QUINZE ANOS
Júlio Dinis
Que são quinze anos, quando a virgem cora? Quando, já triste,
na solidão vagueia?
Que são quinze anos, se ao surgir da aurora, A embala em sonhos embriagante
idéia?
Se ao fim da tarde, em languidez caída, Do peito sente o palpitar
inquieto,
E aspira, ansiosa, mas ardente vida,
Vida de amores, de paixões, de afecto?
Que são quinze anos, quando um sangue ardente
No peito infunde abrasadora lava?
Quando aos assomos da paixão nascente,
A alma da virgem se submete escrava?
Ai, quantas vezes nesses jovens seios
Se esvai bem prestes a infantil bonança?
Quantas se ocultam juvenis enleios,
Nas aparências de pudor, criança?
Vês a palmeira, que no nosso clima Arbusto humilde, um vendaval derruba,
Como nas plagas, que o calor anima, Eleva altiva a majestosa juba?
A mesma vida, que recebe a planta
Nessas paragens onde o Sol dardeja,
O amor, o astro que a existência encanta,
A mesma vida ao coração bafeja.
E tu, que deixas os pueris folguedos, Como a grinalda que esfolhada viste,
E erras em choro por jardins e olmedos, Ai, virgem, virgem, já o amor
sentiste.
Já o aspiraste, percorrendo a relva, Entre perfumes de violeta e
rosas; Falou-te dele o rouxinol na selva,
E a estrela em noites de Verão formosas.
Falou-te dele a matutina brisa,
Por entre as folhas sussurrando meiga;
No prado a linfa, que a correr desliza,
E a borboleta nos rosais da veiga.
Falou-te dele esta gentil paisagem, O azul dos céus, a secular floresta.
Esse o mistério que em subtil linguagem
Às virgens conta a natureza em festa.
Ouvindo, pois, as namoradas falas, Que eu delirante te falei, donzela,
O que receias? porque assim te calas, Rubra de pejo, que te faz mais bela?
Esconde a fronte no meu peito, esconde, Mas não hesites ao dizer-me
que amas.
Que são quinze anos, linda flor? responde, Quando o teu seio se devora
em chamas?