Olhos que falam mais que a boca
“Ela é a dona de tudo
Ela é a rainha do lar
Ela vale mais para mim
Que o céu, que a terra, que o mar
Ela é a palavra mais linda
Que um dia o poeta escreveu
Ela é o tesouro que o pobre
Das mãos do Senhor recebeu”
A camarinha tinha apenas uma porta. A de entrada. Quatro redes armadas, todas com aquele véu que cobre os berços dos de poucos dias de nascidos, com o objetivo de dificultar a vida dos pernilongos aqui, e, muriçocas acolá.
Na “boquinha da noite”, casa sem televisão, a bagunça era inevitável. Debaixo das redes dos mijões noturnos, uma bacia em cada uma, pretendia evitar a urina no piso de tijolo sem lustre – a modernidade não havia chegado.
A porta da camarinha se abre. Silêncio total, sepulcral. Alguns até fingiam “roncar” – sempre os mais travessos. Todos dormiam ou fingiam. Era a “mãe”.
A mãe, naquele momento, fingia que acreditava que todos dormiam. Ninguém dormia. Mas, a bondade da mãe, o carinho, e o zelo de verificar cada véu de cada rede, funcionava com se sonífero fosse.
Mãe, acreditem, faz milagres. Tudo checado, tudo certo. A lâmpada do quarto é apagada. A porta é fechada…… e, naquela camarinha ou em qualquer cômodo com beliches, a bagunça recomeça.
A noite é curta, apenas para a mãe, que precisa acordar e levantar para o café do marido e a diária e rotineira arrumação dos lanches que todos levarão para a escola – ainda não é tempo para a emissão do cartão de crédito. Melhor levar o lanche caseiro preparado com esmero e carinho. Coisas de mãe.
Mãe. A mãe. A dona de tudo, que se divide em quantas forem necessárias.
Dia claro, a porta da camarinha se abre. Dos quatro filhos, apenas três estão acordados. O caçula ainda não acordou. A mãe tenta despertá-lo…. mas, percebe algo de anormal. Leva a mão à fronte!….. febre alta! Deus dos céus!
Enquanto o marido sai para o trabalho e, não podia ser diferente, leva os meninos para a escola. A mãe se multiplica. Se divide entre as tarefas da casa e o cuidado com o filho: a divisão cede espaço para a multiplicação. É a mãe!
O marido chega para o almoço. Os meninos que foram à escola, também chegam.
A mesa está posta. Os meninos que foram à escola, tomam banho. Um de cada vez. O almoço está servido.
E……. a febre baixou! Mãe é mãe!
O marido volta ao trabalho. Os meninos descansam após o almoço.
A mãe, só agora é hora do banho e do almoço. Tudo rápido, pois os meninos precisam ser acompanhados nas tarefas escolares, no banho da tarde……. e o jantar precisa ficar pronto.
Mãe!
Mãe?!
Hoje, comemoramos o “Dia das mães”!
Alguns, que deveriam ter sido “abortados” agradecem o zelo, a preocupação e o amor, levando as mães para um asilo.
Esses, são os verdadeiros “filhos-da-puta”!
O sofrimento e o amor expressados pelos olhos
DEDICATÓRIA: Minha mãe, faz algum tempo não está entre nós. Com certeza, ao lado de tantas outras mães, está nos “espiando”, vigiando a bagunça que cada um de nós está fazendo. Com ou sem febre. Ao lado do Pai Eterno, como uma estrela maior, continua nos apontando o bom caminho – Assim, esta pequena crônica é dedicada a ela e todas as que estão no mesmo plano. E, claro, as que continuam se multiplicando para desempenhar o melhor papel que Deus lhes confiou.


