Almanaque Raimundo Floriano
Fundado em 24.09.2016
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, dois genros e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

Música Nordestina quinta, 27 de outubro de 2016

TRIO MOSSORÓ

TRIO MOSSORÓ

Raimundo Floriano

 

João Batista, Hermelinda e Oséas Lopes

 

                        O Trio Mossoró habita minhas prateleiras desde 1980, quando adquiri o LP O Melhor do Trio Mossoró:

 

 

                        Mas é, praticamente, um ilustre desconhecido no Brasil, quiçá em sua própria terra. Há poucos dias, Beto Potiguar, o técnico de cuida dos computadores daqui de casa, natural de Caraúbas (RN), ficou surpreso ao ver um CD do Trio, que e eu montara para meu acervo, e disse que jamais ouvira falar dele, acrescentando que vai muito a Mossoró, pois tem um irmão lá residente. O fato é marcante, pois o Beto é zabumbeiro de um conjunto brasiliense de Forró.

 

                        No dia 6 de maio de 2014, foi lançado, em Mossoró, o livro Minha História, de Oséas Lopes, contando detalhes da trajetória do Trio. Tentei adquiri-lo, mas em vão:

 

 

                        Minha intenção é mostrar aqui um pouco do trabalho desse Conjunto, dizer algo sobre seus três componentes. Como as contracapas de seus elepês nada informam, e não querendo me valer de dados não muito confiáveis, vou ater-me ao pouquinho que consta do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

 

                        O Trio Mossoró é composto pelos irmãos Carlos André Batista, o Oséas Lopes, João Batista, o João Mossoró, e Hermelinda Batista, a Ana Paula.

 

                        Foi fundado no princípio dos anos 1950, pelo sanfoneiro Carlos André Batista, que já havia atuado na Rádio Tapuyo de Mossoró. Pouco depois, Carlos André mudou-se para o Rio de Janeiro, para onde chamou os irmãos visando a dar continuidade ao trabalho do Trio.

 

                        No Rio de Janeiro, o líder e fundador já atuava nas rádios Mayrink Veiga e Nacional, mantendo contato e intercâmbio com o compositor maranhense João do Vale.

 

                        Em 1954, recebeu em cerimônia, no Teatro Municipal no Rio de Janeiro, o troféu Elderbe, o mais importante prêmio musical naquele momento. 

 

                        Em 1962, gravou o primeiro disco, o LP Rua do Namoro. Depois disso, lançou, ao longo da carreira, cerca de 10 elepês, destacando-se, entre os quais, Trinta Dias de Forró e Forró do Mexe Mexe

 

                        Participou, ainda, de inúmeras coletâneas de música forrozeira.

 

                        Em 1972, o Trio se separou, com seus integrantes partindo para autuações individuais.

 

                        Possuo em meu acervo 25 títulos de seu repertório, alguns deles garimpados no baú do amigo Paulo Carvalho, Cardeal da Igreja Sertaneja e Membro da Academia Passa Disco da Música Nordestina.

 

                        Baseado nesse cabedal, aventuro-me em dizer que o Trio Mossoró, foi, enquanto durou, o grande intérprete da dupla Antônio Barros e Cecéu. Deles são 15 peças dos 25 títulos acima citados.

 

                        Como pequena amostra, escolhi cinco ritmos nordestinos diferentes, para que vocês possam curtir um pouco as preciosidades que esses maravilhosos artistas nos legaram:

 

                        Eta Coração, rojão, de Antônio Barros;

 

                        Era Fogo, xote, de Cecéu; 

 

                        São João Chegou, arrasta-pé, de Cecéu; 

 

                        Carcará, baião, de João do Vale e José Cândido, ressaltando a voz de Ermelinda/Ana Paula; e 

 

                        Praça dos Seresteiros, toada, de Antônio Barros e Oséas Lopes.

 


Música Nordestina quinta, 27 de outubro de 2016

MANEZINHO ARAÚJO, O REI DA EMBOLADA

MANEZINHO ARAÚJO, O REI DA EMBOLADA

Raimundo Floriano

 

Manezinho Araújo, em charge de Nássara

 

                        Manuel Pereira de Araújo o Manezinho Araújo, nasceu em Cabo de Santo Agostinho (PE), a 7.09.1910, e faleceu e São Paulo (SP), a 23.05.1993. Cantor, compositor e artista plástico, era filho de José Brasilino de Araújo e Joventina Pereira de Araújo.

 

                        Funcionário da antiga Estrada de Ferro Great Western, desde a adolescência interessou-se por música, frequentando as rodas boêmias do bairro de Casa Amarela, no Recife, onde estudava. Numa delas, ficou conhecendo o cantor de emboladas Minona Carneiro, que o ensinou a cantá-las.

 

                        Com a Revolução de 1930, ingressou como soldado nas forças revolucionárias, mas, quando seu pelotão chegou à Bahia, o governo se havia rendido, e a tropa viajou para o Rio de Janeiro. Nessa época, Manezinho já cantava emboladas e chegou a se apresentar em cabarés do Rio.

 

Manezinho, em ótima caricatura

 

                        Retornando de navio para Pernambuco, na Bahia embarcaram os artistas Carmen Miranda, Josué de Barros, Bentinho e Almirante, que vinham de uma temporada em Salvador e iam apresentar-se no Recife. Em uma roda musical a bordo, Manezinho, ainda na farda, como Sargento, agradou muito com suas emboladas. Carmen Miranda, então, aconselhou-o a ir para o Rio de Janeiro, e o violonista Josué de Barros prometeu lançá-lo no rádio.

 

                        Ao chegar em Pernambuco, já desligado da caserna, ficou por ali um tempo, mas, no início de 1933, se mudou para a capital carioca, hospedando-se com Josué, no Bairro de Santa Teresa, onde ficou ensaiando. Em abril do mesmo ano, Josué levou-o à Rádio Mayrink Veiga, onde Manezinho se apresentou, sendo escalado para voltar na semana seguinte. Na segunda apresentação, Ademar Casé, que comandava o Programa Casé, na Rádio Philips, ofereceu-lhe um contrato com exclusividade. Manezinho aceitou, participando duas vezes por semana no programa.

 

                        Ainda em 1933, foi levado por Josué à Odeon, gravando duas emboladas de sua autoria e assinando contrato com a gravadora. E, daí pra frente, sua carreira deslanchou.

 

Flagrantes de Manezinho Araújo

 

                        Três anos depois, fez sua estreia no cinema, cantando duas emboladas no filme Maria Bonita. Atuou ainda em diversos outros filmes e participou de 22 cinejornais da Atlântida, em que aparecia na parte final cantando um verso de embolada ou contanto uma história.

 

                        De 1937 a 1940, gravou na Odeon algumas emboladas de sucesso, como Segura o Gato, Pra Onde Vai, Valente?, Quando eu Vejo a Margarida, Sá Turbina e Sordado Aburricido, todas de sua autoria.

 

                        Em 1941, deixou a Odeon, depois de gravar, além das emboladas, cocos, frevos, sambas, etc. Em 1945, obteve grande sucesso com a gravação de Dezessete e Setecentos, de Luiz Gonzaga e Miguel Lima.

 

                         Manezinho foi um dos pioneiros na gravação de jingles no Brasil, tendo participado da campanha dos produtos Lifebuoy, e também o primeiro artista a ser contratado por uma fábrica, a do Óleo de Peroba, cantando duas vezes por semana, um na Rádio Nacional, e outra na Mayrink Veiga.

 

                        Durante sua carreira, apresentou-se em todas as regiões do País, cantou em diversas casas de espetáculos gravou dezenas de discos em diferentes gravadoras, quase sempre com enorme aceitação. A seguir, capas alguns discos que gravou, incluindo um CD, lançado pela Editora Revivendo, e elepês facilmente encontráveis em sebos virtuais: 

 

                        Em 1954, desgostoso com o meio artístico, que criava fãs-clubes para autopromoção, decidiu interromper sua carreira e realizou um espetáculo de despedida no Tijuca Tênis Clube, ao qual compareceram cerca de 15 mil pessoas. Com a renda obtida nesse show, inaugurou em Copacabana um restaurante típico, o Cabeça Chata, onde passou a cantar e contar causos.

 

                        No início da década de 1960, começou também a pintar.

 

                        Em 1962, fechou o restaurante e transferiu-se para São Paulo, abrindo outro Cabeça Chata.

 

                        Meses depois, deixou o negócio, dedicando-se exclusivamente à pintura, atividade em que também obteve enorme êxito.

 

    

Dois quadros de Manezinho Araújo

 

                        Como amostra de seu trabalho, escolhi duas emboladas ambas de sua autoria:

 

                        O Carrité do Coroné, toada: 

 

                        Muié Muderna, embolada:

  

                        Festa no Arraiá, embolada:

  

                        Pra onde Vai, Valente?, embolada: 

 

                        Cuma É o Nome Dele?, embolada:

 

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Música Nordestina quarta, 26 de outubro de 2016

REENCONTRO MUSICAL POTIGUAR

REENCONTRO MUSICAL POTIGUAR

Raimundo Floriano

 

 

                        Eu já falei aqui em raridade, a 25.05, com o Trio Mossoró, a 22.06, com Mister Six, o Hexadátilo do Cavaquinho, e, a 29.06, com a cantora Linda Rodrigues. Agora, volto com algo mais RARO ainda, que é este Encontro de Intérpretes Potiguares.

 

                        Há um mês, eu nem sabia de sua existência. Fui instigado pelo Maestro Antonio Gomes Sales, de Caraúbas (RN), a quem muito aqui já me referi, por seu trabalho na elaboração de partituras carnavalescas, colaborando em meu projeto de resgate da memória da MPB, particularmente no que tange ao Carnaval. Só nesta nova faze, são mais e 50º peças que, após formatadas, colocarei à disposição dos músicos do mundo inteiro.

 

                        Ele me pedia o áudio destas 13 joias de nosso cancioneiro pátrio e internacional: Devolvi, com Núbia Lafayette, Não Me Perguntes, com Ângela Maria, Cabecinha no Ombro, com Ângela Maria e Agnaldo Timóteo, Orgulho, com Ângela Maria, Alguém Me Disse, com Anísio Silva, Al Di Lá, com Connie Francis, Siboney, com Connie Francis, Diana, com Carlos Gonzaga, Quase, com Carmen Costa, Não Chores Por Mim, Argentina, com Cláudia, Iolanda, com Simone, Iracema, com os Demônios da Garoa e Praieira, com Paulo Tito.

 

                        As 12 primeiras foram moleza. Dormiam em minas prateleiras. Mas essa Praieira, meus amigos, foi pedreira pura, parada pra desmantelo. Eu nunca ouvira falar nela nem no nome do cantor. Mas resolvi enfrentar todos os obstáculos, todas as dificuldades, para não deixar de atender o amigo que, com imensa boa vontade vem cooperando na concretização de meus ideais.

 

                        Como primeiro passo, recorri ao Google, que me informou ser Praieira, também conhecida como Serenata do Pescador, uma canção com letra de Otoniel Menezes e música de Eduardo Menezes, composta em 1922 e, pelo Decreto-lei nº 12, de 22 de novembro de 1971, do governo municipal de Natal, declarada o Hino Oficial da Cidade, assim considerada por todos os norte-rio-grandenses.

 

                        Sobre o Cantor Paulo Tito, consegui as informações a seguir. Batizado Paulo Peres Tito, cantor, músico, compositor e produtor, nasceu em Natal, a 8 de abril de 1929. Herdou o gosto musical do pai e estreou como cantor aos 13 anos de idade, na Rádio Educadora de Natal.

 

                        Participou de diversos programas de calouros em sua cidade. Em 1951, assinou contrato com a Rádio Jornal do Commercio do Recife, atuando, também, como cantor, na Orquestra Tabajara.

 

                        Em 1954, foi para o Rio de Janeiro, a convite de Luiz Gonzaga, para cantar na Rádio Mayrink Veiga. Em 1955, estreou em disco na Copacabana com o samba-canção Missão de Amor, de Renê Bittencourt, e a rancheira No Meu Sertão, de Luperce Miranda e Gildo Moreno. Em 1956, gravou os sambas-canções Nossa Senhora de Copacabana, de Heitor dos Prazeres e Kaumer Teixeira e Linhas Paralelas, de Valdemar Gomes e Jair Amorim. Em 1959, gravou, na Polydor, os sambas Sai do Bar, de sua autoria e Ricardo Galeno e Compromisso Com a Saudade, de Billy Blanco.

 

                        Em 1961, gravou, na Continental, os baiões O Vendedor de Biscoito, de Gordurinha e Nelinho, e A Vassoura da Comadre, de Gordurinha. Do mesmo Gordurinha, gravou o rojão Pedido Legal, e, de Miguel Lima e Liesse Miranda, o xote Confusão em Família.

 

                        Em 1975, integrou uma caravana de artistas potiguares e retornou ao Rio Grande do Norte, fazendo apresentações em diversas cidades do interior. Em 1977, gravou o LP Balanço, pela Tapecar, interpretando músicas de Vinícius de Moraes, Noel Rosa e Chico Buarque.

 

                        Como compositor, fez parcerias, entre outros, com Roberto Faissal, Romeu Nunes e Zé Gonzaga. Teve composições gravadas por Altemar Dutra, Carequinha, Cauby Peixoto, Os Cariocas, Elis Regina, Zé Gonzaga e alguns mais.

 

                        A partir de 1978, voltou a residir em Natal, passando a lecionar violão no Instituto de Música Waldemar de Almeida, além de se apresentar em casas noturnas.

 

 

                        Outras composições suas: Amor de Nordestino, parceria com Chico Anysio; Canção Pra Mamãe, com Renê Bittencourt; Candidata a Triste, com Ricardo Galeno; Cantiga de Um Homem Triste, com Roberto Faissal; Domingo em Copacabana, Roberto Faissal; Gamação, com Zé Gonzaga; O bom... bardino, com Álvaro Menezes; O Importante É Ter Você, com Belo Xis; Quero Você, com Ricardo Galeno; Questão Moral, com Roberto Faissal; Samba Feito Pra Mim Só, com Renê Bittencourt; Vou Comprar Um Coração, com Romeu Nunes; Vou Me Aposentar do Meu Amor, com Ricardo Galeno, e Yê-yê-yê Baiano.

 

                        Sua discografia é extensa, com alguns títulos em discos 78 RPM disponíveis no mercado virtual.

 

                        Faltava, agora, localizar o áudio da Praieira. Valendo-me dos dados LP - PAULO TITO - PRAIEIRA, fui direcionado pelo Google para um site de vendas, o único, onde eram anunciados dois exemplares do LP Reencontro. Adquiri de menor preço, cujo valor era de R$35,00. Mais adiante, falarei dobre o mais caro.

 

                        Esta coletânea, com intérpretes potiguares, é uma promoção do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, na gestão de José Cortez Pereira de Araújo, Governador Biônico, com mandato entre 1971/1975, sendo, posteriormente, Prefeito de Serra do Mel, no período 2001/2004. Nascido em Currais Novos (RN), a 17.10.1924, e falecido a 21.2.2004, em Natal, Cortez Pereira deixou esse grande do documento fonográfico em prol da Cultura Musical Potiguar.

 

Governador Cortez Pereira e Dona Aída, sua mulher

 

                        Antes de apresentar o áudio de Praieira e de outras melodias potiguares, vou falar do outro exemplar – o único restante – do LP Reencontro, ainda disponível no site de venda. Enquanto o que eu adquiri me custou apenas 35 reais, conforme dito acima, este remanescente acha-se disponível pela bagatela de 490. Vejam o reclame: 

 

                        Aqui vai pequena amostra do trabalho desses intérpretes e compositores potiguares:

 

                        Praça Pio X, samba de Airton Ramalho, na voz de José Alves;

 

                        Prece ao Vento, toada de Gilvan Chaves, Fernando Cascudo e Alcyr Pires Vermelho, na voz de Ademilde Fonseca;

 

            ‘           Ranchinho de Paia, toada de Francisco Elion, com o Trio Irakitan;

 

                        Royal Cinema, valsa de Tonheca Dantas, com Orquestra e Coro sob a regência de Paulo Tito; e, finalmente, a raridade solicitada pelo Maestro Antonio Gomes:

 

                        Praieira, toada de Otoniel Menezes e Eduardo Medeiros, na voz de Paulo Tito.  

 

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Música Nordestina quinta, 13 de outubro de 2016

MINHA POSSE NA ACADEMIA PASSA DISCO DA MÚSICA NORDESTINA

MINHA POSSE NA ACADEMIA PASSA DISCO DA MÚSICA NORDESTINA

Raimundo Floriano

 

Academia Passa Disco

 

                        Fábio Cabral, Fundador da Academia Passa Disco da Música Nordestina, sediada no
Recife, PE, enviou-me mensagem perguntando quando eu iria tomar posse na referida. Estranhei, pois nem convidado fora. Mas, logo em seguida, Paulo Carvalho, Presidente do Órgão, confirmou-me a boa nova, informando-me de que eu seria titular da Cadeira n° 10 e que deveria escolher um Patrono.

 

                        Não fui com essa de dizer não mereço, não estou à altura, etc. e coisa e tal. Não! Com mais de 50 anos nesta minha cachaça de colecionador e pesquisador da nossa MPB, em especial do Dobrado, do Carnaval e do Forró, divulgando e compartilhando os achados de minha garimpagem, principalmente no Jornal da Besta Fubana, onde ocupava um cantinho, A COLUNA DE RAIMUNDO FLORIANO, já estava mais do que na hora de que isso fosse reconhecido por alguém.

 

                        E quão grande foi a minha alegria ao constatar que esse primeiro alguém era uma instituição pernambucana, recifense, cujos dirigentes eu conhecia apenas virtualmente, pelo Orkut!

 

                        Dito isso, passo a falar sobre a escolha de minha Patrona, a cantora Elba Ramalho.

 

                        No final dos Anos 70, a Música Nordestina ressentia-se da carência de representantes femininas que a divulgassem, e também a revigorassem, num universo quase totalmente dominado pelo sexo masculino. Importantes Musas do nosso Forró, como Marinês e Anastácia, estavam praticamente aposentadas. Havia, sim, cantoras no Nordeste já consagradas nacionalmente, mas que nada fizeram por nossa Música Regional, como Alcione, Maria Bethânia e Gal Costa.

 

                        Tomei conhecimento da existência de Elba Ramalho em 1979, ao ouvi-la no LP Asas da América, num projeto de revitalização do Frevo, no qual interpretava duas faixas: Olha o Trem e A Mulher do Dia, ambas de Carlos Fernando. Gamei na hora! Despontava uma forrozeira nova que, embora no Frevo, já demonstrava a que veio, com sua voz de pastorinha e modo de cantar inteiramente novo e seu. Mas eu queria mais. Queria ouvi-la também no Forró, matando a pau.

 

                        E isso não se fez esperar. Ainda em 1979, pelo final do ano, lançou seu primeiro LP, Ave de Prata, onde Canta, Coração, de Carlos Fernando e Geraldo Azevedo, e Bodocongó, de Humberto Teixeira e Cícero Nunes, que a entronizaram no sagrado templo do Forró, além de Não Sonho Mais, de Chico Buarque, onde esganiçava a voz, num jeito desbragado de cantar.

 

                        Instalara-se ela, assim, no meu gosto e na minha preferência. Desde então, passei a acompanhar o seu trabalho e a adquirir todos os seus registros fonográficos. Em 1982, após a morte de Jackson do Pandeiro, o Rei do Ritmo, Elba passou a ser minha principal referência na Música Nordestina, eis que Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, já se encontrava no seu ocaso artístico. De 1979 até agora, gravou uns 30 frevos e cerca de 80 forrós. Enquanto isso, as nordestinas acima citadas, somadas às novatas, porém já famosas, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Pitty, Margareth Menezes e outras passaram e passam ao largo de nossas raízes musicais.

 

                        Elba Ramalho é hoje o nosso grande ícone, e, com imensa alegria, vejo surgirem a cada dia novas cantoras espelhando-se no seu estilo, na sua voz, no seu carisma.

 

 

Elba e Elba, em outubro de 1983

 

                        Meu fascínio por Elba Ramalho solidificou-se e intensificou-se de tal forma que, em 1983, quando nasceu minha primeira filha, batizei-a com o nome de Elba. E, por pura sorte, quando a menina estava com 20 dias de nascida, a cantora, no auge da carreira, veio apresentar-se em Brasília. Com a ajuda dos meus amigos Luiz Berto e Maurício Mello, na época empresários no Distrito Federal do Forró Pisa na Fulô, consegui que a estrela tirasse uma foto com minha filha nos braços.

 

                        Feita a escolha da Patrona, e após a devida comunicação da Academia à cantora, a grande surpresa: nestes tempos de agenda forrozeira lotada, ela aceitou, marcando a solenidade para as 19h dia 27 de maio de 2009.

 

                        Assim, no dia 26 de maio, terça-feira, parti para o Recife, acompanhado de Veroni, minha mulher, e Mara, nossa caçula – Elba, a da foto, não pôde viajar, devido à sua recente posse em cargo público. Nesse mesmo dia, hospedamo-nos no Hotel Manibu Recife, em Boa Viagem, onde instalei meu Cardinalato.

 

                        Comunicada minha chegada ao Papa Berto I, meu amigo desde 1966, pôs ele à minha disposição o Papamóvel, choferado pelo eficientíssimo cinesíforo Vilaça que, à noite, nos conduziu ao Palácio Pontifício, localizado no bairro Apipucos.

 

                        No Palácio Pontifício, o Papa Berto I havia providenciado reunião com alguns clérigos da Igreja Católica Apostólica Sertaneja - ICAS, ou, simplesmente, Igreja Sertaneja, contando com as seguintes presenças, além do Papa e do meu pessoal: Papisa Aline, Papinha João Berto, Cardeal João Veiga, Padre Arnaldo Ferreira, Padre Fábio Cabral e Cila, sua mulher, Padre Ismael Gaião e o leigo Valter Azevedo, amigo orkutiano que, mais tarde, no meu Decreto Cardinalício nº 1, seria nomeado Seminarista.

 

                        O Papa lamentou que, dentre os sacerdotes convidados, três houvessem apresentado suas escusas pela ausência naquela ágape, por motivos diversos e justificadíssimos: o Cardeal Zelito Nunes, por estarem ele e Madre Lelê, sua mulher, grávidos de quase nove meses, com o ansiado Gabriel prestes nascer; o Cardeal Xico Bizerra, devido a seu assoberbamento na composição de mais uma cantiga para Elba; e o Cardeal Paulo Carvalho, em virtude de escala no hospital onde dá plantão. Felizmente, tive a honra de conhecê-los na solenidade da minha posse.

 

                        Em rega-bofe tocado a uísque, refrigerante e tira-gosto, trocamos idéias, aproveitamos para nos conhecermos e relembrarmos fatos acontecidos no passado. Nessa ocasião, o Cardeal João Veiga me presenteou com o livro Poetas do Repente, editado pela Fundação Joaquim Nabuco, acompanhado de CD e DVD, preciosos documentos para as minhas pesquisas e o meu deleite.

 

                        Lá pras tantas, o Sumo Pontífice convidou todos os presentes a comparecerem ao Escritório Papal, para a inauguração, na parede dessa dependência palaciana, de duas novas placas de logradouros públicos, com nomes de amigos seus. É um modo de o Papa demonstrar sua deferência a alguns privilegiados membros da seita. Salamaleques e rapapés papais!

 

 

                        Ali, em local de destaque, já se encontravam: Avenida Cyll Gallindo, Rua Vladimir Carvalho, Beco do Giba, Viela Orlando Tejo, Arruado Maurício Melo Jr. e Alameda General-Presidente Natanael. Duas novas placas encontravam-se veladas. Descerradas pelo Papa, surgiram os nomes: Esquina Raimundo Floriano e Travessa Arnaldo Ferreira.

 

 

                        Encerrando essa cerimônia, o Padre Ismael Gaião lavrou em livro especial a Ata do feito e procedeu à sua leitura, após o que foi ela assinada pelos homenageados.

 

                        Nada mais havendo a tratar naquela noite, eu e minha família retiramo-nos para o meu Cardinalato, a bordo do Papamóvel, quando o cinesíforo Vilaça mostrou sua eficiência, não só como chofer, mas como utilíssimo cicerone, mostrando-nos e explicando-nos belas vistas turísticas da capital mauricéia.

 

                        No dia seguinte, 27, quarta-feira, às 17h30, Vilaça nos conduziu no Papamóvel para a Academia Passa Disco da Música Nordestina, no Shopping Sítio da Trindade, Estrada do Encanamento, aonde chegamos às 19h e ficamos aguardando a vinda da estrela, que não se fez esperar.

 

                        Acompanhada do sanfoneiro Cezinha, seu namorado, Elba Ramalho deu início à comemoração, lançando e autografando seu CD Balaio de Amor, posando para fotos com todos os seus inúmeros fãs e esbanjando simpatia e simplicidade, o que nos fez admirá-la ainda mais.

 

                        Passou-se, então, à solenidade de minha posse. No palco montado ao ar livre, compondo a Mesa, Fábio Cabral, Paulo Carvalho e o Imortal Luiz Berto, que, como Mestre-de-Cerimônias, deu início aos trabalhos. Convocou a mim e à estrela para tomarmos lugar diante da Mesa e em frente à platéia. Depois da saudação feita por Luiz Berto aos novos imortais, Elba Ramalho, a Patrona, entregou-me o Disco-Símbolo da Academia e recebeu idêntico troféu das mãos de Fábio Cabral, com a explicação de que um terceiro Disco ficaria exposto em local próprio na Academia, para marcar a perenidade do ato.

                       

 

                        Em seguida, o Presidente Paulo Carvalho deu por encerrada a cerimônia, e Elba Ramalho iniciou seu belíssimo e inesquecível show, cantando, principalmente, as faixas do seu CD recém-lançado.

 

                        A Academia Passa Disco da Música Nordestina, na época, era incipiente, embrionária, mas, dentro de pouco tempo, sua abrangência alcançou todo o território nacional. Como em meu caso, convocando-me de Brasília. A imortalidade dos seus membros se contém no fato que, daqui a uns 150 anos, quando se der a primeira vacância em qualquer das Cadeiras, os nomes do seu Membro inicial e do Patrono permanecerão caracterizando-a, como ocorre na Academia Brasileira de Letras.

 

                        Voltemos à grande festa.

 

                        Espetáculo com E maiúsculo foi o que aconteceu ali. Elba não se restringiu apenas a brindar-nos com músicas do seu novo disco ou do seu acurado repertório. Chamou ao palco para interagirem com ela não só alguns dos seus compositores ali presentes, como outros artistas que acorreram àquela maravilhosa festa: Flávio Leandro, Rogério Rangel, Eliezer Setton, Xico Bezerra, Terezinha do Acordeom, Júnior Vieira, Anchieta Dali, Luizinho Calixto, Cristina Amaral, Kelly Rosa, Hélio Donato e Conjunto Forroviário, Nena Queiroga, Bia Marinho, Josildo Sá e Targino Gondim, tendo sempre Cezinha como sanfoneiro principal. E todo esse pessoal, inclusive a estrela, se apresentando ali de graça, dando canja, sem cobrar sequer um mísero centavo.

 

                        O público era imenso e vibrante. Além de inúmeros membros do clero da Igreja Sertaneja, notaram-se ali outros nomes do mundo artístico nordestino, entre músicos, compositores e intelectuais: Fábio Simões, Arimatéia Ayres, Lourdinha Oliveira, Tostão Queiroga, Anjo Caldas, Gabriel Sá, João Cláudio Moreno, Gonzaga Leal, Valter Azevedo, Arluce Carvalho, Jeová da Gaita, Nilson Araújo, Ismael Gaião, Paulo Wanderley, Antônio Marinho, Greg Marinho, Júnior do Bode e Marinna Duarte sua noiva.

 

                        Depois de mais de uma hora em cena, a estrela se retirou, mas a festa prosseguiu até quase à meia-noite, com muitos dos artistas acima citados revezando-se no palco ou mostrando-me seus trabalhos, presenteando-me com seus CDs, falando-me dos seus planos, consultando-me.

 

                        Como último ato dessa extraordinária aventura, vi-me cercado por tietes recifenses, que me instaram a decifrar meu famoso cartão de visita. A cada definição, uma explosão de gargalhadas!

 

 

                        Foi a minha grande noite de fama, gravada para sempre no meu coração!

 

                        Meus mais efusivos agradecimentos ao Papa Berto I, extensivos à Papisa e ao Papinha, pelas mordomias postas à minha disposição, além da hospitalidade a mim oferecida no Palácio Pontifício. E também por ter-me inserido na sua patota e no círculo cultural da Veneza Brasileira.

 

                        Meu reconhecimento a duas personalidades recifenses que, na solenidade de minha posse, se destacaram no serviço do meu Cardinalato e da minha Imortalidade: Madre Superiora Neide, auxiliando minha filha Mara com sua máquina fotográfica, e Seminarista Valter Azevedo, que sempre me manteve abastecido, às suas custas, de Coca Cola Diet e piedosos itens mastigatórios.

 

Valter Azevedo, no ato da posse, e Neide Santos em evento posterior

 

                       

                        Apagados os lampiões, novamente o cinesíforo Vilaça nos conduziu no Papamóvel de volta ao hotel.

 

                        Às 14h00 do dia seguinte, 27, quinta-feira, pegamos o avião de regresso para Brasília. A bordo, fiquei a matutar no que me acontecera da terça até à quinta, vendo as cenas vividas passarem velozmente na minha mente, como num filme. Será que foi um sonho? Um sonho que durou três dias, no dizer do frevo dos Irmãos Valença? Foi não!

 

 

O disco-símbolo da imortalidade

 

                        A seguir, imagens da grande festa:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                      

 

 

 

 

 

                               Encerrando esta reportagem, aí vai minha Patrona Elba Ramalho, cantando o xote Se Tu Quiser, do amigo Xico Bizerra, carro-chefe do CD Balaio de Amor, lançado na ocasião:


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