Almanaque Raimundo Floriano
(Cultural, sem fins comerciais, lucrativos ou financeiros)


Raimundo Floriano de Albuquerque e Silva, Editor deste Almanaque, também conhecido como Velho Fulô, Palhaço Seu Mundinho e Mundico Trazendowski, nascido em Balsas , Maranhão, a 3 de julho de 1936, Católico Apostólico Romano, Contador, Oficial da Reserva do Exército Brasileiro, Funcionário Público aposentado da Câmara dos Deputados, Titular da Cadeira nº 10 da Academia Passa Disco da Música Nordestina, cuja patrona é a cantora Elba Ramalho, Mestre e Fundador da Banda da Capital Federal, Pesquisador da MPB, especializado em Velha Guarda, Música Militar, Carnaval e Forró, Cardeal Fundador da Igreja Sertaneja, Pioneiro de Brasília, Xerife nos Mares do Caribe, Cordelista e Glosador, Amigo do Rio das Balsas, Inventor da Descida de Boia, em julho de 1952, Amigo da Fanfarra do 1° RCG, autor dos livros O Acordo PDS/PTB, coletânea de charges, Sinais de Revisão e Regras de Pontuação, normativo, Do Jumento ao Parlamento, com episódios da vida real, De Balsas para o Mundo, centrado na navegação fluvial Balsas/Oceano Atlântico, Pétalas do Rosa, saga da Família Albuquerque e Silva, Memorial Balsense, dedicado à história de sua terra natal, e Caindo na Gandaia, humorístico apimentado, é casado, tem quatro filhos, uma nora, um genro e dois netos e reside em Brasília, Distrito Federal, desde dezembro de 1960.

José de Oliveira Ramos - Enxugando Gelo sábado, 14 de dezembro de 2024

MALÍCIA, *TEU PAI MORREU*! (CRÔNICA DO COLUNISTA JOSÉ DE OLIVEIRA RAMOS)

MALÍCIA, “TEU PAI MORREU”!

José de Oliveira Ramos

Publicado em 

 

 

“Malícia – Dormideira (Mimosa pudica) – Planta invasora muito frequente, infestando pastagens, solos cultivados, pomares e terrenos baldios. É particularmente comum em locais úmidos como na planície litorânea. Uma única planta pode produzir até 700 sementes, que germinam prontamente após a maturação, se houver condições adequadas, ou permanecem dormentes por um período de até 15 anos”.

 

Malícia viva e acordada

 

Ontem, deitado numa rede após o almoço (baião-de-dois, pirão escaldado de farinha seca, e dois generosos pedaços de carne de bode), parei de ler o livro “O destino da África” e, sem comprar passagem ou pagar pedágio, resolvi viajar. Mais uma vez voltei ao passado – nunca fiz nada que me desabone ou me envergonhe de relembrar as boas coisas da vida.

Vesti minha calça curta de suspensórios (aquelas duas tiras que, quem usou também, sabe do que falo), pus o chapéu na cabeça, calcei os tamancos de madeira, pus a enxada no ombro direito e a cabaça com água arrolhada com sabugo de milho no ombro esquerdo e parti para a roça. Peguei aquela “vereda” que em outros lugares é chamada de “trilha” – mas minha Santa Avó, chamava mesmo era “vareda” ou “caminho”.

Vovô me dera uma tarefa: roçar pela raiz as ervas daninhas, fazer uma “ruma” para que elas secassem e pudessem pegar fogo para nunca mais voltar a nascer.

O roçado, plantado de milho, mandioca e feijão, principalmente esse último, era malvisto por conta de tantos pés de carrapichos e, adivinhem: malícia.

Vovô detestava carrapichos, porque usava calças compridas e o “bicho” agarrava na roupa, dando muito “trabaio” para Vovó arrancar um por um.

– Zé, meu fio, corte essa praga pela raiz, visse!

Eu ainda nem era um adolescente, mas já tinha minha utilidade na família. Menino véi besta, descobri uma forma de roçar os pés de carrapichos e as moitas de malícia.

– “Malícia, teu pai morreu”!

Era a minha tática. Quando a malícia se fechava, triste com a notícia da morte do pai, eu tacava a enxadada bem no tronco. Depois, obedecendo o Avô, arrancava também a raiz.

 

Malícia viva e dormindo

As moitas de carrapichos e malícias já podiam ser postas a secar. Dois dias depois, de acordo com o sol que fizesse, seria tocado fogo. Vovô fazia o caminho da ida de volta, para ver se tudo estava conforme determinara.

Vovô tirava o chapéu da cabeça, tapava com a mão a luz do sol e espiava o relógio do tempo: “já é quaje meidia, fio. Vamo parar e esperar o dicumê ali na sombra daquela catingueira”.

Anunciada, a minha prima e neta do Vovô chegava com o dicumê: feijão de corda temperado com sal… e mais nada; batata doce assada na brasa; maxixe, quiabo, jerimum, farinha seca e um pedaço de rapadura – para raspar e rebolar em cima do feijão.

Carne? De que? De onde?

Nos domingos, após a missa, Vovô caminhava até a bodega do Inácio, onde pegava e pagava o chambaril encomendado – mandava cortar em três pedaços, de forma que lhe permitisse “tocar o tutano por cima do feijão” quando cozido.

Mas, na roça, nunca era domingo e nunca estávamos na missa.

Água da cabaça era a sobremesa, depois do pedaço de rapadura (e quantas vezes me vi almoçando no Parraxaxá de Recife, pedindo uma dose de Cointreau e um café após o almoço!) bem mastigado.

Três dias depois daquele calor enorme e do sol tórrido, a principal arma era a caixa de fósforos Lumiar, para tocar fogo na coivara de carrapichos e malícias.

Mas, no caminho, a certeza da perfeição da Natureza: em meio a tanta enxadada e raízes de carrapichos e malícias arrancadas, uma “malícia” sobreviveu e estava sorrindo em flores.

Eu, crente e temente a Deus, sequer ousei lembrar da tática usada para que ela adormecesse e pudesse ser cortada.

Afinal, por que adormecer e matar a Natureza e suas perfeições?

 

Malícia viva e sorrindo de alegria


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