PROFISSÃO DE FÉ
Júlio Dinis
Se vires a lira entoar alegrias, Prazeres e orgias, das festas à luz,
Não creias as vozes que solta; mentida
É toda essa vida, que nela transluz.
Se a vires cantando felizes amores, Perfumes de flores parecendo aspirar,
Não creias; minh’alma surgir não viu ainda
A aurora bem-vinda de grato raiar.
Se vendo no mundo somente ímpias cenas, Pérfidas apenas, funestas
paixões,
De escárnio e desprezo soltar os seus cantos, São falsos; que
em prantos lhe vão ilusões.
Porém, quando triste, falar da saudade, Em grata ansiedade fitar
o porvir
Em sonhos de esperanças, talvez que mentidas,
Soltar seus gemidos, temor exprimir;
Se a ouvires falando de chamas ocultas Que n’alma sepultas encobrem seus
véus, Quais fogos acesos ao ar elevados, Ardendo ateados, numa ara
sem Deus
Se a vire s nos cantos falar magoada, Da lut a travada no meu coração,
Qu e muit o deseja, que tanto empreende
E em vã o se defende da ignota prisão.
Ouvindo- a em segredo, soltar suas queixas
E e m triste s endeixas sentida gemer,
Chora r o passado, odiar o presente
E a o long e somente fulgores entrever.
Entã o cr ê os hinos que ouvires à lira,
O peit o os inspira, do peito eles vem,
A m ã o indiferente suas cordas não pulsa
Febri l e convulsa se agita também.