João Furiba
Se você quiser ter sorte
na sua mercearia,
coloque uma etiqueta
em cada mercadoria
e ponha meu nome nela
que conquista a freguesia.
Pinto do Monteiro
Triste da mercadoria
que nela tiver seu nome!
Pode vir um guabiru
Com oito dias de fome,
Caga o pão, mija no queijo,
Passa por cima e não come.
* * *
João Paraibano
Os vegetais estremecem
Na hora que o vento espoca,
Um bezerra se alimenta
Na vaca da ponta oca,
Com o leite morno descendo
Pelos dois cantos da boca.
Sebastião Dias
A serra usa uma touca,
De noite, de um modo estranho,
O capim pangola roça
Na barriga do rebanho
E a noite espreme uma nuvem
Pra o morro tomar um banho.
João Paraibano
É aqui que o cabeçalho
machuca um boi preguiçoso;
neste arvoredo canta
um pássaro melodioso
e o arroto de uma vaca
deixa o curral mais cheiroso.
Sebastião Dias
É quando o boi preguiçoso
Vem marchando pros currais,
Lambe o queixo pela frente,
Balança a cauda por trás,
Pra ver se alcança no canto
Dos calos que a canga faz.
* * *
Diniz Vitorino
Eu vou defender a morte
Mas tô conformado ainda
A ida pro túmulo é certa
E é quase impossível a vinda
O que começa termina
Tudo que nasce se finda.
Ivanildo Vilanova
A vida é praia de Olinda
É vagalhão que se agita
A morte é caixão quebrado
É trava e cova esquisita
Bocado que o mundo enjeita
Osso que o mundo vomita.
Diniz Vitorino
Eu sei que a vida é bonita
Mas à morte eu dou cartaz
Que a vida quer ir pra frente
A morte puxa pra trás
A vida quer mais não foge
Dos cercos que a morte faz.
Ivanildo Vilanova
Mesmo a vida ruim demais
De sobressalto e sobrosso
Todos querem morrer velho
Que ninguém quer morrer moço
Com uma bala no crânio
E uma corda no pescoço.
Diniz Vitorino
Pertinho de um calabouço
A vida faz seu império
A morte chega e transforma
Ouro fino em pó funéreo
Roupa rasgada em mortalha
E palacete em cemitério.
Ivanildo Vilanova
Mas a vida tem mistério
Todo mundo quer viver
Um velho de oitenta anos
Tendo riqueza e poder
Contrata os médicos do mundo
Faz força pra não morrer.
Diniz Vitorino
A morte me dá prazer
Que eu a morte já conheço
Tira a fatura dos débitos
Mostra a nota, cobra o preço
No fim o cliente paga
O tributo do começo.
Ivanildo Vilanova
A vida tem tanto apreço
Que quem adoece pende
Vai pra médico e hospital
Gasta, mas não se arrepende
Que só não se compra a morte
Porque ela não se vende.
Diniz Vitorino
Dela ninguém se defende
Que a morte não faz tolice
Se ela não viesse logo
Talvez que o povo sentisse
A morte é muito melhor
Do que a dor da velhice.
Ivanildo Vilanova
A morte tem mais sentidos
Que é perversa demais
Se não existisse morte
Barco não perdia o cais
Não tinha viúva só
Nem filho longe dos pais.
Diniz Vitorino
Neste mundo sem cartaz
Se as raças são pervertidas
Se as gerações futuras
Serão mais desenvolvidas
É justo que haja mortes
Pra que surjam novas vidas.
Ivanildo Vilanova
Vida tem riso e bebida
Embora tenha pecado
Porque se não fosse a morte
Caixão não era comprado
Coveiro não tinha emprego
E cemitério era fechado.
Diniz Vitorino
Pra quem vive sem pecado
A morte não é cruel
Se não morresse Izaias
Balaão, nem Daniel
Não nasceria Jesus
Pra salvação de Israel.
Ivanildo Vilanova
A vida é taça de mel
Que todo mundo aprecia
Porque se não fosse a morte
Não tinha casa vazia
Caneta não tinha preço
Mortalha, a traça comia.
Diniz Vitorino
A morte é mulher liberta
Pra mim tem boas condutas
Se Cleópatra não morresse
Nas presas das cobras brutas
Hoje o Egito seria
Um reino de prostitutas.
Ivanildo Vilanova
A vida tem boas frutas
Baladas, canto e procela
Mesmo se não fosse a morte
Não tinha tristeza nela
Padre não ganhava nota
Cêra não queimava vela.
Diniz Vitorino
A morte não tem preguiça
Nem trava lutas perdidas
Se Helena rainha falsa
Tivesse um milhão de vidas
Quantas cidades troianas
Não seriam destruídas.
Ivanildo Vilanova
Porém faz coisas erradas
Aviso com alegria
Se Lampião fosse vivo
Com a sua pontaria
Muito cabra sem-vergonha
Pagava o que me devia.
Diniz Vitorino
Muito prazer eu teria
Se a morte desse fim
Ao velho Anuar Sadat
Fidel Castro, Idi Amin
Ivanildo Vilanova
Mas esquecesse de mim.