SEM MEDO DE MONTAR
Dalinha Catunda
*
Andei montando um cavalo,
Pras bandas do meu sertão.
Sua fama percorria
Toda aquela região.
Em cavalo não confio,
Porém sendo desafio,
Encaro a situação.
*
Ele me olhou de soslaio
Porém não me intimidou.
Passei a perna por cima,
A sela me acomodou
Eu gostei da montaria,
Ele bravo se exibia,
Só que não me derrubou.
*
Pra ver sua reação,
Eu enfiei o chicote.
Ele então me chacoalhou,
E disparou no pinote
Numa aventura assassina,
Segurei na sua crina
Me enroscando em seu cangote.
*
Horas me faltava céu.
Horas me faltava chão.
Hora nenhuma faltou,
Foi mesmo disposição.
Porém ele parecia,
Que aos poucos esmorecia,
Penando e na minha mão.
*
Se o bruto ficou domado,
Isto não posso dizer.
Só sei que segue meu rastro
Isto posso perceber,
Escuto seu relinchar
Porém só volto a montar
Atendendo o meu querer.
*
Versos e foto de Dalinha Catunda
A JUREMA É PRA CARVÃO
Dalinha Catunda
*
Estaca não me ofereça
Que não tenho precisão
Quando comprei meu roçado
Eu cerquei foi com mourão
E pra você não pular
Na cerca mandei plantar
Muita urtiga e cansanção.
*
Aqui na minha fazenda
Tem angico e imburana
Não me falta sabiá
Só não quero pé de cana
Não venha com: ora poxa!
Pois sua jurema roxa
Aqui não é soberana.
*
Para falar a verdade
E acabar a discussão
A sua jurema roxa
Só serve para carvão
Eu não tenho fogareiro
E só uso marmeleiro
Como lenha em meu fogão.
*
Versos e fotos de Dalinha Catunda
MEU JEITO AGRESTE
Dalinha Catunda
.
Não nasci de sete meses,
Não sou mulher assustada.
Nunca fui guia de cego
Mas sou bem desaforada.
O meu nome é Dalinha,
Outro melhor não tinha
Para ser eu retratada.
.
Não sou de dizer amém
Cabeça não sei baixar.
Tenho nariz empinado
Não sou de me rebaixar.
Tenho cabelos na venta
Meu pirão é com pimenta
Que arde para danar.
.
Nasci no meu Ceará
O meu chão é Ipueiras.
Adoro o meu Nordeste.
Sou da ala das guerreiras.
Preservo meu ar agreste,
Já peguei cabra da peste,
Nele coloquei coleiras.
.
E quem quiser me seguir
Que acompanhe meu passo.
Nem devagar nem ligeiro,
Pois eu tenho meu compasso.
Aprendi lá no sertão,
A pisar em qualquer chão
Nem fico nem ultrapasso.
.
Eu sou abelha Dalinha,
Sou doce e de amargar.
E se hoje oferto mel
Também posso ferroar.
O meu mel e meu ferrão,
Conforme a situação
Sou obrigada a usar.
.
Gosto de ser instintiva
Não queira me adestrar.
Este meu jeito agreste
Eu trouxe do meu lugar.
Tenho lá minha doçura
Porém só mostro ternura
Se de fato me encantar.
.
Foto e versos de Dalinha Catunda
A ROLA DA CONCEIÇÃO
Dalinha Catunda
1
Conceição mulher católica
Filha de Dona Prazer
Era uma moça sem vício
Vivia o povo a dizer
Mas arrumou uma rola
Pra com ela se entreter.
2
Quando baixou no terreiro
A rola desmilinguida
Conceição logo gostou
Daquela pomba perdida
Resolveu dela cuidar
E já estava decidida.
3
Dona Prazer espantou
A pomba que apareceu
Porém Conceição com pena
A dita cuja acolheu
Foi na mão de Conceição
Que aquela rola cresceu
4
A moça meio inocente
Deu logo casa e comida
A rola desenvolveu
E foi ficando sabida
Conceição se emocionava
Ao ver a rola crescida.
5
A pomba ficou vistosa
Com carinho era tratada
Logo se via que a rola
Era bem alimentada
Quem vê hoje nem percebe
Que um dia fora enjeitada.
6
Conceição passava o dia
Paparicando a tal rola
Era uma pomba manhosa
Que fazia ela de tola
mas quando a rola sumia
Ela dava até "pirôla."
7
A mãe já tinha era nojo
Vendo o chamego danado
Porque onde a filha ia
Levava a pomba do lado
E por onde ela passava
Se ouvia o cochichado:
8
A moça perdeu o juízo
Depois que adotou a pomba
E nem percebe que a rola
Muitas vezes dela zomba
Quando alguém vai avisar
Conceição fica de tromba.
9
Sei que deu o que falar
O grude de Conceição
O povo já comentava
E a mãe passava sermão
Mas ela apenas dizia
A rola é de estimação.
10
Diante dos comentários
Uma mãe acabrunhada
Testemunha do destroço
Mas sem poder fazer nada
Pensava com seus botões
Minha filha está lascada.
11
O pior de tudo isso
Eu agora vou contar
Lá na casa da vizinha
A rola foi se enfiar
Para ver seu periquito
Que era muito popular.
12
O certo é que Conceição
Faltava era ficar louca
Quando a rola escapulia
Gritava de ficar rouca
E esculhambava a vizinha
A briga não era pouca.
13
Tenha vergonha na cara:
Dizia Dona Pureza
Deixe de lado essa pomba
Que anda de safadeza
Aqui não vai mais entrar
Pois já chega de esperteza.
14
Mamãe quero minha rola
Sem ela vou padecer
Essa rola é minha vida
O meu maior bem querer
Sem minha pomba querida
Não tem graça o meu viver.
15
A rola de Conceição
Era uma rola fujona
Agora estava aninhada
Mas no colo de outra dona
Pois gostou do periquito
Da tal vizinha ladrona.
16
Aquela rola-cabocla
Deu desgosto a Conceição
Por causa da rola-grande
Sofria seu coração
Com raiva da rola-roxa
Chegou a ter depressão.
17
Eu só sei que a pomba-rola
Não largava o periquito
Dona Pureza lutava
Para abafar o conflito
E a vizinha debochada
Botava fogo no atrito.
18
Dona Pureza zangada
Deu uma de ignorante
E foi dizendo pra filha
Com raiva naquele instante
Pare de chorar por rola
Pois toda pomba é migrante.
19
E se hoje uma rola vai
Depois outra rola vem
Você gostou dessa pomba
Vai gostar d`outra também
Pare com tanta lamúria
Pois isso não fica bem.
20
Aquilo era uma pombinha
Era só uma avoante
Aquelas pombas de bando
Era rola retirante
Vai largar o periquito
E vai seguir adiante.
21
Eu já peguei muita rola
Com esse meu alçapão
Porém não prendi nenhuma
Meu oco não foi prisão
Rola a gente cria é solta
Voando na imensidão.
22
Esqueça a rola-cabocla
Pare com essa tristeza
No quintal eu ouço arrulhos
Pelo jeito é de burguesa
Escute o que está dizendo
Sua mãe dona Pureza.
23
Conceição foi se acalmando
Logo parou de chorar
Olhou para o cajueiro
Viu a burguesa arrulhar
E armou seu alçapão
Para a burguesa pegar.
24
Não chore pombas perdidas
Porque as pombas se vão
Isso já disse um poeta
Eu prestei bem atenção
Aproveite pra voar
Dê asas ao coração.
*
Cordel de Dalinha Catunda
QUEM VIVE, SALTOU FOGUEIRA
E EU GRITO: VIVA SÃO JOÃO!
Dalinha Catunda
Meu povo, vou festejar,
Vou buscar minha alegria,
Entocar melancolia,
Medo não vai me acuar.
Se quiser pode chegar,
Para essa celebração,
Em nome da tradição
Entre nessa brincadeira:
QUEM VIVE, SALTOU FOGUEIRA
E EU GRITO: VIVA SÃO JOÃO.
*
Mote e glosa de Dalinha Catunda
SÃO JOÃO VIRTUAL
Dalinha Catunda
Hoje sofro sem São João,
Sem fogueira, sem balão,
E o canto do meu amor.
Retirando seu chapéu,
Dizendo: Olha pro céu,
Repare quanto esplendor!
Chegou a praga, a desdita,
Chegou a peste maldita,
E acabou nossa ilusão
Fiquei sem meu arraial
Pois agora é virtual
Nossa festa e tradição.
Embora fique bem triste
Meu coração não resiste
E me pede pra cantar.
E eu entro na brincadeira
Acendo minha fogueira
E meu facho pra brincar.
Para seguir nova meta
Convido cada poeta
A fazer sua oração
Vamos rimar alegria
Fazer versos com poesia
Para festejar São João.
ESBOCE SEU NAMORADO
Dalinha Catunda
Se você tem seu marido
Faça dele um namorado
Não permita que a rotina
Torne o laço fracassado
Seja de cama e de mesa
Demonstre sua destreza
Que terá bom resultado.
*
Brigar por pequenas coisas,
Só faz você rabugenta.
Mulher cheirando a gordura
Homem nenhum aguenta.
Se arrume fique cheirosa
Ele vai notar a rosa
Que pra ele se apresenta.
*
Tem mulher que só reclama
Mas não faz a sua parte.
A vida a dois eu garanto,
Só flui levada com arte.
Eu não tenho pretensão
De disseminar sermão
Isto foi só um aparte.
Uma porca perde a rosca
Mas não entra em parafuso
* * *
Eu já perdi o juízo
Porém doida não fiquei;
Maus momentos já passei
Mas do pranto fiz sorriso
Do inferno fiz paraíso.,
Da moda que eu fiz uso
É mel em que me lambuzo
E fez minha rima fosca:
“Uma porca perde a rosca
Mas não entra em parafuso”
Bastinha Job
* * *
Sempre fui muito teimosa
Assim minha mãe dizia.
Dessa minha teimosia
Nunca ficou orgulhosa.
Eu seguia toda prosa,
Deixando o povo confuso,
Destilava meu abuso,
Com minha linguagem tosca:
“Uma porca perde a rosca
Mas não entra em parafuso”
Dalinha Catunda
DE MORTA ESTOU ME FAZENDO
PRA VIDA NÃO ME MATAR.
*
O Mundo inteiro parou
Com esse vírus mortal
Sem prazo pro seu final
Só angústia nos restou
Mas levando a vida vou
Sem alarde propagar
A todos tento animar
Mas meu peito está doendo:
DE MORTA ESTOU ME FAZENDO
PRA VIDA NÃO ME MATAR.
REDE NO ALPENDRE
Dalinha Catunda
Uma rede num alpendre
E um ventinho sedutor
Vento que vem do açude
Para abanar meu calor
São delícias que desfruto
Quando estou no interior.
*
Vejo um bando de marrecas
Voando ao entardecer
Num mágico ritual
Giram antes de descer
Para pernoitar nas águas,
Como costumam fazer.
*
No balançado da rede
No sertão é lindo ver
O fim do dia chegando
Com o sol a esmorecer,
Cedendo lugar à lua
Que não tarda a aparecer.
*
Um bando de pirilampos
Bordando a escuridão
Enriquecem o cenário,
Das noites do meu rincão
Da minha rede eu vejo
Quão mágico é meu sertão!
SOU DA LINHA DO CORDEL
Dalinha Catunda
Sou Cordel de Saia
Cordel de vestido
Cordel feminino
Cordel atrevido
Cordel de Calcinha
Cordel de Dalinha
Cordel divertido.
*
Sou manha e gracejo
Sou verso ladino
Sou canto nascido
No chão nordestino
Sou nesse universo
Cabocla do verso
Santo e libertino.
*
Sou alma do verso
Sou rima no ar
Sou dedos que contam
Pra metrificar
Sou inspiração
Dou voz a oração
No palco a cantar.
SONETILHO DE AMOR
Dalinha Catunda
Às vezes sou lua
Que nua vagueia
A todos enleia
Porém sou só sua.
*
Ás vezes sou sol
Trazendo calor
Derreto de amor
Em nosso lençol.
*
Às vezes sou brisa
Que ofega em seu rosto,
Ladina lhe alisa.
*
E sempre sou nós
Depois do sol posto
Juntinhos e a sós…
PRECISO DO SEU CHEIRO
Dalinha Catunda
Quando por mim você passa
Eu viro mulher feliz
Tão cheiroso e provocante
Que logo acendo o nariz
E deixo seu cheiro entrar
Só para me deleitar
Pois sou mulher de raiz.
*
Se sempre acordo bem cedo
É pra provar seu sabor
O meu paladar exige
Antes que eu vá ao labor
Ter você sempre bem quente
Alertando minha mente
Provocando meu calor.
*
Para ter você comigo
Caminho léguas o pé
Vou até o fim do mundo
E não perco minha fé
De provar do meu neguinho
Nem que seja um golinho
Sou viciada em café!
*
Foto e versos de Dalinha Catunda.
BONEQUINHAS DE PANO
Dalinha Catunda
Para ocupar os meus dias
E alegrar minha rotina
Não me falta o que fazer.
Tenho a arte nordestina,
E a estrela do meu plano,
É a boneca de pano,
Que batizei de Delfina.
NOS BRAÇOS DO FURACÃO
Dalinha Catunda
*
Em noite fria de outono
De luar encantador
A lua cheia brilhava
Mostrando seu esplendor
A noite estava tão bela
Entreabri a janela
Com meu ar contemplador
*
Ao apagar o abajur
Ensaiando pra dormir
Um rumor vindo de fora
Eu imaginei ouvir
Acheguei-me ao travesseiro
Porém despertei ligeiro
E vi meu sono sumir.
*
Foi quando ele sorrateiro
No meu quarto penetrou
E sem que eu me desse conta
Nesse ambiente se espalhou
Bem de leve me roçava
Num sopro que acarinhava
E o meu corpo despertou.
*
Chegou brando e carinhoso
Confesso me satisfez
Encantava-me a meiguice
Afagando a minha tez
E não achei que era abuso
A visita desse intruso
Oportunista talvez.
*
Inteiramente à vontade
Eu me deixei seduzir
Ele entrava, ele saía
E eu gostando do ir e vir
Cada vez que penetrava
O meu corpo arrepiava
meu anseio a consentir.
*
Foi visita relaxante
Até um dado momento
Ficou mais audacioso
Intenso no movimento
Meus cabelos, desmanchou
Os lençóis, desarrumou
Transformou-se totalmente.
*
Daí eu me levantei
Tentando uma solução
Tentei fechar a janela
Mas faltou força na mão
Depois desse vento forte
Quase que perco meu norte
Nos braços de um furacão.
SERTANEJA, SIM SENHOR!
Dalinha Catunda
Sabia que era arisco
O fogoso alazão.
Resolvi correr o risco,
Sem medo de ir ao chão.
Peguei chicote e espora
Montei o bicho na hora
Sem medo ou indecisão.
*
Ele quis titubear,
Mas cutuquei do meu jeito.
Peguei bem firme nas rédeas,
Pois me achei no direito.
Atendendo meu comando
Obedecendo meu mando,
Ele foi quase perfeito...
*
Inda quis se rebelar,
Mas de nada adiantou.
De seus movimentos bruscos
Minha mão se encarregou.
Fui feliz na maratona,
Mostrei quem era sua dona.
E ele se conformou.
*
Do que compro e pago caro,
Bom retorno sempre quero.
A manha,a birra e o coice,
De fato eu não tolero.
Do cavalo eu não caio
Só tenho medo de raio,
No resto eu acelero.
*
Bicho que eu não domino,
Confesso não dou guarida,
O meu sangue nordestino
É que me faz aguerrida.
Eu só não sou cangaceira,
Por ser metida a faceira,
Porém sou bem atrevida.
BALAIO DE SOGRAS
Dalinha Catunda
BALAIO DE SOGRAS
*
Aqui neste meu balaio
Amigo, muita atenção.
Tem sogra pra todo gosto,
Tem muita reclamação!
Não é minha a grosseria
Eu faço apenas poesia,
Sou voz da população.
*
Mas também tem elogios
E boa declaração,
De quem adora a sogra
Por ela tem afeição.
Porque tem sogra querida
Sendo também exibida
Nesta minha explanação.
*
Eu ainda não sou sogra
Porém um dia vou ser.
Vou tratar a minha nora,
Do jeito que merecer.
Se for pessoa educada,
Serei sogra camarada
E confesso, com prazer!
*
Agora quero falar,
Da sogra de muita gente.
Dos que detestam a sogra
E de quem está contente.
Há sogra que ninguém quer,
Mas tem a boa mulher
Que não é sogra é presente.
*
Ao olhar pra minha sogra
Bate em mim uma aflição,
Vejo que minha mulher,
Tem dela a mesma feição.
A coroa era ajeitada
Mas agora pregueada
Está parecendo o cão.
*
Se ter sogra fosse bom,
Uma teria Jesus.
Mas antes de se casar
Morreu pregado na cruz.
E deixou para os terrenos
As sogras e seus Venenos
Coisa que não me seduz.
*
Pra sogra do meu marido,
Faço versos, faço loa.
Neste mundo nunca vi,
Uma sogra assim tão boa.
É um poço de ternura,
Essa gentil criatura
Maravilhosa pessoa.
*
Minha sogra diz que é boa,
Mas na verdade é cruel.
Sua palavra mais doce,
Amarga mais do que fel.
Estou vivendo um tormento,
Conflito no casamento,
Por causa da cascavel.
*
Vou pagando meus pecados
Desde quando me casei.
Uma sogra como a minha,
Ter eu nunca imaginei.
É sebosa, fuxiqueira,
E metida a presepeira,
Da velha já me cansei.
*
Minha sogra é divina!
A coroa é um mulherão.
Não vou dizer que é um Boeing,
Contudo é um avião.
É uma coroa sarada
E já foi recauchutada,
Porém dá um bom pirão.
*
De sogra quero distância.
Ela não vem no pacote.
Se ela mora no Sul,
Eu volto para meu Norte.
Pois sogra não é parente
Dizem que é só aderente,
É praga ou falta de sorte.
*
Minha sogra é ignorante,
Minha mulher diz te arreda.
A sogra mandei pro diabo,
A mulher mandei a merda.
Nas duas baixei a lenha,
Tem lei Maria da Penha,
Porém a justiça é lerda.
*
A minha sogra é bondosa,
Comparo a virgem Maria.
Mãe duma santa Mulher,
Que só me trouxe alegria.
Quando resolvi casar,
E subir naquele altar,
Acertei na loteria.
*
Coitado do meu sogro
Sofre com a mulher que tem,
Eu, aqui na minha casa,
Sofro com a minha também.
Tanto a mulher como a sogra
São da família de cobra,
Das que mais veneno tem.
*
Minha sogra quando ri
Parece que faz careta.
Totalmente desdentada
Tem a cara do capeta.
Pernas, só vendo a finura
Parece uma saracura,
Inda por cima é zambeta.
*
De cobra bem venenosa,
Também de bruxa malvada,
A coitadinha da sogra,
Muitas vezes é chamada.
Mas às vezes é tão boa
Tão gentil como pessoa
Que pela nora é amada
*
Sogra boa eu lhe digo,
É igual a macaxeira,
Só presta bem enterrada
Não estou dizendo besteira
A que lá em casa tenho,
E que até hoje mantenho
Já puxou até peixeira.
ENTRE COBRAS E POMBAS
Dalinha Catunda
A vida tem altos e baixos
Tem curvas e tem manobras
Existe a pomba da paz
Mas também existem cobras
Desde o tempo de Adão
Perdura a situação
Deus sentiu em suas obras.
*
Sempre existe um Deus de paz
Outro para combater
A vida é feita de lutas
Sempre ouvi alguém dizer
A batalha é permanente
Por isso não me apoquente
Não penso em esmorecer.
*
Eu vou fazendo poesia
Porque tenho munição
E na boca do fuzil
Ponho a flor da salvação
Faço rima, faço verso,
Navego neste universo
Que é composto de oração.
Eu conheci um vigário
Comedor de periquito
Desrespeitava a batina
Ninguém achava bonito.
E pelo seu sacristão
Um dia ele foi flagrado
Quase perdeu a razão
Ficou desorientado.
O sacristão sem escrúpulos
Danou-se a chantagear
O vigário aventureiro
Que vivia a fornicar.
Porém nada como um dia
E a noite pra atrapalhar
O padre dando umas voltas
Viu o sacristão pecar.
O chantagista de quatro
Perto da cabana tosca
Numa vereda afastada
Gemia e queimava a rosca.
Foi quando ouviu um ruído
E o “Santo” padre a gritar:
Morreu Maria Preá!
E ele teve que calar
O povo diz que essa história
Se deu lá no Ceará
Eu garanto que conheço
Muitas “Maria Preá.”
AUGUSTA PLANTAÇÃO
Dalinha Catunda
Foi do tronco d’um Carvalho,
Que o poeta do “EU” brotou
No Engenho do Pau d’Arco,
A sua vida abrolhou
E o velho tamarindeiro
Esta história registrou.
*
Naquele tamarindeiro,
Estudava sua lição,
As tarefas escolares,
E chegando a exaustão,
Ele ali também chorava
A dor da desilusão.
*
Distante da sua terra
Longe do tamarindeiro,
Foi para outra dimensão
Deixando seu companheiro
Que nem chegou a ouvir
O seu canto derradeiro.
*
No pé de minhas estrofes
Plantei admiração.
“Debaixo do Tamarindo”
Colhi minha produção.
E na voz de cada poeta
Verei multiplicação.
*
Versos de Dalinha Catunda
Estrofes com as quais participei de um cordel em homenagem a Augusto dos Anjos.
NO PUNHO DA MINHA REDE
DEIXEI UM NÓ DE LEMBRANÇA.
*
Mote: Marcos Passos
Numa rede eu me deitava
No meu rancho de noitinha
Na certeza que ele vinha
E se vinha chamegava
Bem cheirosa então ficava
Pra viver minha bonança
Sei que o laço da esperança
Alimenta a nossa sede:
"NO PUNHO DA MINHA REDE
DEIXEI UM NÓ DE LEMBRANÇA”
Glosa de Dalinha Catunda
Mote Marcos Passos
*
- Eu cansei de dar um nó
Na rede que eu brincava
Ali mesmo eu me emborcava
Chamando atenção de vó
- Deixa de teu pro có có
Tu despenca nessa dança
Brinca com outra criança
Olha a cara na parede
"NO PUNHO DA MINHA REDE
DEIXEI UM NÓ DE LEMBRANÇA.
Glosa Ésio Rafael
Mote Marcos Passos
*
No alpendre lá de casa
Eu achei o meu brinquedo
Pra ninguém era segredo
Que nela criava asa
Como o tempo não atrasa
Eu deixei de ser criança
Parti para minha andança
Ficando numa parede
"NO PUNHO DA MINHA REDE
DEIXEI UM NÓ DE LEMBRANÇA"
Glosa Nelson Nunes Farias
Mote: Marcos Passos
Mote de Xico Bizerra:
Cheirei o tabaco dela
Bastou pra “meaviciar”
Relutei, terminei indo
Conhecer o tal tabaco
Foi aí que me vi fraco
Garanto, num tô mentindo
Nunca vi nada mais lindo.
Cheirei, voltei a cheirar
Não conseguia parar
Sabor de cravo e canela
Cheirei o tabaco dela
Bastou pra “meaviciar”
Xico Bizerra
O tabaco era cheiroso
Cheiroso como ele só
Do nariz não teve dó
Esse caboco fogoso
Achando delicioso
O bicho vive a cheirar
Ouvi o cabra gritar
Debruçado na janela:
Cheirei o tabaco dela
Bastou pra “meaviciar”
Dalinha Catunda
Morais Moreira, Itauçu-BA, (1947-2020)
Mote desta colunista e glosas de Morais Moreira, publicadas originalmente no Blog Cordel de Saia.
Se tem mulher no cordel
Você tem que respeitar.
Vai fundo na caminhada
Que o homem parece raso
Vivendo quase um ocaso
Já se perdendo na estrada,
É hora da mulherada
Tomar o tempo e o lugar
Não adianta chorar
Achar que a vida é cruel,
Se tem mulher no cordel
Você tem que respeitar.
No tempo da plenitude
O homem cai no vazio
Fugindo do desafio
Covarde e sem atitude
Coitado ainda se ilude
Não sabe como se dar
O que é que vai lhe restar
Senão tirar o chapéu?
Se tem mulher no cordel
Você tem que respeitar.
De uma costela de Adão
Dizem que a mulher foi feita
E sendo assim tão perfeita
Imaginemos então
Se fosse do coração
Que Deus pudesse a criar
O mundo ia proclamar:
Oh criatura do céu!
Se tem mulher no cordel
Você tem que respeitar.
Naturalmente é sem músculo
No seu jeitinho de moça
Duvida da sua força
O macho já no crepúsculo
Sendo somente um opúsculo
Da obra que vai ficar
O que é que vai lhe sobrar
Senão caminhar ao léu?
Se tem mulher no cordel
Você tem que respeitar.
Não falto com a verdade
E peço que me acompanhe
Já que a mulher é a mãe
De toda a humanidade
Pra não ficar na saudade
O homem vai conquistar
Ao seu ladinho um lugar
Fazendo bem seu papel,
Se tem mulher no cordel
Você tem que respeitar.
Xilogravura de Erivaldo Ferreira
O TABACO DE MARIA
Dalinha Catunda
1
Na estrada do Pai Mané
Na cidade de Ipueiras
Bem pertinho das Barreiras
De imburana tem um pé
Ele dá um bom rapé
Pra quem sabe preparar
Maria sabe torrar
E tem grande freguesia
O tabaco de Maria.
Todo mundo quer cheirar.
2
E naquela arrumação
Meu pai era viciado
No dedo era colocado
Do rapé uma porção
Com o tabaco na mão
Pra no nariz esfregar
E logo após aspirar
Ele fungava e dizia:
O tabaco de Maria.
Todo mundo quer cheirar.
3
Valdenira me indicou
Disse mulher acredite
Ele é bom pra sinusite
Aqui mamãe sempre usou
Depois que ela receitou
Comecei a melhorar
Nunca parei mais de usar
Acabou minha agonia:
O tabaco de Maria.
Todo mundo quer cheirar.
4
Garapa ficou sabendo
Dessa história do rapé
Foi direto ao Pai Mané
Também estava querendo
Com Maria se entendendo
Resolveu logo pagar
E não saiu sem provar
do cheiroso nesse dia
O tabaco de Maria.
Todo mundo quer cheirar.
5
Edgar acabrunhado
Com o nariz entupido
Sentindo-se já perdido
Com febre e com resfriado
Foi atrás desse torrado
Para tentar melhorar
Porém mesmo sem gostar
Do produto repetia:
O tabaco de Maria.
Todo mundo quer cheirar.
6
Dão de Jaime que gostou
Do tabaco da fulana
Cheirou mais duma semana
E também se viciou
Da mulher ele apanhou
E não cansou de apanhar
Pois disse não vou largar
E gritando se exibia:
O tabaco de Maria.
Todo mundo quer cheirar.
PURO-SANGUE
Dalinha Catunda
Ele era um puro-sangue.
Ímpar em sua beleza.
Porte altivo e elegante,
Trazia um ar de nobreza.
*
Paixão a primeira vista.
Não tive como escapar.
Garboso me farejava,
Fui seduzida a montar.
*
Montei com a maestria,
De quem domina o oficio.
Montar aquele alazão,
Não foi nenhum sacrifício.
*
Tinha narinas acessas.
Cadência no trote tinha
Agarrei-me ao seu pescoço,
No galope que ele vinha.
*
Galopamos loucamente,
Quase perdemos o chão,
Campear no paraíso,
Era sorver emoção.
*
Estrelas intermitentes,
E sinos a badalar.
O prazer feito cascata,
Coroava o cavalgar.
AMIZADE ACIMA DE TUDO
Dalinha Catunda
A minha amizade é
De fato incondicional
Tenho minhas preferências
O que acho natural
Cada um tem o seu jeito
Mas ninguém tem o direito
De querer que eu pense igual.
*
Quando adiciono alguém
Eu não quero nem saber
Se macumbeiro ou católico
Ou se crente pode ser
Não desabono a postura
De nenhuma criatura
Que escolhe em quem quer crer.
*
Repito que não importa
Seu time e religião
Orientação sexual
Pois isso não conta, não,
Seu partido sua cor
Aceito seja quem for
Respeito é a condição.
*
Sabemos que na política
No passado e no presente
A corja de desonesto
Nasceu e deixou semente
E não venham defender
Estupido é querer dizer
Que aqui existe inocente.
*
O pior de tudo isso
Digo com sinceridade
É o ranço da política
A desfazer amizade
Enquanto cada ladrão
Conforme a situação
Juntam-se em cumplicidade.
Dalinha Catunda e Lindicássia Nascimento
O CALANGO ALBINO
Lindicássia Nascimento e Dalinha Catunda
LN
Dalinha você me diga
O que é que tu faria
Com um calango amarelo
Triste feito agonia
Numa rede social
Que tá se achando o tal
Me assedia noite e dia!
L N
O cabra não se enxerga
É um cururu de macumba
Parece uma tripa seca
Tem uma cara imunda
Os olhos abuticado
Parece que é tarado
Me diz Dalinha Catunda!
LN
Eu tou que não me aguento
Não posso ficar calada
Esse safado aperreia
Me deixa aguniada
Não sei quem é esse traste
Peço que de mim se afaste
Coisa feia e safada.
*
DC
Entrou no meu facebook
Também esse camarada
Querendo se apresentar
Com a cara mais lavada
O bicho é uma marmota
Vamos é fazer chacota
Pra ele virar piada.
DC
Parece um calango albino
Essa pobre criatura
E que até se diz poeta
Porém não tem compostura
Se ele cumprir o trato
De mandar o seu retrato
Vou exibir em moldura.
DC
O cabra vestido é feio
Tu imaginas pelado
Por isso eu vou dizer
Estou mandando recado
Se foto pelada chegar
Eu vou é compartilhar
Pois o aviso já foi dado.
*
LN
Parece que ele gosta
De cutucar poetisa
Se mete de ser poeta
Mas de nós leva é Piza
Esse Calango Albino
Cara seca, não tem tino
Comigo não realiza.
LN
Quis mandar pra mim também
O retrato dele nú
Calango sem competência
Mexeu mal esse angú
Mande a foto desgramado
Que eu te faço um agrado
Carniça de urubú.
LN
O meu Facebook é arte
É cultura popular
Não é pra cabra safado
Feito tu se amostrar
Agora tu se fodeu
Porque Dalinha e eu
Vamos juntas te lascar.
*
DC
Esse cabra é abestado
Não sabe onde se meteu
Cutucou com vara curta
Onças e nem percebeu
Agora está se cagando
Quem sabe até rezando
Pra não ler o nome seu.
DC
Mexer com Lindicássia
Mulher que não se atrapalha
Que já capou mais de três
Lá pras bandas de Barbalha
Com a peixeira na mão
Capa e faz circuncisão
É doutora que não falha.
DC
Enquanto foi só comigo
Eu tratei de me calar
Agora a coisa esquentou
E nós vamos é jogar
Merda no ventilador
Se você não tem pudor
Nós vamos é lhe arroxar.
*
LN
O bicho acha que é "homi"
Botando as coisas pra fora
Achando que eu queria
Me perguntou sem demora
Essa chibata é "xinfrim"
Pedaço de coisa ruim
Lhe respondi bem na hora
LN.
Ainda bem que Dalinha
Astuta como ninguém
Me alertou do perigo
Que eu já sabia também
Mas esse tarado aí
Agora vai desistir
É o melhor que lhe convém.
LN
Se for pra o Rio de Janeiro
Mexer com nossa Dalinha
Já sabe o que vai levar
Ela lhe bota na linha
Se vier pra o Ceará
Uma surra vou lhe dar
Eu juro aqui nessa rinha.
*
DC
Pela a cara do sem sal
Logo imaginei o pinto
Dormindo em cima do saco
Bem acanhado e sucinto
Apenas uma merreca
Encolhido na cueca
É o que penso não minto.
DC
Em conversa com Lindinha
Um dia ela me falou
Deste cabra enxerido
E logo me perguntou
Até um pouco sem jeito
Se eu conhecia o sujeito
Que a ela desrespeitou.
DC
Eu disse que conhecia
E avisei pra ter cuidado
Um poeta que se preza
Não pode sertão safado
E fazer o que bem quer
Desrespeitando a mulher
E sem ser denunciado.
*
LN
Pois o cabra se lascou
A denuncia é virtual
Nem pode se defender
Pois sabe que é fatal
Se a cara aparecer
Todo mundo vai saber
Nessa rede social
LN
Preste muita atenção
Com quem você for mexer
Eu tenho educação
Mas confesso a você
Sou muito mal educada
Quando sou desapontada
Nem queira me conhecer.
LN
Não sou mulher pra Calango
Dentuço, desenformado
Um fanisco de projeto
De homem sujo safado
A sua categoria
Deve está em euforia
Por ter nos desrespeitado.
QUARENTENA NA ROÇA,
VIVENDO COMO ÍNDIO
Dalinha Catunda
*
Aqui estou feito índio
Acoitada em uma oca
Só comendo caça e pesca
E entrando na mandioca
No café como beiju
No almoço tem tatu
Já na ceia é tapioca.
*
Na cidade eu fazia
Musculação e ioga
Aqui vivo a natureza
Despida de lei e toga
O que me dá mais prazer
É rio abaixo descer
Trepada numa piroga.
*
Quando meu nativo chega
Alisando o jacumã
Fogosa ligeiro abro
Meu sorriso de cunhã
Eu dou para ele comer
Um caldo que sei fazer
Na base de Carimã.
*
Numa rede de tucum
De noite vou me deitar
E no balanço da rede
Eu vejo Jaci brilhar
E meu amor diz pra mim
Vamos fazer curumim
Antes do mundo acabar?
*
O PEÃO GABOLA
Dalinha Catunda
*
Corda grossa não me prende
Porque dela eu faço embira
Já tentaram me laçar
Pras bandas da Macambira
Deixei meu rastro no chão
E marcas no coração
Dum dançador de catira.
*
Um projeto de peão
Jurou que ia me ganhar
Fez aposta com amigos
E dizia a gargalhar
Ela será minha prenda
Depois de presa a merenda
Meu laço não vai falhar.
*
Chegou o dia da festa
O peão ficou na mão
Não ganhou a sua prenda
Nem jogou o boi no chão
Além de perder a aposta
Ainda pisou na bosta
E serviu de mangação.
*
Era peão de segunda
Todo metido a gabola
Queria ser Almir Sater
Sem saber tocar viola
Na cantada e na laçada
Ele não era de nada
Pisava sempre na bola.
A VOLTA DA ROLA SOLTA
Dalinha Catunda e Lindicássia Nascimento
*
DALINHA CATUNDA
Rola que vai e que volta
É ave de ribaçã
Desse tipo de rolinha
Não vou dizer que sou fã
Gosto da rola que fica
Que meu xerém ela bica
Pois rola assim tem elã.
*
LINDICÁSSIA NASCIMENTO
É a lei da natureza
É um vai e vem danado
O certo é que ela gosta
De um canto bem cuidado
O carinho recebido
Por certo não esquecido
Volta para mais agrado!
*
DALINHA CATUNDA
Tem pomba que é bandoleira
Tem pomba que é retirante
E dessas conheço um bando
As que chamam de avoante
Delas tive em cativeiro
E muitas em meu terreiro
E um periquito falante.
*
LINDICÁSSIA NASCIMENTO
Rola, pomba, periquito
Qual desses você domou?
É um negócio esquisito
Vejo que algum voou
Cadê teu afinamento?
Não precisa fingimento
Diga que a rola voltou.
*
DALINHA CATUNDA
Das rolas que eu já prendi
Sempre tratei muito bem
E aquelas que eu já soltei
Para me ver inda vem
E vou aqui lhe avisar
A que se foi sem voltar
Não provou do meu xerém.
*
LINDICÁSSIA NASCIMENTO
Eu aposto que esse ai
Mesmo sem xerém provar
Deve ter se arrependido
Da bicada que quis dar
Não deve ter esquecido
Que pássaro desfalecido
Jamais poderá voltar.
*
DALINHA CATUNDA
Tem passarinho bonito
Voando em todo lugar
Tem deles que nessa vida
Só aprendeu a cantar
Se for roedor de pequi
Das bandas do Cariri
Puxo o pescoço pra assar.
Vamos glosar?
EU NÃO VOU ME CONTENTAR
EM PASSAR ÁLCOOL NA MÃO
*
Estou tomando cuidado
Com esse vírus fatal
Que pode até ser mortal
Por isso vai meu recado
Não basta ficar trancado,
Dispense a visitação
Não esqueça água e sabão
Quando for as mãos lavar
EU NÃO VOU ME CONTENTAR
EM PASSAR ÁLCOOL NA MÃO
*
Mote e glosa de Dalinha Catunda
Lindicassia Nascimento escreveu:
No caos da epidemia
Que assola o mundo inteiro
Sigo a risca um roteiro
Confinada noite e dia
Porém a minha poesia
Qual me dá inspiração
Tem sido minha oração
Para o vírus se afastar
EU NÃO VOU ME CONTENTAR
EM PASSAR ÁLCOOL NA MÃO.
José Walter Pires escreveu:
Estou ficando cansado
Desse vírus infernal
Do qual não vejo sinal
De ser logo eliminado
E me deixar descansado.
Essa higienização
Não sei se é solução
Mas até vou aumentar
POIS NÃO VOU ME CONTENTAR
SÓ PASSAR ÁLCOOL NA MÃO!
BABADOS NO CORDEL
Dalinha Catunda
1
O cordel vestindo calça,
No Nordeste apareceu.
A mulher apaixonou-se
Tal paixão não escondeu.
E pegou logo o cinzel
Esculpindo seu cordel,
Belos versos escreveu.
2
Foi assim que floresceu,
Cordel de saia também.
A mulher faz seu cordel
Com a manha que já tem.
Incansável na labuta,
E naturalmente astuta,
Do homem não fica aquém.
3
E por querer competir,
E pensando em ser parceira
A mulher pega a estrada,
Sem ter medo da poeira.
Faz de igual para igual
A peleja virtual
Na arte é aventureira.
4
O cordel já não é mais
O tal clube do Bolinha
Encarando as cuecas
Vejo um monte de calcinha
Tudo no mesmo varal
Sem balanço desleal
Enfrentando a mesma linha.
5
Enquanto faz o café
E cozinha seu feijão
A mulher vai matutando
E criando a oração
E assim faz seu cordel
Passando para o papel
Pedaços de criação.
6
Às vezes deita na rede
E olhando a Luz do luar.
Cria versos tão bonitos,
Que chega a se admirar
Diante da inspiração,
Se entrega de coração,
Ao labor de versejar.
7
E de fuxico em fuxico,
A trama ganha teor.
No alinhavo dos versos,
Põe arremate de amor
Fazer versos virou vício
E sem muito sacrifício,
Tem como ofício compor.
8
Entre um afazer e outro
Explode sua criação,
Tem sempre um novo babado
Em sua combinação
Entre a seda e a chita
Sem nunca ficar aflita
Eleva sua construção.
9
A internet foi chegando
Causando revolução,
Abrindo para a mulher,
Um novo campo de ação
Morada da liberdade
E com versatilidade.
Mostra sua evolução.
10
Aprendeu bem a glosar
E para isso usa a mão,
E com os dedos faz arte
Chamada digitação.
Neste mundo virtual
Navegar é natural
Nas marolas da emoção.
11
Tira rima da cabeça
Para fazer o seu mote
Faz com a simplicidade
De quem tira água do pote
Nordestina e internauta
Caprichosa e não incauta
Versos tem é um magote.
12
É bem certo que a mulher
Em ato de concepção
Fica prenhe de palavras
Só vê uma solução,
A de parir poesia
Buscando com alegria,
Ter nova penetração.
13
Eu sei que entre um batom,
Uma escova e um trato
Em folhetos de cordel
A mulher põe seu retrato
E sabe fazer bonito
Pois tem graça o seu escrito
E nunca deixa barato.
14
Sempre se diz aprendiz,
Mas fingindo ser modesta,
E tem delas que encaram
Qualquer marmanjo de testa,
Vão impondo assim respeito
E conquistando o direito
De fazer a sua festa.
15
Às vezes faz uma fita,
Para chamar atenção.
Sempre tem carta na manga
Mas descarta a mangação.
Por gostar de parceria
Demonstra sua alegria
E brilha na atuação.
16
O cordel sem a mulher
É Adão sem sua Eva,
É o planeta sem o sol
Onde tudo é breu e treva.
É comida sem ter sal
Amigo não leve a mal,
É serra onde nunca neva.
17
A mulher rasgou o véu,
E acabou com ditadura
E não foi só no cordel
Mas em toda conjuntura
Totalmente liberada
Enfrenta qualquer parada
Pois tem jogo de cintura.
18
E quando é alfinetada,
Nunca dá muita atenção.
Sendo olhada de soslaio
Empina o nariz então.
Mágoa não vive guardando
Sua anágua vai rodando,
Sempre em movimentação.
19
A mulher pede passagem
Pois soube tecer caminhos
A conquista da igualdade
Teve flores e espinhos.
Na base do não me calo!
Hoje ela canta de galo,
Não fica chocando ninhos.
20
A mulher para o cordel
É ótima aquisição.
Seria triste e cruel
Manter apenas varão
Vejo o cordel lá no alto,
E a mulher com o seu salto
Fazendo revolução!
21
Este cordel é mais um
Entre muitos que virão
Nele botei meu tempero
Não sei se eu errei na mão
Meu codinome é Dalinha
Vou seguindo minha linha
Sem temer opinião.
SÓ OS OVOS
Dalinha Catunda
Eu fiquei muito animada
Cheia de empolgação
Quando avistei uma rola
Daquelas lá do sertão
Qual não foi minha alegria
Por pouco eu colocaria
A rola em minha mão.
*
Porém a rola era arisca
Não ficou perto de mim
Procurou logo seu rumo
Mas com rola é mesmo assim
Chega parecendo mansa
Depois que enche a pança
Seu sumiço não tem fim.
*
Mesmo assim eu amansei
A tal rola com prazer
Ela construiu um ninho
Mas se você quer saber
Agora tem planos novos
Aqui só deixou os ovos
Pra dela eu não me esquecer.
Quem quiser cante a desgraça
Porque meu canto é de amor.
Eu vou ler o seu recado
Depois reler com carinho
Vou pensar em nosso ninho
Profano também sagrado
Onde reside o pecado
Onde perco meu pudor
Pois a vida eu dou valor
E não vou perder a graça
Quem quiser cante a desgraça
Porque meu canto é de amor.
SÓ UM BOLERO
Dalinha Catunda
O acaso a dança o instinto
Colocou-nos lado a lado
O frio e o vinho tinto
Meu corpo no teu colado
Li no teu olhar faminto
A resenha do meu fado.
*
A paixão desenfreada
Chegou feito furacão
Cegamente apaixonada
Dei asas à emoção
Levitei inebriada
Nos ardis do coração.
*
Mas meu coração cigano
De tanto amor se cansou
O seu também leviano
Um novo rumo tomou
Sem choro, mágoas ou dano,
O bolero ao fim chegou.
NA INVERNADA
Dalinha Catunda
Quando finda a estiagem
Quando chove no sertão
Tudo fica diferente
Brota logo a plantação
A chuva cai todo dia
Biqueira faz melodia
Quando o pingo cai no chão.
*
Relâmpago risca o céu
Vejo o corisco brilhar
O barulho do trovão
Não chega a me apavorar
Por detrás do nevoeiro
A serra some ligeiro
Parecendo se encantar
*
A brisa que sopra mansa
Logo vira vento forte
Nos braços da ventania
Cai a chuva muda a sorte
Cheiro de terra molhada
Anuncia a invernada
Novo rumo, novo norte.
*
A caatinga se refaz
Faz mágica a natureza
Quando a grota enche o açude
Na força da correnteza
E se o rio bota enchente
Meu olhar segue a corrente
Perde-se na boniteza.
MULHER DE RAÇA
*
Neguinha sou para amigas
Minha nega pro amado
Sou morena citadina
Meu cabelo é ondulado
Sou dona das minhas ventas
Sou das mulheres atentas
Tenho nariz empinado.
*
Sou cabocla sertaneja
E trago no matulão
A astúcia da matuta
Que desbravou o sertão
E que não poupou canela
Quando abriu sua cancela
Buscando libertação.
*
Da fralda da Ibiapaba
Sou das alas das guerreiras
Agarrada ao jacumã
Enfrentei as corredeiras
Em cima duma piroga
Sou guerreira que se joga
Nas águas das Ipueiras
*
Sou a mistura das raças
Sou a miscigenação
Sou Catunda, sou do Prado
Tenho sangue de Aragão
Sou cunhã, sou companheira,
Sou concubina parceira
Eu só não sou é padrão.
*
Versos de Dalinha Catunda
Quem vive de propagar
Que o seu fulano é corno
As vezes causa transtorno
Nem chega a desconfiar
Que chifres vive a levar
Sem que venha perceber
Faz chacota com prazer
Mas devia ficar mudo
Pois continua o chifrudo
Sendo o último a saber.
QUEM NÃO TEM O QUE CONTAR
QUE SENTIDO TEM A VIDA?
*
Eu só conto minha história
Porque tenho o que dizer
E se você quer saber
Tenho tudo na memória
Agitada trajetória
Foi a minha e bem vivida
Sempre fui muito atrevida
Não deixei nada escapar
QUEM NÃO TEM O QUE CONTAR
QUE SENTIDO TEM A VIDA?
.
Glosa de Dalinha Catunda
Mote de Gevanildo Almeida
ABRAM ALAS PRO MEU QUIÇÁ
Dalinha Catunda
*
Hoje lembro com saudade
O tempo bom que passou
Quando o não era um talvez
E assim você me ganhou
Você puxava meu braço
Eu evitava o abraço
Porém você me laçou.
*
No cordão que se formava
Circulando no salão
Você com sua insistência
Segurou a minha mão
E me beijou bem na hora,
A do: " vou beijar-te agora"
E ganhou meu coração.
*
Você foi o meu pirata
Eu a sua colombina
Lembro nós dois enroscados
Nos laços da serpentina
Quando meu não virou sim
Não desgrudou mais de mim
A paixão foi repentina.
*
E não acabou em cinzas
Esse amor de carnaval
Aos encantos da conquista
Botei fé e dei aval
Apostei na fantasia
Colhi amor e alegria
E fui feliz no final.
Ei! Você pode, sim, me olhar,
Olhar não tira pedaço,
E não vai me incomodar.
Me olhe sem embaraço,
E quem sabe se eu quiser
Pode pintar um affair
Não sou de estardalhaço.
Ei! não deixe de ser chistoso,
Não adira ao desencanto,
Não desista da conquista,
E aposte no acalanto.
Pra quem fomenta emoção,
E quer sim, em vez de não,
Sabe bem guiar seu canto.
Fotos da colunista
Dias felizes da infância
Inda guardo na memória
A dona simplicidade
Fez parte da trajetória
A bonequinha de pano
Foi rainha nessa história.
Eram compradas nas feiras
Arrematas em leilão
Brinquedo mais precioso
Que tive no meu sertão
Os vestidos eu fazia
Sempre costurando a mão.
Guardei essa tradição
E hoje volto a brincar
De fazer as bonequinhas
Somente pra exercitar
Esse meu prazer antigo
Que me encanta recordar.
Bonecas confeccionadas por Dalinha Catunda
BONECAS DE PANO
É de boneca em boneca
Que volto pro meu sertão
Caprichando em cada cria
Tentando acertar a mão
Fazendo minhas Delfinas
As bonecas nordestinas
Graciosa tradição.
NATAL AGRESTE
*
O natal que vejo agora
É um natal diferente
É só troca de presente
Jesus, o povo ignora.
Saudades tenho d’outrora
Do natal que antes tinha
O presépio era lapinha,
Montado lá na matriz,
Na igreja o povo feliz
Rezava sua ladainha.
*
Era simples o presente
Porém sem reclamação,
Era só animação
Da criançada contente
Animando o ambiente
Que hoje não vejo igual.
A árvore de natal
De garrancho era feita
E eu ficava satisfeita
De ajudar no ritual.
*
Era mesmo devoção
Ir para missa do galo,
A ceia era um regalo,
Nos natais do meu sertão
Tinha comemoração
Mas tinha o Deus menino
Lá no templo nordestino
Nos meus natais do agreste
Onde a estrela celeste
Guiava nosso destino.
BORDANDO VERSOS
Dalinha Catunda
BORDANDO VERSOS
*
Como quem faz um bordado
Vou fiando meu cordel
Procurando ser fiel
Tramo com todo cuidado
Cada ponto do traçado
Faço com dedicação
Trago a metrificação
Pra cada verso compor
FAÇO RIMA COM AMOR
FAÇO CORDEL COM PAIXÃO
O QUE FAZ A CARESTIA DA CARNE?
*
Fui com marido ao açougue
Lá cheguei a me zangar
Pois vendo o preço da carne
Começou a resmungar
Desse preço compro não
Como é bife do “oião”
E danou-se a reclamar.
*
Ele cheio de argumento
Falava e dizia assim:
A gente come feijão,
E farofa de “toicim,”
Deixe logo de ora pois
Também tem baião de dois
E isso tá bom pra mim.
*
Eu saí batendo pé
Sem querer me conformar
Zangada que nem o cão
Esse cabra vai pagar
Eu fiz como ele queria
Contudo a minha alegria
Ele conseguiu quebrar.
*
Quanto chegou a noitinha
Que a gente foi se deitar
Virei de costas pra ele
E ele a me cutucar
Querendo carne comer
Eu disse: Tu vais morrer
Mas carne não vou te dar.
*
Durante o dia eu sonhei
Com costela e costeleta
Ele querendo poupar
Já deu uma de ranheta
Quando apertou a vontade
Deixei ele na saudade
Dispensei sua baioneta.
SEM PODA
*
Não tente apagar o brilho,
Que carrego em meu olhar.
Não queira conter o riso,
Que insisto em ostentar.
Sou mulher independente,
É boa minha semente,
Escolhi onde brotar.
No solo que eu germino,
O meu canto feminino,
Não deixo ninguém podar.
Vi a pomba bater asas
Esvaziando o terreiro
Era só um passarinho
Buscando novo roteiro
Pomba-de-arribação
Bem comum lá no sertão
No ir e vir corriqueiro.
Quando pousou na vivenda
Já era tempo de estio
Entretanto fez seu ninho
Acabei com seu fastio
Cuidada com bom xerém
Ela sentia-se bem
Arrulhava a cada cio.
Vi a rola satisfeita
Sempre renovando o ninho
E dava graças a Deus
Por tê-la em meu caminho
Mas tudo acabou em nada
Pois a rola desalmada
Sumiu em um torvelinho.
E foi-se a pomba vadia
Foi-se a Burguesa também
Por rolas eu não lamento
Umas vão e outras vem
E foi-se a pomba terceira
Não será a derradeira
Que meu alçapão detém.
Outro dia eu avistei
A vadia em meu quintal.
A Burguesa toda prosa
Vi pousando em meu varal
Mas quem hoje me fascina
É uma pomba-divina
Conhecida por trocal.
Santa Dulce dos Pobres
Você gritou: Ô de casa!
Eu saí e dei bom dia
Me pediu um copo d’água
A desculpa eu conhecia
Saí quase no pinote
Fui pegar água no pote
Lhe servi com alegria.
Você me olhava com gosto
E eu olhava pra você
Ali nascia um chamego
E nós dois dele a mercê
Eu no começo corava
Quando você me chamava
Minha flor de muçambê.
Quando o fole da sanfona
Gemia nalgum lugar
Você trocava de roupa
Corria pra me pegar
E naquela brincadeira
No forró a noite inteira
Eu via o suor pingar.
Teu copo grudado no meu
Meu corpo no teu grudado
O povo todo olhando
O nosso rodopiado
Não tinha naquele chão
Pras bandas do meu sertão
Um casal mais animado.
Eu me arrumava todinha
Com meu vestido de chita
Aquela flor encarnada
Me deixava mais bonita
Você na sua paixão
Roubou pra recordação
Meu laço feito de fita.
Era um xodó animado
Era um chamego ladino
Tinha cheiro no cangote
Coisa só de nordestino
Ao som de xote e baião
Embalamos a paixão
Era um chamego bem-vindo.
XODÓ NORDESTINO
*
Você gritou: Ô de casa!
Eu saí e dei bom dia
Me pediu um copo d'água
A desculpa eu conhecia
Saí quase no pinote
Fui pegar água no pote
Lhe servi com alegria.
*
Você me olhava com gosto
E eu olhava pra você
Ali nascia um chamego
E nós dois dele a mercê
Eu no começo corava
Quando você me chamava
Minha flor de muçambê.
*
Quando o fole da sanfona
Gemia nalgum lugar
Você trocava de roupa
Corria pra me pegar
E naquela brincadeira
No forró a noite inteira
Eu via o suor pingar.
*
Teu copo grudado no meu
Meu corpo no teu grudado
O povo todo olhando
O nosso rodopiado
Não tinha naquele chão
Pras bandas do meu sertão
Um casal mais animado.
*
Eu me arrumava todinha
Com meu vestido de chita
Aquela flor encarnada
Me deixava mais bonita
Você na sua paixão
Roubou pra recordação
Meu laço feito de fita.
*
Era um xodó animado
Era um chamego ladino
Tinha cheiro no cangote
Coisa só de nordestino
Ao som de xote e baião
Embalamos a paixão
Era um chamego bem-vindo.
*
Versos de Dalinha Catunda
Mote desta colunista:
Pra sua faca afiada
Tem couro minha bainha.
Você se diz cabra macho
Valentão e coisa e tal
Que me leva no bornal
Só para apagar meu facho
Eu querendo lhe despacho
Porém não fujo da rinha
Se souber levar Dalinha
O duelo acaba em nada
Pra sua faca afiada
Tem couro minha bainha.
PONHA GOTAS DE PRAZER
NESSA SUA TRAJETÓRIA.
*
Felicidade é visita
Que chega mas vai embora.
Quando some a gente chora,
Porque dela necessita.
É passageira, é restrita,
É um pingo em cada história,
E por ser tão transitória.
Desnude-se pra viver:
PONHA GOTAS DE PRAZER
NESSA SUA TRAJETÓRIA.
*
Glosa e mote de Dalinha Catunda
Quem tem o seu idoso
Consciência deve ter.
Cuidar dele com carinho,
É obrigação, é dever.
Ter zelo, ter paciência,
E também tomar ciência:
Todos vão envelhecer.
Não maltrate um ancião
Que já não sabe o que faz
Mas que foi seu alicerce
E já foi muito capaz
Já lhe deu casa e comida
Mas antes lhe deu a vida
E merece enfim ter paz.
Cada vez que a paciência,
Fugir do seu coração
Reze, reflita e pense,
Não faça judiação
Pois quem não morre envelhece
E quase sempre padece
Sofrendo de mão em mão.
Não se esqueça de lembrar
De quem de você lembrou.
Nos verdes anos da vida
De você sempre cuidou.
Mesmo hoje sem memória
Faz parte da sua história,
Que o tempo não apagou.
Quem quer ser bem recebido
Aprende a receber bem
Jamais inventa porém
E não se mete a sabido
Quem só quer ser merecido
Não tem vaga do meu lado
Termina sendo enxotado
Eu não ofereço ajudas
Pois quem enche cu de judas
É molambo bem socado.
Mote desta colunista:
Pra sua faca afiada
Tem couro minha bainha.
Você se diz cabra macho
Valentão e coisa e tal
Que me leva no bornal
Só para apagar meu facho
Eu querendo lhe despacho
Porém não fujo da rinha
Se souber levar Dalinha
O duelo acaba em nada
Pra sua faca afiada
Tem couro minha bainha.
Daudeth Bandeira
Eu não conheço Dalinha
Mas desejo conhecê-la
Todo poeta precisa
Conhecer uma estrela
Não pra ser o dono dela
Mas para aplaudi-la e vê-la.
Dalinha Catunda
Eu já conheço Daudeth
E muito, de ouvir falar,
Fama de cada Bandeira
Faz o mastro tremular
Seu clã é constelação
Constantemente a brilhar.
Daudeth Bandeira
Dalinha pega mais fogo
Do que capim no verão,
É do tipo das caboclas
Que pingam brasa no chão,
São responsabilizadas
Por quase todas queimadas
Que existem no sertão.
Dalinha Catunda
Sou fogueira de paixão
Lambendo o chão da campina
Incendiando o agreste
Tal ventania ladina
Apesar de ser matreira
Não sou de queimar Bandeira
Meu fogo não desatina.
***
PRA SUA FACA AFIADA
TEM COURO MINHA BAINHA.
*
Você se diz cabra macho
Valentão e coisa e tal
Que me leva no bornal
Só para apagar meu facho
Eu querendo lhe despacho
Porém não fujo da rinha
Se souber levar Dalinha
O duelo acaba em nada
PRA SUA FACA AFIADA
TEM COURO MINHA BAINHA.
Alta, branca tão bonita,
Mas quanta dor nela existe
No dourado dos cabelos
Sua nobreza persiste
Caminha com elegância
Deixando sua fragrância
No caminho a moça triste.
Nos lábios um ar de riso
No olhar tanta tristeza
Compondo sempre o semblante
Sem ofuscar a beleza
Da rapariga tristonha
Que não vive, apenas sonha,
No seu mundo de incerteza.
Pobre princesa sofrida
Que conseguiu ser rainha
Porém vive acorrentada
Mesmo se solta caminha
Em cada canto do rosto
É visível seu desgosto
Ao transportá-lo definha.
E na sua ingenuidade.
Príncipe era encantado!
Palácio sem atração,
Castelo desmoronado,
É a causa do desgosto
Tracejado no seu rosto
No fracassado reinado.
Sou cearense da gema
Onde o sol nasce encarnado
A minha cabeça chata
Faz parte desse legado
Nunca me vi coitadinha
Faca, tirei da bainha
Pra riscar o meu traçado.
No Rio sou Paraíba,
Em São Paulo sou baiana
Minha nordestinidade
Não me deixa ser fulana
Na Feira dos Paraíbas
Revejo em minhas idas
Que nossa gente se irmana.
Não nasci pra ser piolho
Tenho meu discernimento
Jamais segui a manada
Pra isso tenho argumento
Prefiro ter meu poder
Sem empoderada ser
Só sigo meu pensamento.
Eu vi cão feroz babando
Eu vi cadela latindo
E o mundo inteiro assistindo
A nossa degradação
No canil tanto ladrão
Com medo duma coleira
Estavam sem focinheira
E aumentou o meu temor
Quase morde o domador
A matilha brasileira.
Eu bem sei que tudo passa
Na vida que a gente tem
Por isso é que vivo a vida
Decidida e sem porém,
Pois triste de quem nasceu
Viveu e nem percebeu
O prazer de ir além.
Montei no lombo da vida
E na sela eu me aprumei
As rédeas em minhas mãos
Com firmeza segurei
Aticei meu alazão
Tirei poeira do chão
A porteira escancarei.
Assim eu ganhei o mundo
Na estrada não me perdi
Provei dos sabores da vida
Chorei pouco e mais sorri
Dei aval ao coração
Pra cada contravenção
Das emoções que senti.
Em noite de lua cheia
O luar foi companheiro
Banhou-me com sua prata
Seduzi meu companheiro
Que vendo o brilho da lua
Rajando a pele nua
Operou como posseiro.
Criei asas e voei
Até devorei zangão
Provei geleia real
Escapei por ter ferrão
A vida não foi só mel
Se por vezes fui cruel
Faltou-me submissão.
Eu apeei em açude
Em ribeirão e riacho
Nos lugares mais bonitos
Arrefeci o meu facho
Pois a vida me sorria
E a dona hipocrisia
Deixei com cara de tacho.
Quem arriscou me laçar
Ficou com corda na mão
Eu derrubei muita estaca
E até cerca de mourão
Campeei como eu queria
Hoje faço é poesia
Dessa saga no sertão.
Dei corda ao meu instinto
Feito Maria Bonita
Meu fado eu canto em verso
Pois não caí em desdita
Entre o profano e o sagrado
Meu norte foi consagrado
Sou mulher e sou bendita.
A SAGA DO SABUGO
Dalinha Catunda
.
Meu caro amigo quem acha,
Que o sabugo é o vilão.
Nunca correu paro o mato,
Bem cheio de precisão.
Depois do serviço feito
É que da fé o sujeito
Que faltou papel a mão.
.
Um sabuguinho perdido,
No meio do milharal,
É a salvação da lavoura
E até que não pega mal.
Quem é que vai recusar,
De com ele se limpar
Sem outra escolha afinal?
.
Não fiquem de boca aberta.
Nem pensem que é novidade.
Pois ele era apreciado,
Nos campos e na cidade.
Passou na bunda de gente
Que posava de decente,
Da alta sociedade.
.
O sabugo, meu amigo
Já foi de grande valia.
Bunda de ricos e pobres,
Muitas vezes acudia.
Mas o povo é bem cruel
Agora que tem papel,
O sabugo repudia.
.
Nos velhos tempos foi tido
Como a melhor solução.
E limpa, coça e penteia,
Dizia a população.
Que nos tempos das refregas
Já andou limpando as pregas,
Sabugo era a salvação
*
Versos de Dalinha Catunda
Foto da página Enquanto Isso em Goiás
Qualquer semelhança com a vida dos racionais é mera coincidência
Nesses tempos atuais
Amigo vou lhe contar
Tem coisa que não entendo
Também não posso explicar
Pois até a natureza
Exibe sua aspereza
Quando resolve brigar.
Um periquito vadio
Que gostava de dinheiro
Resolveu grana ganhar
Não aqui, no estrangeiro,
Começou a atuar
E viu seu plano vingar
Foi esperto e foi ligeiro.
Para uma pomba lesa
O periquito ligou
Mas a rola vaidosa
Burra nem desconfiou
Que o tal do periquito
Todo sarado e bonito
Um bom golpe planejou.
O periquito esperto
Enviou fotografia
Mostrou que era capaz
De encarar uma porfia
E a pomba encantada
Logo caiu na cantada
Sem saber o que fazia.
Periquito decidido
Resolve a situação
Levou a pomba abestada
Direto para o colchão
Foi pena pra todo lado
Fizeram amor adoidado
Até rolaram no chão.
O periquito contente
Deu conta do seu recado
A rola baixou a cabeça
Quando viu o resultado
É hoje ave acuada
Porque vai ser depenada
O golpe foi confirmado.
Após contar essa saga
Pasmada eu aqui medito:
Pois tem coisa que me assombra
Eu vejo e não acredito
Só sendo coisa do diabo
É pomba tomar no rabo
Por comer um periquito.
EU LEVO MINHA VIDINHA
DO JEITO QUE GOSTO E QUERO
Dalinha Catunda
EU LEVO MINHA VIDINHA
DO JEITO QUE GOSTO E QUERO.
Mote e glosas de Dalinha Catunda
*
Não nasci pra ser padrão,
Tenho manha e sou teimosa,
Não sou fraca ou desditosa,
Piso com força no chão.
Eu sou mulher do sertão!
Sem queixa, sem lero-lero,
Ti ti ti eu não tolero,
Quem diz isso é Dalinha:
EU LEVO MINHA VIDINHA
DO JEITO QUE GOSTO E QUERO.
*
Resolvi ser diferente
Somente pra não ser santa
Eu sei que meu jeito espanta
Porém fico indiferente
Pra viver eu boto é quente
Tempo bom eu não espero
Levo na valsa ou bolero
A saga que é só minha
EU LEVO MINHA VIDINHA
DO JEITO QUE GOSTO E QUERO.
Quando meu papai me fez
Diz ele que caprichou
Começou no escurecer
E a noite inteira levou
Não faltou material
A gala era especial
Mamãe também cooperou.
Capricharam nos olhinhos
Na boca, queixo e nariz
Minha mãe abriu as pernas
E o velho passou o giz
Assim foram desenhando
E formato fui ganhando
Naquele dia feliz.
Quando painho chegou
Largou logo a lazarina
E disse para mainha
Hoje eu faço uma menina
Os documentos lavou
E com mamãe se deitou
E apagou a lamparina.
Numa cama de pau duro
Começou o rebolado
Meu velho ia e voltava
E mamãe fazendo agrado
Para eu não nascer feia
Fizeram na lua cheia
E foi bom o resultado.
AFLORA A LIBERDADE
Dalinha Catunda
Já fui árvore nativa
Crescendo bem natural
Mas o machado da vida
Em mim fez corte brutal
Com sua poda inclemente
Quis me fazer diferente
Mas teimei em ser igual.
*
Por ter raízes profundas
Presa a terra continuei
E nos troncos decepados
Ramagem nova espalhei
De cada poda aplicada
Saía revigorada
Por isso me propaguei.
*
Florida reflorescida
Dei fruto também semente
A parte que foi podada
Cresceu abundantemente
E na estação das flores
Dos sonhos ouço rumores
Perfumando meu presente.
VENTO NA CARNAUBEIRA
Dalinha Catunda
*
Quem nunca escutou o vento
A farfalhar nas palmeiras
Não sabe o quanto é bonito
O som nas carnaubeiras
Precisa ver a beleza
Invenção da natureza
Que vejo nas Ipueiras.
*
Foto e versos de Dalinha Catunda
NO REINO DA GATUNAGEM
TUDO RIMA COM LADRÃO
*
Nessa grande maratona
Onde só se vê ladrão
Cada um quer defender
Seu partido ou facção
Mas vejo o povo perdido
No meio da discussão.
O que realmente sei
É que houve o mensalão
Não demorou muito tempo
Estourou o petrolão
Desde os tempos mais remotos
Rouba-se nessa nação.
Os políticos discutem
De cada ator a ação
Quem desfalcou mais ou menos
Quem primeiro pôs a mão
Institucionalizando
Essa esculhambação.
Na câmara tem corrupto
Não venha dizer que não
E no senado se vê
A mesma situação.
E o povo besta brigando
Por político ladrão.
*
Versos de Dalinha Catunda
Charge de LILA
QUANDO PAPAI ME FEZ
Dalinha Catunda
Quando meu papai me fez
Diz ele que caprichou
Começou no escurecer
E a noite inteira levou
Não faltou material
A gala era especial
Mamãe também cooperou.
*
Capricharam nos olhinhos
Na boca, queixo e nariz
Minha mãe abriu as pernas
E o velho passou o giz
Assim foram desenhando
E formato fui ganhando
Naquele dia feliz.
*
Quando painho chegou
Largou logo a lazarina
E disse para mainha
Hoje eu faço uma menina
Os documentos lavou
E com mamãe se deitou
E apagou a lamparina.
*
Numa cama de pau duro
Começou o rebolado
Meu velho ia e voltava
E mamãe fazendo agrado
Para eu não nascer feia
Fizeram na lua cheia
E foi bom o resultado.
CHEGOU B-R-O-BRÓ
Dalinha Catunda
*
Já chegou B-R-O- BRÓ
Com eles a sequidão
O nordeste pega fogo
Fica mais quente o sertão
Pras bandas do meu lugar
Açudes chegam a rachar
A água some do chão.
*
Até que corre um ventinho
Mas quando bate é quente
Porém na boca da noite
Ele bate diferente
O Aracati afamado
Deixa mais refrigerado
O nosso sertão ardente.
*
Tange a boiada outra vez
O vaqueiro calejado
Que repete sua saga
No remanejar do gado
Recomeça o sofrimento
O aboio é um lamento
Parece um canto chorado.
*
Voa baixo o urubu
Tentando se refrescar
Passarinhos sapateiam
No açude a secar
No cantinho do terreiro
Vejo seco o cajueiro
Que chegou a me encantar.
*
Mesmo assim faço meu verso
Meu fado deu-me traquejo
Sou ave de arribação
Em voo de remanejo
Do meu sertão não desisto
Na minha sina persisto
Com meu canto sertanejo.
*
Fotos e versos de Dalinha Catunda
Quando a chuva esperada
Chega molhando o nordeste
Uma alegria inconteste
Não demora é espalhada
O povo cai na risada
Vendo a água em profusão
Aflora na multidão
Clima de felicidade
Chuva na grande cidade
Não é igual ao sertão.
Quando a chuva chega forte
Inunda a cidade grande
O aguaceiro se expande
Causa dano, causa morte,
O povo fica sem norte
Com tanta destruição
A chuva sem compaixão
Exibe sua crueldade
Chuva na grande cidade
Não é igual ao sertão.
O DELEITE DA ROSA
*
Encantei-me com conversa
De bico de beija-flor
Minha ode hoje versa
Sobre esse sublime amor.
*
Sobre esse sublime amor
Pelo qual fui seduzida
Exalando meu olor
Era por ele sorvida
*
Era por ele sorvida
Ao despertar orvalhada
Libertina e atrevida
Incontida era sugada.
*
Incontida era sugada
E quase a desfalecer
Feliz mas despetalada
Desmanchei-me em prazer.
CIÚME DEMASIADODESMANTELA UM CASAMENTO
Dalinha Catunda
*
Até tempera o amor
O ciúme sendo pouco,
Mas vira coisa de louco
Quando traz angustia e dor.
Transforma-se em temor,
Acarreta sofrimento,
A vida vira um tormento
Quando é exagerado:
CIÚME DEMASIADO
DESMANTELA UM CASAMENTO.
*
Mote, glosa e fotografia de Dalinha Catunda
O CIRCO CHEGOU
Dalinha Catunda
A cidade se alegrava,
Era grande a agitação.
Molecada se assanhava,
Cheia de satisfação.
E fazia estardalhaço
Correndo atrás do palhaço
Começava a animação.
*
Era o circo que chegava,
Mudando toda rotina,
Do meu pequeno lugar
Minha terra nordestina
Trazendo felicidade
Pra minha amada cidade
Nos meus tempos de menina.
*
No finalzinho da tarde,
O Palhaço as ruas ia,
Subia em pernas de pau,
Nem sei como não caía.
Atrás dele a criançada
Ia toda alvoroçada
Ao palhaço respondia:
*
“-Hoje tem espetáculo?
-Tem, sim senhor!
- Às sete horas da noite?
-Tem, sim senhor!
-Hoje tem marmelada?
-Tem, sim senhor
-As sete horas da noite?
-”Tem, sim senhor”
*
Era assim de rua em rua
Girarando pela cidade.
Trazendo ao interior,
Alegria de verdade.
Chamando a população,
Carente de animação
Carente de novidade.
*
O coro da meninada,
Ouvia-se ecoar
E o palhaço caprichava,
No seu jeito de cantar.
“-Eu vou ali e volto já,
- “Vou comer maracujá”
Como é gostoso lembrar!
*
Entre uma cantiga e outra
A turma escuta o que quer
“-E o palhaço o que é?
-É o ladrão de mulher!”
Mas era tanta alegria
Que o povo feliz sorria.
Duma bobagem qualquer.
*
“-Olha a moça na Janela”
Todos – “Olha a cara dela!”
Se repetia o palhaço
Em sua moda singela
Pra buscar a simpatia
Do povo que assistia,
Seu canto na passarela
*
-E quem responder mais alto
Ingresso pro circo tem!
“-O que é que a velha tem?”
“-Carrapato no sedém!”
Vamos: “ arrocha negrada!”
E gritava a molecada
Fazendo graça também.
*
Não sei se minha saudade,
Também bate com a sua.
Não posso ver um palhaço
No circo ou mesmo na rua.
Que cantarolo baixinho
Com saudade e com carinho
Canto que se perpetua:
*
“Ô raio, o sol, suspende a lua.
Olha o palhaço no meio da rua...”
*
Versos e fotos de Dalinha Catunda
*
Na hora da Ave Maria
Bate o sino na capela
Uma oração bem singela
Perpetro no fim do dia
E peço a Virgem da iria
Rogando com devoção:
Protegei o meu sertão
Ó Virgem mãe tão clemente
Resguardai a nossa gente
Eis a minha invocação.
*
Versos e fotos de Dalinha Catunda
Regiopidio e Dalinha
REGIOPIDIO GONÇALVES
Desejo de coração
Pra senhora e para os seus
Que a luz do filho de Deus
Atravesse seu portão
Que a bondade e o perdão
Do Deus pai celestial
Traga uma paz sem igual
Cobrindo o lar de alegria
De amor e de harmonia
Nessa noite de Natal.
*
DALINHA CATUNDA
Querido amigo poeta
Amante da poesia
Recebo com alegria
Essa mensagem seleta
Com minha alma repleta
De natalina emoção
Anseio de coração
Que o filho de Deus Jesus
Seja seu guia sua luz
Sua eterna inspiração.
*
Foto do acervo de Dalinha Catunda
O PRESENTE PREFERIDO
*
Sempre que chega o Natal
Recordo o tempo passado
E a minha lembrança vem
O que mais ficou marcado
Meu presente preferido
Com certeza o mais querido
Que sempre será lembrado.
*
Não era um presente caro
Porém achava perfeito
O meu olhar de criança
Não encontrava defeito
E replena de alegria
Brincava e me divertia,
Ele era o meu eleito.
*
Uma caixinha pequena
Pertinho do meu sapato
Uma agradável surpresa
Sem fita sem aparato
Mas num papel de presente
Eu abri toda contente
Inda me lembro do ato.
*
Qual não foi minha surpresa
Quando abri a tal caixinha
Pois nela tinham três ovos
E por cima uma galinha
Que de cara eu achei bela
Era de cor amarela
Com crista bem vermelhinha.
*
Ela tinha entre as asas
Uma pequena entrada
Para colocar os ovos
Com engenho arquitetada
Depois de uma apertadinha
Agachava-se a galinha
E cada ovinho botava.
*
Brinquei tanto com a galinha
Pois era uma novidade
Sentia-me das meninas
A mais feliz da cidade
E brinquei até quebrar
As molinhas de agachar
Em uma fatalidade.
*
Essa lembrança bonita
Guardei em minha memória
São nacos da minha infância
Pedaços da trajetória
Etapas da minha vida
Intensamente vivida
Mais um ponto na história.
*
Versos de Dalinha Catunda
Foto www.pinterest.com
QUEM UM DIA JÁ FOI CANA
AGORA É SÓ BAGAÇO.
*
Hoje você me procura
Mas não lhe dou atenção
Morreu a velha paixão
Virou pó na sepultura
Olhando sua figura
Mal reconheço seu traço
Escapo do seu abraço
Pois meu olhar não se engana
QUEM UM DIA JÁ FOI CANA
AGORA É SÓ BAGAÇO.
*
Mote e glosa de
Dalinha Catunda
Irineu da Silva Neto,
Está noutra dimensão
Mas deixou sua amizade
Que guardo no coração
Gentil e bem educado
Assim será registrado
Na minha recordação.
A minha amizade é
De fato incondicional
Tenho minhas preferências
O que acho natural
Cada um tem o seu jeito
Mas ninguém tem o direito
De querer que eu pense igual.
Quando adiciono alguém
Eu não quero nem saber
Se macumbeiro ou católico
Ou se crente pode ser
Não desabono a postura
De nenhuma criatura
Que escolhe em quem quer crer.
Digo e repito não importa
Seu time e religião
Orientação sexual
Pois isso não conta, não,
Seu partido sua cor
Aceito seja quem for
Respeito é a condição.
Sabemos que na política
No passado e no presente
A corja de desonesto
Nasceu e deixou semente
E não venham defender
Estupido é querer dizer
Que aqui tem inocente.
O pior de tudo isso
Digo com sinceridade
É o ranço da política
Desfazendo amizade
Enquanto cada ladrão
Conforme a situação
Juntam-se em cumplicidade.
ANO NOVO, VELHO BRASIL
*
Êita minha pátria amada
Ó saqueada nação
Entra ano e sai ano
Sem rumo sem solução
Lei aqui não se assevera
Por isso é que prolifera
No país tanto ladrão.
*
Somente louco acredita
Que tudo vai muito bem
A lama que corre agora
Correrá ano que vem
E o Brasil desgovernado
Podre e contaminado
Virou terra de ninguém.
*
Eu nem sei se Deus daria
Jeito na situação
Roubar é coisa antiga
Já é velha a profissão
E nem Jesus foi poupado
Pois na cruz foi colocado
Ladeado por ladrão.
*
O Brasil hoje é Jesus
Sendo crucificado
É um país promissor
Porém mal acompanhado
E caso não abra mão
De acoitar tanto ladrão
Acabará sepultado.
*
Versos de Dalinha Catunda
Eu só quero meus direitos
Não queira me adestrar
Eu não sou empoderada
Nem quero me igualar
Minha vida eu comando
Não tenho bandeira e bando
E gosto de me guiar.
Os mesmos direitos do homem
Confesso não quero ter
Não quero ter falo e saco
E nem ter que endurecer
Meu brinquedo é de montar
O do homem é de armar
Quando enguiça é um sofrer.
A mãe tem sempre certeza
Que o filho que gera é dela
Porém o pai muitas vezes
Acaba numa esparrela
Cria o filho sem ser seu
Isso já aconteceu
Vi na vida e na novela.
Não quero ficar mais tempo
No mercado a trabalhar
Pra me comparar ao homem
Na hora de aposentar
Não estou de sacanagem
Quero ter essa vantagem
Enquanto ela vigorar.
Gosto de mijar sentada
Não quero mijar em pé
Gosto de usar calcinha
Não me vejo de boné
Não quero ficar careca
Nem também usar cueca
No meu tino tenho fé.
Mas uma coisa eu digo
Expondo minha postura
Eu gosto de ser mulher
E sem previsão de cura
Nisso não vejo entrave
O HOMEM É MINHA CHAVE
EU SOU SUA FECHADURA.
Dalinha Catunda
Foto da colunista
A lua apontou no céu
A brisa soprou-me a tez
Do rosto tirei o véu
Senti sem desfaçatez.
Senti sem desfaçatez
O bafo da madrugada
Lambendo minha nudez
Na janela eu debruçada.
Na janela eu debruçada
Tendo o vento como açoite
Lasciva desvirtuada
Beijei a boca da noite.
Beijei a boca da noite
E no sublime beijar
Eu alonguei o pernoite
E me envolvi ao luar.
E me envolvi ao luar
Na minha lascividade
Foi um fado de além-mar
Autor da ludicidade.
Dalinha Catunda
Sou trocista e faço graça
Dos versos sou alquimista.
Mote desta colunista
Eu sei que o mundo não é
Só graça, só alegria,
Mas por nada eu perderia
No bom Deus a minha fé
E por isso estou de pé
Não sou mulher pessimista
Sou poeta cordelista
Não dou aval a desgraça
Sou trocista e faço graça
Dos versos sou alquimista.
Dalinha Catunda
Tanta mulher dando sopa
E eu sem colher pra tomar.
Mote de Abel Fraga
Quando tinha pouca idade
Me achava um garanhão
Não me faltava tesão
Digo com sinceridade
Provei da felicidade
E mais queria provar
Mais vi o pinto arriar
Não vai mais de vento em popa
Tanta mulher dando sopa
E eu sem colher pra tomar.
Este mote está no livro A Prisão de São Benedito, de autoria de Luiz Berto.
EU SOU O SERTÃO!
*
Nas terras alencarinas
Eu nasci e me criei
Não foi por causa da seca
Que de lá eu desertei
Parti pra me libertar
E aprender a voar
Migrante assim me tornei.
*
Mesmo desertificado
Eu não largo meu sertão
Viajo pra todo lado
Mas não esqueço meu chão
O mato pode secar
O meu açude rachar
Não mudo de opinião!
*
Sou ave de ribaçã
Não esqueci o roteiro
Vivo entre o Ceará
E o Rio de Janeiro
Tatuei no coração
O retrato do sertão
O meu reino verdadeiro.
*
E quem nunca tibungou
No rio de sua aldeia
Quem nunca namorou
Ao clarão da lua cheia
Quem ao som dum sanfoneiro
Não se enroscou num terreiro
Num chamego que enleia.
*
Só sabe o que é sertão
Quem bebeu água de pote
Já tomou banho de cuia
E sabe o que é um xote
E antes de ser beijada
Já ficou arrepiada
Com o cheiro no cangote.
*
O nordeste é terra quente
Por isso gosto de lá
Sou filha das Ipueiras
Que fica no Ceará
Pertinho do Piauí
Vou ficando por aqui
E jamais ao Deus dará.
*
Dalinha Catunda
- A TERRA ESPERA CHORANDO
AS LÁGRIMAS QUE VÊM DO CÉU.
*
PEDRO ERNESTO
O olho d’água não vê,
a correnteza não corre,
o morro geme e não morre
e a previsão não prevê;
o vento não diz porque
o trovão se tornou réu,
o silêncio do xexéu
todo mundo está notando
- A TERRA ESPERA CHORANDO
AS LÁGRIMAS QUE VÊM DO CÉU.
*
DALINHA CATUNDA
O sertanejo faz prece
Reza para São José
Porém logo perde a fé
Na estiagem padece
De chuva ele carece
E sem fazer escarcéu
Tira e bota seu chapéu
Taciturno observando
- A TERRA ESPERA CHORANDO
AS LÁGRIMAS QUE VÊM DO CÉU.
*
RAUL POETA
O sertanejo padece
com a secura do açude,
animal perde a saúde,
o solo só endurece,
a esperança falece,
o tempo torna-se incréu,
tudo vira um fogaréu
furioso e calcinando
- A TERRA ESPERA CHORANDO
AS LÁGRIMAS QUE VÊM DO CÉU.
*
Mote de Pedro Ernesto
Dalinha Catunda
Foto da colunista
Eu comprei sua passagem
E guardei o seu lugar
No trem da felicidade
Imaginei viajar
Arquitetei cada rito
O sonho era bonito
Mas não vi você chegar
Pra não perder a viagem
Programei nova ilusão
Sempre tem alguém querendo
Um espaço num vagão
E depois pensando bem
Nunca fui de perder trem
Dei-me bem na condução.
NA INVERNADA
*
Quando finda a estiagem
Quando chove no sertão
Tudo fica diferente
Brota logo a plantação
A chuva cai todo dia
Biqueira faz melodia
Quando o pingo cai no chão.
*
Relâmpago risca o céu
Vejo o corisco brilhar
O barulho do trovão
Não chega a me assustar
Por detrás do nevoeiro
A serra some ligeiro
Parecendo se encantar
*
A brisa que sopra mansa
Logo vira vento forte
Nos braços da ventania
Cai a chuva muda a sorte
Cheiro de terra molhada
Anuncia a invernada
Novo rumo, novo norte.
*
A caatinga se refaz
Faz mágica a natureza
A grota enche o açude
Na força da correnteza
O rio bota enchente
Meu olhar segue a corrente
Perde-se na boniteza.
*
Versos e foto de Dalinha Catunda
PORÉM PRÍNCIPE ENCANTADO
É COISA DE ANTIGAMENTE.
*
Peguei meu lápis de cor
Colori nosso universo
Ao lado de cada verso
Eu desenhei uma flor
No caderninho do amor
Eu brinquei de adolescente
Até cupido inocente
Inventei para recado
PORÉM PRÍNCIPE ENCANTADO
É COISA DE ANTIGAMENTE.
*
Botei um batom carmim
E beijei o bilhetinho
Dobrei com todo carinho
Mas não guardei só pra mim
Mandei pra você, enfim,
Toda feliz e contente
Pois não tirava da mente
Meu pretenso namorado
PORÉM PRÍNCIPE ENCANTADO
É COISA DE ANTIGAMENTE.
*
Mas enquanto eu desenhava
O mais bonito castelo
Meu sonho que era belo
Aos poucos desmoronava
Feito criança eu chorava
A dor no peito presente
E o travesseiro ciente
Solidário me alertava:
PORÉM PRÍNCIPE ENCANTADO
É COISA DE ANTIGAMENTE.
*
Versos de Dalinha Catunda
EU SINTO O CHEIRO DO GADO
ATÉ QUANDO ESTOU DORMINDO.
*
Quando recordo o sertão
A nostalgia me ataca
Lembro o mugido da vaca
Nas manhãs daquele chão
Os passos do meu peão
Parece que estou ouvindo
Suado mas se exibindo
Estava sempre ao meu lado
EU SINTO O CHEIRO DO GADO
ATÉ QUANDO ESTOU DORMINDO.
*
Glosa de Dalinha Catunda
Mote: Francisco Evangelista
Vou de vaga-lume
*
Pra brincar o carnaval
Consultei o meu guru
Sem dinheiro pro cocar
Botei pena de urubu
A roupa a gente resume
Vou tal qual o vaga-lume
Só com luz no mucumbu.
*
Versos e foto de Dalinha
EVITE A PICADURA
*
Amigo isto é verdade
Eu falo porque convém
Fuja da picadura
Suprima os ovos também
E tenha todo cuidado
O mosquito é abusado
E não respeita ninguém.
*
Versos - Dalinha Catunda
Charge - Alex Ponciano
DESPIDA DE PRECONCEITO
Rezo pra Nossa Senhora
Com fé diante do altar
Ladainhas e benditos
Sempre gostei de cantar
E cheia de devoção
Acompanho procissão
Nas novenas do lugar.
Ouvindo pontos de umbanda
Junto começo a cantar
Cheia de requebrados
Faceira chego a dançar
E você nem acredita
Igual a moça bonita
Eu faço a gira girar.
Cantarolo um canto gospel
Apesar de não ser crente
A beleza d’um louvor
Não me deixa indiferente
Despida de preconceito
Respeito e também aceito
Quem de mim é diferente.
Se seu time não é o meu
Isso não me contrafaz.
Se seu partido é outro
Isso pra mim tanto faz
Só cultiva a amizade
Quando há diversidade
Quem realmente é capaz.
MINHA CANTIGA DE CEGO
Nessa cantiga de cego
Eu quero te desejar
Saúde e felicidade
No ano que vai chegar
Desejo também fartura
Para abastecer seu lar.
Da praga do mau vizinho
Rogo a Deus pra te livrar
A santa Luzia eu peço
Pra teus olhos conservar
Para que a luz do dia
Nunca venha te faltar.
Que Deus pai te dê vergonha
Pra não roubar nem matar
Que te dê muito juízo
Para não desatinar
Que te cubra de fortuna
Que é para o pobre ajudar
Que Deus lhe dê gratidão
Pra de pai e mãe cuidar
Dobre sua paciência
Pra deles não judiar
Que Deus te compreensão
Para apender perdoar
Que a vida fique mais leve
E menor o teu pesar.
Da sina do mau amigo
Que Deus possa te livrar
Que o punhal da traição
Não chegue a te alcançar
Deus te cuide, Deus te guie,
Deus te ajude a caminhar.
TRÊS GLOSAS
Saudade é dor que martela
Dói no peito e faz chorar.
Mote da colunista
É quando chega o Natal
E aponta o Ano Novo
Que a saudade do meu povo
Bate forte sem igual
A tristeza é vendaval
Que sopra e não quer parar
Difícil não soluçar
Pois o pranto não protela:
Saudade é dor que martela
Dói no peito e faz chorar.
A mesa que se fazia
Celebrando nossa ceia
Agora não é mais cheia
Aos poucos se esvazia
Falta papai e titia
Tony foi sem avisar
Cesar não posso abraçar
E a verdade me revela:
Saudade é dor que martela
Dói no peito e faz chorar.
Se eu pudesse me meter
Num buraco bem profundo
Esquecer a dor do mundo
Que chega e me faz sofrer
Se eu pudesse me esconder
Pra minha dor sufocar
Jamais iria cantar
Um canto que se rebela:
Saudade é dor que martela
Dói no peito e faz chorar.