Devo publicar, algum dia, um livro só de crônicas relacionadas a aeroportos.
É um lugar muito rico em personagens e situações que não podem simplesmente ser esquecidos, sem uma reflexão ou pelo menos um registro.
Hoje, por exemplo (7 de setembro de 2023), encontrei no aeroporto de Brasília um rapaz pedindo dinheiro para completar o pagamento de uma passagem para sua cidade de origem.
Caminhava ao lado da fila de despacho de bagagem, expondo a fragilidade da sua situação e sua necessidade de voltar para casa.
Por alguma razão, ele havia se deslocado até a capital do país. Por outro motivo, ainda mais urgente, precisava voltar.
Não se sabia como havia chegado a Brasília, mas, quanto ao modo pelo qual pretendia regressar, entendi que, alcançando a quantia almejada, ele compraria a passagem imediatamente, no balcão da companhia aérea, e embarcaria no próximo voo para o destino pretendido.
Não se pode dizer que seja uma conduta padrão, nesses tempos de compras de passagens e checkin feitos pela internet. Mas, convenhamos, o cara não tinha nem onde ficar em Brasília. Onde é que arrumaria um computador com internet, para adquirir uma passagem aérea?
Então, ele estava lá, fazendo a arrecadação para sua “vaquinha”, e isso é o que importa agora.
Caminhava de um lado para outro, lamentando-se e olhando nos olhos das pessoas, como se procurasse identificar em alguém um pouco de compaixão. Alguém que escutasse sua história e se sensibilizasse com ela.
Tinha a perna direita envolvida por ataduras, desde o joelho até o pé, deixando à mostra apenas os dedos. Apoiava-se em duas muletas de alumínio, dessas que tem uma parte onde se encaixa o antebraço, enquanto as mãos seguram outras partes, que lembram um guidão de bicicleta.
Difícil imaginar que alguém se prestaria àquele papel com o intuito de se aproveitar da boa fé dos transeuntes. Salvo por um motivo: devia ser a quarta ou quinta vez que eu presenciava aquela cena no aeroporto de Brasília. Não que se tratasse da mesma pessoa. Não sou tão bom fisionomista assim. Mas me chama a atenção que esse tipo de situação seja tão recorrente.
Segui observando, e percebi o rapaz dizer que teria como destino a cidade de Araguaína, no Maranhão. Aquilo me despertou uma dúvida: Araguaína fica no Maranhão?
Sem vontade de consultar o Google Maps naquele momento, e com o rapaz vindo em minha direção, simplesmente me posicionei de forma a deixar claro que eu estava atento aos seus movimentos. Talvez ele me desse mais detalhes de como havia chegado àquela situação.
Nossos olhares se encontraram, e isso pareceu ter causado algum efeito negativo sobre ele, porque olhou para o chão e afastou-se repentinamente, sumindo na multidão.
Pela maneira como caminhava, ao se afastar, fiquei com a impressão de que o ferimento da perna era falso.
Minutos depois, diante do portão de embarque, consultei o Google Maps, e confirmei o que minha memória já havia alertado: a cidade de Araguaína fica no Estado do Tocantins.