Morreu nesta terça-feira, aos 87 anos, o escritor Affonso Romano de Sant'Anna. Segundo o colunista Ancelmo Gois, a morte aconteceu em casa, em Ipanema, no Rio de Janeiro. O mineiro de Belo Horizonte foi diagnsticado com Alzheimer em 2017. Sua mulher, a também escritora Marina Colasanti, com se casou em 1970, morreu no início deste ano, em 28 de janeiro.
Ainda segundo Ancelmo Gois, o velório será na quarta-feira (05), de 11h as 14 h, na Capela Histórica do Cemitério da Penitência, no bairro do Caju, Zona Norte do Rio.
Seu primeiro livro de ensaios, "O desemprego do poeta", foi publicado em 1962 — o mesmo ano em que foi estudar Letras na UFMG. No ano seguinte, ao lado de Affonso Ávila, dos poetas concretos de São Paulo Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari, e de toda uma fornada de jovens escritores (entre os quais um curitibano de 18 anos, Paulo Leminski), ele participou, em Belo Horizonte, da histórica Semana Nacional de Poesia de Vanguarda.
Em 1971, Affonso Romano de Sant'Anna lançou seu primeiro de poesia, "Canto e palavra". No ano seguinte, sua tese de dourado pela Universidade Federal de Minas Gerais, uma obra-referência sobre Carlos Drummond de Andrade ("Drummond, o Gauche no tempo") saiu em livro.
Em seguida, ele ainda lançaria, entre muitos outros livros, "Que país é este?" (1980), "O canibalismo amoroso" (1984), "A mulher madura" (1986, primeiro livro de crônicas), "O imaginário a dois" (1987, em parceria com Marina Colasanti), "Mistérios gozosos" (1994) e "Sísifo desce a montanha" (2012). Em 2006, o mineiro ganhou o Prêmio Jabuti, promovido pela Câmara Brasileira do Livro, por "Vestígios", na categoria Poesia.
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Além de escritor, Affonso Romano de Sant'Anna foi professor de literatura no Brasil e no exterior, em países como França, Alemanha e Estados Unidos, sendo um dos idealizadores do curso de pós-graduação em literatura brasileira na PUC-Rio. Ele foi diretor do departamento de Letras e Artes da PUC-Rio, de 1973 a 1976, realizando então a "Expoesia", série de encontros nacionais de literatura. Presidiu a Fundação Bilblioteca Nacional de 1990 a 1996 e colaborou com jornais como O GLOBO, Jornal do Brasil, Estado de Minas e Correio Braziliense.
Entusiasta da internet, em 2012, Affonso disse ao jornal "Tribuna de Minas": "Aconteceu um fato muito curioso comigo no Facebook. Publiquei um poema pequeno, e os internautas começaram a ter várias reações positivas e bonitas sobre ele. Muitos dizendo que vão reproduzi-lo, e, de repente, é como se a moeda entrasse em circulação. As pessoas se apoderaram dele. Sou totalmente a favor da poesia na web, e, se Homero e Shakespeare fossem vivos, teriam a mesma opinião."
Erosão da autoria
Sobre um de seus poemas, "A implosão da mentira", que se popularizou nas redes a ponto de dizer que não lhe pertencia mais, ele disse na mesma entrevista: "Quando ninguém sabe qual é o autor e começa a reproduzir o texto é sinal de que a obra atingiu o seu objetivo, misturou-se com a cultura popular. Alguns poemas como este já foram usados por várias pessoas, vários partidos e, volta e meia, aparecem na internet. Um outro poema meu chamado "Que país é este" já foi utilizado em música, teatro e várias outras situações. Há algum tempo, ele apareceu na rede como autor desconhecido. De uma certa maneira, isso me deixa feliz, porque o autor quer é ser lido, quer passar o recado. Eu não vou ganhar dinheiro com poesia."
Em outra nota, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) lamentou o falecimento do escritor, poeta, cronista e ensaísta: "Affonso Romano destacou-se pela sensibilidade e profundidade com que abordava temas sociais, culturais e políticos. Como presidente da Fundação Biblioteca Nacional (1990-1996), foi um grande incentivador da leitura e da valorização do livro, contribuindo significativamente para o fortalecimento do setor editorial no Brasil."
Integrante da Academia Brasileira de Letras e presidente da Fundaç˜, Biblioteca Nacional o poeta Marco Lucchesi escreveu no X (antigo Twitter) sobre Affonso: "Recebo com emoção a notícia da morte de Affonso Romano de Sant’ana, ensaísta, ex-presidente da FBN. Implantou um sistema público de leitura, grande poeta civil. Devo-lhe inesquecíveis gestos de amizade. Foi um dos grandes leitores das contradições e das belezas de nosso Brasil."