício
Achar alguém que merece
Um candidato direito
Sem tretas e sem defeito
Que promete e não esquece.

Só achamos picaretas
Com processos nas gavetas
E a ficha encardida
Nós que pagamos o pato
Pois tem certos candidatos
Que são atraso de vida.

Não se faz democracia
Com propina e regalia
Ferrando gente de bem
A corrupção tem jeito
Corrupto só é eleito
Por quem se corrompe também.

* * *

O VALOR DO SEU VOTO – Izaías Gomes de Assis

Eu quero meu caro amigo
Neste verso te alertar
Sobre a tal corrupção ,
Que pode contaminar
Nos anos das eleições
Querendo te devorar.

É uma coisa do diabo
A tal da corrupção
Ela corrompe a moral
E desgraça o cidadão ,
Fazendo uns bandidos
Controlar nossa nação.

E tudo isso pelo amor
Do maldito e bom dinheiro,
Que infesta a humanidade,
Desgraçando o mundo inteiro,
É um mal do capitalismo,
Que viciou o brasileiro.

Meu caro amigo eleitor
Que é honesto e bom cristão,
Não venda nem troque o voto,
Deus não gosta disso, não
O anjo Dele te ilumine
Te trazendo educação.

 

O leitor nem imagina, 
Como o voto tem poder ,
Ele está nas suas mãos , 
Esperando acontecer
Te alerto nesse meu verso
Seu voto faça valer .

Em nosso imenso país , 
Onde tem democracia ,
O que vale é nosso voto ,
Ele tem supremacia ,
E se for bem aplicado ,
Terá grande serventia.

Mas um cabra safadão , 
Com uma ação desonesta , 
Ele trás corrupção , 
Que ao povão ela infesta , 
E compra o voto do povo
Com cachaça e muita festa.

Mas a tal corrupção
Tem muitos bons aliados , 
Pois não são só os políticos
Que ficam endiabrados 
Os eleitores também 
Ficam endemoniados.

Quando um safado corrupto ,
Ele consegue ganhar
Pessoas da laia dele
Souberam nele votar
Ladrão só ganha eleição
Se outro ladrão lhe apoiar.

O cabra vem comprar votos
Com remédio e botijão,
Com uns litros de cachaça,
Com forró e animação;
Desgraçando todo mundo
Com a tal corrupção.

Compra o voto do paizão 
E dos filhinhos também ,
Com um saco de cimento
Todo mundo se dá bem
O cabra ganha carisma
E num perde nem pro trem.

O povão fica iludido , 
Pois não tem educação ,
Totalmente desconhece
O que é ser cidadão
Até quando , nosso Deus ,
Sofrerá nossa nação?

Quando um homem que é honesto
Aparece num lugar ,
Trazendo suas propostas
Sem votos querer comprar
É xingado de pão duro ,
Como é que ele vai ganhar?

Nosso povo é mais corrupto
Que os próprios politiqueiros ,
Pois eles são minoria 
Porém tem alguns dinheiros ,
Que compram as multidões 
Enrolando os brasileiros.

Tira um carro do Detran, 
E paga uma cirurgia ,
Dá mil tijolos a um trouxa , 
Já a outro dá uma pia ,
Do outro tira o CPF ;
Está feita a freguesia.

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 05 de maio de 2018

CINCO MESTRES DO IMPROVISO E UM MOTE GLOSADO

Ademar Macedo

Um forró numa latada
numa plena sexta-feira,
um bebum no meio da feira
topando em toda calçada;
uma velha na almofada
com um bilro em cada mão,
prestando muita atenção
naquilo que vai fazendo;
isso é mesmo que estar vendo
paisagens do meu sertão.

Bráulio Bessa

Uma carta escrita à mão
achar dinheiro no bolso
cochilo depois do almoço…
curtir um feriadão
ter bicho de estimação
ser grato e compreender…
Um dia vamos morrer
e sentir na despedida
que as coisas simples da vida
nos dão forças pra viver.

Daniel do Assaré

Plantei um pé de saudade
No sol quente ao meio-dia
Certo que aquela semente
No chão seco não nascia
A semente floresceu
E hoje só não matou eu
Por causa da poesia.

Odilon Nunes de Sá

Todo aquele que vive mal ou bem
Sempre quer que a vida viva mais,
Pra ter vida e viver vivendo em paz
Com outros tantos dos anos que já tem,
Nunca quer esperar se a morte vem
E quando vem, ai sim não quer saber,
Só deseja a vida ainda crescer
Na crescença de uma idade ainda crescida,
Agradeço a vida ainda ser vida
E eu ter vida vivendo pra viver.

Manoel Xudu

O mar se orgulha por ser vigoroso,
Forte, gigantesco que nada lhe imita
Se ergue, se abaixa, se move, se agita,
Parece um dragão feroz e raivoso.
É verde, azulado, sereno, espumoso;
Se espalha na terra, quer subir pro ar,
Se sacode todo, querendo voar,
Retumba, ribomba, peneira, balança,
Nem sangra, nem seca, nem para, nem cansa,
São esses fenômenos da beira do mar

* * *

Moacir Laurentino e Sebastião Silva glosando o mote:

A poeira da estrada
apagou o nome dela.

Sebastião da Silva

Eu passeei com meu bem
pelo cantinho da sorte,
já cruzei de Sul a Norte,
de Leste a Oeste também
e o destino ingrato vem
nos deixa dores, sequela,
e hoje da minha bela
tenho lembrança e mais nada.
A poeira da estrada
apagou o nome dela.

Moacir Laurentino

O antigo casarão
do meu amor verdadeiro,
que eu abracei no terreiro,
lhe dei aperto de mão,
hoje só tem solidão,
a tristeza e a sequela,
está velhinha a cancela,
pendida e escancarada.
A poeira da estrada
apagou o nome dela.

Sebastião da Silva

Naquele belo recanto,
que foi nossa moradia,
onde havia Cantoria,
muita festa em todo canto,
houve novena de santo,
no altar e na capela,
só tem o santo e a vela,
onde a missa era rezada.
A poeira da estrada
apagou o nome dela.

Moacir Laurentino

A mulher que me amou,
que me queimou como brasa,
eu fui visitar a casa
e tudo se divisou,
a saudade ela deixou,
a sua saia amarela,
o resto de uma chinela
e uma blusa remendada.
A poeira da estrada
apagou o nome dela.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas domingo, 29 de abril de 2018

UMA GLOSA MAGISTRAL E DOIS MESTRES DO IMPROVISO
 

Manoel Xudu glosando o mote:

Quanto é grande o poder do Criador

Analise o caju e a castanha,
São os dois pendurados num só cacho,
Bem unidos, um em cima, outro embaixo,
Porém tendo um do outro a forma estranha,
Dela, extrai o azeite, o sumo, a banha,
Dele, o suco pro vinho e o licor,
Quando ambos maduros mudam a cor
Ele fica amarelo e ela escura,
Mas o gosto dos dois não se mistura,
Quanto é grande o poder do Criador.

* * *

Uma peleja entre Manoel Xudu e Diniz Vitorino

Manoel Xudu

Voei célere aos campos da certeza
E com os fluidos da paz banhei a mente
Pra falar do Senhor onipotente
Criador da suprema natureza
Fez do céu reino vasto, onde a beleza
Edifica seu magno pedestal
Infinita mansão celestial
Onde Deus empunhou saber profundo
Pra sabermos nas curvas deste mundo
Que Ele impera no trono divinal.

Diniz Vitorino

Vemos a lua, princesa sideral
Nos deixar encantados e perplexos
Inundando os céus brancos de reflexos
Como um disco dourado de cristal
Face cálida, altiva, lirial
Inspirando canções tenras de amor
Jovem virgem de corpo sedutor
Bem vestida num “robe” embranquecido
De mãos postas num templo colorido
Escutando os sermões do Criador.

Manoel Xudu

Astros louros do céu encantador
Quando um nasce brilhando, outro se some
Cada astro brilhante tem um nome
Um tamanho, uma forma, brilho e cor
Lacrimosos vertendo resplendor
Como corpos de pérolas enfeitados
Entre tronos de plumas bem sentados
Vigiando as fortunas majestosas
Que Deus guarda nas torres luminosas
Que flutuam nos páramos azulados.

Diniz Vitorino

Olho os mares, os vejo revoltados
Quando o vento fugaz transtorna as brumas
E as ondas raivosas lançam espumas
Construindo castelos encantados
As sereias se ausentam dos pecados
Que nodoam as almas dos humanos
Tiram notas das cordas dos pianos
Que o bom Deus ocultou nos verdes mares
E gorjeiam gravando seus cantares
Na paisagem abismal dos oceanos.

Manoel Xudu

E os pássaros maestros soberanos
São os músicos alados das florestas
Num eterno concerto de serestas
Não veem como vão passando os anos
São ingênuos, não sentem desenganos
Pois tem n’alma astúcias de crianças
Galgam beijos das doces brisas mansas
Sugam néctar que a flor solta nas relvas
E se evolam cantando em plenas selvas
A canção virginal das esperanças.

Diniz Vitorino

As abelhas pequenas, sempre mansas
Com as asas peludas e ronceiras
Vão em busca das pétalas das roseiras
Que se deitam no colo das ervanças
Com ferrões aguçados como lanças
Pelo cálix das flores bebem essência
Fazem mel que os mestres da ciência
Com os séculos de estudo não fabricam
Porque livros da terra não publicam
Os segredos reais da providência.

Manoel Xudu

Neste mundo não há maior ciência
Do que ver uma aranha se bulindo
Com perícia maestra construindo
Alicerces da sua residência
É pequena, tem pouca resistência
Mas trabalha vencendo os empecilhos
Superando carrascos e caudilhos
Que assassinam, devoram, fazem guerra
Mas não cavam sequer barro na terra
Pra fazer um casebre pra seus filhos.

Diniz Vitorino

Quase atônito ensino pra meus filhos
Que os trovões retumbantes me emocionam
São fuzis carregados que detonam
Sem cartuchos, culatras, nem gatilhos
E o relâmpago aceso empresta brilhos
Aos céus negros nas noites tenebrosas
Os coriscos, as tochas luminosas
Que caindo das nuvens carregadas
Se sepultam nas fendas apertadas
Nas entranhas das grutas pedregosas.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 21 de abril de 2018

UM MOTE BEM GLOSADO - 21.04.18

 

 

Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Gustavo Enio

Como tudo na vida tem seu fim
A paixão que já tive também teve
Lembro um pouco o passado e sei que deve
Todo fim de romance ser assim,
A lembrança de tudo hoje é pra mim
Como um filme que assisto indiferente
Muita coisa retrato em minha mente
Mas não há diferença em minha face
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Welton Melo

Nessa vida onde tudo é passageiro
Onde a mão do destino tudo alcança
Não existe saudade nem lembrança
Que esteja presente o tempo inteiro
No teatro da vida há um letreiro
Retratando o passado e o presente
Pra mostrar que uma dor de antigamente
Pode até ser plantada mas não nasce
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Gustavo Enio

O passado nos serve de lição
Quem quiser aprender o tempo ensina
É melhor a missão quando termina
A angustia que traz uma paixão,
Muitas vezes envolve o coração
Lhe fazendo passar por inocente
Quando acorda vê tudo indiferente
E agradece o final daquele enlace
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Welton Melo

Nesse mundo ninguém é tão lembrado
Que não seja esquecido por alguém
Pois até quem jurou te querer bem
Muitas vezes não cumpre o combinado
É comum um casal apaixonado
Lamentar o final do amor que sente
Mas esquece esse amor completamente
Quando um novo romance em fim renasce
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Gustavo Enio

Eu confesso que nunca imaginei
Que podia esquecê-la tão depressa
Uma historia de amor igual a essa
Parecia ser tudo que sonhei
Só depois que passou é que fiquei
Me sentindo, liberto novamente
Eu vivia no mundo diferente
A paixão me impedia que sonhasse
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Welton Melo

Muitas vezes diante um sofrimento
De mais uma paixão mal resolvida
Vem o medo de ter por toda vida
Essa dor culminando o pensamento
Mas o tempo é quem faz do esquecimento
Um remédio de cura permanente
E esse triste sofrer futuramente
Não fará verter pranto em tua face
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Gustavo Enio

Já me sinto bastante preparado
Pra viver liberdade novamente
Abstrato que mais da vida a gente
Nos fazendo viver mais animado
Não procure viver o seu passado
Busque novos amores no presente
Faça tudo com calma e consciente
Para o bom resultado no impasse
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

Welton Melo

Uma dor por maior que seja ela
Terá sempre um começo, meio e fim
No início apresenta ser ruim
E é difícil seguir ao lado dela
Já no meio essa dor deixa a sequela
E no final pra provar que é diferente
Vem o tempo expulsando do presente
Essa dor causadora deste impasse
Não existe lembrança que não passe
Nem saudade que dure eternamente.

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 24 de março de 2018

UM BALAIO DE IMPROVISO

 

O grande poeta improvisador paraibano Manoel Xudu (1932-1985)

Manoel Xudu

Admiro o pica-pau
Trepado num pé de angico,
Pulando de galho em galho
Taco, taco, tico, tico,
Nem sente dor de cabeça,
Nem quebra a ponta do bico.

*

Minha mãe que me deu papa
Me deu doce, me deu bolo
Mamãe que me deu consolo
Leite fervido e garapa
Minha mãe me deu um tapa
E depois se arrependeu
Beijou aonde bateu
acabou a inchação
Quem perde mãe tem razão
De chorar o que perdeu

*

Quando eu tava no hospital
Pensei que não escapava
Que até um pires de doce
Que a enfermeira me dava
Só era doce no pires
Na minha boca amargava.

*

O homem que bem pensar
Não tira a vida de um grilo
A mata fica calada
O bosque fica intranqüilo
A lua fica chorosa
Por não poder mais ouvi-lo

* * *

Zé Adalberto

Quando aquela saudade impaciente
Me coloca no leito do seu colo
Minhas pernas não sentem mais o solo
Minha alma flutua intensamente
Fecho os olhos, lhe vejo em minha frente
Se despindo pra mim e eu pra ela
Parecendo uma cena de novela
Mas, no fundo, acontece de verdade
Quando sinto os impulsos da saudade
Faço um verso de amor pensando nela.

*

A cascata não canta igual a gente
Mas chuvendo ela vira uirapuru
E um pedaço de pau de mulungu
De carona, viaja na enchente
A borracha da chuva lentamente
Sobre as páginas do chão vai se esfregando
E por capricho, onde passa é apagando
A história que a seca havia escrito
Quando eu ouço o trovão no infinito
Imagino ser Deus que está gritando.

*

Vim do ventre materno e me criei
Nesse Ventre Imortal da Poesia
Sou poeta e matuto, disso eu eu sei
Mas estar hoje, aqui, eu não sabia
Doutra terra, se eu fosse, amava enfim
Mas Jesus escolheu esta pra mim
E só o fato de eu ser de Itapetim
Já recebo homenagem todo dia!!!!!!

* * *

Dimas Batista

Nossa vida é como um rio,
no declive da descida:
as águas são as saudades
de uma esperança perdida,
e a vaidade a espuma
que fica à margem da vida.

* * *

Louro Branco

Admiro a Natureza
Mar vomitando salinas
Lajedos de corpos nus
Com as pedras cristalinas
E as serras, túmulos rochosos
Onde Deus sepulta as minas

*

Assaltei um sancristão
Lhe botei em mau caminho
Dei 3 tapas em meu padrinho
Sexta Feira da Paixão
Dei em mãe um empurrão
Cheg’ela caiu pra traz
E uma nega emprensei mais
Do que um queijo na prensa
Quem fez o que fiz não pensa
Porque se pensar não faz

* * *

Severino Ferreira  

Na hora que a morte vem
Tem a sua foice armada
Que não tem medo de nada
E nunca respeitou ninguém
Com a força que ela tem
Elimina a criatura
Bota um cordão na cintura
Caixão preto e vela acesa
A vida é uma incerteza
A morte é certeza pura.

*

O Nordeste entregou o meu espaço
Com o som da viola eu não me assombro
Que eu não tenho uma fita no meu ombro
Nem estrela na farda do meu braço
Mais pegando a viola eu também faço
De improviso a maior engenharia
Tenho taça na minha galeria
Sem anel, sem viola e sem patente
Deus me deu a viola de presente
Se eu deixar de cantar é covardia.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 10 de março de 2018

OITO MESTRES DO IMPROVISO - 10.03.18

 



O saudoso Pinto do Monteiro, um dos maiores gênios da cantoria nordestina (1895-1990)

* * *

Pinto do Monteiro

Cantei Mourão a Galope,
Versejando como entendo!
Vou passar pra Gemedeira,
Como me pedem, eu atendo!
Há pouco, cantei me rindo.
Ai! ai! ui! ui!
Agora canto gemendo!

Antônio Batista Guedes

Longe do mar de Netuno,
O cocheiro Faetonte
Percorria o horizonte
No seu coche de tribuno,
De Anfitrite e de Juno,
Tinha ele a proteção!
Apolo, tendo na mão
Um livro de poesia,
Me ensinou com galhardia
Cantar dez pés em Quadrão!

Bráulio Bessa

Amar é ser consciente
da nossa própria loucura,
é quando a gente se junta
formando uma só mistura,
de igualdade e diferença.
Se o amor fosse doença
seria dessas sem cura…

Lacerda Furtado

Namorando a Salomé,
Vi a barca de Noé,
Palestrei com Josué,
Com Jacó e Salomão;
Travei luta com Sansão,
Nadei no delta do Nilo,
Montado num crocodilo,
Cantando os oito em Quadrão!

Zé da Prata

A moça quando se casa,
Todo castigo merece
Troca pai e troca mãe
Por alguém que mal conhece
E fica na obrigação
De amolecer um cambão
Toda vez que endurece.

Cego Oliveira

Poeta Zé Mergulhão
Você procure a defesa,
Eu lhe dou a explicação
Com toda delicadeza,
Eu com a rabeca na mão,
Eu canto por precisão
E você por sem-vergonheza.

Essa minha rabequinha 
É meus pés, é minha mão 
É minha roça de mandioca, 
É minha farinha, o meu feijão, 
É minha safra de algodão, 
Dela eu faço profissão 
Por não poder trabalhar, 
Mas ao padre fui perguntar 
Se cantar fazia mal. 
Ele me disse: Oliveira, 
Pode cantar bem na praça, 
Porém se cantar de graça 
Cai em pecado mortal..

Antonio Marinho

Parece que não gostou
Nobre doutor Edmundo,
Que é o doutor mais feio
Que eu já vi neste mundo,
Que o fundo parece a cara
E a cara parece o fundo.

Severino Ferreira

Eu também lembro a infância
Meu tempo de meninice
A fase da mocidade
O período da meiguice
Mas tudo está se passando
Aos poucos vou mergulhando
No caldeirão da velhice.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 03 de março de 2018

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS - 03.03.18

 

Otacílio Batista glosando o mote

Tenho n’alma as tatuagens
Da minha origem cigana.

Fui criado entre as miragens,
Na solidão do deserto,
De um povo que andava incerto,
Tenho n’alma as tatuagens:
São abstratas imagens
De Alá, que não se profana;
Dos chefes de caravana,
Me orgulho em ser porta-voz:
Os primitivos heróis
Da minha origem cigana!

Os antigos personagens,
Defensores dos escravos;
De uma legião de bravos,
Tenho n’alma as tatuagens!
Fugindo às velhas linhagens
Da imposição duridana,
Por vontade soberana,
Ismael foi peregrino,
O primeiro beduíno
Da minha origem cigana!

* * *

Zilmo Siqueira glosando o mote

Minha vida é marcada por desgosto,
Alegria só tenho quando choro.

Em São Paulo, vivi de empregado
Muitas coisas por lá adquiri
Mas deixei pra morar no Cariri
Hoje vivo no sítio do alugado
Dia e noite trabalhando no roçado
Tô feliz nesse canto onde moro
Jesus é meu santo que imploro
Me dá forças pra ser homem disposto
Minha vida é marcada por desgosto,
Alegria só tenho quando choro.

Eu nasci pra ser um andarilho
Me sinto feliz viver andado
O que ganho na vida estou guardando
Pra filha querida e pro meu filho
Meu filho, meu verdadeiro brilho
Minha filha que amo e tanto adoro
É no ombro do filho que me escoro
Minha filha me beija no meu rosto
Minha vida é marcada por desgosto,
Alegria só tenho quando choro.

* * *

Tallys Barbosa glosando o mote

A palmada de mãe não dói metade
Da palmada que a vida dá na gente.

Mãe sempre me deu educação
Me ensinou a trilhar o rumo certo
Por isso o meu caminho é coberto
De humildade, pureza e compaixão
Se aprendi a ser um bom cidadão
Agradeço a mãinha eternamente
Que a dor de uma pisa a gente sente
Quando apanha só da sociedade
A palmada de mãe não dói metade
Da palmada que a vida dá na gente.

Tão querendo aprovar uma lei
Que pra mim está mal elaborada
Se ela vale se quer uma palmada
A dor quem aguenta eu já sei
Um menino que nasce vai ser rei
E a mãe que bater é delinquente
Se o menino errar constantemente
É a mãe que vai pra trás da grade
A palmada de mãe não dói metade
Da palmada que a vida dá na gente.

Botam Xuxa sentada na bancada
Pra poder ser o símbolo da alegria
Mais quando ela fez pornografia
Até pelo Papa a Bicha foi julgada
Aprovarem a lei da tal palmada
É um ato de alguém inconsciente
Tão querendo é formar mais delinquente
Para ver se tem roubo de verdade
A palmada de mãe não dói metade
Da palmada que a vida dá na gente.

Minha mãe vai ter condenação
Vai viver na prisão por toda vida
E pra mim é mais que merecida
Que ela viva dentro do meu coração
Pois foi ela que me deu educação
Me ensinou a ser um cabra decente
E se ele me bateu foi diferente
Foi ensinando a ter dignidade
A palmada de mãe não dói metade
Da palmada que a vida dá na gent


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 24 de fevereiro de 2018

DEZ MESTRES DO IMPROVISO - 24.02.18

 

Expedito de Mocinha

Eu nasci e me criei
Aqui nesse pé de serra
Sou filho nato da terra
Daqui nunca me ausentei
Estudei, não me formei
Por que meu pai não podia
Jesus, filho de Maria
De mim se compadeceu
Como presente me deu
Um crânio com poesia!

* * *

Hercílio Pinheiro

Na Escritura Sagrada,
me lembro que Jesus disse:
Quem tivesse pra dar, desse,
quem não tivesse, pedisse;
quem fosse triste chorasse,
quem fosse alegre sorrisse.

* * *

Erasmo Rodrigues

Vinte e oito janeiros me jogaram
Na cadeia dos tristes desenganos
Sinto falta dos meus quatorze anos
Que a soma dos meses apagaram.
Os meus dias felizes lá ficaram
Pela rua da infância adormecida
A barcaça da existência fez partida
Pela água do rio da saudade
Se dinheiro comprasse mocidade
Eu seria criança toda a vida.

Uma noite de inverno, um dia quente,
Um domingo ou por outra um feriado,
Um riacho no leito do roçado
E os estrondos do peso da enchente.
Um açude sangrando, lá na frente,
As saudades da infância inesquecida
Mas o tempo tem ordem permitida
Pra dar fim aos prazeres da idade
Se dinheiro comprasse mocidade
Eu seria criança toda a vida.

* * *

Manoel Xudu

Eu acho muito engraçado
O padre Matusalém,
Quando distribui a hóstia
É pra dez, cinquenta, cem
Mas bebe o vinho sozinho,
Não dá um gole a ninguém.

* * *

Dió de Santo Izidro

Admiro a sabiá
Por ser uma ave bela
Faz o ninho põe e choca
E quer o filho perto dela
E tem mãe que mata a criança
Pra não dar trabalho a  ela.

* * *

Raimundo Lucas Bidinho

Comi de um jerimum cabôco
Já da rama derradeira
Era mole como cera
Tinha água igual um coco
Vingou em cima de um tôco
Três palmo acima da terra
Encarnado como guerra
Com o gosto de cupim
Foi este o jerimum mais ruim
Que deu na Aba da Serra.

* * *

Aldo Neves

Jesus Cristo tem sido até agora
Protetor de ateus e de pagãos
Me entrego Senhor em Tuas mãos
Tando aqui ou andando mundo afora
Ele ajuda a quem ri e a quem chora
Porque é paciente e bom amigo
Me livrando da treva e do perigo
É o Mestre do mundo e da Igreja
E por mais longe Senhor que eu esteja
Com certeza eu alcanço o Teu abrigo.

* * *

Luciano Carneiro

Eu não tive vocação
Pra diácono nem vigário
Tornei-me então um poeta
Não muito extraordinário
Mas sou com muita alegria
No campo da poesia
Um verdadeiro operário .

* * *

Lourinaldo Vitorino
(Em homenagem a Otacílio Batista Patriota)

As violas de luto soluçando
Dão adeus ao Bocage do repente,
Um fenômeno de arte, um expoente,
Que de cinco a seis décadas improvisando
Sua voz de trovão saiu rasgando
Modulando a palavra em cada nota
Pra cultura um nocaute, uma derrota,
Um desastre, uma perda, um golpe horrendo,
Enlutado o repente está perdendo
Otacílio Batista Patriota.

* * *

Luciano Maia

Cantor das coivaras queimando o horizonte,
Das brancas raízes expostas à lua,
Da pedra alvejada, da laje tão nua
Guardando o silêncio da noite no monte.
Cantor do lamento da água da fonte
Que desce ao açude e lá fica a teimar
Com o sol e com o vento, até se finar
No último adejo da asa sedenta,
Que busca salvar-se da morte e inventa
Cantigas de adeuses na beira do mar.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 17 de fevereiro de 2018

QUATRO POEMAS DE JOÃO BATISTA SIQUEIRA (CANCÃO)

 

 cancão

João Batista de Siqueira, Cancão, pernambucano de São José do Egito (Mai/1912 – Jul/1982)

* * *

SONHO DE SABIÁ

Um sabiá diligente
Voou pela vastidão
Mas por inexperiente
Caiu em um alçapão
Depois de aprisionado
Ficou mais martirizado
Pensando no seu filhinho
Implume, sem alimento,
Exposto à chuva e ao vento
Sem poder sair do ninho

Deram-lhe por seu abrigo
Uma pequena gaiola
Num casebre de um mendigo
Que só comia de esmola
Só vivia cochilando
Com certeza imaginando
Sua liberdade santa
Ia cantar, não podia,
Que sua voz se perdia
Logo ao sair da garganta

Tornou-se a pena cinzenta
Em seu profundo castigo
Na saleta fumarenta
Da casa do tal mendigo
Sempre triste, arrepiado,
Nesse viver desolado
Ia um mês, vinha outro mês,
Assim completou um ano
Sentindo o seu desengano
Nunca cantou outra vez

Dormindo, uma tarde inteira
O pobre do passarinho
Sonhou que ia à palmeira
Onde tinha feito o ninho
Olhava, em frente, as campinas
Via por trás das colinas
A natureza sorrindo
Ao sentir a liberdade
Pensou ser realidade
Sem saber cantou dormindo

Depois, sonhou que voltava
À terra dos braunais
Por onde sempre cantava
Junto a outros sabiás
Pousava nas laranjeiras,
Passava nas ribanceiras
Olhando o clarão do dia
Voava por sobre o monte,
Voltava a beber na fonte
Que toda manhã bebia

No sonho via as favelas
Criadas nos carrascais
Voou, baixou, pousou nelas
Cantou os seus madrigais
Voltou, e colheu orvalhos
Que gotejavam dos galhos
Dos frondosos jiquiris
Contente, abriu a plumagem,
Pra receber a bafagem
Das manhãs do seu país

Foi à terra dos palmares
Atravessou toda a flora
Cantou por todos lugares
Que tinha cantado outrora
Passou pelos mangueirais
E com outros sabiás
Cantou sonora canção
O seu som melodioso
Estava mais pesaroso
Devido a sua emoção

Viu a vinda do inverno
Nos quadrantes da paisagem
Ouviu o sussurro terno
Do bulício da folhagem
Cantava pelo arrebol,
Com o brilho morno do sol
Morrendo nos altos cumes
Sentia, quando cantava,
Que seu coração chorava
Com mais tristeza e queixumes

Sonhou catando semente
Num campo vasto e risonho
Se sentia tão contente
Que sonhou que fosse um sonho
Olhava pra vastidão
Sentia no coração
Um regozijo profundo
Todas delícias sentia
Às vezes lhe parecia
Vivendo fora do mundo

Atravessou os verdores,
Passou por entre as searas,
Cantou pelos resplendores
Das manhãs frescas e claras
Passou por um campo vago,
Bebeu das águas de um lago,
Pousou em um arvoredo,
Entrou em um bosque escuro,
Aí sonhou um futuro
Tão triste que teve medo

Depois, sonhou que estava
Trancado numa gaiola
Ouvindo alguém que cantava
Na porta, pedindo esmola.
Ao despertar de momento
Reparou seu aposento,
Ouviu falar o mendigo
Fechou os olhos pensando
Sentiu seu íntimo chorando
No rigor do seu castigo.

Ainda em vão procurava
Sair daquela prisão
Seu olhar denunciava
Piedade e compaixão
Ao pensar na liberdade
A mais pungente saudade
Devorava o peito seu
Assim, o cantor da mata,
Ferido da sorte ingrata,
No outro dia, morreu.

* * *

ÁRVORE MORTA

Foste tu, velha braúna
A divisão da paisagem
A gigantesca coluna
Da Natureza selvagem
Abrias tua ramagem
Pelas tardes nevoentas
As borrascas violentas
Nunca te causaram danos
Antes de trezentos anos
Te açoitaram mil tormentas

Respeitaram-te os machados
Das primeiras gerações
Teus grossos galhos crispados
Desafiaram tufões
Venceste mil furacões
Desde os tempos de Cabral
Atalaia colossal
Soberbo gigante antigo
Talvez até deste abrigo
Aos filhos de Portugal

 

Por certo ouviste as cantigas
Das tribos depois da guerra
Filha das lendas antigas,
Rebento santo da Terra
Antes, ó virgem da serra,
Dos danos daquele raio
Pelo teu leve desmaio
Colhias na fronde tua
Lindos sorrisos da Lua
Nos noites do mês de maio

Estes teus grandes madeiros
Há uns cem anos passados
Se sacudiam maneiros
Cheios de viço, copados
Nos teus ramos delicados
Nas horas do arrebol
O pequeno rouxinol
Cantava com mais ternura
Colhendo a doce frescura
Das brisas do pôr-do-sol

Já tens um lado comido
Da era que foi ingrata
Este teu galho pendido
Relembra longínqua data
Em teu pé uma cascata
Se despenhava fremente
Teu tronco, velho e doente
Pelo cupim estragado
Foi muitas vezes lavado
Pela fragosa corrente

Hoje, só tens a carcaça
Sobre a estrada caída
Uma pessoa que passa
Medita e sai comovida
Uma parte apodrecida
Onde outrora os sabiás
Voando dos laranjais
Vinham pousar cantando
E hoje passam voando
Se assustam, não pousam mais

Das plantas foi a mais bela
Que entre a flora viveu
Quem sabe na vida dela
Quantos janeiros venceu …
Depois murchou e morreu
Ficou dos ramos despida
Para o poente estendida
Sem verdura e sem beleza
Talvez que nessa tristeza
Sinta saudades da vida.

* * *

MOMENTOS MATUTINOS

Nas noites caliginosas
As estrelas luminosas
Pelas grimpas montanhosas
Derramam luz soberana
As florzinhas da paisagem
Dormem por entre a ramagem
Talvez sonhando a imagem
Dos sorrisos de Diana

Os pirilampos pequenos
Vindos de outros terrenos
Pousam, sutis e serenos
Pelos estrumes da terra
Os perfumados vapores
Passam roçando os verdores
Levando os leves rumores
Das águas brandas da serra

A Lua, alta e feliz
Linda mãe dos bugaris
Derrama raios sutis
Por toda extensão da selva
Dos lírios desabrochados
Brancos e imaculados,
Os seus perfumes sagrados
A brisa bafeja e leva

Dentro da floresta densa
A vegetação imensa
Parece ficar suspensa
Nesse ditoso momento
As carnaúbas rendadas
Criadas lá nas chapadas
Abrem as frondes copadas
Para a passagem do vento

A brisa sopra dolente
Por entre a flora virente
O céu de cor transparente
Azul, sem uma só mancha
Branca neve matutina
Envolve a vasta campina
Toalha de gaze fina
Que o dia rasga e desmancha

As corujas traiçoeiras
Com suas asas maneiras
Passam nos ares, ligeiras
Para o grotilhão enorme
Foge o tenebroso véu
Na aroeira, o xexéu
Olhando as cores do céu
Desperta a mata que dorme

Para as bandas do levante
Lindo clarão rutilante
Vem-se alargando, brilhante
Cheio de glória e encanto
A neve se desenrola
E o beija-flor, por esmola
Em cada fresca corola
Deposita um beijo santo

Dos floridos vegetais
Os orvalhos matinais
Como gotas de cristais
Se desprendem tremulantes
Um traço de fina luz
Aquece os verdes bambus
Dos altos cumes azuis
Das cordilheiras distantes

A borboleta amarela
Passa juntinho à janela
Vai pousar, serena e bela
Num lindo caramanchão
O sabiá, lá da mata
No ingazeiro desata
A nota suave e grata
De sonorosa canção

Cantam na serra os pastores
Os tempos de seus amores
Sentindo os brandos calores
Dos raios do sol nascente
E a Natureza selvagem
Estende a sua ramagem
Como rendendo homenagem
A um Deus onipotente.

* * *

SONHO DE UM POETA

Dormi, dormi na velhice
Sonhei que era pequeno
Senti o zéfiro brando
Soprar, suave e sereno
Aromatizando as plagas
Do meu sagrado terreno

Ausente do meu torrão
Grande saudade me encerra
Na grata imaginação
Lá da palhoça da serra
Dormindo, o sonho levou-me
Aos campos de minha terra

Minha terra tem palmeiras
Tem bosques, carnaubais
Tem vales, tem serranias
Gigantescos laranjais
Outra terra como a minha
Eu sei que não vejo mais

O vento da minha terra
Eu acho mais perfumado
O sol é mais luminoso
O céu é mais estrelado
As noites são mais serenas
O mundo, mais descampado

Por sonho via os verdores
Daquela terra querida
A brisa soprava lenta
Dentro da veiga florida
Quebrando o grande silêncio
Da floresta adormecida

As brisas nos mangueirais
Perpassavam com meiguice
Onde meus pais descansavam
Das fadigas da velhice
Olhando eu colher as flores
Cheirosas da meninice

Olhava as lindas chapadas
Onde cantava o xexéu
Lugares onde eu brincava
Descuidado, sem chapéu
Correndo à margem dos lagos
Olhando as sombras do céu

Por sonho via os coqueiros
De monstruosos tamanhos
Ouvia a voz dos pastores
Admirava os rebanhos
Via os lagos em que eu
Tomei os primeiros banhos

Via os verdejantes bosques
As esplanadas mais belas
Pareciam um mar de luz
Os rosais, as caravelas
As aves, as mariantes
Que viviam dentro delas

A mata densa e florida
Se estendia divina
Os orvalhos tremulavam
Porque o véu da neblina
Se desdobrava sereno
Na majestosa campina

O cheiro de várias flores
Aromatizava os prados
O coqueiro erguia a fronde
Pelos ventos perfumados
Que vinham lá dos confins
Dos campestres matizados

Os grandes jacarandás
Faziam grossas colunas
Os sabiás procuravam
Alguns fragaços nas dunas
Para a construção dos ninhos
Na copa das cabiúnas

Eram quase sete horas …
Depois de ter despertado
Na grande imaginação
Do que havia sonhado
Senti saudades do berço
Que fui nascido e criado

Este sonho eu nunca mais
Afastei do pensamento
Fiz dentro do coração
Um forte revestimento
Pra suportar a saudade
Que chega a todo momento

Todo sonho é ilusão
Posso afirmar seriamente
Dormindo se sonha, às vezes,
Noutro lugar diferente
Acho que seja por causa
Do pensamento da gente


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 03 de fevereiro de 2018

DEZ MESTRES DO IMPROVISO - 03.02.18

 

oliveira-de-panelas

Poeta repentista pernambucano Oliveira de Panelas, um dos maiores cantadores da atualidade

Oliveira de Panelas

Por este espaço onde moro
Meu sonho é tão colorido
Que eu tenho a doida impressão
Que ele foi construído
Por várias tintas confusas
De um arco-íris mexido.

* * *

José Alves Sobrinho

No nordeste brasileiro
da Bahia ao Maranhão,
do litoral ao sertão
encontram-se os violeiros
e os poetas folheteiros,
as mãos cheias de exemplares,
poemas, trovas, cantares
feitos por esses artistas:
Cantadores, Repentistas
e Poetas Populares.

* * *

Jó Patriota

No jogo do improviso,
sou artista competente,
traço o baralho dos versos
e sei jogar meu repente,
no pife-pafe das rimas,
ninguém bate em minha frente.

* * *

Biu Gomes

O sabiá do sertão
faz coisa que me comove:
passa três meses cantando
e sem cantar passa nove,
como que se preparando,
pra só cantar quando chove.

* * *

Dedé Monteiro

No dia de abandonar
O meu torrão querido,
Ouvi meu próprio gemido
A me pedir pra ficar…
Mas, vendo que de voltar
Havia pouca esperança,
Triste como uma criança
Que está com fome ou com sede
No punho da minha rede
Deixei um nó por lembrança.

* * *

Zé Catota

Meu sonho foi diferente
Foi coisa desconhecida
Eu vi dois vultos passando
Em carreira desmedida
Era o cavalo do tempo
Atrás da besta da vida.

* * *

Josenir Lacerda

A poesia pra mim
É uma amiga sincera
Que assume meus queixumes
Faz de inverno, primavera
Compreende os meus medos
Guarda fiel meus segredos
Meu sonho, minha quimera.

* * *

Manoel Xudu

Poesia tão linda e soberana
E tão pura, tão branca igual a um véu…
Está na terra, no mar, está no céu
E no pelo que tem a jitirana.
Ela está em quem vive a cortar cana
Quando volta pra casa ao meio dia…
Está num bolo de fava insossa e fria
Que um pobre mastiga com linguiça.
Está na paz, no amor e na justiça
O mistério da doce poesia.

* * *

Zé Bernardino

Eu nada fiz na jornada
Nada ganhei  nem perdi
Nada ignoro do nada
Porque do nada nasci.
Se o nada foi um abrigo
Seja o nada meu jazigo
Pois nada disso me enfada.
Eu de nada fiz estudo ,
Mas sei que o  nada faz tudo
E tudo se torna em nada.

* * *

Luciano Maia

Cantor das coivaras queimando o horizonte,
Das brancas raízes expostas à lua,
Da pedra alvejada, da laje tão nua
Guardando o silêncio da noite no monte.
Cantor do lamento da água da fonte
Que desce ao açude e lá fica a teimar
Com o sol e com o vento, até se finar
No último adejo da asa sedenta,
Que busca salvar-se da morte e inventa
Cantigas de adeuses na beira do mar


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 27 de janeiro de 2018

CINCO GRANDES IMPROVISOS E UM POEMA BEM ATUAL

 

Geraldo Amâncio

O amor de duas feras
Que também se querem bem
Tem o mesmo amor do homem
Quando ama e abraça alguém
Só não tem a falsidade
Que o amor do homem tem.

* * *

Francisco Caetano

Infância foi ilusão
Por quem por ela passou
A velhice é um museu
Que o tempo fabricou
Pra guardar as fantasias
Que a juventude deixou

* * *

Zé Limeira

O que derruba o hômi
Véve dibaixo de uma saia
tem crista que nem galo
tem esporão que nem arraia
e tem uma lasca no meio
onde a “torta véia” trabaia.

* * *

João Lourenço

Eu já passei tanta coisa
Que na vida nem pensava
Pra minha felicidade
A mulher que eu procurava
Deus teve pena de mim
Mostrou aonde ela estava

* * *

Lira Flores

Quando as tripas da terra mal se agitam,
E os metais derretidos se confundem,
E os escuros diamantes que se fundem,
Da cratera ao ar se precipitam.
As vulcânicas ondas que vomitam
Grossas bagas de ferro incendiado,
Em redor, deixam tudo sepultado
Só com o som da viola que me ajuda,
Treme o sol, treme a terra, o tempo muda,
Eu cantando Martelo agalopado.

* * *

NA TRISTE NOITE DA CORRUPÇÃO

Merlânio Maia

Eis a nação que sonha embevecida
Ser um exemplo aos povos do futuro
E agora acorda em seu triste monturo
Que foi forjado ao longo de sua vida
Desde o império se inclina em descida
Com sanguessugas que sugando vão
Multiplicando sujeira em seu chão
Frente ao pomposo poder do império
Incomodando heróis no cemitério
Na triste noite da corrupção!

Seus mortos, hoje, tão desesperados
Saem às ruas, levantam bandeiras,
Dançam nas praças, alamedas, feiras…
Profundamente decepcionados
De Tiradentes escuta-se os brados
De Castro Alves a indignação
Voltam os poetas da libertação
Junto aos heróis, do além, republicanos,
Dançam nas noites contra os tais tiranos
Na triste noite da corrupção!

Se o tempo urge, a tal nação se arrasta…
Só vendo seu pobre povo humilhado,
Presenciando o roubo deste estado
Que, a cada dia, da riqueza afasta.
– Aos miseráveis, pão com circo basta!
E a liberdade escorre pela mão
E num crescendo se esparrama ao chão
No gesto tosco desse vai e vem
Só sonhadores gritam do além
Na triste noite da corrupção!

Os pigmeus da moral querem trono
Mesmo levando o país ao abismo
Ninguém vê honra, lisura, altruísmo!…
Brasil delira feito um cão sem dono
Em berço esplêndido o gigante é sono,
Enferrujado na acomodação
A idiotice contamina o chão
O povo dorme e o vazio é extenso,
Os mortos gritam vendo o mal imenso
Na triste noite da corrupção!

A hipocrisia é corrente moeda
E a mentira agora é um ideal
A mídia cria a tal versão final
E o fato perde a força e leva queda
Quem mente mais do poder não se arreda
A lama envolve e a TV faz serão,
Faz a cabeça – dona da razão!
E o povo teme e tremendo obedece.
Há uma teia que a aranha tece
Na triste noite da corrupção!

Brasil desperta, apresenta a imponência!
Acorda e grita: Independência ou morte!
Colosso impávido, de infinito porte,
Mostra a lisura da tua inocência
Chama os teus filhos plenos de decência
Expulsa o mentiroso e o ladrão
Levanta o braço de enorme nação
Que vibra dentro do teu forte povo
Faz teus heróis renascerem de novo
Na triste noite da corrupção!


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 20 de janeiro de 2018

A POESIA NORDESTINA ESTÁ DE LUTO

 

Encantou-se ontem, dia 18 de janeiro, aos 75 anos, o repentista Francisco Maia de Queiroz, conhecido como Louro Branco.

Um dos maiores nomes da cultura popular nordestina. Um cantador repentista talentoso e genial.

Outro grande poeta nordestino, Geraldo Amâncio, assim se expressou sobre a morte do amigo:

A viola calou-se, o som sumiu
Toda rima está vesga, o verso manco 
Com a morte do grande Louro Branco 
Que a convite de Deus ao céu subiu.
Se tem substituto, ninguém viu
No passado, nem tem atualmente.
Nós perdemos a última semente 
Que o roçado do verso safrejou
A lagarta do tempo devorou
Os maiores artistas do repente.

Certa vez, numa cantoria com Sebastião da Silva, outro poeta de primeira grandeza, Louro Branco fez o seguinte improviso:

No dia que eu morrer
Deixo a mulher sem conforto
Roupas em malas guardadas
E o chapéu em torno torto
E a viola com saudades
Dos dedos do dono morto.

Cantando com Valdir Teles, o colega terminou um verso dizendo assim:

Qualquer dia, meu colega
Vou conhecer sua casa.

Louro pegou a deixa e respondeu na bucha:

Meu cumpade, a minha casa
É uma casa tão feia…
D’um lado é um cemitério
Do outro lado a cadeia
D’um lado se come terra
Do outro se come peia.

Noutra oportunidade, Louro exaltou a Natureza com este improviso:

Admiro a Natureza
Mar vomitando salinas
Lajedos de corpos nus
Com as pedras cristalinas
E as serras, túmulos rochosos
Onde Deus sepulta as minas

* * *

 

Francisco Maia de Queiroz, o Louro Branco, (Set/1943 – Jan/2018)

 

* * *

No vídeo abaixo, Valdir Teles e Louro Branco improvisando com o mote

É melhor matar de faca,
do que matar desse jeito.

 

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 13 de janeiro de 2018

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS - 13.01.18

 



 

Dedé Monteiro, um dos maiores nomes da poesia nordestina contemporânea
* * *

 

Dedé Monteiro glosando o mote:

A vida só tem sentido
Enquanto houver ilusão.

Entrei na maré do vício
Sem conhecer suas águas,
Tentando afogar as mágoas
Do meu cruel sacrifício.
Quis me arrepender no início,
Mas faltou disposição…
Fiquei procurando, em vão,
O que nem tinha perdido…
A vida só tem sentido
Enquanto houver ilusão.

* * *

Zé Adalberto glosando o mote:

A cultura é o manto da igualdade:
Não destrói, não exclui, nem discrimina.

A cultura é o símbolo mais perfeito
Da história das civilizações
Porque cria e preserva tradições
Com orgulho, emoção, dom e respeito
Coração maternal sem preconceito
Com escolha, etnia ou melanina
Não aceita influência nem propina
Mas aceita somar boa vontade
A cultura é o manto da igualdade:
Não destrói, não exclui, nem discrimina.

* * *

Roberta Clarissa Leite glosando o mote:

A porteira do sítio onde eu morava
Se fechou nas lembranças do passado.

São José do Egito no sertão
Um pedaço bonito da infância
As lembranças perdidas na distância
Das viagens ao sítio pés no chão
A lembrança transborda na visão
O olhar soluçante e embaçado
No ouvido o barulho som do gado
Que o chocalho pesado carregava
A porteira do sítio onde eu morava
Se fechou nas lembranças do passado.

Que saudade do pé de umbuzeiro
Guardião do meu sítio já vendido
No registro o seu nome é esquecido
Como um tronco nascido no oiteiro
Laranjeira que ainda sinto o cheiro
Que dos frutos o suco foi tirado
Resta hoje algum galho pendurado
No quintal da casinha onde eu brincava
A porteira do sítio onde eu morava
Se fechou nas lembranças do passado.

* * *

Hélio Leite glosando o mote:

Derramei o meu pranto de vaqueiro
No portal da fazenda abandonada.

Eu nasci nas quebradas do sertão,
Sobre o lombo de um potro me criei,
Com prazer minha vida dediquei
A cuidar do rebanho do patrão;
Campear sempre foi minha paixão…
Uma seca chegou inesperada,
Perdurou, acabou com a boiada,
Quase mata de sede o marmeleiro…
Derramei o meu pranto de vaqueiro
No portal da fazenda abandonada.

* * *

Otacílio Pires glosando o mote:

É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

Uma profissão maldita
Vendedores de ilusão
Mentem, sempre, em profusão
Falas que a gente acredita
Haja conversa bonita
Problemas têm solução
Votamos de coração
Em gente sem confiança.
É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

* * *

Edmilton Torres glosando o mote:

Não sei se estou no começo
No meio ou fim da ladeira.

Sessenta e dois percorri
Nas estradas do destino
Eu não sou mais um menino
Mas ainda não morri
Se até hoje eu resisti
Sem cansar, nessa carreira
Vou manter a dianteira
Sem queda e sem tropeço
Não sei se estou no começo
No meio ou fim da ladeira.

Deus traçou a minha meta
Sem me dar conhecimento
Só revelou o talento
Que me deu, de ser poeta
A trajetória completa
Desta vida aventureira
Meu Deus a conhece inteira
Mas ainda eu não conheço
Não sei se estou no começo
No meio ou no fim da ladeira.

Cada passo na estrada
É incerto e inseguro
Os mistérios do futuro
Dificultam a caminhada
Há sempre uma encruzilhada
Um abismo, uma barreira
Ora chuva, ora poeira
Mesmo assim não esmoreço
Não sei se estou no começo
No meio ou no fim da ladeira.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 06 de janeiro de 2018

OITO MESTRES DO IMPROVISO - 06.01.18

 

Leandro Gomes de Barros  (Nov/1865 – Mar/1918)

* * *

Leandro Gomes de Barros

Meus versos inda são do tempo
Que as coisas eram de graça:
Pano medido por vara,
Terra medida por braça,
E um cabelo da barba
Era uma letra na praça.

* * *

Oliveira de Panelas

Por este espaço onde moro
Meu sonho é tão colorido
Que eu tenho a doida impressão
Que ele foi construído
Por várias tintas confusas
De um arco-íris mexido.

* * *

Lourival Batista

És como milho de pobre
Que sempre se desmantela:
Vem o verão, ele murcha,
Vem a chuva, ele amarela,
Quando bota alguma espiga,
Certamente está banguela.

* * *

João Paraibano

Ao passar em Afogados
diga a minha esposa bela
que derramei duas lágrimas
sentindo saudades dela
tive sede, bebi uma
e a outra guardei pra ela.

* * *

Pinto do Monteiro

Aonde eu chego, não vi
Mal que não desapareça
Raposa que não se esconda
Bravo que não me obedeça
Letrado que não me escute
Cantor que não endoideça.

* * *

Cego Aderaldo
(No decorrer de uma visita ao Rio de Janeiro)

O clima do meu sertão
É mais quente e mais sadio,
Não é um clima abafado
Como este clima do Rio.
O sapo do Ceará,
Vindo aqui morre de frio.

* *

João Firmino
(Quando do falecimento do Cego Aderaldo)

Foi a forte aroeira que ruiu
Ao contato do gume do machado.
Foi o ferro melhor já fabricado
Que o mercado do mundo jamais viu;
Foi o trem, sem destino, que partiu,
E ao longo da estrada deu o prego;
Como Homero, também, ele era cego
A quem todo o seu povo admirava…
Para ser o próprio Homero só faltava
Ao invés de cearense ser um grego!

* * *

Manoel Bentevi

Na vida ninguém confia
Em nada sem ter certeza
São obras da natureza
Tudo que a terra cria:
Gente, ave, bicharia,
Tudo começou assim.
O homem é que é ruim
Nada bom ele planeja
Por muito forte que seja
A morte pega e dá fim.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 30 de dezembro de 2017

CINCO MOTES BEM GLOSADOS

 

(Quando do falecimento do cantor/compositor Luiz Melodia)

Arievaldo Vianna glosando o mote

O Brasil está sem ritmo,
Sem letra e sem Melodia.

No dia quatro de agosto
De dois mil e dezessete
Recebi esse bofete
Que só me causou desgosto
Limpei a lágrima do rosto
Era outro que eu queria
Num funeral, nesse dia,
Mas mudaram o logaritmo
O Brasil está sem ritmo ,
Sem letra e sem Melodia.

Nesse mês Luiz Gonzaga
Fez sua triste partida;
Raul fez a despedida
Sob o fio dessa adaga…
Getúlio findou a saga
Quando a bala o atingia.
E a CLT sofria
Os golpes do ilegítimo
O Brasil está sem ritmo ,
Sem letra e sem Melodia.

Luiz Melodia (Jan/51 – Ago/2017)

* * *

Severino Pinto glosando o mote

Quem é vaqueiro não pode
Ser cantador de viola.

Vaqueiro é pra tirar couro,
Espichar, fazer correia,
Azeitar cabresto e peia,
Tirar leite e beber soro,
Visitar o logradouro,
Curtir couro, fazer sola,
Pra rabicho e rabichola,
Ferrar gado e capar bode.
Quem é vaqueiro não pode
Ser cantador de viola.

* * *

Jó Patriota glosando o mote

Quero ver teus seios puros
Nas conchas de minhas mãos.

Estes teus seios pulados,
Que estão me desafiando,
São dois carvões faiscando,
No fogão dos meus pecados,
São dois punhais afiados,
Que já ferem dois cristãos,
Para o meus lábios pagãos,
São dois sapotis maduros,
Quero ver teus seios puros
Nas conchas de minhas mãos.

* * *

Ademar Rafael Ferreira glosando o mote:

É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

Chove tanto no Pará
Que inunda Tucuruí
Não chove em Ouricuri
Sertânia e Jabitacá
Todo ano Marabá
Sofre com inundação
O que não vai ao sertão
Por aqui vem com bonança
É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

Aqui sobra em Santarém
Castanhal e Altamira
Porem faz falta em Tabira
Floresta e Exu também
Eu vou pedir a alguém
Lá da tribo Gavião
Para em nossa região
Dançar uma pajelança
É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

A terra esturricada
Que tem no meu Pajeú
Você não ver no Xingu
Onde a terra é encharcada
No campo não tem ossada
Como tem em Solidão
Em Sumé, em Conceição,
Lugares que a seca alcança
É ruim plantar esperança
Pra colher desilusão.

* * *

José Alves Sobrinho glosando o mote

Cantando hei de encontrar
tudo que perdi chorando.

Cantando sempre vivi,
o cantar me dá prazer,
cantando hei de morrer,
porque chorando nasci,
chorando sempre perdi,
quero cantar até quando
Deus quiser, sempre sonhando,
sem gemer e sem chorar.
Cantando hei de encontrar
tudo que perdi chorando.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 23 de dezembro de 2017

POEMA NATALINO

 

PAPAI NOEL – Um poema de Jansen Filho

Por que, Papai Noel, no seu gesto sensato,
Você sempre esqueceu o meu pobre sapato,
Meu sapato marrom que o tempo desmanchou?
Foi você quem me fez triste e desiludido,
Porque, nos meus natais de menino esquecido,
Esperei tanto tempo e você não chegou!…

Você foi muito bom para as trêfegas crianças,
Só não foi para mim que vivi de esperanças,
Desejando abraçá-lo e você não chegava.
Neste último Natal, preso à bondade sua,
Você com seu fardel andou de rua em rua…
Porém não quis passar no bairro onde eu morava

Recordo-me de tudo: o meu bairro tristonho
Cobria-se de paz, vestia-se de sonho,
Para a celebração da missa universal!
E esperei por você desesperadamente!
E você não me quis trazer um só presente,
Fazendo cada vez mais triste o meu Natal!

Os meninos na rua, exibindo presentes,
Cada qual mais feliz, aguardavam contentes,
A festa matinal, quando o galo cantasse!…
Assistindo ao ferver de tantas ironias,
Cruzava as minhas mãos geladas e vazias
E pedia a JESUS que o Natal não chegasse!

Depois ia dormir magoado e insatisfeito,
Acordava, pensando encontrar no meu leito,
Um soldado de chumbo, um revólver de pau…
Mas era tudo em vão…A mágoa continuava!
Despertava a chorar e a chorar esperava,
Sem jamais perceber que você fosse mau!

Como é triste esperar e viver na incerteza!
Nunca tive um Natal de esplendor e beleza,
Porque, sobre o colchão do meu berço de cobre,
Sonhava com você e você não trazia
Um retalho de luz à minha choça fria!
Um pouco de prazer ao meu Natal de pobre!

Esperei-o demais e perdi-me na espera!…
E quando o desengano encheu minha tapera,
Eu chorei de desgosto e revolta também…
Lembrando a malvadez dos seus ínfimos atos,
No fundo de um caixão joguei os meus sapatos
E resolvi de vez não mais lhe querer bem!…

Fui crescendo e sentindo as mutações da vida!
Hoje, vendo passar a quadra colorida,
Salpicada de azul e plangências de sinos,
É que vejo que estou distante do passado
E já certo de que, no meu bairro encantado,
Você só existiu para os outros meninos…

Dissipou-se, de todo, a bruma dos segredos…
Hoje, sei que você nunca trouxe brinquedos,
Nem jamais possuiu cabelos de algodão,
Nem sandálias de lã e nem barbas de prata…
Mas quisera voltar àquela infância ingrata,
Porque nada é melhor que viver na ilusão!

Foi você quem me trouxe a primeira esperança,
No florido jardim dos meus dias de criança,
Quando a vida sorria, à flor do meu destino!
Mas, depois de esperar por você tantos anos,
Cobriu-se o meu viver de tédio e desenganos
E passei a sofrer meu drama de menino!

Mesmo assim ao saber que você não existe,
Eu não posso ficar sorumbático e triste,
Nem devo blasfemar! Você sabe por quê?
Porque sonho volver àquela doce idade,
Viver no mesmo bairro, à luz da soledade.
Esperando o Natal, e pensando em você.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 16 de dezembro de 2017

TRÊS DUPLAS EM CANTORIA E UM SONETO DE LEONARDO MOTA

 

Valdir Teles e Louro Branco improvisando com o mote

“É melhor  matar de faca,
do que matar desse jeito”.

* * *

Geraldo Amâncio e  Valdir Teles cantando de improviso um Dez de Galope na  Beira do Mar.

* *

Cícero Bernardes cantando de improviso com Jó Patriota

* * *

PEDRA – Leonardo Ferreira da Mota

– Pedra que eu amo, pedra confidente
De todo o mal que o coração tortura,
Tu, que tens a serena compostura
De quem da vida a inquietação não sente,

Tu, que vives de todo indiferente
Ao lodaçal desta charneca impura
Que nós chamamos mundo, pedra escura
Que eu te cobice a placidez consente!

Pudesse eu ter a calma soberana
Que tens, em vez de agitação insana
A sacudir meu peito de precito …

Faze-me, pedra à tua semelhança:
– Dá-me o sossego, a plácida confiança,
Faze desta alma um bloco de granito


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 09 de dezembro de 2017

GRANDES MOTES, GRANDES GLOSAS - 09.12.17

 

 

 

 O grande poeta cantador pernambucano Valdir Teles

* * *

Valdir Teles glosando o mote:

Quando chega o inverno Deus coloca
Mais fartura na mesa do roceiro.

A matuta faz fogo de graveto
“Freve” o leite que tem no caldeirão
Bota sal na panela do feijão
E assa um taco de bode num espeto
Onde a música do sapo é um soneto
Mais bonito na beira de um barreiro
Não precisa zabumba nem pandeiro
Que o compasso da música é Deus que toca
Quando chega o inverno Deus coloca
Mais fartura na mesa do roceiro.

* * *

Renato Santos glosando o mote:

Retirei a aliança do meu dedo
Sem tirar teu amor do coração.

Assinei do divórcio a papelada
Dei-te casa, dinheiro e boa vida
E você hoje se finge de esquecida
Dos bons tempos da vida de casada
Talvez minta não estar apaixonada
Mas aposto que bota o anel na mão
E por mais que engane o coração
Eu te conto meu bem o meu segredo
Retirei a aliança do meu dedo
Sem tirar teu amor do coração.

* * *

Violeiro Baixinho glosando o mote:

Quem tem mulher ciumenta
Tem o cão pra lhe atentar.

Não sai de casa sozinha
Respeitando seu partido
Mas tem raiva se o marido
Só chega de manhãzinha
E se ele olhar pra vizinha
Mesmo sem querer olhar
Ela pega a ciumar
Nem o satanás lhe aguenta
Quem tem mulher ciumenta
Tem o cão pra lhe atentar.

* * *

Biu Salvino glosando o mote:

Um menino dormindo na calçada
E um cachorro servindo de vigia.

Madrugada de erro e precipício
De assaltos de tráficos e escândalos
Praça pública quebrada pelos vândalos
Onde o mundo do crime tem início
Das badernas do baixo meretrício
Onde o povo de Deus se distância
Pelo laço da corda da orgia
Se avista a moral sendo enforcada
Um menino dormindo na calçada
E um cachorro servindo de vigia.

Um menino que passa a vida sua
Sem ter lar, sem escola e sem perfume
Uma vítima que o mundo não assume
Que no mundo das drogas continua
Por não ter um amparo vai pra rua
Mal vestido com fome mão vazia
Pai inútil cruel e mãe vadia
Que só fez por no mundo e não deu nada
Um menino dormindo na calçada
E um cachorro servindo de vigia.

* * *

Lenelson Piancó glosando o mote:

Um espírito de luz chamado amor
Me tirou do umbral da solidão!

Sei que Paulo de Tarso foi romano
Perseguiu os cristãos perante a cruz
Mas um dia em Damasco, viu Jesus
E a visão do amor, mudou seu plano
Sem rancor, nosso mestre soberano
Fez de Paulo de Tarso um bom cristão
E por isso eu espero o meu perdão
Porque sei que Jesus não tem rancor
Um espírito de luz chamado amor
Me tirou do umbral da solidão!

* * *

Marco Haurélio glosando o mote:

Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor.

Júlio César, notável general,
Vencedor dos egípcios e gauleses,
Teve o nome incluído num dos meses,
E, por isso, tornou-se imortal.
Se no campo de luta era brutal,
Noutro campo perdeu seu destemor:
De Cleópatra tornou-se vencedor,
Mas rendeu-se à musa esplendorosa.
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor.

* * *

Cícero Moraes glosando o mote:

Tudo o que há de beleza
Deus colocou no sertão

A suprema divindade
Caprichou no seu trabalho
Não deixou serviço falho
Fez com grandiosidade
Construiu com qualidade
Retocou com perfeição
Quem quiser diga que não
Mas afirmo com certeza
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão

Um céu bonito estrelado
Que não há em outro lugar
Quem observa o luar
Fica logo encantado
Um vaga-lume amostrado
Completa a orquestração
Da bela composição
Do quadro da natureza
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão

Ver um açude sangrando
Alegra qualquer matuto
Que já fica resoluto
Na pescaria pensando
Vai os compadres chamando
Para fazer o pirão
Tomar cachaça e quentão
Na beirada da represa
Tudo que há de beleza
Deus colocou no Sertão.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 02 de dezembro de 2017

GRANDES MESTRES DO IMPROVISO - 02.12.17

 

Jó Patriota

Mesmo sem beber um trago
Sinto que estou delirando
Tal qual um cisne vagando
Na superfície de um lago
Se não recebo um afago
Vai embora a alegria
A minha monotonia
Não há no mundo quem cante
Sou poeta delirante
Vivo a beber poesia!

* * *

milho3

Marcondes Tavares

Isso fez lembrar de nós
Morando na Mandassaia
Era pai ralando o milho
Mamãe dando o nó na paia
E eu sem nada fazer
Já chorando pra comer
Puxando na sua saia.

Um fogão movido a lenha
Onde mamãe cozinhava
Botava queijo ralado
Leite, nata e misturava
Mas quando mamãe servia
Nem os cachorros comia
Mas é porque num sobrava.

* * *

mandacaru

Pedro Rômulo Nunes

Este cacto verdejante
De muitos anos de idade
Serve de maternidade
Para qualquer avoante
Com este porte gigante
Acolhe bem sem tabu
Rolinha, xexéu e anu
Que vem pra fazer seu ninho
Recebe amor e carinho
Do pé de mandacaru.

Seus espinhos vigiando
Sempre alerta noite e dia
Ninguém tem a ousadia
De ficar atrapalhando
Só entra se for voando
Tem segurança de açu
Nem mesmo a surucucu
Querendo se alimentar
Não consegue aproximar
Do pé de mandacaru.

* * *

agua-de-pote

Marcondes Tavares

Bebi muita água de pote
Aparada na biqueira
Envolta um pano molhado
Num gancho”véi”de aroeira
Era muito mais gostosa
Que água de geladeira.

* *  *

pmf

Geraldo Amâncio

Entre os dez mandamentos dos sermões,
Respeitar pai e mãe é o primeiro,
O defeito de um filho é ser grosseiro;
A virtude dos pais é serem bons.
Todo filho tem três obrigações:
Escutar, respeitar e obedecer;
Respeitar pai e mãe é um dever;
Esquecer mãe e pai é grosseria,
Se não fossem meus pais, eu não teria
O direito sagrado de viver.

* * *

chuva4

Adelmo Aguiar

A chuva voltou molhando
Os punhos da minha rede
O tambor de doze latas
Sangrou no pé da parede
E as lágrimas da natureza
Cegaram os olhos da sede.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 25 de novembro de 2017

GLOSANDO E POETANDO POLITICAMENTE

Reginaldo Melo glosando o mote:

Quando o nosso eleitor votar direito
Vamos ver o nascer de um novo dia.

Só teremos o estado de direito
Se lutarmos pela democracia
Praticar e defender cidadania
Não nos resta pensar de outro jeito
Se o ato de votar não for perfeito
E o voto for uma mercadoria
Se deixarmos nos levar por fantasias
Nosso drama jamais terá conserto
Quando o nosso eleitor votar direito
Vamos ver o nascer de um novo dia.

* * *

Renato Santos glosando o mote:

Vou mudar de país para viver
Se o país onde eu vivo não mudar.

Vou tentar esboçar uma visão crítica
De um cenário que vejo piorando
Um Brasil de corruptos se formando
Sem melhoras visíveis na política
É preciso uma vista analítica
Quando a urna seu voto computar
Que o cenário só pode melhorar
Quando o povo aprender a escolher
Vou mudar de país para viver
Se o país onde eu vivo não mudar.

Carnaval, futebol, e pegação,
Obras públicas ‘P‘aradas o ‘T‘empo inteiro
Um Brasil que não é do brasileiro
Um ‘P‘aís que ado’T‘a o mensalão.
Um império da vil corrupção
Onde o rei só tem merda pra falar
O vermelho escurece o exemplar
Do ‘P‘artido ‘T‘irano do poder
Vou mudar de país para viver
Se o país onde eu vivo não mudar.

* * *

marciano medeiros-

O poeta potiguar Marciano Medeiros

Um folheto de Marciano Medeiros

PERFIL DO CANDIDATO MENTIROSO

Existem muitos políticos
Repletos de malandragem
Que no tempo das campanhas
Esbanjam camaradagem
Dizendo pras multidões
Escutem minha mensagem

– Eu quero ser candidato
Por me sentir preparado
O meu plano de governo
Logo mais tem resultado,
Essa é a fala padrão
Do candidato safado

Assim prossegue o barulho
Combate o adversário
No seu discurso inflamado
Promete dar mais salário
Vem pregar na praça pública
O tal conto do vigário

Vemos muita agitação
Nos comícios populares
Candidato esculhambando
Falando coisas vulgares
E até amigos de infância
Brigam nas portas dos bares

É preciso ter cuidado
Com teses escandalosas
Não se deixando levar
Por falas audaciosas
Rejeitando as pilantragens
Das mentes maliciosas

 

Na campanha eleitoral
Nós vemos grandes mentiras
Onde falsos democratas
Falam repletos de iras
E a reputação dos outros
É rasgada em feias tiras

A promessa sendo feita
Pra toda população
O candidato farsante
Melhora a entonação
Dizendo que cumpre tudo
Se ganhar a eleição

O povo logo animado
Acredita na mudança
Achando que vale a pena
Conservar toda esperança
Memoriza o tal discurso
Guarda tudo na lembrança

O político mentiroso
Tem enorme plataforma
Afirma que seu partido
A legislação transforma
E quem quiser votar nele
Sentirá boa reforma

Diz ser bastante capaz,
O favorito do povo
Todos precisam dar chance
A um candidato novo
Que entrando na prefeitura
Trará bastante renovo

Esse político farsante
Tem profissão de enganar
Diz que terá o emprego
Pra seu compadre ajudar
Mas logo assumindo o cargo
Só lembra de humilhar

Bota uma trava eletrônica
Na porta da prefeitura
Criando falso governo
Com muita descompostura
Vai mentir na capital
Essa maldosa figura

Você vai pedir trabalho
Ele dar pobre gorjeta
Desejando que o povo
Sempre viva na sarjeta
O eleitor sofre tanto
Que sai fazendo careta

Todo cidadão conhece
O assunto profundamente
Enrolação de político
Dum safado incompetente
Que vive para enganar
Iludindo a nossa gente

Ligeiro faz seu teatro
No horário eleitoral
Numa campanha nanica
E até mesmo federal
Obedece ao marqueteiro
Pra derrotar o rival

Assistimos as conversas
Todas elas preparadas
Nos truques das eleições
As cenas são formuladas
E nos programas gratuitos
Elas são apresentadas

Mesmo sendo analfabeto
O cara fica falante
Usando terno bonito
Passando por elegante
E quando anda na rua
Faz a pose de importante

Abraça o povo sorrindo
Chamando de companheiro
Visita toda favela,
Boteco de cachaceiro
Mas voltando para casa
Vai se lavar no chuveiro

Discursando é envolvente
Faz extensa analogia
Dizendo representar
A tal da democracia
Mas quem for inteligente
Percebe a demagogia

Candidato mentiroso
Chama o povo de querido
Sem que ninguém fale nisso
Proclama-se o preferido
Afirma que vencerá
Tendo o pleito garantido

E vive fazendo intrigas
Sendo muito temerário
Só leva sua bandeira
Quem ele pagar salário
Pois tem mais de dez processos
No poder judiciário

Não respeita o concorrente
Só quer desmoralizar
Falando das baixarias
Na hora de improvisar
As propostas do partido
Termina por não contar

Declara pra toda gente
Que só confia em dinheiro
Tenta comprar o seu voto
O político aventureiro
Quando vence a eleição
Viaja pro estrangeiro

Comemora na Espanha
Ou na América do Norte
Não agradecendo os votos
Pensa apenas que foi sorte
Compra o poder com dinheiro
Imaginado ser forte

Ao terminar a viagem
Regressa pra governar
Tendo cargo de prefeito
Muda logo o celular
Depois que passa três meses
O seu carro vai trocar

Se não teve maioria
Compra “bons” parlamentares
Que das suas roubalheiras
Passam a ser os pilares
Mas nos comícios da vida
Dizem que são exemplares

É claro que não são todos
No Brasil temos valores
Os políticos verdadeiros
Não gostam dos impostores
Deixando muitos exemplos
Nos gestos renovadores

Nunca aprovam safadeza
Dos festins e das orgias
E quando assumem funções
Batalham por melhorias
Vamos votar nos corretos
Para vermos novos dias

Tenha bastante cuidado
Preserve a cidadania
Pois quando a gente se omite
Ajuda a patifaria
Um candidato correto
Só defende a melhoria

Quem gasta muito dinheiro
Na campanha eleitoral
Seja em cidade pequena
Ou mesmo na capital
Vai tirar o prejuízo
De maneira desleal

Na força deste folheto
Preguei a democracia
Dizendo muitas verdades
Com pouca diplomacia
Então que evitemos sempre
Toda prática que vicia

Viva o povo brasileiro
Abaixo a corrupção
Preservando honestidade
Faremos na votação
Dessa Pátria do cruzeiro
A mais gigante nação


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 18 de novembro de 2017

GRANDES MESTRES DO IMPROVISO - 18.11.17

geraldo-amancio-e-patativa-do-assare

Geraldo Amâncio, grande cantador contemporâneo, e o saudoso Patativa do Assaré

 

* * *

Geraldo Amâncio

Patativa tinha o brilho
da luz de um meteorito;
um homem que virou gênio,
um gênio que virou mito;
um cantador de roçado
que foi por Deus convocado
pra cantar no Infinito.

Patativa do Assaré

Sertão, argúem te cantô,
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô,
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
E vejo qui os teus mistéro
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Qui o poeta canta, canta,
E inda fica o qui cantá.

* * *

Otacílio Batista

No romper da madrugada,
Um vento manso desliza,
Mais tarde ao sopro da brisa,
Sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
Aparece lentamente,
Na janela do nascente,
Saudando o romper da aurora,
No sertão que a gente mora
Mora o coração da gente.

* * *

João Paraibano

Quando o dia começa a clarear
Um cigano se benze e deixa o rancho
A rolinha se coça num garrancho
Convidando o parceiro pra voar
Um bezerro cansado de mamar
Deita o queixo por cima de uma mão
A toalha do vento enxuga o chão
Vagalume desliga a bateria
Das caricias da noite nasce o dia
Aquecendo os mocambos do sertão.

* * *

Zito Siqueira

Mulher, se lembre das juras
Que fizemos na matriz;
Se esqueça de advogado,
De promotor, do juiz,
Se acostume a levar ponta
Pra gente viver feliz.

* * *

Zé da Prata

Se vejo mulher bonita,
Meu corpo ainda se bole.
Mas sei que já estou velho,
É melhor que me console…
De que serve eu ter desejo,
E a correia assim tão mole?
E a correia desse jeito 
O priquito não engole;
Mesmo botando a cabeça
Tirando a mão escapole.
E não posso dessa forma
Fazer mais o bole-bole.

* * *

Dimas Batista Patriota

Existe quem diga que as lindas sereias
São fatos, são lendas que nunca existiram
Mas esses só dizem porque nunca viram
Morenas bonitas nas alvas areias
Maiôs sungadinhos, perninhas bem cheias
Que um frade de pedra não vê sem corar
As pontas agudas roliças de um par
De seios pulando num colo maciço
São pomos formados de puro feitiço
Quem é que resiste na beira do mar.

* * *

Zé Bernardino

Eu nada fiz na jornada
Nada ganhei nem perdi
Nada ignoro do nada
Porque do nada nasci.
Se o nada foi um abrigo
Seja o nada meu jazigo
Pois nada disso me enfada.
Eu de nada fiz estudo,
Mas sei que o nada faz tudo
E tudo se torna em nada.

* * *

José Alves Sobrinho

Jorram as águas do rio,
E elas como uma cobra,
Num andar lento e macio,
Descendo e fazendo dobra,
Derramam sobre o baixio
A quantidade que sobra.

* * *

Lourival Pereira

Eu cheguei um dia na beira do cais
Admirei muito o seu movimento
Navios fazendo descarregamentos
Pacotes maneiros, pesos desiguais
De dez toneladas, de vinte e de mais
E a um marinheiro peguei perguntar
De onde é que vem pra descarregar
Ele disse: da Bélgica, Egito e Hungria
Da Síria, da Pérsia, da Angola e Turquia
Trazendo isso tudo pra beira do mar.

Expedito Sobrinho

Perguntei o nome da mercadoria
Ele disse aqui a gente traz de tudo
Mostarda estrangeira que o grão é miúdo
Petróleo, amianto e tapeçaria
Pedras preciosas que o povo aprecia
Brilhante , ametista pra fazer colar
Ouro português pra quem quer comprar
Pedra opala e amazonita
Berilo, ouro branco, prata e tantalita
Pra fazer negócio na beira do mar


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sexta, 10 de novembro de 2017

OITO MOTES BEM GLOSADOS

Pedro Otávio

Adeus, adeus companheiros
Já são horas da partida.

Meus amigos verdadeiros
Da grande luta da vida
É hora da despedida
Adeus, adeus companheiros
Da dor, do riso, parceiros
Nesta quadra já corrida
No peito sangra a ferida
A saudade me devora
A lembrança fala, chora
Já são horas da partida.

* * *

Carlos Severiano Cavalcanti

Devagar, como fogo de monturo,
a saudade invadiu meu coração.

Na fazenda, nasci e me criei,
peraltava e fazia escaramuça,
morcegava, no campo, a besta ruça,
jararaca até mesmo já matei.
Não me lembro da vez em que acordei
assombrado com tiros de trovão,
pinotava da rede para o chão
e saía correndo pelo escuro.
Devagar, como fogo de monturo,
a saudade invadiu meu coração.

* * *

Pinto do Monteiro

Quem é vaqueiro não pode
Ser cantador de viola.

Vaqueiro é pra pegar touro,
Amansar bezerro e vaca,
Cortar pau, fazer estaca
E preparar bebedouro.
Comer queijo e beber soro,
Curtir couro e fazer sola;
Fazer freio e rabichola,
Tirar leite e capar bode,
Quem é vaqueiro não pode
Ser cantador de viola.

* * *

João Paraibano

Poesia é a própria voz divina
A vibrar no baião dos cantadores.

Eu sou mais um repórter do diário
Das notícias que a mão de Deus escreve
Se sou pobre, não estou fazendo greve
Reclamando um aumento de salário
Desconheço o que é dicionário
Onde vejo um letreiro estranho as cores
Nunca tive lição de professores
Quando eu erro um poema, Deus me ensina
Poesia é a própria voz divina
A vibrar no baião dos cantadores.

* * *

Cicinho Gomes

A lua vinha beijando
A linda barra do dia.

Num recanto de quintal,
Num cocho de catingueira,
Vi uma vaca leiteira
Lambendo um resto de sal.
O úbere, um manancial
Que nas pernas não cabia.
E enquanto a mesma lambia
O seu bezerro apojando,
A lua vinha beijando
A linda barra do dia.

* * *

Zé Barreto

Por esses caminhos venho
pedaços de mim deixando.

Nem juntos arte e engenho
de Camões podem cantar
como em vão a tropeçar
por esses caminhos venho.
O amor para mim é lenho
que em meio aos lobos em bando,
aos trancos vou carregando
e a cada mulher que passa
sou tragado na fumaça,
pedaços de mim deixando.

* * *

Nonato Costa

Pra findar a viagem sem tristeza,
É preciso saber envelhecer.

Quem não quer ficar velho é infeliz
Perde a calma de tudo e não sossega:
Passa o tempo no espelho atrás de prega
Pra depois dar serviço aos bisturis…
Sempre esconde a idade e nunca diz,
Fica velho por dentro sem querer
Tenha fé, deixe a ruga aparecer,
Não se lance de encontro à natureza
Pra findar a viagem sem tristeza,
É preciso saber envelhecer.

* * *

Zé Limeira

Me diz coração ingrato
Qual foi o mal que te fiz.

A minha amada primeira
Conheci na escritura
Comendo uma rapadura
Em riba da cumiera
Peguei minha ‘balieira’
Dei um tiro na infeliz
Errei, pegou num concriz
Mordendo a boca d’um pato
Me diz coração ingrato
Qual foi o mal que te fiz.


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sexta, 03 de novembro de 2017

DEZ REPENTES DE PRIMEIRA

Otacílio Batista Patriota, nascido em set/1923, atualmente com 94 anos

* * *

Otacílio Batista

Existe quem diga que as lindas sereias
São fatos, são lendas que nunca existiram
Mas esses só dizem porque nunca viram
Morenas bonitas nas alvas areias
Maiôs sungadinhos, perninhas bem cheias
Que um frade de pedra não vê sem corar
As pontas agudas roliças de um par
De seios pulando num colo maciço
São pomos formados de puro feitiço
Quem é que resiste na beira do mar.

* * *

Ivanildo Vilanova

É o céu uma abóboda aureolada
Rodeada de gases venenosos
Radiantes planetas luminosos
Gravidade na cósmica camada
Galáxia também hidrogenada
Como é lindo o espaço azul -turquesa
E o sol fulgurante tocha acesa
Flamejando sem pausa e sem escala
Quem de nós poderia apagá-la
Só o santo doutor da natureza.

* * *

Cicinho Gomes

Depois que mamãe morreu,
Aumentaram meus fracassos.
Se estou dormindo desperto
Parecendo ouvir os passos
Daquela que em muitas noites
Me deu por berço os dois braços.

* * *

Aldo Neves

A lua no céu vagueia
Como um barco que flutua
Inspirando o seresteiro
Jogando os raios na rua
Tudo que o poeta é
Só deve a Deus e a lua.

Pra lua sair bonita
Deus é quem abre a janela
E o quadro azul do espaço
A natureza pincela
Num sei quem é mais bonita
Se a noite ou se é ela.

* * *

Ademar Macedo

Deus na sua magnitude,
Fez do sertão um palácio,
Deixou escrito um prefácio
Na parede do açude;
Disse da vicissitude
Da flor e do gineceu,
De um concriz que se escondeu
Nos garranchos da jurema,
O sertão é um poema
Que a natureza escreveu.

* * *

Ismael Pereira

Depois que meu pai morreu
Minha mãe ficou sozinha
Na sua vida de pobre
Trabalhando pra vizinha
Estragado a vida dela
Pra dar conforto a minha.

* * *

Hélio Crisanto

Quando ouço o cantar da seriema
Se coçando na trave da cancela
Juriti “avoando” perto dela
Parecendo uma tela de cinema;
Uma cobra no ninho bebe a gema
A cigarra completa a melodia
Uma cabra deitada dando cria
Um cavalo deitado joga crina
Quando o sol, de manhã, rasga a cortina
O sertão se desmancha em poesia.

* * *

Bob Motta

Nem ostra, nem catuaba,
Nem caldo de tubarão,
Culhão de touro ou pirão,
Nem mesmo, uma caldeirada;
Vai levantar a “finada”,
Que vive olhando p’ro chão.
Nem pentelho de barrão,
Lhe digo, na minha verve;
Isso de nada lhe serve,
Quando se acaba o tezão.

* * *

Luiz Ferreira Lima

Acho lindo um bonito vagalume
Reluzindo sua luz na escuridão
Um luzidio e pomposo alazão
Quando trota exibindo seu negrume
Como é lindo os peixinhos em cardume
Se unindo pra escapar do predador
Não se imita o “rasante” de um condor
Nem o charme de uma bela “margarida”
Isso tudo pra mostra na nossa vida
Quanto é grande o poder do Criador!

* * *

Manuel Rabelo

Uma casa tão singela
Sem luxo e sem mordomia,
Ninguém diz que ali um dia
Morou muita gente nela
Já não tem mais na janela
Um jarro com uma flor;
E um cachorro caçador
Deitado lambendo a mão
São lembranças do sertão
Que guardo com muito amor.

 


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 28 de outubro de 2017

UM IMPROVISO GENIAL

Um improviso do poeta Aldo Neves:

No teu beijo Deus bota uma mistura
Que imitá-lo eu acho tão custoso
O teu beijo pra mim é mais gostoso,
Que uma manga depois que está madura.
Porque ele pra mim tem mais doçura
Que o miolo da própria melancia
Eu beijei o teu rosto e não sabia,
Que o teu cheiro ficava em minha face
Se o teu beijo matasse quem beijasse
Eu beijava sabendo que morrria


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sexta, 20 de outubro de 2017

DOIS MESTRES DO IMPROVISO

 

 

IVANILDOgeraldo amancio

Ivanildo Vilanova e Geraldo Amâncio: dois dos maiores poetas cantadores da atualidade

 

* * *

Ivanildo Vilanova e Geraldo Amâncio improvisando com o tema “Sertão”:

Ivanildo Vilanova

Uma tarde de inverno no sertão
É um grande espetáculo pra quem passa
Serra envolta nos tufos de fumaça
E agua forte rolando pelo chão
O estrondo da máquina do trovão
Entre as nuvens do céu arroxeado
Um raio caindo assombra o gado
Atolado por entre as lamas pretas
Rosna o vento fazendo piruetas
Nas espigas de milho do roçado

Geraldo Amâncio

No sertão quando é bem de manhãzinha
Sertanejo se acorda na palhoça
Chama o filho mais velho para a roça
A mulher toma conta da cozinha
Faz o fogo de lenha e encaminha
Um guisado, angu quente ou fava pura
E depois de fazer essa mistura
Sai faceira igualmente uma condessa
Com um quibongo de barro na cabeça
E vai levar aos heróis da agricultura

Ivanildo Vilanova

No sertão a tarefa é muito dura
Mas se tendo a colheita, a criação
Ferramenta da roça, produção
Uma rede, um grajau de rapadura
Uma “dez polegadas” na cintura
A viola, uma baú, uma cabaça
A tarefa e um litro de cachaça
Mescla azul, botinão, chapéu, baeta
Fumo grosso, espingarda de espoleta
E um cachorro mestiço bom de caça

Geraldo Amâncio

É preciso ter muita paciência
Guardar milho num quarto empaiolado 
Sustentar criação com alastrado
Numa terra que tem pouca assistência
Trabalhar numa frente de emergência
Esperando o inverno que não vem
Insistir, crer em Deus e tratar bem
Manter sempre a família tão unida
Do chão seco arrancar o pão da vida
Sertanejo faz isso e mais ninguém

Ivanildo Vilanova

No verão quando o sol se descortina
Se escuta o zumbido das abelhas
O balir melancólico das ovelhas
O dueto dos pássaros na matina
O bonito alazão sacode a crina
O vaqueiro abolando chama a rês
Os canções gritam todos de uma vez
Acusando a presença da serpente
Num concerto de música diferente
E da orquestra sinfônica que Deus fez

Geraldo Amâncio

E o traje do homem camponês 
Quando sai pra uma festa ou para a feira
A calça de mescla, uma peixeira
Um paletó listrado ou xadrez
Umas botas de couro de uma rês
Para dançar forró enquanto é moço
Um chapéu abalado, grande e grosso
Com uma pena qualquer de um passarinho
E a medalha fiel do meu padrinho
Num rosário enfiado no pescoço

Ivanildo Vilanova

Falar mal do sertão hoje eu não ouço
Não se entrega ao cansaço ou enxaqueca
Um herói pelejando a seca
Contra a cheia combate sem sobrosso
Respeita a moral de velho ou moço
Também quer ver a sua respeitada
Sem Brasil a América é derrotada
Com Brasil a América vale mil
Sem nordeste o Brasil não é Brasil
E sem sertão o nordeste não é nad


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sábado, 14 de outubro de 2017

DEZ MESTRES DO IMPROVISO

 

Poeta repentista Oliveira de Panelas

 

Hélio Crisanto (colunista do JBF)

Quando ouço o cantar da seriema
Se coçando na trave da cancela
Juriti “avoando” perto dela
Parecendo uma tela de cinema;
Uma cobra no ninho bebe a gema
A cigarra completa a melodia
Uma cabra deitada dando cria
Um cavalo deitado joga crina
Quando o sol, de manhã, rasga a cortina
O sertão se desmancha em poesia.

Cego Aderaldo

A prisão deve ter sido
Invenção de Lúcifer
Eu só aceito a prisão
Nos braços duma mulher
Aguentando o que ela faz
E fazendo o que ela quer.

Otacílio Batista

No romper da madrugada,
Um vento manso desliza,
Mais tarde ao sopro da brisa,
Sai voando a passarada.
Uma tocha avermelhada
Aparece lentamente,
Na janela do nascente,
Saudando o romper da aurora,
No sertão que a gente mora
Mora o coração da gente.

Zé Bernardo

Não sou poeta vos digo
Mas com rimas arranjo o pão.
Sou chapista e impressor,
Sou bom na composição.
O meu saber se irradia,
Conheço com perfeição
Agradeço esta opulência
À Divina Providência
E ao Padre Cícero Romão.

Leonardo Bastião

Eu também plantei saudade
Numa pequena panela
Só de quinze em quinze dias
É que eu botava água nela
Pr’ela não crescer demais
E matar quem cuidava dela.

Na mocidade eu não pude
Vencer os planos que fiz
A velhice acompanhou
Já fez de mim o que quis
Com tanta velocidade
Que deixou a mocidade
Numa distância infeliz.

Pedro Bandeira

Admiro demais o ser humano
Que é gerado num ventre feminino
Envolvido nas dobras do destino
E calibrado nas leis do soberano
Quando faltam três meses para um ano
A mãe pega a sentir uma moleza
Entre gritos lamúrias e esperteza
Nasce o homem e aos poucos vai crescendo
E quando aprende a falar já é dizendo:
Quanto é grande o poder da Natureza.

Gleison Nascimento

A vida é um sopro da eternidade,
Que esfria a sopa da morte malvada,
Que espera a hora, sofrida e calada,
De mostrar pro mundo a sua maldade,
E um cantador preso à liberdade,
Uns versos cansados gosta de rimar,
E quando a morte vem pra lhe buscar,
Recorre a fé, buscando guarida
Briga com a morte, pois gosta vida
Cantando galope na beira do mar.

E faz sua arte um trunfo eterno,
E canta bonito prá Deus lhe sentir,
E por essa prece, Deus vai lhe ouvir,
E vai lhe tocar, no afago mais terno
E manda a morte , voltar pro inferno
Pois esse poeta ela não vai levar,
E segue o poeta na vida à rimar,
E Deus escutando seu canto mais grato
Tomando um vinho daqueles barato
Com dez de galope na beira do mar.

Cego Sinfrônio

Eu, atrás de cantadô
Sou como boi por maiada
Como rio por enchente
Como onça por chapada
Como ferrôi por janela
Menino por gargaiada!

Eu, atrás de cantadô
Sou como abêia por pau
Como linha por agúia
Como dedo por dedal
Como chapéu por cabeça
E nêgo por berimbau

Eu, atrás de cantadô
Sou como vento por praia
Como junco por lagoa
Como fogo por fornaia
Como piôi por cabeça
Ou pulga por cós de saia!

Lourinaldo Vitorino

(Em homenagem a Otacílio Batista Patriota)

As violas de luto soluçando
Dão adeus ao Bocage do repente,
Um fenômeno de arte, um expoente,
Que de cinco a seis décadas improvisando
Sua voz de trovão saiu rasgando
Modulando a palavra em cada nota
Pra cultura um nocaute, uma derrota,
Um desastre, uma perda, um golpe horrendo,
Enlutado o repente está perdendo
Otacílio Batista Patriota.

Zé Bezerra

Inesquecível sertão
Terra dos meus ancestrais
Dos meus avós, dos meus pais
Todos do mesmo rincão
Tenho a recordação
Daquele tempo passado
Que tirava no roçado
As moitas de mororó
Caçava, armando quixó
No sertão que fui criado.

Ali o povo vivia
Com muita simplicidade
Sem requinte e vaidade
Sem modismo e fantasia
Cada família queria
Ver cada filho educado
O povo era acostumado
A servir e respeitar
Dava gosto se morar
No sertão que fui criado.

Sertão caboclo da luta
Do camponês destemido
Que mesmo sendo esquecido
Faz valer sua conduta
E da cabocla matuta
Que faz serviço pesado
Limpa mato, tange gado
Ceva capão e suíno
Todo ano tem menino
No sertão que fui criado.

Essa gente nordestina
Tem cultura e tradição
É bom se ver no sertão
Toda festança junina
No toque da concertina
O forró é animado
No pavilhão enfeitado
Ali perto da floresta
É meio mundo de festa
No sertão que fui criado.

Sertão fértil, terra boa
Que tem raposa e gambá
Xexéu, concriz, sabiá
Garça e pato na lagoa
Orelha de pau e broa
Fígado de porco torrado
Milho assado e cozinhado
Galinha que cacareja
Bode que berra e bodeja
No sertão que fui criado.

"


Pedro Fernando Malta - Repentes, Motes e Glosas sexta, 06 de outubro de 2017

QUATRO MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE PELEJA

GGF

Poeta cearense Gonçalo Ferreira da Silva, inspirado folhetista

* * *

Luiz Ferreira Lima (Liminha)

Cai a chuva no sertão
Cai o palhaço do palco
Cai a tinta no decalco
Cai o jumento no chão
Cai o preço do feijão
Cai o artista em cena
Cai o pivô da antena
Cai a arca do “Sinai”
Mas Michel Temer não cai
Nem com a gota serena.

Cai a árvore na cidade
Cai a lata de azeite
Cai o mosquito no leite
Cai a coroa do frade
Cai raio na tempestade
Cai Silvio Santos e Datena
Cai o galho da verbena
Cai no penhasco o “bonsai”
Mas Michel Temer não cai
Nem com a gota serena.

Cai do pescoço a corrente
Cai o menino no rio
Cai o carro no desvio
Cai o guiso da serpente
Cai o cabelo no pente
Cai o chinês em Xangai
Cai o tio e cai o pai
Cai o toucinho na brasa
Mas nem com o “caray” de asa
O Michel Temer não cai.

Cai o Collor no lixão
Cai o Cunha acabrunhado
Cai o Aécio cagado
Cai Jucá no mensalão
Cai a bandeja da mão
Cai o peso no Uruguai
Cai o hotel em Dubai
Cai bomba na faixa de gaza
Mas nem com o “caray” de asa
O Michel Temer não cai.

* * *

George Alves

Cancão glosava bonito,
Feliz de quem o conheceu.
Foi gênio enquanto viveu,
Faleceu pra virar mito.
De São José do Egito,
Voou para a imensidão
Onde não tem alçapão,
Baladeira e espinho.
Na terra é difícil um ninho,
Mas no céu tem de Cancão.

* * *

Zezo Correia

Canta a cauã com agouro
Em cima de uma aroeira
No ninho da quixabeira
Canta a casaca-de-couro
Eu admiro é um louro
Lá no oco apertadinho
Dentro criar um filhinho
Com tanta satisfação
Causando admiração
A vida de um passarinho.

Vê-se um maracanã
Rasgando espiga de milho
Pra dar comer a seu filho
Todo dia de manhã
Também vejo a ribaçã
Pôr pelo chão sem ter ninho
Deixar o ovo sozinho
Depois tirar sem gorar
Isso faz admirar
A vida de um passarinho.

* * *

Hélio Crisanto

Eu só sei cortar mato de enxada
Amansar burro brabo e fazer broca
Dar solfejos com flauta de taboca
Tirar leite rompendo a madrugada
Meu cardápio é queijo com coalhada,
Rapadura batida com feijão
Já botei muita água de galão
Enchi pote com água de barreiro
Sou poeta, matuto e violeiro
E as histórias que conto é do sertão.

* * *

Um folheto de Gonçalo Ferreira da Silva

PELEJA DE OSCAR ALHO E FRANCISCO MALAGUETA

Quem não leu ainda, leia
a mais acirrada e preta
peleja que já se viu
em cima deste planeta
a luta de Oscar Alho
e Francisco Malagueta.

Malagueta era filho
de João Antônio Barbalho
nunca violeiro algum
lhe deu o menor trabalho
assim queria encontrar-se
com o famoso Oscar Alho.

Cantava o velho Oscar Alho
alegre e descontraído
quando avistou Malagueta
mas na distração lhe fez
este convite atrevido

Francisco Malagueta

Meu Oscar Alho não pense
numa só palavra tola
senão você não dará
alimento à sua rola
e até o dono da casa
lhe chamará de baitola.

Oscar Alho

Trocar alho por cebola
é trocar leite por creme
o dono da casa acha
que hoje aqui ninguém treme
portanto pede que nós
cantemos na letra eme.

 

Francisco Malagueta

Você hoje chora e geme
pede ajuda a satanás
cantando na letra M
nome comigo não faz
querendo siga na frente
que eu enrabicho atrás.

Oscar Alho

Manoel, Maria, machado
macaúba, mulungu
maxixe, mandacaru,
milho, melancia, melado,
mulo, Melo, malcriado,
mingau, manteiga, melão,
mulato, milho, mamão,
maledicente, minhoca,
macambira, mandioca,
mostarda, manjericão.

Francisco Malagueta

Martirizado, mococa,
milagre, mão, maisena,
macaco, mutamba, mena,
manga, matutino, moca,
Miguel, madame, maloca,
moribundo, maquinista,
malfadado, motorista,
martelo, meu, mobilete,
Marcelo, metido, mete,
macacão, mudo, modista,

Oscar Alho

Marco, mercador, mercado,
março, mês muito melhor,
Márcio, marcante, maior,
malagueta, moderado,
meu mote metrificado,
minha má mercadoria,
modestinha moradia,
manjerioba, martelo,
Mauro, mourão, miro, melo,
munguba, mercearia.

Francisco Malagueta

Muito mais, meia, metade,
marcada, média, milhão,
muda, mala, matulão,
margarida, mocidade,
mosteiro, maternidade,
meta, multiplicador,
mestre moralizador
Mara, Maria Madalena
Maurícia, Marta, morena
mundo, mundial, motor.

Oscar Alho

Mido, Macau, Mossoró,
metediço, milharina,
mó, mineral, metal, mina,
medidor, metro, mocé,
mais, macarrão, mocotó,
Moreira, Marli, mansão,
materialização
materializador
mero mistificador,
maior modernização.

Francisco Malagueta

Mariposa, marmelada,
mudubim, manancial,
mangaba, municipal,
mila, manteiga, melada
macabau, macarronada,
Minelvina, má, mineira,
metralhadora, metreiro,
momento, monte, monteiro,
manjedoura, macieira,

Oscar Alho

Mau, mandapulão murim,
mandi, macá, mariquita,
morte, madrasta, maldita,
maioral, menor, mirim,
mosca, morta, mucuim,
mosquitinho mordedor,
malfadado morador,
mutuca, maracujina,
menina magra, mofina,
moço moralizador.

Francisco Malagueta

Magricelo, marinheiro,
manejando, mastro, mar,
matadouro, mal, matar,
malcriado, mandingueiro,
mungubeira, marmaleiro,
moita, mufumbo, mangueira,
miolo, mole, moleira,
macacheira, mulungu,
madureira, mucumbu,
madona, macurureira.

Oscar Alho

Macacoa, maculado,
mil, marapendis, munheca,
maçonaria, muqueca,
maçarico, macerado,
maçaroca, machucado,
macambira, macau,
macilento, macaréu,
macambúzio, moscatel,
moçambique, munduru.

Francisco Malagueta

Matreiro, maturidade,
mangaratiba, maré,
mandacaru, Macaé,
mutação, moralidade,
modéstia, morosidade,
Montreal, meditação,
mancebo, masturbação,
malevolente, mocambo,
maledicente, mulambo,
mortandade, maldição.

Oscar Alho

Macro, Maximiliano,
malta, meridional,
mordomo, material,
maranhense, marciano,
martinica, mariano,
Marlene, matsubara,
motorneiro, mila, mara
Maradona, maracá,
mundugu, maracajá,
muçambê, moagiara.

Francisco Malagueta

Mui, meteorologia,
maltratado, maltrapilho,
maquiavelismo, milho,
mourisco, mitologia,
marca, musicologia,
mica, masculinidade,
mido, monstruosidade,
mártir, materialismo,
Martiniano, mutismo,
Max, marginalidade.

Oscar Alho

Malevolência, mundana,
motorizado, malvina,
monge, montepio, mina,
muruqui, miragem, mana,
mágua, manágua, marana,
mentiroso, magnata,
magnitude, mamata,
minelvino, monetário,
morena, magra, mulata.

Meu amigo Malagueta
Não posso cantar assim
É tanto M que chego
Até tropeçar em mim
O meu estoque de emes
Já está chegando ao fim.

Francisco Malagueta

Meu Oscar Alho é ruim
Falar numa letra só
A última vez que cantei
Com o velho saudoso Mó
Ele terminou, coitado
Morrendo em meu mocotó,

De você não tive dó
Não preciso que lhe mate
Eu sendo grande poeta,
Você sendo grande vate
Não há vencedor na sala
Vamos brindar o empate.

Cachorro não canta, late
Mas eu vi a coisa preta
Não me meto com você
Você também não se meta
E aceite um forte abraço
Do amigo Malagueta.


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