Os Irmãos Villas-Bôas: Orlando (1914-2002), Cláudio (1916-1998), Leonardo (1918-1961) e Àlvaro (1926-1995) nasceram no interior de São Paulo. Foram importantes sertanistas brasileiros, que se alistaram na Expedição Roncador-Xingu, em 1941. Com a “Marcha para o Oeste”, o Governo Vargas precisava desbravar o Brasil Central, até então uma região povoada por índios. Os 3 irmãos acabaram se tornando protagonistas na defesa da causa indígena, com a fundação do Parque Indígena do Xingu, em 1961, a mais importante reserva indígena das Américas.
A Expedição contava com nomes que vieram a se tornar ilustres na História do País, como Marechal Rondon, Noel Nutels e Darcy Ribeiro. Foi integrada por cerca de 40 sertanejos e ao saberem da convocação, os Irmãos Villas-Bôas, exceto Cláudio, decidiram participar. Foram barrados por terem um alto nível de conhecimento para um sertanejo. Assim, eles voltaram em seguida com barbas por fazer, mal vestidos e fingindo-se de analfabetos. Logo foram aceitos, pois o comando da Expedição preferia os analfabetos, que considerava mais úteis no trabalho de desbravamento.
Iniciaram no trabalho duro, mas com o tempo alcançaram postos de comando na expedição. Passaram cerca de trinta e cinco anos no Brasil Central e contribuíram de maneira expressiva para o conhecimento da região e para a preservação do local. Catalogaram várias tribos, criaram algumas cidades como postos-base (pontos de entroncamento) e concluíram sua obra maior com a criação o Parque Indígena do Xingu. Com o afastamento do comandante, em 1945, a Expedição passou a ser chefiada pelos irmãos Villas Boas. A partir daí deu-se a mudança no caráter da Marcha para o Oeste, que tinha tudo para ser uma expedição violenta, mas se tornou uma expedição de contato baseado no ideal do Marechal Cândido Rondon no contato com os índios: “Morrer se preciso, matar nunca”.
No roteiro da Expedição em toda a sua extensão entre os Rios Araguaia, Mortes e Kuluene (região da Serra do Roncador), Kuluene-Xingu (abrangendo extenso vale), Xingu-Mauritsauá (cobrindo ampla região do Rio Teles Pires ou São Manuel, alcançando, ainda, a encosta e o alto da Serra do Cachimbo, foram criados mais de 40 municípios e vilas, 4 bases de proteção de voo do Ministério da Aeronáutica, com destaque para a Base da Serra do Cachimbo. Os irmãos Villas-Bôas permaneceram no Sertão por 42 anos e foram os protagonistas de uma politica indigenista conduzindo pacificamente o contato com todas as tribos e levando até a criação da reserva Parque Indígena do Xingu.
O objetivo não era pacificar os índios com vistas a transformá-los em trabalhadores rurais e sim manter sua integridade cultural. A base da política defendida pelos irmãos Villas-Bôas consistia na ideia: “O índio só sobrevive na sua própria cultura”. Segundo Darcy Ribeiro, eles conduziram os “índios xinguanos do isolamento original em que os encontraram até o choque com as fronteiras da civilização. Aprenderam a respeitá-los e perceberam a necessidade imperiosa de lhes assegurar algum isolamento para que sobrevivessem. Tinham uma consciência aguda de que, se os fazendeiros penetrassem naquele imenso território, isolando os grupos indígenas uns dos outros, acabariam com eles em pouco tempo. Não só matando, mas liquidando as suas condições ecológicas de sobrevivência.”
A sustentação da política indigenista dos irmãos Villas-Bôas era fundada em dois princípios básicos: a) os índios só sobrevivem em sua própria cultura; b) os processos integrativos ocorridos historicamente no Brasil teriam, via de regra, conduzido à desagregação das comunidades indígenas e não à sua efetiva participação em nossa sociedade. A declaração de Cláudio Villas-Bôas é esclarecedora sobre os propósitos da Expedição: “Se achamos que nosso objetivo aqui, na nossa rápida passagem pela Terra, é acumular riquezas, então não temos nada a aprender com os índios. Mas se acreditamos que o ideal é o equilíbrio do homem dentro de sua família e dentro de sua comunidade, então os índios têm lições extraordinárias para nos dar.”
Orlando faleceu em 2002; Leonardo em 1961; Cláudio em 1998 e Álvaro em 1995. Álvaro é o menos conhecido, pois fixou-se em São Paulo, onde passou a se dedicar a dar apoio logístico às missões e chegou a assumir a presidência da FUNAI por um curto período, em 1985. Receberam diversas homenagens com destaque para “Medalha do Fundador” pela Royal Geographical Society of London, com aprovação da Rainha da Inglaterra; “Grau Oficial da Ordem do Rio Branco” e “Grão Mestre da Ordem Nacional do Mérito”, as mais altas condecorações brasileiras; membros do “The Explorers Club of New York” ; foram indicados para o “Prêmio Nehru da Paz”, bem como para o “Prêmio Nobel da Paz” por Claude Lévi-Strauss e Julian Huxle. Receberam 5 títulos de “doutor Honoris causa” de universidades brasileiras e algumas dezenas de títulos de cidadãos honorários no Brasil.
O trabalho exploratório no interior do Brasil, realizado pelo Irmãos Villas Bôas, permitiu o mapeamento de um território até então desconhecido. Num relato sucinto deste trabalho, consta o seguinte: Expedição Roncador-Xingu: cerca de 1.500 quilômetros; Rios navegados (explorados): cerca de 1.000 quilômetros; Campos abertos (inclusive aldeias): 19; Campos (hoje bases militares para a segurança de voo): 4; Marcos de coordenadas: 6; Tribos assistidas (aldeias): 18.
Orlando Villas Bôas Filho publicou em 2014 um misto de biografia junto com a epopeia de seu pai: Orlando Villas Bôas e a construção do indigenismo no Brasil, publicado pela Editora Mackenzie. Porém, eles deixaram alguns livros registrando suas trajetórias junto aos índios. A marcha para o oeste (Ed. Globo, 2012), Almanaque do sertão (Ed. Globo, 1997), Os náufragos do rio das mortes e outras histórias (Ed. Quarup, 1990), Histórias do Xingu (2013) Xingu: os contos do Tamoin (2014); Xingu: os índios, seus mitos (Ed. Kuarup, 1970), A arte dos pajés: impressões sobre o universo espiritual do índio xinguano (Ed. Globo, 2000), História e causos (Ed. FTD, 2005) entre outros. Contam também com uma biografia: História dos irmãos Villas Bôas, publicado pela RG Editores, em 1997 e uma cine-biografia – Xingu -, dirigida por Cao Haamburger, lançada em 2012.

