
A 23 dias de completar 65 anos, Brasília terá uma final de Campeonato Candango com a cara da cidade. O confronto de hoje, entre Capital e Gama, às 16h, no Mané Garrincha, promoverá uma grande mescla de origens e culturas. O apito inicial do árbitro Pedro Alves de Oliveira colocará em ação uma síntese do processo migratório característico da sede política do país. Entre as 27 unidades federativas brasileiras, 19 estarão personificadas em campo durante a partida, segundo levantamento do Correio Braziliense.
Cria do futsal
Enquanto um vive os primeiros passos na cidade dominada pelo Cerrado, o outro se aproxima do primeiro êxito em três anos de futebol candango. Anunciado como reforço do Capital há um mês, Rikelmi é cria do futsal. As pisadas acompanhadas pelas fintas de corpo e dribles curtos expõem as raízes. Dos nove aos 17 anos, desfilava o talento na posição de ala e somava o que considera, hoje, forte raiz do estilo de jogo pessoal.

Em decorrência da rotina, no entanto, precisou priorizar os gramados. A mudança trouxe frutos. Revelado pela Juventus da Mooca, chamou a atenção do Botafogo, em 2021. De lá, foi cedido ao RWD Molenbeek, da Bélgica. Mesmo com proposta de renovação, voltou ao país para tentar buscar mais na carreira. No Capital, encontrou espaço rápido e caiu nas graças da torcida. Hoje, soma dois gols em quatro atuações pelo tricolor. "Muita felicidade por ter chegado aqui, pois trabalho muito. Espero que possamos ser campeões, para dar a essa torcida o que ela merece. Meu palpite é um 2 x 0, com um gol meu", acrescentou Rikelmi.
Hora de vencer
Natural de São Mateus-ES, Willian Júnior, de 26 anos, começou a carreira em 2019. No Pinheiros-ES, jogou as primeiras partidas. Os passos que se sucederam contemplaram oito equipes diferentes. Em 2023, veio o primeiro capítulo em Brasília. "Fui muito bem recebido. No Paranoá, todos me tratavam muito bem. Vivi coisas bonitas", contou. O capítulo alviverde da carreira trouxe momentos positivos. O caminho até a final colocou o meia-atacante como um dos destaques da campanha do Periquito.

"Ser um dos destaques da equipe é muito gratificante, pois, dessa forma, posso ver que estou fazendo um bom trabalho, que estou no caminho certo", orgulhou-se. "Todos nós sabemos da responsabilidade que é devolver o Gama ao caminho das conquistas. Tentamos dividi-la da melhor forma possível. Espero que a torcida não deixe de nos apoiar, como tem feito sempre. Vamos dar tudo de nós para acabar com essa seca de cinco anos", acrescentou.
Amor de quem trabalha
A final do Candangão 2025 está marcada pela expectativa de recorde de público no Mané Garrincha. No entanto, entre os mais de 50 mil torcedores esperados no estádio, dois especiais fazem parte dos bastidores da campanha e representam bem o espírito dos times. Do lado do Capital, o garoto João Victor Ferreira, de 15 anos, atua como jovem-aprendiz e quer ver o clube ser campeão pela primeira vez, enquanto o veterano Antônio Leite Carvalho, de 52, ostenta mais de duas décadas como roupeiro no Gama e sonha com um novo caneco.
A história de João Victor com o Capital começou de forma inusitada. Nascido no Paranoá, ele conheceu a Coruja em 2021, através do massagista do clube, amigo do primo do garoto. Encantado pelo projeto, Piupiu, como é apelidado, começou a faltar no colégio para ir ao Estádio JK acompanhar o treino dos profissionais. A rotina era sair da Escola Classe 04, pegar o ônibus e ficar observando os atletas de longe, até receber o convite de ser jovem-aprendiz, com uma condição: seguir estudando.
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"Eu sempre tentava ir lá, estava até de mochila, e ficava na arquibancada assistindo. Sempre me oferecia para ajudar e depois tive essa oportunidade. Foi o Celso Teixeira que me deu a chance quando fui falar com ele e hoje sou ajudante de roupeiro. Venho para o clube depois que saio do colégio", contou ao Correio.
O amor pelo clube é tão grande que fez o garoto deixar de torcer para o Flamengo e afirmar que o time do coração é o Capital. João chegou a jogar na base da Coruja, mas uma lesão no tornozelo o deixou parado por oito meses. Por isso, o sonho que aflorou foi o de crescer nos bastidores, inspirado pelo presidente, Godofredo Gonçalves. "Eu lembro em 2023, quando o presidente deu um discurso no vestiário e me motivou. Gosto muito dele, um cara inteligente, me deu uma oportunidade de acompanhar o time e é uma responsabilidade grande. Quero aproveitar e crescer", acrescentou.
No vestiário oposto do jogo no Mané Garrincha, Antônio perdeu a conta do tempo de Gama. O começo do paraibano no Periquito foi a convite do irmão, ex-funcionário do clube. O parente saiu e Tonho, como é chamado no alviverde, segue até hoje como um dos nomes mais queridos do maior campeão da capital.
"Sou o funcionário mais antigo, foi quase metade da minha vida e desde o começo fui bem recebido. Eu amo esse time, me identifico muito. O Gama é a minha história, é meu pão de cada dia. Toda minha família é torcedora gamense", compartilhou. Mesmo presente em outras conquistas, como nos títulos de 2015, 2019 e o último, em 2020, o coração do roupeiro está batendo mais rápido. Ele assumiu o misto de sentimentos: do êxtase à ansiedade.
"Hoje é o nosso dia, é dia do Gama. Vai ser um momento bom na nossa história e vou fazer tudo com mais carinho, é minha parte, dar o melhor para os jogadores. Trabalhamos muito e conseguimos chegar em outra decisão, então você não sabe a alegria que eu estou", comentou.
FICHA TÉCNICA
Estádio: Mané Garrincha
Horário: 16h
Árbitro: Pedro Alves de Oliveira
Transmissão: Record
Ingresso: gratuito (esgotados)
Capital (4-3-3)
Reynaldo;
Vinicius, Richardson, Lucas Oliveira e Matheus Silva;
Feilpe Guedes, Rodriguinho e Robert;
Deysinho, Wallace Pernambucano e Rikelmi
Técnico: Marcelo Cabo
Gama (4-3-3)
Renan Rinaldi;
Michel, Wellington, Romano e Lucas Piauí;
Moisés, Lúcio e Willian Júnior;
Ramon, Luan e Rafa Marcos
Técnico: Luiz Carlos Souza
*Estagiários sob a supervisão de Marcos Paulo Lima