A RITINHA
Arthur Azevedo
Naquela noite, o Flores entrou em casa oprimido por um sentimento penoso, que não podia definir. Tinham-lhe dito que estava no Rio de Janeiro a Ritinha, aquela interessante menina que, há trinta anos, lá na província, fora o seu primeiro amor e a sua primeira mágoa.
Andou morto por vê-la, não que lhe restasse no coração nem no espírito outra coisa senão a saudade que todos nós sentimos da infância e da adolescência – queria vê-la por mera curiosidade. Satisfizera o seu desejo naquela noite, quando menos o esperava, num teatro. Ela ocupava quase um camarote inteiro com a sua corpulência descomunal. Mostrou-lha um comprovinciano e amigo:
– Não querias ver a Ritinha? Olha! Ali a tens!
– Onde
– Naquele camarote.
– Quê! Aquela velha gorda?...
– É a Ritinha!
– Virgem Nossa Senhora!
– E aquele homem de óculos azuis, que está de pé, no fundo do camarote? É o marido?
– Qual marido! É o genro, casado com a filha, aquela outra senhora muito magra que está ao lado dela. O marido é o velhote que está quase escondido por trás do enorme corpanzil da tua ex-namorada.
O Flores, estupefato, contemplou e analisou longamente aquela mulher, que fora o seu primeiro amor e a sua primeira mágoa. Não podia haver dúvida: era ela. O olhar tinha ainda coisa do olhar de outrora. Com aqueles destroços ele foi reconstituindo mentalmente, peça por peça, a estátua antiga. Tinha a visão exata do passado.
Representava-se uma comédia. Ritinha ria-se de tudo, de todas as frases, de todos os gestos, de todas as jogralices dos atores com uma complacência, de espectadora mal-educada e por isso mesmo pouco exigente. Aquelas banhas flácidas, agitadas pelo riso, tremiam convulsivamente dentro da seda do vestido, manchado pelo suor dos sovacos. O genro, que se conservava sério e imperturbável, lançava-lhe uns olhos repreensivos e inquietos através dos óculos azuis. Ela não dava por isso.
– Que diabo vieram eles fazer ao Rio de Janeiro? Perguntou o Flores.
– Nada... apenas passear... estão de passagem para a Europa.
* * *
E aí está por que o Flores entrou em casa oprimido por um sentimento que não sabia definir. Quando ele se espichou na cama estreita de solteirão, e abriu o livro que o esperava todas as noites sobre o velador, não conseguiu ler uma página. Todo o seu passado lhe afluía à memória. Ele e Ritinha foram companheiros de infância. Eram vizinhos, – brincaram juntos e juntos cresceram. Tinham a mesma idade.
Depois de dezessete anos, aquela afeição tomou, nele, nela não, um caráter mais grave: transformou-se em amor. Mas Ritinha era já uma senhora e Flores ainda um fedelho. Como o desenvolvimento fisiológico da mulher é mais precoce que o do homem, raro é o moço que, ao desabrochar da vida, não teve amores malogrados.
Foi o que sucedeu ao nosso Flores. Ritinha não esperou que ele crescesse e aparecesse: tendo-se-lhe apresentado um magnífico partido, fez-se noiva aos dezoito anos. O desespero do rapaz foi violento e sincero. Ele era ainda um criançola, mas tinha a idade de Romeu, a idade em que já se ama.
Um pensamento horroroso lhe atravessou o cérebro: assassinar Ritinha e em seguida suicidar-se. Premeditou e preparou a cena: comprou um revólver, carregou-o com seis balas, e marcou para o dia seguinte a perpetração do atentado.
Deitou-se, e naturalmente passou toda a noite em claro. Ergueu-se pela manhã, vestiu-se, apalpou a algibeira e não encontrou a arma.
– Oh!
Procurou-a no chão, atrás do baú, por baixo da cômoda: nada!
* * *
– Para que precisas tu de um revólver, meu filho? Perguntou a mãe do rapaz, entrando no quarto.
– Está com a senhora?
– Está.
– Mas como soube...?
– As mães adivinham.
Flores não disse mais nada: caiu nos braços da boa senhora, e chorou copiosamente. Ela, que conhecia os amores do filho, deixou-o chorar à vontade; depois, enxugou-lhe os olhos com os seus beijos sagrados, e perguntou-lhe:
– Que ias tu fazer, meu filho? Matar-te?
– Sim, mas primeiro matá-la-ia também!
– E não te lembraste de mim?... Não te lembraste de tua mãe?...
– Perdoe!
E nova torrente de lágrimas lhe inundou a face.
– Ouve, meu filho: na tua idade feliz, um amor cura-se com. outro. O que neste momento se te afigura uma desgraça irremediável, mais tarde se converterá numa recordação risonha e aprazível. Se todos os moços da tua idade se matassem por causa disso, e matassem também as suas ingratas, há muito tempo que o mundo teria acabado. Raros são os que se casam com a sua primeira namorada. O que te sucedeu não é a exceção, é a regra. O mal de muitos, consolo é.
– Eu quisera que Ritinha não pertencesse a nenhum outro homem!
– Matá-la? Para quê? Ela desaparecerá sem morrer... nunca mais terá dezoito anos... A idade transforma-nos tal qual a morte. Não imaginas como tua mãe foi bela!
O velho Flores, pai do rapaz, informado por sua mulher do que se passara, e receoso de que o filho, impulsivo por natureza, praticasse algum desatino, resolveu mandá-lo para o Rio de Janeiro, onde ele chegou meses antes do casamento de Ritinha.
* * *
Naquela noite, o Flores, quase quinquagenário, chefe de repartição, lembrava-se das palavras maternas e reconhecia quanta verdade continham. Ainda naquele momento, sua mãe, que há tantos anos estava morta, parecia falar-lhe, parecia dizer-lhe:
– Não te dizia eu?
– E que impressão receberia Ritinha se me visse? Pensou ele. Também eu sou uma ruína...
* * *
O Flores apagou a vela, adormeceu e sonhou com ambas as Ritinhas, a do passado e a do presente.
Dali por diante, todas as vezes que encontrava esta última, dizia consigo:
– Olhem se eu a tivesse matado!