Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Fernando Antônio Gonçalves - Sem Oxentes nem Mais ou Menos Tuesday, 11 de October de 2022

FÁBULA A LA FONTAINE (CONTO DE FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

FÁBULA A LA FONTAINE

Fernando Antônio Gonçalves

 

No entanto, intrigada com a atividade intelectual do coelho, dele se aproximou muito curiosa:

– Coelhinho, o que você está fazendo aí, tão concentrado, diante dessa maquininha eletrônica? – Estou redigindo a minha tese de doutorado, disse o coelho, sem tirar os olhos do seu trabalho. A raposa insistiu:

– E qual é o tema da sua tese? O coelho respondeu que era uma teoria provando que os coelhos são os verdadeiros predadores naturais das raposas, desde as mais remotas épocas.

A raposa arretou-se por inteiro:

– Ora!!! Isso é ridículo, coelho bobão!!! Nós, canídeos, é que somos os predadores dos coelhos! – Absolutamente, disse o coelhinho. Se desejar mais provas, venha comigo à minha toca que eu lhe mostrarei o resultado da minha experiência.

O coelho e a raposa entram na toca. Instantes depois são ouvidos ruídos indecifráveis, alguns poucos grunhidos e depois um gigantesco silêncio. Logo após a gritaria, o coelho retorna ao seu computador, sozinho, riso todo maroto, continuando a redação de sua tese, como se nada tivesse acontecido.

Meia hora depois passa por ali um lobo dos grandões. Ao ver o apetitoso animal todo datilógrafo, agradece mentalmente à cadeia alimentar por estar com o seu jantar garantido. Mesmo assim, o lobo também acha muito estranho um coelho trabalhando naquela concentração toda, sem atenção alguma para com o seu derredor. Resolve então saber do que se trata aquilo tudo, antes de abocanhar o animalzinho:

– Olá, jovem coelhinho! O que o está fazendo trabalhar com tanta atenção?

– Trata-se de uma tese de doutoramento por mim desenvolvida, seu lobo. É uma teoria

que venho investigando há algum tempo e que prova que nós, coelhos, somos os grandes predadores naturais de vários animais carnívoros, inclusive dos lobos.

O lobo não se conteve com a petulância do coelho:

– Meu caro apetitoso coelhinho! Isto é um tremendo despautério! Nós, os lobos, é que somos os genuínos predadores naturais dos coelhos. Aliás, chega de conversa… Vamos ao que me interessa.

– Desculpe-me, seu lobo, retorquiu o coelhinho doutorando, mas se você quiser eu posso apresentar a minha prova experimental. Você gostaria de me acompanhar até à minha toca?

O lobo não consegue acreditar na sua boa sorte. E com a sua futura vítima, desapareceu toca adentro. Alguns instantes depois ouvem-se uns uivos desesperados, ruídos de mastigação e… silêncio cemiterial. Mais uma vez o coelho retorna sozinho, com toda tranquilidade voltando ao trabalho redacional da sua tese, como se nada tivesse acontecido.

Dentro da toca do coelho vê-se uma enorme pilha de ossos ensanguentados e pelancas de diversas ex-raposas. Ao lado dela, outra pilha ainda maior, de ossos e restos mortais daquilo que um dia foi um bocado de lobos. Ao centro das duas pilhas de ossos, um enorme leão, satisfeito, bem alimentado, palitando os dentes, gordo que nem um paxá.

Moral da fábula, em cinco pontos nada cardeais: 1. Não importa quão absurdo seja o tema de sua tese; 2. Não importa se você não possui mínimos fundamentos científicos; 3. Pouco importa se os seus experimentos nunca lograram provar sua teoria; 4. Não importa nem mesmo se suas ideias vão contra o mais óbvio dos conceitos lógicos; 5. O que importa é quem está apoiando financeiramente a sua tese.

Uma fábula de muita valia para aqueles que estão indignados com o não esclarecimento de assassinatos vários, inflações descabidas, castigos impostos somente aos abestados e liberdade plena dos bandidões de colarinho branco que ainda se encontram sem um padre-nosso de penitência. Para não falar nos empresários traficantes de drogas, que se locupletam das ingenuidades e sonhos dos portadores de pouca criticidade, dotados de múltiplas ambições descabidas.


Fernando Antônio Gonçalves - Sem Oxentes nem Mais ou Menos Tuesday, 04 de October de 2022

EM PLENO SIGILO (ARTIGO DE FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES,COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

EM PLENO SIGILO

Fernando Antônio Gonçalves

 

No mundão lusófono, por exemplo, como nas demais localidades, acontece cada coisa que até o Homão tem dúvida. Há poucos meses, amigo fraterno de Oeiras, uma das mais hospitaleiras cidades portuguesas, me enviou cópia de uma petição, fato acontecido em plena África de língua camoniana, com um não menos interessante despacho de magistrado, sempre reconhecido pela sensatez de suas análises decisórias.

A petição tem o seguinte teor, resguardada a identidade da sede da comarca e também do país:

Sicranópolis, 5 de março de 2019.
Ao Senhor Juiz da Vara e Família.
Assunto: Solicitação para mudança de nome.
Eu, Maria José Pao, casada, do lar, gostaria de saber da possibilidade de se bulir no sobrenome Pao de meu nome, já que a presença do Pao tem me deixado embaraçada em várias situações. Desde já antecipo agradecimento e peço deferimento.

Maria José Pao.

Em resposta, o douto magistrado lhe remeteu a seguinte correspondência:

Cara Senhora Pao:
Sobre sua solicitação de remoção do Pao, gostaríamos de lhe informar que a nova legislação permite a retirada do seu Pao, mas o processo é deveras complicado. Se o Pao tiver sido adquirido após o casamento, a retirada é mais fácil, pois, afinal de contas, ninguém é obrigado a usar o Pao do marido se não quiser. Se, entretanto, o Pao for do seu genitor, o caso se torna ainda mais difícil de solução imediata, pois o Pao a que nos referimos é de família e vem sendo usado por várias gerações. Se a senhora tiver irmãos ou irmãs, a retirada do Pao a tornaria diferente do resto da família. Não seria agradável cumprimentar todos com Pao, menos a sua pessoa. Por outro lado, cortar o Pao de seu pai deverá magoá-lo de modo irreversível, deixando-o decididamente infeliz. Outro problema, porém, está no fato de seu nome completo vir a conter apenas dois nomes próprios, ficando esquisito caso não haja nada para colocar no lugar do Pao. Isso sem falar que as demais pessoas estranharão muito ao saberem que a senhora não possui mais o Pao do seu marido. Uma opção bastante viável seria a troca da ordem dos nomes. Se a senhora colocar o Pao na frente da Maria e atrás do José, o Pao pode restar mais escondido, porque a senhora poderia assinar o seu nome como Maria P. José. Nossa opinião é a de que o preconceito contra este sobrenome já acabou há muito tempo e que, já que a senhora usou o Pao do seu marido por tanto tempo, não custa nada usá-lo um pouco mais. Eu mesmo possuo Pao, sempre usei e muito poucas vezes o Pao me causou embaraços.

Atenciosamente,
Desembargador Joaquim Manoel Pao, Vara de Família do Tribunal de Justiça.

Lembro-me, ainda em meados da primeira década deste século, de um outro processo julgado na mesma Vara de Família daquelas bandas. Um profissional recém diplomado em nível superior tinha peticionado solicitando alteração do seu nome de batismo, Sebastilhão Bunda Verde. Deferido o pedido, a autoridade judicial convocou o signatário para uma audiência final decisória, quando lhe foi perguntado sobre o novo nome desejado. Como resposta, sem causar espalhafato na sala de audiências, o inquirido, jovem apessoado, de terno engomado e gravata de nó muito bem construído, declarou gostar de se assinar Sebastilhão Bunda Negra, posto que ele se sentia integrado ao reino animal, jamais se imaginando pertencer ao reino vegetal…

O Mário Souto Maior, pai do meu dileto amigo-irmão Jan Souto Maior, um arretado em computadores e outros sistemas tecnológicos, certamente lá da eternidade já fez as suas devidas anotações, ele que muito se notabilizou pelas suas pesquisas em busca de nomes próprios pouco comuns.

 


Fernando Antônio Gonçalves - Sem Oxentes nem Mais ou Menos Tuesday, 27 de September de 2022

MEDIOCRIZAÇÕES AUTOFÁGICAS (CRÔNICA DE FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

MEDIOCRIZAÇÕES AUTOFÁGICAS

Ferrnando Antônio Gonçalves

Alguns milagres saltam aos olhos, aqui resguardando-se a identidade dos santos, como manda um dos mandamentos da boa educação. Qualquer pessoa de senso de equilíbrio mínimo percebe, por exemplo, como estão desrespeitando os velhos logo no ano onde a CNBB também os reverencia na Campanha da Fraternidade. Ora é um debilóide que prefere um copo de cerveja, mesmo que deixando a avó no ostracismo, depois de uma caminhada de muitas dificuldades. Ora é uma moçoila de telenovela, metida a furico de satanás, que praticamente amaldiçoa os avós que sob um mesmo teto seu se protegem, vez por outra ainda roubados sem a menor cerimônia pela neta escroticida.

Como é ridícula a demagógica proposta de cotas para não-brancos nas universidades, diferentemente da sadia instituição de percentagem de ingresso nas universidades dos oriundos das escolas públicas! Razão plena tem a jornalista pernambucana Marilene Felinto, agora colabora de revista conceituada, quando declarou recentemente: “eu mesma teria arrastado para sempre um complexo de inferioridade atroz se tivesse entrado na USP, a melhor universidade pública da América do Sul, pelo critério de cor da minha pele de mulata”. A demagogia populista, além de não entender bulhufas de abolicionismo social, desastradamente amplia a discriminação contra os não-brancos, nossos irmãos, também filhos amados da Criação.

Considero um papelão molecal a capacidade de alguns de se desconstruir publicamente para melhor se locupletar das benesses do poder atual, jogando na rua da amargura seus passados, suas caminhadas, suas angústias e suas reflexões. Tudo atulhado num gavetão recheado de ontens não mais lembrados, em nome de um comportamento puxasaquístico, típico dos desavergonhados. Reconheço que a reforma mais necessária para a governabilidade brasileira é a reforma política, sem a qual resvalaremos para cenários pouco consistentes, abismais por derradeiro.

Outro dia meu nível de indignação ampliou-se quando vi uma propaganda de uma determinada marca de automóvel, onde duas crianças solicitavam aos pais uma paradinha fora da entrada da escola porque tinham um carro menos tampa-de-foguete, como se a esmagadora maioria das crianças brasileiras não ficassem rindo à toa pelo fato de os pais possuírem um carrinho, fosse ele de que marca fosse.

Receio que determinadas “explicitações comunicacionais” estejam favorecendo construções de cenários pouco democráticos, discriminatórios, como se uma tecnologia ultrasofisticada não tivesse como contraponto o fato humilhante para todos nós: apenas África do Sul e Malaui possuem um grau de desigualdade de renda maior do que o do Brasil.

Nos ainda umbrais de um novo século, num contexto impregnado de muito ceticismo, onde se diluem o mito do Estado todo poderoso e o mito do mercado como catapulta do progresso infindo, ampliam-se os anseios por uma ativa e altiva ação comunitária, nunca subordinada às tiranias plutocráticas. Tampouco putinocáusticos.

A hora brasileira é a da sociedade civil. Sem medo e sem ódio, como dizia Marcos Freire, um talento pernambucano que fez história num partido que, à época, não bajulava o poder, muito pelo contrário.

PS. Viva o Luiz Berto, integralmente recuperado, de volta ao comando do Jornal da Besta Fubana!!


Fernando Antônio Gonçalves - Sem Oxentes nem Mais ou Menos Tuesday, 20 de September de 2022

LEITURAS DE LIBERTAÇÃO (ARTIGO DE FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

LEITURAS DE LIBERTAÇÃO

Fernando Antônio Gonçalves

 

No meu último mini-recesso, li com sofreguidão o trabalho de Antonio Piñero, catedrático de Filologia Neotestamentária da Universidade Complutense de Madri, intitulado O Outro Jesus Segundo Evangelhos Apócrifos, editado conjuntamente pela Mercuryo e Paulus. Com base nas fontes não aceitas como canônicas ou inspiradas, algumas delas datadas dos dois primeiros séculos da era cristã, Piñero consegue de forma esplendorosa elucidar algumas obscuridades contidas no Novo Testamento: a concepção, o nascimento e as primeiras peraltices do Prometido, a situação conjugal Maria-José e os fuxicos da época diante da gravidez de uma jovem de apenas 16 anos, os irmãos do Menino, os ensinamentos secretos de Jesus e a assunção de Maria, um fato não registrado nos evangelhos oficiais, embora relatado num dos classificados como apócrifos.

Para se ter uma ideia, Antônio Piñero estudou minuciosamente cada um dos 36 documentos considerados inautênticos, dividindo-os em quatro grandes grupos. E expõe suas conclusões através de um estilo descomplicado. Um dos capítulos mais significativos do livro analisa os questionamentos feitos pelos Doze e alguns seguidores (Mc 4,11ss). E mostra como Jesus ensinava aos seus mais próximos de um modo pedagogicamente formativo, preparando sua equipe para as pregações futuras, a serem efetivadas sem mais a Sua presença.

As lições do Mestre podem ser explicitadas através de quatro princípios fundamentais, já bastante propagados antes mesmo do Seu nascimento: 1. A melhor parte do ser humano e a mais autêntica é o espírito. É como uma centelha divina, consubstancial com a divindade, da qual se origina por emanação; 2. Por um processo complicado, necessário e adverso – a ser em breve esclarecido -, essa centelha divina está presa na matéria, isto é, no corpo do ser humano e nesse mundo material. Mas o Eu verdadeiro dele, a centelha divina, tem sua pátria no Infinito; 3. A centelha divina deve tomar consciência de seu ser e voltar ao lugar de onde procede; 4. Um ser divino desce do âmbito superior em missão de resgate, com sua revelação lembrando ao ser terrestre que ele possui essa centelha, o ilumina e o instrui sobre o modo de fazê-la retornar ao lugar de origem.

Na literatura considerada apócrifa, informações sobre Jesus contribuem para melhor compreender a caminhada do Homão da Galileia, nosso Irmão Libertador, ratificando João, no último versículo do seu evangelho: “Jesus fez muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, penso que nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para os livros que seriam escritos”.

Como ficaria alegre o amoroso evangelista se pudesse contar, naquela época, com os recursos da computação eletrônica. Certamente, muito mais coisas estariam registradas.


Fernando Antônio Gonçalves - Sem Oxentes nem Mais ou Menos Monday, 12 de September de 2022

LIÇÕES DA COVID-19 (CRÔNICA DE FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

LIÇÕES DA COVID-19

Fernando Antônio Gonçalves

 

Uma das lições positivas causadas pela COVID-19: a emersão de baitas alertas mundiais sobre os amanhãs sobrevivenciais do planeta. Um deles: A QUE CUSTO? O CAPITALISMO (MODERNO) E O FUTURO DA SAÚDE, Nicholas Freudenberg, São Pulo, Elefante, 2022, 592 p. O autor é professor de saúde pública da Universidade da Cidade de Nova York, Estados Unidos, atualmente diretor do Instituto de Políticas de Alimentação Urbana, que desenvolve pesquisas inovadoras sobre a redução da insegurança alimentar e nutricional das comunidades. De capa nada sugestiva, muito feiosa até e pouco sedutora, o livro analisa magistralmente as razões de uma degradação do meio ambiente planetário nas últimas décadas, gerada por um capitalismo, considerado, pelo autor, o maior problema mundial do século XXI. Ciências sociais de alto nível analítico, leitura radicalmente indispensável para equipes de planejamento sanitário governamental.

No Brasil, vagarosamente desperta-se para alguns problemas que eram tidos e havidos como solucionáveis a longuíssimo prazo. Vejamos nossas principais urgencialidades:

1. Uma distribuição de renda menos desigual, desumana há décadas, jamais preocupação das nossas elites hedonistas e egolátricas;

2. Uma educação básica integral para todas as classes sociais, com professores capacitados e bem remunerados em todos os graus de ensino;

3. Combate sistemático e feroz contra racismos, negativismos, fundamentalismos, religiosidades de posturas financeiras, além dos preconceitos sutilmente disfarçados contra alguns gêneros sexuais;

4. Revigoramento das instituições públicas de ensino superior, com uma reestruturação efetiva dos Cursos de Pedagogia e da área de Humanidades, inclusive com capacitações docentes que fortifiquem um transmitir docente altamente reflexivo e evolucionário;

5. Ampliação das penas – inclusive com a instituição da castração química – para estupradores de crianças, adolescente e mulheres em processo de parto, como o praticado por um animal metido a profissional de anestesia, psicopata, de classe social alta do Rio de Janeiro;

6. Uma política intensa de reurbanização do território nacional, preservando meio ambiente e os territórios indígenas;

7. Fortalecimento do SUS e do sistema público de saúde;

8. Legislação do Imposto de Renda que tribute as grandes foruunas, as heranças, as instituições religiosas, isentando de pagamento os de abaixo de três mínimos, além dos maiores de 70 anos;

9. Multiplicação das bibliotecas públicas estaduais e municipais, favorecendo todas elas com uma rede eletrônicas 5G que as interrelacionem com o mundo civilizado;

10. Fortalecimeto do FUNDEB, desestruturando agiotagens e pilantragens de cretinos metidos a educadores, com a punição pelos culpados do exercício das funções públicas por 20 anos;

11. Produção de e-books pelo Ministério da Cultura, com o envio dos exemplares, a preços módicos, para todos os brasileiros interessados. Obrigatoriedade ainda de remessa para todas as bibliotecas estaduais e municipais do país;

12. Certificado de vacinação para recebimento de benefícios e auxílios do INSS e outras ajudas previdenciárias.

13. Salário total de parlamentares do Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Câmara de Vereadores sempre relacionado percentualmente com o estabelecido como Salário-Mínimo Nacional.

14. Redução da criminalidade penal para 16 anos, posto que aos 16 anos todo brasileiro já pode exercer suas responsabilidades eleitorais.

15. Segurança integral para os territórios indígenas, com punição exemplar para invasores de terra e garimpeiros ilegais.

16. Redimensionamento do sistema partidário brasileiro, efetivando a participação de apenas oito partidos, um Senado Federal com dois representantes por estado da Federação, reduzido de 1/3 o número total de parlamentares da Câmara Fedeal, das estaduais e das câmaras municipais, não sendo mais permitida reeleição para os cargos executivos;

17. Mandatos dos ministros dos Supremos Tribunais Federais de oito anos, improrrogável.

18. Reformatação curricular dos Cursos de Humanidades das instituições de ensino superior, favorecendo uma enxergância cidadã sem racismos, nem preconceitos, sectarismos e outras positividades tóxicas.

19. Ampliar a consciência coletiva por uma respeitabilidade ambiental consistente, favorecendo os amanhãs climáticos regionais.

20. Salários iguais para todos os gêneros sexuais para uma mesma atividade profissional.

E uma ampla torcida para a chegada breve de um Brasil cada vez mais arretado de ótimo.


Fernando Antônio Gonçalves - Sem Oxentes nem Mais ou Menos Tuesday, 06 de September de 2022

INSULTOS E MEDIOCRIDADES (ARTIG DE FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

INSULTOS E MEDIOCRIDADES

Fernando Antônio Gonçalves

 

Aproveitando a oportunidade que me dá o escritor Luiz Berto Filho, autor palmarense do notável O Romance da Besta Fubana, por mim lido e rabiscado mais de duas vezes, já às vésperas de uma nova edição pela Editora Bagaço, Recife, para comentar, abaixo, alguns pontos que dariam um ibope descretinoso nos ambientes políticos brasileiros, principalmente nos brasilienses, às vésperas de uma renovação, creia Deus quase integral, nas próximas eleições, com urnas eletrônicas desacreditadas por incultos nada civilizados, embora integralmente isentas de defeitos e incorreções tecnológicas, segundo o eminente Procurador Geral da República Augusto Aras, um nítido conservador culto.

2. Deveras preocupante o atual nível mediocrizante da comunicação nacional em praticamente todas as áreas, salvo algumas honrosas exceções, escritas, faladas e televisionadas. Parece até que o expressivo avanço da tecnologia utilizada no Brasil “escondeu” a criatividade de muitos, acovardando-os mentalmente, deixando-os sem eira nem beira imaginativa, como se não estivéssemos num século, o XXI, que está a exigir um cada vez maior senso crítico dos seus atores e autores. De uma necessária transitividade crítica, a la Paulo Freire, observa-se uma crescente transitividade regressiva, quase debilóide porque recheada de um já-fui-bom-nisso sensaborão, para não dizer ridicularmente desapropriado para o momento histórico.

3. Alguns milagres saltam aos olhos, resguardando-se a identidade dos santos, como manda um dos mandamentos da boa educação. Qualquer pessoa de senso de equilíbrio mínimo percebe, por exemplo, como estão desrespeitando os velhos logo numa época em que a CNBB os reverencia em campanhas várias. Ora é um debilóide que prefere um copo de cerveja, mesmo que deixando a avó no ora-veja, depois de uma caminhada de muita dificuldade. Ora é uma moçoila de telenovela, metida a furico de satanás, que praticamente amaldiçoa os avós que sob um mesmo teto seu habitam, vez por outra sendo roubados, sem a menor cerimônia, pela inscrita no putal da vida terrestre.

4. Como é ridícula a demagógica proposta de cotas para não-brancos nas universidades, diferentemente da sadia instituição de percentagem de ingresso nas universidades dos oriundos das escolas públicas! Razão plena tem a jornalista pernambucana Marilene Felinto, agora colaboradora de revista sulista, quando declarou recentemente: “eu mesma teria arrastado para sempre um complexo de inferioridade atroz se tivesse entrado na USP, a melhor universidade pública da América do Sul, pelo critério de cor da minha pele de mulata”. A demagogia populista, além de não entender bulhufas de abolicionismo social, desastradamente amplia a discriminação contra os não-brancos, nossos irmãos, também filhos amados da Criação.

5. Considero merda em fatia a capacidade de alguém de se desconstruir publicamente para melhor se locupletar das benesses do poder atual, jogando na rua da amargura seus passados, suas caminhadas, suas angústias e suas reflexões. Tudo atulhado num gavetão recheado de ontens não mais lembrados, em nome de um comportamento puxasaquístico, típico dos desescrupulosos. Reconheço que a reforma mais necessária para uma efetiva governabilidade brasileira seria uma ampla reforma política, sem a qual resvalaremos para cenários pouco consistentes, abismais por derradeiro.

6. Outro dia meu nível de indignação se ampliou, quando vi a propaganda de uma determinada marca de automóvel, onde duas crianças solicitavam aos pais uma paradinha fora da entrada da escola porque tinham um carro menos tampa-de-foguete, como se a esmagadora maioria das crianças brasileiras não ficassem rindo à toa ao verem os seus pais possuírem um carrinho, fosse ele de que ano fosse.

7. Receio que determinadas “explicitações comunicacionais” estejam favorecendo construções de cenários pouco democráticos, discriminatórios, como se uma tecnologia ultrasofisticada não tivesse como contraponto o fato humilhante para todos nós: apenas África do Sul e Malaui possuem um grau de desigualdade de renda maior do que o do Brasil.

8. Nos ainda umbrais de um novo século, num contexto impregnado de muito ceticismo, onde se diluem o mito do Estado todo poderoso e o mito do mercado como catapulta do progresso infindo, ampliam-se os anseios por uma ativa e altiva ação comunitária, nunca subordinada às tiranias plutocráticas. E putinocráticas também.

9. A hora brasileira é a da sociedade civil. Sem medo e sem ódio, como dizia Marcos Freire, um talento pernambucano que fez história num partido que, à época, não bajulava o poder, muito pelo contrário.

10. Sejamos sempre arretadamente brasileiros, jamais penicos planetários, descuecados e incultos, ansiosos por um “oi” de poderosos bem mais cagões.

PS. Ser lulista, bolsonarista, cirista ou simonetebista é uma opção de cada eleitor, direito inalienável de escolha nas eleições. Sempre com racionalidade, nunca submetido a diretrizes eivadas de ódio e fanatismo.


Fernando Antônio Gonçalves - Sem Oxentes nem Mais ou Menos Tuesday, 30 de August de 2022

LEITURAS OPORTUNAS - 31.07.22 (CRÔNICA DE FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

 

LEITURAS OPORTUNAS

Fernando Antônio Gonçalves

 

Durante as minhas últimas miniférias juninas, devidamente auxiliadas pela Sissa, sempre presente e fiscalizante, resolvi consultar, por e-mail, alguns companheiros de viagem terrestre, total de 26, das Ciências Humanas, residentes em onze estados brasileiros sobre leituras que muito os impactaram. De notoriedades diferenciadas, carreiras profissionais envolvendo ensino, pesquisa, escriturâncias, debates e militâncias, suas indicações me conduziram a momentos de muita certeza no tocante ao futuro da humanidade. Apesar dos inúmeros angustiantes instantes contemporâneos, quando os acinzentamentos provocados pelas ambições de um neoliberalismo que se está agigantando para um ambicionado todo um sempre nada promissor, recebi respostas esclarecedoras.

As leituras abaixo eleitas, dentre as citadas mais de cinco vezes, bem demonstram o atual momento leitoral brasileiro, a refletir anseios de uma sociedade que se vê necessitada de uma compreensão mais consistente do seu todo e das suas partes, incluindo os versos e os reversos das situações econômicas, sociais, religiosas, militares e políticas de um mundo em renascença. Enumero-as, abaixo, em nenhum momento levando na devida consideração a ordemde magnitude das leituras mencionadas.

1. Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freyre, editora Global, com uma apresentação de Roberto Da Matta, atualmente Professor Emérito da Universidade de Notre Dame, EEUU. Livro muito beneficiado, segundo o próprio DaMatta, pelas notáveis coordenações de Edson Néry da Fonseca, Guillermo Giucci e Enrique Rodriguez Larreta, quando da elaboração crítica de Casa Grande & Senzala. Diz DaMatta: “O que tenta Gilberto demonstrar, correndo o risco de ser chamado reacionário e um ideólogo de um escravismo doce, é que o sistema funcionava hierarquicamente. As diferenças não corriam em paralelo, mas faziam parte de uma geometria social de inclusão, uma figura na qual os senhores englobavam, mas eram também englobados por seus escravos, com os quais mantinham laços de interdependência”.

2. O Atiçador de Wittgenstein, de David Edmonds e John Eidinow, Difel – narrativa jornalisticamente inteligente, com sinais de muita pesquisa investigatória, contando o entrevero acontecido entre Ludwig Wittgenstein e Karl Popper, em outubro de 1946, quando de uma das reuniões da Associação de Ciências Morais de Cambridge, que contava, na ocasião, com a presença de Bertrand Russell, para quem “suas avalanchas (de Wittgenstein) fazem as minhas parecerem meras bolas de neve”.

3. O terceiro texto – Nas Sendas do Judaísmo, Walter Rehfeld, Perspectiva – me deixou mais próximo de Saulo Gorenstein, Arão Parnes, Estellinha Parnes, Germano Haiut e tanto outros amigos hebreus. O texto do Rehfel, destinado a pequenos cursos, ensaios, palestras e artigos publicados na Resenha Judaica, é fonte erudita – sem pedantismos academicistas – para se ampliar o conhecimento sobre o Judaísmo, suas origens, sua filosofia, suas maneiras de ser e de ter, naturalmente. Um excelente requisito para se ler com mais clarividência o estudo de Jacques Attali recentemente lançado pela Futura sob título Os judeus, o dinheiro e o mundo, com prefácio de Henry Sobel.

4. O quarto texto é oportuno, numa hora de novas ebulições ministeriais. Lançado pela Autêntica, e intitulado A economia política da mudança – os desafios e os equívocos do início do governo Lula -, contém análises que certamente contribuirão para a implementação de debates eleitorais de alto nível, onde o futuro brasileiro seguramente sobrepairará sobre os disse-me-disses das campanhas políticas. O mote dado pelo João Antônio de Paula, organizador: “Queremos fazer uma crítica solidária, de esquerda, mas não há como fugir dos problemas, não dá para abrir mão da crítica”. O exemplo do Titanic não pode ser esquecido pelos “com-certezas” da cúpula governista, que se imaginam caminho único para espraiar vida mais decente para todos os segmentos sociais.

5. Muito apreciaria ver os amigos fubânicos lendo um livro que me deixou bem mais alegre e esperançoso, apesar das imensas perspectivas negativistas que ainda pairam sobre nosso continente: Diderot e a Arte de pensar livremente, Andrew S. Curran, São Paulo, Editora Todavia, 2022, 388 p. Um estudo exemplar sobre um ser humano encantador. Uma personalidade cada vez mais independente, trezentos anos depois da sua desencarnação. Uma leitura binoculizadora para os pensantes de todos os níveis de espiritualidade, jogando na lata do lixo existencial os negativismos incultos e sectários metidos a merdantários (mandatários de merda).

Vale a pena dar uma mergulhada nelas, rabiscativamente.


Fernando Antônio Gonçalves - Sem Oxentes nem Mais ou Menos Sunday, 21 de August de 2022

LEITURAS OPORTUNAS - 07.08.22 (CRÔNICA DE FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

LEITURAS OPORTUNAS

Fernando Antônio Gonçalves

 

Durante as minhas últimas miniférias juninas, devidamente assessoradas pela Sissa, sempre presente e fiscalizante, resolvi consultar, por e-mail, alguns companheiros de viagem terrestre, total de 32, das Ciências Humanas, residentes em doze estados brasileiros, sobre leituras que muito os impactaram. De notoriedades diferenciadas, carreiras profissionais envolvendo ensino, pesquisa, escriturâncias, debates e militâncias, suas indicações me conduziram a momentos de muita certeza no tocante ao futuro da humanidade. Apesar dos inúmeros angustiantes instantes contemporâneos, quando os acinzentamentos provocados pelas ambições de um neoliberalismo que se está agigantando para um ambicionado todo um sempre nada promissor, recebi respostas entusiasmentes.

As leituras abaixo eleitas, dentre as citadas mais de cinco vezes, bem demonstram o atual momento leitoral brasileiro, a refletir anseios de uma sociedade que se vê necessitada de uma compreensão mais consistente do seu todo e das suas partes, incluindo os versos e os reversos das situações econômicas, sociais, religiosas, militares e políticas de um mundo em renascença. Enumero-as, abaixo, em nenhum momento levando na devida consideração a ordem de magnitude das leituras citadas.

1. Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freyre, editora Global, com uma apresentação de Roberto Da Matta, atualmente Professor Emérito da Universidade de Notre Dame, EEUU. Livro muito beneficiado, segundo o próprio DaMatta, pelas notáveis coordenações de Edson Néry da Fonseca, Guillermo Giucci e Enrique Rodriguez Larreta, quando da elaboração crítica de Casa Grande & Senzala. Diz DaMatta: “O que tenta Gilberto demonstrar, correndo o risco de ser chamado reacionário e um ideólogo de um escravismo doce, é que o sistema funcionava hierarquicamente. As diferenças não corriam em paralelo, mas faziam parte de uma geometria social de inclusão, uma figura na qual os senhores englobavam, mas eram também englobados por seus escravos, com os quais mantinham laços de interdependência”.

2. O Atiçador de Wittgenstein, de David Edmonds e John Eidinow, Difel – narrativa jornalisticamente inteligente, com sinais de muita pesquisa investigatória, contando o entrevero acontecido entre Ludwig Wittgenstein e Karl Popper, em outubro de 1946, quando de uma das reuniões da Associação de Ciências Morais de Cambridge, que contava, na ocasião, com a presença de Bertrand Russell, para quem “suas avalanchas (de Wittgenstein) fazem as minhas parecerem meras bolas de neve”.

3. O terceiro texto – Nas Sendas do Judaísmo, Walter Rehfeld, Perspectiva – me deixou mais próximo de Saulo Gorenstein, Arão Parnes, Estellinha Parnes, Germano Haiut e tanto outros queridos irmãos hebreus. O texto do Rehfel, destinado a pequenos cursos, ensaios, palestras e artigos publicados na Resenha Judaica, é fonte erudita – sem pedantismos academicistas – para se ampliar o conhecimento sobre o Judaísmo, suas origens, sua filosofia, suas maneiras de ser e de ter, naturalmente. Um excelente requisito para se ler com mais clarividência o estudo de Jacques Attali não muito recentemente lançado pela Futura sob título Os judeus, o dinheiro e o mundo, com prefácio de Henry Sobel.

4. O quarto texto é oportuno, numa hora de novas ebulições ministeriais. Lançado pela Autêntica, e intitulado A economia política da mudança – os desafios e os equívocos do início do governo Lula -, contém análises que certamente contribuirão para a implementação de debates eleitorais de alto nível, onde o futuro brasileiro seguramente sobrepairará sobre os disse-me-disses e mimimis das campanhas políticas. O mote dado pelo João Antônio de Paula, organizador: “Queremos fazer uma crítica solidária, de esquerda, mas não há como fugir dos problemas, não dá para abrir mão da crítica”. O exemplo do Titanic não pode ser esquecido pelos “com-certezas” da cúpula governista, que se imaginam caminho único para espraiar vida mais decente para todos os segmentos sociais.

5. Muito apreciaria ver os amigos fubânicos lendo um dos livros citados, páginas que me deixaram bem mais alegre e esperançoso, apesar das imensas perspectivas negativistas que ainda pairam sobre nosso continente: Diderot e a Arte de pensar livremente, Andrew S. Curran, São Paulo, Editora Todavia, 2022, 388 p. Um estudo exemplar sobre um ser humano encantador. Uma personalidade cada vez mais independente, trezentos anos depois da sua desencarnação. Uma leitura binoculizadora para os pensantes de todos os níveis de espiritualidade, jogando na lata do lixo existencial os negativismos nunca incultos e sectários nunca metidos a merdantários (mandatários de merda).

Vale a pena dar uma mergulhada em todos os livros mais citados, sempre rabiscativamente.


Fernando Antônio Gonçalves - Sem Oxentes nem Mais ou Menos Monday, 15 de August de 2022

TEXTO MUITO ARRETADO DE ÓTIMO (CRÔNICA DE FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES, COLUNISTA DO ALMANAQUE RAIMUNDO FLORIANO)

TEXTO MUITO ARRETADO DE ÓTIMO

Fernando Antônio Gonçalves

 

Embora não conhecendo o Quirino pessoalmente, com ele fiquei mais íntimo a partir das orelhas do livro escritas pelo Luiz Berto, um sempre gota serena de arretado, autor de O Romance da Besta Fubana, um dos melhores livros por mim já lidos e relidos, imaginário regional a mais de mil, recheado de muita filosofia existencial, sem qualquer salamaleque. Nordestino que nunca leu O Romance da Besta Fubana não sabe o que está perdendo de nordestinidade legitimadora.

O livro do Jessier Quirino começa apregoando que “neste mundo tem gente pra tudo e ainda sobra um pra tocar gaita”. Manda pauladas boas num compadre dele, Mané Cabelim, raparigueiro que só, que gastou um bocado de reais na fundação de um “conjunto dançarineiro” para assentar em cima de um trio elétrico, inaugurando uma putanhagem fora de época nos quintais municipais. Para ver se alimentava a vontade do eleitorado em sufragar seu nome neste ano, época de promessas mil, todo mundo de anjo, jurando mundos e fundos, incluídos os assentados nas calças próprias, nas moçoilas moeda de troca nas horas mais desesperançosas.

Gosto que me arrepio todo de gente inteligente, que ensina os outros a levar a vida sem muita consideração diplomática, batendo palmas de gozo diante da funerária Vai que é tua Paraíso, concorrente daquel’outra, sediada em Campina Grande, registrada em cartório como A Caminho do Céu, tanto uma como outra esmero nota dez para os beneficiados com um despachamento chorosamente correto.

Aprecio como ninguém um poeta como Jessier Quirino, que denomina, com muita propriedade, lua cheia de lua de tapioca, homenageando as quentínhas dobras goma-coco-ralado-sal-de-pouco. E ainda muito me deleito com algumas fichas de pensão, uma delas da Pensão da Véa Duda, patrocinada pelo Sabão Rendoso. Num dos cantos da ficha, o quesito Motivo da Viagem tem quatro alternativas: Negócio, Romaria, Retirante e Raparigagem.

O Jessier Quirino, com seus versos “evangelizadores” quer mostrar pro mundo inteiro que nos interiores nordestinos tem gente de muita grandeza intelectiva, que embora nada saiba de abêcê, sabe latir pra poupar cachorro, e que diante das indagações dos visitantes, sempre declara de pronto: Cumpadre, eu me acho velho / Caco de bunda tremendo / Não tou liso nem roubando / Mas tou platando e colhendo / Às vezes rindo ou chorando / Viúvo, não tou amando / Tou lucrando, não devendo. E para mostrar sua diferença biológica com os da cidade, conclui sua cantoria proclamando: Esperto, não estou bestando / Nem jogando, nem bebendo / Nem perdendo nem ganhando / Tou calmo não tou inchando / Tou vivendo e aprendendo.

O livro do Quirino é para quem não perde as estribeiras, que pensa mais que copia, que nunca pia, guardando o troco para depois. Gente abençoada por Deus, apesar das embromações religiosas catadoras de trocados. Gente que já percebe como o blá-blá-blá é coisa fingida, enquando o propinoduto continua a pleno vapor, sem prisão alguma. Sempre a prejudicar o forever da gente.


Busca


Leitores on-line

Carregando

Arquivos


Colunistas e assuntos


Parceiros