FRED MONTEIRO - MÚSICO,
COMPOSITOR, ESCRITOR E OSGÁFILO
Raimundo Floriano
Fred Monteiro: talento multifacetado
Em minha idade – 80 em julho passado –, é muito difícil engatar novas amizades, motivo pelo qual esforço-me ao máximo para conservar as que amealhei em todo esse tempo, principalmente diante fato de ser eu pessoa de não fácil coexistência. Para mantê-las, faço de tudo: engulo cobras, sapos e lagartos, finjo-me de mais mouco que o natural, relevo, perdoo quando perdão não me é solicitado, na certeza de que o tempo aplainará todas as asperezas e arestas deixadas em momentos de cabeça quente ou diálogo exaltado.
Como eu falava, fazer novas amizades é para mim barreira quase intransponível. Quer dizer, era, pois isso se modificou desde o surgimento do Jornal da Besta Fubana, do qual fui colunista desde a primeira hora em que ele se transformou com site, isso há quase 9 anos.
O JBF teve o condão de lançar-me no cenário internáutico, publicando meus textos e comentários, e fazer-me conhecido numa coletividade de intelectuais que hoje representa a nata da Cultura Brasileira. Com cerca de 500 matérias semanais postadas ininterruptamente, incorporei-me, até pela assiduidade e persistência, aos homens que hoje, na Literatura Nordestina e na Música Regional, com seus textos e composições, resgatam nossas mais legítimas tradições culturais.
Dentre eles, o escritor, poeta, compositor, músico e produtor alagoano Fred Monteiro. Começamos tirando nossas dúvidas, trocando figurinhas, complementando nossos acervos e, quando menos percebemos, já estávamos com a amizade sedimentada, mais grudada que nem catarro na parede, da qual só venho lucrando, como vocês verão a seguir.
Com minha postagem de Música Militar na Internet, Fred revelou-me ser autor do Dobrado General Lima Verde, no que foi contestado na hora, pois de há muito eu sei que o autor da peça é Paulo Roberto Pacífico. Fred, do outro lado, teimou, fincou pé, e eu lhe pedi que mandasse o áudio de sua autoria. No que ele não se fez de rogado, até mesmo para esfregar-me sua verdade na cara, enviando-me o CD No Tempo dos Coretos:
O CD não só tirou minha dúvida, pois o dobrado de Paulo Roberto Pacífico é General Júlio Lima Verde, como também se me revelou um compositor nordestino de peso, até então desconhecido para mim. Depois de ouvi-lo, só me restou a manifestação de um desejo: quero mais!
E Fred satisfez esse irrefreável anseio de colecionador, enviando-me sua obra completa neste CD, Formato MP3, sob o título Memória Musical - As Músicas de Fred Monteiro:
Com 71 faixas, o disco traz-nos amostra geral dos gêneros musicais que mais apreciamos: xote, arrasta-pé, baião, frevo-canção, frevo de bloco, frevo de rua, maracatu, ciranda, marcha de la ursa, maxixe, bolero, acalanto, choro, valsa, ragtime, balada, marcha americana, dobrado e, até, uma sinfonia. Madeira de dar em doido!
Fred Monteiro, desde cedo, inseriu-se na qualidade requerida de qualquer bom colecionador juramentado: o compartilhamento. Prova disso foi sua generosidade ao presentear-me com o livro Vida de Viajante, A Saga de Luiz Gonzaga, autografado pela autora, Dominique Dreyfus, que veio, com sua magnitude, enriquecer minhas estantes literomusicais:
Ditas estantes que, no ano passado, já se achavam sobremaneira valorizadas com as excelentes crônicas de Fred, enfeixadas no livro Caçador de Lagartixas:
São lembranças de infância, vividas por um menino presepeiro e aprontador. Mas quem não o foi? No capítulo-título do livro, Caçador de Lagartixas, ele conta como as capturava: usando laços com o talo de folha de coqueiro, da qual era retirada a parte verde, sobrando apenas o caniço central, em cuja ponta afinada fazia o laço. Mas Fred não matava as osguinhas. Laçava-as somente no intuito de com elas dialogar: – Lagartixa, você é uma bobona? E ela balançava a cabeça pra baixo e pra cima, em assentimento. Depois de obter todo o currículo da prisioneira, Fred a libertava, fazendo dela uma amiga, que talvez por ali aparecesse novamente para novo bate-papo.
Fred Monteiro não está sozinho em sua osgafilia – termo que ciei para definir a amizade com lagartixas –, conforme se depreende desta nota, publicada na Revista Veja de 13.3.13, na Seção Veja Esta:
Para terminar esta merecida chaleirada, e para confirmar a versatilidade deste grande amigo virtual, apresento-lhes uma coletânea demonstradora de como ele, como compositor e intérprete, nada de braçada em todos os gêneros da Música Popular Brasileira.
Vamos ouvi-lo e degustá-lo:
FORRÓ
Aperta o Nó, rojão, canta Irah Caldeira:
Barra do Dia, xote, canta Fred Monteiro:
Mais Amar, arrasta-pé, canta Fred Monteiro:
Minha Viola, baião, canta Fred Monteiro:
FREVO
Catabi, frevo de rua, com a Orquestra de Fred Monteiro:
Bloco da Felicidade, frevo de bloco, com Coral Meus Amores:
Coração Recifense, frevo-canção, canta Claudionor Germano:
MARACATU CIRANDA E LA URSA
Axé, Zumbi!, maracatu, canta Cylene Araújo:
Ciranda do Mar da Vida, ciranda, canta Fred Monteiro:
La Ursa da Antiga, la ursa, canta Coral Urso Traquino:
RITMOS E GÊNEROS DIVERSOS
Americando, maxixe, com A Bandinha do Fred:
Amor Antigo, bolero, canta Fernando Silva:
Canção Para Ninar Diogo, acalanto, canta Tatiana Monteiro:
De Pai Pra Filho, choro, canta Fred Monteiro:
Maria, valsa, canta Fred Monteiro:
Revelação, ragtime, cantam Edy Anselmo e Coro:
Sessenta Setembros, balada, canta Fred Monteiro:
Serenata Pernambucana, sinfonia, com o Quarteto de Cordas F Studio:
General Lima Verde, dobrado, Banda F. Studio:
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Dizer o que, depois de um depoimento assim lisonjeiro? Hein, hein ??? Me diga, meu caro amigo e (você, sim!) multifacetado companheiro de lutas culturais... Somente agradecer, isso sim. Agradecer pelo seu carinho pra com a nossa cultura brasileira, nordestina, musical, circense, humorística, etc. Fica difícil listar terreno onde você não seja um desbravador e -acima de tudo- um pesquisador incansável e supercompetente! Agradecer, sobretudo, pela sua amizade que me envaidece e me torna feliz, muito feliz, quase às lágrimas de felicidade por ter sido reconhecido e incluido no seu rol de amigos e -principalmente- no seu extenso rol de assuntos culturais. O pouco que fiz pela cultura da minha amada terra nordestina, o fiz com o intuito de registrar minha paixão pelas coisas da terra, às vezes tão esquecidas. Elas, essas coisas maravilhosas que nos concedeu o Criador Supremo e que temos a obrigação e o dever de divulgar, de insistir, de fazer lembrar, afinal. Para que não morram, como tantas tradições, feito um mero fenômeno de extinção, qual mico-leão-dourado, hoje salvo pela abnegação e competência de alguns abnegados. Desculpe-me ter alongado tanto o comentário. Foi necessário, pelo menos pra mim, para acalmar a emoção sentida pela sua lembrança. Disponha sempre do amigo: Fred