Bem feito para mim. Quem mandou passar na calçada da Igreja? Por castigo, fui abordado por uma jovem, cabelos presos, vestido escondendo os joelhos, sem decote, mangas nos cotovelos, perguntando se eu queria conhecer Jesus. Meio por maldade, meio por vingança, antecipei a conversa e disse-lhe, com o maior malfazejo:
– Quero não, moça. Já conheço três cabras com esse nome. Suficienta-me (acho que ela sequer entendeu minha mania besta de usar neologismos).
Um, o irmão do Cauby, filho de seu Júlio da bodega da esquina lá de casa. Ele, o pai, bruto e grosso que só papel de embrulhar prego, óculos fundo de garrafa, não-parecido, nem de longe, com o Carpinteiro José. Seu filho, entretanto, uma doçura de pessoa, elegante e solícito, às vezes toca violão e faz serestas. De incomum com o Jesus de verdade, é ateu convicto.
O outro, Jesus Santiago Frazão, foi quem me deu posse no Banco Central, em Fortaleza, longínquo 77, século passado. Baixinho, careca, imberbe, em nada se assemelha ao homem de Nazaré, do ponto de vista fisionômico. Mas é um sujeito bom, decente, do bem. Aos sábados, jogávamos futsal na quadra do Colégio Cristhus.
E o terceiro é um de Acari, filho de dona Ritinha de Miúdo e dela herdou o nome – Jesus de Ritinha de Miúdo. Este, nunca fez milagres na vida ou proferiu parábolas, mas é um Poeta imenso, dos grandes. Suas curas se dão através da Poesia, seus ensinamentos vêm dos versos, incontestáveis milagres.
Foi quando a moça demonstrou não estar gostando de minha conversa, deu-me as costas, numa rabissaca humilhante e partiu em sentido contrário ao meu, com seus cabelos presos, vestido escondendo os joelhos, sem decote, mangas nos cotovelos e, só aí percebi, carregando um livro de capa preta embaixo do sovaco. Acho que falando desse outro tal Jesus … Bem feito para mim.

