José Rufino da Costa Neto, o Dedé Monteiro, “O Papa da Poesia”, Tabira-PE, 1949
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Dedé Monteiro declamando o poema “As Quatro Velas“, de sua autoria
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A VOZ DO ESPELHO – Dedé Monteiro
Triste e espantado, sem sorriso algum,
Diz, frente ao espelho (velho amigo seu):
– Não, não me diga, de jeito nenhum,
Que tudo passa e que esse aí sou eu…
Quem foi que disse que esse vulto é meu?
Que eu virei “isso”… e que nós somos um?
Por que meu riso, que era tão comum,
Do seu semblante desapareceu?
Será um sonho, um pesadelo, enfim…
Ou foi a idade que passou por mim?…
Responde o espelho: – Disse muito bem!
Por que o tempo, esse carrasco mudo,
Que a todos muda e que transforma tudo,
Não passaria por você também?
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SOU DO PAJEÚ DAS FLORES – Dedé Monteiro
Se eu morasse muito além,
Onde nada me faltasse,
Talvez que nem precisasse
Cantar pra me sentir bem.
Sofro, mas canto também
Pra tristeza se mandar.
Se ela insistir em ficar,
Eu canto a canção das dores…
Sou do Pajeú das flores,
Tenho razão de cantar!
Tive a sorte de nascer
Num chão que tanto me inspira,
Minha querida Tabira
Que me dá tanto prazer.
Se a seca me faz sofrer,
O verso me faz gozar,
Pois trago n’alma um pomar
Com frutos de mil sabores!
Sou do Pajeú das flores,
Tenho razão de cantar!
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FIM DE FEIRA – Dedé Monteiro
O lixo atapeta o chão
Um caminhão se balança
Quem vem de fora se lança
Em cima do caminhão
Um ébrio esmurra o balcão
No botequim da esquina
O gari faz a faxina
Um cego ensaca a sanfona
E um vendedor dobra a lona
Depois que a feira termina.
Miçanga, fruta, verdura,
Milho feijão e farinha,
Bode, suíno, galinha,
Miudeza, rapadura.
É esta a imagem pura
De uma feira nordestina
Que começa pequenina,
Dez horas não cabe o povo
E só diminui de novo
Depois que a feira termina.
Na matriz que nunca fecha
Muito apressado entra alguém
Mas sai vexado também
Se não o carro lhe deixa
O padre gordo se queixa
Do calor que lhe domina
E agita tanto a batina
Quem que vê fica com pena
Toca o sino pra novena
Depois que a feira termina.
A filhinha do mendigo
Sentada a seus pés, num beco,
Comendo um pão doce seco
Diz: papai, coma comigo.
E o velho pensa consigo
Meu Deus, mudai sua sina
Pra que minha pequenina
Não sofra o que eu sofro agora
Ria a filha, o velho chora
Depois que a feira termina.
Um pedinte se levanta
Da beira de uma calçada
Chupando uma manga espada
Pra servir de almoço e janta
Um boi de carro se espanta
Se o motorista buzina
Um velho fecha a cantina
Um cachorro arrasta um osso
E o pobre “azavessa” o bolso
Depois que a feira termina.
Um camponês se engana
Chega atrasado na feira
Não compra mais macaxeira,
Nem batata, nem banana
Empurra a cara na cana
Pra esquecer a ruína,
Arroz, feijão, margarina,
Açúcar, óleo, salada,
Regressa e não leva nada
Depois que a feira termina.
No açougue da cidade
Das cinco e meia em diante
Não tem um pé de marchante
Mas mosca tem com vontade
Um faxineiro abre a grade
Tira uma mangueira fina
Rodo, pano, creolina,
Deixa tudo uma beleza
Mas só começa a limpeza
Depois que a feira termina.
E o dono da miudeza
Já tendo fechado a mala
Escuta o rapaz que fala
Do outro lado da mesa:
– Meu senhor, por gentileza,
O senhor tem brilhantina?
Ele diz com voz ferina:
– Aqui na mala ainda tem
Mas eu não vendo a ninguém
Depois que a feira termina.
Um jumento estropiado,
Magro que só a desgraça,
Quando vê que a feira passa
Vai pra frente do mercado
O endereço ao danado
Eu não sei quem diabo ensina
Eu só sei que baixa a crina
Entre as cinco e as cinco e meia
Lancha, almoço, janta e ceia
Depois que a feira termina.
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A TAMPA DO TABAQUEIRO – Dedé Monteiro
Vovô morreu muito pobre
Sem nada deixar de herança
Mas me deixou por lembrança
Um tabaqueiro de cobre.
Nunca vi coisa tão nobre,
Era um troféu verdadeiro!
Na tampa tinha um letreiro
Que o velho escreveu pra mim
Pedindo pra não dar fim
A tampa do tabaqueiro.
Por isso eu nunca emprestava
O tabaqueiro a ninguém,
Mas quando chegava alguém
Pedindo tabaco, eu dava
O bicho nunca secava,
Pois quando estava maneiro
Eu machucava o tempero,
Torrava o fumo e fazia.
Tinha vez que nem cabia
A tampa do tabaqueiro…
Eu estava mais do que liso
Num dia que faltou fumo…
Fiquei vagando sem rumo,
Quase que perco o juízo…
Meu irmão, com ar de riso,
Me vendo sem paradeiro,
Falou: “Vá no bodegueiro,
Peça e diga: “eu depois venho”
Ou então deixe de empenho
A tampa do tabaqueiro…”
Eu disse assim pro meu mano:
“Já me deu dor de cabeça,
Mas inda que eu endoideça
Não faço ato tão tirano.
Embora que eu passe um ano
Aperreando o fumeiro
Não deixo de ser herdeiro
Desta coisinha estimada.
Morro e não deixo empenhada
A tampa do tabaqueiro.
Não sei como não virei
A bola naquele dia:
Nunca vi tanta agonia
Como aquela que passei…
Somente de noite achei
Quem me emprestasse o dinheiro:
Corri pra venda ligeiro,
Mas na carreira caí
E, nessa queda, perdi
A tampa do tabaqueiro.
Fiquei muito aperreado,
Procurei por todo canto,
Mas o escuro era tanto
Que nada deu resultado.
Já bastante encabulado,
Fui atrás d’um candeeiro.
Mas caía um chuvisqueiro,
O desgraçado apagou-se
E eu nem sei como encantou-se
A tampa do tabaqueiro.
Voltei pra casa tremendo
Que só badalo de campa…
E a condenada da tampa
Eu parecia estar vendo.
Continuava chovendo,
Eu escutava o chuveiro.
Subia do bolso um cheiro
Que me deixava doente,
Sem poder tirar da mente
A tampa do tabaqueiro…
Nessa noite aperreada
Não dei de sono um cochilo.
Escutei canto de grilo
Até três da madrugada…
Depois, sem café, sem nada,
Andei quase o dia inteiro.
Ninguém me dava roteiro
E eu me danava com isto.
Nem satanás tinha visto
A tampa do tabaqueiro.
Notei que jeito não tinha,
Deixei de mão d’uma vez
Passou-se um mês, outro mês,
Sem notícia da tampinha.
Um dia, de tardezinha.
Eu tive um plano certeiro:
Pedi ao Pai Justiceiro,
Filho da Virgem Maria,
Que me mostrasse algum dia
A tampa do tabaqueiro.
E eu não estava enganado.
Deus escutou minha voz.
A noite, dormindo a sós,
Eu tive um sonho engraçado:
Era um menino encantado,
Envolto num fumaceiro,
Dizendo: “Dedé Monteiro,
Vá lá no monturo, vá,
Que lá você achará
A tampa do tabaqueiro.”
Acordei, corri pro muro,
Estava quase sem tino,
Pois o sonho do menino
Era verdadeiro e puro!
Inda estava um pouco escuro,
Fiz café, tomei primeiro,
Depois chamei um lixeiro,
Fomos os dois para o lixo,
Procuramos com capricho
A tampa do tabaqueiro.
Procuramos sem repouso,
Até que o sol declinou.
Foi quando o lixeiro achou
A tampa muito orgulhoso!
E eu, muito mais jubiloso,
Paguei ao bom companheiro.
Depois mandei o ferreiro
Derreter um par de brinco,
Botar dobradiça e trinco
Na tampa do tabaqueiro!