
Possibilidade de recomeçar. É assim que a passagem de ano é vista por muitos. Entre as aspirações para o ciclo que se inicia nesta quarta-feira (1/1/25), o desejo pela paz é como um elo invisível que une todos os indivíduos, independentemente de nacionalidade ou religião. O Correio conversou com líderes religiosos de diferentes vertentes que, com base em suas crenças — do budismo à umbanda — refletiram sobre 2024 e destacaram a importância de buscar a paz.
Diversas vertentes, um desejo
Para o monge Keizo Doi, à frente do Templo Shin Budista Terra Pura, tombado em 2014 como Patrimônio Histórico da capital, as palavras do Buda Shakymuni traduzem bem o que é necessário para alcançar a paz. "Neste mundo, o ódio jamais é vencido pelo ódio; o ódio só se extingue ao ser abandonado. Esta é a lei imutável", destacou.
Para alcançar a paz, é preciso, segundo Doi, distanciar-se do sentimento maléfico. "Muitas vezes, podemos nos encontrar numa situação em que não há possibilidade de amar pessoas por alguma razão ou outra. Mas devemos manter sempre a capacidade de largar o ódio, pois talvez essa seja a única maneira de pacificar nosso mundo. Se todo mundo praticar isso no dia a dia, a paz poderá nos visitar amanhã", afirmou.
Do candomblé, Mãe Baiana de Oyá, presidente do Ilê Axé Oyá Bagan, ressaltou que os povos e comunidades tradicionais de matriz africana esperam por um ano tranquilo. "Temos mais de 330 terreiros em Brasília, e a gente fala a mesma língua: o que a gente quer para 2025 é paz", o apelo da Mãe Baiana refere-se, também, ao racismo religioso, que infelizmente é vivenciado por quem frequenta a religião.
"A nossa ancestralidade e nossos antepassados deixaram esse legado em nossas mãos, nos ensinaram a sempre pedir por paz. A gente quer paz para nós, para os moradores de Brasília e também para os governantes", disse.
Ela lembrou do ataque ocorrido em novembro do ano passado no Supremo Tribunal Federal (STF), declarando que o fato estremeceu a tranquilidade do brasiliense. Mãe Baiana enfatizou que discussões políticas, sem embasamento, têm afastado famílias e polarizado a sociedade. "Atualmente, as discussões políticas, que não carregam conteúdo, como a gente de fato queria, têm trazido ataques pessoais e dividido famílias e a sociedade; vamos aguardar que tenhamos um ano diferente. A palavra que deixo a todos é que soltem o ódio. Muito axé para todos e um feliz 2025!"
O pároco ressaltou que é importante adentrar o novo ano com esperança, agradecendo a Deus a oportunidade que concedida de recomeçar. Para ele, colocando em prática as duas palavras (ressignificar e recomeçar), é possível alcançar a ordem interior e, consequentemente, a paz. "O fundamento da ordem é Cristo, que é o príncipe da paz, então se nós queremos paz, devemos querer a Deus. Se a gente tem Deus, a gente tem paz. Nessa passagem de um ano para o outro, devemos ter essas duas palavras como carro-chefe — ressignificar e recomeçar.
Para Verônica Maia Baraviera, sócia-fundadora e vice-presidente do Centro Espírita Paulo de Tarso, localizado no Lago Norte, os moradores de Brasília detêm o privilégio de uma vida muito mais tranquila do que aqueles que residem em outras grandes cidades ao redor do mundo. No entanto, em sua visão, o território brasiliense ainda sofre com deficiência de paz interior, o que considera fundamental para o bem coletivo.
"Para 2025, é essencial voltarmos nosso olhar para dentro de nós mesmos. Devemos cuidar com amor das preciosidades que Deus nos confiou: nosso corpo, nossa família, nossos amigos. Cada ano novo traz consigo a oportunidade de recomeçar, de construir a verdadeira felicidade, que nasce de nossas ações conscientes e da confiança plena em Deus", aconselhou.
O pastor Sílvio Sobrinho, da Assembleia de Deus do Guará, espera dias melhores. "Temos visto tantos casos de feminicídios na capital, assaltos e tantas coisas ruins... nós, cristãos evangélicos, cremos que isso acontece porque o ser humano distanciou-se de Deus. A palavra 'religião' vem do latim, derivada do verbo 'religare', que significa ligar novamente. O homem está desligado de Deus, por isso tantas coisas ruins, daí a necessidade urgente de nos reconectarmos. Precisamos aprender a ter empatia, se colocar no lugar do outro, compreendendo seus desejos, sentimentos e crenças", disse.
Respeitar as escolhas alheias é um grande passo para pacificar um território. O pastor destacou a necessidade de um convívio harmônico entre todas as religiões. "A Bíblia diz que eu tenho que fazer para o outro o que quero que façam para mim. Se quero respeito, preciso respeitar, o mesmo serve para a política. Agindo dessa forma, com certeza teremos dias melhores em Brasília ao longo deste ano", refletiu.
Em sua mensagem de paz, Hamra disse que roga a Deus todo-poderoso pela benção de todos neste ano e que acredita que a fé contribui para a conversão do mundo em um lugar melhor. "Que Deus nos conceda a paz, a fé, a esperança, o amor, a resiliência, a perseverança e nos dê empatia para respeitar o limite do próximo. E que busquemos sempre o conhecimento, porque ele nos afasta da idolatria, da intolerância, raiva e preconceito e é uma arma para nos proteger de todos os males que destroem a sociedade, seja onde for", disse.
Da umbanda, Mãe Leila, sacerdotisa de dois terreiros, o Casa Luz de Yorimá e o Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino do DF (OICDDF), afirmou que atualmente há um cenário delicado no âmbito político e econômico, além de que as pessoas estão adoecidas mentalmente. Dessa forma, sinalizou que este ano requer um cuidado maior em relação aos ciclos e ritmos.
"O fim do ano é o fim de um ciclo. A natureza segue ciclos e ritmos, assim como os seres humanos. Este começo é um momento para procurarmos o autocuidado, o contato com a natureza, porque os desafios deste ano serão muitos, falando socialmente, coletivamente e acredito que individualmente, também", disse. Ela explicou que aqueles que seguem a umbanda são, por natureza, cultuadores de felicidade, por isso acreditam que a esperança e a confiança de que o hoje é melhor do que o ontem é fundamental.