O RADIOAMADORISMO EM MINHA VIDA! (CRÔNICA DO COLUNISTA JOÃO RIBEIRO DA SILVA NETO, O BEIRÓ)

O radioamadorismo em minha vida!
João Ribeiro da Silva Neto
Achei interessante registrar este texto, porque hoje em dia, pouca gente sabe o que é um radioamador e quais são as finalidades da atividade do radioamadorismo. Basicamente elas se destinam à intercomunicação entre as pessoas e a pesquisas ou investigações técnicas, realizadas por radioamadores devidamente autorizados, interessados na radiotécnica a título pessoal como entretenimento e que não visa qualquer objetivo pecuniário ou comercial ligado à exploração do serviço.
Radioamador, portanto, é chamada a pessoa que utiliza transceptores de rádio comunicação destinados a este fim.
Assim, por sua natureza o radioamadorismo alcançou espaços cada vez maiores nas comunidades. Ter um transceptor de rádio em seu veículo era um importante meio de comunicação assim como os telefones celulares atualmente. Eu mesmo cheguei a fazer longas viagens de carro pelo Brasil, estando sempre conectado a diversos amigos radioamadores, em múltiplas frequências. Além de muito saudável a atividade era considerada de extrema utilidade e segurança também (vale dizer que na época ainda não existiam os celulares).
Eu fui um dos adeptos e entusiasta, desde que conheci os equipamentos através de meus amigos da TV Educativa, como o Paulo César e José Roberto Távora, que deles já faziam uso. Mantive uma estação relativamente bem equipada em nossa casa, com uma torre de 26 metros de altura e muito imponente para os padrões da época, sendo bastante útil para os contatos locais (no Brasil) e também com outros países.
Consegui estabelecer contatos com radioamadores de mais de 170 países, além de participar da Rede de Emergência do Ceará, uma estação ligada aos órgãos de segurança do Estado. Meu prefixo como Radioamador Classe “A” é PT7-JSN e na Faixa do Cidadão, PX7-10.245, usando sempre o QRA (nome do operador) Silva Neto.
As estações de radioamador
Existem estações de radioamador simples, passando pelas intermediárias até chegar àquelas modernas e sofisticadas ao extremo, com equipamentos de última geração, com utilização de poderosas antenas, transceptores e satélites. Mas todas partem de uma vontade e de um interesse igual – fazer amizade e servir ao próximo - além de conhecer outras culturas e se aventurar por contatos diversos em múltiplos países do mundo. Na atualidade os radioamadores utilizam até satélites que destinam frequências para esta finalidade específica.
As minhas estações de radioamador foram simples, mas eficientes.
Em uma das fotografias, com fones de ouvido, está a minha filha Cristiane, ainda criança, ouvindo os sons de uma transmissão e achando tudo aquilo muito divertido. No mesmo bloco imagens da estação, do quadro de “QSL” e também dos cartões que remetia para os colegas após o primeiro contato.
Comecei a minha estação com alguns equipamentos transceptores e antenas caseiras. As melhorias foram conseguidas gradativamente, com transceptores melhores e mais potentes, com antenas direcionais que possuíam rotores para direcioná-las automaticamente. Os trabalhos de montagem de antenas, de torres, geralmente eram compartilhados e os amigos se ajudavam mutuamente nas tarefas. O espírito de solidariedade sempre foi mantido até hoje.
Você certamente ouviu os termos “QAP” ou “QSL”. Neste texto usarei algumas combinações pertencentes ao Código “Q”, que é uma codificação muito utilizada nas comunicações via rádio, inclusive pelas forças de segurança pública e defesa social, e a sua utilização da forma correta facilita o entendimento das mensagens, diminuindo o tempo de transmissão de dados.
A linguagem do Q, assim também conhecida, é bastante importante para diminuir os erros muito comuns de transmissão da informação pela linguagem falada e os seus equívocos no entendimento.
Iniciando como “PX”, na Faixa do Cidadão Na juventude despertei meu interesse de forma mais forte pela eletrônica (trabalhava como músico e também como sonoplasta na TV Educativa do Ceará – TVE), e essas atividades se interligavam de muitas formas.
Equipamentos diversos, amplificadores, mesas de áudio, mesas de vídeo, máquinas de videotape, câmeras de televisão, transmissões via rádio, telegrafia... Tudo isso me fascinava.
Dito isso, um dia à tarde lembro perfeitamente que eu estava de saída do expediente na TVE quando encontrei alguns bons amigos do trabalho (cuja amizade perdura até hoje),José Roberto e Paulo César, que estavam falando de um carro para outro lugar. Cheguei perto deles muito curioso e admirado, ao tempo que observava, perguntei algo assim: “como vocês estão falando?” E logo recebi a rápida explicação do Zé Roberto nos deu. (Ele, que se tornaria mais à frente um dos engenheiros eletrônicos mais capacitados do Ceará, com o seu irmão Paulo César, que nós chamávamos simplesmente de Paulinho).
Disse o Zé Roberto que estavam falando com um equipamento de transmissão que operava na Faixa do Cidadão, ou “PX” como se falava também. Esse equipamento se não me engano tinha apenas 6 canais, pois era um dos primeiros que cheguei a ver. O “contágio” foi impressionante. Quis logo saber como poderia participar, adquirir um “PX” e entrar para o radioamadorismo. E assim foi o meu ingresso como operador da Faixa do Cidadão (PX7-10.245, que era o meu prefixo, como QRA – nome do operador: Silva Neto).
Entrosado como éramos em tudo o que se referia à eletrônica logo aprendi muito com eles e com outros amigos, como o Brito (in memoriam), eletricista da TVE, que tinha o prefixo PT7-BLZ, que ele mesmo dizia em suas transmissões “Brasil Zona Leste”. E depois disso muitos amigos, como o Daniel Menezes, PT7-CLN, o Delano Gondim, PT7-BZK e tantos outros. Aprendi tanto na parte técnica e eletrônica, quando montávamos acessórios, como através de seus exemplos de companheirismo e amizade, pelo que agradeço sempre.
E espero ter retribuído isso de alguma forma ao longo dos anos em que me dediquei muito a esta atividade.
A evolução para Radioamador Classe “A”
Instalei equipamentos de transmissão em meu Corcel e também montei uma pequena estação de radioamador na faixa do cidadão (PX). E de qualquer local que eu trafegava poderia facilmente manter contato com minha residência, com outros colegas radioamadores ou até mesmo entrar em contato com a Rede de Emergência da Polícia (PT7-REC), para avisar sobre alguma ocorrência ou eventualmente até pedir apoio, se necessário.
Os equipamentos, transceptores, amplificadores e acessórios foram se sucedendo gradativamente e o aprendizado também. E aí vieram as antenas direcionais, a construção dos melhores modelos, o conhecimento das famosas ondas estacionárias, os amplificadores de potência, os amplificadores de áudio para os microfones e toda uma parafernália de eletrônicos. As experiências eram trocadas no dia a dia. Logo os conhecimentos eram compartilhados. A ajuda entre todos era constante. E nossa amizade também.
O Código Morse foi criado pelo americano Samuel Morse (que também era físico e pintor). O Morse é um sistema de representação de letras, números e sinais através de sons curtos e longos, que poderiam ser enviados eletronicamente de um ponto a outro ou através de sinais de rádio. Esse sistema é composto por todas as letras do alfabeto e todos os números. Os caracteres são representados por uma combinação específica de pontos e traços, sendo que para formar as palavras o operador tem que realizar a combinação correta de símbolos.
Em razão de meu interesse, aprendi rapidamente e logo me interessei pelo Radioamadorismo mais técnico, que necessitava de licenças do antigo Departamento Nacional de Telecomunicações (DENTEL), para operação nas classes “B” e “A”, a mais completa. Comecei a aprender o código “Morse” para transmissões telegráficas (que era exigido nos exames do Dentel). Nos intervalos do expediente na TV Educativa, em minha sala de sonoplastia e discoteca, eu tinha um manipulador de código Morse, um pequeno aparelho que usávamos para o exercício de transmissões. Um dos técnicos que conheci na época da TVE tinha sido telegrafista de Rede Ferroviária do Ceará e me passava muitas dicas.
Enquanto ele fazia seu serviço ficava ouvindo o que eu transmitia (textos de livros, apenas para treinar). Ele possuía muita técnica no Morse e tinha um ouvido espetacular que, mesmo de costas para mim dizia: “repete o ‘r’ porque não está bem escrito...” Ou: “alonga mais o final do ’N’...” Coisas assim.
Para regularizar minha atividade prestei exames junto ao Dentel, primeiramente para a Classe “B” (feito em Teresina, no Piauí) e depois para a Classe “A”, realizado em Juazeiro do Norte, Ceará. Com a aprovação pude utilizar todas as frequências de rádio para a classe. Sendo bem sucedido recebi o prefixo PT7-JSN (que alguns chamavam no rádio baseados nas iniciais, de “Jovem Silva Neto” ou de Jesus Salvador Nosso (JSN). A assim foram muitos e bons anos.
Atuando na Faixa do Cidadão os radioamadores ajudavam a Rede de Emergência da Polícia Militar (PX7-REC) pelo fato de os “PX” informarem ocorrências de vários pontos da cidade para a Rede de Emergência (equivalente hoje aos Whatsapp e similares).
Os contatos à longa distância (“DX”)
Em minha estação mantinha contatos com o país inteiro e também com vários países.
Em nosso QTH existia uma torre de 23 metros de altura, com algumas antenas. Em outra etapa instalei uma antena direcional de fabricação Electril, com 12,5 metros de largura, equipada com um rotor, para que de dentro de casa pudesse alternar seu posicionamento. Cobria praticamente todo o segundo piso e foi difícil para sua instalação. Era questão apenas de mudar a frequência de alcance e o posicionamento da antena para conseguir manter milhares de contatos Brasil afora e pelo mundo todo!
Em minha estação eu exibia os cartões postais recebidos, além dos “QSL” que eram cartões de confirmação de contato que em cada um “QSO” (comunicação, conversa) inicial o radioamador tinha por ética enviar depois de cada contato mantido. Foram 171 países com os quais mantive contatos, com centenas de cidades pelo mundo afora. E todos esses contatos confirmados através do recebimento de cartões de “QSL” (confirmações) os quais guardo até hoje.
No Brasil nem se fala porque centenas de contatos eram mantidos com os diversos estados. Eu tive que organizar um fichário para registrar todos os contatos, em ordem alfabética, para não esquecer datas, nomes e outros detalhes dos amigos e amigas quando de futuras conversações.
Em um dos períodos mantive uma torre de 25 metros, triangular, que suportava antenas com diferentes frequências de rádio.
O Call Book era essencial para a conferência de dados dos radioamadores do mundo inteiro. Pois o cadastro (como uma agenda telefônica) estava lá, de todos os países.
Assim podíamos tirar alguma dúvida no momento de enviar o QSL (cartão de confirmação de contato) para os amigos. Se durante a transmissão a propagação pelo rádio ficava mais difícil ou com chiados em algumas vezes não entendíamos algum número, ou o detalhe que fosse.
Apenas para fins de simples registro para os leigos, propagação boa ou ruim é o que os radioamadores usam para determinar quando existem meios ideais para uma boa comunicação, tendo em vista que as ondas de rádio sofrem interferências do sol que varia muito de épocas do ano, localidades, além de outros tipos. Então quando os radioamadores falam que a “propagação” não está boa, significa dizer que há muitas interferências (QRM) nos contatos.
O radioamadorismo na família
A vontade e o interesse de ter uma comunicação mais fácil se espalhou pela família! Meu tio Raimundo Ribeiro da Silva (Titina), em São José dos Campos e meu pai Alberto Ribeiro da Silva estudaram e prestaram exames no Dentel, conseguindo suas licenças para operar como radioamadores. Eu conversava como tio Raimundo e com o meu pai sempre, quando ele morava em Ubajara. Eles gostavam muito das “rodadas” dos radioamadores, que eram encontros em horários determinados para que grupos conversassem. Mais ou menos como os grupos nas redes sociais de hoje, com a diferença de que os contatos eram efetivamente mais reais, porque as pessoas conversavam entre si e as emoções podiam ser percebidas pelo tom de voz, essas coisas. O tio Antonio Ribeiro (in memoriam) também foi radioamador, em São Luís do Maranhão. Perito em Código Morse ele usava o rádio, além de tudo, para conversar com o filho dele (meu primo e xará) João Ribeiro da Silva Júnior (in memoriam), que era militar, de Cavalaria, tendo servido muitos anos em áreas de fronteira do Brasil, onde as comunicações não eram muito boas nos idos tempos...
Cheguei também a me corresponder por um período com um radioamador inglês que morava a 30 milhas de Londres. Martin Brooks era o seu nome. Conhecíamos a família dele, pelo rádio, as filhas dele cantavam e tocavam flauta. Do mesmo modo eu me comunicava muito com um italiano, que conhecia muito meu filho Alberto Neto, ainda pequeno e se dizia “avô internacional” dele.
Utilidade pública do radioamadorismo
O serviço de radioamadorismo não é apenas para entretenimento. É também de extrema utilidade pública. Houve épocas e ainda hoje existem alguns locais remotos que não possuem redes de comunicação e dependem exclusivamente de radioamadores para se comunicar. A solidariedade no radioamadorismo é incrível!
Muitas vezes um radioamador recebia um pedido de um medicamento que estava em falta ou nem mesmo existia em determinado local. Através de seus contatos conseguia os medicamentos e os enviava, por meio próprio ou por intermédio de terceiros, todos fazendo parte de uma grande rede assistencial voltada para o benefício da comunidade. Algumas vezes cheguei a participar de ações desta natureza. Guardo ainda alguns equipamentos de radioamador para quem sabe montar novamente uma estação e reativar os contatos. Fica aqui o registro de gratidão aos amigos radioamadores pelo convívio, experiências trocadas e por uma fase muito interessante que marcou minha vida, particularmente por forçar o aprendizado e o treino do idioma inglês para contatos internacionais. Dedico estas palavras a meus amigos radioamadores que incentivaram o meu desenvolvimento nesta atividade muito importante. Desejando que muita paz e saúde os atinjam sempre em seus lares, onde quer que estejam neste momento.
Um forte 73/51 extensivo a todo o “QTH” familiar!