ACAMPAMENTOS, PESCARIAS E CAÇADAS NA CIDADE DE BALSAS, MARANHÃO (CRÔNICA DO COLUNISTA JOÃO RIBEIRO, O BEIRÓ)
Uma das inesquecíveis caçada junto com o primo Carló.
Funcionava assim: as caçadas aconteciam com nosso pessoal descendo o rio ao sabor da correnteza e com motor do barco desligado, todos em completo silêncio, no meio do rio, para que o iluminador (que usava um farol de milha ligado a uma bateria de carro) e o atirador pudessem localizar alguma paca (tipo de porquinho), uma caça bastante desejada naquele tempo. O iluminador ficava sempre ao lado de quem fosse atirar, focando com o farol de milha. E quando visse os olhos de pacas ou de jacarés brilhando, em vez de avisar para o atirador falando, ele apenas balançava rápida e repetidamente o facho de luz de modo que o atirador percebesse. Depois do disparo, quando o alvo era acertado, a gente ligava o motor e ia para a margem procurar a caça, que no dia seguinte iria virar um bom churrasco. O som do motor da lancha, cortando o silêncio da noite, ecoava em meio ao rio e se misturava com nossas emoções! Eu consegui alguns bons tiros nesse tipo de caça, um deles com o meu querido e saudoso primo Carló (in memoriam) que me mostrou a paca sinalizando com o farol de milha. Naquela hora eu percebi também que ele ficou muito feliz por eu ter acertado o tiro e por ter me proporcionado aquele momento. Quando eu pensei que alguém iria mergulhar naquela água gelada para pegar a paca, na margem, o Carló sorriu e disse:
- “A regra é essa: “quem atira é quem pega” ...
Simples assim. E eu tive que mergulhar no rio, de madrugada, com a água muito gelada, para encontrar a paca e a levantar para que alguém da lancha a pegasse. Muito frio. Enfrentei aquela parada, pensando que no outro dia iria amanhecer resfriado por causa daquela água gelada, mas nada disso: deu tudo certo, levantei a paca para que as pessoas a colocassem no barco e prosseguimos. E o churrasco preparado no dia seguinte foi delicioso!
Em outra temporada, ainda em Balsas, fizemos uma subida pelo rio. Desta vez tive a satisfação de levar conosco o Seu Pedro Nunes (in memoriam), que praticamente me ensinou a atirar nos tempos de minha juventude, em Fortaleza, Ceará. E fiz questão que ele, durante nossa caçada noturna de barco ficasse na proa e desse o primeiro disparo. E ele acertou o alvo! Dormimos acampados na mata e pela manhã saímos novamente de lancha e aportamos um pouco mais acima. Eu já tinha um pouco de costume, mas para quem nunca participou de aventuras assim, tudo é muito emocionante. Saber onde aportar, como fazer uma fogueira para esquentar qualquer alimento, nos aquecer e evitar a chegada de animais, como onças, por exemplo... Armar as redes de forma correta e deixar todos os equipamentos de segurança por perto.
Na manhã do primeiro dia, após um delicioso cafezinho, desfrutado com o cheiro de mata ao amanhecer e o leve som da correnteza do rio, desamarramos a lancha no porto (que ficava presa para que a correnteza não a levasse) e subimos a ribanceira para entrar no mato e procurar alguma caça. Nesses momentos eu pude saber, na verdade, o quão perigoso é entrar em uma mata sem o devido preparo! Em cerca de dez minutos que tínhamos nos separado, eu olhei para o lado e não mais sabia em que direção seguir!
Na mata todos os lados são praticamente iguais! Não tinha feito marcas com um facão nem nada do que viria a aprender depois em cursos de sobrevivência na selva dos quais participei. A sensação foi de muita preocupação, aquele rio na barriga, com os sons ao redor e a própria mata, igual de todos os lados e a lembrança de outros casos semelhantes já tinham ocorrido! Qual foi a minha providência? Dar um tiro para cima para chamar ou avisar o Seu Pedro de minha localização! Imediatamente ele ouviu o meu chamado. Quando nos encontramos pudemos constatar que nós estávamos somente a uns cinquenta metros da margem do rio, mas não dava para escutar o barulho da correnteza para ajudar o nosso retorno. Qualquer pessoa pode se perder em uma situação semelhante.
Vieram diversas outras temporadas em Balsas, as quais relatarei a seguir. Todas elas me trazem recordações muito felizes. Dentre elas quando na adolescência aprendi a dançar nas tertúlias, depois a época das brincadeiras de pera, uva e maçã com as meninas e as paqueras e as sessões de cinema. E mais tarde, em minha juventude, com o nosso saudoso Conjunto Big Brasa, primeiro conjunto musical a se apresentar em Balsas com guitarras, trazendo a novidade da Jovem Guarda. Inesquecíveis também os passeios para a fazenda Santa Cruz do primo José Bernardino, com todos os parentes e amigos, as caçadas e pescarias, quando fazíamos acampamentos na selva, à margem do rio Balsas, muito acima da cidade, subindo o rio em lanchas a motor.