O Botafogo reparou a História. Ajustou os rumos de seu próprio caminho. Acertou as contas com seu passado glorioso com a tal Glória Eterna. A monumental vitória contra o Atlético-MG, ontem, no estádio do River Plate, em Buenos Aires, dá a César o que é de César. Ao Botafogo o que é do Botafogo. Como podia um clube tão tradicional não ter uma conquista desse tamanho? O que explicava uma camisa de legado tão grande ao futebol brasileiro há tanto tempo sem uma grande conquista? Mas repare, as duas últimas frases estão no pretérito imperfeito. O tempo, inclusive verbal, já é outro. A América é alvinegra, e é tempo de Botafogo.
Algo tão disruptivo não viria de maneira fácil. Mas também não precisava ser tão difícil. A expulsão no minuto inicial de jogo, os gols no primeiro tempo, a vantagem que caiu na segunda etapa, quase que num recado de que tudo tinha que começar mal para terminar bem. Da coragem do primeiro tempo ao controle do tempo no segundo, o Botafogo de Artur Jorge mostrou que é um time que merece, sim, conquistar o maior título da história do clube.
O merecido troféu também é um acerto de contas do Botafogo com sua própria grandeza. O 30 de novembro, já eterno no imaginário do torcedor, adiciona pitadas de glória ao Glorioso. Seguirá sendo o clube que mais cedeu jogadores à seleção brasileira em Copas, mas agora também tem uma Copa para chamar de sua. Para sempre será o clube de Didi, Garrincha e Nilton Santos, mas agora também é o de Luiz Henrique, Alex Telles e Júnior Santos. Sua torcida seguirá apaixonada, supersticiosa e não tão grande quanto a do rival, mas para sempre serão contadas as histórias de quando ela foi imensa invadindo Buenos Aires para levar a taça para o Rio de Janeiro.
As coisas que só acontecem com o Botafogo seguirão pairando por aí, mas inclusive as boas: a de que agora ele é o clube com menos tempo entre um rebaixamento e um título de Libertadores, o que mais eliminou times brasileiros para se tornar campeão na história da competição, o único a disputar duas fases preliminares, chegar à final única e vencê-la.
Da tempestade à glória
Se o passado foi glorioso e agora o presente também é, há todo um futuro pela frente. O Botafogo é campeão da Libertadores e, ainda que o alvinegro duvide, a vida seguirá.
As faixas da torcida no Nilton Santos seguirão sendo penduradas, rodada após rodada, ano após ano. O que muda é a leitura. A que diz que o clube é o “mais tradicional”, em referência aos grandes tempos passados, agora conta também com o privilégio de saber que a mais legendária das taças já foi conquistada. A que conta que é “o clube que transformou o Brasil no país do futebol” ganha a referência do clube que se transformou para conquistar um continente inteiro. Já a “ninguém ama como a gente”, faixa que tem como eu lírico a própria torcida, servirá de gatilho para lembrar desses dias na Argentina, como se fossem possíveis de esquecer.
Não há ninguém tão treinado a lidar com o tempo e suas idiossincrasias quanto o torcedor do Botafogo. Por anos soube esperar, num mundo em que paciência é qualidade em extinção. Por outros tantos, teve que aprender a lidar com tempestades e dias nublados para depois, finalmente, ver o sol se abrir de novo. O alvinegro calejado pela vida soube também honrar o que já passou sem deixar de querer o que estava por vir. E o futuro, que tardou tanto a chegar, quando chegou, o fez de forma tão promissora que há outra glória podendo bater à porta em menos de uma semana.
O botafoguense esperou por tanto tempo que ganhou um tempo para chamar de seu. Quando Júnior Santos fez o gol do título na última volta do ponteiro, não foi só um lance capital. Foi um despertador, um acerto nos ponteiros do relógio para decretar, definitivamente, que é mesmo TempodeBotafogo.