Alice Piffer Canabrava nasceu em 22/10/1911, em Araras, SP. Historiadora, professora e pesquisadora, revolucionou o método de pesquisa da história econômica do Brasil, modificando a forma de levantar dados e informações sobre a construção da economia nas Américas. O método consiste em buscar registros da época dos acontecimentos circunstanciais de seu objeto de pesquisa.
Filha de Otilia Pìffer e Clementino Canabrava, cursou o ginásio no Colégio Stanfford e ingressou na Escola Normal Caetano de Campos, tornando-se professora do ensino primário. No início da década de 1930 cursou História e Geografia na FFLCH-Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Aluna destacada, foi convidada como professora assistente de História da América. Tal convite incentivou-a realizar os cursos de mestrado e doutorado em História.
Nestes cursos foi influenciada por professores que promoviam a adoção de métodos interdisciplinares que facilitavam a interconexão entre história, geografia e economia, que vieram marcar sua abordagem ao longo da carreira acadêmica. O período de rápida industrialização nas décadas de 1930 e 1940, durante o governo de Getúlio Vargas levou-a considerar as mudanças no contexto nacional e buscar uma compreensão do desenvolvimento econômico do País através de uma perspectiva histórica.
Recebeu influência da “Escola dos Annales”, de Paris, com ênfase no aspecto econômico-social e tornou-se uma referência nessa área de estudo. Explorando questões referentes ao comércio, à circulação de riquezas e aos impactos econômicos, tal abordagem fortaleceu o campo da história econômica no Brasil. Concluiu o doutorado com a tese O comércio português no Rio da Prata, 1580-1640, Em 1946 obteve o título de livre-docente com a tese A indústria do açúcar nas ilhas inglesas e francesas do Mar das Antilhas (1697-1755).
Em 1951 foi nomeada professora titular de História Econômica do Brasil na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo-FEA da USP, onde se tornou a primeira mulher da USP a conquistar a posição de catedrática por concurso com a tese O Desenvolvimento da Cultura do Algodão na Província de São Paulo. Na década de 1940, no Brasil, a História Econômica ainda não era uma disciplina bem definida. As duas teses que ela apresentou à cátedra de História da América na FFCLH/USP, obtendo os títulos de doutora e livre-docente, podem ser consideradas pesquisas em História Econômica.
Em 1961, foi uma das fundadoras da Associação dos Professores Universitários de História-ANPUH) e participou do “Encontro Internacional de Estudos Brasileiros”, em 1971, onde foi debatido importantes questões sobre a historiografia brasileira. Na década de 1970 contribuiu em duas áreas: reflexões sobre Von Martius, Varnhagen e Capistrano de Abreu, e a análise da estrutura da propriedade da terra, escravidão e riqueza na capitania de São Paulo, utilizando métodos da história quantitativa. Nessas reflexões, defendeu a ideia que a acumulação de riqueza em São Paulo se dava a partir de uma dinâmica interna, desprendendo-se da visão de Caio Prado. Por tais contribuições, recebeu o título de Professora Emérita da USP, em 1985, após sua aposentadoria 1981.
A metodologia e enfoque de seus estudos moldaram as dinâmicas sociais e econômicas do colonialismo europeu nas Américas. Segundo o historiador Sergio Buarque de Holanda “Se os modernos estudos de história econômica, tais como, entre nós, vem praticando especialmente Alice P. Canabrava, podem ser responsabilizados até certo ponto pela renúncia às vastas sínteses em proveito de trabalhos monográficos, ninguém negará que tendem a oferecer, por outro lado, algumas vantagens claras. Entre elas a de contribuírem para desfazer as ilusões raciais, políticas ou nacionais que por tanto tempo vem perseguindo certos espíritos”
Faleceu em fevereiro de 2003 e deixou um legado considerável na área dos estudos de História. Sua tese de doutorado, transformada em livro – O comércio português no Rio da Prata 1580-1640 -, publicado em 1984 pela Editora Itatiaia, revelou as vias clandestinas pelas quais a prata extraída das minas de Potosí, localizadas na Bolívia, fluía para o Brasil durante o período colonial. Esse trabalho foi amplamente elogiado pela crítica nacional e internacional, devido à sua profundidade e originalidade, bem como ao uso intensivo de fontes primárias de informação.