O fato de ser a camisa número 23 de Thiago Almada — um craque argentino, campeão do mundo em 2022, contratação mais cara da história do futebol brasileiro — era por si só um emblema da transformação pela qual passa o clube. A atitude do dono da camisa contrastava com todos os clichês historicamente associados ao Botafogo e ao botafoguense. Estava ali exposta, numa cena meio banal — uma camisa estendida num escritório — a confiança no próprio time que costuma ser mais associada a outras torcidas.
Mas o Botafogo de 2024 inspira outras sensações. O time lidera a Série A a duas rodadas do final, e joga futebol em nível muito mais alto do que seus perseguidores. A vitória por 3 a 1 sobre o Palmeiras nesta semana, em São Paulo, deixou evidente o tamanho da distância entre o time de Artur Jorge e o segundo colocado — e ainda serviu para abafar de vez os ruídos externos que começaram a ser ouvidos no clube após alguns empates no Campeonato Brasileiro.
O Botafogo chega à final da Copa Libertadores amanhã, contra o Atlético-MG, em Buenos Aires, como favorito ao título. Porque joga melhor e porque o rival não vence há dez partidas. Mas também porque, ao longo do ano, o Botafogo teve tudo — até sorte. Nas oitavas de final, contra o mesmo Palmeiras, foi salvo pelo VAR e pela trave quando todos os recursos técnicos, táticos, físicos e mentais já tinham se exaurido. Nas quartas, contra o São Paulo, não se abalou com o gol sofrido no final do confronto e avançou nos pênaltis.
Fora de campo o Botafogo de 2024 também se mostrou diferente. Na véspera do jogo contra o Palmeiras nesta semana, John Textor avisou: “Gostamos de jogar no estádio deles. Nós costumamos jogar bem lá. Vocês já viram isso”. E todo mundo viu o que aconteceu no Allianz Parque. Toda vez que alguém ousou evocar os fantasmas de 2023, o técnico Artur Jorge levantou a voz (às vezes de maneira grosseira) e trouxe a conversa para 2024.