Casa semelhante ao Bar Ambassador, situado na “Zona do Meretrício” do Recife Antigo
Na década de 50, sob o vigor dos meus 20 anos, “donzelão” todo, mas já exercendo atividade profissional como bancário, fui levado pelo tio e amigo Sebastião, para conhecer a “Zona de Meretrício” do Recife, situada nas proximidades do cais do porto. Mas ainda não era propriamente uma introdução à putaria, mas uma visita de cortesia, digamos.
Menino criado sob os fortes rigores da religião católica, chegar à segunda década de vida sem “comparecer” à Zona, era motivo de discreta preocupação dos pais. Mas a sífilis nesse tempo grassava e era o espantalho maior da juventude. Sobremodo porque eu já era noivo.
Vivi um tempo em que a juventude não tinha opções para se obter “ficha de macho” a não ser cair na gandaia da “Zona”. As moças eram virgens até o casamento e os namoros sempre motivavam compromisso de casamento. Segui esse caminho. Após um namoro de dois anos, já entrei no noivado e em poucos anos depois, no casamento.
Mas, me vi diante do desejo de conhecer o funcionamento da “prostituição oficializada”, que na década de 1950 se concentrava em dois polos: no Pina e no Cais do Porto, sendo esta a parte mais movimentada. Um território aberto a todos.
Sendo o Bairro do Recife uma ilha, ao se ultrapassar, à noite, qualquer uma das duas pontes – Maurício de Nassau ou Buarque de Macedo – se chegava a uma sociedade sem fronteiras. Tudo era livre, sobretudo a mulherada, que estava ali disponível para atender aos vários gostos.
Ainda vivíamos o rescaldo dos tempos da II Guerra Mundial e os marinheiros norte-americanos deixaram um rastro para o usufruto de “divertimentos masculinos”. Criaram o espaço onde se concentrava a mulherada. No Pina, tínhamos o Cassino Americano, clube chic, onde apareciam mulheres importadas; mas era coisa pra usineiros, pois os preços eram elevados.
Mas era na ilha onde foi fundada a cidade que se concentrava a “festa” para os solteiros, porque tinha mulheres para todos os gostos e desgostos. O Restaurante Gambrinos era o melhor e o dancing Chanteclér, uma espécie de clube dançante, assunto do qual já falei.
O Bairro do Recife era uma Paris. Local bem iluminado. Em cada pardieiro havia as “residências” da mulherada. As ruas estavam sempre transformadas em passarelas; uma espécie de “desfile de modelos”. Ali elas negociavam suas noites ou relações sexuais por instantes.
Fui com a intenção de apenas ver o que era a “Zona”, porque não havia apetite para enfrentar aquele tipo de divertimento. Aquela que seria minha esposa já estava escolhida.
E o que vi foi interessante para observações de um cronista ou um sociólogo. Vale a pena avaliar os hábitos daquela época e hoje estabelecer as comparações.
Um contrassenso: as ruas de Nossa Senhora da Guia, Vigário Tenório e da Madre de Deus e seus diversos becos, não obstante terem nomes religiosos, concentravam mais “casas de prostituição”, que na verdade ficavam localizadas nos velhos pardieiros. De dia um setor bancário e casas do alto comércio. À noite, festa da prostituição.
Depois de breve passeio e explicações sobre o funcionamento da “Zona”, tio Sebastião me levou à um dos bares mais elegantes do Recife, o Ambassador, situado ao lado da Concatedral da Madre de Deus.
Radiola de Fichas. Já nos anos, 50 era um atrativo no do Bar Ambassador
Ambos de ternos completos – imaginem!… – Chegamos ao bar para apreciar os drinks da Casa. Meu companheiro, que era solteirão, comprou também algumas fichas para que eu escolhesse discos que seriam tocados durante nossa estada. Haja Nelson Gonçalves e Sílvio Caldas!…
A radiola automática já era um sucesso. Os discos, escolhidos rodavam de pé. O elegante bar era discretamente um ponto de encontro com as mulheres mais finas da ‘Zona”. Ouvi dizer que ali se tornara o ponto dos que amargavam as “dores de cotovelo”, por causa da vasta oferta de discos a serem rodados na magnífica radiola.
Tio Sebastião foi informando como funcionava aquele local de divertimento. Era um ponto distinto, onde se poderiam encontrar mulheres de fino trato, raparigas bonitas e caras.
Logo à chegada, era de bom tom o boêmio se sentar e pedir ao garçom uma cerveja Brahma e uma ficha. Os discos rodavam. Começava, de fato, a fina boemia. Depois era só dar o braço à criatura que fosse convidada para um drink e sair para desfrutar o melhor da noite, alugando um automóvel para os levar ao Cassino Americano.
Hoje recordando aquela apresentação de minha primeira noite apenas de visita ao meretrício, me lembro que terminamos o “tour” no dancing do Chanteclér, onde a música surgia ao vivo através de uma boa orquestra e havia moças jovens e distintas para se bailar. Bem diferente do bar, onde geralmente se ouvia:
– Garçom, uma Brahma e uma ficha!…