Cofrinho antigo da meninada
Durante anos da infância querida que não volta mais, tivemos a sorte de ouvir no recôndito das nossas casas, falado pelos avós, pais ou tios e tias, algo que parecia do “popular”. Mas, uma pesquisa a fundo, induz para uma corruptela da citação bíblica contida em Eclesiastes e Provérbios: “quem plantar, haverá de colher”! Mais ou menos assim.
Hoje é voz corrente, verdadeiro, mas, infelizmente, com quase nenhuma importância. As pessoas do mundo são outras, e vivem mudando tudo – mesmo que tenham certeza que para pior. Vide, no meio de “juízes” que estudaram até o doutorado, a aprovação da condução e do uso da cannabis sativa. Mas, esse é assunto de domínio dos usuários contumazes ou de quem sobrevive do comércio avassalador.
Quarenta gramas para quem usa poder conduzir para “fazer a cabeça”! E, quem vende, pode conduzir qual quantidade?
Pois dito isso, ainda vestindo calças-curtas de suspensórios – aquele tipo de vestimenta que não tinha bolsos e os suspensórios eram cruzados na parte de trás – ouvi muitos dos meus avós que, “quem quiser colher, tem que plantar”!
Moedas plantadas “nascendo”
Meu Pai nunca fumou cigarros, tampouco precisou fazer a cabeça com a cannabis. Fumava charutos que nunca comprou. Ganhava das irmãs solteiras que viviam no caritó. Talvez por conta disso, nunca gastava as moedas de dez, vinte ou cinquenta mil réis que, vez por outra perambulavam pelos seus bolsos. Guardava-as para o José, que, naquela idade cultivava o hábito de guardar.
Pois José juntou as primeiras moedas. Quando tinha o suficiente, foi até a bodega do Jessier e comprou um cofre-porquinho de cerâmica. A moeda antiga sempre foi de valor instável no Brasil.
Certo dia José ouviu o Avô falar, após uma discussão de maldades feitas por um morador do lugar: “quem plantar algo nesta Terra boa, com certeza vai colher”!
Não era habitual como nos dias atuais, crianças se intrometerem nas conversas dos adultos. Muitos até saiam da sala ou de qualquer outro local onde a conversa estivesse acontecendo. Mas, lembro bem, também era hábito ficar atrás da porta escondido e escutando a conversa.
José, tendo ouvido aquele vaticínio do Avô, não esperou o milho pipocar nem o café das visitas ficar pronto. Correu para a camarinha e sacou de dentro do baú velho o cofre-suíno. De lá, saiu em disparada para a moita de mofumbo mais próxima – por sinal, era a mesma moita onde José “jogava o barro fora”. Assim, achou que era um local apropriado e até adubado.
Cavou fundo com um graveto de pau. Antes, em lágrimas, partiu o cofre-suíno, de onde retirou todas as moedas que até então juntara. Fez uma pequena montanha de moedas, misturou a terra com o “estrume” que tinha feito pela manhã e cobriu as sementes que lhe renderiam uma boa colheita.
Todo dia José pegava uma banda de cuia, tirava água da terrina e molhava o local onde semeara as moedas.
Passaram-se dias. Semanas e meses. Sempre a rotina de molhar a plantação. Veio o fim do inverno e o começo do verão. Nada nascia, embora José tivesse plantado conforme ouvira do Avô, quando se escondera atrás da porta.
Eis que a adolescência bateu à porta e trouxe consigo a necessidade de José mudar para a cidade grande e cuidar em estudar. Anos se passaram, mas os avós continuaram morando como meeiros no mesmo local.
Certo dia a Avó de José precisou “obrar”, e a “obra” estava num estado deplorável de fedor. O lugar mais próximo foi aquela bendita e antiga moita de mofumbo.
Sem levar sabugo, ficou difícil limpar a caganeira. Sem ter a obra para beliscar, as galinhas começaram a ciscar, e, quanto mais ciscavam, mais cacarejavam.
Pois, a culminância daquilo tudo foi que as galinhas acabaram desenterrando o que José semeara anos atrás. Nunca nasceu. O povo do lugar cacarejando mais que as galinhas, espalhou que, na casa da Dona Raimunda e do Seu João havia sido descoberta uma “botija”!